"Reminiscências"
Capitulo 5 -Tornado-
Os sons abafados que vinham do céu anunciavam a tempestade incubada, raios explodiam odiosamente em algum lugar no miolo das nuvens negras, rajadas de vento passavam com tamanha força, que emitiam zumbidos quando passavam pelas frestas das portas e janelas. Os cachorros da vizinhança latiam assustados, amedrontados com a agitação violenta da natureza. Kenshin estava em seu quarto, sentado em sua habitual posição de alerta, encostado na parede. Questionando-se se os outros teriam conseguido descansar em paz naquela noite. Sua cabeça aturdia-se de preocupações.
O caminho de volta do Akabeko havia sido rápido e silencioso. Sanosuke, Megumi e Dr. Gensai tomaram um rumo diferente, cada um partindo para sua respectiva casa. O humor amigável entre eles, havia se dissolvido após o mal explicado desentendimento entre Tae e Kaoru na cozinha do restaurante. Quando Kaoru, Kenshin e Yahiko chegaram no dojo, a Shihandai disse apenas que estava cansada, e que conversariam no dia seguinte. Kenshin respeitou, acenando apenas com a cabeça, ele poderia esperar até que ela estivesse disposta a conversar.
Mas, existia alguma coisa diferente no ar, Kenshin conseguia reconhecer isso. Era ameaçador...ao mesmo tempo triste, pesaroso. Toda aquela chuva, aquele clima estranho tinham um gosto metálico, que o espadachim podia sentir em sua boca. "E para completar aquela briga com Tae..." Kenshin suspirou, chegando a conclusão de que era inútil forçar o sono, ele percebeu que era melhor dar uma volta e tentar relaxar a sede, resolveu aproveitar o copo de água que havia trazido para o quarto antes de dormir. Ao alcançar o copo que estava na cabeceira de seu futon, o vidro trincou sozinho. "Oh..Isso é...".../...Um mau pressagio.../... ele pensou. Sem pestanejar levantou-se, não se preocupou em dobrar as cobertas, simplesmente pegou a lamparina que tinha, e saiu de seu quarto em direção a varanda. O vento zumbia furioso. "Será que esse telhado agüenta?"
Já era alta madrugada, mesmo assim, munido de sua lamparina, caminhou até os quartos dos outros. Fechou os olhos, surpreendendo-se com os fortes lampejos dos relâmpagos que cortavam o céu, e deixavam grossas estrias de luz na escuridão, que se dissipavam após alguns segundos de brilho. Os cachorros dos vizinhos latiam com mais força, completamente apavorados. "Kami-sama, não é uma tempestade certeza essa chuva vai deixar muita gente desabrigada". Mais do que ninguém, o ruivo sabia que Kaoru deveria estar amedrontada com toda aquela natureza furiosa. A jovem sentia verdadeiro pavor de grandes tempestades.
Após entrar no corredor que dava acesso a todos os cômodos, abriu a porta do quarto de Yahiko. Kenshin iluminou o quarto do menino, que incrivelmente dormia sereno. Se o mundo acabasse naquela noite, Yahiko provavelmente só daria conta na manhã seguinte. Kenshin sorriu ao escutar os altíssimos roncos do garoto.../... Com Yahiko esta tudo bem.../...Ele pensou. Faltava ver como a proprietária do dojo estava se saindo. Assim, partiu para os aposentos de Kaoru.
Kenshin fez a porta do quarto escorregar devagarzinho, não querendo assustá- la. "Senhorita Kaoru" Ele perguntou baixinho. Com alguns passos, adentrou no ambiente feminino. Respirou fundo quando seu olfato percebeu o perfume gostoso, de jasmim e lavanda, impregnados em todos os cantos. Os bonitos frascos de perfumes, a escova de cerdas macias, os belos laços coloridos, que graciosamente enfeitavam seus cabelos, estavam espalhados sobre a pequena penteadeira. Kenshin sentiu o desejo de deixar que seus dedos percorressem a seda macia, mas se conteve, pois sabia que Kaoru poderia se dar conta de sua presença a qualquer segundo.
"Huh huh... Senhorita Kaoru". Seu tom aumentou um pouco.
