Disclaimer: Rurouni Kenshin não me pertence, não é de meu interesse usar a historia, e os personagens de Nobuhiro Watsuki para fins comercias e lucrativos.

"Reminiscências"

Capítulo 2 – Dúvidas.

"Shima era extraordinário, acho que eu nunca conheci outro garoto como ele. Era pequeno. Seu desenvolvimento físico estava atrasado perto dos outros garotos de sua idade, mas isso nunca foi um problema para o menino elétrico que ele era. Nem sequer se incomodava por usar óculos, mesmo que os outros garotos caçoassem dele... Na verdade, ele ficava todo convencido porque meu pai mandava fazer os óculos especiais para ele em outra cidade." Kaoru sorriu, se lembrando do rostinho serelepe do menino quando queria aprontar alguma arte. Ela respirou fundo e continuou tirando mais algumas flores perfumadas e coloridas de dentro do balde com água.

A fumacinha dos incensos tomava conta do ambiente, enchendo o ar com um cheiro doce. Kaoru continuou a recitar suas lembranças.

"Bom, por isso papai não insistiu que ele fosse o sucessor no estilo Kamiya Kasshin. Shima estava mais para cientista do que para qualquer outra coisa. Sua inteligência era impressionante. Você acredita que quando ele nasceu, os médicos estavam desacreditados? Disseram que ele só vingaria por milagre. Minha mãe ficou meio paranóica com a saúde de Shima, mas nada mais sério do que uma gripe forte aconteceu durante a vida dele. Ele era uma criança frágil, mas todos estavam lá para protegê-lo de qualquer... mal." Com os olhos cheios de lagrimas, ela não pode mais continuar. Passou um pano úmido no nome escrito na parte superior da lapide:.

"Ahh... Bem melhor agora, não acha? Parecia que eu não vinha aqui há séculos."Kaoru se levantou. "Obrigada por escutar a minha historia, mas todos no dojo devem estar preocupados comigo... eles ainda não sabem dessa historia que eu te contei meu amigo." Kaoru olhou mais uma vez para os três túmulos, seu pai, sua mãe e seu irmão. Os três lado a lado.

"Miauu..." O gatinho se espichou, espreguiçando-se. Essa foi a única resposta que Kaoru obteve de seu paciente amigo. O bichano escutou toda a historia aconchegado ao seu lado.

"Olha, eu agradeço a atenção, mas eu nunca fui a maior fã de cães e gatos, entende?" Kaoru pegou o gatinho, levantando-o até a altura do seu rosto, para que pudesse ver a carinha dele. "Apesar de que você é tão bonitinho... Shima ia gostar de você"

"Miauuuu..." Manhoso, o filhotinho fechou os olhos, ronronando.

"Ai..." Kaoru sentiu seu peito apertando com a idéia de abandoná-lo ali, com o tempo chuvoso e frio como o daqueles dias. "O dojo já está cheio de gatos mesmo, o Kenshin fica dando comida para metade da população felina de Tókio. Vamos embora logo, mas não conte essa historia para ninguém, pelo menos por enquanto, ok?..."

Como era de se esperar, o gatinho respondeu miando. Kaoru se curvou mais uma vez nos túmulos de seus amados pais, agradecendo por tudo que fizeram por ela, e rezando para que suas almas estivessem em paz.

Fez o mesmo no túmulo de Mishima Kamiya, mas lá, um vento gelado fez com que se arrepiasse e ela não se demorou. "Mais uma vez meu querido irmão, eu sinto muito por todo o mal que te aconteceu e... Shima... sinceramente, peço perdão por ter te deixado sozinho na floresta justo quando você mais precisava de mim... Descanse em paz." Ela fechou os olhos e rezou por ele.

Uma intensa chuva caia sobre Tókio naquele dia, a semana toda estava cinzenta e sombria. Em raros momentos, no meio da tarde, os raios de sol conseguiam atravessar as nuvens negras, e a chuva dava uma merecida trégua, o que era bom porque a umidade não permitia que as roupas secassem por completo, e o quintal do dojo havia se tornado uma enorme poça de lama a maior parte do tempo. Isto deixava as crianças extremamente descontentes, por não terem onde brincar. Suzume e Ayume aprontavam travessuras dentro de casa, mas sem a energia de sempre. A monótona tranqüilidade tomou a cidade e o dojo Kamiya também, já que até mesmo o inquieto Yahiko estava gripado e febril, e não podia treinar.

"Onde ela está?" Com um olhar sério e compenetrado, Kenshin se perguntava aonde Kaoru poderia ter ido tão cedo. De dentro do quarto da jovem mestra, ele observava a chuva pela pequena janela, a cortina estampada balançando para dentro do quarto por causa do vento. O ruivo fechou os olhos inalando o rastro do delicado perfume que circulava pelo ar, vindo do cobertor dela.

