- Capítulo Oito -

May acordou um pouco mais leve. Estava se sentindo mais calma. Depois que sua tia partira, havia chorado até não agüentar mais e cair no sono. Olhou um relógio preso numa das paredes da sala e deu um salto. "UMA E MEIA! A REUNIÃO!", sua mente berrou, obrigando-a a agir no automático. Correu para o banheiro, tomou o banho mais rápido da sua vida, vestiu a primeira roupa que achou, catou os óculos em meio à confusão e saiu correndo.

Chegou ao andar do escritório principal com cinco minutos de atraso. Cumprimentou a secretária com uma inclinação de cabeça, e ela apontou-lhe uma porta. Foi por lá que passou e deu de cara com uma sala de reuniões muito bonita, com paredes de um tom mais claro de azul e uma enorme mesa com armação metálica e tampo de vidro. Todos a olharam surpresos.

- Desculpem o atraso. – ela enrubesceu, enquanto baixava o rosto e sentava na primeira cadeira vazia que avistou.

- Agora que estamos todos aqui... – ela levantou o rosto para ver Kaiba numa das pontas, o ar de Rei e o olhar frio que não centrava ninguém em especial. - ... daremos início à reunião.

Takashi, que circulava ao redor da mesa, entregou-lhe um memorando com um sorriso, e ela respondeu com um agradecimento e um sorriso tímido. Passou os vinte primeiros minutos escutando a voz monótona de Kaiba com um ouvido e lendo o memorando ao mesmo tempo, dividindo sua mente entre essas duas atividades. Quando terminou de passar os olhos pelo memorando, ouviu Kaiba começar as apresentações.

- Este é o Dr. Itigaki, chefe da equipe e responsável por boa parte da programação e códigos especiais e de acesso às funções básicas.

O homem beirava os sessenta anos e tinha cabelos grisalhos, olhos castanhos e um sorriso simpático, embora também um ar de cansaço.

- Estes são os doutores Hen e Hun Mikayl. Eles cuidam do aspecto funcional e design da arena.

Ele colocou as mãos sobre os ombros de gêmeos, as cabeleiras grisalhas ainda continham fios ruivos e os olhos verdes escondidos sob os óculos eram vivos e perspicazes. A única diferença entre um e outro era que Hen usava barba, enquanto Hun preferia um cavanhaque ainda muito rubro.

- Esta é a doutora Tenou. Ela cuida da parte gráfica.

Uma mulher de cabelos muito negros, obviamente por tinta, com aparentes setenta e poucos anos, magra e dona de traços clássicos que a tornavam estranhamente bela. Ela acenou com a cabeça para os jovens.

- E este é o doutor Johnson. Especialista em testes de resistência e fecha todos os programas, testando o resultado final, apontando os defeitos e tratando de conserta-los.

Um homem com cinqüenta e poucos anos, parecendo muito abatido e doente, tinha a pele do rosto enrugada e pálida. Os olhos azuis tinham olheiras profundas e escuras, e ele exibia uma brilhante careca no cocuruto. Parecia ter tido um ataque cardíaco há pouco tempo.

Os cinco jovens os observavam com atenção. Eram nomes conhecidos, ganhadores de muitos prêmios e conhecidos mundialmente.

- Estes são seus cinco pupilos.

Eles voltaram a prestar atenção em Kaiba quando ouviram sua voz.

- Este é Michael Ichijouji. – ele apontou o rapaz que parecia ser o mais velho, com longos cabelos negros presos numa trança e dono de uma beleza peculiar. Usava vestes a rigor.

- Esta é Haruka Meiou. – a menina era alta, loira, tinha olhos verdes vivos e um corpo curvilíneo que não fazia questão de esconder, à guisa das roupas curtas que usava. Ela fez um sinal de "Paz e Amor" para os cinco anciãos. A pele muito branca denotava uma certa descendência alemã.

- Este é Hiroki Kaneda.

May olhou o rapaz com interesse. Tinha cabelos castanhos cortados em estilo surfista e olhos verdes sensuais, que a atraíam como um enorme lago. A pele bronzeada e o cheiro de colônia masculina que exalava de seu corpo eram envolventes. O rapaz, que estava sentado ao seu lado, fez um movimento de cabeça em direção aos adultos e depois virou-se para ela, piscando um olho, coisa que a fez enrubescer.

- Esta é Mayra Terrae.

Ela não ousou olhar para seu patrão, limitando-se a fazer a reverência mais respeitosa possível sentada.

