- Capítulo Dois -

- Kaiba é um idiota! – Jounouchi concluiu, após ouvir a história. – A menina deve ter ficado bem assustada.

- É, ela parecia assustada mesmo... Mas não acho que fosse com o Kaiba...

- O que quer dizer, Yugi?

- Nada, Jou-kun. Esqueça.

- Certo, se é o que você quer.

Jounouchi havia perdido um pouco da teimosia e irresponsabilidade com o passar dos anos. Era um rapaz ainda em fase de amadurecimento, mas com certeza já progredira bastante.

- E ele ainda ameaçou capturar Anzu de novo?

- Não acho que foi exatamente assim. Você sabe, Kaiba gosta de amedrontar. É só. – ele sorriu. – Chegamos.

Haviam chegado à casa de Terrae Mayra, como ele descobrira ser o nome completo da garota. Era uma casa simples, com um andar superior e outro inferior, as paredes de tinta azul clara cobertas de trepadeira. O jardim da frente era muito bonito, e a fonte no centro, em forma de anjo, também dava ao lugar uma impressão de que, ao atravessar a porta da frente da casa, você entraria no paraíso.

No entanto, Yugi sentia um certo incômodo ali. Na verdade, ele sabia que esse incômodo era proveniente de Yami, com o qual dividia algumas sensações, inclusive aquela. Yami estava inquieto.

"Algum problema, Yami?", perguntou ele, mentalmente.

"Luz demais!", respondeu a voz do Faraó.

"Hein?", Yugi fez uma cara confusa.

"Esqueça, Yugi. Apenas termine isso logo e vamos dar o fora daqui.", foi a resposta ríspida.

Yugi sentiu uma pontada de irritação, mas seguiu Jounouchi, que já ia à frente e tocava a campainha. Michiko logo os atendeu.

- Pois não?

- Boa tarde. Aqui mora uma senhorita Terrae Mayra? – Yugi perguntou gentilmente. Já devia passar de meio dia.

- Sim. Os senhores a conhecem?

- Ela deixou isto na loja do meu avô hoje mais cedo. – esclareceu Yugi, apontando o livro e o caderno que segurava.

- Oh, entrem. – Michiko afastou-se e abriu totalmente a porta, assim a dupla entrou, tirando os sapatos e calçando pantufas. – Kali, venha cá!

Passos foram ouvidos pela escada e logo a mesma menina que levara May embora da loja apareceu. Yugi a reconheceu de imediato, era uma figura difícil de esquecer.

- Kali, esses senhores vieram trazer alguns pertences de May-chan. Onde ela está?

Kali arregalou os olhos ao ver os dois.

- Yugi e Jounouchi na minha casa? – os olhos dela ganharam estrelinhas. – Oh, por favor, acomodem-se. Mamãe, poderia servir um chá para os visitantes?

- Hein? – Michiko ergueu uma das sobrancelhas. – Onde está May?

- Tomando banho. Acho que só isso é capaz de acalmá-la.

- Ela ficou muito magoada com o que Kaiba falou? – perguntou Yugi, constrangido.

- Eu não sei o que aconteceu, senhor Muttou. May-chan não me contou nada a respeito. – explicou Kali, realmente preocupada com a prima. – Mas não se preocupe. May-chan é somente muito ingênua e sensível, se magoa com facilidade, mas isso passa. – Kali sorriu, o que encantou Jounouchi.

- Hum, fiquem para o almoço, já está quase pronto. – pediu Michiko.

Yugi sentiu sua cabeça latejar. Era Yami, querendo sair dali o mais rápido possível. Mas seu estômago roncando falava mais alto.

- Agradecemos e aceitamos com prazer! – respondeu, e o latejar em sua cabeça doeu infernalmente por dois segundos, para depois sumir totalmente. Yami deveria estar querendo se esconder.

Ouviram passos na escada e logo aparecia a pequena morena, vestindo um short jeans curtíssimo, provavelmente de sua prima, e uma enorme blusa branca com a campanha atual do Greenpeace, os pés calçados em pantufas de um tom leve de creme.

- Oh! – ela corou ao se deparar com os visitantes. – Bem... Acho melhor... Trocar de roupa! – e ia subir novamente as escadas se Kali não segurasse seu braço.

- Está muito bem assim, May. Não precisa ficar tímida. – disse ela, fazendo a prima sentar no sofá.

- Aqui. Você deixou isso lá na loja, Mayra-san. – Yugi estendeu-lhe os livros e o caderno, que ela agarrou prontamente, parecendo querer proteger um tesouro.

