Proposta Irresistível

Por Mukuroo

Obs: Saint Seiya não me pertence! Os personagens podem sofrer algumas alterações em suas personalidades originais.

VII

- Uma fraude? – Shura olhou o loiro de forma curiosa. – Você é Aiolos Sagitalius, não é?

- Sou. – Disse apenas e o silêncio logo começou a se tornar constrangedor.

- Receio não estar entendendo... Aiolos. – Shura fez o máximo para assumir um tom simpático. Chamá-lo pelo primeiro nome era estranho, num primeiro encontro tão tenso. Tenso demais, corrigiu-se Shura, vendo o loiro de lábios selados, sacudindo a cabeça e fitando-o como se houvesse algo errado, com uma expressão que beirava o ressentimento.

Apesar do fato de Aiolos ser alguns centímetros mais alto que Shura, o que o colocava na categoria dos homens cobiçados, Shura não podia negar que também ficara ressentido. Não era justo da parte dele, introduzir-se em seu escritório apenas para destruir suas expectativas. Aquele estranho taciturno não se parecia em nada com o homem que Shura estava louco para conhecer.

Quando o silêncio se prolongou, Shura quis saber: - Por que veio?

- Eu queria encontrá-lo. Quanto ao assunto sobre o qual queria conversar... Tem... ah... - Aiolos hesitou um tanto antes de prosseguir. – Tem a ver com o fato de as pessoas nem sempre serem o que parecem.

- Vá em frente – insistiu Shura, com o desapontamento dando lugar à perplexidade.

- Para falar a verdade, não estou me sentindo à vontade aqui. Marquei uma consulta por impulso e gostaria de não tê-lo feito. Mas, já que marquei, e já que você é analista profissional, talvez não se importe em me ouvir. – Aiolos estava era enrolando.

- É o que faço melhor – assegurou-lhe, feliz por Aiolos não mais o fitar em silêncio com aqueles penetrantes olhos verdes.

Todavia, a conversa que esperara era muito diferente. Na verdade, Shura pensara que havia sido uma estratégia para estar com ele num ambiente profissional antes de convidá-lo para jantar. Não um encontro para cortejá-lo, pois isso criaria um conflito de interresses, mas uma oportunidade para se conhecerem melhor. E por que pensara aquilo? Porque estava intrigado com aquele homem misterioso desde o início, e ele mesmo teria feito o convite se tivesse surgido uma oportunidade.

Enganara-se, pensou Shura. O interesse dele no encontro não passava de uma troca de serviços profissionais. Shura ficou mortificado ao perceber que estava corando Aiolos notou que o outro o encarava e deu um sorriso tristonho.

Quem era aquele homem? Shura pensava. Com certeza não era como o espanhol esperara e de modo algum teria concordado com uma consulta que envolvesse os aspectos que aquela estava assumindo. Como analista, qualquer atração sexual era inaceitável.

Sentia-se atraído. Contra a vontade e em um nível puramente físico, instintivo. Ora, que pessoa não sentiria atração, disse a si mesmo, tentando consolar-se, enquanto Aiolos tirava uma foto da carteira.

Então Aiolos o encarou também. Por trás daqueles olhos inesquecíveis, algo se passava. Ele parecia estar avaliando a situação, ordenando os pensamentos como um matemático ou um estrategista.

- Eu falei que era uma fraude – declarou, devagar, ainda formando um plano de defesa contra o inimigo que acabara de encontrar. – Os impostores fingem ser alguém que não são, e esse é o meu defeito. Não sou quem os outros pensam que sou.

- É algo bastante comum. Todos usamos diversas máscaras, e só de vez em quando permitimos que os outros nos vejam como somos de verdade. – o espanhol começou a explicar, falando de forma calma e tranqüila. – Tentando nos adaptar às expectativas e opiniões dos outros, podemos nos tornar estranhos para nós mesmos, inseguros sobre nossa própria identidade. Se isso o faz sentir-se melhor, crises de identidade são bastante comuns. Você não está sozinho.

- No meu caso, acho difícil. – Em vez de alívio, Shura viu nos olhos de Aiolos uma dor e raiva intensas.

Shura teve vontade de afastar a franjinha loira que lhe caía na testa, para lhe mostrar que ele não estava sozinho, que o espanhol se importava.

- Eu... – Aiolos hesitou antes de continuar. – Tenho algo a lhe mostrar. É a razão dos meus problemas, algo que não gosto de admitir nem para mim mesmo, quando mais para outra pessoa. Não é um retrato muito bonito.

- Quer me mostrar o retrato?

- Não! – Aiolos se inclinou para a frente, chegando tão perto que Shura pôde sentir-lhe o hálito quente, cheirando a canela, e o perfume de sua colônia, uma fragrância leve e silvestre capaz de mexer com os sentidos de qualquer um. – Olhe bem para o meu rosto e diga o que vê.

Shura respirou fundo para se recompor. Como, ao fazê-lo, captasse o cheiro dele, não teve êxito. – Vejo que você está triste.

- Eu lhe fiz uma pergunta direta. Gostaria de uma resposta direta. – falou seriamente.

Embora "lindo, de tirar o fôlego" fosse só o que podia pensar, Shura procurou e encontrou palavras mais aceitáveis para responder:

- Vejo um homem muito atraente. Bastante ferido também, e cuja negação da raiva o impede de enfrentar a mágoa.

- Esqueça a visão psicanalítica agora e me dê as suas impressões superficiais. – Estava sério ainda. – Gosta do nariz, das faces, do queixo e do resto?