- E este é Takeru Motomiya. – o rapaz de cabelos negros e olhos azuis tinha o olhar frio, distante. May contraiu os lábios, tensa. O rapaz olhou de esguelha para ela, mas não pareceu dar-lhe importância, pois voltou a encarar Kaiba.

O resto da reunião se passou mais uma vez com monotonia. Takashi, que havia sentado-se ao seu lado, fazia alguma piada de vez em quando, e ela tinha que tapar a boca para não rir, disfarçando o embaraço quando Kaiba lhe mandava olhares irritados. Assim que foram dispensados, porém, Takashi teve que ficar para arrumar a sala e May plantou um beijo em suas bochechas, agradecendo baixinho. Simpatizara com ele desde o início, e ele com ela, a julgar pelo carinho com que a tratava.

Assim que deixou a sala, porém, foi abordada por Hiroki, o rapaz que a interessara na reunião.

- Você parece ser a mais nova. - ele disse, enquanto o grupo de jovens tomava o elevador para o andar de baixo, onde ficavam seus apartamentos. – Quantos anos tem? Catorze?

- Dezessete.

- Não parece. – sorriu Haruka, que era muito simpática, embora usasse roupas mais atrevidas que as de Kali. – Isso é bom, vai envelhecer bem devagar. – ela piscou um olho, e May sorriu.

- Não ligo muito para aparência. Tenho uma prima que não sai de casa sem se empetecar toda, mas talvez por isso mesmo eu não goste muito dessas roupas mais na moda e maquiagem. Não fazem meu estilo. – ela falou timidamente enquanto ajeitava o aro dos óculos no nariz.

- Você não precisa. – Hiroki sorriu de um jeito provocante. – Dá pra ver que você é muito linda, mesmo com essas roupas folgadas.

Ela enrubesceu e baixou o rosto, fazendo todos rirem, enquanto saíam do elevador.

- Tão inocente. – Haruka passou um braço sobre os ombros dela. – Espero que, mesmo com quatro anos de diferença, sejamos amigas. Ou sofreremos com esses três machistas. – e deu língua para os três rapazes, enquanto Michael passava um braço em torno de sua cintura.

- Você fala demais, Haruka. – ele disse, e todos riram novamente.

Eles se separaram em dois grupos, conforme cada um escolhia o caminho mais curto para seu apartamento. May suspirou, ao lembrar que o seu ficava exatamente do lado oposto ao do elevador, sendo o mais distante. Despediu-se de Michael e Haruka, a medida que os dois ficavam para trás, e procurou o cartão magnético no bolso. Passou-o no leitor e abriu a porta, aliviada por estar sozinha novamente.

- Ai, é muita coisa num dia só! – desabafou consigo mesma, enquanto abria a porta de vidro que dava para a varanda e observava o sol descendo lentamente, banhando a cidade com reflexos avermelhados e alaranjados.

Pelo menos aquilo havia de bom: a vista que a fazia sentir como se estivesse no céu.

Wishes

Já passava da meia-noite quando ela sentiu seu corpo ser chacoalhado suavemente. Virou-se para o outro lado, não querendo acordar, uma gostosa preguiça dominando seu corpo. Mais um chacoalho. Ela forçou-se a virar de novo e abrir os olhos castanhos para fitar o alvo de toda sua raiva naquele momento, e deu de cara com os frios olhos azuis de seu patrão.

- O que pensa que está fazendo aqui a esta hora da noite, Kaiba? – disse, voltando a virar e tentar dormir. Ela esquecia qualquer boa educação que tivesse quando a acordavam sem que ela quisesse.

- Preciso conversar com você, Terrae. – disse ele, sem se abalar. Estava sentado na cadeira que normalmente fazia conjunto com a escrivaninha do quarto, mas que naquele momento estava ao lado da cama dela.

- O que diabos você quer à... – ela consultou o relógio. – Uma e quinze da manhã?

- Eu sei que o horário não é muito bom, mas é que eu passei em todos os outros apartamentos antes de chegar ao seu. – ele deu um sorriso malicioso.

- Odeio esse seu sorrisinho cínico, sabia? – ela se levantou, sentando na cama e erguendo os braços para se espreguiçar.

Kaiba observou o tecido fino tomar as formas curvilíneas do corpo da jovem e segurou o impulso de faze-la deitar na cama novamente, para que então pudesse mostrar que a cama tinha outras utilidades além da de local para dormir.

- É melhor se cobrir ou não sairemos deste quarto nem tão cedo. – completou ele, enquanto se levantava, e sorriu internamente ao vê-la enrubescer. Saiu do quarto, deixando-a a vontade para sair da cama e procurar um robe.

