CAP. 04. NOITE.

Há um fundo de tristeza em cada sorriso que conheci, essa é a condição humana, se fossemos totalmente felizes, não saberíamos reconhecer a felicidade...

-Mara o que foi?

A menina com imensos olhos violetas olhava pela janela e acenava para as irmãs.

-Você sabe que não pode sair da casa.

A menina fecha a cara e sai correndo pelo corredor.

-Lá vamos nós de novo.- suspira a do meio.

Do segundo andar da casa vem uma voz fraca mas clara.

-Morgan! Morgan! O que houve com a Mara?

-Ela quer sair mas eu não deixei.

-Certo.

Do andar superior a mulher começa a cantar uma cantiga de ninar...

-Odeio isso.- diz a do meio saindo da cozinha.

-Vou para sala, tenho lição pra fazer.- diz a mais nova.

Morgan estava fazendo o jantar... de leve, a cada estrofe da canção de ninar ela faz um pequeno corte no braço e deixa sangrar... são as lágrimas que ela não derruba mais...

-Você tem uma única escolha.- diz o rapaz louro a sua frente.

-A quem você acha que engana?- sibila a ruiva.- Você é muito mais tolo do que pensa que é...

-O que você acha que vai fazer quando todos lhe virarem as costas? Hein?- ele diz enquanto passa devagar as costas da mão branca na linha do queixo dela.

-Eu sobrevivo... melhor do que você que nem sabe quem está lhe virando as costas...- sorriu.

Ele abaixa a mão e suspira com ar cansado, então violentamente desfere um tapa na face dela e a encara, ela o encara também, ainda sorrindo a despeito do corte que ficou aberto em seu lábio.

-Não suportamos vira-casacas entre nós...

Ela dá um passo a frente e segura o rosto dele, fala ao pé da orelha:

-Pensei que ser vira-casaca fosse pré-requisito entre os seus...

Ela dá um beijo de leve no louro e sai, ele limpa a marca de sangue do rosto com raiva.

-Parem!-grita o auror ao seu lado.- Parem...- ele perde o fôlego...

-Ah!- grita ela se embrenhando na floresta.- SOMOS DO MINISTÉRIO E TEMOS AUTORIZAÇÃO PARA DETÊ-LOS!!!

Estupefaça!!!

Correr e desviar... correr e desviar... feitiços... feitiços...

árvores...árvores... gritos...

árvores... gritos...

-Socorro!!!

Sem varinha, só de camisola, no meio da floresta negra... pés gelados por causa da neve... escutando sons estranhos da floresta, completamente apavorada, perdida...

-Socorro!!! SOCORRO!!!

"Ninguém vai me ouvir... ninguém vai me achar..."

Um rosnado ás costas... "LOBISOMENS?"

Não lobos selvagens... grandes...

tentou correr, pegou um galho, se virou para eles...

-Passa! Xô!

Uivos...

Encurralada contra duas árvores que crescem muito juntas, mas sem galhos baixos para poder se agarrar, a garota tremendo arranca um pedaço do galho, olhando os lobos... arranca uns fios de cabelo e temendo tanto que os gestos são quebrados os enrola na ponta da madeira.

Os lobos avançam a encurralando, rosnando e uivando para assustar a presa.

-Seus safados... nem pensem em me morder...-ergue o pedaço de madeira, aponta a frente.- Incendio!

A madeira avermelha, o cabelo pega fogo e entre a garota e os lobos aparecem chamas, que os assustam , mas duram pouco.

Ela passa a madeira quente de uma mão para outra, arranca mais uns fios de cabelo e repete a operação.

-Vingardium Leviosa!

Dois lobos, que iam atacar são suspensos do chão...

a madeira esquenta o suficiente para queimar a mão dela, o cabelo evapora...

-Ai!- ela solta o galho vendo a marca na mão.-Droga...

Os lobos que flutuaram caem em cima dos outros com um baque violento... mas eles não desistem, farejaram o sangue dos arranhões no corpo dela, dois se preparam para atacar.

Duas flechas e passos pesados os espantam, ela tremendo olha para a figura enorme que aparece entre as árvores.

-Sabe porque a floresta é proibida?

Um casaco imenso cheio de bolsos cai sobre os ombros dela.

-'gado...Hagrid...

