CAPÍTULO 3: ENCONTRO COM TANAKA

A pouca luz dificultava lembrar do caminho cheio de obstáculos para chegar de volta á casa de Tanaka. Para eles, todos os becos pareciam iguais...

Quando finalmente conseguiram identificar a entrada, novamente subiram os poucos lances da escada da varanda da casa, tocaram a campainha, e nada. Não fossem os sinos a soar pela brisa da noite, naquele lugar imperaria total silêncio.

- Boa noite rapazes, e desculpem - me pelo atraso!

Os irmãos quase grudaram nas paredes pelo susto que levaram.

Aquele senhor baixinho de traços orientais, cabelos grisalhos e um pacote de papel pardo em mãos surgiu como um fantasma, pois pelo ambiente podia - se ouvir até o zumbido de uma mosca.

- Oh, perdão, o senhor é... – Dean tentava se recompor.

- Hideo Tanaka, muito prazer! – Sem soltar do pacote o velho cumprimentou os rapazes ao modo oriental, curvando - se – Por favor, entrem, a porta está aberta!

Tanaka deu um giro na maçaneta, e facilmente a porta se abriu. Dean olhou para Samuel com uma cara que dizia "Gênio! Como não pensou nisso antes!", tomando como resposta uma cara feia do mais novo.

- Bem vindos à minha humilde morada! – O velho tirou os sapatos e colocou - os sobre um pequeno tapete ao lado da porta. Calçou seu "surippa", um par de chinelos feito de tecido, entrou na sala e acendeu as luminárias.

Dean estava logo atrás de Tanaka quando seu irmão o barrou e fez um gesto para que ele copiasse a atitude do senhor, afinal, eram convidados e Sam sabia que era de bom tom respeitar as regras da casa, quaisquer que fossem.

- Cara, se eu tirar minha bota ninguém mais fica dentro desta casa! – Dean cochichou para Sam, que deu um cutucão no irmão, que já tirava seu calçado e colocava o par de chinelos destinado ás visitas. Tanaka percebeu a conversa e apenas sorriu, deixando os pacotes na mesa do outro ambiente.

A casa era singela, mas de um bom gosto e beleza incríveis. Os poucos móveis eram feitos de materiais naturais, como madeira de lei, bambu e sisal. Nas paredes poucos quadros com paisagens e motivos orientais, além de um pequeno quadro que chamava a atenção, com letras japonesas feitas no estilo Kanji. Chouchins, as típicas luminárias japonesas, davam ao ambiente o toque final, acolhedor, e no final das contas bem diferente para os irmãos Winchester.

- Lamento fazê - los esperarem, mas era importante que eu me ausentasse, estava fazendo compras... – Tanaka chamou os irmãos até a mesa onde estava depositando os itens da sacola que trazia.

- Ah, fora toda a dor de cabeça que tivemos pra chegar até aqui, não se preocupe... O que são quase mil quilômetros e um carro roubado...

- Sr. Tanaka, viemos em atendimento ao seu chamado... No que podemos ajudar? – Samuel interrompeu seu irmão, antes que dissesse mais alguma besteira.

- Quem de vocês é Dean Winchester?

O loiro levantou a mão, numa careta ao sentir o próprio cheiro ruim que seus pés exalavam. Felizmente, o aroma suave do incenso aceso na mesa de centro impedia que percebessem o real estrago no ar.

- Você lembra bastante seu pai - O velho sorriu, terminando de depositar na mesa os pertences do pacote – Sentem - se, por favor, vou preparar um chá para nós.

- Viemos justamente porque disse que conheceu nosso pai e que precisava de nossa ajuda – Os irmãos sentaram - se à mesa de madeira, enquanto Tanaka manuseava seus utensílios junto ao fogão.

- Sim, Winchester San era um homem e tanto, tinha a alma de um guerreiro, muito poderosa. Pena que não pude conhecê - lo melhor, pois ele estava só de passagem por Chinatown, e disse que quando precisasse de ajuda, poderia chamá - lo ou chamar seus filhos.

