- Capítulo Três -

O domingo se foi rápido como chegou. Kali passou o dia inteiro fora, em seu encontro com Jounouchi, e quando voltou parecia muito feliz. Michiko e May apenas trocaram um olhar curioso enquanto a garota dava pulinhos enquanto subia as escadas em direção ao seu quarto.

A segunda chegou e com ela as mulheres daquela casa pareceram voltar às atividades normais. Michiko foi para seu empresarial que abrigava vários escritórios de advocacia logo cedo, Kali disse que havia marcado algo com Motoki – embora May a repreendesse por sair com dois rapazes ao mesmo tempo, não adiantou muita coisa –, e a própria May saiu cedo da casa, em sua mochila carregando apenas seu caderno de desenhos, os livros que iria devolver à biblioteca naquele dia, o estojo e a máquina fotográfica – precisava comprar mais filmes.

Como havia uma loja de equipamento fotográfico ali perto, foi seu primeiro ponto de parada. Comprou cinco rolos de filmes – que, tinha certeza, gastaria em menos de uma semana – e continuou seu caminho até o metrô. Pegou o popular transporte e desceu perto da universidade. Caminhou por mais quinze minutos e então dirigiu-se à biblioteca, cumprimentando alguns conhecidos que encontrava pelo caminho.

A bibliotecária sorriu ao vê-la.

- Já tão cedo aqui hoje? – perguntou, com certa intimidade que criara com a convivência com a mocinha.

- É, Tamiko. Pretendo devorar livros hoje. Pelo menos até as nove e meia, quando terei que sair para a aula de desenho.

- Então fique a vontade. – Tamiko pegou os livros que a garota lhe estendeu e sorriu ao vê-la se afastar em direção à sessão de História. Era a que mais manuseava.

May logo encontrou o que queria: livros e mais livros sobre o Egito Antigo. Precisava pesquisar a respeito daquele sonho maluco da outra noite, ou não teria paz de espírito. Acordara lembrando daquele sonho. Precisava desvendar o mistério por trás dele antes que enlouquecesse.

Passou quase duas horas devorando páginas e páginas dos livros, até notar que já eram quinze para as dez.

- Meu Deus, estou atrasada! – pediu que Tamiko locasse os livros e saiu com a mochila mais pesada do que quando chegara.

Assim que saiu dos prédios da universidade, o céu cinzento começou a chorar. A chuva era forte, o que era raro naquela época do ano. Ela se viu obrigada a entrar num enorme prédio de fachada bonita, ou seu material de desenho, dentro da mochila, borraria todo. Depois de passada a surpresa de ser pega por uma chuva tão forte, ela olhou a si mesma.

Os óculos estavam um pouco embaçados, de modo que ela pescou um lenço – muito molhado, por sinal. – num bolso e tentou enxuga-los. Quando os recolocou, embora não estivesse muito melhor, já conseguia se enxergar o suficiente para ver que estava patética. A calça cargo, dois números maior que o seu, presa por um cinto um pouco acima dos quadris, estava totalmente molhada e a parte da frente colava-se ao seu corpo, desgrudando apenas quando se movia. Os tênis, pretos iguais à calça, também estavam ensopados. O moletom cinza-chumbo que vestia também não estava em melhor estado, e ela o tirou depois de largar a mochila no chão, ficando apenas com a camiseta branca que vestia por baixo, que parecia ser a única peça "intacta". Seus cabelos pingavam insistentemente em seus ombros, e ela tratou de espreme-los o máximo possível, molhando o carpete da entrada do prédio.

Logo apareceu uma moça uniformizada estendendo-lhe uma toalha.

- Por favor, senhorita, enxugue-se ou molhará todo o saguão. – pediu educadamente.

- Desculpe. – May enrubesceu, sentindo-se deslocada, mas aceitou a toalha com prazer e tratou de se enxugar o máximo possível. – Perdoe o incômodo, eu só queria fugir da chuva.

- Tudo bem. – a mocinha sorriu. – Quer usar o telefone? A chuva vai demorar, pelo visto. – ela apontou o céu.

Mayra olhou o céu, calada. Realmente o conhecia, pois gostava de observa-lo também. Estava acostumada com as mudanças de panorama e sabia dizer se ia demorar ou não a mudar. E, pelo visto, a moça de uniforme estava certa. O que via só a fazia dar seu dia por encerrado. Se não se enganava, teria de passar algumas horas ali.

- Gostaria, sim, por favor. – respondeu à pergunta. – Preciso fazer duas ligações.

- Acompanhe-me. – a moça pediu e, após pegar sua mochila, May a seguiu.

