Semanas vazias que passavam velozmente sem que Sarah pudesse se da conta de quão absurdo era o tempo. Dias corriam sem nenhum interesse, sem nenhum fato agradável que pudesse ser lembrado. A morte da mãe era algo tão vivo dentro do seu peito que parecia impossível sentir o seu coração batendo sem lembrar da presença dela. Agatha não fora um exemplo de maternidade, mas fora mais, fora um exemplo de lealdade para com todos. Fora a fortaleza. E que palavra melhor que proteção para definir a maternidade? Sabia que a mãe falhara miseravelmente em muitos aspectos, mas a garota sentia um sorriso amargo brotando-lhe nos lábios ao pensar o que a sua mãe tinha enfrentado. Admirava a capacidade da mãe em conseguir se reerguer depois daquilo. A garota duvidava que, se estivesse na mesma posição conseguiria tal feito.

Por diversas ocasiões, chegou em casa depois das aulas na Universidade e se pegou sentada no sofá da sala do pequeno apartamento, admirando as fotos da mãe, aquelas que foram guardadas por tanto tempo velando um mistério. Estranhamente não se sentia triste com as imagens, sentia-se em paz. Não possuía lembrança de ter presenciado sorrisos como aqueles que a mãe esboçava nas fotos, não eram sorrisos tristes como os que ela estava acostumada, eram alegres, gargalhadas que mostravam uma vitalidade que podia contagiar a menina apenas por observar. Sentia-se em paz por constatar que a mãe já fora feliz. Agatha, maltratada, leal até o fim, traída, aquela que sofreu de forma desumana com a guerra, já fora feliz.

Aquele fora o acalanto necessário para que a garota se erguesse. Se erguer para se dar conta de que valia a pena lutar, ainda havia esperança. Mesmo que a tristeza pudesse encobrir trechos de uma vida e torna-la fria e cinzenta, sempre havia o amanhã.

Após tentativas insistentes com o pai, convenceu-o de que ele não podia ficar sozinho e organizou a sua mudança para Paris. Sabia que um tempo juntos seria o suficiente para que o pai tornasse a se levantar. Pensava a todo instante nele, no seu imenso amor, capaz de ficar ao lado da mãe durante as suas maiores provações. Edward vira toda a transformação de Agatha, a passagem da garota cheia de vida e feliz para aquela mulher que se tornou ao final. Sarah sempre fora devotamente apaixonada pelo pai e pela sua maneira de conduzir as situações, o amor, a paixão que ele demonstrava pelas suas crenças sempre fora algo contagiante. E o amor pela mãe, capaz de permanecer intocado e forte como uma rocha mesmo depois de Agatha se tornar alguém tão diferente da garota que ele conhecera.

De licença do trabalho do museu, os dois passavam os dias discutindo arte. Passeavam pelos museus, pelas praças, conversando sobre tudo, desde receitas triviais de como preparar o melhor filé ao molho agridoce até discussões apaixonadas sobre artistas. Conversas que se estendiam até altas horas da madrugada, regadas por várias partidas de xadrez e muitas xícaras de chá, uma tradição inglesa intocada na vida deles.

O tempo ajudou ambos. Depois de um mês, não dava mais para postergar decisões, não dava mais para fingir que não havia compromissos que precisavam ser honrados. Entristecida, Sarah teve que concordar com a volta do pai ao interior da França, onde estava o seu trabalho, estava a sua vida.

Começaram a se corresponder com maior freqüência, e as discussões passionadas sobre arte agora se estendiam por conversas de horas a fio no telefone.

Para a tia Amélia não fora diferente. Passada a tristeza inicial que caiu sobre ela como um grosso manto, ela se ergueu. Sabia que a tia tinha vivido momentos difíceis, a eterna culpa por não ter conseguido fazer mais em relação aos acontecimentos do passado a atormentavam. Sabia do remorso que se abatia sobre ela, um sentimento injusto na opinião da garota. Conhecia a tia o suficiente para saber que ela jamais seria injusta, jamais colocaria interesses escusos sobre as prioridades da sua família.