"...." Nada, nenhuma resposta. Finalmente Kenshin se deu conta de que estava sozinho naquele quarto. Iluminando o futon, se surpreendeu quando viu que não havia ninguém deitado ali. Assustado, sentindo um mau pressentimento, chamou por ela, dessa vez em um tom bastante alto e sério. "Kaoru?" Ele levantou a lamparina, procurando por ela pelos cantos do quarto, mas nada. Somente roupas espalhadas, e o funton desfeito.
O espírito de urgência tomou conta de Kenshin.../...Por que eu não me levantei antes?.../... O espadachim então saiu do quarto, na varanda, levantou mais alto que pode a lamparina para ver se ela estava em algum lugar do quintal. Nenhum sinal de Kaoru, a tempestade de vento, raios, trovões e granizo, finalmente caia violentamente. "Kaoru, onde você está?" Kenshin gritou por ela, porém sua voz não conseguia superar decibéis dos trovões. "Mas que droga."
Ele já não podia detectar o nem mesmo o portão do dojo, o quintal havia se tornado uma enorme piscina de lama. Mesmo assim pulou ligeiramente no quintal, seus pés afundaram-se na terra pastosa, os pingos gelados da chuva e o granizo pareciam pequenas adagas caindo dolorosamente sobre seu corpo.
Kenshin rodopiou no centro do quintal, procurando sentir a presença de Kaoru em algum dos cômodos adjacentes a casa. A luz do luzeiro finalmente apagou. O banheiro, nada. O deposito, nada....O dojo, ele sentiu uma presença fraca e incomum dentro do dojo.
Correu para a sala de treinamentos com os olhos quase fechados, a água que caia despencava machucava seu rosto. Naquele momento lembrou dos tempos em que era conhecido como Battousai, com freqüência ele costumava enfrentar o mesmo tipo de clima no meio da madrugada, para cometer seus assassinatos naqueles tempos de guerra.
Em um pulo ele estava dentro. A sala de treinamento estava escura e dolorosamente fria. Seus olhos escanearam os cantos do dojo, sua lamparina agora era inútil, pois estava apagada, e ele não via como podia acendê-la naquele momento, então ficava mais complicado de enxergar alguma coisa na espaçosa sala de treinamento. "Kaoru." Sua voz era séria e firme.
Um poderoso raio iluminou a sala, segundos depois veio um tremor que Kenshin sentiu dentro de sua própria barriga. A moça então se revelou, ajoelhada em frente ao pequeno altar em memória de Kojishirou Kamiya. Kaoru balançava inexpressivamente o corpo, para frente e para trás. Presa em um momento de angustia, totalmente alheia a presença de Kenshin.
O espadachim suspirou, aliviado por tê-la encontrado, mas a criptante e sinistra tensão no ar, fez com que ele mantivesse sua expressão séria e caminhasse vagarosamente em direção de Kaoru.
"Senhorita Kaoru, o que é isso?" Kenshin nunca sentiu receio de chegar perto dela antes, mas dessa vez, ele percebeu que sua querida estava em contanto com algo oculto e inexplicável. Algo maior e mais poderoso do que ele mesmo jamais entender.
À medida que se aproximava, sentia a corrente de ar frio ao redor dela ficando cada vez mais forte. Ele respirava e um vento gelado sai de sua boca.
Kaoru chorava, seus cabelos soltos balançavam-se para frente e para trás, ela agarrava-se em si mesma. Kenshin só pode concluir que aquilo era nocivo, porque ela dizia palavras pesarosamente, sua expressão estava repleta de desgosto. "Shima... Shima. Eu sinto tanto." O coração de Kenshin quase parou de bater naquele momento, para logo depois disparar loucamente, seu corpo gelou de medo, como ele nunca tinha sentindo em toda sua vida. Kaoru balançava uma criança em seu colo, para frente e para trás, o menino não era uma criatura viva, não era uma criatura explicável...Ele estava morto...
