Ela podia ter simplesmente deixado de ir. Podia ter apagado aquele sorriso presunçoso dele quando ele finalmente se desse conta de que ela não iria aparecer. E depois do vexame, provavelmente, ela seria deixada em paz. Então porquê diabos estava subindo no elevador do empresarial da Kaiba Corp. até o antipenúltimo andar para ser recebida por Seto Kaiba?
May estava se censurando mentalmente por não ser mais firme com ele quando a porta do elevador se abriu. Os olhos, que haviam ficado fechados por toda a subida, se abriram num rompante e ela deu com a recepção que vinha antes do escritório dele. Tinha um tom neutro de branco e sofás de veludo azul-marinho espalhados, enquanto que num canto ficava a mesa da secretária.
Aliás, esta a olhava com repreensão. Provavelmente a calça jeans folgadona que usava a estava deixando irritada, ou talvez fosse a blusa branca com todos os botões apertados, a não ser os de cima, que deixavam entrever um pedaço da camiseta branca que havia embaixo. As mangas longas haviam sido dobradas até a altura do cotovelo, e a enorme mochila preta em suas costas completavam o visual mais que inadequado para um lugar como aquele. Ela ajeitou o óculos no nariz, tentando não ver os olhares repreendedores de todos aqueles adultos bem vestidos, e encaminhou-se até a secretária, ignorando seu olhar de desagrado e tentando não corar.
- Com licença. – pediu com a voz quase sumindo. – O senhor Kaiba está me esperando. Creio eu que marcamos um horário para as duas horas.
- Oh, sim. – o olhar dela mudou completamente, e apontou um sofá logo ao lado. – O Sr. Kaiba avisou-me que a senhorita chegaria. Aguarde um pouco e vou avisa-lo.
May suspirou de alívio e sentou-se no local indicado, sabendo que estava sendo observada por todos ali. Só não sabia que alguém iria partir para além da observação. Uma mulher alta e com um vestido decotado foi em direção à secretária, não se preocupando em manter a voz baixa.
- Como é que essa garotinha rebelde consegue vê-lo tão rapidamente e eu, Valerie Williams, tenho que esperar? – ela apontou May acusadoramente. Todos ali estavam em pleno silêncio.
- Ela tem hora marcada, Srta. Williams. A senhorita não. – explicou a secretária, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Para falar a verdade, era mesmo.
- Não interessa. Seto jamais me faria esperar desse jeito. Vou contar a ele o jeito como me tratou, sua empregadinha inútil. – reclamou Valerie.
- O senhor Kaiba é um homem ocupado. – a secretária parecia não dar a mínima para as ameaças da outra. – Por favor, senhorita Williams, sente-se e acalme-se.
- Ora, mas que prepot-
- Valerie! – Seto chamou, da porta.
May sentiu arrepios ao divisar a figura alta e os olhos azuis. Como sempre, o homem estava vestido com um terno bem alinhado, dessa vez azul como seu escritório, o que contrastava belamente com seus olhos claros. Ela sentiu-se avermelhar e baixou a cabeça, embaraçada.
- Seto, querido, eu fui tratada como um lixo por essa sua empregadinha desaforada. Como ela tem a audácia de me tratar assim?
- Acalme-se. – ele pediu, aproximando-se e segurando o braço da loira, fazendo-a andar em direção ao elevador. – É melhor ir para casa e dormir um pouco, está muito alterada...
Os dois já estavam longe o bastante para que ninguém ali pudesse ouvir o diálogo, que agora transcorria em voz baixa. May só pôde ver a cara horrorizada da mulher ao ser colocada dentro do elevador. Seto virou-se e voltou, agora indo em direção à garota cabisbaixa.
- Vamos, Terrae, não tenho tempo a perder. – disse ele, fazendo-a levantar e segui-lo.
Entraram no já conhecido escritório, e assim que ele fechou a porta, virou-se para ela, que continuava ruborizada.
- Desculpe a confusão toda. Sou um homem ocupado, e os ataques das damas que aparecem de vez em quando me deixam irritado.
- Não se preocupe. – ela murmurou, olhando para a mesa dele, onde avistou um outro senhor.
- Este é o senhor Ishida, que cuidou do contrato. – ele apresentou, fazendo-a sentar-se na cadeira ao lado da do advogado, e então foi sentar-se em sua cadeira, do outro lado da mesa. – Ele irá lhe explicar os pormenores do contrato.
