Disclaimer: Rurouni Kenshin não me pertence, não tenho interesse em usá-lo
para fins lucrativos e comerciais.
"Reminiscências"
Capitulo 3- Sim, coisas estranhas acontecem...
Na estradinha de terra...
Kaoru continuava a ouvir um lamento. Parecia um murmúrio... Ela tinha a impressão de que era uma mãe chamando pelo filho perdido naquele matagal. Mesmo amedrontada, a jovem shihandai do estilo Kamiya Kasshin caminhou na direção dos gemidos. O vento forte e gelado fazia seu cabelo esvoaçar, seu frágil guarda-chuva ia cada vez para mais longe.
Os pelos dos braços de Kaoru estavam arrepiados. O mato ali era bem alto, e ela não podia mais enxergar exatamente onde estava pisando. Uma sensação incômoda subia por suas pernas, como se algo estivesse dando voltas debaixo daquele capim, prestes a atacar seus pés. Ela odiava aquela sensação.../...Ratos.../... Engoliu em seco, respirando fundo e fechando os olhos.
Mais uma vez ouviu aquela queixa, que agora estava em um tom um pouco mais elevado. "Ahh... não pode ser. Não pode... Ahhh, meu filho, meu filho..." A voz da mulher era sofrida, engasgada. Kaoru pode reconhecer algumas palavras no meio de tantos gemidos. Elas diziam respeito ao filho daquela senhora.
"Quem está ai?" A "mulher" chorando estava em uma clareira bem no meio do matagal. "OLAAA, vamos diga o que esta acontecendo. Eu posso te ajudar, que tal??" Kaoru gritou novamente. Não obteve uma resposta exata, só mais um punhado de soluços.
"Miau" O gatinho estava inquieto, tentando se livrar do aperto dos braços de Kaoru. Ela deu alguns passos para trás de volta às árvores, colocando-o no meio das raízes das arvores que margeavam a estrada. "Fique aí" Ela sussurrou, e em seguida, em uma posição defensiva, embrenhou-se novamente no matagal. Esperto, o gatinho ficou encolhido como uma bola, esperando sua nova dona retornar.
"Senhora, não precisa ter medo, eu não vou te machucar... Seja lá quem você for, ou o que for." Essa última parte da sentença disse pra si mesma, com os lábios semi-cerrados, na face uma expressão temerosa. Kaoru tentava passar segurança, mas não estava sendo convincente nem para si mesma, ela mesma tremia tanto quanto o galho das árvores que balançavam quando o vento soprava furiosamente.
Alguns passos e Kaoru tinha capim até a cintura. O chão de terra estava escorregadio e cheio de buracos; ela se precaveu para não torcer o tornozelo em um buraco qualquer. Olhando para trás, procurou encontrar se tinha alguma outra pessoa por perto, mas não encontrou ninguém. O gatinho tinha ficado longe, provavelmente devorando os peixes arruinados que ela havia comprado para o jantar. A essa altura isso já não importava.
Então finalmente chegou a uma clareira, onde o mato era ralo. Ela descobriu quem chorava tão amargamente.A mão de Kaoru voou para seus lábios, cobrindo o 'O' que havia se formado. Em seus olhos, nuvens escuras se formaram fazendo com que lágrimas, tão grossas quanto os pingos de chuva, começassem a cair.
Era isso...
Uma mãe ajoelhada, em seus braços uma criança ensangüentada. Ela chorava desiludida. Como sua própria mãe um dia chorou. Desesperada, agarrada ao corpo frio e inexpressivo de seu filho.
A mesma cena aconteceu com de Mishima Kamiya, no dia amaldiçoado em que foi encontrado e retirando morto das profundezas do lago. Nesse dia sua mãe começou a morrer de desgosto e seu pai disse a palavra 'vingança' pela primeira vez. A cidade inteira ouviu aquele homem, até então pacifico, dizer palavras com o coração cheio de ódio.
Kaoru mexeu a cabeça vigorosamente, mas algumas lágrimas escorreram, então resolveu colocar isso de lado e foi ajudar a senhora.
"Oh meu deus, senhora, o que aconteceu?" Preocupada , a jovem Kamiya correu para perto. Percebeu que havia algo errado quando sentiu a temperatura caindo rapidamente.
O longo cabelo da mulher era um ninho embolado de nós, seu rosto estava sujo e ferido. O kimono era velho, sujo e maltrapilho. Ela se virou para Kaoru, seus olhos negros, profundos, estavam vazios. A jovem shihandai sentiu o coração apertando com tanto sofrimento.
Ela olhou para o garoto, o pequeno rosto era pálido, cheio de arranhões e pequenas escaras. Tinha aparência de ser gelado como o céu em dia de neve. Kaoru então notou o filete de sangue que escorria pelo nariz e as marcas de estrangulamento no pescoço.
Para ela foi insuportável, teve que recuar. Sua mão que estava prestes a tocar o braço da mulher voltou automaticamente para perto de seu corpo. A própria mãe tinha a mesma mórbida aparência da criança
"Quem fez isso com essa criança? Quer me contar?" Kaoru perguntou, respirou fundo, procurando não ter um colapso ali mesmo. Ela tremia.
A principio não quis acreditar que poderia ser uma visão, uma miragem. Pensou que sua mente estava tentando retornar aos acontecimentos do passado, mas aquilo tudo que estava vivendo, misturados com o encontro com Shima da noite passada, fez com que Kaoru caísse na real. Eram fantasmas.
O tempo estava chuvoso, mas não tão frio a ponto de fazer com aquela 'fumacinha' característica da respiração em dias frios, aparecesse. Kaoru sabia que aquela mulher era uma aparição, assim como aquela criança em seus braços também deveria ser. A temperatura sempre caia muito quando Shima aparecia, por isso, mesmo sem ser uma estudiosa de fenômenos, ela tinha certeza que não era natural.
Kaoru paralisou, nenhum grito saia de sua garganta.../... Na noite passada foi Shima, agora isso.../...Ela pensou, procurando uma razão para aquilo tudo.
A mulher afundou seu rosto, mais uma vez no corpo da criança, chorando copiosamente. A jovem mestra encontrou movimento em suas pernas, e, cautelosamente, deu alguns passos pra trás. A cada passo, ela via que ambos, a mulher e a criança, começavam a se deteriorar rapidamente.