Kenshin deu alguns passos para trás, mesmo que tentasse ele não conseguia entender o que estava acontecendo. Era sinistro e mórbido demais, e Kaoru não parecia estar ciente de sua presença ali ao seu lado. "O que eu poderia ter feito por você? Eu era tão criança quanto você. POR QUE VOCÊ NÃO ENTENDE ISSO??? Oh Shima, eu nunca quis ter te deixado sozinho naquela floresta, eu juro. Mas eu deixei, e agora o que você quer de mim? O QUE?" Ela dizia essas palavras sofregamente, cerrando os dentes inconformada, a emoção transbordava de seus olhos em forma de grossas lágrimas, que escorriam sem parar . Kenshin não agüentava mais, sem hesitar ele puxou o corpo Kaoru para trás, fazendo com que ela acordasse do transe, e largasse o corpo do menino. O garoto abriu os olhos para Kenshin, antes de desaparecer completamente.
Ainda um pouco perturbado, o espadachim então se ajoelhou ao lado dela, puxando Kaoru para perto de seu corpo. "Senhorita Kaoru, fale comigo. Esta tudo bem?".
Kaoru suspirou profundamente, procurando recuperar o fôlego perdido, finalmente havia acordado seus pesadelos reais pela voz de Kenshin. Seus olhos azuis apavorados cruzaram com os também apavorados de Kenshin, Kaoru detectou os tons de dourado nos olhos dele que se destacavam no meio daquela escuridão.
Quando ela ia começar a falar, um forte impulso involuntário fez com que ela voasse para trás, batendo o corpo violentamente contra o assoalho do dojo, Kaoru então começou torcer-se de um lado para outro. "O que é..?" Kenshin não sabia o que estava acontecendo, mas agarrou Kaoru pelo yukata, puxando-a para seu colo, protegendo seu corpo de suas próprias convulsões. Ela simplesmente não conseguia respirar, enfiava desesperadamente suas unhas nos braços de Kenshin. Era como se estivessem sufocando com o próprio ar.
Os olhos de Kenshin se arregalaram, tudo acontecia tão rápido. A principio ele não soube como reagir, só puxava Kaoru para mais perto, colocando a em seu colo. Levantando o corpo da jovem, para que ela pudesse respirar, mas de nada adiantava. "Kami-sama, o que esta acontecendo, Kaoru??" Kenshin tinha os olhos assustados, vidrados nela que desfaleceu e começou a ficar azulada.
Kenshin percebeu o perigo, Kaoru não respirava mais. Assim como já tinha visto ser feito com pessoas vitimas de afogamento, ele fez igual. Deitou-a no chão, puxou sua cabeça dela para trás, abriu suas vias aeras, tomou fôlego e mandou ar para dentro dela, tocando os lábios gelados dela com os seus. "Kaoru, fala comigo, pelo amor de Deus." Kenshin tinha lagrimas desesperadas em seus olhos.
Depois de algumas tentativas, Kaoru finalmente começou a voltar a respirar sozinha. Ela começou a tossir, colocando água que estava em seus pulmões para fora, era muita água. A jovem mestra estava mesmo se afogando, apesar de estar longe de qualquer lago ou outra fonte de água.
Voltando ao normal, mas com o corpo ainda amolecido, Kaoru fechou os olhos. "Faça-o parar.." Ela sussurrou baixinho. "Isso é tão maluco. Se essa coisa continuar, eu não vou conseguir...eu não vou agüentar, Kenshin.." Depois disso ela desmaiou de cansaço, caiu no abraço dele. Kenshin puxou Kaoru para perto, posicionando a cabeça dela na altura do seu coração, que batia freneticamente. "Meu Deus." O espadachim afundou seu rosto nos cabelos da jovem, fechando os olhos e sentindo o gostoso perfume de jasmim.
"Descanse, eu estou aqui com você, e nada vai te fazer mau, eu juro." Kenshin arrepiou-se, naquela noite ele sentiu medo, como poucas vezes tinha sentindo em toda sua vida.
Era madrugada, mas a clinica do Dr Gensai continuava lotada. A chuva infernal do lado de fora causava estragos imensuráveis por toda Shitamachi. Deslizamentos de terra, telhados despencando em cima de pessoas, afogamentos, pessoas desaparecidas. Feridos não paravam de chegar, sozinhos, Megumi e Doutor Gensai não davam conta de todos.
Um acidente com os barcos no porto, acabou deixando varias pessoas machucadas, os homens que estavam no lá tentavam salvar os seus barcos, mas as ondas eram tão grandes que acabavam amontoando os barcos uns em cima dos outros.
