Proposta Irresistível
Por Mukuroo
Obs: Saint Seiya não me pertence! Os personagens podem sofrer algumas alterações em suas personalidades originais.
II
O dia e a noite brincavam de gangorra no céu de verão de Atenas quando Shura partiu em seu carro esporte, de cor preta. Passando por entre os carros do estacionamento da clínica onde, um dia por semana, prestava serviço comunitário, não conseguiu evitar a sensação de culpa.
Que privilégio era poder pagar pelo carro de seus sonhos, ter um consultório confortável e espaçoso! O fato de muitas vezes sentir-se um fracasso na vida e no amor era indesculpável. Afinal, quantas pessoas podiam olhar para uma casa, apaixonar-se por ela e comprá-la? Fora isso mesmo o que fizera.
Verdade que imóvelaindaprecisava de uma boa reforma. Mas os quartos eram amplos e arejados, apesar de as janelas de vitral não deixarem muito ar fresco penetrar. E os detalhes em madeira eram lindos... Ou iriam ficar, depois que raspasse as várias camadas de tinta bege horrível. E os magníficos acessórios? Trincos de cristal lapidado, pias e banheiras com pedestal, lustre de cristal.
Chegando ao passeio da casa, o carro saltitou pelos buracos e elevações do asfalto. Isso podia ser consertado, tanto quando o telhado em estilo espanhol. Saindo do veículo, sorriu ao ver a imensa janela de vitral, necessitando também de pintura, em formato de coração, no centro de sua torre particular. Mas primeiro, o ar-condicionado central devia ser reparado.
- Olá, casa! – gritou para o vazio. – Sentiu minha falta?
Depois de abrir as três janelas do térreo que não eram de vitral, ligou o ventilador de teto para movimentar o ar parado e espantar um pouco o silêncio. Foi até a secretária eletrônica. A luz piscava, frenética. Como sempre. E, como sempre, todas as mensagens se relacionavam a trabalho ou a uma das várias causas em que estava envolvido.
Tudo seguia a rotina. A não ser por aquela carta horrível que enviara de manhã a Aiolos Sagitálius. Arrependera-se assim que recebera o sinal de que o fax fora transmitido. Por que tomara uma atitude tão impulsiva, tão estúpida? Com certeza havia melhores formas de abrir os olhos de seu paciente, ensinando-o a colocar a razão acima da paixão e não se deixar enganar pelos canalhas. Tudo bem. "Vivendo e aprendendo" – pensou Shura. Ele também cometera seus erros.
Louco para tomar um sorvete, seguiu para a cozinha, parando antes para ler as últimas mensagens de fax recebidas. Tudo rotineiro. Passou a jogar as folhas no chão. Quem se importava com o fato de Shura ser relaxado por natureza? A verdade é que ele aparentava muito bem ser perfeitinho e organizado, mas era apenas aparência. No entanto, ao chegar ao ultimo papel... Bastou uma rápida olhada no cabeçalho e lá estava ele, lutando contra a ansiedade e a expectativa.
- Oh, não! Não! – Respirou fundo algumas vezes e forçou-se a ler a temida carta.
"Caro, dr. Capricorn:
Sendo fã de sua coluna, fiquei muito desapontado ao saber que seus sentimentos em relação a mim e a minha companhia não são nada lisonjeiros. Ainda assim, fiquei feliz por alguém do seu nível pessoal e profissional ter se disposto a dividir comigo as suas interessantes preocupações.
Gostaria que soubesse que fiquei comovido pela preocupação dedicada à seu paciente, muito embora, conhecendo-o, não esperasse outro gesto de sua parte. Em nome dos leitores como eu, muito obrigado pelas palavras sábias que me enviou. Por favor, saiba que eu as guardarei em meu coração".
Oh, isso era pior que uma réplica arrasadora! Com vontade de se esconder embaixo de uma rocha para todo o sempre, Shura se sentou no chão, tremendo, e forçou-se a prosseguir.