"OHHHH..." Kaoru se assustou, sentindo medo inacreditável. Suas pernas não suportavam o peso do corpo, mas ela precisava começar a correr. "Eu não agüento mais." Ela deu passos para trás, mas seu braço foi puxado pela mão da mulher. As mãos frias, pegajosas, azuladas. Kaoru arregalou os olhos, vendo claramente as veias roxas, e os vasos contrastando com a pele descolorada.
"Me deixe ir... me deixe ir. Não agüento mais isso... me deixem em paz" Kaoru suplicou, seu coração acelerado.
"Ele vai voltar, esteja preparada Kaoru, não, não... OHH... Ele já está aqui..." A voz fantasmagórica da mulher foi sumindo aos poucos. "Ele já está aqui, fique atenta filha..."
Kaoru fechou os olhos... Quando os abriu, a mulher havia se transformado em sua mãe, sua própria mãe. Um segundo depois, com o vento que balançou as arvores, sua mãe havia partido, e ela se viu sozinha naquele matagal.
Um sentimento de abandono a tomou. Kaoru agarrou seu kimono com força na região do peito e gritou. Gritou tão alto e forte como nunca.
Com os lábios tremendo e o coração procurando um significado para aquilo, ela correu. Levou o gatinho junto de si, voando para a segurança do dojo. Em sua mente vieram um milhão de pensamentos, todos ao mesmo tempo.
As lembranças da visita de Shima na noite passada se misturaram ao encontro agonizante de minutos atrás. Seu coração batia velozmente enquanto corria, tropeçando e escorregando nas pedras e na lama da estradinha.
Kaoru não gostava tanto de lembrar de sua mãe. Keiko Kamiya era uma pessoa infeliz, os poucos anos de felicidade foram ao lado de Shima. Ela era muito jovem quando se casou contra a própria vontade. Ela amou sem reservas a família que tinha conquistado, mas teve seu precioso filho arrancado cruelmente de seus braços. O suicídio por overdose de ópio de Keiko quase não foi uma surpresa. Apesar de Kaoru só descobrir a causa da morte de sua mãe quando já era uma adolescente. Era mais uma tragédia anunciada da família Kamiya. Uma que Kaoru não conseguia entender e perdoar. Sentia-se magoada por não ter sido capaz de dar felicidade a sua mãe, ela então pensava como o seu pai deveria se sentir...
Se sua nova família soubesse de tudo... Seria escandaloso. Descobririam o motivo de Kaoru insistir em acreditar que o passado de uma pessoa não importa nem um pouco.
A chuva engrossava cada vez, assim como as lágrimas em seu rosto e a dor que aumentava a cada pensamento. O bichano só podia miar triste, sentindo a agonia de sua nova dona. Kaoru não agüentava mais caminhar e caiu de joelhos quando chegou na frente ao dojo Kamiya. Em seu colapso infalível, encontrou algum conforto nos braços do apavorado Kenshin que a socorreu prontamente.
Depois disso, desmaiou. Só ouvia murmúrios e as vozes preocupadas ao seu redor. "Kaoru está bem? Senhorita Kaoru? Jou-chan..." Ela não sabia nada, não tinha mais certeza de nada.
~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*
Kenshin estava sentando na escadinha que levava ao banheiro. Se levantou quando viu Megumi saindo. Assim que Kaoru voltou a si depois da crise nervosa, a médica sugeriu que ela fosse tomar um banho, para relaxar e tirar a lama que estava impregnada em seu corpo.
"Então senhorita Megumi?." Megumi fez um gesto com as mãos pedindo calma. Kaoru não se abriu com a médica, mesmo depois de ter relaxado com a água quente do banho. Megumi só poderia criar suposições, pois ela mesma não entendia o que estava acontecendo.
"Paciência, Kenshinzinho, ela teve uma crise nervosa. Provavelmente causada por um forte estresse." Megumi desceu as escadas do quarto de banho, parando na varanda ao lado do espadachim. Kenshin estava sentando na escadinha da varanda, preocupado, esperando alguma resposta para suas perguntas, que não eram poucas.
"Ela vai ficar bem? Ohh este servo não deveria ter deixado a senhorita Kaoru fazer compras sozinha. E se ela foi atacada? Ameaçada? Este servo possui tantos inimigos. O que poderia ter acontecido a ela?" Kenshin colocou as mãos na cabeça, ditando as mais diversas possibilidades, sentindo-se o culpado pelo mal-estar da jovem mestra.
"Ken-san, ela está bem, sem nenhum arranhão Deixe de ser bobo, você não pode ser o ar que ela respira e estar o tempo todo com ela. Essa menina provavelmente só está cansada, com preocupações bobas na cabeça, é só. Sinceramente, eu não entendo. Kaoru não tem nenhum histórico terrível como o resto de nós, Yahiko, Sanosuke, você e eu. Deve ser só um 'piti' como dizem." Megumi, mesmo sem ter respostas, considerou o mal estar de Kaoru como algo irrelevante.
"Senhorita Megumi, não devia dizer isso sobre a senhorita Kaoru, pense bem... Ela sempre fez o melhor por todos nós, inclusive pela senhorita, lembra-se?." Kenshin não gostou do modo como a médica falou e Megumi percebeu e se afastou.
"Bom, peço desculpas pelo modo como me expressei, Kenshinzinho. Mas, em todo caso, deixe que ela tome um banho. É inviável tentar insistir em descobri qual é o problema nesse momento" Megumi acenou com a cabeça.
"Para relaxar, eu pago um jantar no Akabeko. Tenho certeza que isso vai animar a todos, inclusive Kaoru. Que tal?" A médica sorriu um tanto quanto sem graça, ainda pensando na correção que Kenshin havia lhe aplicado segundos atrás.
"Hai" O espadachim disse silenciosamente, mais preocupado com Kaoru dentro do banheiro do que com qualquer outra coisa..
Megumi caminhou em direção a cozinha, ao partir passou a mão no peito de Kenshin. O ruivo não soltou nem mesmo um "oro" pelo atrevimento da médica, sua mente tinha outros pensamentos.