O enorme homem sorri.

-Então pequena? Caçando?

-É.- diz tremula.-Encrenca...

-Descalça?

Hagrid faz uma careta ao ver os pés roxos mergulhando, passo após passo na neve.

-Subindo.-ele a pega no colo.- Diga... o que houve?

-Me jogaram aqui... de novo...

-Seus amiguinhos não é?

-Não tenho amigos Hagrid...

-E eu?

-É... você quer ser meu amigo? mesmo?

-Vamos ... vamos, tem que esquentar...

Um grupo estranho está na porta da cabana de Hagrid...

-O que estão fazendo aqui garotos?

-Ah, bem... sabe...-diz o rapaz de cabelos espetados.- Nada... sabe... aquele nada...

-Caçando ninfas na floresta Hagrid?- diz o rapaz de cabelo comprido.

-Cala a boca!-diz a garota pulando dos braços de Hagrid.

-Pequena...

-Obrigado Hagrid, mas eu vou entrar...ah... seu casaco.

Assobios, Hagrid balança a cabeça, ela se vira pisando duro.

-Quer ajuda... sabe... eu posso te carregar até a enfermaria...-diz o rapaz de cabelos compridos...

-O dia que eu precisar de sua ajuda Black, vou preferir ser devorada por lobos!

-Não pode ser devorada por um cachorro?- ele falou baixo.

Não era a primeira vez que era abandonada na floresta por não aceitar as ordens da casa... não era a primeira vez que Hagrid a resgatava... nem a primeira vez que via os Marotos... noites de lua cheia... dois deles... perambulando fora do castelo...

-Sangue azul...

A senha lhe dá o direito de entrar na sala de onde fora arrancada a poucas horas... ferida, trêmula, enregelada se aproxima da lareira...

-Ah... viva ainda?-diz a morena sentada na sala comunal...

-Sozinha ainda? O que foi Bella? Virou abóbora? cadê o panaca do Lestrange? Ah... ele tava ocupado me azarando e jogando na floresta... deve ter pego uma vadia qualquer nos corredores, sabe, ele não ia notar a diferença...

-Olha a boca fedelha! Qual é o problema, anda tanto com sangues-ruins que pegou o cheiro? Por isso os bichos da floresta não te comem?

-Talvez... por isso não chegue perto da floresta esse seu cheiro de galinha vai atiçar os bichos...

Ela é pouco menor que a morena, mas está cansada... leva a pior quando a outra avança.

-Controle-se Black!-ele segura a moça pelos cabelos.

-Só podia ser você Severo!- ela sibila ao se erguer.

A morena vai até o dormitório, ele se ajoelha ao lado da garota caída que respira de boca aberta, quando vai segura-la leva um tapa na cara.

-Não me venha com essa sua bondade falsa!

-Só quero te ajudar...

-Vai fingir que não sabia que iam me fazer isso?

-Não vou fingir não... venha você está toda arranhada.

Outro tapa.

-Você é um covarde! Um belo covarde!

-Podemos dizer que concordamos com isso, agora levante Morgan...

-Me deixe aqui!

Ele a ergue mesmo sob protestos e a coloca no sofá.

-Sabe o que te falta Morgan?-ele tira um lenço branco das vestes.

-Cinismo?- ela fala entre os dentes.

-Um pouco também, mas sutileza não lhe faria mal...- ele diz puxando um frasco das vestes e abrindo-o.

-Não sou assim... é contra minha natureza.-ela olha para cima.

Ele molha o lenço com o conteúdo do frasco e fala calmo.

-Só os animais obedecem suas "naturezas".

-Ai.- ela geme quando ele começa a limpar os arranhões.

-Isso vai fazer com que nem apareçam marcas.

-Criação sua?

-Eu melhorei a poção original, sim.

-Você é o melhor bruxo que conheço Sev... porque se rebaixa assim?

-Sobrevivência...

-Só os animais ocupam o tempo pensando em sobreviver... prefiro viver.

-E vai viver assim... apanhando?

-Pelo menos não vou viver de joelhos...

-Está bem...

-Onde... Severo tire a mão daí!

-Prefere que fiquem marcas?

-Tome.- ele lhe joga seu casaco forrado.- Está frio... vou pegar dois chocolates... aceita?

Foram muitas noites assim...