Residência Minamino
Na casa de Kurama, todas as luzes estavam apagadas. Quando entraram, Kurama viu um bilhete em cima da mesa. Shuichi foi passar a noite na casa de um amigo e os pais tiveram que ir às pressas para Nagano (1), pois a tia ficara muito doente.
- É, parece que a casa está vazia... Você quer ir tomar banho? Eu vou ver se consigo alguma coisa pra janta...
Às 23 horas, foram para o quarto. Kurama percebeu o olhar distante de Hiei, que estava olhando a Lua. Kurama o abraçou pro trás e cochichou em seu ouvido:
- Você está feliz, não está?
- Estou.
Hiei colocou as mãos nas de Kurama. Depois de um tempo em silêncio, Hiei continuou:
- A verdade que Mukuro me mostrou foi que eu não tinha ódio, mas saudades da minha terra natal; a verdade que Yusuke me mostrou é que eu tenho amigos no quais posso confiar (embora eu não vá admitir); a verdade que Yukina me mostrou é que é bom viver, apesar das dificuldades, pois sempre terá alguém que chorará a nossa morte... E a verdade que você me mostrou... Eu posso ser "especial" pra alguém? Porque você é o único "especial" pra mim... Não é o mesmo sentimento que eu sinto pela Yukina ou pelo Yusuke... Somente quando você me abraça, eu me sinto amado por alguém... O que eu sinto por você... É amor? Será que é isso que chamam de amor?
As palavras de Hiei surpreenderam Kurama. Hiei continuava a olhar para a Lua, mas estava visivelmente tímido. Kurama se pôs na frente de Hiei e disse:
- É a mesma coisa que eu sinto por você... Sim, eu gosto de chamar de amor, porque eu te amo e ninguém vai mudar isso...
Hiei abraçou Kurama fortemente, afundando em seu peito. Kurama o afastou e o olhou diretamente nos olhos. Hiei pôs as mãos no rosto de Kurama e o fez fechar os olhos. Então, eles se beijaram demorada e apaixonadamente e ficaram deitados no chão, iluminados pelo luar. Hiei ficou sério de repente. Estava deitado sobre Kurama e uma de suas mãos agarrava a camisa dele, como se tivesse medo de perde-lo.
- Kurama, eu... Terei que voltar pro Makai... – ele se sentia triste, e triste Kurama também ficou ao ouvir Hiei. Por que partir agora? – Eu tenho que terminar algumas tarefas, avisar ao Enki que não farei mais parte da patrulha de fronteira e também... Quero encontrar Yui e perguntar a ela tudo sobre minha mãe, como eu nasci, sobre a infância de Yukina...
Kurama deu um suspiro de compreensão:
- Eu entendo...
Hiei o interrompeu e lhe entregou uma das lágrimas que tinha, a que sua mãe havia derramado no momento em que ele havia nascido:
- Tome, é pra você... Mas é só um empréstimo, porque um dia eu voltarei e é bom que você esteja com ela...
Kurama sorriu e pôs o colar no pescoço:
- Estarei esperando... E não se preocupe, cuidarei em dela!
- Quando eu resolver tudo e voltar, vou morar com a minha irmã lá na casa de Genkai e terei meus olhos sempre em você... Não se esqueça!
Kurama o beijou:
- Não seja bobo... Por quem eu te trocaria? – Hiei o olhou como se o estivesse interrogando – Se você está pensando em Yomi, pode ficar tranqüilo... Ele e Shura estão bem longe... Além disso, acha mesmo que ele é rival pra você? – Foi a vez de Kurama ficar desconfiado – Eu é que devia ter esse ciúme, afinal, ela está no Makai...
Hiei puxou Kurama em sua direção e o abraçou fortemente:
- E você acha que Mukuro é uma ameaça? Nem que ela fosse o último ser restante em todos os mundos eu me envolveria com ela... Eu já te prometi isso, não foi? E você continua cismado...
Kurama cochichou na orelha de Hiei:
- Obrigado – que foi seguido pro uma leve mordida.
Hiei o abraçou, deu um último beijo em seu pescoço e saltou pela janela. Kurama correu para o jardim e viu o vulto de Hiei desaparecer na frente da bela Lua:
- Até mais, eu estarei esperando, meu querido Hiei... Eu só me sinto "especial" quando você está aqui...
-------------------------------------------------------------------------------------------
A rua estava silenciosa e um pouco escura, mas Kurama distinguiu duas silhuetas. Estavam caminhando abraçados e Kurama pensou que fosse um casal qualquer, mas ao se aproximarem um pouco mais, percebeu que eram Yusuke e Kuwabara.
- Então é assim que vocês estão relaxando nessa semana, meus amigos?
Eles ficaram meio surpresos antes de reconhecerem a voz e um pouco tímidos após perceberem quem havia falado:
- Kurama?! – os dois falaram juntos.
- Não precisam ficar intimidados... É que vocês estão na frente da minha casa. – Ele sorriu.
- E o que você está fazendo do lado de fora, o essa hora da noite? – perguntou Kuwabara, ainda tímido e um tanto atrapalhado.
- É que eu estou sozinho em casa e, como não conseguia dormir, vim pra cá, daí vi vocês passando.
Yusuke viu o cordão no pescoço de Kurama e tinha certeza que ele não o estava usando da última vez em que se encontram, uns três dias atrás:
- Mas pelo jeito tinha visita em casa até pouco, não?
Kurama continuou sorrindo e concordou, abaixando a cabeça:
- De fato... Vocês não querem entrar e tomar um chá quente?
- A gente agradece, mas não precisa, não... Até domingo!
----------------------------------------------------------------------------------------------------
Três anos se passaram. Kurama estava trabalhando na empresa de seu padrasto, pois tinha decidido não ingressar na universidade. Sempre olhava pro colar que Hiei lhe dera, sempre esperava...
Era verão, as cigarras estavam mais barulhentas que o normal. Chegou em casa, não havia ninguém, mas havia um recado na secretária eletrônica. Ouviu a mensagem e apressou-se em deixar um bilhete para os pais. Apagou o recado da secretária e correu para pegar o metrô.
Quando chegou a casa da mestra Genkai, Yusuke, Kuwabara, Koenma e Botan já estavam lá. Linku e os outros traziam bebidas e comidas diversas até o centro da sala, mas nem sinal de Yukina. Kurama juntou-se aos amigos e conversaram alegremente. Yukina entrou na sala e todos se sentaram. A garota começou a falar:
- Desculpe chamar a todos repentinamente, mas eu queria muito comemorar, pois meu irmão voltou!
Assim, Hiei entrou na sala, espantando apenas Kuwabara, o único que não sabia da história. Então todos comemoraram. Depois de um tempo, Hiei foi para o jardim e Kurama o seguiu:
- Finalmente você voltou... Vai morar aqui mesmo?
- Sim, Genkai me convidou e assim eu fico perto da Yukina... – Ele ficou um pouco sério – Você estava certo, Kurama... Esse tal 'amor' deixa as pessoas mais fortes... Eu consegui voltar graças a Yukina e a você...
Hiei se aproximou de Kurama e o beijou, mas apaixonadamente do que nunca:
- Agora, nunca mais tiro meus olhos de você!
Owari
(1) Nagano é uma cidade localizada na parte nordeste de Honshu, a maior ilha do arquipélago japonês.