*~*~*~*~*~*~*
"Shima" Kaoru olhou para cima, o vapor da água subindo embaçava sua visão. A água morna da banheira começava a ficar gelada. O banho tinha sido tão relaxante, fez com ela adormecesse e deixasse suas indagações de lado por alguns minutos. "Que dia mais estranho." Kaoru tremeu. Ela pulou para fora da banheira. Sua pele estava branca e enrugada. Por quanto tempo tinha ficado ali?
Agradeceu pelo fato de ninguém ter invadido o quarto de banho. Ainda bem que Kenshin sabia que ela gostava de banhos longos e precisava de um tempo sozinha. Sem dar respostas que ela mesma ainda não tinha.
"Eu não sabia que isso ia acontecer, para mim tudo estava resolvido. Mas... todos esses encontros significam alguma coisa muito séria." Kaoru suspirou e começou a vestir seu yukata. "E se acontecer? Eu não vou poder resolver sozinha." Ela secou o cabelo com a toalha, preparando-se pra deixar o quarto de banho. "Preciso contar."
~*~*
"Kenshin, a Jou-chan tá suspirando o nome de outro homem e falando sozinha dentro do banheiro... Por isso ela tá demorando tanto tempo lá dentro, cara. Vai saber o que ela está fazendo.Toda peladona e tal..." Sanosuke mal tinha chegado no dojo, e já estava tendo uma de suas 'brilhantes' idéias.
"Sanosuke." Kenshin rosnou o nome do lutador. "Não deveria de ficar pensando esse tipo de coisa da senhorita Kaoru."Kenshin ficou hiper vermelho imaginando Kaoru peladona, fazendo 'coisas'. Rapidamente ele voltou para o estado de 'homem-sério-preocupado-com-o-bem-estar-alheio' "Você não sabe como ela chegou aqui. Estava arrasada..."
A mente de Kenshin não pode deixar de pensar nas possibilidades. Ele precisava descobrir o que estava acontecendo. (E se Kaoru tivesse mesmo outra pessoa? Vai ver que esse tal de Shima era um amor do passado e ele foi embora deixando Kaoru sozinha. E se agora quisesse voltar? .../...Que idiota abandonaria Kaoru?...Ok...eu sou um idiota porque a abandonei uma vez.../...) Aquela despedida tinha definitivamente ficado marcada na memória de Kenshin como uma das coisas mais difíceis que ele já tinha feito na vida.
"Este servo pode ser idiota, mas está aqui com ela. E cadê o tal do Shima?" Kenshin deixou escapar um dos seus pensamentos.
"Tá falando do que, cara? Jou-chan tem um amante, não é?." Sanosuke fez uma cara estranha, e deu um murro de leve na própria mão. Só faltou ele dizer 'eureca'. Sanosuke só poderia deduzir algo desse tipo, ou coisa pior.
"A Busu tem um amante?" Yahiko estava em outro cômodo da casa e se juntou a Kenshin e Sanosuke na porta do banheiro prontamente. Claro que se interessaria pela conversa, qualquer chance de irritar Kaoru era válida, e deveria ser aproveitada.
"Tanuki tem um amante...Hohohohoho...Ela não tem nem um oficial quanto mais um amante. Não é verdade, Kenshinzinho? " Megumi também se juntou a eles, totalmente recuperada da chamada desconfortável que Kenshin havia lhe dado a alguns momentos atrás. A conversa tinha tomado um tom mais leve e humorístico e ela sentiu que podia se aproveitar. Megumi soltou umas piscadelas na direção de Kenshin, se preparando para passar os braços em volta do pescoço dele.
"ORO? Quem disse que a senhorita Kaoru tem um amante?" Kenshin tinha seus olhos esbulhagados, seus pensamentos haviam tomado uma proporção bombástica.
"Heii, Todos esqueceram o principal??" Kenshin disse isso como se fosse a coisa mais obvia do mundo."A senhorita Kaoru ter chegado daquele jeito não preocupa vocês?" Kenshin olhou para as expressões dos amigos, e elas diziam 'Kaoru está bem, por que você está tão preocupado?' Ele sabia que isso não era verdade, que a mestra do estilo Kamiya Kasshin não estava bem, mas preferiu ficar quieto, por enquanto.
"Que diabos vocês estão fofocando sobre mim? Megumi você esta enforcando o coitado do Kenshin com esse abraço, dá pra soltar ele?"Kaoru sorriu, espantando os pensamentos ruins. Seus amigos eram algo valioso demais, ela não poderia perdê-los por nada no mundo.
"Vamos todos ao Akabeko, que tal? Fui buscar o jantar, mas acabei caindo no caminho e deixei tudo lá espalhado na estradinha de lama."Kaoru saiu bem mais relaxada e disse pelo menos um pouco da verdade.
"Senhorita Kaoru, desculpe, mas este servo precisa saber. O que aconteceu?..." Kenshin se desvencilhou do abraço de Megumi e caminhou até Kaoru.
Ela pensou em uma resposta e depois de alguns segundos de indecisão exclamou não muito convincente: "Estava voltando para o dojo depois de passar no mercado quando vi o gatinho no meio do mato, eu fui pegá-lo e uma cobra quase me mordeu. Eu nunca tinha visto uma cobra tão grande. É só."Kaoru disse isso rapidamente e saiu, indo se aprontar para ir jantar no Akabeko, não permitindo que mais nenhuma pergunta fosse feita.
"Cobras. Sim, são traumatizantes... às vezes." Megumi caminhou para a saída do dojo. Rindo sem parar. Yahiko a acompanhou, sem entender o tom malicioso de Megumi e Sanosuke.
"Yep. Eu não disse? Jou-chan tem um amante." Sano indo atrás de Megumi, rindo como a médica.
"ORO" Kenshin ficou parado, com seus olhos esbugalhados. "Como podem ser tão maliciosos?" Ele esperou Kaoru para acompanhá-la até o Akabeko. A pobre não entendeu em momento algum porque seus amigos olhavam para a sua cara e riam. Não entendia também porque Kenshin estava tão sem graça.
"Ahhh..Foi algo que eu disse?" Kaoru foi se perguntando o caminho inteiro. Pelo menos ela não pensou em Shima e nos acontecimentos, enquanto estava ao lado de Kenshin, escutando Megumi e Sano se engalfinharem em suas briguinhas tolas.