Agatha não compartilhava da mesma opinião. Sarah sabia das diversas brigas que as duas haviam protagonizado. Desde pequena acostumara-se com o relacionamento frio e sem maiores demonstrações de afeto entre elas. Aprendera a encarar com normalidade a falta de comunicação entre as duas, a falta de diálogo, a ausência de afeto. Sabia que a mãe morreu amando a irmã, mas tinha consciência que era essa falta de demonstração de sentimentos que destruía internamente a tia. Os sentimentos podiam estar lá, ocultos no interior de suas almas, mas não foram demonstrados; Sarah tinha pleno conhecimento que às vezes um afago podia fazer toda a diferença.

Em algumas ocasiões a garota esteve próximo a iniciar uma conversa, queria dizer-lhe para não levar tão a sério o que a sua mãe falava. Sabia que a raiva por vezes nos fazia injustos, mas a coragem para esse diálogo não viera. Era estranho observar como, mesmo sendo tão próximas, havia certos assuntos que eram proibidos. Esse era um deles, não se sentia confortável conversando com a tia, e ela nunca esboçara nenhuma intenção de conversar com a garota sobre os seus sentimentos. Sarah achava melhor respeitar essa vontade. Sabia que mais cedo ou mais tarde a tia aprenderia a conviver com a perda e com a palavra não dita. Todos aprenderiam, a sua maneira, a lidar com a ausência da mãe. E assim aconteceu.

Com o tempo Amélia pareceu compreender que algumas coisas não tinham volta. Envolvida com o trabalho cada vez mais intenso no Ministério, parecia encontrar forças para continuar.

O tempo fez com que a vida de todos entrasse novamente no rumo.

Sarah em pouco tempo começou a sentir-se realmente feliz com os seus projetos. Determinada a tocar a sua vida, passava dias e noites em claro ocupada com os estudos, revelando no seu pequeno estúdio fotos feitas pela cidade e empenhada no preparo de Poções. Leituras freqüentes das melhores revistas do mundo bruxo colocavam-na a par de todos os avanços na área. Empolgada com os resultados de um Pocionista em particular, se viu de repente debruçada sobre seu caldeirão por horas intermináveis, que invadiam a madrugada, enquanto testava novas modificações de técnicas clássicas. Algumas vezes ela chegava a resultados favoráveis, mas em diversas ocasiões se viu obrigada a sair em disparada pela cozinha enquanto usava um pequeno extintor para apagar as chamas de um caldeirão prestes a explodir. Acostumada com a vida trouxa que levava, parecia esquecer que era uma bruxa e que possuía uma varinha.

Empenhada ao máximo, não tardou para que tivesse em sua posse uma pasta de couro de dragão, recheada de alterações de técnicas que ela própria tinha testado com bons resultados.

Em uma noite fria, deitada no sofá da sala, sentiu o seu coração disparar. Lendo um artigo em uma revista, viu que uma das técnicas que ela tinha alterado com bons resultados havia sido enviada para uma revista e sido publicado. Naquele instante deu-se conta de como era tola. Enquanto ela estava lá, com as suas técnicas minunciosamente organizadas e escondidas em uma pasta, incapaz de revelar a outros por vergonha, outras pessoas tinham as mesmas idéias e as publicavam, recebendo elogios por aquilo. Estava na hora de mudar.

A primeira mudança foi perder o medo de ser rechaçada e enviar uma correspondência a um professor de Poções cujo trabalho admirava imensamente. A garota achava o homem simplesmente incrível. Dono de uma genialidade imensa, era capaz de desmistificar algumas das mais complexas poções, sugerindo medidas simples que podiam torná-las muito mais simples de serem executadas e melhorando absurdamente o rendimento.

O som de uma pena arranhando um pergaminho era a único barulho que se ouvia na casa. Após terminar a carta, leu por várias vezes o que tinha escrito na tentativa de corrigir prováveis erros. Estava escrevendo para um grande renome na área e queria passar uma boa impressão.

"Perdoe a ousadia por enviar a carta já que nunca fomos apresentados. Acompanho há algum tempo o seu trabalho por meio de algumas revistas especializadas e estou encantada com os progressos que o senhor obteve.

