Capítulo 5 – Treinamento: Parte I
Após receberem a notícia, com um certo espanto e surpresa, os jovens entreolharam-se e então Mitsuki desviara seus olhos violetas daqueles outros que pareciam poder perfurá-la. Sesshoumaru a olhava com frieza enquanto pensava:
"Não acredito que pretendem me unir com esta youkai inútil, atrapalhada e que não tem opiniões próprias! Posso até me casar com ela, mas quero ver se ela agüentará com relação às outras mulheres."
A princesa youkai não pensava em nada, sua mente estava muito confusa para processar alguma coisa além das palavras de seu pai. Casar-se com Sesshoumaru... Ela apenas conseguiu murmurar um pedido de licença e recolheu-se aos seus quartos, onde passou o resto do dia.
Devia ser por volta da nona hora da noite, após o jantar e da reunião entre a família Taisho e a convidada especial, Mitsuki.
A princesa adentrou o quarto, que estava ocupando no palácio do clã Taisho, e fechou a shoji silenciosamente. O local estava na penumbra, apenas iluminado pela luz da lua minguante, mas aquilo era o suficiente para os olhos da youkai. Ela ouviu um barulho de seda próximo à porta que ligava seu quarto ao de sua acompanhante, Yukino. A princesa sentiu o cheiro da mesma e então falou à meia-voz:
- Está tudo pronto, Yukino-san?
- Sim, Oojou-sama. Como sempre – a youkai mais jovem respondeu em uma voz baixa, com a cabeça sempre em reverência respeitosa. – Irás treinar no mesmo lugar?
- Sim, Yukino-san. E já sabes o que fazer, me espere assim que o sol despontar no horizonte. Lembre-se, se alguém vier aqui, nenhuma palavra.
A outra apenas fez uma mesura e assistiu sua mestra a remover as camadas de kimonos que a cobriam, substituindo-os por um haori azul escuro e uma hakama da mesma cor, ambos com finos detalhes em prateado. Ela estava pronta para o que faria.
Há uma semana, desde que ali chegara e aprendera a rotina do castelo, saía à noite, sempre depois do jantar e da reunião em família, para treinar na floresta que circundava o castelo, bem no fundo dela, em um lugar que não havia trilha e era inacessível a cavalo. Treinava principalmente com a katana, mas também praticava o seu olfato e visão, os quais já haviam melhorado consideravelmente.
Mitsuki abriu a janela que dava para os jardins e, depois de verificar que estava tudo seguro, saltou. Era apenas o primeiro andar, não havia perigo. Após pousar com a graciosidade de um gato na grama macia, a princesa se pôs a correr em direção à floresta, procurando manter-se nas sombras para não ser vista.
Sesshoumaru já estava acordado há muitas horas devido ao costume adquirido desde pequeno, quando o pai o treinava para lutar e sobreviver. Estava observando o nascer da lua minguante embaixo de um cipreste quando um leve perfume chamou sua atenção. Um cheiro de jasmins muito familiar, e ele sabia muito bem quem era a dona. Levantando curioso, o príncipe foi seguindo o perfume até o seu ponto mais forte e lá viu uma silhueta feminina realizando movimentos que pareciam de combate com um objeto que de longe parecia uma katana.
Sesshoumaru ficou a observando por alguns instantes sem fazer barulho nenhum, pois, apesar dos evidentes erros nos movimentos, não pôde deixar de apreciar tão singela dança corporal, e no fundo sabia que haviam sido suas próprias palavras que provocaram isso. Ele aproxima-se suavemente da jovem, seus passos nem ao menos faziam barulho nas folhas e galhos espalhados pelo chão, até tocar-lhe nos ombros e falar em um sussurro junto ao seu ouvido:
- Por que está se preocupando com isto agora, princesa?
Mitsuki estava tão concentrada no exercício que nem percebeu a aproximação de Sesshoumaru, nem mesmo com o seu olfato agora um pouco mais apurado. Um arrepio subiu e desceu pela sua espinha, fazendo-a soltar a katana no chão devido à surpresa.
- Porque sim. Não quero mais ser uma vergonha como Inu-youkai – ela respondeu com um tom que supostamente seria apático, mas que acabou saindo com um pouco de frustração. Ela fechou as mãos em punho, o que acabou por fazer com que os calos da katana nelas doesse. A princesa ofegou de dor, mas não demonstrara nenhum sinal de que estava machucada.
Sesshoumaru virou a princesa, a fim de poder olhar em seus olhos, e pegou suas mãos. Enquanto as olhava, continua a falar:
- Entendo sua frustração, mas saiba que quem nunca teve um treinamento não devia começar logo com uma arma que depende a força e sim uma arma em que se pode usar a agilidade e a percepção, como o arco e flecha, e só depois começar um treinamento com as garras. Veja, suas mãos estão cheias de calos e doerão por algum tempo pela força com a qual seguraste a katana, quando deveria ter sido suave, porém firme.
A princesa desvia o olhar do de Sesshoumaru, o qual parecia poder ler seus pensamentos, e fecha os dedos, sem retirar as mãos das dele, mas escondendo os calos.
- Nunca tive alguém que me treinasse, então este foi o único jeito que encontrei. Não pensei no arco e flecha, apenas pensei no quanto estaria melhorando aos seus...digo, aos olhos de todo mundo. – Ela corou levemente.
Uma das sobrancelhas do príncipe se arqueia graciosamente enquanto solta as mãos de Mitsuki, envolvendo seus braços ao redor da cintura dela e puxando-a de encontro ao seu corpo.
- Por que queres minha atenção, princesa? Não precisas disso, afinal faz poucos dias que nos conhecemos.
Mitsuki fica vermelha com a ação dele, mas não demonstra a timidez que sentia nem quão rápido seu coração batia por aquela proximidade.
