Capítulo 8 – Ataque
A lua já ia alta no céu quando Mitsuki despertou nos braços do príncipe. Seu príncipe. E ela era sua princesa agora. A jovem youkai levou uma das mãos ao lado esquerdo do pescoço, na junção deste com o ombro, onde Sesshoumaru a marcara como sua esposa, lá sentia a forma de uma lua crescente, a mesma que havia na testa dele.
Então algo ocorreu-lhe. Despertando de seus devaneios, ela sentou-se e debruçou-se sobre Sesshoumaru, beijando-o levemente nos lábios para acordá-lo.
- Sesshy, acorde. A lua já está alta. Ficamos fora o dia inteiro, devem estar procurando por nós.
Os olhos cor de âmbar do jovem se abrem ao leve toque dos lábios dela.
- Nunca tinha dormido tanto e tão bem... Não se preocupe, princesa, meu pai é um mestre em diplomacia, ele sabe que eu nunca deixaria nada de ruim lhe acontecer. Bem, vamos, mas antes... – Ele a puxa para cima de si, com os braços musculosos. – Um último beijo.
- Você não tem jeito mesmo, não é? – a jovem pergunta docemente antes de fazer seus lábios se encontrarem em um suave e apaixonado beijo. Uma de suas mãos acariciando o sedoso cabelo branco do, agora, seu marido.
Sim, seu marido. Para os youkai, a cerimônia de casamento era apenas pro forma, o casamento em si acontecia quando, durante o ato sexual, o macho mordia a fêmea no pescoço, marcando-a como sua enquanto ele vivesse. Mas certas formalidades ainda eram necessárias aos olhos dos outros.
Ao chegarem ao castelo, Inu-no-Taisho já os esperava e, após uma longa conversa, ele os parabenizou com certa relutância, mas não menos feliz. A cerimônia de casamento foi marcada para dali a duas semanas, no dia do Festival Choyo no En, e todos os lordes youkai aliados estariam convidados para a festa.
Treze dias mais tarde, na véspera do Festival, Mitsuki dormia profundamente no futon em seu quarto, até que um cheiro estranho e peculiar, que ela nunca havia sentido antes, mas que continha um quê de sangue, invade o seu nariz e ao abrir os olhos ela encontra um homem vestido totalmente de preto pairando sobre a sua forma, uma pequena espada em riste, pronto para apunhalá-la.
A jovem desvia bem a tempo do ataque, saltando para o lado, mas mesmo assim a espada pega de raspão em seu braço esquerdo. O shinobi vinha para cima dela novamente, então, com um rápido movimento de braços e pernas, Mitsuki consegue chutá-lo no estômago e fazer vários cortes profundos em seu rosto coberto com suas enormes garras pontiagudas. O homem, ao ser chutado, desfere um golpe com a espada na coxa direita da jovem e derruba vários objetos enquanto caía, fazendo um grande estardalhaço.
A princesa respirava pesadamente, segurando o ferimento da perna com as mãos a fim de estancar o sangramento. De repente um cheiro muito familiar e até bem-vindo chega ao seu nariz, mas ela não tem tempo de virar-se, pois o shinobi já estava de pé novamente e pronto para matá-la. A jovem estava perdendo muito sangue com o corte da perna e, apesar de lutar contra isso, estava ficando tonta e sentia-se sem forças. O homem já estava quase em cima de si, quando o barulho da shoji sendo aberta com toda a força chegou aos seus ouvidos e então tudo parou. Era Sesshoumaru, que chegara ali por sentir o cheiro de sangue derramado e o estardalhaço feito pelo shinobi ao cair.
Ao ver Mitsuki ferida, ele parecia pronto para matar alguém, mais precisamente o homem à sua frente, então agiu rápido e de sua mão um longo chicote cor de esmeralda apareceu e, junto dos reflexos apuradíssimos do dono, envolve todo o corpo do shinobi firmemente; não o tinha estraçalhado porque queria interrogá-lo, mas o estava deixando sentir de leve seu veneno.
- Mitsuki? Você está bem? – vem a voz profunda de Sesshoumaru, com uma pontada de preocupação.
O shinobi, vendo que falhara em sua missão e com a iminência de ser interrogado, abriu a boca e mordeu a língua com força. Um método pouco usual de suicídio, mas que funcionava quando não havia uma espada à disposição ou quando se está preso. Ele caiu límpido no chão de tatame.
A jovem princesa assentiu que sim com a cabeça e tentou andar na direção de Sesshoumaru, mas acabou dando um passo em falso e quase caiu, recobrando o equilíbrio no último instante.