Cheguei a algumas conclusões bastante parecidas com as suas em relação a Poção anestésica. Acho que todos os esforços para descomplicar o seu preparo são válidos e fico imensamente agradecida pela iniciativa.

Estou enviando em anexo as minhas considerações a respeito da Poção Energizante , se o senhor puder revisar, ficaria muito grata.

Novamente, perdoe a minha ousadia e tenha uma boa semana!

Sarah Clavell"

Quando a resposta veio, Sarah tremia tanto que o simples esforço de abrir o envelope parecia uma tarefa complicada.

"Revisei o trabalho. Talvez acrescentasse mais Arnica, mas é isso. Publique. Discussões interessantes poderiam ser feitas.

Até mais"

Talvez por medo de que outras pessoas publicassem alterações que ela já tinha observado, talvez porque não recebera uma negativa na avaliação do homem, Sarah decidira começar a enviar correspondências regulares para a redação da revista "O preparador de Poções". Demorou um tempo para que o seu primeiro trabalho fosse publicado, mas finalmente aconteceu. Ver o seu nome como autora de um artigo encheu-a de empolgação, uma alegria dividida com todos, desde o seu pai até a tia Amélia, que andava com a revista debaixo do braço pelo Ministério, mostrando para todos que quisessem ver o trabalho da sobrinha.

Em pouco tempo a garota perdeu o receio inicial e passou a ser uma correspondente regular da revista, enviando artigos e opiniões a respeito de trabalhos publicados por outras pessoas. Tinha consciência de que havia pessoas muito melhores do que ela, mas não achava que fosse propriamente ruim. Era esforçada. Achava, no final das contas, que isso deveria valer alguma coisa.

Foi com surpresa que, semanas após o seu primeiro trabalho ser publicado, recebeu em sua casa o dono de uma loja de Poções de Paris. Interessado no potencial da garota, ofereceu uma oportunidade de trabalho. Ele enviaria regularmente uma lista das Poções que a loja necessitava e Sarah prepararia. Um trabalho que despendia tempo e dedicação, mas em compensação, poderia ser executado em sua própria residência, permitindo que ela revezasse o seu tempo entre essa atividade, os estudos na universidade e as adaptações de técnicas clássicas.

Sarah estava crescendo. Não era mais a entusiasta ingênua, tinha um currículo, tinha experiência e não tardou para que começasse a se sentir mais segura quanto ao seu potencial. O número de artigos em seu nome aumentou, não na mesma proporção de outros nomes renomados, mas já era algo.

Passou a se corresponder periodicamente com alguns nomes na área em busca, principalmente, de conselhos e dicas. Por diversas vezes enviava correspondências para um desses autores. Muitas das cartas não eram respondidas mas, vez ou outra, recebia respostas. Não eram respostas elogiosas e floreadas, porém eram sinceras e continham considerações vitais sobre o seu trabalho, apontamentos que somente um profundo conhecedor poderia expressar.

Os dias foram transcorrendo e com eles, o fim do seu curso na universidade. Já possuía um plano esboçado para o futuro. Pretendia se mudar para Londres, onde estaria mais próxima das melhores lojas de Poções da Europa e, com isso, poderia pensar em um futuro. Gostava da tia, sentia que em Londres seria mais feliz. Rumores cada vez mais freqüentes da guerra iminente chegavam a seus ouvidos. Não precisava estar na Inglaterra para saber tudo o que se passava por lá. Bastava dar uma olhada rápida pelas páginas do Profeta para captar certos sinais de que alguma coisa não ia bem.

Se restava alguma dúvida do caminho a seguir, ela foi dissipada algumas semanas antes do fim do curso, em que recebeu uma coruja de uma loja de Poções do Beco Diagonal, convidando-a para trabalhar como Pocionista, sob os mesmos termos da loja parisiense: trabalharia em casa, a loja enviaria periodicamente uma lista das Poções que eles necessitavam e Sarah supriria o estoque.

A garota não precisou mais do que um segundo para pensar na resposta e enviar uma coruja ao dono da loja. Dentro de poucas semanas estaria se mudando para Londres.