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A chuva havia dado uma trégua. O pôr do sol pode aparecer um pouco no céu, colorindo as nuvens com um vermelho-laranja belíssimo, mas uma forte ventania estava fazendo tudo que era leve voar. No Akabeko, os clientes começavam a chegar para o jantar, enquanto a dona, Tae, estava parada na porta do restaurante, com as mãos na cintura, totalmente revoltada.
"De novo, nãooo" Ela fez uma cara de desgosto. As faixas de papel que faziam propaganda dos preços do restaurante estavam voando pela rua por causa do vento.
"Qual o sentido de colocar as faixas com a ventania??" Tsubame disse timidamente. Logo foi obrigada a se calar. A expressão que Tae estava fazendo naquele momento não era das melhores. "...Err...não esta mais aqui quem falou" A menina disse baixinho. Porém, a jovem não conseguiu esconder a gargalhada. Tae correndo atrás daquelas benditas faixas era muito engraçado. Seu uniforme levantava, por mais que ela segurasse a barra.
"Tsubame pare de rir. Anda, venha aqui me ajudar." Tsubame prontamente foi atrás de Tae, que estava ficando verdadeiramente irritada. O vestido da mocinha levantava tanto quanto o da dona do restaurante, e foi a vez de Tae rir da cara da menina.
Tae correu um pouco mais para longe, para aonde uma das faixas de "Sukiyaki a 1,99" tinha voado.
"Está decidido. Nunca mais eu coloco essas faixas em dia de vendaval." Uma das faixas caiu em uma poça. Quando Tae abaixou para pegar encontrou a mão de outra pessoa.
"Nenhuma promoção é tão tentadora quanto a beleza da dona do restaurante" O moço disse com uma voz macia e encantadora.
"Haa?" Tae levantou o rosto imediatamente. Ele era um homem muito bonito. Elegantemente vestido. Alto, com cabelos castanhos e olhos verdes. Lembrava um pouco o amigo de Kenshin e Kaoru, Aoshi Shinomori. A diferença é que ele abriu um radiante sorriso para Tae, coisa que Aoshi não costumava fazer.
"Ohh" Tae ficou vermelha, ela notou que a sua mão e a do estranho ainda se tocavam. "Obrigada"
"Desculpe senhorita." Ele se levantou, interrompendo o toque de mãos, mas ajudando Tae a se levantar. Ela quase desmaiou quando o homem a puxou para cima, usando sua força física extraordinária.
Abanou a pesada capa preta que vestia, fazendo com que os pingos da chuva escorressem pelo material impermeável. "Eu cheguei a pouco tempo na cidade. Estou ligeiramente deslocado. A senhorita saberia dizer se existe alguma boa pensão por aqui?" A voz dele era maravilhosa, Tae ficou admirada com o sotaque diferente, mas muito charmoso que ele tinha.
"Ahh..." Tae continuou a admirar o homem bonito. Não conseguia encontrar as palavras para criar uma resposta. Ela não via a hora de fofocar para Kaoru sobre o novo partido da cidade.../...E que partidão.../...Tae, excitada, já fazia planos.
"Que falta de educação a minha, senhorita, meu nome é Yamazato." Ele puxou a face da mão de Tae, beijando delicadamente. Tae sentiu suas pernas amolecendo.
"Meu nome é... é... Tae.." Ela engasgou algumas vezes, mas respondeu em estado de encantamento. Depois de respirar fundo algumas vezes, se recompôs.
"Aqui perto tem um hotel, eu vou lhe mostrar a localização. Mas antes entre, eu vou lhe oferecer a melhor refeição que o senhor já experimentou na sua vida. Por minha conta." Tae o puxou para dentro do Akabeko.
"Tsubame-chan, continue a recolher as faixas." Ela piscou para a menina e puxou o estranho para dentro do restaurante, essa chance ela nunca iria perder.
"Tenho certeza que será um enorme prazer." O estranho não se fez de rogado e entrou no Akabeko, passando um braço ao redor da cintura de Tae, sentindo- se muito confortável. Antes de entrar ele observou Tsubame atentamente. Seus olhos não pareceram tão maravilhosos assim. Para a menina, o olhar causou calafrios.
"Credo, Tae-san ainda vai se encrencar qualquer dia desses." A menina suspirou e continuou a recolher as faixas e panfletos espalhados pelo vento. Quando entrou no restaurante, procurou evitar contanto com o novo amigo de Tae. De algum modo, ele lembrava os homens que ela conheceu no passado, antes de encontrar Kenshin e sua turma. Tsubame desejou que fosse só uma má impressão.
Continua...
~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*
Notas:Ola pessoal, tudo bem? Olha eu aqui outra vez. Espera que tenham gostado, e que o clima não tenha ficado sombrio demais, a beira do mal gosto, ne? É que eu queria alguma coisa com um tom ligeiramente diferente do que sempre aparece nos fics de RK e que falasse de um passado sofrido para Kaoru. Bom, me deixem saber a opinião de vocês, ne ^_^
Meus sinceros agradecimentos para :
MetabeeX (Obrigada Muri, significa muito receber review dos amigos. Beijos)
Leticia Himura (oh Lê-chan, eu falei para não se preocupar com review,
mas muito obrigada por ter deixado. Não se preocupe, eu pretendo
chegar logo naquelas partes misteriosas que eu te mostrei. E eu adoro
ADORO GATOS)
Paixão (Ola, Ma, obrigada pela review, fiquei muito feliz que tenha se
interessado. Beijos e até mais)
*ChineseWitch*(fiquei muito feliz que vc tenha achado meu jeito de
escrever agradável, logo eu que sou tão tapada com português. Muito
obrigada, beijos)
Lili-chan(obrigada pelo review e pelo elogio, eu adoro essa fic, e
espero que você continue acompanhando, ne. Beijos)
Madam Spooky (Muito obrigada pelo apoio, por ter lido e revisto o
capítulo pra mim. Desculpe a enchição ^________^)
Iere(obrigada pelo review e pelos elogios, historias misteriosas são
as minhas prediletas, tanto que, pra se ter uma idéia, eu era doida
por Arquivo X . Essa série me botava pra pensar...aí eu morria de medo
de aquelas coisas poderiam acontecer comigo e parava de pensar~_~
hahahaha)
Carol Malfoy (obrigada pelo review, espero que continue curiosa, ne.