- Estou bem, sim, Sesshy. Obrigada. – Sua face estava empalidecendo rapidamente. Era muito sangue de uma vez só para a sua recuperação de youkai funcionar efetivamente.
Sesshoumaru soltou o corpo do shinobi no chão enquanto pegava a princesa no colo, saindo do quarto; quando vê algumas servas lhes fala:
- Digam para meu pai me encontrar na sala de recuperação posto que preciso falar com ele urgente e coloquem o corpo que está no quarto da princesa em algum lugar seguro para depois ser examinado a fim de achar pistas de quem foi o maldito que tentou matar minha noiva
Em seguida, apressando um pouco o passo chega à sala, onde ficava um youkai especialista tanto nos corpos de youkai quanto dos humanos; antes o príncipe achava uma perda de tempo seu pai se preocupar com isso, mas afinal teve que concordar em seu íntimo que havia sido uma sábia decisão.
- Não se preocupe, você ficará melhor logo, minha princesa.
Mitsuki faz que sim com a cabeça, indicando que ouvira.
- E pensar que tudo isso aconteceu hoje, um dia antes da nossa cerimônia de casamento – ela brinca um pouco, tentando aliviar a tensão do momento.
O especialista logo chega, endireitando os óculos tortos por ter sido acordado tão de repente. Ele pede para Sesshoumaru depositar a princesa em um dos futon da sala e então examina a jovem. Apenas o corte da perna era profundo, mas o sangramento já estava parando devido à rápida recuperação dos youkai; e o do braço já havia praticamente cicatrizado. Ele nota mais uma coisa, olha para o príncipe e a princesa com uma sobrancelha erguida, mas permanece em silêncio.
O homem remexe por um momento na maleta que trouxera consigo e tira de lá um pote com uma gosminha esverdeada e entrega-o a Sesshoumaru.
- Está tudo bem com ela, não se preocupe, o sangramento já estancou, mas só por precaução é melhor passar esse remédio uma vez por dia até cicatrizar totalmente, é Aloe.
- Está bem, ela pode ir para os cômodos novos dela ou terá de passar a noite aqui? – Sesshoumaru pega o pote e observa o médico com curiosidade.
- Não há necessidade para a princesa permanecer aqui, Sesshoumaru-sama. Ela já pode ser levada para seus novos cômodos. - O especialista responde com simplicidade enquanto reunia suas coisas. – Contudo, se acontecer algo no decorrer da noite, peço para que por favor me chame. A princesa perdeu muito sangue e isso é muito perigoso, principalmente no seu atual estado. Com licença. – Em seguida ele se retira para sua sala.
- Viu, Sesshy? Eu estou aprendendo a me defender também, fiz um bom estrago naquele cara antes de ele fazer algo comigo. – Mitsuki senta-se apoiada no braço que não estava machucado, fazendo com que o finíssimo kimono de gaze branca deixasse um de seus ombros de fora.
Sesshoumaru sorri para a jovem enquanto a pegava novamente no colo, saindo da sala, indo ao seu novo quarto, o que dividiriam a partir do dia seguinte.
- Eu sei, vi como ele estava. Você certamente aprende rápido, princesa. – ele fala com um certo orgulho em sua voz.
Uma serva se aproxima dizendo que o pai o encontraria mais tarde e que, por favor, cuidasse bem da princesa enquanto isso.
- Aprendo outras coisas rápido também, mas não é hora para isso, não é? – Mitsuki enlaça os braços em volta do pescoço de Sesshoumaru e dá-lhe um beijinho na bochecha, mas ao fazer isso, a faixa que segurava o translúcido tecido à sua cintura afrouxou-se um pouco, fazendo o kimono abrir mais e chamando a atenção do príncipe, porém a jovem percebe o que acontecera e junta as duas partes com uma das mãos. - Ops.
- Princesa, princesa, sempre chamando minha atenção.
Ambos chegaram finalmente no quarto; Sesshoumaru entra com a sua preciosa carga nos braços e a deposita com delicadeza sobre o futon, duas vezes maior do que o normal, assim como o resto do quarto, construído especialmente para ser a morada temporária de um casal; então ele levanta o fino tecido de gaze de seda do kimono da princesa até a parte superior de sua coxa, onde estava o ferimento, aplicando o remédio neste ao mesmo tempo em que sua mão livre retira o laço que unia os lados da roupa da jovem, praticamente despindo-a.
Mas com uma das mãos, Mitsuki impede que o kimono caísse totalmente, cobrindo ao mesmo tempo tudo e nada.
- Hmm... o que pensa que estás fazendo, Sesshy? Somos casados, sim, mas a cerimônia pro forma é somente amanhã. Consegue agüentar um dia inteiro sem mim depois de termos passado duas semanas sem nenhum momento a sós? – A jovem o puxa para perto de si por trás do pescoço com a mão livre e aplica-lhe uma pequena mordida no lóbulo da orelha; seu tom era sedoso e macio.
