"Reminiscências"
Capitulo 6- Depois da tempestade, vem a bonança. Ou talvez não...
Por- Chibi-Lua
"Tragédia em Shitamachi. Tornado da última madrugada deixa 14 mortos e dezenas de desaparecidos." O vendedor de jornais era um garoto que gritava sem entender o verdadeiro significado daquelas palavras.
As pessoas que passavam pela rua, e eventualmente compravam seus jornais, tinham em seus rostos os sentimentos de cansaço e consternação. "O que o governo vai fazer por nós agora?" Algum cidadão indagava, enquanto outro retrucava desiludido. "Não espere muito desse governo corrupto."
"Tragédia em Shitamachi. Tornado da última madrugada deixa 14 mortos e dezenas de desaparecidos. Saiba tudo sobre a tragédia.Saiba tudo sobre a tragédia." Sem dar ênfase para os comentários político ao seu redor, continuou a gritar e vender as publicações.
Revolta e solidariedade, era o que se via pelas esquinas de Shitamachi. Aquele momento pós-tragédia trazia à tona o melhor, e o pior das pessoas. Enquanto alguns cidadãos ajudavam outras pessoas desconhecidas a se reerguerem, vândalos, saqueavam as lojas desprotegidas.
Ironicamente, o dia rompeu com um céu limpo e plácido, tanto, que o azul índigo doía dentro dos olhos de quem tinha passado a noite em claro. Os moradores, principalmente os menos favorecidos, olhavam inconformados para os destroços de suas casas. A fúria da natureza, deixou no lugar um caos de madeira revirada e a lama.
Entulhos e árvores, acabaram dentro de muitos estabelecimentos comerciais do centro da cidade. Inclusive os barcos de pesca, que proviam sustento para muitas famílias, estavam totalmente arruinados no cais do porto. Nas ruas, as crianças choravam pelos seus animaizinhos, inocentemente arrastados pelo redemoinho do tornado. " Oh foi um dos piores tornados de Shitamachi." "Sim, minha filha chorou a noite inteira"
"Aff...que coisa" Tae suspirou, escutando as pessoas comuns comentando sobre os acontecimentos. Ela colocou as mãos na cintura, não sabendo ao certo por onde começar. Em uma papeleta, começou a fazer um levantamento dos prejuízos. "A porta da frente, as janelas laterais, pelo menos metade do telhado..." Tae atravessou a rua, cochichando para si mesma, do outro lado teve uma visão mais ampla da destruição causada pelo vento e o granizo em seu restaurante.
A jovem estava perto de se render, o valor de suas contas estava tomando uma proporção onerosa demais. O Akabeko não era um dos estabelecimentos mais afetados, mas como já tinha sido destruído tantas outras vezes antes, a moça não tinha mais vontade de colocar as despesas no papel.
"A tempestade foi mesmo terrível, não é?" Ele estacionou repentinamente ao lado de Tae, esticando ligeiramente o pescoço para espionar suas anotações. A moça deu um pequeno pulo. Estava tão mergulhada em seus problemas financeiros, que nem notou Yamazato chegando com um sorriso maroto no rosto.
"Ohhh...senhor Yamazato. Bom dia." Tae alegrou-se com a presença do homem charmoso, e deliciosamente perfumado ao seu lado. Ela sentiu um calor agradável brotando em sua pele, esse calor vinha do centro de sua barriga, e irradiava pelo corpo, fazendo seu coração acelerar
Tae necessitou controlar a respiração e a eminente taquicardia, não precisava se mostrar tão desesperada como os outros achavam que ela estava.
Apesar de sentir como se Yamazato fosse a pessoa por quem estivesse esperando, não tinha esquecido da historia do livro de Kaoru. Ela sabia que essa historia precisava ser devidamente esclarecida, e sabia também que precisava conhecer mais sobre Yamazato, antes que entregasse definitivamente seu coração ao jovem estranho. Tae não queria que ele simplesmente desaparecesse de Shitamachi por uma bobeira qualquer. Como os outros homens, por quem tinha estado enamorada antes, fizeram.