- Bem, antes de explicar tudo, vamos dar uma vista grossa: você deverá se mudar para este prédio uma semana antes de suas aulas começarem, para começar a se adaptar, e então irá começar a acompanhar o trabalho dos cientistas atuais, junto com seus outros colegas. Quando começarem suas aulas, então, irá começar o estágio, já que vocês já estarão familiarizados com o local, as máquinas e o pessoal. Isso continuará por um período de três meses, que pode ser estendido mais tarde pelo senhor Kaiba, se achar conveniente, e a partir daí vocês assumirão tudo.
Ele então começou a explicar tintim por tintim as cláusulas do contrato, salientando os pontos mais importantes, enquanto Seto se mantinham calado, apenas observando. Assim que concluíram toda a explicação, o senhor Ishida finalizou.
- Já passei pelo empresarial Marchant para pegar a assinatura de sua tia. Como sua responsável legal, ela concordou com os termos do contrato. Agora só falta sua assinatura. – disse ele, estendendo-lhe uma bonita caneta.
Ela pegou a caneta, mas ficou apenas fitando o papel, pensativa.
- Ainda tem alguma dúvida, senhorita? – perguntou o advogado, gentilmente.
Ela levantou os olhos, mas eles não o fitaram, e sim a Seto. Ele a encarou também, com um sorriso estranho nos lábios.
- Vamos, Terrae, assine isso logo. Você sabe que quer. – ele comentou, sarcástico.
Ela semicerrou os olhos, irritada, mas foi exatamente o que fez: assinou o bendito contrato, selando ali seu destino.
- Sábia decisão, senhorita. – comentou o advogado, sorridente. – Tenho certeza de que vai adorar trabalhar aqui.
- Eu não tenho tanta certeza assim. – ela murmurou para si mesma, mas sorriu para o homem.
- Então, eu vou indo. – Ishida levantou-se e apertou a mão de Seto. – Espero que seu projeto seja um sucesso, Seto. – disse ele, num tom carinhoso.
- Vai ser, Yamato. Vai ser. – afirmou Seto, acompanhando-o até a porta.
Quando o advogado saiu, ele virou-se para May, que continuava sentada e olhando seriamente sua assinatura, fora do ar.
- Arrependida? – ele perguntou suavemente, perto do ouvido dela, quando se aproximou por trás.
Ela pulou da cadeira, assustada, e virou-se para ele, branca como papel.
- Você me assustou! – acusou, escorando-se na mesa dele para recuperar o ar e o equilíbrio.
Ele apenas aproveitou o descuido e pousou um braço de cada lado do corpo dela, prendendo-a contra a mesa e fazendo seus corpos se tocarem, enquanto baixava o rosto e roçava-lhe o pescoço com o nariz, fazendo-a arrepiar-se.
- Pare com isso. – ela ordenou num sussurro quase inaudível pela falta de voz que o corpo dele tão colado ao seu provocava.
- Porquê? – perguntou ele, subindo até o lóbulo da orelha.
Ela teve uma sensação de prazer incrível com aquele gesto, mas mordeu o lábio para impedir-se de falar algo inoportuno. Ele parou com a leve carícia e fitou-a, com o rosto tão próximo que seus narizes se tocavam.
- Então, porquê devo parar? – ele perguntou novamente, vendo o brilho de prazer nos olhos dela. Se ela soubesse como era transparente...
- Porque é meu chefe. – foi o que ela sussurrou antes de fugir de sua "prisão" e pegar a mochila, sumindo em seguida com o rosto afogueado.
Ele apenas sorriu. Aquela inocência dela apenas o fazia querer seduzi-la mais e mais. E não haveria princípios morais de trabalho que fossem mais fortes que aquilo. Alguma coisa na pequena virgem o incitava a tenta-la, e ele não queria parar... E não iria.
Wishes
May caminhou para sua casa com um péssimo humor. Sempre acabava ficando irritada depois que Kaiba tentava mais uma de suas investidas. Aquilo era extremamente constrangedor e ela não gostava nada da falta de controle sobre suas emoções, coisa que era freqüente naquela situação.
Não entendia como podia reagir daquele jeito à sedução barata do Kaiba. Não era como se estivesse fatalmente apaixonada por ele, coisa que não estava, mas algo muito primitivo dentro de si parecia acordar sempre que ele a seduzia. Era como se aquilo já tivesse acontecido muitas vezes antes... O que deixava tudo mais estranho ainda.