Kenshin havia passado a noite ao lado de Kaoru, velando silenciosamente enquanto ela descansava. Durante toda aquela sinistra noite, ela teve terríveis pesadelos, chamando insistentemente por 'Shima'. Pouco antes de amanhecer, Kenshin se entregou ao sono, o que o fez perceber que não era mais o mesmo Hitokiri Battousai do passado, que a idade estava pesando em suas costas. .../...O inverno promete ser rigoroso esse ano.../... Foi tudo o que pode pensar antes de sentir o calor de um cobertor ao seu redor, e adormecer profundamente como tão raras vezes acontecia.

Muito tempo depois, ao despertar, Kenshin deslizou a porta do quarto de Kaoru deparando-se com Yahiko sentado no degrau da varanda, observando desolado a insistente chuva. "Bom dia, Yahiko. Por acaso sabe dizer aonde a senhorita Kaoru poderia ter ido tão cedo?"

"Boa tarde, Kenshin, a Fei..., Kaoru foi até o centro da cidade comprar os ingredientes para o jantar." Yahiko se levantou. "Ela não quis que eu a acompanhasse porque eu estou com essa febre" O menino acrescentou em meio a espirros.

"Oro... Jantar? Mas este servo nem preparou o almoço e ela já está preocupada com o jantar?" Kenshin estava confuso.../... nós havíamos combinado de ir a cidade juntos, pensei que Kaoru fosse me esperar.../... Parecia desapontado.

"Kenshin, seu tonto, devem ser umas três horas da tarde. Eu não sei o que você e a Feiosa ficaram fazendo a noite passada, mas os dois acordaram tarde. Eu mesmo tive que preparar o café da manhã." Pela feição de Yahiko, o café não tinha sido uma experiência agradável.

"Três horas? Este servo não percebeu..." Kenshin não costumava dormir até tarde, havia passado centenas de noite em claro e nunca perdeu a hora do café da manhã. Ele se deu conta que sua percepção não era mais a mesma. Talvez não tivesse dado a devida importância ao alerta de Megumi quanto ao deterioramento de seu condicionamento físico. Ou seria outra coisa? .../...Talvez... Essa manhã ela tenha confortado minha alma de tal forma que me fez sair daquele eterno estado de alerta.../...

"Ah não esquenta, a Busu deve estar de volta a qualquer minuto. Ela disse que não ia te chamar porque você tinha que resolver o problema da pilha de roupas que não secam. Ah, sua porção de café da manhã está na cozinha."

"Obrigado Yahiko." Disse Kenshin, pensativo, pegando o caminho da cozinha enquanto Yahiko ia em direção ao quarto. .../...Mas quem é Shima? Que segredo é esse que perturba tanto Kaoru?.../...

"Aeee povo, cheguei pra filar uma bóia." Sanosuke apareceu escancarando os portões do dojo. Ele também tinha a aparência de quem tinha passado a noite em claro, mas era de se esperar, o lutador costumava trocar o dia pela noite em casas de jogos e outras coisas impróprias.

"Ah Sanosuke, este servo gostaria de ter uma conversa particular com você. Seria possível?" Kenshin o chamou para a cozinha e este aceitou prontamente.

"Tô sabendo... é sobre você ter passado a noite no quarto da Jou-chan, né? A cidade inteira já sabe a essa altura." Sanosuke passou o braço no pescoço de Kenshin, felicitando o amigo por ter 'tirado a sorte grande na noite passada'.

"Oro" Os olhos do ruivo se esbugalharam surpresos, mas logo voltaram ao normal, olhando seriamente para o amigo. "Não é o que você está pensando..."

"Eu sei, tem alguma coisa acontecendo." Sanosuke entendeu o recado e também se tornou sério, começando imediatamente a contar o que Tae havia lhe falado sobre o passado de Kaoru, quase nada, uma vez que a dona do Akabeko só respondia as perguntas de forma evasiva, obviamente tentando proteger o segredo da amiga.

Kaoru voltava sozinha para casa imersa em seus pensamentos. Tinha acabado de entrar na estradinha de terra que era o caminho de volta para o dojo, trazendo consigo os ingredientes para o jantar daquela noite. Por mais que não tivesse vontade de permanecer fora de casa naquele tempo horrível, não agüentava mais ficar no dojo relembrando os pesadelos da noite passada. Ela não queria pensar no assunto, não que tivesse deixado de amar Shima, mas encontrar sua alma vagando pelo corredor de madrugada, era no mínimo traumatizante.

