- Capítulo Onze –
Era difícil dormir com aquilo martelando em sua cabeça. Haviam prolongado o horário de trabalho naquela sexta até as dez horas, como às vezes acontecia. Só que os testes iam de mal a pior pela falta de material resistente aos impulsos elétricos que o jogo gerava. A Arena Alpha, tão esplendorosa, não agüentava mais de uma hora de jogo, e aquilo era muito pouco para quem trabalhava o dia inteiro em cima dela.
Precisavam encontrar um material resistente o quanto antes, ou os testes seriam em vão. Mesmo que o encontrassem rápido, ainda levaria muito tempo para conseguirem realizar todo tipo de teste de resistência, condutividade, interferência e choques, para provar se o material é mesmo bom e, se não for, se havia maneiras de transforma-lo no que queria. Depois, ainda havia a etapa de adaptação do jogo ao próprio material, para ver como se desenvolvia e se o aparelho suportaria os gráficos e incontáveis módulos de ataque, defesa e combinação de cartas sem haver danos. E depois ainda havia a viabilidade de tal projeto, afinal, Kaiba podia ser um homem rico, mas seu capital não era infinito.
Aquilo desanimava todos cada vez mais, mesmo que fosse aos poucos. Todos estavam tão empolgados com aquilo que, ao verem uma falha que continuava insistindo mesmo depois de infinitas correções, a alegria ia sumindo, sumindo, até que um dia ficariam todos estafados. Só sendo um cientista para entender que isso pode acontecer e como influi nas pessoas. Não é fácil se apegar extremamente a algo que nunca dá certo.
E para ela era aquilo que estava acontecendo. Já na primeira semana haviam acontecido inúmeras falhas no sistema, e aquilo era simplesmente exaustivo, pois para um grupo unido e que havia adotado o projeto com tanta devoção, ver seus esforços darem em "Pane no sistema, pane no sistema!" era definitivamente péssimo.
Rolou na cama mais uma vez, e olhou o relógio digital no escuro. Onze horas da noite. Será que havia mais alguém acordado àquela hora ou era apenas ela a "idiota" ali? Haveria mais alguém tão angustiado porque seu trabalho não estava dando certo? "Hum...", era tudo o que ela conseguia pensar naquele momento.
Levantou-se e puxou o robe negro, fechando-o por cima da camisola no corpo. Pegou seu cartão magnético e em seguida saiu do apartamento, ativando a senha de segurança assim que fechou a porta. Caminhou um pouco. "A quem procurar? Haruka, claro!", exclamou mentalmente, seus passos já guiando-a para o apartamento da amiga. Ficou parada em frente à porta por algum tempo, sem saber se devia incomodar. "Vai que ela está dormindo, ou ocupada com outra coisa, afinal, ela não é obrigada a me agüentar o tempo todo!", recriminou-se, mas sua vontade de conversar com alguém era maior e ela se viu batendo três vezes suavemente na porta da amiga. "Se ela não atender eu dou meia-volta e vou embora!", decidiu, não querendo incomodar.
Mas havia barulho lá dentro, e logo a porta era aberta, mas não por Haruka, e sim por Michael, que estava segurando a porta com uma das mãos e tentando abotoar a camisa que usava com outra.
- Ah, boa noite, May-chan! – disse ele, meio sem jeito.
- B-Boa noite, Michael-kun. – ela cumprimentou, ainda mais vermelha, pois sabia exatamente o que havia interrompido.
- Er... Entre! – ele escancarou a porta, convidando-a com um gesto.
- Un... Acho que não. Vocês estão ocupados. Desculpem a interrupção. – e deu meia-volta para sumir dali o mais rápido possível.
- Hey! – ele a segurou pelo braço. – Agora já não há mais como... voltar atrás. – ele colocou, ainda embaraçado. – Vamos, entre!
Ela engoliu seco e entrou, olhando em volta. Haruka terminava de ajeitar a saia enquanto caminhava até ela.
- O que houve, May-chan? Porque ainda está acordada a essa hora? Deveria estar descansando... – ela disse, preocupada com o semblante triste da adolescente.
- Eu estou preocupada com o projeto... – ela imediatamente esqueceu a cena anterior, e começou a explicar suas angústias para o casal, que a ouviam atentamente.
- Não há motivos para isso, May-chan. – assegurou-a Michael, com um sorriso confortador. – O mundo das pesquisas e desenvolvimentos de softwares é assim mesmo, uma hora se ganha, outra se perde. Mas o importante é entrar com tudo em cada coisa que você fizer, dar o máximo de si. Tendo feito isso, já valeu a pena.
