Capítulo 6 – Treinamento: Parte II
Era a oitava hora da noite e a lua minguante começava a despontar no céu noturno, iluminando fracamente as coisas. Mitsuki já estava fora do castelo e na floresta, um pouco depois do local que usava para treinar, em um rio que encontrara, o qual nascia de uma pequena cachoeira. A água aos seus pés era refrescante e límpida. O tempo estava anormalmente abafado para um dia de outono, e apenas agora à noite começara a ficar mais ameno. Sesshoumaru ainda poderia demorar um pouco para chegar e encontrá-la, então Mitsuki levantou-se, livrou-se das roupas que só pioravam a situação e mergulhou no rio.
- Ah, que gostoso. A água está maravilhosa. – Ela emergiu rapidamente, nadando com certa habilidade, seu cabelo dourado flutuando ao seu redor. Então resumiu-se a brincar por ali.
Enquanto isso, Sesshoumaru ia calmamente ao encontro do treinamento, chegando ao local não conseguia ver a jovem, porém sabia que ela estava lá pelo seu cheiro recente, mesmo que fraco, até ver pela luz da lua, uma silhueta feminina despida a nadar jovialmente.
- Hm... Gostando do banho, Mitsuki?
Assustada, Mitsuki submerge até a altura do pescoço e cobre-se com os braços, impedindo que o príncipe visse alguma coisa a mais. Então um meio sorriso aparece em seus lábios.
- Muitíssimo, Sesshoumaru. – Ela fala, omitindo o uso do sufixo exatamente como ele havia feito. – A água está deliciosa, deverias experimentar. Estava apenas refrescando-me antes de começar o treinamento. Presumi que você demoraria mais um pouco, mas já que está aqui, creio que seja melhor começarmos. Importa-se de se virar para eu poder sair e me vestir?
O príncipe lhe dá um sorriso atrevido.
- Se quiser que eu lhe faça companhia será um prazer – ele fala com a voz de tenor que possuía.
A princesa arqueia uma sobrancelha divertidamente, sem deixar o sorriso escapar de seus lábios.
- Se assim preferirdes, não irei impedir, "Sesshy". – Ela diz o apelido provocativamente, com um sorriso ainda mais amplo, então se vira de costas para ele poder entrar.
Mitsuki pode sentir depois de alguns minutos a água se mover ligeiramente até sentir duas mãos fortes tocarem seus ombros.
- Se quiser, pode se virar. – O jovem estava bem junto dela com o cabelo branco, molhado flutuando ao seu redor e misturando-se com o da princesa.
Sem abaixar as mãos que lhe cobriam, Mitsuki vira-se vagarosamente, fazendo com que seu cabelo dourado flutuasse também à sua volta e cobrisse a sua frente.
- A água não está deliciosa, Sesshy? - Ela pergunta olhando-o nos olhos, bastante corada.
- Está boa sim. – Ele vai em direção à cachoeira, ficando de costas para Mitsuki e fazendo-a ver, mesmo sem querer, suas costas definidas pelos exercícios que sempre praticara até a cintura onde o cabelo batia.
A jovem fica ainda mais corada, fazendo com que sua beleza natural se ressaltasse mais. Ela coloca uma mexa de cabelo atrás da orelha, evita olhar Sesshoumaru e vai até uma pedra em uma parte mais rasa do rio, sentando-se nela de um jeito que seu longo cabelo cobrisse as partes que não deveriam ser mostradas.
- É apenas uma pena a lua estar minguando, gosto muito quando ela fica cheia, faz-me ter orgulho do meu nome – ela diz com um sorriso.
- Falando nisso... – Sesshoumaru vira-se de repente na direção da princesa. Agora ela podia vê-lo plenamente: suas cicatrizes adquiridas com os anos, os músculos de seu tórax, enfim, tudo. – Gostaria de ver sua forma de youkai.
Mitsuki, ao ver o príncipe daquele jeito, quase perde o equilíbrio e cai da pedra, mas se recompôs rapidamente e virou-se de costas para ele, suas faces vermelhas como as folhas de outono.
