Capítulo 3 – Ao Resgate

Um tremor percorreu todo o corpo de Mitsuki. Que voz era aquela? Só então no meio de todo o medo conseguiu perceber o cheiro do homem: era um dos guardas que vieram com o clã Taisho! E estava extremamente bêbado.

A princesa debateu-se, mas o homem a segurou com ainda mais força, no limite de machucá-la.

- Quietinha agora, sim? Quem mandou passar pela nossa festinha sem querer juntar-se a ela? Agora vais fazer parte da diversão. – o guarda dizia enquanto arrastava-a até mais perto da fogueira, onde todas as coisas estavam acontecendo. – Ei pessoal, olhem o que eu encontrei vagando perdida por aqui!

Mitsuki, sentindo a iminência do que estava por ocorrer, fez a única coisa que passou pela sua cabeça: pisou no pé de seu agressor em seguida dando-lhe uma cotovelada no estômago. Assim que sentiu o aperto das mãos sobre si afrouxarem, empurrou o guarda e tentou fugir para bem longe dali, só para dar de cara com mais quatro guardas, todos no mesmo estado em que o primeiro e que impediam a sua passagem.

- Nananinanão, aonde a vadiazinha pensa que vai? A festa só está começando – disse um deles com escárnio fazendo todos gargalharem.

De repente a princesa viu-se no centro de uma roda, cercada por todos os lados, sem nenhuma chance se escape a não ser lutando. Com toda a calma que conseguia no momento, que não era muita, examinou seus oponentes devagar, até que um deles agarrou a sua capa e jogou esta para o lado.

- Vamos brincar com a pequena vadia. Hehehe.

Mitsuki foi empurrada de um lado para o outro no meio da roda, e a cada intervalo de dois ou três empurrões era despida de uma das camadas de kimonos. Tudo era muito rápido, só conseguia ouvir as gargalhadas dos homens e sentir aquele cheiro fétido. Num último ato para se libertar, ela levou as mãos junto ao rosto e gritou:

- Crescent Helix! – soltando-as logo em seguida, vários raios dourados saíram de suas garras e acertaram uma boa parte de seus captores, o que só serviu para deixá-los irados.

- Ora sua!

Os guardas avançaram para cima dela com mais fúria, tirando as camadas restantes de kimonos e deixando-a apenas com a hakama púrpura e o kosode branco, os quais eram considerados roupas íntimas na época. Quando a princesa tentou se cobrir, sentiu uma pancada forte na nuca, não o forte a ponto de desacordá-la, mas o bastante para deixá-la zonza.

Foi então que uma agitação começou próximo do lugar onde ela estava. Mitsuki viu através da vista embaçada algumas das sombras serem afastadas à força de perto de si e sentiu um braço envolver-se ao redor de sua cintura, mas ao contrário dos outros este toque era gentil, quase como se tivesse medo de quebrá-la. Ela tentou divisar quem a segurava, mas apenas divisava sua silhueta coberta pelas sombras que a fogueira quase morta lançava.

Por todo o local ouviam-se gritos de dor e de perdão, pedidos desesperados para suas vidas serem poupadas. Mas seu libertador não deu ouvido a eles, apenas continuou a distribuir os merecidos castigos de cada um.

Mitsuki, subitamente, sentiu que suas pernas já não podiam mais sustentá-la e seu corpo inclinou-se para frente, fazendo menção de cair, mas o braço que a segurava firmou a princesa no lugar, sem deixá-la ir de encontro ao chão. Através de sua vertigem e da fraca luz, Mitsuki conseguiu divisar duas marcas no pulso de quem a segurava. Jurava ter visto aquelas marcas antes em algum lugar.

- Não desmaie. – quem a segurava, agora claramente um homem, falou com calma, quase com apatia. Ela podia jurar também ter ouvido aquela voz antes.

Algum tempo depois, Mitsuki não saberia dizer quanto, sentiu ser levantada e carregada para dentro do castelo por dois braços musculosos, que apesar de tudo seguravam-na com delicadeza. Depois de alguns pares de vozes assustadas e de um descer e subir de escadas, a princesa sentiu ser depositada na maciez de um futon e pelo cheiro percebeu estar em seu próprio quarto, mas outra fragrância misturava-se àquela.

Uma mão retirou devagar algumas mechas de cabelo solto de sua face, e como resposta àquele toque suave, a princesa abriu os olhos e segurou aquela mão com a sua própria.