Beijos)
Obrigada por terem lido, até o próximo. Beijos, Chibis.
"Reminiscências"
Capitulo 3- Sim, coisas estranhas acontecem...
Na estradinha de terra...
Kaoru continuava a ouvir um lamento. Parecia um murmúrio... Ela tinha a impressão de que era uma mãe chamando pelo filho perdido naquele matagal. Mesmo amedrontada, a jovem shihandai do estilo Kamiya Kasshin caminhou na direção dos gemidos. O vento forte e gelado fazia seu cabelo esvoaçar, seu frágil guarda-chuva ia cada vez para mais longe.
Os pelos dos braços de Kaoru estavam arrepiados. O mato ali era bem alto, e ela não podia mais enxergar exatamente onde estava pisando. Uma sensação incômoda subia por suas pernas, como se algo estivesse dando voltas debaixo daquele capim, prestes a atacar seus pés. Ela odiava aquela sensação.../...Ratos.../... Engoliu em seco, respirando fundo e fechando os olhos.
Mais uma vez ouviu aquela queixa, que agora estava em um tom um pouco mais elevado. "Ahh... não pode ser. Não pode... Ahhh, meu filho, meu filho..." A voz da mulher era sofrida, engasgada. Kaoru pode reconhecer algumas palavras no meio de tantos gemidos. Elas diziam respeito ao filho daquela senhora.
"Quem está ai?" A "mulher" chorando estava em uma clareira bem no meio do matagal. "OLAAA, vamos diga o que esta acontecendo. Eu posso te ajudar, que tal??" Kaoru gritou novamente. Não obteve uma resposta exata, só mais um punhado de soluços.
"Miau" O gatinho estava inquieto, tentando se livrar do aperto dos braços de Kaoru. Ela deu alguns passos para trás de volta às árvores, colocando-o no meio das raízes das arvores que margeavam a estrada. "Fique aí" Ela sussurrou, e em seguida, em uma posição defensiva, embrenhou-se novamente no matagal. Esperto, o gatinho ficou encolhido como uma bola, esperando sua nova dona retornar.
"Senhora, não precisa ter medo, eu não vou te machucar... Seja lá quem você for, ou o que for." Essa última parte da sentença disse pra si mesma, com os lábios semi-cerrados, na face uma expressão temerosa. Kaoru tentava passar segurança, mas não estava sendo convincente nem para si mesma, ela mesma tremia tanto quanto o galho das árvores que balançavam quando o vento soprava furiosamente.
Alguns passos e Kaoru tinha capim até a cintura. O chão de terra estava escorregadio e cheio de buracos; ela se precaveu para não torcer o tornozelo em um buraco qualquer. Olhando para trás, procurou encontrar se tinha alguma outra pessoa por perto, mas não encontrou ninguém. O gatinho tinha ficado longe, provavelmente devorando os peixes arruinados que ela havia comprado para o jantar. A essa altura isso já não importava.
Então finalmente chegou a uma clareira, onde o mato era ralo. Ela descobriu quem chorava tão amargamente.A mão de Kaoru voou para seus lábios, cobrindo o 'O' que havia se formado. Em seus olhos, nuvens escuras se formaram fazendo com que lágrimas, tão grossas quanto os pingos de chuva, começassem a cair.
Era isso...
Uma mãe ajoelhada, em seus braços uma criança ensangüentada. Ela chorava desiludida. Como sua própria mãe um dia chorou. Desesperada, agarrada ao corpo frio e inexpressivo de seu filho.
A mesma cena aconteceu com de Mishima Kamiya, no dia amaldiçoado em que foi encontrado e retirando morto das profundezas do lago. Nesse dia sua mãe começou a morrer de desgosto e seu pai disse a palavra 'vingança' pela primeira vez. A cidade inteira ouviu aquele homem, até então pacifico, dizer palavras com o coração cheio de ódio.
Kaoru mexeu a cabeça vigorosamente, mas algumas lágrimas escorreram, então resolveu colocar isso de lado e foi ajudar a senhora.
"Oh meu deus, senhora, o que aconteceu?" Preocupada , a jovem Kamiya correu para perto. Percebeu que havia algo errado quando sentiu a temperatura caindo rapidamente.
O longo cabelo da mulher era um ninho embolado de nós, seu rosto estava sujo e ferido. O kimono era velho, sujo e maltrapilho. Ela se virou para Kaoru, seus olhos negros, profundos, estavam vazios. A jovem shihandai sentiu o coração apertando com tanto sofrimento.
Ela olhou para o garoto, o pequeno rosto era pálido, cheio de arranhões e pequenas escaras. Tinha aparência de ser gelado como o céu em dia de neve. Kaoru então notou o filete de sangue que escorria pelo nariz e as marcas de estrangulamento no pescoço.
Para ela foi insuportável, teve que recuar. Sua mão que estava prestes a tocar o braço da mulher voltou automaticamente para perto de seu corpo. A própria mãe tinha a mesma mórbida aparência da criança
"Quem fez isso com essa criança? Quer me contar?" Kaoru perguntou, respirou fundo, procurando não ter um colapso ali mesmo. Ela tremia.
A principio não quis acreditar que poderia ser uma visão, uma miragem. Pensou que sua mente estava tentando retornar aos acontecimentos do passado, mas aquilo tudo que estava vivendo, misturados com o encontro com Shima da noite passada, fez com que Kaoru caísse na real. Eram fantasmas.
O tempo estava chuvoso, mas não tão frio a ponto de fazer com aquela 'fumacinha' característica da respiração em dias frios, aparecesse. Kaoru sabia que aquela mulher era uma aparição, assim como aquela criança em seus braços também deveria ser. A temperatura sempre caia muito quando Shima aparecia, por isso, mesmo sem ser uma estudiosa de fenômenos, ela tinha certeza que não era natural.
Kaoru paralisou, nenhum grito saia de sua garganta.../... Na noite passada foi Shima, agora isso.../...Ela pensou, procurando uma razão para aquilo tudo.
A mulher afundou seu rosto, mais uma vez no corpo da criança, chorando copiosamente. A jovem mestra encontrou movimento em suas pernas, e, cautelosamente, deu alguns passos pra trás. A cada passo, ela via que ambos, a mulher e a criança, começavam a se deteriorar rapidamente.