Kaoru provavelmente estava só sendo boba. Como podia acreditar que aquele livro era mesmo o seu? Afinal, tinha perdido há quase dez anos, e pelo que Tae se recordava o assassino do menino Shima, tinha morrido nesse meio tempo. Não era possível um morto ressuscitar só para vir atormentar a vida de sua melhor amiga, por mais especial que Kaoru pudesse ser.
"Quanta indelicadeza da minha parte senhorita." Yamazato disse com um sotaque diferente e ao mesmo tempo muito bonito de se ouvir. Logo depois, apanhou delicadamente a mão de Tae, levantando até uma altura que fosse perfeita para se curvar, e beijar levemente o dorso da mão dela.
"Bom dia, senhorita Tae." Logo depois ele sussurrou, a voz masculina e sedutora. Tae sentiu como se o corpo fosse derreter nas mãos do estranho. Suas bochechas esquentaram. Ela não sabia como disfarçar e nem fazer o coração bater mais devagar.
"Hum...Então, como foi à noite passada?" Depois de alguns segundos de um incomodo silencio, ela disparou. Quando percebeu que poderia estar invadindo a intimidade do estranho, suas bochechas esquentaram ainda mais,então ela refez a pergunta muito envergonhada. .../ Ai que idiota. Eu praticamente perguntei o que ele fez a noite passada...naquele hotel...naquela aquela chuva toda... sem ninguém por perto... /..."Digo, o senhor passou bem à noite? Por causa daquela tempestade de ontem?"
Tae foi capturada para dentro dos belos olhos azuis. Olhos esses, que pareciam se divertir com o seu embaraço.Yamazato percebeu o olhar brilhante, e sorriso bobo no canto dos lábios da moça. Ele gargalhou por dentro. Tae era um pouco atrevida, mas definitivamente engraçada e inofensiva.
"Minha noite foi tranqüila, eu passei trabalhando, e de modo algum a chuva atrapalhou meu dever." Yamazato vez sinal para que caminhassem em direção ao restaurante. "Como foi a sua noite, senhorita Tae?"
"Bem...bem. Pra falar a verdade um pouco assustadora." Não tinha como mentir, ela realmente tinha morrido de aflição na hora em que o tornado se arrastou pelo centro de Shitamachi.
"Imagino que sim, o Akabeko parece que vai dar muito trabalho. Vamos entrar, para que eu possa ver como posso ajudar, que tal?" Mudando de vez o rumo do assunto trabalho´, Yamazato conduziu Tae para dentro do Akabeko. Completamente encantada, ela o acompanhou sem hesitação.
Tsubame juntava e varria os entulhos para fora da cozinha, quando Yamazato e Tae entraram. Sua jovem chefa sorria feliz, escutando o moço conversando sobre reformas, materiais e coisas do gênero.
A menina que estava aflita antes, sem saber noticia de Yahiko, agora contava os segundos para que seu amigo chegasse logo.../Tomara que o Yahiko venha. Esse Yamazato me dá arrepios... Como a Tae pode confiar tanto nele?/... Tsubame se perguntava.
Os se ajeitaram em uma das mesas vazias do restaurante. Eles ainda conversavam sobre coisas sem maior relevância, quando Tae começou a fazer as perguntas que realmente interessavam.
"Senhor Yamazato, eu gostaria de saber sobre a procedência daquele livro que o senhor me deu. Me desculpe fazer essa pergunta, mas uma amiga me contou uma historia sobre esse livro, e eu..." Tae foi interrompida por ele.
Tsubame espiava sorrateiramente por trás da porta da cozinha, ela não tinha costume de fazer esse tipo de coisa, mas aquele homem a deixava realmente intrigada. Tudo nele parecia ser perfeito demais.
A menina gelou quando percebeu o olhar fixo de Yamazato, os olhos azuis a denunciavam como espiã. O homem não comentou uma só palavra sobre Tsubame estar escutando escondida, ele simplesmente sorriu misteriosamente para a moça, e continuou com a conversa. Tae, que tinha suas costas viradas para a menina não desconfiou de nada. Ela não pode ver como o olhar dele era dissimulado.
Sem pensar duas vezes, Tsubame fechou a cortina que servia de divisória entre a cozinha e o restaurante, e correu para os fundos do estabelecimento. Seu pequeno coração disparou com uma sensação desagradável. Lá dentro a conversa continuava animada.
