Foi o calor que me acordou no dia seguinte. Mesmo com os olhos fechados eu podia perceber que o dia já ia claro, e quente. Minhas costas estavam doendo, o que queria dizer que eu estava dormindo há muito tempo. Abri os olhos lentamente e tive dificuldades para descobrir onde estava a princípio. Coloquei os óculos e olhei o relógio de pulso e percebi que já era quase 11 horas! Eu nunca havia dormido tanto. Sentei-me na cama e a primeira coisa que me veio à cabeça foi como eu faria para voltar para o meu tempo. Minha barriga começou a roncar de fome.
Primeiro eu vou encontrar algo para comer, depois eu penso nisso! – falei. Procurei meu tênis ao lado da cama, mas ele não estava lá. – "Que estranho..." – pensei.
Só então eu percebi que estava de pijama. Um pijama branco com listras esverdeadas. Eu nunca tive um pijama como aquele, e mesmo que tivesse, eu jamais pensaria em trocar de roupa numa situação como a da noite anterior, em que tudo que eu queria era descansar. Então eu ouvi um barulho do lado de fora do quarto, como se fossem passos. Assustado, olhei para a porta e no caminho percebi que o quarto estava completamente mobiliado.
Mas como? – me levantei da cama intrigado.
A cama estava feita, lençol, travesseiro, acolchoado. No dia anterior eu tinha certeza de ter conjurado apenas a cama e um cobertor. O resto do quarto também estava arrumado. Uma escrivaninha, um guarda-roupa enorme, alguns pôsteres que eu nunca tinha visto na vida, carpete, cortina nas janelas e, como não podia deixar de ser, roupas e sapatos espalhados pelos cantos. Um típico quarto de um homem solteiro.
Mas o que diabos está acontecendo?!
Inconformado, resolvi sair do quarto e descobrir por conta própria que raio tinha acontecido. Saí em um corredor muito claro, com alguns quadros na parede que a princípio eu não dei atenção. Olhei para os dois lados, havia cinco portas, uma no fundo do corredor e duas de cada lado. Na outra extremidade uma escada. Fui até a escada, completamente confuso. Aquela não era a casa na qual eu havia entrado na noite anterior. Parado no topo da escada e tentando me lembrar como eu havia chegado ali, já que eu tinha certeza de que não havia sonhado tudo já que aquele também não era o Largo Grimmauld, fui surpreendido por uma voz de mulher as minhas costas:
Finalmente acordou, hein Belo Adormecido?!
Virei-me assustado e dei de cara com uma moça, uns cinco anos mais nova que eu, cabelos avermelhados e olhos castanhos. Ela deve ter achado minha cara muito engraçada, porque começou a rir de mim.
Quem... – tentei perguntar, mas uma voz vinda do outro lado falou:
Finalmente, Harry! Esqueceu que dia é hoje?!
Virei-me mais uma vez e dei de cara com outra garota, igual a primeira, mas de óculos. – Mas... – tentei novamente.
Vá se trocar logo, Harry! – a primeira falou passando por mim e descendo a escada. – Mamãe saiu para fazer algumas compras e está furiosa porque acha que o papai esqueceu o aniversário deles!
É! E nós temos que nos mandar, lembra? Papai disse que já está tudo pronto, mas não vai ter graça se estivermos em casa! – a segunda falou passando por mim para subir a escada.
Mas quem são vocês?! – falei finalmente.
As duas pararam e me olharam como se eu estivesse louco.
A mamãe vai ficar uma fera com você! – a de óculos falou.
Ela já te pediu para não abusar do whisky de fogo quando sair com seus amigos! – a outra completou.
Continuei sem entender nada, então a porta de entrada se abriu e uma mulher passou por ela: - Olá crianças! O pai de vocês já chegou?
Oi, mãe! – as duas falaram ao mesmo tempo. – Não! – responderam novamente.
Eu não acredito! – a mulher resmungou.
A essa altura eu estava completamente atordoado, parado no meio da escada, sem acreditar no que meus olhos viam.
Harry, querido, vá pegar as compras no carro para mim? – ela sorriu e minhas pernas ficaram bambas.
Mãe? – perguntei com a voz fraca. Ela sorriu para mim com cara de 'quem mais poderia ser?'.