- Porque não quero mais ser uma boneca de porcelana ou um "enfeite", como você mesmo colocou, Sesshoumaru-sama. Quero ser digna de respeito e não ter mais vergonha por não saber nem me soltar de alguns guardas. – Para fazer a sua "irritação" parecer ainda mais real, ela colocou as duas mãos no peito dele e tentou soltar-se, mas o tempo todo em que falou, evitara o contato visual com o príncipe.
Sesshoumaru aproxima o rosto do ouvido da princesa e aplica-lhe uma leve mordida no lóbulo da orelha.
- Já conseguiu um pouco do meu respeito ao tentar mudar essa situação, princesa, tenho prazer em ver uma mulher sabendo o que quer, arredia... Se quer tanto treinar, poderei treiná-la enquanto estiver nos domínios de meu clã, assim poderemos treinar sem ter outros bisbilhotando, pois odeio isso.
Os arrepios voltam a correr pelo corpo da princesa, apenas mais fortes desta vez. Suas pernas amolecem e ela teria caído se não fosse pelos braços de Sesshoumaru envolvendo-a pela cintura.
- Não é o que está pensando, apenas não quero depender de ninguém. E... - ela faz uma breve pausa, perguntando mais baixo logo em seguida. - Treinaria-me mesmo? Sei que nada mais sou para você do que uma imposição de nossos pais...
O rosto do príncipe rosto endurece ao ouvir a frase dita por Mitsuki, então a solta enquanto vira-se.
- Essa imposição não cabe ao momento agora. Sim, a treinarei. Primeiro terá de adquirir fôlego e mais agilidade, depois treinará com arco e flecha, e então será combate corporal, portanto, volte para seu quarto, tome um banho e descanse, pois precisará de toda força que tiver. – Ele vai andando devagar em direção ao palácio.
Para não cair, a princesa apoia-se em um tronco de uma árvore, mas então, determinada, corre até Sesshoumaru e segura uma das mangas de seu haori.
- Desculpe-me, Sesshoumaru-sama, por ser quem sou, mas as coisas são assim. De qualquer maneira, agradeço muitíssimo por aceitar treinar-me. – Seu tom era sério, quase o mesmo que o príncipe utilizara com ela. – Porém, creio poder vencer de você em uma corrida até o castelo a qualquer hora. Será que conseguirás me pegar?
Assim que solta a questão, Mitsuki sai correndo a toda velocidade em direção ao castelo que despontava mais ao longe no horizonte.
Sesshoumaru ficara parado ouvindo as palavras de Mitsuki, mas quando ela pronunciou-se sobre a corrida, ele sorriu internamente e correu. Mitsuki só teve tempo de sentir um forte vento almiscarado vindo de suas costas até que sente braços a lhe segurar pela cintura e a derrubarem no chão. Era Sesshoumaru, que lhe sorria, segurando-lhe ambas as mãos com uma das suas.
- Venci, agora quero meu prêmio – ele fala em uma voz meio rouca de desejo.
Sem querer, Mitsuki olha nos olhos cor de âmbar de Sesshoumaru, então imediatamente percebe seu erro quando se sente presa naquelas duas órbitas que a encaravam com tanta intensidade. Seu coração volta a bater descompassadamente, fazendo-a temer que o Inu-youkai o escutasse, de tão alto que parecia bater.
- Está bem, venceste. O-o que queres como prêmio, Sesshoumaru-sama? – ela pergunta, não na voz fria de antes, mas em uma que tentava mascarar o que sentia.
- O que eu quero? Eu quero você, minha pequena princesa, você.
Então Sesshoumaru começa a beijá-la com paixão e volúpia enquanto sua mão livre explorara o pequeno e delicado corpo da princesa por sobre as roupas.
Apesar de sua intuição já lhe dizer o que estava mais ou menos prestes a acontecer, Mitsuki não poderia deixar de ficar surpresa a princípio, mas então ela relaxa no beijo e começa a respondê-lo, timidamente primeiro, depois mais solta. No entanto, quando sente a mão do príncipe explorar o seu corpo, algo lhe ocorre e, com um rápido movimento do corpo, ela inverte as posições dos dois, fazendo com que Sesshoumaru soltasse suas mãos e que ela ficasse por cima dele.
- E você me terá, meu príncipe. – Ela segura o rosto dele com uma mão e lhe dá um pequeno beijo nos lábios, depois vai descendo pelo seu rosto e pescoço, distribuindo beijos pela pele exposta. – Mas não agora e não deste jeito. – Mitsuki fala ao pé do ouvido de Sesshoumaru em um sussurro, em seguida dando uma pequena mordida no lóbulo de sua orelha. – Primeiro terás de me conquistar. – Então, com isso, ela dá um último selinho no príncipe e levanta-se, estendendo-lhe a mão para que se levantasse. – Vamos, Sesshoumaru-sama?
No rosto do príncipe se vê claramente que estava contrariado. Ele levanta sem a ajuda dela e continua a andar em direção ao palácio sem olhar-lhe.
- Obrigado, mas não preciso de ajuda.
A princesa se aproxima de Sesshoumaru com passos leves e com mais facilidade sem as múltiplas camadas de kimonos e toca-lhe no ombro.
- Mas continue assim, que estás no caminho certo. – Então dá-lhe um beijo no rosto e distancia-se com um sorriso. – A propósito, se não se importar, podemos começar o treinamento amanhã à noite, após o jantar. – Com uma piscadela em sua direção, a princesa some em direção aos jardins, pronta para escalar as paredes de volta ao seu quarto.
Mas Sesshoumaru fica apenas a olhar a jovem youkai até ela sumir. Estava pensativo.
- Realmente, garotas são difíceis de se entender.