"Senhorita Tae. A senhorita..." Yamazato foi interrompido.
"Me chame de Tae, por favor..." A garganta de Tae estava um pouco seca, mas ela sentia-se confiante. Se sua vez de amar tinha chegado, por nada no mundo ela perderia a chance.
"Tae. Gostaria que lhe contasse um pouco sobre minha vida?" Yamazato segurou a mão dela, em um gesto galanteador, enlaçou suas mãos nas delicadas mãos dela. Ele começou a contar animadamente sobre sua vida na Europa, seus talentos, sua infância feliz, seus pais e irmãos maravilhosos, seu emprego bem sucedido, o desejo de casar em breve e formar família. E finalmente sobre a procedência do livro que tinha presenteado para Tae.
Ela escutou tudo maravilhada, Yamazato tinha desejo de formar família no Japão, e ela se animou de verdade. Inclusive se surpreende com o fato de que o suposto livro de Kaoru, na verdade tinha sido comprado em uma feira de livros usados em Tokoyama. "Eu sabia que essa minha amiga estava enganada. Ela perdeu esse livro há dez anos. É simplesmente impossível o livro reaparecer assim, não é mesmo?"
"Creio que sim. Este livro contém uma historia muito singela sobre amor e perseverança." Yamazato tomou um gole de sake, e serviu Tae. Os dois continuaram papeando sobre todos os assuntos possíveis pelo resto da tarde.
.../...Qual o problema dela? Será que a Tae não consegue perceber algo estranho?.../... Nos fundos do restaurante, Tsubame não se conformava com o modo como sua amiga, praticamente sua irmã mais velha, estava se portando. E se esse homem realmente resolvesse se casar com Tae? Como as coisas iam ficar? Angustiada, a menina se sentou ao lado do poço, pensando em varias possibilidade. Tsubame pressentia o perigo, ela precisava arrumar um jeito de separar de vez esse tal Yamazato de Tae, mas não poderia fazer nada sozinha.
Então a menina pensou na melhor amiga de Tae. Kaoru, talvez ela poderia ajudar.
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Kaoru estava sentada na margem de um lago. O lugar era tranqüilo e perfumado. A grama verde, e as flores coloridas balançavam suavemente conforme a suave brisa passava. A aquarela de cores refletida pelo sol mergulhava nas águas plácidas do lago..
Ela sorriu quando virou o rosto para o lado e percebeu que todos estavam ao seu redor. Yahiko e Tsubame brincando animadamente de pega-pega com Suzume e Ayume. o Dr Gensai conversando com Megumi sobre alguma coisa cientifica.
Kaoru gargalhou quando olhou para trás, e viu Sanosuke roncando. O ronco dele parecia um motor de navio dando partida. Seu amigo lutador dormia debaixo da árvore, também pudera, tinha enchido a barriga com toda aquela comida do piquenique.
Sentado na beira do lago, Kenshin tentava em vão pescar algum peixe. Kaoru riu alto quando escutou o ORO mais engraçado dos últimos tempos. Seu adorado ruivo conseguiu pescar um sapato velho e furado.
"Kenshin, como pescador você é um ótimo espadachim." Kaoru estava satisfeita, essa era a família que ela amava. Ela fechou os olhos, escutando a algazarra das crianças, o ronco de Sanosuke, os 'oros' de Kenshin, a falação de Megumi e Dr. Gensai sobre ervas medicinais. Kaoru suspirou, agradecendo pelo dia perfeito e pelos amigos que não trocaria por nada no mundo.
Quando abriu os olhos novamente, o céu não era mais o mesmo. Nuvens escuras trouxeram uma chuva forte e fria. A escuridão então tomou conta da paisagem, antes tão alegre. Kaoru encontro-se pairando sobre o lago. Ela começou a chamar pelo nome de seus amigos, mas todos viraram as costas, como se ela não estivesse ali. Eles correram para se abrigar debaixo da grande árvore, nenhum parecia estar preocupado, ou se perguntando aonde ela poderia estar.Kaoru se calou, e permaneceu assim, flutuando. Um tanto quanto perplexa com a atitude de seus amigos. Os dedos de seus pés tocaram ligeiramente a superfície da água
Kaoru ficou sem reação quando viu um brilho vindo das profundezas, mas logo seus olhos se fixaram na água do lago. "O que é?" Era tão difícil enxergar, pois o liquido agora era sujo e espesso . Aos poucos a luz que imergia foi tomando forma, a forma de uma criança. Seu coração pressentiu que seria uma aparição, Kaoru estava até se acostumando com isso .Desta vez a criança usava em kimono branco, tinha longos cabelos compridos que se espalhavam ao redor do rosto branco, os inexpressivos olhos eram tocantes. Kaoru não entendeu nada, ela esperava por Shima, mas quem veio desta vez foi uma menina.