"Tsc...Nada bom, nada bom." Megumi falou baixinho para si mesma, ao que entrava no quarto onde atendia uma mulher em estado critico. Seu tom de preocupação era inaudível para a paciente improvisadamente em um futon no chão, mas sua feição não conseguia disfarçar toda a preocupação. Talvez não conseguisse dar seu atendimento a todos os pacientes, e isso a perturbava. Mas ela faria o possível para cuidar de todas as pessoas.
Vamos precisar de ajuda aqui. Peço a colaboração de quem estiver em condições de ajudar." Megumi abriu a porta do consultório. "Vamos nos organizar, eu tenho alguns cobertores vocês precisam dividir." A cena era caótica, a pequena recepção estava lotada principalmente de idosos, mulheres e crianças que não paravam de chorar, assustada com a grande nuvem escura que despejava sua ira sobre Shitamachi.
Os homens ainda tentavam salvar seus pertences de serem levados pela inundação. Megumi sentia-se mais ainda mais triste, pois sabia que aquelas pessoas eram pobres e iriam perder o pouco que tinham conquistado na vida.
"Doutora, aquela mulher que os policiais trouxeram acordou." Megumi sabia de quem se tratava e correu para dentro do quarto. Antes de a tempestade começar, os policiais trouxeram uma mulher muito machucada, vinda da zona de prostituição. A médica já tinha visto e tratado de quase tudo, mas nunca poderia admitir aquele tipo de violência, mesmo que fosse a mais baixa das prostitutas. Ela queria poder ficar mais tempo com aquela paciente, mas a insanidade daquele momento não permitia.
"Mayume...? "A mulher começou a chorar sofregamente esse nome, Mayume. A mulher cobriu o rosto, enquanto chorava. Megumi levantou delicadamente o rosto dela, examinando os olhos inchados, cheios de estrias de sangue que tingiam a parte branca dos olhos. A cabeça enfaixada escondia o um corte profundo que ia quase até a bochecha.
.../...Pobre mulher.../...Megumi se perguntou como teria se machucado daquele jeito. Provavelmente ficaria cega daquele olho, ou perderia grande parte da visão. Ela fez o que lhe foi possível, mas sabia que não seria o bastante para salvar a visão daquela mulher.
"Senhora, eu sou a doutora Megumi. Cuidei da senhora, quando chegou aqui...O que posso dizer por enquanto, é que procure ficar o mais calma possível. Estamos passando por uma situação difícil agora, e a senhora tem um grande corte na cabeça, e um hematoma no olho. Certo? Agora você precisa descansar e se mexer o mínimo possível. Entendeu?" Megumi olhou seriamente para a mulher, que balançou a cabeça negativamente.
"Minha filha Mayume. Ele...levaram a menina embora. Tiraram Mayume de mim. MAYUME" A mulher queria se levantar, mas Megumi colocou a mão em seu ombro, fazendo ela se deitar novamente. "Por favor, coopere conosco. Nós vamos encontrar sua filha assim que possível." Megumi escutou outra pessoa chamando seu nome, e se levantou. Antes de sair sussurrou para uma moça que estava ajudando com os feridos "Não deixe que ela saia daí, por favor."
"Raposa." Megumi reconheceu a voz familiar. Quando se virou, viu que Sanosuke estava em um estado deplorável, sujo, encharcado, coberto de lama.
"Que diabos aconteceu com você, Crista de Galo?" Megumi se surpreendeu quando ele a puxou pelo braço. "Heii, o que pensa estar fazendo? Não esta vendo a clinica como esta?"
"Fica quieta e vem logo comigo." Sano tinha preocupação e urgência no olhar, ele a conduziu para a entrada. Megumi entendeu qual era o motivo de tanta pressa, quando chegou na entrada da clinica.
"Chamem o doutor Gensai. AGORA." Um amigo de Sanosuke, no mesmo estado que ele, enlameado, sujo e encharcado, estava realmente ferido.Megumi se abaixou, procurando os sinais vitais do rapaz. Ela suspirou quando não encontrou nada. Na verdade, detectou sinais de que ele não estava mais vivo a pelo menos uns dez minutos.