"OHHHH..." Kaoru se assustou, sentindo medo inacreditável. Suas pernas não suportavam o peso do corpo, mas ela precisava começar a correr. "Eu não agüento mais." Ela deu passos para trás, mas seu braço foi puxado pela mão da mulher. As mãos frias, pegajosas, azuladas. Kaoru arregalou os olhos, vendo claramente as veias roxas, e os vasos contrastando com a pele descolorada.
"Me deixe ir... me deixe ir. Não agüento mais isso... me deixem em paz" Kaoru suplicou, seu coração acelerado.
"Ele vai voltar, esteja preparada Kaoru, não, não... OHH... Ele já está aqui..." A voz fantasmagórica da mulher foi sumindo aos poucos. "Ele já está aqui, fique atenta filha..."
Kaoru fechou os olhos... Quando os abriu, a mulher havia se transformado em sua mãe, sua própria mãe. Um segundo depois, com o vento que balançou as arvores, sua mãe havia partido, e ela se viu sozinha naquele matagal.
Um sentimento de abandono a tomou. Kaoru agarrou seu kimono com força na região do peito e gritou. Gritou tão alto e forte como nunca.
Com os lábios tremendo e o coração procurando um significado para aquilo, ela correu. Levou o gatinho junto de si, voando para a segurança do dojo. Em sua mente vieram um milhão de pensamentos, todos ao mesmo tempo.
As lembranças da visita de Shima na noite passada se misturaram ao encontro agonizante de minutos atrás. Seu coração batia velozmente enquanto corria, tropeçando e escorregando nas pedras e na lama da estradinha.
Kaoru não gostava tanto de lembrar de sua mãe. Keiko Kamiya era uma pessoa infeliz, os poucos anos de felicidade foram ao lado de Shima. Ela era muito jovem quando se casou contra a própria vontade. Ela amou sem reservas a família que tinha conquistado, mas teve seu precioso filho arrancado cruelmente de seus braços. O suicídio por overdose de ópio de Keiko quase não foi uma surpresa. Apesar de Kaoru só descobrir a causa da morte de sua mãe quando já era uma adolescente. Era mais uma tragédia anunciada da família Kamiya. Uma que Kaoru não conseguia entender e perdoar. Sentia-se magoada por não ter sido capaz de dar felicidade a sua mãe, ela então pensava como o seu pai deveria se sentir...
Se sua nova família soubesse de tudo... Seria escandaloso. Descobririam o motivo de Kaoru insistir em acreditar que o passado de uma pessoa não importa nem um pouco.
A chuva engrossava cada vez, assim como as lágrimas em seu rosto e a dor que aumentava a cada pensamento. O bichano só podia miar triste, sentindo a agonia de sua nova dona. Kaoru não agüentava mais caminhar e caiu de joelhos quando chegou na frente ao dojo Kamiya. Em seu colapso infalível, encontrou algum conforto nos braços do apavorado Kenshin que a socorreu prontamente.
Depois disso, desmaiou. Só ouvia murmúrios e as vozes preocupadas ao seu redor. "Kaoru está bem? Senhorita Kaoru? Jou-chan..." Ela não sabia nada, não tinha mais certeza de nada.
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Kenshin estava sentando na escadinha que levava ao banheiro. Se levantou quando viu Megumi saindo. Assim que Kaoru voltou a si depois da crise nervosa, a médica sugeriu que ela fosse tomar um banho, para relaxar e tirar a lama que estava impregnada em seu corpo.
"Então senhorita Megumi?." Megumi fez um gesto com as mãos pedindo calma. Kaoru não se abriu com a médica, mesmo depois de ter relaxado com a água quente do banho. Megumi só poderia criar suposições, pois ela mesma não entendia o que estava acontecendo.
"Paciência, Kenshinzinho, ela teve uma crise nervosa. Provavelmente causada por um forte estresse." Megumi desceu as escadas do quarto de banho, parando na varanda ao lado do espadachim. Kenshin estava sentando na escadinha da varanda, preocupado, esperando alguma resposta para suas perguntas, que não eram poucas.
"Ela vai ficar bem? Ohh este servo não deveria ter deixado a senhorita Kaoru fazer compras sozinha. E se ela foi atacada? Ameaçada? Este servo possui tantos inimigos. O que poderia ter acontecido a ela?" Kenshin colocou as mãos na cabeça, ditando as mais diversas possibilidades, sentindo-se o culpado pelo mal-estar da jovem mestra.
"Ken-san, ela está bem, sem nenhum arranhão Deixe de ser bobo, você não pode ser o ar que ela respira e estar o tempo todo com ela. Essa menina provavelmente só está cansada, com preocupações bobas na cabeça, é só. Sinceramente, eu não entendo. Kaoru não tem nenhum histórico terrível como o resto de nós, Yahiko, Sanosuke, você e eu. Deve ser só um 'piti' como dizem." Megumi, mesmo sem ter respostas, considerou o mal estar de Kaoru como algo irrelevante.
"Senhorita Megumi, não devia dizer isso sobre a senhorita Kaoru, pense bem... Ela sempre fez o melhor por todos nós, inclusive pela senhorita, lembra-se?." Kenshin não gostou do modo como a médica falou e Megumi percebeu e se afastou.
"Bom, peço desculpas pelo modo como me expressei, Kenshinzinho. Mas, em todo caso, deixe que ela tome um banho. É inviável tentar insistir em descobri qual é o problema nesse momento" Megumi acenou com a cabeça.
"Para relaxar, eu pago um jantar no Akabeko. Tenho certeza que isso vai animar a todos, inclusive Kaoru. Que tal?" A médica sorriu um tanto quanto sem graça, ainda pensando na correção que Kenshin havia lhe aplicado segundos atrás.
"Hai" O espadachim disse silenciosamente, mais preocupado com Kaoru dentro do banheiro do que com qualquer outra coisa..
Megumi caminhou em direção a cozinha, ao partir passou a mão no peito de Kenshin. O ruivo não soltou nem mesmo um "oro" pelo atrevimento da médica, sua mente tinha outros pensamentos.