- Com que finalidade gostaria de ver essa forma, Sesshoumaru? Ela poderia fazer com que fossemos descobertos.
- Só seriamos descobertos se você fizesse barulho, minha cara. A transformação não demora a acontecer, é só querer. Gostaria que eu lhe mostrasse a minha?
- Está bem. Por favor, mostre-me. – A princesa volta a virar-se para Sesshoumaru, seu cabelo loiro, agora só um pouco úmido, quase descobrindo o seu corpo.
Saindo da água, o príncipe vai em direção às próprias roupas, vestindo-se em seguida. Sesshoumaru volta a olhar a jovem princesa e ela pode ver os olhos dele ficarem vermelhos, seu rosto se alongar junto de seu corpo que crescia, assumindo patas. Pêlos brancos cobriam todo o corpo e em sua testa via-se visível a marca de lua crescente que ele também possuía em sua forma humana. Toda a transformação não dura nem cinco minutos, e agora um gigantesco cão observava Mitsuki atentamente.
A princesa solta um longo suspiro e desce da pedra, fazendo parte de seu cabelo voar para trás. Ela caminha calmamente até a mesma margem que Sesshoumaru estava e veste apenas a camada mais interior de roupa: um kimono de gaze de seda branca, que por ser fino ainda acentuava muito as suas curvas. Mitsuki então olha para o príncipe e seus olhos violetas ficam de um azul muito profundo, ela passa por um processo de transformação semelhante ao de Sesshoumaru, porém quando este terminou, ela havia assumido a forma de um cão totalmente branco um pouco menor do que ele e mais parecido com um husky siberiano gigante, com um sinal prateado na testa, o qual lembrava uma lua cheia.
- Pronto – ela diz finalmente em um sussurro. – Poderia falar-me agora a finalidade disso, por favor?
- Acompanhe-me, vamos para mais longe daqui. – Ao dizer isso, Sesshoumaru começa a correr muito rápido, mais do que qualquer um que Mitsuki já tivesse visto na vida, e graças ao seu enorme tamanho, ela o podia ver, ainda que bem longe do lugar onde eles estavam antes. Parecia uma grande planície.
Mitsuki antes de tudo pega o restante de suas roupas com a boca e então segue Sesshoumaru. Ao chegar ao local destinado, deposita as roupas sobre uma pedra e fica a observar o príncipe.
- Com que finalidade viemos até aqui, Sesshoumaru?
- Simples, quero ver como são sua força, agilidade e habilidades naturais. Portanto, defenda-se. – Ele fica em posição de ataque e dá um salto na direção da jovem, rosnando.
No momento em que ele a atingiria, Mitsuki esquiva-se para o lado bem a tempo, fazendo sulcos profundos na terra. Ela também dá um pequeno rosnado e entra em posição de defesa, com as patas dianteiras abaixadas.
Se apoiando nas patas traseiras, Sesshoumaru dá um enorme impulso em direção à Mitsuki, fazendo-o chocar ambos os ombros e virando-se em seguida com a pata dianteira levantada para lhe atingir a face.
Com um giro do corpo e um impulso das patas traseiras, a princesa tira Sesshoumaru de cima de si antes que ele lhe atingisse o rosto. Então se levanta agilmente e avança para cima dele com um rosnado, almejando pegá-lo pelo pescoço.
O youkai também vai em direção à Mitsuki, mas quando está bem perto, abaixa o focinho, ficando fora de alcance do da princesa, ao mesmo tempo que era ele que cravava sua boca no pescoço dela, mas não usou os dentes afiadíssimos para não machucá-la. Assim, usando seu próprio peso, derruba Mitsuki no chão, ainda segurando-a enquanto sua pata ficava em cima do peito dela.
