III

Kanon POV

Noite clara. Apesar de estarmos numa madrugada profunda, para mim as estrelas parecem ostentar um brilho maior do que nunca. Finalmente, executei minha vingança! Meu coração parece estar cada vez mais leve... como é doce o sabor da vitória... eu enfim o atingi. Sua dor foi óbvia!

Ainda não satisfeito, vou para meus aposentos. Não importa a reação dele: pode ser violento, pode querer me matar até. Eu morrerei feliz por tê-lo aborrecido. Assim que abro a porta do recinto, o ambiente pesado e raivoso toma conta de mim. Dá para ser agredido apenas por respirar.

- Kanon, o que faz aqui? Volte para a alcova da sereia.

- Sabe de uma coisa? Resolvi te dar uma chance. Por que não vai você até lá, dizendo ser eu, e aproveita o resto da noite ao lado dela?

Saga, o qual estava de costas, vira-se rapidamente e soca meu rosto, fazendo-me virar até a porta. Meu corpo choca-se contra ela, e bate-a com força.

- O que há, irmãozinho? - respondo, com dor nas costas por causa do impacto, mas sem temor - Não foi você mesmo quem disse que uma provocação nada mais é do que... um "tempero" à relação?

- Eu não fiz sexo com Elena! Por que levou toda essa coisa tão a cabo, e a sério?!Meu gêmeo não me deixa responder. Apenas soca meu rosto mais duas, três, quatro vezes. Um filete de sangue escorre por minha boca, e eu sinto a cabeça rodar pela intensidade dos golpes. Porém, mantenho-me firme.

- Você é quem não presta! Um grande safado filho da puta, que não sabe nem do lado de qual amante vai ficar! - ele brada perto de meu rosto, quase estourando meus tímpanos ao fazê-lo.

- Pode bater, Saga! Pode bater. O máximo que fará é ferir minha parte física. Mas a alma continuará intacta, ao contrário da sua.

E em seguida rio, gargalho mesmo, ao constatar minha vitória. Ele, surpreso por minhas reações, pára momentaneamente de me golpear. Sua respiração é intensa, e por vários minutos ficamos em silêncio mortal, confrontando-nos mutuamente através do olhar. Espero que, a qualquer instante, ele venha para cima de mim outra vez, em nova explosão de raiva. Mas não. Seus olhos clareiam, sua cabeça tomba, seus cabelos ganham a cor dourada outra vez. Sua expressão... torna-se benévola! De súbito, encaro a face verdadeira do irmão com quem nasci.

- Saga... você...

- Feliz, Kanon?

- Eu...

Sério, soturno, tristonho, meu irmão anda pela sala.

- Já não bastava você me trair com a outra face de mim mesmo?

- Eu... não queria atingir você. Meu intento... era ferir a ele...

- Não o ama? Hein, não o ama? Ele não é tão igual a você?

- Não... ele é repulsivo! Eu... gosto muito mais de você.

Ainda em silêncio, ele senta-se numa das cadeiras da sala, sem olhar para mim.

- Por que justo a sua parte boa apareceu agora? - indago, afinal.

- "Ele" é força bruta, violência. Como não conseguiu lidar com a situação apenas socando você, teve de dar lugar a mim.

Estou surpreso. Poderia esperar ser atacado por golpes, mas não a vinda da face benéfica de meu irmão. Afinal... não foi ele a quem intentei atingir. De súbito, ele se levanta e vira as costas para mim.

- Adeus, Kanon. Não é certo agüentar tanta traição. Primeiro, a Atena. Depois, a mim através de minha outra faceta. E enfim, com a sua intendente. Não posso mais tolerar semelhante libertinagem!

Um gosto amargo invade minha boca. Saga me deixará? Se ainda fosse a sua contraparte má... mas a boa não tem culpa alguma nisso. Não...! Em nome da inocência dele, do irmão que primeiro me conquistou, me fez amar pela primeira e única vez... ele pode e deve saber da verdade!