- Muito... – A voz do espanhol sumiu. Aquilo estava indo de mal a pior. O calor em suas faces se espalhava pela garganta, pelo peito e... Tal coisa nunca acontecera em seu trabalho! Bem, aquele não era um paciente típico, e Zeus era testemunha de que Shura não estava agindo de modo normal. Fingindo compostura, concluiu:

- Bonito. Muito bonito.

- Ora, vamos, você pode fazer melhor do que isto. – continuava ainda com a mesma expressão. Virou o rosto de lado e orientou o espanhol: – Note a ponte do nariz, o modo como foi construída com uma precisão de engenheiro, para fazer nas narinas se sobressaírem. Muito nobre, não?

- Ah... sim. – A palavra saíra quase num sussurro. Aquele encontro estava se transformando em uma verdadeira tortura. Aiolos era impiedoso.

- Agora – continuou o loiro, erguendo o queixo – Considere a linha do maxilar. Note como é bem estruturada, das orelhas ao queixo. Gosta do queixo?

- É... é belo... Forte. – Fitando aquele queixo que assomava diante de seus olhos, Shura imaginou como seria passar os dedos nele.

- E os lábios? Belos lábios, não?

Belos? Eram incríveis. Firmes e cheios. Ele poderia ganhar a vida numa barraca de beijos.

- São... Muito bonitos. – Shura engoliu seco olhando aqueles dois pedaços de carne. "Zeus do céu". Até suava.

- Bonitos! – Aiolos bufou. – Que bom que gostou dos lábios. E o sorriso? Um amplo sorriso agora, para você dar uma boa olhada nos dentes.

Atordoado diante do amplo sorriso simulado, Shura contemplou um conjunto mais perfeito, branco e reluzente. Como seriam eles descendo-lhe sobre o pescoço? Qual seria a sensação...

- Por favor, chega! – Afastando a cadeira o mais que pôde, Shura tentou recompor as idéias. – Por favor, fique certo de que acho cada aspecto do seu rosto mais do que satisfatório. Você é um homem muito bonito e, se não e isso o que o espelho lhe diz, então é porque você tem um problema de auto-avaliação, e não de identidade.

- Ao contrário, caro doutor. Ao contrário. – Aiolos desviou o olhar para a foto, deixando o espanhol aliviado por não ter mais sobre si aqueles penetrantes olhos verdes que pareciam atravessá-lo e ler seus pensamentos ocultos. – Olhe para a foto. O tempo que desejar. Ou quanto consiga resistir.

Shura não tinha a menor idéia de quais seriam as razões. Afinal, o que poderia aquela foto ter a ver com Aiolos? Era o retrato de um homem, em seus vinte e tantos anos, sorrindo. Um homem comum afinal. No entanto... olhando com mais atenção... havia uma doçura, uma bondade inatas na expressão daquele homem que transcendia a superfície. E os olhos...

Os olhos dele.

- Meu Zeus – sussurrou Shura.

- Vá em frente. Diga-me o que vê. – Aiolos suspirou.

- Eu... eu vejo... você! É você! - Sim, estava diferente, mas era ele. – Mas... – olhava os traços na foto e depois olhou para Aiolos. Sim, muita coisa mudou, até mesmo o formato do rosto, do queixo, do nariz. Parecia que haviam reformulado o homem que estava em sua frente. – O que aconteceu? – Havia um leve toque de curiosidade do tom calmo de Shura. Teria Aiolos feito uma plástica? Se fosse isso, não via motivos para tal. Olhando a foto, o loiro não era feio antes. Era até simpático.

- Não sei se quero lhe contar. – Era uma resposta sincera. Tão sincera quanto o prazer que sentia ao ver Shura se contorcer de leve quando trocavam olhares. Precisando de uma certa sensação de controle sobre si mesmo, Aiolos plantou-se bem diante da cadeira de Shura.

- Esse é o único assunto sobre o qual me recuso a falar, mesmo com a minha família. No entanto, posso abrir uma exceção para você, Shura. Depois que me responder a uma pergunta. – o loiro olhou o espanhol de forma séria. – Beijaria o homem deste retrato?

Shura engoliu em seco e se contorceu de novo, revelando contradições em sua expressão reservada e na resposta prudente:

- Não conheço este homem e não tenho o hábito de beijar estranhos.

- Ele é tão estranho quanto eu – replicou Aiolos, arrasado com a resposta evasiva. A rejeição de Shura o feriu, e ele quis se vingar. Não era culpa do espanhol, e Aiolos sabia, mas isso não o impediria de jogar sujo para obter a resposta que desejava.

Agachando-se, imobilizou o espanhol na cadeira. Um leve toque das pontas dos dedos másculos sobre a palma macia e o rápido arquejo de Shura coincidiram com o momento em que Aiolos retomava a foto, devolvendo-lhe ao bolso. O loiro sorriu, sedutor, e fixou a atenção no foco de seu desejo. A boca de Shura.

- Não sou exatamente um estranho, Shura. Mas, mesmo se fosse... – Inclinando-se, notou a dilatação das pupilas dele, o arfar do peito, a inclinação sutil do rosto. – Eu lhe pergunto... Você gostaria de me... beijar?

Continua...

Mais um capítulo no ar. Espero que estejam gostando e não desanimem. Mandem reviews dizendo o que estão achando. Opiniões também são importantes para que eu possa melhorar a história. Gostaria de agradecer à: Youko Estressada, Litha-chan, Sy Kodoshi, Patty-san, mfm2885, Dragonesa, P-Shurete e principalmente à Akane M.A.S.T. pela betagem e paciência. E não se esqueçam:

Dedinhos felizes digitam mais rápido -

Beijos a todos que estão curtindo o fic, Muk-chan \o/