- O-Obrigada! – agradeceu, inclinando a cabeça numa suave reverência.

- De nada. É você quem desenha? – ele apontou o caderno maior, o de desenhos.

- Apenas alguns... – ela abraçou-se aos livros, parecendo um pouco triste.

- Falei algo errado? – Yugi murmurou consigo mesmo.

- Ah, Yugi, Jounouchi, não gostariam de ver as fotos de vocês? – Kali perguntou. – Tenho um álbum cheio em meu quarto!

- Fotos minhas também? – Jounouchi perguntou, meio abobalhado.

- Claro. Venha comigo.

Yugi deixou Kali e Jounouchi subirem e retornou à conversa com May, enquanto Michiko ia para a cozinha.

- Então você sabe desenhar? – perguntou ele, querendo evitar perguntar de quem eram os outros desenhos.

- Bem, é só um passatempo... – ela sorriu, mais aberta. – Gosto de tirar fotos e desenhar.

- Resumindo, você é ligada num visual. – brincou Yugi. A menina riu e assentiu com a cabeça.

- Pode-se dizer que sim. – concordou.

- Já pensou em desenhar profissionalmente?

- Não, senhor Muttou.

- Chame-me de Yugi. – pediu ele, sorridente.

- Está bem, Yugi. – ela sorriu de volta. – Mas não penso nisso. Como já disse, é apenas um passatempo.

- Hum, incerteza se essa é sua vocação? Ou simplesmente não quer?

- Simplesmente não quero. – repetiu ela.

- Certo. E o que pretende fazer, então?

- Trabalhar com computação gráfica.

- Computação gráfica? – ele riu. – Interessante. Gosta de editar imagens no computador?

- Bastante. – ela afirmou, categórica.

- Então boa sorte. Eu faço faculdade de Design de Jogos.

- E é interessante? – perguntou ela, um brilho de curiosidade nos olhos.

- Eu gosto muito. – respondeu Yugi, sinceramente. – Também gosto da parte visual dos jogos, como você curte o visual de tudo.

- Eu acho muito interessante. O jogo de cores, os efeitos visuais que se pode alcançar, tudo para dar mais força, mais presença a algo... – dizia ela, empolgada.

Os dois logo entabularam uma longa conversa sobre efeitos visuais, que durou cerca de meia hora, tempo que Jounouchi e Kali precisaram até voltar à sala. Kali trazia um contido sorriso vitorioso nos lábios, e logo inventou uma desculpa para puxar a prima para um outro cômodo.

- Adivinhe, May! – pediu, dando pulinhos.

- Não sei. – May estava tão ansiosa para voltar à conversa com Yugi que não queria perder tempo adivinhando nada. – Fale logo! – pediu, parecendo muito ansiosa.

- O Jounouchi me convidou para sair! – Kali declarou.

- O quê? – May esbugalhou os olhos, sem acreditar.

- Mas, Kali, você não aceitou, né? – pela euforia da amiga ela pôde encontrar sua resposta. – Mas ele é muito mais velho que você!

- E daí?

- Kali, ele não está querendo nada sério com você. – declarou ela, franzindo o cenho. – Ele só quer se divertir. E você, como fica?

- E quem você acha que é? A Rainha dos conselhos amorosos? – Kali revoltou-se ao ouvir o que a prima dissera.

May ficou vermelha como pimentão.

- Eu só queria te proteger, Kali.

- Pois eu não quero proteção. Te contei porque achei que ficaria feliz como eu!

- Desculpe se eu não concordo com a sua opinião... – pediu, triste.

- Você me deixou muito irritada. Porque ele só pode querer se divertir comigo? Porque ele não pode me levar a sério?

Kali era uma menina linda. Herdara um pouco das curvas generosas da parte brasileira da família da mãe, que era japonesa, mas tinha os traços delicados de toda oriental. A harmonia do conjunto formava uma imagem marcante. May sabia que Kali era vaidosa, mas duvidava que a prima soubesse o quanto era bonita. E o quanto virava a cabeça dos homens... ou algo que ficava numa parte mais baixa do corpo.

- Por que ele é cinco anos mais velho? – sugeriu May, esperançosa de que a prima compreendesse.

Kali apenas ficou rubra de raiva e saiu, deixando-a só. May ia começar a chorar novamente quando ouviu sua tia chamando todos para o almoço. Conteve as lágrimas e se dirigiu à cozinha, onde sentou-se à mesa ao lado de Yugi. Logo Michiko a fez esquecer das mágoas, contando algumas histórias engraçadas, enquanto Yugi e Jounouchi riam e comentavam comicamente as cenas narradas.