"Nos estávamos salvando umas pessoas presas na inundação quando tudo desabou." Sanosuke se ajoelhou ao lado dela, falando freneticamente. "Sanosuke, eu sinto muito não tem nada que eu possa fazer pelo seu amigo."
A médica abaixou a cabeça, colocando uma mão sobre o ombro do amigo.Após alguns segundos, levantou a cabeça encontrando Sanosuke com olhos tristes e desesperançados.../...Sanosuke deve ter lutado para salvar o amigo.../...
Porém aquele momento de reflexão durou pouco, Sanosuke olhou por trás de Megumi. Ele deu um pulo para o alto, apontando com a mão direita para o que se formava ao lado da clinica.
Sanosuke gritou. "TODOS PARA DENTRO." No meio da escuridão um enorme redemoinho de vento começava a alcançar a terra, puxando para sua direção árvores, e destelhando as casas vizinhas a clinica. A chuva começou a ficar realmente violenta enquanto as pessoas corriam para dentro da clinica procurando abrigo, o granizo que caia odiosamente do céu abria buracos no telhado. Sanosuke percebeu que Megumi seria atingida por destroços que voavam em direção do tornado.
"MEGUMI." Ele se moveu mais rápido do que em qualquer outro momento de sua vida. Empurrando Megumi para longe, tomando o lugar dela. As colunas de sustentação e o telhado cederam, praticamente toda a entrada da clinica caiu bem em cima de Sanosuke. O amigo morto de Sano foi arrastado pelo vento, a médica não sabia se corria para salvar Sano ou se procurava abrigo. Ela se desesperou quando foi puxada por alguém para dentro da clinica. O barulho e o vento eram insuportáveis. Debaixo dos escombros não havia o menor sinal de que Sano teria escapado com vida.
"SANOSUKEE."
Kenshin procurou dentro dos armários do dojo por alguma coisa que produzisse fogo para a lamparina, ou algum cobertor, hakama ou gi que pudesse os aquecer.A sorte estava do seu lado, pois encontrou as duas coisas que precisava.
O espadachim desejou levar Kaoru para dentro da casa, mais era simplesmente impossível colocar os pés para fora do dojo. O poço de água tinha sumido, e a inundação no quintal já alcançava os degraus da varanda. Kenshin já tinha ouvido historias sobre furacões e tornados, e começava a acreditar seriamente que estava acontecendo algo parecido naquela noite. Podiam-se contar sessenta minutos de tempestade ininterrupta, e parecia que não ia melhorar tão cedo.
Kaoru parecia sentir-se segura com Kenshin ao seu lado. Ele ficou realmente feliz com isso, já os acontecimentos daquela noite tinham sido simplesmente aterrorizadores. Kenshin conseguiu acender a lamparina que havia trazido consigo, trocou seu yukata encharcado por um gi e hakama de cor azul que encontrara nos armários. Com as outras vestimentas que tirou do armário, fez um cobertor para Kaoru.
Depois caminhou até a entrada da sala de treinamentos, soltando os cabelos molhados, para que secassem. Ele se preocupou com Yahiko sozinho dentro da casa. "Tomara que ele não acorde."
"Kenshin?" Kaoru despertou quando sentiu Kenshin se afastando dela. Ela se encolheu debaixo dos gis, com os lampejos de luz que cortavam o céu.
"Não quer dormir um pouco mais? Este servo não vai sair." Kenshin voltou para perto de Kaoru.
"Não...E o Yahiko, sozinho lá dentro de casa?". Kaoru se sentou e Kenshin se ajoelhou na frente dela, colocando um gi sobre os ombros da jovem, depois se afastou, colocando a lamparina ficou entre eles.
"Antes de vir para cá, este servo passou no quarto de Yahiko,o menino dormia tranqüilamente...tomara que ele não acorde e se assuste." Kenshin observou se Kaoru estava realmente bem.
"Uma tempestade igual a essa aconteceu quando eu era pequena...um tornado, causou muito estrago." Kaoru abaixou a cabeça, olhando fixamente para o assoalho.Assim,sozinha com Kenshin ela poderia contar tudo, ninguém poderia interromper, nem banalizar a situação.
