Proposta Irresistível

Por Mukuroo

Obs: Saint Seiya não me pertence! Os personagens podem sofrer algumas alterações em suas personalidades originais.

XVIII

- Estarei na outra sala se precisar de alguma coisa, Shura. – Aiolos sorriu e foi saindo da biblioteca do outro. Estava preocupado com o espanhol.

- "Que tal um pé novo?". – Sufocando a resposta, Shura voltou a atenção ao computador e deu um suspiro de alívio ao ouvir a porta se fechar, deixando-o a sós com seus pensamentos revoltos. E, com certeza, com uma carta de Tales esperando-o na caixa eletrônica.

Como podia Aiolos estar tão feliz enquanto o espanhol se sentia tão arrasado? Não parecia justo, pois era o loiro quem causava aquele incômodo. Aiolos tinha de fazer o café para ele? Tinha de olhá-lo como se fosse um sorvete num dia de verão, apesar de estar com uma aparência horrível, sem pentear o cabelo nem escovar os dentes? Tinha de ficar se preocupando tanto se a altura de seu pé sobre a cadeira estava adequada ou não?

E, como se lidar com Aiolos acordado não bastasse, o loiro também o atormentava durante o sono! Estremeceu ao se lembrar do pesadelo horrível que tivera: Era a última consulta de Aiolos e Shura não suportava a idéia de uma despedida. Aiolos também relutava em partir. O loiro iria superar, contudo, pois o Fulano se encarregaria de ajudá-lo.

Mesmo morrendo de ciúme, Shura mantinha a fachada imperturbável. E o tempo todo, enquanto fingia ser o analista objetivo que não era. Aiolos o fitava com aqueles olhos inesquecíveis que o derretiam. Desviou o olhar quando o outro lhe estendeu a mão. Mas, assim que o tocou, todos os instintos se libertaram.

De repente, os lábios de Aiolos tomaram os seus, e Shura retribuiu com fúria. Enlaçou-o com os braços, massageando-lhe os ombros, o tórax e começou a rasgar-lhe a camisa. Aiolos também lhe rasgou a roupa e beijou-lhe um dos mamilos, sugando com avidez. Apertava o outro, enquanto abaixava-lhe a calça e... Os dois rolaram para o chão do consultório. Shura não tinha a menor noção de onde estavam nem de quem era. Shura implorou que Aiolos o penetrasse, e foi obedecido de imediato. Começou a gritar o nome dele e então...

Então Astérion abriu a porta e gritou: – Chamem a polícia! Shura Capricorn está sendo atacado! Há um paciente em cima dele, e todo mundo sabe que ele nunca faz nada desse tipo!

Seu próprio grito de êxtase dissolveu-se numa negação: – Não, Astérion, você não viu nada disso. Aiolos, rápido, saia de cima de mim! Nós não fizemos essa coisa horrível, inexplicável...

Mas haviam feito, sim, e a polícia chegou. Para não deixar que levassem Aiolos, ele teve de confessar um dos piores crimes que um analista pode cometer.

O sonho não tivera a cortesia de terminar ali. Oh, não. Primeiro, Shura precisou perder a licença profissional e sair na primeira página dos jornais de todo o país. Fora tanta a sua vergonha que cortara relações com Tales, porque ele merecia parceiro melhor. Quando a Aiolos...

Despertara-o com um toque delicado no ombro, dizendo que estava tudo bem, que não chorasse, que lhe trouxera o café. O grego enxugara-lheas lágrimas e pedira-lhe que contasse o pesadelo, mas não foi atendido. O fato do loiro tê-lo livrado do pesadelo que ele próprio criara era tão irônico quanto o seu comentário de que Shura dormia de boca aberta.

Shura tivera vontade de apagar aquele sorriso sensual com um beijo tão violento como o modo como ele o penetrara no sonho.

Sonhos... Acreditava na mensagem deles. Era claro que seu subconsciente estava avisando sobre o perigo que Aiolos representava para suas emoções e libido, e para a própria vida que levava e pretendia continuar a levar se não pusesse tudo a perder devido a uma paixão descontrolada.

Certa vez, quase pusera tudo a perder fora abandonado no altar, por um noivo que fugira com outro na noite de seu casamento. Podia muito bem passar sem ele. Mas as lembranças ainda o atormentavam, o que ficara evidente no sonho. Tinha medo de passar por uma situação que o envergonhasse; medo das conseqüências de agir por emoção ou de ceder aos caprichos da paixão.

Tinha medo da intimidade. Aiolos estava chegando perto demais do seu verdadeiro eu, raspando a verniz e liberando seus instintos de um modo como Tales não conseguia. Tales era como um jardineiro, encorajando-o a crescer com seu carinho e afeto. Aiolos era como um trator, derrubando-lhe as defesas com seus olhares ardentes, provocações e...

Carinho e afeto.

Shura precisava desabafar, senão começaria a gritar. Com quem poderia falar? Quem poderia entendê-lo?

Tales. Ele escutaria seus temores e conflitos. Além disso, merecia conhecer seus verdadeiros sentimentos por Aiolos, em vez de meias verdades que contara, reconhecendo que o loiro o afetava a nível físico e nada além disso. A verdade era que Aiolos o transformara num vulcão a ponto de entrar em erupção. Sim, Tales merecia sua honestidade.

Excalibur e Tales era algo sério e, caso se entrosassem tão bem pessoalmente quando pela tela, Aiolos podia se preparar para agarrar o buquê. A não ser que, nesse dia, já não fosse mais solteiro...