Foram até o balcão, onde rapidamente desocuparam uma linha para que ela pudesse ligar. May surpreendeu-se com a rapidez e eficácia do atendimento. Quem quer que fosse o dono daquilo, fizera um ótimo trabalho. Discou um número conhecido seu, e não teve que esperar muito até que alguém atendesse.

- Alô?

- Zach?

- May?

- Eu mesma. Liguei pra falar com Noriko. Ela está?

- Está sim, mas está ocupada. Quer que eu fale algo pra ela?

- Sim, por favor, avise a ela que, com essa chuva, não vou conseguir chegar aí a tempo. Acho que nossa aula de desenho de hoje tem que ser remarcada.

- Hum... – pelo tom de voz, May soube que Zach estava fazendo algo. Provavelmente consultado a agenda de Noriko. – O próximo horário livre é sexta-feira. Tudo bem pra você se a aula ficar pra duas da tarde?

- Hum... – May tentou lembrar se havia algo marcado para sexta. – Tudo bem sim. Obrigada Zach.

- De nada. Até.

May desligou e suspirou. Zach era muito impessoal, embora a chamasse pelo apelido. Ela tinha a nítida impressão de que ele não gostava dela, só não sabia o porquê. Discou então o segundo número.

- Empresarial Marchant, posso ajudar? – uma voz feminina atendeu.

- Eu gostaria de falar com Michiko Marchant, por favor.

- Quem deseja?

- A sobrinha dela.

- Pois não, senhorita Terrae, vou transferir a ligação. – uma musiquinha se seguiu ao aviso, tocando por trinta segundos até uma voz atender do outro lado. – Pois não?

- Tia?

- May! Aconteceu alguma coisa? Você nunca me liga.

- Tia, só queria avisar que fiquei presa por causa da chuva, estou num empresarial, também. Vou ficar aqui até a chuva passar e então vou para casa. Não se preocupe comigo, okay?

- Certo. Ligue-me quando estiver em casa.

- Claro. Obrigada, tia. Até mais.

- Até, querida.

O telefone foi desligado com certa pressa, o que Mayra sabia que significava que a tia estava um tanto ocupada. Colocou o fone no gancho e apanhou a bolsa.

- Obrigada, senhorita. – agradeceu à moça que lhe havia prestado socorro.

- De nada. Pode sentar-se numa das cadeiras, fique à vontade. Caso esteja com fome, tem um restaurante no terceiro andar.

- Obrigada. Acho que vou dar uma passada lá quando estiver um pouco mais seca.

Ela sentou-se numa cadeira. O saguão estava cheio delas, todas padronizadas e coladas às paredes, ou então em filas coladas no centro desse. Ela preferiu sentar onde não havia ninguém por perto, para não incomodar ninguém com seu estado. Tirou a mochila das costas, colocou na cadeira ao lado e a abriu, verificando se estava tudo a salvo.

Foi quando ouviu uma voz logo a frente.

- Mayra?

Ela levantou o rosto, surpresa, e fitou o rapaz a sua frente. Tinha cabelos pretos meio espetados e olhos azul-escuro. Ela o reconhecia, mas ainda não conseguia acreditar que fosse ele.

- Mokuba? – perguntou, surpresa.

- Eu mesmo! – Mokuba sorriu, exibindo seus dentes brancos e a face angelical. – O que faz aqui?

- Nada importante. – respondeu ela, corando. Não queria que ele soubesse que ela estava apenas querendo se abrigar da chuva.

- Sei... –Mokuba ganhou um estranho sorriso, como se as palavras dela significassem algo além do sentido real. – Então resolveu aceitar?

- Aceitar o quê? – ela perguntou, confusa, os olhos âmbar presos nele.

- Tem razão, não podemos conversar sobre isso aqui. Onii-san nos mataria. – ele sorriu, pegando a mão dela. – Vamos, você já está atrasada.

- Atrasada? – ela já não entendia mais nada. Pegou a mochila antes que Mokuba a puxasse para longe. – Mas atrasada pra quê?

- Calma, estamos quase em lugar seguro. – disse ele, ao entrarem no elevador. Apertou o botão que os levaria à cobertura. – Mas você está ensopada. – disse ele. – Antes de te levar até onii-san, precisa vestir algo mais seco.

- Mas... – ela foi impedida de protestar mais uma vez quando o elevador parou suavemente e as portas se abriram. Mokuba recomeçou a falar, puxando-a consigo.

- Minhas roupas são maiores que as suas, mas acho que não vão ficar tão ruim assim. Você precisa de um banho e de roupas secas e quentinhas. – ele falava mais consigo mesmo do que com ela.

Quando pararam em frente a uma porta, May notou uma trava que só se abriria se passassem um cartão magnético pelo leitor. Mas, para sua surpresa, Mokuba tinha o cartão, e logo entravam dentro da cobertura.