A luz da lamparina dançava com o vento, um zumbindo passava por entre as frestas. As telhas lá em cima do dojo batiam em um ritmo rápido.
"...Aquilo...vem acontecendo com freqüência, não é?" Kenshin sentou mais perto dela. Kaoru estava calada, ela observou Kenshin se ajeitar, ele estava ansioso. Já tinha vivenciado encontros com fantasmas antes, mas o que aconteceu com Kaoru levou suas experiências para outro nível.
"Não é nada fácil para mim." Ela revelou.
"Eu sei....é importante para mim saber...Por que, esta noite, este servo viu como você corre perigo Senhorita Kaoru. Aquela coisa queria te matar." Nos olhos violetas, ela interceptou os imperceptíveis riscos dourados. A cor do fogo da lamparina intensificava o vermelho das madeixas soltas dele.
"Não, não. Shima não queria me matar....Ele queria me mostrar alguma coisa, mas é que toda vez é ...tão difícil de entender." Kaoru levantou o rosto que estava abaixado.
"Mostrar?" Kenshin também observou a beleza que vinha dela, iluminada apenas com a luz da lamparina. O cabelo negro, contrastando como uma moldura no rosto branco, e nos olhos azuis escuros, um brilho de tristeza. Kaoru então tomou coragem e começou
"...há muito tempo eu não converso sobre essas coisas, principalmente aqui dentro dessa casa... Meu pai proibiu que tocássemos nesse assunto." Kaoru respirou fundo antes de continuar. "Mishima Kamiya era meu irmão. Shima como costumávamos chamá-lo." Ela engoliu seco, e abaixou a cabeça.
"Ele foi assassinado quando tinha apenas cinco anos."
"Oh Senhorita Kaoru..." Kenshin se entristeceu por ela. Kaoru sorriu fracamente, e começou a enrolar os dedos em uma linha solta de um gi que estava ao seu redor.
"Bom, aparentemente nós éramos uma família perfeita. Infelizmente era só aparência, quando a minha mãe morreu, eu descobri que o casamento deles tinha sido um arranjo. Ela era infeliz, vivia chorando. Meu pai foi um homem sério, rústico, mas ele respeitava minha mãe...Só não a amava." Kaoru suspirou.
"O relacionamento deles melhorou quando eu nasci, mais balançou novamente quando Shima nasceu, porque ele era um garoto extraordinário, mais muito problemático. Tinha muitos problemas de saúde, minha mãe passava a maior parte do tempo se preocupando com ele...Meu pai resolveu a trabalhar na policia metropolitana de Tókio." Enquanto falava, Kaoru fazia círculos com os dedos no assoalho do dojo.
"Ah, resumindo...Um dia meu pai trouxe para casa um moço, Katsutoshi Toyomura." Kaoru arrepiou-se ao dizer esse nome, há muito tempo não falava sobre Toshi. "Esse rapaz teve sua família assassinada. Ele estava perdido, não tinha nada , nem dinheiro, nem conhecidos...Meu pai então o acolheu em nossa casa, e tornou-se seu mestre. Ensinou todos os preceitos do estilo Kamiya Kasshin, depois de um tempo de convivência, Toshi havia se tornado um irmão mais velho. O problema é que ele era obcecado pela idéia de família perfeita." Kaoru não entrar em detalhes sobre as estranhas obsessões dele.
"Essa obsessão começou com pequenas coisas. Na época parecia que só eu percebia, eu falava que tinha alguma coisa errada, mas todos amavam Toshi. A verdade é que eu morria de medo dele. Toshi não gostava de mim, mas adorava meu irmão. E como era o aluno preferido do meu pai, eu nunca tive coragem de reclamar." Kaoru já sentia o nó em sua garganta se formando.
"Kenshin, você não sabe como eu me arrependo de nunca ter feito isso." Kenshin que estava longe, engatinhou até ela, abraçando Kaoru, colocando-a sob a sua proteção.
"Toshi achava que meu pai era perfeito, mas meu pai não era..." Kaoru deitou sua cabeça no peito de Kenshin, com lagrimas nos olhos ela olhou para o espadachim.