Ela apareceu na sala com os cabelos presos em um coque e um robe sobre a camisola, parecendo já recuperada do mal-humor e extremamente sem jeito, de tão vermelha que estava. Havia recolocado os óculos, como se estes a protegessem dele.

- Desculpe a falta de educação, senhor Kaiba. – murmurou, com a cabeça baixa.

- Não desculpo não. – devolveu ele com um sorriso malicioso e aproximou-se dela, enlaçando sua cintura com uma mão e puxando-a até que seus corpos atritassem de tão juntos, abaixando o rosto para perto do dela enquanto levava a outra mão aos cabelos, que soltou. – Não prenda os cabelos quando eu estiver por perto. É uma tortura.

Ela não entendeu o que seu cabelo tinha a ver com torturas, mas, no estranho êxtase no qual mergulhava quando Kaiba agia daquele jeito, era impossível raciocinar direito. Ele penteou seus cabelos até que eles ficassem totalmente soltos, fazendo ondas de calor percorrerem o corpo da garota. May apenas o encarou, os olhos castanhos brilhando com uma nova vivacidade.

- Você, pequena virgem, me faz esquecer do que eu vim fazer aqui... – ele disse, soltando-a por fim, e tentando recuperar a compostura. May o olhava chocada. "Pequena virgem?"

- O que veio fazer aqui, então? – ela perguntou, recuperando a voz.

- Não me oferece nem um café?

- Café? À essa hora da noite? – ela estranhou.

- Hum, água? – ele tentou.

Ela concordou com a cabeça e foi para a cozinha, de onde voltou com dois copos de água. Esperou que ele sentasse num sofá para sentar no outro, puxando as pernas para cima deste e cruzando-as como uma criança faria.

- E então, o que quer comigo?

- Como eu disse, passei em todos os apartamentos para falar com todos.

- E?

- Eu estou procurando as opiniões. De tudo o que eu falei hoje, e que você não escutou metade, tem algo sobre o que queira dar uma opinião?

- Ah, eu escutei sim! – ela se ofendeu. – E tenho muitas opiniões, se quer saber.

- Sou todo ouvidos. – ele retrucou, ajeitando-se melhor no sofá e apenas escutando enquanto ela começava sua dissertação.

A próxima meia hora foi passado com as explicações dela. Kaiba ouvia com paciência e atenção, interrompendo apenas quando queria que ela explicasse melhor algum apontamento. May imaginava que se ele agira assim com todos, deveria tê-los conquistado, pois ela se sentia muito feliz em ver que alguém levava suas idéias a sério.

Kaiba notou aquilo, pois a partir de um certo ponto ela pareceu se desinibir e passou a falar com mais empolgação, gesticulando e com um brilho nos olhos que o fascinava. Ele vira aquele brilho nos olhos de todos os cinco, mas somente naqueles olhos castanhos aquele brilho parecia ganhar força e prende-lo, enreda-lo, numa teia de coisas que ele preferiria ignorar. Não conseguia acreditar que uma menininha tão ingênua e que não fazia nada para conquista-lo pudesse fazer com que ele ficasse daquele jeito. Não, logo ele que sempre fora o desejado, que tinha mulheres caindo aos seus pés, e no entanto era aquela adolescente meio infantil que o deixava fascinado. O que estava acontecendo com ele, afinal?

- Acho que é só isso por enquanto. – ela terminou, respirando fundo como se buscasse fôlego que havia perdido com as palavras. Terminou de beber o copo d'água, que ficara intocado durante a explanação.

- Sabe, eu não me enganei quando pensei que você era uma das poucas pessoas que conseguem me manter numa discussão. – ele sorriu.

Ela sorriu de volta. O clima agora era muito mais descontraído que o anterior. Era a primeira vez que se sentia realmente à vontade perto de Seto Kaiba.

- Você parece bem mais à vontade agora. – ele comentou, distraído.

- Você também. – comentou ela, sentindo necessidade de responder ao comentário, como se fosse uma ofensa.

- Ei, não queria ofender. – ele ergueu as mãos, como se desistisse de algo.

- Não ofendeu. – retrucou ela.

Um silêncio estranho caiu sobre eles. Não era incômodo, mas também não era agradável. May se levantou e seguiu para a varanda, com a nítida sensação de que não devia dar as costas àquele homem. Mas ignorou-a ao contemplar o céu estrelado, que parecia brilhar magnificamente naquela noite.