Ela observou o lugar, estupefata. Era muito bem decorado, em tons de azul e prata, os móveis de madeira negra contrastando harmoniosamente com as paredes azuladas, enquanto que vários acessórios de prata estavam visíveis aqui e ali. Tudo alinhado, arrumado e muito bem decorado, repetiu para si mesma. Havia até mesmo plantas ali.

- Gostou? – perguntou Mokuba, tirando a mochila dos seus ombros. Haviam tirado os sapatos assim que entraram, trocando-os por pantufas brancas e imaculadamente limpas. – Foi meu irmão quem decorou.

- Ele tem bom gosto. – concordou ela, ainda olhando tudo. Os quadros pendurados nas paredes eram verdadeiras obras de arte. Ela gostara de absolutamente tudo naquela cobertura.

- Venha, vamos ver o que serve em você. – ele a puxou para um dos quartos, que provavelmente era o dele, pois estava cheio de pôsteres de jogadores de futebol, além de um computador com design colorido e vários jogos de computador espalhados por todo o quarto. – Não note a bagunça. – disse ele, remexendo nas gavetas e tirando de lá uma calça preta muito parecida com a dela, uma toalha azul-marinho e meias novas. – Acho que isso serve. Não sei como seu sapato está, se dá para usa-lo ou não, mas vou ver se dou um jeito. Entre no banheiro e jogue suas roupas pra mim, vou pô-las na secadora. – ele sorriu. Depois, baixou os olhos para a camiseta que ela usava. Dava para notar que não estava de sutiã pelas marcas dos seios na camiseta, mas ele desviou o olhar rapidamente, encabulado. – Acho que sua camiseta ainda pode ser usada.

May sorriu, sem perceber o acanhamento do amigo, e assentiu. Depois, saiu do quarto e foi até sua mochila, de onde tirou uma muda de roupas íntimas. Sorte que gostava de estar sempre precavida para aquelas situações. Voltou para o quarto e pegou o que Mokuba lhe emprestava.

- Onde é o banheiro?

- Vamos, eu te levo.

Ele a guiou para o banheiro, que era tão bem decorado quanto o resto da casa, com cerâmicas azuis e cinzas. Ela fechou a roupa, despiu-se e passou a roupa molhada por uma brecha na porta para Mokuba, que logo se foi. Ela então abriu o registro do chuveiro e sentiu a água morna banhar seu corpo.

- Que delícia... – falou consigo mesma, sentindo as tensões desaparecerem pouco a pouco, e uma sensação gostosa de abandono tomar seu corpo.

Demorou-se um pouco mais do que devia, aproveitando as delícias daquele banho, lavando os cabelos e sentindo-se leve. Vestiu-se rapidamente, sem deixar de notar o cheiro masculino que inundava o banheiro. Provavelmente só moravam ali Mokuba e seu irmão, ou mais algum homem, pois não era possível sentir cheiros femininos no banheiro. Recolheu suas coisas, estendeu a toalha em local apropriado, escovou os cabelos lavados e se olhou no enorme espelho que ocupava uma das paredes do banheiro. A calça de Mokuba ficava o tempo todo escorregando em seus quadris, mesmo com o cinto a apertando, e ficava um bocado abaixo da cintura, coisa pela qual ela praguejou, pois a camiseta era curta e também não cobria totalmente sua cintura. O umbigo estava a mostra, e nele um pequeno piercing em forma de flor, com pequenas pedras preciosas em cada pétala e no miolo.

Ela escondia aquele piercing de todo mundo. Só quem sabia dele era Kali, e somente porque ela fora a causa de tê-lo colocado. Havia acompanhado a prima a um tatuador, alguns meses atrás, e por acaso se encantara com o piercing. Kali, que estava esperando uma oportunidade de cobrar vários favores que fazia para ela, acabou "convencendo-a" a fazer o piercing. De quando em vez a prima insistia em que ela usasse roupas curtas e o mostrasse, mas May nem queria pensar no que os outros falariam se vissem a tão comportadinha srta. Terrae de piercing. Já era muito incômodo falar que gostava de rock, quando a maioria dos adolescentes com quem convivia achava aquilo uma expressão de insanidade. Imagine se a vissem com um piercing!

Só esperava que Mokuba não fosse espalhar para ninguém aquilo. Prendeu a respiração, fazendo a camiseta subir mais ainda, e calçando as pantufas com as meias, saiu do banheiro.

Como estava sem os óculos – havia-os entregado a Mokuba com a roupa. – não conseguia enxergar direito, e logo esbarrou em algo que foi ao chão, batendo no carpete fofo, mas mesmo assim fazendo um estrondo. Abaixou-se, tateando a procura do objeto, enquanto ouvia passos se aproximando, logo alguém se abaixou em frente e a fitou de perto.

- Mayra? Está bem?