A jovem Shihandai escutou um suspiro infantil em seu ouvido."Mayume". Boiando na superfície do lago, a menina imergiu e Kaoru pode ver de perto o rostinho de criança. A Shihandai se entristeceu, ela se ajoelhou na tentativa de puxar a menina para cima, mas acabou perdendo a sua habilidade de flutuar sobre o lago, e afundando na água profunda..A pequena então sussurrou mais uma vez o nome "Mayume", antes de submergir rapidamente e desaparecer nas águas do lago escuro. Kaoru não foi capaz de ajudá-la.
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"Hã???" Kaoru abriu os olhos rapidamente. "Mayume" Ela sussurrou o nome que a menina de seus sonhos tinha dito. Kaoru suspirou tristemente, a criança do sonho parecia um pequeno anjo preso naquela escuridão do lago. A shihandai colocou a mão esquerda sobre seu coração. Olhou em seu redor, percebendo que só existiam as paredes da sala de treinamento.
Uma sensação de tristeza persistiu, um arrepio passou por sua espinha. A experiência não tinha sido medonha como das outras vezes, Mishima sempre vinha revoltado e cheio de magoa. Essa menina parecia tão...triste, e ao mesmo tempo tão singela.
Outro sentimento também poderoso , invadiu seu corpo quando percebeu que estava deitada nos braços de Kenshin. "Oh...Ken..shin."
"Bom dia senhoria Kaoru." Kenshin abriu vagarosamente os olhos multicoloridos, focando intensamente no rosto da garota em presa em seu abraço. Apesar de estar acordado a um certo tempo, não queria se levantar e perder o calor do corpo de Kaoru junto ao seu.
"Bom bom...dia, Kenshin." Kaoru se sentou, puxou o decote de seu yukata, que daquela posição, dava a Kenshin uma visão privilegiada de seu busto. Apesar das bochechas vermelhas, ela tinha uma expressão triste em seu rosto.
"Senhorita Kaoru, quem é Mayume?" Apesar de muita resistência, Kenshin se levantou, puxando Kaoru para cima.
"Eu não sei. Nós precisamos conversar, eu tive um sonho...Foi tão triste." Kaoru interrompeu a conversa quando percebeu que Yahiko estava chegando. "Mayume, esse foi o nome que a menina dos meus sonhos disse." Kaoru passou as mãos no cabelo solto, ajeitando-os em um coque mal-feito. Ela parecia estar tão triste e desconsolada.
"Senhorita Kaoru..." Kenshin colocou a palma da mão na bochecha rosada dela. Foi uma atitude tão despretensiosa que Kaoru aceitou sem hesitação, inclinando seu rosto para sentir mais da quente palma da mão dele. "Este servo sente muito. Este servo promete que fará o necessário para que a senhorita não sofra mais com esses pesadelos e aparições."
"Kenshin. Eu não sofro. Essas crianças sofrem, elas estão me mostrando algo...e eu não sei nem por onde começar." Kaoru sentiu que ia começar a chorar. Sem quebrar o contato da mão dele em seu rosto, ela levou suas próprias mãos para esfregar seus olhos.
"Calma...." Kenshin puxou Kaoru para um abraço singelo. "Nós vamos resolver isso. A confiança que a senhorita depositou neste servo na noite passada não foi em vão." Ele sentia de perto o perfume do cabelo dela.
"Alegre-se, este servo não suporta a sua infelicidade. Será que a senhorita não percebe isso?" Kenshin falou mais do que pretendia dizer, mas era a verdade e ele não poderia desfazer as palavras já ditas.