A ida ao cemitério tinha-lhe trazido um pouco de paz como sempre fazia. Ela sorriu para o gatinho que compartilhava seu braço com um velho guarda-chuva e pô-se a pensar novamente. Além de Shima, ela tinha se dada conta de uma coisa: aquela manhã havia sido especial e ela precisava refletir um pouco sobre isso...

flashback

A manhã estava fria e úmida, como nos outros dias daquela semana. Ela podia ouvir a água da chuva escorrendo pelas calhas. Seus olhos ardiam, lacrimejavam e seu corpo doía. Kaoru sentia-se como se tivesse estado em uma grande luta ou um treino muito pesado. Talvez estivesse ficando gripada como Yahiko. Abriu os olhos e resolveu se levantar. Apesar de não sentir o cheiro gostoso da comida de Kenshin no ar imaginava que já devia ser tarde. Apoiou-se com sua mão direita no futon.

"Aiiii." Sentiu dor ao colocar o peso de seu corpo sobre a mão direita. Só então ela se lembrou do corte que havia ganhado na noite passada. Balançou a cabeça espantando as lembranças do que tinha visto antes de se cortar.../...Chega disso, por favor.../...

"Rrrrrrrrr." Kaoru escutou um ronco. "Que barulho é esse???" Abriu os olhos espantada, percebendo que não estava sozinha no quarto. Arregalou os olhos quando viu Kenshin sentado ao seu lado, em sua habitual posição, com as costas apoiadas na parede.

"Kenshin? O que está fazendo aqui?" Kaoru até tentou ficar brava com aquela invasão em seu espaço, mas percebeu que o ruivo ainda estava dormindo e... que estava roncando.

"Hihihihi, quem diria, Battousai o lendário retalhador roncando." Kaoru esqueceu de seu pesadelo e gargalhou baixinho quando Kenshin roncou um pouco mais alto. Era impossível ficar zangada com ele. A presença de Kenshin na noite passada havia sido um alivio, um bálsamo. Um dia gostaria de ser capaz de dizer o significado que esse homem incrível tinha em sua vida.

"Você é... maravilhoso "A voz de Kaoru era um suspiro. Ficou tentada em tocar o rosto dele, mas um leve movimento de suas mãos foi o bastante para que Kenshin se mexesse.

Kaoru se lembrou de como Kenshin fora importante na noite passada e resolveu não incomodá-lo. Colocou um cobertor nos ombros dele, e ele se aconchegou,encolhendo-se mais. Kaoru sorriu. Ela percebeu que Kenshin estava verdadeiramente tranqüilo ali, o que era um ótimo sinal.

Fim do flashback

.../...Kenshin não se alarmou quando eu coloquei o cobertor ao seu redor... Será que foi só o cansaço, foi o esgotamento físico que Megumi disse que ele teria ou será ele sente mesmo paz verdadeira quando está comigo?.../...

Depois de todas as lutas e todo sofrimento ele não dava sinais de que pretendia passar tão breve para o próximo degrau. Uma declaração de amor parecia um sonho. Ela não tinha certeza de se era só uma ilusão ou se era verdade que ele a amava. Mas Kenshin estava ao seu lado em todos os momentos, ela tinha que acreditar que isso significava algo mais.

Kaoru não sabia se estava enxergando mais do que realmente existia porque os sinais a confundiam. E Tae fazia questão de confundi-la ainda mais. Segundo a dona do Akabeko, Kenshin estava complemente apaixonado por ela, mas...

.../... Mas por que ele não diz nada? Provavelmente Tomoe ainda deve um lugar especial e grande demais dentro de seu coração... Mas... Também depois do ela fez por ele... Kenshin deve me ter como uma irmãzinha. Será só isso?.../...

Kaoru estava tão imersa em seus pensamentos que não notou a enorme poça de lama que estava em seu caminho.

"Uouuuuu" Ela deu um pulo. Entre segurar o guarda-chuva e o gatinho e a sacola de papel apoiada no braço esquerdo, ela escolheu a mão direita e a sacola frágil se rasgou. E lá se foram o peixe, os rabanetes e outros legumes, perdidos no meio da lama.

"Mas que drogaaaa." Ela xingou alto, enquanto tentava recuperar alguma coisa para a jantar. O tofu não tinha mais salvação. Ela olhou para trás e para os lados. Pelo menos ninguém tinha visto a tragédia, um pouco menos constrangedor.

.../...Ficar no mundo das nuvens é muito perigoso... Só se dê ao luxo de fica sonhando quando estiver em casa. Kaoru IDIOTA.../...Ela deu algumas pancadinhas de leve na própria cabeça. A barra de seu kimono estava tão arruinada quanto suas compras e o gato começava a sacudir-se feito louco tentando livrar-se do aperto de sua mão que tinha ficado mais forte com a raiva.