A princesa rosnou ameaçadoramente, mas como estava bem presa por Sesshoumaru, qualquer movimento que fizesse seria inútil para escapar. Então ficou imóvel por alguns instantes, apenas arfando de leve, como se houvesse desistido. Em seguida, com uma de suas patas dianteiras, tira o equilíbrio de Sesshoumaru por retirar a pata dele de seu peito e, com um ágil movimento, inverte as posições dos dois, ainda presa pelo pescoço.
Usando seu próprio e aproveitando que Mitsuki não poderia se mexer tão bem por ele estar a lhe segurar a garganta, o príncipe dá um impulso para o lado, fazendo ambos rolarem até o lago que nascia do rio de onde ambos haviam saído, o qual era bem fundo, então mesmo ambos estando em sua forma de cachorros gigantes, eles afundam. A princesa rapidamente emerge junto com Sesshoumaru e em poucos instantes estava de volta à sua forma humana e retirando o cabelo e a franja da frente do rosto.
- E então? – ela perguntou meio sem fôlego, o que fazia seu mimoso busto subir e descer rapidamente com a respiração.
Sesshoumaru olha para ela arfando também pela falta de fôlego e, por um momento, ele repara na delicada pele branca da princesa.
- Foi bem sim, mas se realmente só quer esperar pelo casamento é melhor se cobrir ou não responderei pelos meus próprios atos, princesa.
Mitsuki olha para si mesma e vê que o fino kimono que vestira havia ficado transparente por ter sido molhado. Ela dá um meio sorriso, porém cobre-se e nada até a beira do lago, de onde sai com agilidade e vai até onde suas roupas estavam. Sua alva e delicada pele era iluminada pelo luar, fazendo as gotículas de água que desciam por ela brilharem fracamente. A princesa tira o kimono molhado, todo o tempo de costas para Sesshoumaru, e veste o resto das roupas devagar, deixando a peça molhada secando em um galho de árvore.
A jovem pode sentir mãos fortes a abraçando por trás pela cintura e uma boca a beijando no pescoço até ouvir a voz profunda de Sesshoumaru a sussurrar-lhe ao ouvido:
- Você não cansa de me provocar, já notou isso?
- Eu te provoco, Sesshy? – ela fala em uma voz baixa, sorrindo. – Acredita que nunca reparei nisso? – Mitsuki desce suas mãos até as de Sesshoumaru e as firma ali onde estavam.
Com a boca, o rapaz vai abaixando, enquanto beijava-lhe o gracioso pescoço, o fino tecido que protegia a pele da jovem. Agora todo o busto dela estava desnudo; delicadamente, ele livra uma das mãos, indo com ela em direção à carne macia e rosada da princesa.
Mitsuki rosna baixinho com o toque do príncipe e lhe dá uma leve mordidinha na orelha, falando em um sussurro bem perto desta em seguida:
- O que pensas fazer, Sesshy?
Com a mão que rodeava a cintura de Mitsuki, Sesshoumaru a faz dar um rodopio, ficando frente a frente com ela, em seu olhos cor de âmbar podia-se ver a luxúria, enquanto com a outra mão a levantava, deixando cair de vez o tecido que ela vestia.
- Quero você, agora, princesa.
Um forte arrepio percorreu o corpo da princesa, tanto que até Sesshoumaru pôde senti-lo. Ela olhou fundo nos olhos cor de âmbar do príncipe, meio hipnotizada por eles, então lhe dá um pequeno beijo no canto dos lábios antes de falar com a voz baixa:
- Queres-me por mim mesma? Por gostar de mim, Sesshy? – Seu coração batia forte no peito, bombardeando sangue a mil por hora pelo seu corpo, fazendo com que suas feições ficassem coradas e os lábios vermelhos, e aumentando ainda mais sua beleza exótica.
A expressão do príncipe volta a ficar fria. Ele a solta, dizendo ao mesmo que retornava ao castelo:
- Vista-se, você não sabe o que está dizendo. Acha que o gostar de um youkai é o mesmo de um humano? Isso são fraquezas e nada mais. Há de passar muito tempo para que algum dia esse sentimento tão reles caia sobre mim.