Olá! – a porta se abriu novamente. – Sua mãe já ch... – o homem se interrompeu ao dar de cara com a esposa olhando para ele pouco satisfeita. – Oi amor... – falou sem jeito. Depois olhou para mim para disfarçar qualquer coisa que eu não entendi.
Desci mais alguns degraus, ainda com os olhos arregalados, e agora marejados: -Pai? – sussurrei.
Harry? – ele brincou.
Oi pai! – uma das moças passou por mim.
O homem fez cara de interrogação olhando para mim. A moça falou baixinho: - Acho que foi whisky demais! – e fez um gesto com a mão.
Whisky?! – a mulher perguntou vinda da cozinha, com cara de brava. – Harry, quantas vezes eu já te pedi para não exagerar? Eu sei que você não é mais criança, mas tenha juízo, filho!
Lily, por favor! – o homem interveio. – Foi só uma farrinha, despedida de solteiro, não foi, filho? – ele sorriu para mim.
Não o incentive, James! – ela falou. – Aliás, onde você estava?
Eu? – ele ficou nervoso.
A moça que ia até a cozinha deu meia volta e ficou na sala mesmo. A outra que eu ouvi saindo do banheiro e eu tinha certeza que ia descer, voltou para o quarto. Mesmo sem entender nada, achei melhor ir buscar as tais compras no carro.
"Não pode ser..." – pensei enquanto ia até o carro. – Meus pais?! – exclamei baixinho, com o coração quase saindo pela boca de tanta emoção. – Deu certo! – sorri emocionado. – Deu certo! – não me contive e senti algumas lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Bom dia, Harry! – alguém acenou para mim na rua. – A farra foi boa, hein?
Acenei de volta, sorridente. Não tinha a menor idéia de quem era aquela pessoa, mas também não estava nem aí. Fui até o tal carro e abri o porta-malas. Peguei algumas sacolas e então me dei conta: - Aquelas moças... São minhas irmãs? – então eu tive novamente a sensação de estar sendo engolido pela tal fonte do Largo Grimmauld, mas eu não estava assistindo de fora, eu estava correndo, estava assustado, meu coração batia muito forte e eu tinha 5 anos!
Papai! Papai!
O que foi, Harry? – meu pai, bem mais novo, se agachou e me perguntou preocupado.
A mamãe! – falei assustado. – Ela mandou te chamar! Eu não sei o que houve! Ela está chorando, está com dor! – as lágrimas já escorriam de meus olhos.
Ai meu Deus! – ele exclamou tão desesperado quanto eu. – Sírios? – ele se levantou e falou com meu padrinho. – Fique um pouco com o Harry. Acho que vamos ter que ir para o hospital!
Não se preocupe, James! – Sírios se agachou também e sorrindo me falou: - Hei, campeão! Quer apostar quem acerta mais longe? – e me mostrou um bocado de pedras. Meu pai já estava longe a essa altura.
Eu quero minha mãe, padrinho! O que está acontecendo com ela?!
Nada de mais! – ele falou sorridente estendendo um dos braços para que eu fosse até ele. – Acho que suas irmãs vão nascer! Mas não se preocupe, sua mãe vai ficar bem! – ele sorriu e eu fiquei um pouco mais calmo, mas ainda confuso.
Mais tarde, bem mais tarde, Sírios me levou até o hospital onde minha mãe havia sido internada. Meu pai veio nos encontrar com os olhos vermelhos. Eu tive a impressão de que ele estava prestes a desmaiar, mas ele continuou firme. Recebeu um abraço do meu padrinho e depois me pegou pela mão. Levou-me até um corredor cheio de portas brancas, cada uma com um enfeite diferente. Entramos em uma delas e eu vi minha mãe. Ela estava meio pálida, mas sorria. Quando cheguei mais perto vi que ela segurava dois pacotes cor-de-rosa, um em cada braço. Meu pai me colocou em cima da cama e me apresentou às minhas duas irmãs: Nicole e Nataly.
Com uma sensação de tontura, lá estava eu em frente ao carro de minha mãe, com duas sacolas na mão. Não sabia como, mas as lembranças invadiam minha mente aos poucos. Lembrei-me do nascimento delas, das festas de aniversário, das brigas, do ciúme, etc. Me lembrei da minha família. A família que eu ganhei depois de ter impedido meus pais de fazerem de Peter Petigrew o fiel do segredo deles.