Enquanto conversavam, Tanaka preparou e serviu o chá. O aroma da mistura de ervas tomava conta do lugar, o que agradava ao mais novo. Mas Dean, na verdade, preferia um belo copo de café, pois depois de todo aquele dia turbulento, sentia - se merecedor.

Antes que pudesse esboçar alguma reação de pedir outra coisa que não fosse o chá, seu irmão novamente fez aquele mesmo gesto quando entraram na casa, sinalizando respeito ao anfitrião.

- Sr. Tanaka, meu irmão disse que seu sobrinho desapareceu, e que o senhor suspeita de que aconteceu alguma coisa séria com ele... Mas onde nosso trabalho entra nessa história? – Sam saboreava sua xícara de chá.

- Hiroshi desapareceu há quase um mês, e eu preciso de ajuda para encontrá - lo – Tanaka se juntou aos dois irmãos, e os olhava de maneira profunda.

O olhar daquele senhor, apesar de ser miúdo, tinha o poder de uma espada a atravessar quem o cruzasse.

Os irmãos ainda estavam sem entender o porquê de cruzarem o país.

- Acho que os jornais que circulam na cidade não noticiam a maioria das coisas que acontecem por aqui. Apenas os jornais do bairro, editados na nossa língua. Então, não devem saber das mortes que aconteceram nas duas últimas semanas... – Tanaka tomava calmamente seu chá, apesar do assunto ser bem sério e doloroso para ele.

- Prossiga... – Dean se ajeitava na cadeira, tentando disfarçar que estava tomando o tal chá.

- Na semana retrasada um grupo de chineses foi encontrado aos pedaços na zona oeste do bairro, os corpos ficaram quase irreconhecíveis e a polícia não tem idéia do que possa ter acontecido...

- É, de fato, deve ter sido difícil reconhecer os corpos, né... – Dean podia perder o caso mas não perdia a piada. Samuel nem tinha mais cara para chamar a atenção do irmão.

- O que eles alegam é briga de gangues, mas há anos que os chefes das respectivas máfias entraram num acordo e há uma trégua entre as facções. Só quem desrespeitar as regras ou invadir o território alheio é punido. Mas o caso é que todos os assassinados estavam em seus lugares corretos e não estavam quebrando nenhuma regra...

- E onde entra seu sobrinho na história? O senhor acha que ele foi assassinado? – Sam tomava o último gole de chá.

Tanaka fechou a expressão e abaixou a cabeça. Sua xícara estava em cima da mesa entre suas mãos franzinas, mas ainda fortes por causa do treinamento de artes marciais que praticava desde criança.

- Eu temo que ele possa ser o assassino – Tanaka voltou o olhar para os irmãos.

- Realmente, pra um moleque sozinho fazer um estrago desses, só pode haver alguma coisa de sobrenatural no meio... – Dean nem tinha tocado na sua xícara de chá.

- Então o senhor tem idéia do que aconteceu com ele... – Samuel de alguma forma tentava desenrolar a história.

- Eu só presumo... Não tenho a certeza...

- E o senhor presume o quê?

- Creio que, inadvertidamente, ele posa ter-se envolvido com algo mais perigoso do que a máfia.

O velho fitava os rapazes à sua frente e, pela tranqüilidade deles diante do desconhecido, sentia que tinha tomado a decisão certa.

- E o senhor sabe do que exatamente se trata? – Samuel perguntava interessado.

- Ainda não, jovem... Há várias possibilidades, é difícil dizer...

- Legal, da estaca zero... – Dean largou as costas no encosto da cadeira. Aquele fora um dia difícil para ele e nada mais justo do que ter um bom planejamento para o próximo trabalho, o que ali estava longe de acontecer...

- Dean! – Sam fuzilou o mais velho com o olhar.