A jovem youkai olha contrariada para o príncipe que se afastava, pega o haori que caíra e volta a vestir-se. Quando já estava pronta, senta-se na pedra e fala para as costas de Sesshoumaru:
- Somos todos seres viventes e todos com a mesma capacidade de amar ou odiar alguém e, muito ao contrário do que você diz, o amor, ou qualquer outro sentimento, pode dar à quem luta uma força inimaginável. Ter alguma coisa para proteger dá força a qualquer um. Pergunte ao seu pai de onde ele tira a força para lutar, por exemplo. O que ele quer proteger. Pois não creio que ele lute por nada!
Entre contrariada e zangada com o príncipe, Mitsuki pega o kimono que estava secando e embrenha-se novamente na floresta correndo, indo cada vez mais fundo.
Enquanto a princesa corria, ela ouve uma voz vinda do céu. Quando ela olha, pode ver Sesshoumaru voando e sua expressão não era amistosa pelo o que Mitsuki via quando ele desce em sua direção; até que o príncipe estende a mão, aplicando-lhe um forte tapa na face.
- Nunca, nunca mais fale do meu pai, entendeu?
Mitsuki leva uma mão ao rosto, surpresa pelo ato do príncipe, então com a mão livre aplica um forte tapa em Sesshoumaru, deixando a marca de seus dedos bem visíveis na face dele.
- Nunca lhe ensinaram a não bater em uma mulher? E não sei por que tanta contrariedade quando falei de seu pai.
Sesshoumaru segura com firmeza os pulsos de Mitsuki, no limite entre machucá-la e não.
- E nunca lhe ensinaram a não contrariar um homem, sua insolente? O que tem meu pai não é problema seu! – Ele a liberta com grosseria.
- E por ser um cavalheiro, deveria ter mais respeito com as mulheres, mesmo sendo o macho alfa. – Recobrando o equilíbrio, Mitsuki vai até ele e o empurra com ambas as mãos no peito.
- Não é obrigação quando as próprias fêmeas acham que podem desrespeitar uma liderança de séculos! – O príncipe segura a jovem pelos ombros rudemente. – Acha que pode me desafiar? Pois errou!
Mitsuki semi-cerra os olhos violetas, sem desviar o olhar do de Sesshoumaru e desafiando-o com este.
- Acho – ela diz simplesmente em um tom de voz normal.
Sesshoumaru, ao ouvir o desafio da princesa, solta uma gargalhada, como que achando graça da afirmação dela.
- Não me faça rir, menina! Como uma princesa tão superficial pode achar isso? Não sou seu pai que faz todas as suas vontades e lembre-se, logo você será minha esposa, então não me desafie mais. – Ele a solta e retorna ao seu caminho, só que dessa vez andando.
- Para começo de conversa, ele não faz todas as minhas vontades, também tenho deveres. E segundo, quero ver alguém me encontrar para realizar essa cerimônia idiota!
Com isso, Mitsuki vira-se e começa a correr na direção oposta a dele em uma velocidade que ela achava não possuir, e no lugar onde ela estava Sesshoumaru pôde sentir um levíssimo cheiro de sal.
A princesa corria pela floresta, as lágrimas teimando em cair de seus olhos enquanto embrenhava-se cada vez mais fundo por caminhos desconhecidos. Algumas vezes, parecia ouvir criaturas assustadoras atrás de si, prontas para atacá-la, mas quando se virava, não havia nada, nem mesmo um barulho. Isso continuou até a princesa chegar ao sopé de uma montanha, onde havia uma caverna.
Não havia dado-se conta do quão cansada estava até aquele momento, tanto por correr quanto por chorar. Então adentrou o local e foi encolher-se bem ao fundo da caverna, onde quase nenhuma iluminação chegava. Ela estava com frio, mas ao mesmo tempo com muito sono para pensar em alguma coisa além de dormir. E assim o fez sem nenhum outro pensamento ou preocupação em sua mente.