Quando entrei em casa, depois de deixar as compras sobre a mesa, fui para meu quarto trocar de roupa. Estava ansioso para conviver com eles. Desci para sala e meu pai estava lá, lendo o Profeta Diário. Eu fiquei parado, observado-o. Queria correr e abraçá-lo, mas sabia que aquilo seria muito estranho já que, para eles, nós sempre estivemos juntos. Perdido nas minhas emoções, acabei chamando a atenção dele.
O que foi, Harry? – ele perguntou.
Hum? Nada... – tentei parecer natural. Sentei-me ao lado dele no sofá.
Você está com cara de bobo hoje! – ele riu deixando o jornal de lado. – Tinha alguma gatinha na festa ontem?
Surpreendi-me com a pergunta, já que eu nunca tivera uma figura paterna para conversar sobre essas coisas. – Gatinha? – perguntei na falta de coisa melhor para falar.
É! – ele pareceu se empolgar. – Faz tempo que não te vejo com ninguém. Nem eu demorei tanto para conquistar a sua mãe, Harry. E olha que ela se fez de difícil!
Não me fiz de difícil, James! – mamãe apareceu na porta da sala ainda com cara de brava. – O almoço está pronto! – falou tirando o avental e voltando para cozinha. – Chame suas irmãs, Harry, por favor...
Eu olhei para o meu pai confuso. Sempre imaginei a relação dos dois sendo perfeita, mas o mau-humor da minha mãe naqueles dias me assustou. 'Será que eles não se amam mais?', pensei.
Vá logo! – ele falou. – Melhor não deixá-la mais nervosa.
Ok! – me levantei disposto e bati nas portas dos quartos que, sei lá eu como, eu sabia que eram os delas.
Em pouco tempo estávamos sentados em volta da mesa, como uma família. Era a primeira vez que eu me sentia daquele jeito. É claro que os Weasley sempre me trataram como se eu fosse parte da família, mesmo antes de namorar Gina, mas aquilo era diferente. Foi então que eu me lembrei deles. Precisava encontrá-los, contar as novidades, apresentá-los a minha família. Tinha certeza que eles ficariam muito felizes com a notícia. Pensei em perguntar por eles, já que meu pai havia dito que há muito ele não me via com ninguém, mas então a campainha tocou.
Eu atendo! – Nicole, a de óculos, se prontificou. Fiquei ansioso para saber quem era. – Tio Sírios! – escutei.
Meu coração pulou em meu peito. Aquilo estava sendo demais para mim. Meus pais e meu padrinho vivos!
Como vai, mocinha? – ouvi a voz dele.
Vou bem! – ela respondeu. – Entrem, entrem!
Meu pai se levantou da mesa. Percebi que mamãe e Nataly também estavam contentes com a visita.
Pontas! – Sírios exclamou quando viu meu pai. Os dois se abraçaram e se deram tapas barulhentos nas costas.
Almofadinhas! Achei que não vinha mais! – ele falou dando espaço para que Sírios cumprimentasse os outros.
E como não viria! – ele se aproximou me dando um abraço tão espalhafatoso quanto dera em meu pai. Com minha mãe e minha irmã ele foi um pouco mais delicado.
Meu Deus, Sandy! Você está linda! – mamãe falou indo em direção a uma moça que eu não tinha visto antes.
Era uma moça nova, não muito mais velha que eu. Tinha cabelos castanho cacheados e olhos pretos, era alta e estava grávida. Tentei desesperadamente me lembrar de quem se tratava.
Bondade sua, Lily! – ela sorriu. – Eu estou enorme! – ela cumprimentou a todos e logo tomou um lugar a mesa ao lado do meu padrinho.
Então, Sírios? – meu pai começou. – Para quando você disse que é o novo herdeiro Black?
Dois meses, meu caro Pontas! Sandy e eu já conversamos e você será o padrinho, hein!
Com todo o prazer! – meu pai falou.
Mais uma vez a sensação de frio invadiu meu corpo. Dessa vez eu fui transportado até um bar. Era noite, estávamos eu, meu pai, Sírios e Remus. Todos tínhamos copos de whisky de fogo na mão e meu pai falou:
Um brinde à Sandy! Que conseguiu colocar a coleira no velho Almofadinhas! – todos levantamos nossos copos e brindamos ao fato. – Quem diria, hein Sírios!