"Na esperança de poder melhorar a sua opinião sobre mim, resolvi aceitá-lo como cliente e tratar do seu caso. Com sinceridade, fiquei ainda mais impressionado com a sua descrição pessoal do que com as suas qualificações profissionais. Preciso confessar-lhe algo. Embora desejasse oferecer-lhe uma dúzia de opções, não é esse o caso. Há apenas um candidato que avalio ser o seu parceiro adequado".
Um parceiro adequado? Depois de todas as coisas horríveis que dissera, esse homem fizera uma pesquisa e encontrara aquilo que ele desistira de procurar havia alguns anos? Ansioso, Shura continuou:
"Como você, ele exige segredo sobre certas informações, pois também deseja ser julgado por seus próprios méritos. Desculpe-me se me adiantei, mas, na pressa de me redimir, tomei a liberdade de marcar um encontro. Se já tiver algum compromisso para este sábado, às sete da noite, por favor, entre em contrato com meu escritório e marcarei outra data, adequada à sua agenda.
Espero que seja bem-sucedido, tanto quanto Tales (o pseudônimo pelo qual ele deseja ser conhecido). Esse homem, de múltiplos interesses, aguarda ansioso o prazer da sua companhia on-line. Eu lhe assegurei que o tempo passado com você será, com toda certeza, fantástico.
Estou enviando o pacote com o software Amor on-Line pelo correio amanhã. Quanto à taxa de filiação, considere-a paga. A maior recompensa que poderia receber seria ver mais essa união se concretizando. Poderia me fazer um favor? Se eu ainda estiver solteiro até o dia do seu casamento, jogue o buquê para mim.
Atenciosamente,
Aiolos Sagitálius
Presidente da Companhia Amor on-Line.
Um encontro! Depois de mais de dois anos em brancas nuvens, tinha um encontro com um homem misterioso para quem Shura também era um mistério. Desconfiou um tanto daquilo, imaginando se aquele homem estaria falando a verdade, mas por que motivo mentiria? Pensou um tanto antes de levantar-se num pulo, acabou por um sorrir de leve ainda segurando o papel. Era como uma promessa de libertação.
Preso, era como se sentia. Enclausurado pela responsabilidade, pelas expectativas, pelo isolamento. Precisava sentir-se homem. Precisava de alguém com quem pudesse apenas ser. E graças a Aiolos Sagitálius, teria essa possibilidade, ao menos, por uma noite. Com "Tales". Iria encontrar um homem que não fugiria nem de sua aparência, nem de suas façanhas, nem de sua personalidade as vezes estranha a olhos alheios.
Mas Tales não sabia seu nome, profissão, nem mesmo a aparência. Tudo o que aquele homem veria seria Shura, o homem lá dentro dele, que gritava por liberdade. Cheio de expectativa, Shura foi andando rapidamente até o computador, na mesa da biblioteca. Sentou-se e levou os dedos às teclas.
"Caro sr. Sagitálius:
Em primeiro lugar, minhas desculpas pelo terrível equívoco em relação a sua pessoa. Considerando o tom de minha carta anterior, fiquei bastante surpreso com a delicadeza de sua resposta.
Obrigado por seus esforços para arranjar um encontro com Tales. Neste sábado, às sete? Diga-lhe que está marcado. Cá entre nós, eu não perderia isso por nada no mundo.
Fico grato pela oportunidade que me forneceu de encontrar alguém que possa me julgar pelo que sou de verdade. É uma rara oportunidade para mim. Tão rara quanto o seu caráter, generosidade e integridade.
Mais uma vez, meus agradecimentos. E minhas desculpas por tirar conclusões apressadas em relação ao senhor, que, sem dúvida, é um homem justo.
Atenciosamente.
Shura Capricorn.
Continua...
Nota: Eu sei que está curto, mas não havia nada mais para ser escrito realmente nesse capítulo. Por esse motivo, resolvi postar dois capítulos de uma só vez. Espero que estejam curtindo... Muk-chan!
