Como de costume, as noites em Chinatown são sempre coloridas e movimentadas. Rostos transitam de lá para cá por toda a madrugada: Turistas, prostitutas, andarilhos, trabalhadores braçais, imigrantes ilegais de várias partes da Ásia, contrabandistas e o pior tipo, os cobradores. Não os cobradores das empresas de cartões de crédito ou coisa parecida, mas os cobradores da máfia, fosse ela chinesa, japonesa, tailandesa ou coreana. Cada qual com seu quinhão.
Dois destes senhores deixaram um Lincoln preto estacionado junto à calçada, passaram diante de uma barraquinha de "churrasquinhos" e ali se detiveram a observar as redondezas. O jovem atendente estava visivelmente apavorado com a presença daqueles homens e, mecanicamente, juntou todos os trocados que havia no bolso do avental e na pequena gaveta sob a bancada e os pôs numa sacola de papel, passando - a aos mal - encarados. Estes devolveram - lhe um sorriso malicioso prometendo voltar na semana seguinte para a próxima coleta. Tomaram dois espetinhos e caminharam em direção ao beco do outro lado da rua.
Estavam acostumados a varrer as ruas em busca das "doações" de moradores e comerciantes locais ao seu "fundo de pensão".
Em meio à escuridão do beco que ligava a avenida central a uma das saídas para o acesso à Manhatan, ouviram um som estranho, mais parecido com um rugido ou um grunhido. Por diversas vezes pararam e buscaram a origem daquele ruído e do odor de animal molhado que se espalhava pelo ar. Nada encontraram, mas antes que chegassem ao seu destino, uma enorme sombra de forma animalesca pulou sobre eles, cravando - lhes as longas presas cortantes que os dilacerava, numa velocidade assustadora, sem que tivessem tempo de esboçar qualquer reação.
Na manhã seguinte, as manchetes dos jornais do bairro noticiavam os corpos encontrados, em pedaços, pelos moradores no beco e a total falta de evidências de quem ou o que poderia ter cometido tal atrocidade.
- Ok - Disse o mais velho - Precisamos descobrir onde se enfiou o sobrinho do Tanaka.
- Ou o que sobrou dele... – concluiu o caçula.
- É. Está pronto?
O mais jovem assentiu com a cabeça, vestindo o casaco e pondo o laptop na bolsa enquanto o irmão conferia a munição e prendia a pistola à cintura.
Ambos deixaram o pequeno quarto na casa do amigo, onde haviam se hospedado.
Na sala, sobre a mesa de centro, um bilhete explicava que o velho oriental já tomara o caminho da sua lojinha de antiguidades.Saíram sem demora.
No beco, Samuel sugeriu que deixassem o Impala estacionado e caminhassem pelas ruas do bairro no intuito de não chamarem muito a atenção. Poderiam visitar o comércio local e conversar com as pessoas para recolher informações sobre os ataques e o desaparecimento de Hiroshi sem levantar muitas suspeitas, como turistas.
Assim o fizeram. Atravessaram a rua e desceram a avenida principal até a loja de Tanaka. A sineta atrás da porta anunciou sua chegada.
Tanaka estava atrás do balcão de vidro que dividia o pequeno cômodo. A parte da frente tinha as paredes cobertas de prateleiras com inúmeros dragões de cores, formas e tamanhos diversos; alguns aparelhos de chá decorados e potes com hashi em madeira, madrepérola e marfim. Leques pintados à mão decoravam a parede oposta e, abaixo deles, sobre uma cômoda, lenços de seda delicadamente dobrados em forma de flores em caixas transparentes. Num canto, alguns Maneki Nekos marcavam a hora. Dean teve um daqueles pensamentos a respeito de que espécie de fresco compraria um relógio na forma de um gatinho branco. Samuel percebeu a expressão do irmão e tratou de puxá - lo pela manga da jaqueta antes que os pensamentos virassem palavras.
- Bom dia, meus amigos. – O oriental sorriu.
- Bom dia, Sr. Tanaka. - Sam respondeu ao cumprimento. Dean apenas levantou a mão num aceno e sorriu de volta.
- Pensamos em andar por aí e ver se descobrimos algo sobre o paradeiro de seu sobrinho.
- É uma boa idéia, rapazes. Meus vizinhos não estão muito dispostos a conversar comigo. Depois de tudo o que aconteceu... Estão com medo. É natural. - indicou com a mão a passagem para o outro lado.
Os rapazes seguiram o mais velho pela portinhola ao lado do balcão.
Numa sala oculta por uma cortina de finíssimos bambus, puderam ver os verdadeiros tesouros que aquele lugar guardava. Peças raras para clientes especiais e com dinheiro suficiente para possuí - las. Os irmãos corriam com os olhos a mercadoria exposta: urnas delicadas, pratos e aparelhos de chá da mais fina porcelana, leques e travessas esculpidos em jade e legítimo marfim; belíssimos kimonos bordados e, num armário envidraçado, trancado com um pesado cadeado, chamou - lhes a atenção, as katanas e outras armas usadas por guerreiros orientais.
Enquanto os jovens se perdiam em meio às relíquias da Terra do Sol Nascente, Tanaka escreveu num pedaço de papel alguns nomes e endereços. Entregou a folha escrita a Dean enquanto lhe tirava das mãos uma estatueta deveras delicada e, provavelmente, de raro valor.
Depois de agradecer a ajuda, os irmãos retornaram à rua e caminharam em direção ao primeiro endereço da lista. Duas quadras acima avistaram a lavanderia de Mai - Ling.
- Pronto, chegamos. Sammy, vai lá e diz que está perdido ou coisa assim - Dean ordenou - Vê se descobre alguma coisa.
- Mas por que eu? Por que não vamos os dois?
- Olha bem pra mim, Sam, eu lá tenho cara de quem se perde? - empurrou o irmão em direção à porta - Vai lá, faz aquela sua cara de cachorro sem dono e passa uma conversa na garota.
Samuel ia protestar novamente, mas sabia que não adiantaria. Contrariado, entrou na loja e puxou conversa com a atendente, uma moça jovem e simpática com uma mecha vermelha nos cabelos muito lisos e negros, que quando sorria, escondia completamente as lentes de contato azuis nos olhos apertados.
Alguns minutos mais tarde, o caçula saiu com um cartão entre os dedos. Começou a caminhar pela calçada ao lado do irmão.
- E então, o que conseguiu?
- Nada. Ela não estava aqui quando os ataques ocorreram.
- Saco! - Dean percebeu o papel na mão do outro - O que é isso? -
Ergueu a sobrancelha e tomou o cartão, lendo o nome e número de telefone da moça em voz alta - Há! Sabia que um dia você ia aprender! - Bateu com força nas costas do irmão, soltando outra gargalhada - Muito bem, tigre! Quando você v...
- Não enche, Dean! - Sam arrancou o cartãozinho das mãos do mais velho, amassou - o e atirou - o numa lata de lixo.
- Hey! Por que você fez isso? Está maluco?!
- Olha, cara – Samuel parou diante do irmão em tom ameaçador - Já falei que não estou a fim desse papo, tá bom?
- Ok, ok! Não está mais aqui quem falou... Só não precisava ter jogado o telefone da garota no lixo.
- Sirva - se! – o caçula apontou a lixeira e seguiu descendo a rua.