Mas o pensamento de que não deveria ter dado as costas a Kaiba voltou quando sentiu que ele a abraçava por trás, puxando-a para junto de seu corpo. Céus, como ele conseguia faze-la gostar tanto daquilo?

- Gosta de olhar as estrelas? – ele perguntou, sua voz denotando distração. Ela agradeceu silenciosamente por ele não estar beijando seu pescoço ou coisa assim.

- Às vezes. – respondeu, mais calma ao perceber que ele não parecia querer seduzi-la mais uma vez. Apesar de seu corpo adorar aquilo, seu coração repudiava.

- Prefere que eu a deixe sozinha? – ele perguntou junto a seu ouvido.

- Você não incomoda, sr. Kaiba. – ela respondeu, meio a contragosto.

- Oh, eu sei que incomodo você, não precisa mentir só pra ser gentil. – ele respondeu, mas com um tom tão calmo que ela nem mesmo quis responder. Ele respirou fundo e apertou-a um pouco mais nos braços, aguardando alguma reação, mas esta não veio. Ela parecia não notar o que ele fazia, observando o brilho das estrelas. – Eu gostaria que parasse de me chamar de senhor Kaiba.

Ela virou o corpo, ainda sendo abraçada por ele, e encarou-o com um misto de curiosidade e surpresa.

- Posso saber o motivo? É meu chefe, o mínimo que devo fazer é demonstrar respeito. – ela questionou.

- Você me faz sentir um velho de oitenta anos quando me chama assim. – ele respondeu, e ela explodiu numa gargalhada. – Não é engraçado! – ele protestou, emburrando.

- É sim! – ela respondeu, ainda rindo, enquanto o examinava. – Nem de longe daria para confundi-lo com um senhor de idade.

- É bom saber disso! – ele deu aquele sorriso presunçoso tão conhecido.

- Ora, seu prepotente. – ela riu mais ainda.

- E você é uma menininha arteira. – ironizou ele, descendo um pouco os braços até enlaça-la pela cintura. – Mas gostaria que me chamasse de Seto, como pedi a todos que fizessem.

- Sinto muito, mas é impossível para mim chamá-lo pelo primeiro nome. – ela desvencilhou-se do abraço dele.

- Por quê? – ele perguntou, seguindo-a de volta à sala.

- Primeiro, porque sendo meu chefe, eu jamais me permitiria essa intimidade.

Ele segurou-se para não rir. O que ela achava que ele era? Estúpido? Já haviam passado muito além da intimidade que um chefe pode ter com uma sua funcionária, sem contar que ele pretendia passar mais ainda.

- E segundo porque não me sinto a vontade para fazer tal coisa. – completou ela, virando-se para ele, rubra. – O senhor não é um... amigo meu.

Mas, ao contrário de mostrar-se ofendido, Seto apenas ampliou seu usual sorriso sarcástico, parecendo deliciar-se com cada palavra.

- Ótimo. – ele a viu arregalar os olhos, espantada. – Eu vou adorar faze-la pensar o contrário.

- E o que o faz pensar que conseguirá isso? – ela se irritou com o ar superior dele.

- O fato de que eu – ele começou, aproximando-se dela. – estou preso no seu fascínio.

Ela engoliu seco.

- Você o quê?

- Isso mesmo que você ouviu. – ele disse, enlaçando-a mais uma vez, só que agora tão rapidamente e com tanta força que ela chocou-se contra o corpo dele e o encarou, assustada. – Você, pequena virgem, tem alguma coisa que não me sai da cabeça. – ele aproximou o rosto do dela. – Você, Terrae, vai se tornar minha amiga – e nessa parte ele deu um sorriso malicioso. – e muito mais.

E, tão de repente como a trouxe para seus braços, ele a beijou. Não foi um beijo cinematográfico, nem mesmo um beijo de que alguém pudesse ter inveja.

Foi apenas um encostar de lábios. Durou apenas alguns segundos.

Mas mesmo assim lançou adrenalina em todas as veias de seu corpo.

Ela o encarou, ainda estupefata, quando ele a soltou.

- Até breve, Terrae. – ele se despediu, tirando do bolso da calça uma pequena caixinha de joalheria. – Ah, feliz aniversário atrasado. - e dando seu sorriso sarcástico, ele abriu a porta e saiu.

Ela ainda ficou parada na mesma posição, olhando a porta fechada, por longos segundos antes de suas pernas fraquejarem e seu corpo desabar no chão, enquanto finalmente entrava na sua cabeça que ela acabara de beijar seu chefe. Não conseguiu dormir pelo resto da noite.