- Saga, espere!

- Não adianta. Eu não voltarei atrás.

- Não... não estou pedindo para que o faça. Apenas quero que me escute!

- O que ainda tem a proferir? Vai tentar se desculpar, dizendo que tudo não passou de uma aventura?

- Não... escute, foi um jogo. Uma cilada! Para eu fazer minha vingança contra o ser que você tanto abomina...

- Não sabia que caso o atingisse, atingiria a mim também? Que se o traísse, trairia a mim também? Francamente! Estou cansado de tolerar seus abusos!

- Você não entendeu! Eu não disse tudo!

- Não há mais o que ser dito. Sequer uma explicação plausível para o que fez, pois ela não existe! Tenho meus brios, e penso que seria vergonhoso a mim continuar a seu lado.

- Escute, eu não o traí! Foi tudo uma ilusão! Não era eu quem estava com Tétis!

Meu irmão, é claro, não acredita. Ri, um riso abafado e cético, e vai embora.

Diabo!! Como o ser humano consegue ser tão irracional e imediatista? Eu deveria ter imaginado que ele, até mesmo em sua face boa, me repudiaria! É um fato óbvio! Mas eu não o calculei... e o gosto da vingança acabou sendo mais acre do que eu esperava.

OoOoOoOoOoOoOoO

É de manhã. Dormi não sei como na noite passada. Não lembro... a última coisa da qual recordo é eu ter sido rechaçado por Saga. Levanto-me, envergonhado como uma criança a qual acaba de ser repreendida.

Ando pelos cômodos de minha ampla residência, ainda atordoado pelo sono. De súbito, meus olhos pairam sobre... a figura de Saga, deitado no sofá da sala.

- Saga... o que será que faz aqui?!

Uma centelha de esperança acende-se em meu peito. Se ele dormiu aqui, é porque ainda mantém algum vínculo comigo...

Não perco tempo. Visto-me para sair e me dirigo à morada de Tétis. As casas aqui não têm a privacidade do mundo lá fora; eu, como dirigente maior na hierarquia do Templo Marinho, tenho acesso direto a todas elas. Entro na casa da jovem, sem fazer barulho para não ser percebido, e constato que ela ainda dorme na cama, ao lado de seu... amante. É essa a hora!

Volto imediatamente para casa e acordo meu irmão. Ele, no início, se mexe porém sem despertar ou dar mostras de consciência.

- Kanon... hum...

Sem resistir, beijo-o nos lábios, profundamente, intentando acordá-lo mais rápido. Ele desperta de súbito, repelindo a minha pessoa ao lembrar dos aconecimentos da véspera.

- Deixe-me ir, Kanon! Não ouse tocar em mim outra vez!

Meu gêmeo levanta-se, a roupa amarrotada, os cabelos despenteados, fazendo menção de sair assim mesmo. Eu o tomo pelo braço, numa súplica muda.

- O que há, Kanon? Já não deixei bem claro que...

- Apenas uma coisa! Apenas uma! Uma única! Dez minutos é o tempo que lhe peço. Após ele, caso os fatos por si só não o satisfaçam, pode ir embora e nunca mais dirigir um único olhar a mim!

- Fatos...? O único fato constatado por mim foi o de sua traição ontem à noite!

- O Mestre das Ilusões, Saga de Gêmeos, não admite que vez por outra as imagens mostram o que não é verdade?

Tal abordagem o faz refletir. Vejo uma centelha de dúvida no azul de seus olhos, e antes que ele suma, tomo-o pelo braço e levo para um local no qual possamos ver a janela do quarto de Tétis, através da qual ele viu tudo acontecer. Dentro da alcova, a moça ainda dorme... ao lado de um homem cuja aparência é igual à minha. E à de Saga, inclusive. Surpreso, ele diz:

- Ou nós temos mais um irmão gêmeo, ou...

- Ou é outra pessoa ali presente.

- Como posso ter certeza de que o homem disfarçado de Kanon é ele, e não você?