- Não, minha princesa, nem mais um dia sequer. E se prepare, pois se depender de mim, teremos muitos filhotes. – O príncipe distribuía vários beijos pela face da jovem, como se não cansasse de sentir a textura daquela pele tão delicada.
- Será que eu agüentarei tantos filhotinhos correndo pela casa e aprontando? – Foi a única coisa que conseguira perguntar antes que Sesshoumaru descesse seus lábios sobre os seus em um beijo possessivo, o qual a jovem youkai respondeu com igual ardor, passando a mão pelos longos cabelos macios de seu marido. Ela deixa com que a mão que segurava seu kimono o soltasse e leva a mesma à faixa na cintura de Sesshoumaru.
- Terá de agüentar, minha doce princesa, afinal a vida de um youkai é longa e eu pretendo aproveitar todos esses momentos com você. – Então começa a tocar com a boca o macio da carne de seu busto.
Mitsuki rosna baixinho diante das provocações do príncipe, enlaçando a perna boa ao redor de sua cintura e trazendo-o mais para perto de si.
- E queres ter o que primeiro, Sesshy? Um macho ou uma fêmea? – A pergunta foi feita ao pé do ouvido dele em um sussurro quase provocante.
- Uma fêmea, pois sei que será tão linda quanto a mãe. – Sesshoumaru afasta mais as pernas da princesa, mordendo-lhe de leve o pescoço onde a havia marcado como sua.
- Eu gostaria de ter um casal, assim também teria um macho tão maravilhoso quanto o pai.
De repente, o sorriso some da face da princesa e ela afasta Sesshoumaru de cima de si, sem, contudo, ser rude, enquanto fazia uma careta que parecia ser de dor.
A expressão do jovem príncipe é tomada por preocupação enquanto assiste à sua esposa dobrar-se sobre si mesma, segurando o estômago, muita dor em suas feições e um pequeno grito escapando seus lábios. Sesshoumaru coloca uma mão sobre o ombro dela e, quase exasperado, pergunta:
- Mitsuki, o que há de errado? Queres que eu chame o médico?
A jovem youkai consegue apenas assentir que sim com a cabeça antes de ser tomada por outra dor lancinante e um grito mais alto escapar de seus lábios. Só então, ao olhar para baixo, Sesshoumaru percebe que escorria sangue abundantemente do meio das pernas de sua parceira. Preocupado, ele corre até a porta e manda uma serva buscar o médico, voltando em seguida para o lado de Mitsuki. A única coisa que poderia fazer no momento era ficar ali com ela.
Algumas horas depois, Mitsuki jazia deitada em um futon limpo em seu quarto novo; estava lavada e suas roupas foram trocadas. Ela aparentemente dormia tranqüila depois de um certo tempo sentindo muita dor.
Do lado de fora do quarto, com shoji fechada, Sesshoumaru e o médico conversavam com seriedade.
- Foi isto o que aconteceu? – O príncipe observava o homem à sua frente com cuidado e atenção.
- Sim, príncipe Sesshoumaru. – O médico confirmou com a cabeça. O tom dos dois era baixo para não acordar a princesa. – Foi um aborto espontâneo, provavelmente devido à perda de sangue que ela sofreu. A princesa estava com cerca de duas semanas de gravidez. Como o tempo de gestação dos youkai é menor do que o dos humanos em doze semanas, isso equivaleria a mais ou menos um mês de gravidez para os humanos. Mas não se preocupe, está tudo bem agora, apenas recomendo repouso total pelo menos até amanhã.
- Entendo. Ela... ainda poderá ter filhotes? Seria muito doloroso para ela se não pudesse.
- Não há necessidade de preocupação, príncipe Sesshoumaru, estas coisas acontecem. A princesa Mitsuki já está novinha em folha e poderá ter quantos filhotinhos quiser.
- Muito obrigado, doutor. – Sesshoumaru agradece ao médico mais aliviado em saber que sua esposa estava bem.
- Apenas fiz a minha obrigação, príncipe. Agora, se me der licença. – O homem faz uma profunda mesura para o jovem então se retira novamente para a sua sala.
Com um suspiro, Sesshoumaru vira-se em direção a shoji e desliza-a silenciosamente, para não acordar Mitsuki, adentrando o quarto sem fazer barulho algum. Mas quando olha para o futon, descobre dois olhos violetas intensos fitando-o e algumas lágrimas, que brilhavam com o luar, caindo deles. Mitsuki estava acordada e escutara cada palavra do que os dois disseram.