Shura estremeceu diante da ferroada do ciúme. Teve vontade de esmurrar uma parede. Como não fosse resolver nada, concentrou-se em Tales e foi verificar a caixa postal. A carta estava lá, é claro, maravilhosa como sempre:

"Querido Excalibur... Está magoado? Ando preocupado..."

Shura sorriu, e seu coração se enterneceu de novo diante das palavras que tanto o tocavam.

"Por que é que a gente não dá o devido valor ao que tem antes de temer perdê-lo? Temo perder você, Excalibur. Mas, se a sua ausência esta noite significa que encontrou a real felicidade com outro, que seja. Afinal, nós podemos nos enganar por algum tempo, mas, no fim, a verdade vence. Você significa demais para mim para que eu o perca por um descuido. Por favor, me conta o que passa pelo seu coração, mesmo que ele esteja dividido. Eu lhe daria a lua, se pudesse, mas não desejo um compromisso se é outro homem quem o leva às estrelas..."

Embora não fosse um pedido de casamento, Shura achou que Tales se encaminhava para isso. Tales falava com seriedade a respeito de seu relacionamento, e Shura sabia que estavam chegando a um ponto em que ou se estabelecia um compromisso ou viria a insegurança como a que sentia agora, de mãos trêmulas, diante do teclado.

Contou-lhe sobre o acidente e sobre o "outro", que o ajudara e confundira demais. Garantiu a Tales que seus sentimentos por ele continuavam tão firmes quanto antes e que nada mudaria isso. Afinal, seria a ele, e a mais ninguém, que revelaria a experiência mais dolorosa de sua vida.

Que alivio sentiu ao contar a Tales toda a horrível história, do começo ao fim. Não deixou nada por dizer. Não poupou detalhes sobre como fora duro suportar a piedade dos duzentos convidados, a devolução dos presentes e a queima do terno branco.

Sem um instante de hesitação, enviou a carta em que desnudava sua alma a Tales. Achou que o fato de não ter vacilado era algo significativo. Sentiu-se bem até. Nem mesmo Aiolos seria capaz de destruir aquela serenidade. Achou até que estava pronto para ter uma conversa com ele, dizendo-lhe que seu relacionamento estava se tornando pessoal demais e que era necessário recuar. Ficara abalado demais com o pesadelo para ter essa conversa, mas agora estava firme como uma rocha.

Imprimiu a carta que Tales mandara como fazia sempre e guardou na borda da cueca, para que caso o loiro se aproximasse demais, não a visse. Disposto a enfrentar Aiolos, estendeu a mão para pegar as muletas. Só então percebeu que as deixara do lado de fora da porta.

- Miserável! – murmurou Shura, certo de que o outro fizera de propósito, para que precisasse chamá-lo.

- AIOLOS!

- Já vou! Só mais um minuto para eu acabar a janela.

Então Aiolos estava consertando as janelas. Shura franziu o cenho, com a serenidade um tanto abalada. Aiolos não tinha o direito de se intrometer assim em sua vida doméstica. Aquele era o tipo de coisa que só um namorado faria. Ou um pai, ou um irmão, ou um marido, um... Droga, como é que Aiolos conseguia excitá-lo com qualquer bobagem?

Aiolos, abrindo a porta, executou um floreio. – Às suas ordens! Tudo bem, vou levá-lo para o sofá. – Amparou-o. – Agora, passe os braços em torno do meu pescoço.

Shura não se moveu. Não conseguiu. Sua respiração estava irregular. Com o rosto à centímetros do dele, o cheiro de suor e sabonete o envolvia, mesclado ao calor da pele colada à sua. Reunindo o que lhe restava de razão, sussurrou: – Você só precisava me dar as muletas e me ajudar a me levantar da escrivaninha. Faça apenas isso e eu posso me virar sozinho.

- Eu sei. – respondeu, mas não fez nada além de puxar a mão de Shura para seu pescoço, com um sorriso íntimo e um olhar profundo.

Shura precisava tirar o loiro dali. Precisava afastar a mão do pescoço dele, precisava, antes que começasse a acariciar a pele macia sob seus dedos ou pior, acariciando os cabelos e...

Shura afastou a mão. Com voz bem mais fraca que o normal, insistiu: - Alcance-me as muletas e vá embora. Chegarei ao sofá antes que você vire a esquina.

O sorriso de Aiolos deu lugar a um olhar sério e sombrio. – Tudo bem. – Soltou-o devagar, colocando com cuidado seus pés ao chão. Então pegou as muletas e passou-as para Shura. Os braços que oferecera em auxílio agora estavam cerrados diante do peito. – Vá em frente.

Posicionando as muletas, altivo, Shura deu dois passos cambaleante para frente. Ao se preparar para o próximo, a muleta do lado direito encaixou numa fenda entre os tacos do assoalho.

Contendo um grito, Shura soltou a muleta presa e estendeu a mão para se agarrar à porta de carvalho. Errou o alvo. No exato instante em que as muletas chegaram ao chão, Shura foi amparado.

- Se é verdade que o orgulho conduz à queda, você tem sorte que eu tenha deixado o meu de lado. Agora, passe os braços pelo meu pescoço. Senão...

- Senão o que? – o cortou.

- Senão você perde a oportunidade. – O tom grave contrastou com a violência com que Aiolos o tomou no colo e o colocou no sofá. – Agora nós dois vamos cair.

Continua...

Mais um \o/ Parece que finalmente as coisas começaram a se acertar. Ainda assim, Aiolos continua mentindo para Shura. OMG! Quero só ver como vou desenrolar essa história. Beijos a todos! E sim, tem mais um capítulo hoje \o/