- Acha que ele possa ser o verdadeiro Kanon, e eu o falso? Pois bem, olhe com atenção para o pescoço dele.

- O que tem demais?

- Nada, não é? Olhe agora para o meu.

Mostro-o a meu irmão, e ele vê o arranhão de ontem, já com o processo de cicatrização em andamento.

- Vê? Ele nada tem. Sua arte é eficiente, mas não exata a ponto de copiar cicatrizes e feridas.

- Hum... então quer dizer que ele é... um ilusionista? Lymnades! Não acredito!

Sorrio, acenando afirmativamente com a cabeça.

- Não é possível! Olhe até que nível a sua baixeza chegou! Fazer com que um outro homem se passe por você apenas para exercitar sua vingança, e me enganar como se eu fosse um tolo?!

- Não foi a você que eu quis enganar, lembre-se! Foi ao outro Saga.

- Não importa, é horrível! Sem contar a moça, a qual pensou ter dormido com um, e na verdade o fez com outro!

- Ela mereceu. Lymnades era apaixonado por Tétis, mas ela simplesmente o ignorava alegando ser ele... feio. Após algum tempo e observação, percebi uma certa atração da parte dela por mim. Juntei, portanto, minha sede de vingança com a solução do problema de meu subordinado: ora, ele a amava! Ela trazia como objeção apenas o fato de ele não ser fisicamente belo. Pois então! Dei consentimento para o uso de minha imagem, já que a ninfa desejava-a tanto.

- E... se ela descobrir que se deitou com o ilusionista, em vez de com você?

- Deixe; isso eles resolvem entre si! O que quero saber é sobre nós dois. Verdadeiramente me deixará, ou não?

- Bom... você não me traiu, mas foi um tremendo canalha.

- Se quiser ir... pode fazê-lo, embora tal ação apenas venha a destruir minha alma.

- A minha já está destruída faz tempo. Portanto, Kanon... mantenha sua alma intacta; faça-a viver por mim... para que ela faça jus à minha também.

Um beijo doce e quase involuntário ocorre entre nós. Fecho os olhos para senti-lo melhor. Subitamente, sinto o ósculo tornar-se mais intenso. É o mesmo modo de beijar... porém com outra nuance.

Abro os olhos e vejo-o novamente. Os olhos rubros, os cabelos negros, a maldade destilada por cada traço de seu rosto.

- O que... o que faz aqui?! O "lado bom" de Saga disse que você não conseguiria lidar com...

- Agora sei que você na verdade não passou a noite com ela. Tolo! Não vai escapar de mim tão facilmente!

A contraparte maligna de meu gêmeo toma-me para outro beijo, desta vez mais enérgico ainda, aproveitando-se da comodidade que o local oferece por ser um tanto quanto recôndito.

- Para quem estava querendo me ver morto ontem... – gracejo, sorrindo.

- Não pense que tudo vai ficar assim! – ele diz, num tom falsamente ameaçador – Quis executar a sua tola vingança, mas quem vai desforrar-se sou eu...

Vamos até meus aposentos outra vez, e eu comprovo o efeito que a minha provocação fez nele: está animado, desejoso de mim, com o sangue revigorado... bem! Sou obrigado a concordar com meu irmão sobre isso. Uma provocação, assim como uma vingança, sempre é bem vinda... mas é necessário estar preparado para lidar com as conseqüências de ambas depois.

FIM

OoOoOoOoOoOoOoO

Vocês pensavam mesmo que eu faria o Kanon trair o Saga? Rs... peguei vocês, hein!

Um dos indícios que seria outra pessoa no lugar do Kanon seria a suspensão da narração em primeira pessoa, o POV, para passá-la à terceira. Enfim! Penso em fazer uma side story com o Lymnades e a Tétis. Quem sabe ela não corresponde ao amor dele enfim... xD Ei, que é que vocês estão olhando? Aparência não é tudo, e ele pode assumir a que ele quiser! Rs...

Beijos a todos e todas!