"Calminha, bichano", ela tentou acalmá-lo e foi então que escutou um choro. A principio pensou que fosse só sua imaginação, mas o barulho não desapareceu, pelo contrário, pareceu ficar ainda mais alto.

"Quem está ai?" A pessoa chorando parecia estar em algum lugar no meio das arvores que margeavam a estradinha. "Tem alguém ai?" Ela gritou novamente. Ninguém respondeu, mas o choro não morreu.

.../...Não acredito que pode ser outro FANTASMA, por favor, que não seja, que não seja.../... Kaoru ela se arrepiou inteira. Sentiu um frio na barriga. Seus pés começavam a paralisar de medo.../... Mas, e se fosse alguém precisando de ajuda? Eu preciso superar isso.../...

A jovem shihandai do estilo Kamiya Kasshin caminhou para a margem da estradinha, tentando espiar por entre as árvores para ver se conseguia ver alguém. Um vento forte passou levando seu leve guarda-chuva para o meio das arvores. Agora seria obrigada a entrar naquele matagal pra recuperar o guarda-chuva .../...Não creio.../...

"Olá...?" Ela perguntou insegura, com a chuva apertando e molhando suas costas. E com o gatinho mais ou menos protegido em seus braços, agora quieto e tremendo quase tanto quanto ela mesma, foi entrando cada vez mais profundamente na mata.

Um homem parou nos portões do dojo Kamiya. Ele não se importava com o frio ou com o vento em sua capa preta e pesada, feita de um material impermeável. Ele parecia até mesmo gostar. Admirou o que a placa na entrada do dojo dizia por alguns minutos com um pequeno sorriso nos lábios.

"Ah... Kamiya Kasshin Ryuu, o estilo que abomina o uso da espada para a morte, pregando a filosofia da 'espada para a vida'" O misterioso homem alargou o sorriso, porém seus olhos azuis a mostra permaneceram vazios e sem expressão.

Em um tom de voz traído e inconformado, sussurrou algumas palavras para si mesmo: "A espada pela vida não foi à filosofia que Koshijirou aplicou naquela noite há dez anos atrás. Como ele não foi capaz de compreender o que foi feito por Mishima Kamiya, e o que ainda será feito por tantos outros anjos?" Ele suspirou, fazendo um sinal religioso com as mãos. A dar as costas para o dojo Kamiya, escondeu totalmente o rosto puxando o capuz da capa sobre a cabeça e colocou as mãos dentro dos bolsos, caminhando calmamente para longe dali.

Um sorriso triste acendeu-se em sua face quando se lembrou dela, ele sempre pensava nela, todos os dias, todas as horas, Kaoru Kamiya, a menina que não foi capaz de salvar. A garotinha que conhecera há dez anos atrás hoje deveria ser uma mulher, tão bela quanto a mãe, mas tão cheia de falsas qualidades quanto o pai.

Pelo caminho, ele continuou divagando, conversando sozinho em voz baixa, lamentando-se de seus erros.

Descendo a estradinha de terra, observou a tranqüila cidade de Tokyo, ainda adormecida. A umidade daqueles dias parecia funcionar como um sonífero.

.../...Ah... há tantos anos eu não caminhava por essas ruas.../... O homem parou na margem da estradinha, sorrindo e respirando o cheiro de mato que vinha dos bambuzais. Ele apreciava aquele clima, fazia com que se sentisse em paz consigo mesmo, tornando a missão que os deuses lhe confiaram ainda mais clara.

Antes de continuar, fez ainda um pedido silencioso, somente desejou que houvesse muito mais chuva, quanto mais chuva melhor.

Continua...

Olá pessoal, espero que não tenham me xingado muito por não ter atualizado esse fanfic antes. Humildemente, peço mil desculpas pela demora. A única (e verdadeira) desculpa que possa dar, é que estive estudando e trabalhando muito, e para "ajudar" fui atacada por um bloqueio criativo, que me fez escrever somente pedacinhos, e não conseguir completar um capitulo decente.

Muitooooooooo obrigada em especial para a minha amiga Madam Spooky,que pacientemente pegou os pedaços dos meus textos, juntou tudo e fez surgir o capitulo 2. Valeu, será que você aceita ticket refeição, vale transporte, ou só dinheiro mesmo pela trabalheira? ¬¬

Agradeço muito as pessoas que deixaram review e mandaram emails . Sem o sentimento de culpa por deixar essas pessoas tão legais sem uma continuação para o fic, eu não teria feito nada TT (Chibi baka) Carol Malfoy, Kaoru Himuramiya, Lili-chan, Kirisu-chan, Daí, Metabee X, Hime, Patty, Dayzinha, Bruna, lere, Pri, Bianca, Letícia, Luisa, Krol, Rafa Himura, Yuki Sagara. Gente, valeu , até o próximo (não vai demorar tanto pra sair) . Chibis