"Cer...to, certo." Kaoru foi tocada pela declaração reveladora. "Eu vou me arrumar. Ver o que precisa ser feito aqui no dojo. Ver se o Yahiko sobreviveu..." Kaoru se alegrou um pouco depois do que Kenshin havia dito, ela sorriu. Na verdade pensou em dizer que não saberia o que fazer da sua vida, se Kenshin não estivesse por perto, mas foi interrompida pela voz irritada de seu discípulo.
"Ahh que lindo." Yahiko entrou na sala de treinamento na hora do abraço, ele presenciou toda a cena comovente. "Shitamachi caindo sobre nossas cabeças e vocês dois ai, no maior romance." Kaoru e Kenshin se separaram instantaneamente, ambos ficaram com as bochechas vermelhas com fogo.
"Bom dia Yahiko. Você sobreviveuuu a tempestade. Aposto que fez xixi no futon" Kaoru brincou juntando as palmas das mãos, de um jeito ironicamente eufórico. Por dentro ela estava alegre ao ver que o menino estava são e salvo. Vestido em seu gi e hakama, com a shinai na mão, nem ligava para tornado, terremoto ou vulcão, tudo que ele queria era treinar logo.
"Feiosa, eu não sou como você. Corre feito um bebê no primeiro trovão. Eh Bom dia, coisa nenhuma. Já passa do meio dia, e eu estou morto de fome. Só não acordei os pombinhos antes... porque estavam tão bonitinhos juntos." Yahiko começou a fazer piadinhas e a jogar beijinhos no ar. Tudo para provocar Kaoru.
Ela ficou com o rosto ainda mais vermelho. Explodindo de embaraçamento, Kaoru gritou. "O QUE, SEU...?"
Kenshin fechou os olhos e sorriu. "Oro..."
Ele fez sinal que conversariam com calma mais tarde e Kaoru entendeu. Existiam muitas coisas ha serem esclarecidas. Como por exemplo, se o tal Katsutoshi realmente estava de volta ou se tinha morrido no manicômio, como ele escolhia as vitimas, como ele as matava, quais os motivos pra praticar esses crimes tão bárbaros, entre outras coisas.
"Ah seu moleque, na hora que eu te pegar." Kaoru se concentrou em Yahiko, arregaçando a manga do yukata, fez sinal de que o moleque teria o que estava procurando.
"Bruxa. Antes de qualquer coisa, vá tomar um banho. Você está com cara de louca." Yahiko tinha um sorriso enorme no rosto. Logo depois de dizer isso ele se mandou, pois sabia que a perseguição ia começar.
"YAHIKO. SEU PIVETINHO." Kaoru arrancou a shinai das mãos do menino, e começou a correr atrás de Yahiko até o quintal. Parou na escadinha do dojo quando viu o estado deplorável em que o dojo se encontrava. "Bleagh, o quintal está nojento. O poço está enlameado. O telhado esta destruído. Kenshin, o que vamos fazer?"
"Kenshin?" Kaoru podia jurar que Kenshin estava bem atrás dela.
"Kaoru, cadê ele? Aposto que depois de ter passado uma noite inteira do seu lado ele fugiu para nunca mais voltar, hahahaha." Yahiko gargalhou.
Yahiko estava brincalhão, a verdade era que ele tinha passado uma noite de pavor sozinho. Porem quando acordou e viu que estava tudo bem, percebeu que tinha passado bravamente por tudo aquilo sozinho. Sem Kaoru nem Kenshin por perto.
Quando acordou sozinho no dojo, no meio da noite, com aquela tempestade devastadora do lado de fora, morreu de vontade de correr para o abraço de Kaoru. Que certamente o protegeria, mas como nem ela, nem Kenshin estavam. Foi obrigado a se virar sozinho. E de certo modo, apesar dos momentos de pânico, estava grato por ter conseguido de forma quase heróica. Pelo menos era como que ele sentia na manhã seguinte. Um herói, de dez anos de idade. Que passou uma madrugada sozinho dentro do dojo escuro, com um tornado devastando a cidade de Shitamachi do lado de fora.
Kaoru deu um tapa na cabeça do menino, mandando ele acordar.Yahiko também achava que Kenshin estava logo atrás de Kaoru, mas o ruivo tinha sumido de repente. Vestida naquele yukata semitransparente, e com aquela cara de quem tinha acabado de acordar, Kaoru não estava em condições de ir atrás de ninguém.