"Ele soube coisa de meu pai...Na cabeça maluca dele, Shima era puro demais para viver em uma casa como a nossa, corrompida com traições e mentiras....Por uma bobeira minha, naquele dia na floresta, ele levou Shima." Kaoru balançou a cabeça inconformada. "Com o intuito de levá-lo para um lugar melhor..."
"Ele matou seu irmão."Kenshin terminou de falar o que ela não conseguia. Depois abraçou carinhosamente Kaoru, passando a mão no cabelo dela. Infelizmente Kenshin já esperava uma historia parecida. Enquanto estavam ali conversando, tinham se esquecido completamente da tempestade, que atingia toda sua fúria lá do lado de fora do dojo.
"Meu irmão foi encontrado em morto em um lago logo após a uma tempestade como essa. Na época disseram que a morte dele foi culpa da chuva, mas eu sabia que não tinha nada a ver com a chuva. Eu lembro do momento em que meu pai jurou vingança, ele caçou Toshi como se caça um animal, mas não conseguiu ir contra o estilo Kamiya Kasshin. Quando Toshi foi preso por outros crimes, disseram que tinha enlouquecido e que tinha se matado na prisão psiquiátrica." Kenshin se lembrou de que Kaoru estava se afogando há pouco tempo atrás, e fez a associação com Shima sendo encontrado em um lago.
"Minha mãe se matou logo depois disso, ela culpava meu pai por não ter vingado a morte do filho, matando o assassino." Isso Kenshin não esperava escutar, ele olhou surpreso para Kaoru. "Sim, ela se matou."
"O fantasma que fica aparecendo para mim...é Shima. E ele diz que Toshi está de volta." Kaoru olhou profundamente para Kenshin.
"Kenshin mesmo com os registros atestando a morte de Toshi, eu acredito em Shima. Meu irmão voltou para pedir que se faça justiça....Será que Shima quer que eu faça o que meu pai não pode fazer? Matar Katsutoshi Toyomura?" Kenshin não sabia o que responder, ele encolheu os ombros, e a abraçou fortemente.
"Mesmo que Katsutoshi esteja vivo, este servo não vai permitir que ele chegue perto de você, senhorita Kaoru....E nem que você chegue perto dele." .../... Enquanto isso você vai ficar aqui comigo.../...Kaoru se aconchegou no abraço de Kenshin, ele encostou-se na parede do dojo, e ela encostou-se a ele. Os dois começaram a adormecer e a tempestade lá fora finalmente parecia que ia ceder. O dia seguinte seria terrível, mas Kaoru e Kenshin precisavam descansar, e naquele momento nada mais importava. Mal sabiam os dois que o verdadeiro tornardo estava prestes a passar por Shitamachi.
Disclaimer: RK não me pertence.
Notas: Desculpem a demora, estou aproveitando as minhas "meia-férias" pra conseguir terminar mais um capitulo, acho que ate semana que vem sai o próximo, tomara.
OBS: Tornados podem acontecer em qualquer época do ano, e qualquer hora do dia e da noite. Eu escrevi esse capitulo depois de ler sobre fortes chuvas que deixaram centenas de desabrigados na Ásia, então já viu, ne. Desculpem se ficou parecendo coisa do canal de meteorologia
Agradecimentos: Kagome-kun(adorei teu review, vc é muito fofa. obrigada ).Kirisu-chan (Stephen King é show, ne? Muito bom, obrigada pelo review) , Carol Malfoy (Carol eu não sei quantos anos a Tae tem, sempre quis saber, devem ser uns 23, por ai. Valeu pelo review) , Pri ( Fofinha que saudades, obrigada pelo review,vê se vc consegue escrever alguma fic e manter contato, hein), Lili- chan (obrigada pelo review, o Kenshin é sempre muito fofo), Darkness Hime ( Obrigada pelo review, espero que tenha gostado), lere (Muita desgraça e mistério, era isso que eu queria.Tomara que tenha dado certo e vc não tenha achado que sou lelê, Valeu) Madam Spooky (Aqui esta mais um capitulo, espero que goste, obrigadinha pelo review) Leticia Himura (hahaha vc é engraçada, Letícia Curiosa, sempre consegue descobrir antes o que vai acontecer, obrigada pelo review).
Até o proximo, Beijos Chibi