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"Shima" Kaoru olhou para cima, o vapor da água subindo embaçava sua visão. A água morna da banheira começava a ficar gelada. O banho tinha sido tão relaxante, fez com ela adormecesse e deixasse suas indagações de lado por alguns minutos. "Que dia mais estranho." Kaoru tremeu. Ela pulou para fora da banheira. Sua pele estava branca e enrugada. Por quanto tempo tinha ficado ali?
Agradeceu pelo fato de ninguém ter invadido o quarto de banho. Ainda bem que Kenshin sabia que ela gostava de banhos longos e precisava de um tempo sozinha. Sem dar respostas que ela mesma ainda não tinha.
"Eu não sabia que isso ia acontecer, para mim tudo estava resolvido. Mas... todos esses encontros significam alguma coisa muito séria." Kaoru suspirou e começou a vestir seu yukata. "E se acontecer? Eu não vou poder resolver sozinha." Ela secou o cabelo com a toalha, preparando-se pra deixar o quarto de banho. "Preciso contar."
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"Kenshin, a Jou-chan tá suspirando o nome de outro homem e falando sozinha dentro do banheiro... Por isso ela tá demorando tanto tempo lá dentro, cara. Vai saber o que ela está fazendo.Toda peladona e tal..." Sanosuke mal tinha chegado no dojo, e já estava tendo uma de suas 'brilhantes' idéias.
"Sanosuke." Kenshin rosnou o nome do lutador. "Não deveria de ficar pensando esse tipo de coisa da senhorita Kaoru."Kenshin ficou hiper vermelho imaginando Kaoru peladona, fazendo 'coisas'. Rapidamente ele voltou para o estado de 'homem-sério-preocupado-com-o-bem-estar-alheio' "Você não sabe como ela chegou aqui. Estava arrasada..."
A mente de Kenshin não pode deixar de pensar nas possibilidades. Ele precisava descobrir o que estava acontecendo. (E se Kaoru tivesse mesmo outra pessoa? Vai ver que esse tal de Shima era um amor do passado e ele foi embora deixando Kaoru sozinha. E se agora quisesse voltar? .../...Que idiota abandonaria Kaoru?...Ok...eu sou um idiota porque a abandonei uma vez.../...) Aquela despedida tinha definitivamente ficado marcada na memória de Kenshin como uma das coisas mais difíceis que ele já tinha feito na vida.
"Este servo pode ser idiota, mas está aqui com ela. E cadê o tal do Shima?" Kenshin deixou escapar um dos seus pensamentos.
"Tá falando do que, cara? Jou-chan tem um amante, não é?." Sanosuke fez uma cara estranha, e deu um murro de leve na própria mão. Só faltou ele dizer 'eureca'. Sanosuke só poderia deduzir algo desse tipo, ou coisa pior.
"A Busu tem um amante?" Yahiko estava em outro cômodo da casa e se juntou a Kenshin e Sanosuke na porta do banheiro prontamente. Claro que se interessaria pela conversa, qualquer chance de irritar Kaoru era válida, e deveria ser aproveitada.
"Tanuki tem um amante...Hohohohoho...Ela não tem nem um oficial quanto mais um amante. Não é verdade, Kenshinzinho? " Megumi também se juntou a eles, totalmente recuperada da chamada desconfortável que Kenshin havia lhe dado a alguns momentos atrás. A conversa tinha tomado um tom mais leve e humorístico e ela sentiu que podia se aproveitar. Megumi soltou umas piscadelas na direção de Kenshin, se preparando para passar os braços em volta do pescoço dele.
"ORO? Quem disse que a senhorita Kaoru tem um amante?" Kenshin tinha seus olhos esbulhagados, seus pensamentos haviam tomado uma proporção bombástica.
"Heii, Todos esqueceram o principal??" Kenshin disse isso como se fosse a coisa mais obvia do mundo."A senhorita Kaoru ter chegado daquele jeito não preocupa vocês?" Kenshin olhou para as expressões dos amigos, e elas diziam 'Kaoru está bem, por que você está tão preocupado?' Ele sabia que isso não era verdade, que a mestra do estilo Kamiya Kasshin não estava bem, mas preferiu ficar quieto, por enquanto.
"Que diabos vocês estão fofocando sobre mim? Megumi você esta enforcando o coitado do Kenshin com esse abraço, dá pra soltar ele?"Kaoru sorriu, espantando os pensamentos ruins. Seus amigos eram algo valioso demais, ela não poderia perdê-los por nada no mundo.
"Vamos todos ao Akabeko, que tal? Fui buscar o jantar, mas acabei caindo no caminho e deixei tudo lá espalhado na estradinha de lama."Kaoru saiu bem mais relaxada e disse pelo menos um pouco da verdade.
"Senhorita Kaoru, desculpe, mas este servo precisa saber. O que aconteceu?..." Kenshin se desvencilhou do abraço de Megumi e caminhou até Kaoru.
Ela pensou em uma resposta e depois de alguns segundos de indecisão exclamou não muito convincente: "Estava voltando para o dojo depois de passar no mercado quando vi o gatinho no meio do mato, eu fui pegá-lo e uma cobra quase me mordeu. Eu nunca tinha visto uma cobra tão grande. É só."Kaoru disse isso rapidamente e saiu, indo se aprontar para ir jantar no Akabeko, não permitindo que mais nenhuma pergunta fosse feita.
"Cobras. Sim, são traumatizantes... às vezes." Megumi caminhou para a saída do dojo. Rindo sem parar. Yahiko a acompanhou, sem entender o tom malicioso de Megumi e Sanosuke.
"Yep. Eu não disse? Jou-chan tem um amante." Sano indo atrás de Megumi, rindo como a médica.
"ORO" Kenshin ficou parado, com seus olhos esbugalhados. "Como podem ser tão maliciosos?" Ele esperou Kaoru para acompanhá-la até o Akabeko. A pobre não entendeu em momento algum porque seus amigos olhavam para a sua cara e riam. Não entendia também porque Kenshin estava tão sem graça.
"Ahhh..Foi algo que eu disse?" Kaoru foi se perguntando o caminho inteiro. Pelo menos ela não pensou em Shima e nos acontecimentos, enquanto estava ao lado de Kenshin, escutando Megumi e Sano se engalfinharem em suas briguinhas tolas.