Tinha plena certeza de detestar aquele homem. Sabia de antemão que, mesmo sendo seu chefe, iria ter muitas discussões com ele, coisa que ele mesmo afirmava adorar. E devia adorar mesmo, do jeito que sempre tinha um sorriso superior quando a deixava fora de si – o que quer que isso significasse.
Era uma pena que tivesse seu dia estragado daquele jeito. Justo hoje que era seu aniversário, e tudo o que queria era a paz de espírito necessária para agradecer por mais um ano de vida. Gostaria de ser Nefertiti, ou Bastet, tanto faz, para ter a frieza e coragem necessárias para dar cabo do maldito Seto Kaiba. Que homem irritante, por Deus!
Abriu a portinhola da cerca e caminhou até a casa, suspirando. Havia cancelado a aula de desenho por causa de seu estado de espírito, que não estava nas melhores condições para criar algo minimamente parecido com arte. Abriu a porta de casa e trancou-a assim que entrou.
Suspirando, correu escada acima e deixou a mochila no quarto, rumando para o banheiro e se livrando das roupas pelo caminho. Precisava urgentemente de um banho para limpar não só o corpo, mas a alma também. Girou o registro e ficou esperando enquanto a banheira se enchia de água morna, o vapor subindo e embaçando vidros e espelhos presentes no cômodo.
Deitou o corpo suavemente na banheira, sentindo-se imediatamente melhor. Decidiu usar alguns dos sais de banho de Kali, uma vez não mataria ninguém. Espalhou-os na banheira e logo o cheiro bom a fazia relaxar ainda mais, enquanto a espuma cobria seu corpo.
Deitou a cabeça para trás, encostando-a no mármore que cercava a banheira em estilo ocidental e, sem perceber, o estresse emocional em que estava nas últimas semanas a fez acabar adormecendo com a atmosfera acolhedora.
Wishes
Nefertiti estava feliz. Tudo naquela noite parecia dar certo. Ishtar fora preso por tentativa de assassinato e seria jogado num poço cheio de cobras no dia seguinte, com a presença do Faraó. E naquela noite haveria uma festa em comemoração ao salvamento do Faraó e ao seu salvador, o Sacerdote Seth.
Nefertiti não entendia aquele homem. Sabia que ele estava ali para matar o Faraó como ela, e no entanto ele estava ajudando-o desde que chegara. O Faraó aumentara inestimavelmente seu poder e sua riqueza sobre o Egito com a ajuda dos supostos poderes sobrenaturais de Seth. Ela queria que ele revelasse logo suas intenções, pois de certa forma aquilo a incomodava. Mas não era hora de reclamar.
Estava terminando de vestir o traje de dançarina, após matar a verdadeira dançarina contratada para aquela noite e livrar-se de seu corpo, e começou a aplicar uma suave pintura em seu rosto. Depois, cobriu-o com um lenço vermelho da cor da roupa, meio transparente, deixando só os olhos de fora. Quando pegava um grande lenço do mesmo tipo do que cobria seu rosto, alguém bateu na porta avisando que era a hora de sua apresentação.
Mirna, a dançarina, era uma das mais cotadas do Egito, e sua fama ia até mais além das fronteiras egípcias. Estava de passagem pela capital, e como o Faraó estivesse querendo homenagear seu salvador, mandou chamá-la para uma apresentação especial no palácio. Nefertiti não perdeu a oportunidade. Seduziria o Faraó com seus dotes corporais e sua perfeição na arte da dança. E, enquanto o Faraó estivesse sentindo o gozo de satisfação por possuir seu corpo, ela o mataria. Simples e eficaz, e ninguém jamais suspeitaria dela.
Seguiu em direção ao salão onde a festa era conduzida, esperando do lado de fora enquanto um rapaz anunciava sua presença e a música começava. Posicionou-se com um lenço e, quando ouviu uma batida rítmica em especial, adentrou o salão, já dançando. Todo seu corpo vibrava ao som da música em movimentos sensuais e bem treinados, enquanto o lenço era agitado e colocado rente ao seu corpo nos momentos oportunos, com os movimentos certos.
Encarou a figura do Faraó e de Seth. Como a apresentação era em homenagem a Seth, teria que dançar um pouco para ele, mas depois poderia se dedicar ao Faraó, este que já parecia gostar do que via, e gostar muito. Aproximou-se dos dois, encarando Seth com os olhos verdes brilhando de malícia enquanto dançava ao seu redor com movimentos sensuais. Colocou uma das mãos dele sobre seu abdômen enquanto dançava, o que provocou aplausos dos demais e um olhar desafiador do Sacerdote. Por trás do lenço, ela exibiu um sorriso malicioso como um convite ao pecado. Demorou-se mais um pouco e em seguida se afastou, indo então até o Faraó.