"Vai ver aonde o Kenshin foi parar... Eu já volto." Ela disse isso dando tapinhas nas costas do menino, fazendo ele se mexer. Depois disso, ela se mandou em direção ao banheiro.
"Feiosa. Desde quando eu sou seu capacho?" Yahiko reclamou, mas foi mesmo assim. Logo ele encontrou Kenshin, parado perto do portão da frente. Sua expressão não era das melhores. Kenshin se virou para Yahiko, colocando uma mão no ombro do garoto, que a essa altura estava inquieto e aflito. "Hei Kenshin, qual o problema?"
"Infelizmente, trouxeram más noticias de Sanosuke." Kenshin leu novamente o bilhete que dois meninos trouxeram da clinica do Dr. Gensai. "Vamos avisar a senhorita Kaoru, depois iremos até a clinica." Kenshin disse tristemente. Pelo bilhete escrito por Megumi a situação de Sanosuke era realmente séria.
"O que?" Os olhos de Yahiko se arregalaram../ Sano...suke?/...
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Kaoru entrou em seu quarto reclamando da bagunça. O Lugar estava revirado, o futon desfeito, os kimonos jogados, as fitas que colocava em seu cabelo espalhadas no chão, os frascos de perfume caídos sobre a penteadeira.
Kaoru imaginou que aquela bagunça fosse culpa da tempestade, pensou que provavelmente o vento que entrara pela janela tinha sido o culpado. "Ainda bem que o teto não despencou." Sua tranqüilidade desapareceu quando percebeu pegadas de terra que atravessavam o assoalho de seu quarto. O tamanho do pé era grande demais para ser de Yahiko, e de maneira alguma era do feitio de Kenshin entrar em um quarto deixando toda aquela sujeira para trás.
Ela tomou uma posição defensiva, escaneando os cantos de seu próprio quarto. Não sentia a presença de ninguém. Devagar, observando as mudanças de corrente de ar, e as energias diferentes a sua volta, ela se abaixou. Passou então a organizar suas coisas espalhadas. Deu por falta de um dos seus laços de seda preferidos. Kaoru começou a dobrar o futon e as cobertas, tudo vagarosamente, quando levantou o pequeno travesseiro, um envelope caiu. Kaoru abriu lentamente, só havia um nome escrito, um único nome que fez com que ela tremesse por dentro.
Yahiko´
Kaoru então respirou fundo varias vezes, pode sentir que estava prestes a desmaiar. Mas se controlou, sentando no futon. Respirando fundo, fechou os olhos e amassou o envelope contra o peito. Sua cabeça doía.../...Não Yahiko, não. Eu não vou permitir, eu não vou.../....
Ele esta de volta? Quer levar Yahiko? Por que Yahiko? Só pode ser uma provocação...
Kenshin e Yahiko entraram no quarto dizendo coisas sobre Sanosuke que ela não conseguia captar. Ela só pensava no envelope que escondeu dentro do kimono floral. Kenshin percebeu a mudança de humor em Kaoru, e pediu explicações. Como as explicações não vieram, ele rastreou o quarto, e percebeu as grandes pegadas de terra espalhadas pelo assoalho.
.../Ele esteve aqui. Filho da mãe.../...Kenshin estreitou os olhos, um sentimento violento imediatamente começou a ebulir por dentro.../O tal Katsutoshi, é um sujeito muito ousado. Pra ter a capacidade de vir até aqui, e entrar dentro do quarto dela é preciso ter muita coragem./...
A noticia de Sanosuke já tinha o deixado com raiva, e agora saber que um visitante veio atrás de Kaoru no meio da madrugada tinha feito com que ele saísse do sério. Kaoru percebeu que seus olhos estavam puxando bem mais para o dourado do que para o habitual ametista de sempre.
"Precisamos ir até a clinica. Senhorita Kaoru, você não esta autorizada a sair de perto de mim. Entendeu?" Kenshin foi áspero. Kaoru ia reclamar, mas preferiu se calar. No momento ela não estava preocupada consigo mesma, mas sim com a segurança de Yahiko.