- Mokuba? Desculpe, Mokuba, eu não enxergo direito sem meus óculos. O que foi que eu quebrei dessa vez?

- Não, você não quebrou nada. – Mokuba riu, divertido, levantando um vaso de cobre nas mãos. – E aqui estão seus óculos. – tirou-os do bolso e entregou-os a ela, levantando em seguida.

May colocou os olhos e levantou-se, ainda olhando para o chão, mas levantou o rosto em seguida, dando de cara com duas figuras conhecidas atrás de Mokuba que a observavam. Yugi a olhava surpreso. Já Kaiba a observava com aquele olhar penetrante que a assustava. Passou as mãos pelo cabelo, nervosa.

- Bom dia, Yugi. Bom dia, senhor Kaiba.

Mokuba sorriu e dirigiu-se ao irmão.

- Onii-san, tive que trazer May aqui antes de leva-la para fazer o teste. Ela estava ensopada dessa chuva que não pára de cair.

- Onii-san? – repetiu May, surpresa. – Ele é o seu irmão?

Ela o encarou, âmbar encontrando turquesa. Não podia ser ele o irmão de Mokuba! Não pareciam nem um pouco.

- Nós não nos parecemos muito, não é? – adivinhou Mokuba, sorrindo.

- Não foi isso que eu quis dizer...

- Teste? – Kaiba a interrompeu, olhando agora Mokuba. – Do que fala, Mokuba?

- Oras, Mayra só pode estar aqui para fazer o teste! Ela é a melhor em computação gráfica e holografia em todo o Japão, pelo menos entre os adolescentes. Se não fosse tão tímida e aceitasse participar de concursos, com certeza teria ganho muitos prêmios.

- Mokuba, acho que você... – ela ia esclarecer o mal-entendido, mas Kaiba a cortou, mais uma vez.

- Você tem certeza disso, Mokuba?

- É lógico. Ela estuda comigo naquele estúpido Colégio Interno para Superdotados do Japão. De onde acha que nos conhecemos? – Mokuba perguntou, impaciente.

Yugi sorriu.

- Porque não a deixa fazer o tal teste, Kaiba? – falou baixinho, para só Seto ouvir. – Talvez você saia ganhando com esse imprevisto. Aliás, é uma maneira de mantê-la em silêncio sobre o que nos ouviu conversar na loja do vovô, no sábado. – sugeriu ele, que sabia do que Mokuba falava.

Seto encarou mais uma vez a garota, que parecia tão confusa quanto poderia estar sem saber do que eles falavam. Teria que explicar a ela o motivo do teste, e amedronta-la o suficiente para faze-la aceitar a proposta, se por acaso fosse mesmo boa. Afinal, tinha que mantê-la calada de um jeito ou de outro, mas preferia não partir para meios escusos. Ela era ingênua, e se soubesse conduzir a conversa, teria-a em suas mãos.

- Muito bem. Mokuba, acompanhe-nos. Vou precisar de sua ajuda.

May se viu mais uma vez sendo levada contra sua vontade para algum lugar. Desta vez tomaram um elevador escondido numa parte escura do corredor que antecedia a cobertura, e que os levou para o que lhe pareceu ser o subsolo, já que o botão que Kaiba apertara ficava abaixo daquele que indicava o maravilhoso saguão.

Quando as portas se abriram e, com um bater de palmas de Seto Kaiba, as luzes se acenderam, ela teve a visão que qualquer fanático por computadores consideraria o paraíso: um laboratório de tecnologia avançada onde provavelmente eram desenvolvidos os projetos mais importantes da Kaiba Corp. Não tinha aquela aparência de um laboratório de um gênio megalomaníaco, com computadores e mais computadores ligados por fios e mais fios, uma unidade central que talvez pudesse ocupar uma parede inteira e uma sala isolada de sons, temperatura e gravidade, usada para testar a resistência de componentes.

Não, o que tinha a sua frente era um grande laboratório dividido em seções, cada uma com seu computador particular. A fiação que ligava todas as seções deveria passar por dentro da parede, o que não era tão impossível assim, e evitava acidentes que poderiam ter graves conseqüências para pessoas e máquinas. Mais adiante, na parede oposta, uma enorme janela que ia de um lado ao outro, porém só ocupava a metade de cima da parede, e que mostrava a grandiosa arena de duelos mais à frente.

- Muito bem. Mokuba, Yugi, vão para a arena. Vocês serão os duelistas, hoje. – ele comandou, e logo os dois passaram por uma porta na parede ao lado e, segundos depois, apareciam na arena, do outro lado, encaminhando-se para lados opostos dessa e se posicionando corretamente.

Kaiba então virou-se para ela, encarando os olhos de um tom tão singular de âmbar, e recomeçou o falatório.