Este a olhava com um desejo evidente, mas ela fez questão de caprichar nos movimentos e insinuações, para deixá-lo a ponto de perder a cabeça. O próprio Faraó se convidou a tocar em seu corpo enquanto dançava ao seu redor, totalmente seduzido. Quando a dança terminou, em um passo dramático, ela ajoelhou-se a sua frente de uma forma sensual e encostou a cabeça em sua perna. Os aplausos encheram seus ouvidos, enquanto esperava mais um pouco, até levantar e fazer uma reverência ao público e ao Faraó, em agradecimento. Um grupo de odaliscas entrou e começou a dançar, enquanto o Faraó a puxava para junto dele.
- Você me tentou, Mirna. – sussurrou ele em seu ouvido, e ela deu um risinho afetado.
- Não foi minha intenção, meu Senhor. – ela falou, num tom humilde, mas seus olhos diziam exatamente o contrário.
- Sei... Acho que estou me apaixonando por seus olhos, eles são lindos... – ele disse, aproximando o rosto do dela, como que para observa-los melhor. – Nunca vi uma mulher egípcia com esses olhos.
- Nem eu. – interrompeu-os o Sacerdote, cortando qualquer clima que estivesse pairando entre os dois. O Faraó voltou a endireitar o corpo.
- Eu sabia que Mirna era considerada uma das mulheres mais lindas do Egito, mas não sabia que era tanto assim. – elogiou ele, sorrindo maliciosamente.
- É um prazer ouvir tal elogio, meu Faraó. – Nefertiti curvou-se em agradecimento.
- É a verdade, apenas isso. – comentou Seth, sorrindo maliciosamente. – E pretendo comprova-la por mim mesmo.
- O que está insinuando, Seth? – perguntou o Faraó, confuso.
- Que eu a quero para mim esta noite. Disse que eu poderia pedir qualquer coisa hoje como um prêmio.
- Sim, mas tinha que ser justamente ela? – o Faraó parecia arrependido de tamanha bondade para com seu salvador. – Eu já tinha planos para ela.
- Desculpe, meu Senhor, mas eu não quero mais nenhuma outra mulher que possa aparecer. – disse ele, com um olhar tão profundo para Nefertiti que a fez se arrepiar.
- Está bem, Seth. Ela é sua esta noite. – concedeu o Faraó, aborrecido.
- Mas, meu Senhor, eu... – Nefertiti tentou reverter a situação. Quem diabos o Sacerdote pensava que era para interferir em seus planos?
- Não abuse da boa vontade do Faraó, mulher. – interrompeu-a Seth, puxando-a pelo braço para junto de si. – Você é minha.
O olhar que ele lhe lançou naquele momento ficaria gravado para sempre em sua memória.
Wishes
O aeroporto estava apinhado de gente. Um casal se despedia de uma senhora de idade e de uma garotinha, que não parecia ter nem oito anos, embora tivesse dez.
- Mayra, querida, não fique assim. – a mulher abraçou a pequena, que chorava compulsivamente.
- Mamãe, por favor... Não vá... O avião vai cair.
- Que coisa para se dizer aos seus pais, menina! – a senhora a repreendeu, fazendo-a soluçar mais uma vez.
- Ela está assustada, Meg, só isso. – sua mãe repreendeu a senhora, com um olhar irritado. – Querido, diga a May que não vai acontecer nada conosco.
- Minha princesa, não se preocupe conosco. Estaremos de volta em poucas semanas. A vovó vai cuidar bem de você, não é, mamãe?
- É claro, querido. – a mãe sorriu ao homem. – Ela será um anjinho até vocês voltarem.
- Está vendo, meu amor? Nada vai dar errado. – sua mãe voltou a afirmar, sorrindo, enquanto a beijava na testa.
- Não vão, papai, mamãe! O avião vai cair! Eu vi! – ela continuou, chorando.
- Pare com essa ladainha sinistra, menina. – mais uma vez a avó a repreendeu.
- Até logo, querida, temos que ir agora. – uma lágrima rolou dos olhos de sua mãe, antes do casal se afastar, indo para o portão de embarque.
- NÃO! VOLTEM! VOLTEEEEEM! O AVIÃO VAI CAIR! VOLTEEEEM! – a menina berrou, e a avó deu um tapa em seu rosto, fazendo-a calar-se.