Pois é meu caro Pontas! Chega o dia em que mesmo um velho cão vira-latas precisa encontrar um lar, não é? – ele falou já um pouco alcoolizado.
Então, meu caro... – Remus falou. – Aproveite seu último dia de solteiro, porque amanhã sua dona põe a coleira!
Voltei a mesa do almoço bem a tempo de ouvir a moça comunicar o nome do bebê, Jonathan. Aquilo tudo estava sendo mesmo incrível. Eu não poderia estar mais feliz. Tudo parecia estar perfeitamente bem. Não se falou de guerras, de comensais, de traidores e nem de Voldemort. Conclui que a guerra estivesse acabada. Com medo de entrar num assunto que não era comentado, ou parecer um bobo falando de algo que não existia mais, permaneci quieto aproveitando a companhia da minha família e amigos.
Quando já estávamos na sobremesa meu pai falou: - E então, Sírios? Você trouxe aquilo que eu te pedi?
Claro que trouxe! – ele fez um sinal para a esposa. Ela abriu a bolsa e tirou um embrulho, passou-o a meu pai.
Minhas irmãs olhavam sorridentes de uma para outra e depois para mim. Eu sorria de volta, pois, aparentemente, eu deveria saber o que estava acontecendo. Notei que mamãe também estava por fora.
Hum, hum... – meu pai limpou a garganta. – Lily... Eu sei que você está muito brava hoje, porque achou que eu tivesse esquecido nosso aniversário de casamento, não foi? - mamãe olhou para ele confusa tentando disfarçar o contentamento. – Mas eu não esqueci! – ele se levantou e foi até a outra ponta da mesa, onde ela estava sentada. – Eu jamais poderia esquecer o dia mais feliz da minha vida, poderia?
Depois de levar tanto fora? Era só o que faltava! – Sírios comentou antes de levar um cutucão da esposa.
Oh, James! Eu não acredito que você fez isso! – mamãe falou já não disfarçando nada. Pegou o pacote das mãos de meu pai e o abriu. Seu sorriso ficou maior ainda ao contemplar o belo par de brincos de brilhantes que havia lá dentro. – James! Mas são os brincos que...
Os brincos que você viu em Hogsmead! Eu os comprei uma semana depois. Lembra-se daquele dia em que você me colocou para dormir no quarto do Harry porque achou que eu estivesse na farra com o Sírios até tarde?!
Lembro... – ela falou sem graça. – Só você mesmo! Por que não se defendeu então?
Ia dar muito trabalho! – todos riram.
Eu nem sei o que dizer! – ela falou, depois de abraçar o meu pai, e então foi até o espelho do corredor e experimentou a jóia. – Eu também tenho um presente para você! – ela fez menção de ir buscá-lo, mas ele a impediu.
O seu presente você me dá mais tarde! – falou piscando maliciosamente, fazendo-a ficar completamente constrangida. 'James!', ela exclamou. – O que foi? – ele fez cara de inocente. – Eu já tratei de despachar as crianças! A casa vai ser somente nossa hoje! – todos riram.
Eles voltaram a se sentar, meu coração ficou bem mais leve ao perceber que toda aquela hostilidade não passara de um mal entendido. O almoço terminou e, depois que minha mãe e irmãs enfeitiçaram a cozinha para se arrumar sozinha, todos fomos para a sala conversar mais um pouco.
E então? Para onde vão as "crianças" hoje? – meu padrinho perguntou debochando do tratamento dispensado a nós.
Eu vou dormir na casa da Patty! Acho que vamos para balada! – Nicole falou.
Eu vou para casa do Teddy...
O quê?! – meu pai falou quase engasgando com o drinque que tomava.
Você mandou arrumar alguma coisa para fazer hoje! Eu arrumei! – ela se defendeu.
Mas...
James! Ela não é mais criança! – mamãe interveio.
É claro que é! São minhas crianças ainda! – ele exclamou. Eu apenas ri, minhas irmãs esconderam o rosto, inconformadas.
E você, Harry? – mamãe perguntou para desviar o assunto, papai continuou inconformado.
Eu acho que vou para A Toca... – falei simplesmente.
Para onde? – Naty perguntou.
A Toca!
O que é isso? Um bar novo? Nunca ouvi falar! – Nicole terminou.
É a casa do Rony! – falei indignado.