Quando os dois jovens se despediram das mulheres, Kali foi para seu quarto procurar uma roupa com a qual pudesse se encontrar com Jounouchi no dia seguinte. May, por sua vez, apenas foi para seu quarto, colocou os fones de ouvido e ligou o som na maior altura, enquanto lia um dos livros de romance que pegara na biblioteca da faculdade. Naquele momento queria esquecer-se de sua vida e de quem era, e passar a outro mundo, onde não houvessem mágoas nem mal-entendidos.

Wishes

Yugi havia deixado Jounouchi na estação mais próxima quando seu Yami voltou a se manifestar.

- Porque concordou em almoçar lá?

- Porque seria uma indelicadeza negar? – surgeriu Yugi, sarcástico. – Vamos, Yami, não sei pra quê tanto drama...

- Drama? Você faz idéia do que eu sinto quando estou perto daquela garota?

- Você estava reclamando desde que nós batemos as vistas na casa, Yami. Ela nem perto estava.

- A casa é impregnada com a energia dela. – explicou Yami, com um tom de quem explicava algo muito banal. – Essa energia me faz mal.

- Não entendi porquê. – resmungou Yugi, olhando em volta para ver se havia alguém prestando atenção nele. Só o que faltava era alguém achando que ele falava sozinho.

- Porque ela é cercada de luz. – respondeu Yami, mais uma vez como se dissesse algo banal.

- E o que tem luz a ver com isso? – Yugi sorriu inocentemente, coisa que irritava Yami quando ele sabia que era para provocá-lo.

- Yugi, coloque na sua cabeça que eu sou um Yami, um ser de trevas. Luz me faz mal.

- Ah, esqueci que você foi trancado na dimensão das trevas pelo Enigma do Milênio. – Yugi falou como se fosse algo banal. Yami semicerrou os olhos, em desagrado. – Mas a pobre garota não tem culpa disso.

- Vai saber. – Yami respondeu, como se tivesse alguma dúvida da inocência dela.

- Você acha mesmo que uma criança que nem sabe que você existe vai se encher de luz pra te fazer mal? – Yugi perguntou.

Yami observou seu aibou com irritação. Yugi continuava com uma inocência de perturbar muitos, mas mesmo assim já não era tão bobo como antes. E, além disso, com a convivência com seu Yami, acabara por saber como provocá-lo. E, diga-se de passagem, Yugi adorava fazer isso.

- Não preciso responder isso. – foi tudo que disse, antes de desaparecer novamente.

Yugi riu gostosamente. Yami ficava muito engraçado quando irritado, e ele adorava provocá-lo. Aprendera que tinha que deixar sua inocência um pouco de lado no trato com Yami ao longo dos anos que passavam juntos. Mesmo que não duvidasse que Yami jamais lhe faria mal, Yugi sabia que tinha que se impor às vezes. Portanto, ficou muito feliz quando descobriu que aquilo poderia ser mais engraçado do que imaginava.

A loja de seu avô foi avistada quando dobrou a esquina da rua onde estivera, e ele calmamente andou para lá, acenando para uma ou outra pessoa que passava por ele e o cumprimentava. Entrou na loja e, depois de conversar uns poucos minutos com o avô, subiu para seu quarto no andar de cima. O pensamento de que tinha de entregar um relatório a um dos professores na segunda-feira tomou sua cabeça e logo Yami e a menina Mayra foram banidos para longe de seus pensamentos, indo abrigar-se em seu subconsciente.

Wishes

Já era noite quando May desligou o som. Michiko havia vindo chamá-la para o jantar há poucos minutos, e ela prometera que não se atrasaria. Desceu as escadas e foi juntar-se a sua prima e tia. Kali esforçou-se para ser cordial com a prima, parecendo arrependida. Quando terminaram o jantar, as duas já eram as boas amigas de sempre.

Ambas ficaram conversando no quarto de Kali até altas horas, sem tocar no assuntou "Jounouchi" para não arrumar confusão. May despediu-se da prima quando já batiam as onze badaladas do relógio. Tomou um banho e colocou uma camisola enorme de flanela com desenho de anjos sobre o tecido negro, deitando-se na cama e fechando os olhos.