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A chuva havia dado uma trégua. O pôr do sol pode aparecer um pouco no céu, colorindo as nuvens com um vermelho-laranja belíssimo, mas uma forte ventania estava fazendo tudo que era leve voar. No Akabeko, os clientes começavam a chegar para o jantar, enquanto a dona, Tae, estava parada na porta do restaurante, com as mãos na cintura, totalmente revoltada.
"De novo, nãooo" Ela fez uma cara de desgosto. As faixas de papel que faziam propaganda dos preços do restaurante estavam voando pela rua por causa do vento.
"Qual o sentido de colocar as faixas com a ventania??" Tsubame disse timidamente. Logo foi obrigada a se calar. A expressão que Tae estava fazendo naquele momento não era das melhores. "...Err...não esta mais aqui quem falou" A menina disse baixinho. Porém, a jovem não conseguiu esconder a gargalhada. Tae correndo atrás daquelas benditas faixas era muito engraçado. Seu uniforme levantava, por mais que ela segurasse a barra.
"Tsubame pare de rir. Anda, venha aqui me ajudar." Tsubame prontamente foi atrás de Tae, que estava ficando verdadeiramente irritada. O vestido da mocinha levantava tanto quanto o da dona do restaurante, e foi a vez de Tae rir da cara da menina.
Tae correu um pouco mais para longe, para aonde uma das faixas de "Sukiyaki a 1,99" tinha voado.
"Está decidido. Nunca mais eu coloco essas faixas em dia de vendaval." Uma das faixas caiu em uma poça. Quando Tae abaixou para pegar encontrou a mão de outra pessoa.
"Nenhuma promoção é tão tentadora quanto a beleza da dona do restaurante" O moço disse com uma voz macia e encantadora.
"Haa?" Tae levantou o rosto imediatamente. Ele era um homem muito bonito. Elegantemente vestido. Alto, com cabelos castanhos e olhos verdes. Lembrava um pouco o amigo de Kenshin e Kaoru, Aoshi Shinomori. A diferença é que ele abriu um radiante sorriso para Tae, coisa que Aoshi não costumava fazer.
"Ohh" Tae ficou vermelha, ela notou que a sua mão e a do estranho ainda se tocavam. "Obrigada"
"Desculpe senhorita." Ele se levantou, interrompendo o toque de mãos, mas ajudando Tae a se levantar. Ela quase desmaiou quando o homem a puxou para cima, usando sua força física extraordinária.
Abanou a pesada capa preta que vestia, fazendo com que os pingos da chuva escorressem pelo material impermeável. "Eu cheguei a pouco tempo na cidade. Estou ligeiramente deslocado. A senhorita saberia dizer se existe alguma boa pensão por aqui?" A voz dele era maravilhosa, Tae ficou admirada com o sotaque diferente, mas muito charmoso que ele tinha.
"Ahh..." Tae continuou a admirar o homem bonito. Não conseguia encontrar as palavras para criar uma resposta. Ela não via a hora de fofocar para Kaoru sobre o novo partido da cidade.../...E que partidão.../...Tae, excitada, já fazia planos.
"Que falta de educação a minha, senhorita, meu nome é Yamazato." Ele puxou a face da mão de Tae, beijando delicadamente. Tae sentiu suas pernas amolecendo.
"Meu nome é... é... Tae.." Ela engasgou algumas vezes, mas respondeu em estado de encantamento. Depois de respirar fundo algumas vezes, se recompôs.
"Aqui perto tem um hotel, eu vou lhe mostrar a localização. Mas antes entre, eu vou lhe oferecer a melhor refeição que o senhor já experimentou na sua vida. Por minha conta." Tae o puxou para dentro do Akabeko.
"Tsubame-chan, continue a recolher as faixas." Ela piscou para a menina e puxou o estranho para dentro do restaurante, essa chance ela nunca iria perder.
"Tenho certeza que será um enorme prazer." O estranho não se fez de rogado e entrou no Akabeko, passando um braço ao redor da cintura de Tae, sentindo- se muito confortável. Antes de entrar ele observou Tsubame atentamente. Seus olhos não pareceram tão maravilhosos assim. Para a menina, o olhar causou calafrios.
"Credo, Tae-san ainda vai se encrencar qualquer dia desses." A menina suspirou e continuou a recolher as faixas e panfletos espalhados pelo vento. Quando entrou no restaurante, procurou evitar contanto com o novo amigo de Tae. De algum modo, ele lembrava os homens que ela conheceu no passado, antes de encontrar Kenshin e sua turma. Tsubame desejou que fosse só uma má impressão.
Continua...
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Notas:Ola pessoal, tudo bem? Olha eu aqui outra vez. Espera que tenham gostado, e que o clima não tenha ficado sombrio demais, a beira do mal gosto, ne? É que eu queria alguma coisa com um tom ligeiramente diferente do que sempre aparece nos fics de RK e que falasse de um passado sofrido para Kaoru. Bom, me deixem saber a opinião de vocês, ne ^_^
Meus sinceros agradecimentos para :
MetabeeX (Obrigada Muri, significa muito receber review dos amigos. Beijos)
Leticia Himura (oh Lê-chan, eu falei para não se preocupar com review,
mas muito obrigada por ter deixado. Não se preocupe, eu pretendo
chegar logo naquelas partes misteriosas que eu te mostrei. E eu adoro
ADORO GATOS)
Paixão (Ola, Ma, obrigada pela review, fiquei muito feliz que tenha se
interessado. Beijos e até mais)
*ChineseWitch*(fiquei muito feliz que vc tenha achado meu jeito de
escrever agradável, logo eu que sou tão tapada com português. Muito
obrigada, beijos)
Lili-chan(obrigada pelo review e pelo elogio, eu adoro essa fic, e
espero que você continue acompanhando, ne. Beijos)
Madam Spooky (Muito obrigada pelo apoio, por ter lido e revisto o
capítulo pra mim. Desculpe a enchição ^________^)
Iere(obrigada pelo review e pelos elogios, historias misteriosas são
as minhas prediletas, tanto que, pra se ter uma idéia, eu era doida
por Arquivo X . Essa série me botava pra pensar...aí eu morria de medo
de aquelas coisas poderiam acontecer comigo e parava de pensar~_~
hahahaha)
Carol Malfoy (obrigada pelo review, espero que continue curiosa, ne.
Beijos)
Obrigada por terem lido, até o próximo. Beijos, Chibis.