Que Rony? – meu pai perguntou.
Eu comecei a ficar assustado. Por que eles não sabiam quem era Rony? Tentei me convencer de que talvez eles não conhecessem todos os meus amigos. – Rony Weasley! – expliquei inconformado. – É meu melhor amigo, pai! Não é possível que vocês não se lembrem dele!
Weasley?! – Sandy pareceu pensativa. – Eu já ouvi esse nome...
É. Eu também... – Sírios falou.
Claro que já ouviram! – eu falei já me desesperando.
A última vez que ouvi falar de Weasley foi na época da guerra, se lembra James? – mamãe falou. 'Quer dizer que houve realmente uma guerra?', pensei.
Agora que você falou... – meu pai ficou pensativo. – Não foi aquela família assassinada dentro da própria casa?
É... Acho que foi! Nós trabalhamos nesse caso, não foi James? – Sírios falou.
É verdade! – meu pai pareceu se lembrar. – A única sobrevivente foi a filha mais nova, não foi? Um caso horrível aquele!
"A filha mais nova? Gina?! Não pode ser! Deve ser uma coincidência! Não deve existir uma única família Weasley na Inglaterra!" – pensei com desespero. Senti a conhecida friagem se espalhar pelo meu corpo. Eu sabia que estava prestes a me lembrar de alguma coisa, fiquei apavorado com a possibilidade.
Vi-me andando por um corredor escuro. A única claridade que existia era a que vinha das frestas de uma porta logo à frente, de trás da qual vinham algumas vozes. Eu reconhecia algumas delas e percebi que conhecia também o local. Era o Largo Grimmauld, mas não estava acabado como antes. Estava conservado, arrumado. Não parecia nem de longe o local abandonado que abrigara a Ordem da Fênix no meu passado.
O que você está fazendo aqui, Harry? – alguém sussurrou e eu me assustei.
O quê? – eu me virei e dei de cara com minhas irmãs, mas elas eram crianças ainda. Olhei para mim mesmo e percebi que era apenas um garoto. Um adolescente.
Mamãe e papai não querem que andemos por aqui a noite! Você vai nos colocar em encrenca se eles desconfiarem que estamos aqui!
Eles não vão saber se vocês ficarem quietas! – eu falei impaciente. Continuei meu caminho até chegar muito perto da porta. A curiosidade pareceu vencê-las também, já que elas me acompanharam muito quietas.
... o fato é que perdemos mais gente! – eu reconheci a voz de Tonks.
Mas como isso aconteceu? – mamãe perguntou.
Dizem que foi traição! – Tonks respondeu.
Dizem, não! – a voz de Olho Tonto explodiu na cozinha. - Foi traição! Um dos próprios filhos!
Não pode ser! – meu pai duvidou.
Mas foi. Percy, é o que dizem... – Remus interveio.
Dizem que o próprio Voldemort mandou fazer o serviço!
Até quando vamos viver assim, hein? – mamãe falou.
Até Harry estar pronto! – Olho Tonto falou e eu me assustei. Minhas irmãs também.
Acho melhor nós sairmos daqui! – falei puxando-as pela mão. Eu já sabia o que me esperava, mas não gostava de me lembrar disso. Minhas irmãs também sabiam, pelo menos parcialmente.
Oh, Harry! Eu tenho tanto medo! Por que esse bruxo não gosta de você? – Nicole perguntou.
É uma história complicada Nic. Nem eu sei inteira...
Você vai conseguir acabar com ele, não vai Harry? – Naty perguntou.
Não sei Naty... Mas não pensem nisso! É melhor irmos dormir agora, antes que eles percebam que nós os ouvimos. Aliás, não comentem essa história com ninguém, ok?
Certo! – elas responderam.
Subimos para nossos quartos. Nós três dividíamos o mesmo porque elas tinham medo de dormir sozinhas. Meus pais também acharam que seria melhor assim. Eu vinha sendo treinado por aurores, então poderia protegê-las se algo acontecesse durante a noite. A possibilidade me atormentava. Eu me lembrei de ter pego no sono muito tempo depois. Fui o primeiro a acordar apesar disso. Desci para a sala a tempo de recepcionar a coruja que trouxera o Profeta Diário. Peguei-o na intenção de me distrair. As palavras de Olho Tonto não saiam da minha cabeça. Sentei-me cansado e desdobrei o jornal. Logo na primeira página o susto:
MASSACRE EM ST CATCHPOLE
Mais uma chacina, mais uma família destruída. Dessa vez a numerosa família Weasley, conhecida aliada da organização "Ordem da Fênix", comandada pela família Potter e fundada para combater Você-Sabe-Quem e seus comensais.