Neste momento, as nuvens que encobriam a lua cheia afastaram-se e permitiram que um pouco de claridade penetra-se no quarto, mas mesmo assim o homem permanecia envolto em sombras. O luar apenas refletia-se em seus longos cabelos, dando-lhes um brilho prateado, e em um par de olhos cor de âmbar, os quais fitavam demoradamente a princesa.

Então, depois de ter certeza que estava tudo bem com ela, o rapaz levantou-se e soltou a sua mão da dela com cuidado, virando-se em seguida para deixar o quarto. Mitsuki tentou se levantar, mas não tinha mais forças e só conseguiu murmurar:

- Espere... Por quê?

A única resposta à sua pergunta foi o som do deslizar da shogi quando o rapaz deixou o quarto e em seguida o silêncio. Ah! Que silêncio abençoado depois de toda aquela barulheira. A princesa sabia em que encrenca se metera e que na manhã seguinte iria ouvir muito sobre aquilo, mas no momento não queria pensar em mais nada, nem no livro que deixara embaixo do carvalho e que não conseguira pegar no final das contas. Só havia uma coisa em sua mente: dormir. E foi isso que ela fez.

Mal sabia Mitsuki que seu libertador estava logo ali, do outro lado do corredor.


- E você está proibida de sair desacompanhada do castelo! – Hikaru repreendia veementemente a filha enquanto andava para cima e para baixo na antecâmara da mesma.

- Mas pai... – Mitsuki começou baixinho, mas o pai logo a cortou.

- Não quero ouvir nem uma palavra, Mitsuki! – ele exclamou parando na frente dela. – Você tem noção do perigo que correu ontem à noite por mentir para nós e sair escondida do castelo? Além de praticamente desonrar nossos convidados com tamanha mentira, colocaste em jogo a sua própria honra! Tens alguma coisa a declarar em sua própria defesa?

Mitsuki não respondeu, apenas abaixou a cabeça como que envergonhada de seus atos, sabia que não adiantaria discutir e que falar alguma coisa só iria piorar tudo.

- Hum... Muito bem. – Hikaru parecia satisfeito consigo mesmo por conseguir dominar a filha tão bem. – Se não fosse pelo...

Sayuri interrompeu o marido polidamente com um pequeno pigarreio, avisando-o com o olhar para não falar nada a respeito daquilo. Hikaru parece ter entendido a mensagem, pois logo mudou de assunto:

- Bom, de qualquer jeito, fomos convidados pelo Inu-no-Taisho-sama e sua esposa para passarmos o Festival Choyo no En em seu palácio, seguido por uma pequena temporada lá, como um jeito de ser redimirem pelo o que seus soldados fizeram ontem à noite. E você vai, Mitsuki, sem dar nenhum pio, entendeu?

- Sim, otoo-sama – a princesa concordou contra a vontade em uma voz quase inaudível.

- Muito bem. Agora vai-te. Deves acompanhar o príncipe Sesshomaru o resto do dia.

Mitsuki assentiu brevemente, levantou-se, tomando o cuidado de ajeitar as sete camadas de kimonos que cobriam o seu corpo, sendo a mais interna escarlate e as outras de um tom azul-esverdeado que escurecia de dentro para fora, e dirigiu-se o salão principal, onde lhe foi informado que o príncipe Sesshomaru se encontrava a sua espera nos jardins.

Porém ao chegar lá, não havia nem sinal dele por todo o jardim. Contrariada, Mitsuki sentou-se sob o grande cipreste e ali permaneceu até que sentiu alguma coisa passar rente à sua orelha esquerda e cair no chão ao seu lado. Era o seu livro! Mas como...?

- Sabe, não deverias deixar as coisas jogadas por aí – veio uma voz dos galhos da árvore. Só então a princesa sentiu aquele cheiro tão... marcante. Sabia que já conhecia aquela pessoa!

- Você! – ela exclamou pondo-se de pé.


Notas da Autora: Muito obrigada a todos que leram esta humilde fic, especialmente Juliana Torok que me deixou felicíssima com a review, a primeira de todas :-D

Saibam vocês, meus leitores queridos, que é por sua causa que escrevo e vocês me dão forças e inspiração para continuar \o/

Ju (posso te chamar assim?), não se preocupe, já tenho a maior parte da história planejada e aos poucos tentarei escrevê-la, aproveitando este mês de férias :-D

Muito obrigada a todos! \o/