- Agora que seus pais não estão mais aqui, mocinha, é melhor parar com essas malditas idéias e com o choro. Eu não vou tolerar suas malcriações, entendeu?
Mayra apenas segurou o choro que insistia em vir. Agora iria perder os pais, e ficar sozinha com sua avó malvada para sempre.
Wishes
Mayra acordou sobressaltada, movendo-se assustada e derramando água fora da banheira. Acabara de sonhar com duas coisas horríveis. A primeira foi com a tentativa de assassinato de Nefertiti. Ainda não conseguia entender como lembrava tão bem do que acontecia na vida daquela mulher e vivia aqueles acontecimentos em seus sonhos, sentindo coisas tão reais. E o tal Seth parecia trata-la como o Kaiba a estava tratando, seduzindo-a. Coincidência? Tomara que fosse apenas isso...
Estremeceu ao lembrar do segundo sonho. Aquela fora a última vez que vira seus pais com vida. Havia sonhado com a queda do avião e chorara sem parar, tentando avisa-los da morte que os esperava, mas tanto eles como sua avó pareciam acreditar que era somente mais uma das fantasias de uma menina.
Sua avó. Ah, como detestava aquela mulher. Fora acusada de ser a causa da morte de seus pais quando ela soube da queda do avião. A mulher parecia acreditar que ela ocasionara a queda do avião, só pelo que dissera no dia em que eles partiram. Se a avó já não a tratava bem, a partir daquele dia, então, parecera abominar sua presença. Tentara leva-la para um orfanato e reclamar a fortuna para si, mas, meses depois, quando Michiko soube do que aconteceu, não só conseguiu reaver a herança da sobrinha como a levou para morar consigo.
May agradeceria até o fim da sua vida pelo que sua tia fizera. Michiko não fazia idéia do que significara para ela a determinação que sua tia tivera em tirá-la do inferno que era aquele orfanato onde a avó a jogara. E tampouco deixara sua avó vê-la novamente ou ficar com o que era seu por direito.
May suspirou ao lembrar de tudo aquilo. Nunca mais vira a avó, e pretendia continuar sem vê-la. Não era de guardar rancor das pessoas, mas odiava a mulher com todas as forças que tinha. Jamais conseguiria perdoa-la pelo que fez. Até hoje se sentia meio culpada pela morte dos pais. Sabia que não era culpa sua, mas sua avó fizera questão de que ela nunca duvidasse daquilo, e a sensação de que causara a morte dos pais continuava pungente em seu coração.
Sentiu lágrimas nos olhos e tratou de terminar o banho. Enrolou-se num roupão felpudo e saiu do banheiro, olhando através de uma janela que havia no corredor. Já estava anoitecendo. Estava para entrar no quarto, quando deparou-se com Kali subindo as escadas.
- May! – a prima exclamou, parecendo contente ao encontrá-la. – Que bom, cheguei na hora certa. Venha, precisamos te arrumar.
- Hein? – May ergueu uma das sobrancelhas, confusa com aquele ataque de alegria da prima.
- Vamos sair. Mamãe me ligou e disse que não vai poder chegar cedo hoje, mas deixou dinheiro para nós duas sairmos para comemorar seu aniversário. Não é ótimo?
- Ah, Kali, eu não estou com clima para comemoração... – disse May, meio triste.
- Porquê? Não assinou aquele contrato com o gostosão do Kaiba? – disse ela, com os olhos brilhando.
May fez uma careta. Não pensava em Kaiba exatamente como um "gostosão". Ai dela se Kali imaginasse que o homem que ela achava assim tão atraente estava "arrastando asa" pra cima da prima feia e desarrumada.
- Assinei.
- Então porquê a tristeza? – Kali sorriu mais ainda. – Não admito que fique triste hoje, May. Nós vamos sair pra comemorar. E sem mamãe por perto pra dizer o que fazer ou não fazer, eu vou te transformar em outra pessoa. Você vai ver.
- Mas eu gosto de ser eu. – retrucou May, com um sorriso tímido.
- Mas vai gostar mais ainda do seu novo eu. Vamos. Confie em mim.
- Eu sempre me arrependo quando confio em você, Kali. – ela retrucou, com ironia.
- Oras, mas veja isso! Agora eu não desisto mesmo. Vá vestir alguma coisa e vamos logo sair. Hoje você está nas minhas mãos!
- É disso que eu tenho medo... – sussurrou May consigo mesma enquanto rumava para o quarto, vencida.