- Jovem, eu compreendo a sua inquietação. Quando tinha sua idade, eu também queria que as coisas acontecessem na velocidade do meu pensamento, mas com o tempo, aprendi que antes de tudo devemos observar, refletir, analisar, para agir de maneira adequada.

Tanaka se levantou e foi em direção ao curto corredor que dava para os quartos da casa.

- Por favor, fiquem por aqui hoje... Neste quarto estão todas as coisas de que vocês vão precisar, fiquem à vontade. E me chamem se quiserem algo mais...E a propósito, Dean, na sua xícara eu coloquei café... Boa noite e descansem bem, amanhã será um dia cheio! – O senhor apontou para a porta de um dos quartos, e em seguida entrou no quarto em frente.

Dean franziu a testa, e olhou mais de perto o conteúdo da xícara. Sam não conseguiu controlar o riso ao ver a cara de surpresa do irmão, que não percebera nada até aquele momento...

Devidamente acomodados no quarto minimalista, os irmãos estranhavam tanto silêncio já que aquele bairro era tão barulhento. Era como se aquela casa estivesse sob alguma espécie de encanto, totalmente alheia ao caos urbano.

- E então, Sam... – Dean estava deitado na cama ao lado da cama de seu irmão.

- E então o que, Dean?

- Estamos em Nova York...

- E...?

- Não te lembra nada? – Dean cruzou as mãos atrás da cabeça e virou - se para o irmão.

Samuel sabia do que seu irmão falava.

- O que é que tem, Dean? – Samuel se mexia desconfortavelmente.

- Você não pensa em sei lá, talvez, dar uma ligada, dizer que está por estas bandas... Quem sabe você não a encontre...

- Boa noite, Dean! - Samuel virou - se de costas para o irmão.

Sam ficou incomodado com o comentário de seu irmão. De fato Sarah era uma garota extremamente especial para ele. Revê - la seria como um bálsamo para seus olhos e sua mente.

Mas de qualquer forma, tinha uma ponta de receio. Como ela estaria? Comprometida, ou com filhos, talvez... Afinal, era uma bela mulher, inteligente e naturalmente deveria tocar sua vida. E assim, mesmo com pensamentos apreensivos, adormeceu na cama macia e quente.

- Tudo bem. Boa noite, Cinderela... – Dean ajeitou - se também e tentou relaxar. Afinal de contas, fora um dia daqueles, e mexer com seu amado Impala era como mexer com ele mesmo. E ele pensava no garoto, como podia ser tão astuto?

Lembrou - se de que se não tivesse família, seu pai, que o criou ao seu modo, certamente seria igual ao Pequeno Chang. E esses pensamentos o fizeram soltar um suave sorriso antes de adormecer.

"A data do casamento de Aya se aproximava, o que fazia aumentar sua tristeza diante da situação.

Seu pai a havia prometido ao filho do senhor de Ako, e isso fortaleceria os laços políticos entre as províncias e as duas famílias influentes.

Era tradição que as mulheres fossem prometidas em casamento, em alguns casos até antes de nascerem. Era comum os noivos se conhecerem no dia da cerimônia, esse era o caso dela. E ela sabia de sua responsabilidade e seu dever.

Mas o que sentia por Isao era algo que não dependia da sua vontade.

Do mesmo modo o jovem aprendiz resistiu o quanto pôde aos encantos de Aya. Sabia de seu compromisso e, sua condição de vassalo jamais permitiria que seus sentimentos pudessem ser - lhes revelado.

Era seguidor do Bushido,o código de honra dos Samurais, e a todos os aprendizes eram ensinadas artes e cultura de seu povo, tais como literatura, caligrafia, arranjos florais, e principalmente a arte da espada. Em breve se tornaria um notável samurai por seus atos de bravura e inteligência.

Mas o que sentia pela jovem era como se uma de suas espadas lhe atravessassem o coração."