"O..K, certo Kenshin. Yahiko isso vale pra você também." O menino se surpreendeu, e começou a rir. "Kaoru, você ficou louca, não é?" Com um sorriso convencido no rosto, Yahiko saiu, certo de que nada nunca iria lhe acontencer. Kaoru precisava pensar no que faria, ela o protegeria de qualquer jeito. Mesmo que tivesse que mandar Yahiko para bem longe do dojo Kamiya, e se fosse necessário para bem longe de Shitamachi. Kaoru não permitiria que o mesmo que aconteceu com Shima, acontecesse com Yahiko, e essa promessa ela fez ao passar pelo portão do dojo Kamiya naquela tarde.
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A parte da frente da clínica do Dr. Gensai tinha sido destruida. Dentro do que tinha restado do pequeno hospital,pessoas dormiam amontoadas. As pessoas comovidas pela tristeza, não falavam quase nada. Eventualmente, alguns sons de tosse eram ouvidos.
Megumi tinha sido vencida pelo cansaço. Depois de horas a fio, ela adormeceu meio desajeitada, ajoelhada ao lado de uma das camas da clinica. Doutor Gensai pensou em acordá-la, e colocá-la em uma cama, mas ele sabia que Megumi não sairia daquele lugar por nada no mundo.
"Hum... Onde eu...? " Sano abriu vagarosamente os olhos. Sentiu um pouco de dor de cabeça, e dor nos ombros e nas costas. Sua face se contorceu ligeiramente de dor. Imediatamente, seus olhos vasculharam o quarto onde estava deitado.O quarto era claro, limpo, o teto familiar, a cama macia e quentinha.
.../..Hah...Será que eu morri?.../... Seu pensamento era uma brincadeira, afinal há muito tempo não passava a noite em lugar tão confortável, apesar de estar sentindo-se suavemente febril. As ultimas memórias iam voltando aos poucos.
Não eram agradáveis, Sano se lembrou de que Megumi não pode fazer nada pelo seu amigo. Logo depois viu o redemoinho de vento se aproximando, e foi tudo tão rápido, tirou Megumi do lugar aonde o teto ia cair, se jogando e recebendo o desabamento em cima das suas próprias costas.
"Tsc...Ele era um cara legal." Sano sussurrou. Passou os dedos entre os fios de cabelo arrepiados. Estava sem a famosa camisa com a palavra "mau", e sem a faixa vermelha que o lembrava diariamente do Sekihoutai e dos companheiros mortos.
"Pelo menos eu não sinto dor nas pernas" Sanosuke virou o rosto para o lado, para sua surpresa Megumi dormia ajoelhada ao lado de sua cama. Sano encontrou a faixa vermelha enrolada nos dedos da médica. "Tsc...Por que essa Raposa não deita em uma cama? É tão esperta, mas às vezes consegue agir feito a uma tola." Sanosuke se levantou para pegar Megumi no colo e colocá-la em cima de sua cama.
"O que?" O corpo não acompanhou, seus joelhos não acompanharam, seus pés não acompanhar. "O QUE?" Sanosuke elevou o tom de voz. Irritado, ele conseguiu se sentar, tentou dobrou o joelho novamente, nada aconteceu. Ele arrancou as cobertas, jogando-as para longe. Megumi despertou com a agitação. "MEGUMI, QUER ME EXPLICAR POR QUE DIABOS MINHAS PERNAS NÃO MEXEM?"
Megumi suspirou, abaixou a cabeça. Depois de alguns segundos tomando coragem, ela se sentou ao lado de Sanosuke na cama. "Você lembra do que aconteceu na noite passada?" Perguntou baixinho, segurando a mão dele.
"Sim, mas o que isso tem a ver com o fato de...de eu não conseguir mais mexer as pernas?" Sanosuke se deu conta de que talvez tivesse se machucado para valer dessa vez. No rosto de Megumi ele viu uma lágrima rolar.../...Pra médica durona estar chorando é porque eu me ferrei de verdade.../...Ele pensou, exagerando a situação.