O ataque aconteceu na madrugada do último dia 13, portanto há 4 dias, e matou todos os integrantes da família, menos a filha mais nova deles, Ginevra Molly Weasley, 14. A garota foi levada inconsciente ao hospital St Mungus logo na manhã seguinte, quando uma coruja anônima avisou as autoridades.
Infelizmente sou obrigada a reiterar que a insistência do Ministério da Magia em deixar a comunidade alheia a estes acontecimentos culminou com o recente desaparecimento da única sobrevivente e testemunha do massacre. Ginevra desapareceu do hospital ontem de madrugada. Funcionários do hospital acionaram os aurores e fizeram o favor de avisar a população do fato de que mortes e sumiços não estão tendo suficiente atenção das autoridades.
Até quando...
Me dê esse jornal garoto! – uma voz me assustou. Virei para trás e dei de cara com Olho Tonto Moddy. Sua mão deformada pelas cicatrizes exigindo que eu lhe desse o jornal.
A tontura me invadiu novamente, me levando de volta a sala da minha casa.
Harry? – mamãe me chamou. – Que foi, querido?
Nada... – respondi apenas. Levantei-me atordoado sem dar atenção aos olhares confusos dos outros na sala, nem aos comentários de 'o que deu nele?'.
Fui direto para o meu quarto, tranquei a porta e fiquei encostado nela, refletindo. Uma dor lancinante me invadiu quando me dei conta de que para salvar meus pais, eu sacrifiquei os Weasley. Meus olhos arderam e eu deixei as lágrimas rolarem. Chorei como uma criança naquele dia. Chorei como nunca havia chorado antes. Escorreguei até o chão e fiquei ali, apenas me culpando pela morte da minha segunda família que, até então, tinha sido a primeira. Devo ter ficado naquela posição por uns cinco minutos, até ouvir batidas na minha porta.
Harry? O que foi, filho? – era meu pai.
Nada não, pai... – falei tentando disfarçar o embargo em minha voz. – Só um pouco de dor de cabeça.
Não minta para o seu pai, Harry! – ele falou rígido, mas compreensivo. – Você está muito estranho hoje. Não quer me contar o que houve?
Está tudo bem, pai. Eu só quero ficar um pouco sozinho, ok? – falei agradecido por ter um pai.
Ok, então... Quando quiser desabafar me procure...
Obrigado. – respondi. Ouvi os passos dele se afastarem da porta. Ouvi mamãe perguntar 'e então?', mas não prestei atenção ao resto.
Levantei-me e fui até o banheiro. Lavei o rosto com a água fria da torneira. Estava vermelho, assim como meus olhos. Fiquei olhando meu próprio reflexo por algum tempo. Analisando-me. Só então reparei na minha cicatriz, ou melhor, na ausência dela. Achei-me estranho sem ela. Aquela marca que me acompanhara e nunca me deixara esquecer de quem eu era e da minha missão. Agora ela não estava mais lá.
Comecei a pesar os prós e os contras da decisão que havia tomado de mudar o passado. Havia recuperado meus pais, ganhado duas irmãs, mas havia tornado um Weasley traidor, havia matado todos os outros e feito um deles se tornar indigente, a minha Gina. Meu coração se apertou novamente. Era assim que eu retribuiria todo o apoio que os Weasley haviam me dado durante a minha vida, a vida que eu me lembrava de ter vivido, embora fosse o único que me lembrasse dela. E Gina? E Rony? Todo o desespero que me levou a andar naquela madrugada e encontrar a maldita fonte foi a dor pela morte deles. Agora Rony continuava morto e eu continuava sem Gina.
"Mas ela está viva!" – pensei. – "Se está viva há uma chance de encontrá-la. Uma chance pequena, mas uma chance." – sequei o rosto e desci novamente. Já que eu não poderia ficar em casa naquela tarde, era isso que eu ia fazer: procurar por ela. Não importava o quanto fosse demorar, eu ia encontrá-la. Pelo menos ela eu ia ter de volta! Tinha que ter!