Mas quem disse que o sono vinha? Ela conseguia perceber os ruídos de sua tia no andar de baixo, o escorrer de água da pia do banheiro – Kali com certeza estava usando todos os seus produtos de beleza para estar maravilhosa no dia seguinte -, os carros que ainda passavam àquela hora da noite pelas ruas que circundavam o parque, o barulho pequeno e sorrateiro dos animais dentro dele. Seu corpo tomava consciência de toda uma gama de sons que a inebriavam, enquanto uma sensação de quietude dominava seu ser.

Mas o sono ainda assim não chegava. Ela virou-se e procurou uma outra posição, e ficou assim por mais um bom tempo, obtendo o mesmo resultado. Pôde ouvir sua tia subindo as escadas, indo ao banheiro e depois fechando a porta do quarto. Agora não havia mais barulhos na casa, apenas os sons do resto do mundo. May levantou-se e sentou na cama, respirando fundo. Porque aquela inquietação? Porque o sono não vinha?

Lembrou-se do estranho sonho que tivera e sentiu-se arrepiar. Provavelmente era apenas mais um sonho. Mas porquê então lhe parecera tão real? E porque, quando vira as figuras egípcias na loja de Sugoroku, uma certa tristeza instalara-se em seu ser? Tantas perguntas sem resposta a confundiam e, compreendendo que não conseguiria dormir, ela tomou sua decisão.

Com cuidado para não fazer ruído, trocou de roupa e ergueu-se no parapeito da janela. Uma grande cerejeira estava ali a sua frente, e com um esticar de braços ela transferiu seu corpo para lá. Desceu então a árvore e saiu da casa, indo para o parque. Quando conseguiu escalar as grades e pular para dentro, começou a caminhar com passo lento, observando os movimentos noturnos do lugar.

Tinha o costume de fazer aquilo desde que morava com a tia. Era simplesmente maravilhoso andar no parque de noite, quando não havia ninguém ali para perturbar a paz do lugar. Ela sentia como se estivesse num mundo só seu. Apanhou a câmera fotográfica que trazia no bolso e pôs-se a tirar fotos, feliz. Como a câmera não tinha flash, ninguém a perceberia ali. Os animais circulavam pelo parque como se ela não estivesse ali, fotografando-os, tamanha era a familiaridade com sua presença.

Ela subiu em árvores, escondeu-se atrás de arbustos, rodeou o lago do parque, tudo para conseguir as melhores fotos. Adorava aquilo, pois a atmosfera do parque à noite era totalmente diferente da que havia ali durante o dia. Guardava todas as fotos que tirava ali com muito carinho.

Morava com sua tia desde que seus pais morreram num acidente de avião. Pouco sabia sobre o que acontecera realmente, pois na época era pequena demais para que os adultos quisessem lhe contar muita coisa. Sair de seu país para morar no Japão foi uma difícil prova que aprendeu a superar, com a ajuda e o amor de Michiko e Kali. Mas, mesmo assim, não se sentia completa.

A lacuna que ficara vazia em seu coração desde que seus pais morreram continuava vazia até agora. Ela não sabia ao certo o porquê de nunca ter conseguido superar totalmente a perda dos pais, mas, por fim, cansara-se de procurar respostas e esquecera aquela questão. O único momento em que se sentia plenamente feliz era quando fazia algo ligado à musica ou ao sentido da visão. As duas coisas a atraíam profundamente, e nelas encontrara seu refúgio, seu mundinho particular, que todos podiam ver, mas que ninguém além dela captava o real sentido.

Era algo seu e somente seu, e não queria dividir nada com ninguém. Podia até estar sendo egoísta, mas não era assim que se sentia. Sentia-se apenas como uma garotinha que perdera tudo, tendo que começar a viver uma vida nova, e que finalmente achara algo com que se afinasse não pelo que sua nova vida lhe propunha, e sim porque seu coração acreditava naquilo.

Naquela noite as estrelas brilhavam maravilhosamente, e ela resolveu fotografá-las também. A lua erguia-se imponente no céu. Brilhante e solitária. Muito parecida com ela. Quando os dois rolos de filme que trazia consigo acabaram, ela abandonou o parque e voltou a subir a cerejeira, dali indo para a janela e de lá para seu quarto.

Trocou de roupa e deitou-se novamente, agora sentindo-se estranhamente cansada. Mergulhou num sono sem sonhos, algo que já não lhe acontecia há muitos anos, mas que, naquele momento, pareceu-lhe ser muito reconfortante. A luz da lua, que entrava em pequenos raios pela janela, iluminava o corpo adormecido como um véu que a protegeria eternamente.