"Eu fiquei...invalido? Anda Megumi, diz logo." Sano olhou para Megumi, mas os olhos dela estavam, escondidos embaixo das franjas. Sanosuke não conseguia entender. Algo assim nunca poderia acontecer com ele. Depois de todo o treino, de quase morrer na ocasião do treinamento com Anji. Ele não era conhecido como Zanza à toa. Era impossível. "É IMPOSSIVEL." Sanosuke estava se irritando com o fato de não poder sair dali e quebrar alguma coisa.
"Não sei dizer, é muito cedo." Megumi encolheu os ombros, ela sinceramente não sabia se era temporário ou definitivo. Ela deveria estar dando esperança para Sanosuke, orientando Sanosuke. Mas se sentia culpada demais para isso, antes de ser uma médica, ela era humana e estava lidando com o homem que amava, mesmo que não admitisse isso publicamente. Como Megumi poder dizer com certeza que Sanosuke ficaria bem? "Eu não sei. Sinto Muito."
"Como assim sente muito??? É tudo que tem pra me dizer?? Você esta me zoando. Só pode. Olha, se você estiver, eu preciso dizer que não é o melhor momento pra isso." Sanosuke estava nervoso. Megumi e aquela cabeça abaixada estavam tirando ele do sério.
"Levanta logo essa cabeça e olha pra mim. Se eu fiquei assim foi por ter salvado..." Sano levantou o rosto dela bruscamente, ele apertou o queixo de Megumi dolorosamente. Sano estava bravo, não era pra menos. A chance de ele descontar na pessoa mais próxima era grande. Megumi sabia disso... "salvado você..."
"Eu sei...vou fazer... TUDO que estiver... ao meu alcance pra que você volte ao normal." Entre soluços Megumi prometeu. Sanosuke sentiu-se mal de vê-la tão triste, como os olhos inchados de tanto chorar, agarrada a faixa vermelha como se sua esperança depende-se disso. Sano puxou Megumi para perto.
"Eu sei que a culpa foi minha." Entre soluços, ela chorou sinceramente.
"Ah Raposa...deixa de ser besta. Você não é tão poderosa assim. Para de chorar , ou te dou um cascudo" Sanosuke se afastou dela e se deitou na cama, acalmando-se. "Não esquenta, a gente vai dar um jeito. Por favor, me deixe sozinho por um minuto"
"Ok..." A médica saiu arrasada do quarto, Sanosuke tentou disfarçar que estava mais calmo, mas no olhos dele, ela pode ver a revolta. Megumi deixou o quarto, fechando a porta e se encostando. Ela então escutou, xingamentos e o som de um copo de vidro se espatifando violentamente contra a parede. Megumi abaixou a cabeça, a faixa vermelha enrolada em seus finos dedos. "Sanosuke, e agora?"
"E agora Chibi?"
Continua...
Disclaimer: RK não me pertence, claro que não..hehehe. Notas: Ola, como estão? O próximo pode ser que demore um pouquinho mais para sair, estou um pouquinho atolada com meus trabalhos, e minhas "meia-férias" já terminaram. Mas eu adoro esse fic, não vou parar de escrever, principalmente porque vou começar com as minhas maldades...err..eu não devia dizer isso.
Agradecimentos:
Letícia Himura: (Obrigada pelo review, espero ter te surpreendido. Beijos) Madam Spooky (obrigada pelo review, desculpe toda minha amolação) Carol Malfoy (Obrigada pelo review, que bom que ficou com medo..Muahahaha) Lili-chan( eu adoro mistérios, é uma pena que tenha poucos fics assim de RK em português) Shitachi Komura (atualizei rapidinho (eu acho, ne), obrigada pelo review, beijos) Kirisu-chan (Espero que tenha gostado desse capitulo, obrigada pelo review) Kagome-kun (Não fique brava em relação ao Sanosuke, ele é um fofo, mas precisa sofrer um pouquinho de vez em quando (chibi ma) Espero que tenha gostado) Murilo (E ai Murilo? Gostou, me diga tá, beijos) Lan Ayath( ainda é cedo pra dizer se o Sano vai ficar bem,ou não. O que vc acha que deve acontecer com ele??Hehehe...beijos, valeu pelo review) Lere (Desculpe fazer vc acabar com as suas unhas... Espero que vc tenha gostado, beijos e ate o próximo)
Obrigada por ler
Beijos Chibi-Lua