- Não. – ela foi taxativa, para surpresa do casal. – Não é justo, absolutamente! Você se envolve, dá o máximo de si, vê todos os seus sonhos começando a se tornar realidade, e de repente uma coisinha estúpida vem e derruba tudo que você construiu. Além do mais, todos os jogadores de duelos contam com as inovações da Kaiba Corporation. São elas que continuam mantendo o jogo "vivo", popular, querido. Um jogo antigo perde a graça, mas se você muda algo nele tudo vira surpresa novamente. Tem gente que não vive sem isso. E essas pessoas? É justo com elas?
Os dois ficaram calados por algum tempo, até que se ouviu a campainha. Michael levantou-se para atende-la, enquanto Haruka e May fitavam-se numa mútua avaliação. Vozes masculinas foram ouvidas, e logo surgiam Michael, Hiroki e alguém que May não desejava ver nem tão cedo: Seto Kaiba.
- Boa noite. – os dois novos integrantes da turminha cumprimentaram, recebendo sorrisos vagos e acenos de cabeça como resposta.
- Nossa, isso aqui está em clima de funeral. Alguém morreu? – ironizou Hiroki, ao sentir a tensão na atmosfera.
As duas mulheres o olharam com recriminação, depois trocaram olhares entre si e em seguida as duas fitaram Michael, como se ele devesse explicar a situação, o que deixou o rapaz atônito. Para completar, Seto e Hiroki viraram-se para ele, também esperando uma explicação.
- Er... Acho que não morreu ninguém não, Hiroki. Estávamos conversando sobre o projeto.
- Algum problema? – Kaiba pronunciou-se, sempre interessado em saber a quantas andavam seus investimentos.
- Hum, May-chan fez uma colocação interessante, digamos assim.
Chefe e funcionária trocaram um olhar sério, ele com curiosidade, ela com certa tristeza. O homem voltou a fitar o amigo quando este passou a explicar aos dois a conversa que havia se passado ali, e no final o mesmo silêncio tenso tomava conta do lugar.
- Nós todos sabemos os riscos que corremos quando levamos pra frente esse projeto. – disse ele, encaminhando-se para a frente da adolescente e acocorando-se a sua frente, como um pai que falasse a uma filha, tentando explicar-lhe algo lógico. – Algumas vezes ganhamos, outras perdemos. – ela tinha os olhos tristes ao ouvir aquilo de novo. – Entramos com tudo, mas não podemos contar só com nosso esforço. Um pouco de boa sorte é necessário de vez em quando.
- Mas não é justo. – ela protestou, fitando-o como se visse nele a causa de todos os problemas. – Você não entende? Tanta gente conta com essa nova versão do jogo. Eu fico lembrando da cara dos nossos amigos no colégio, dos olhos brilhantes, cheios de expectativas, como se eles nos vissem como Deuses da informática e dos jogos, ou algo parecido. E existe muito mais gente esperando ansiosamente por isso. Você já pensou que, com todo esse alarde que você fez sobre esse projeto ultra-secreto sobre uma possível nova versão dos jogos, muita gente vai ficar desapontada se de repente nós dissermos que não conseguimos fazer isso? Existem crianças que usam esses jogos para fugir de situações ruins. Eu conheço gente que não sabe o que teria feito da vida se não tivesse encontrado um jogo de duelo no momento em que precisava de uma "fuga", uma solução rápida e eficaz. O que vai ser dessa gente?
Ela agora o fitava como se dele pudesse vir a resposta que salvaria sua vida. Ele a fitou por algum tempo, antes de suspirar.
- Acho que talvez não tenha sido boa idéia te contratar, afinal. – ele falou de supetão, surpreendendo todos os presentes, mas ninguém ousou falar nada. – Você ainda é muito ingênua, Mayra. Não deve se envolver emocionalmente com os projetos. – ela sentiu um frio na barriga ao ouvi-lo chamar seu nome. – Nós não somos Deuses, e sim seres humanos. Todos nesse prédio, e em qualquer filial da Kaiba Corporation ou de alguma das suas divisões, trabalham com afinco pra produzir algo que agrade ao pessoal que consome nossos produtos. Todos nos esforçamos pra isso. Mas nós não somos à prova de erro. Se falharmos, não foi nossa falha, foi falta de sorte. Tudo o que podíamos e podemos fazer, nós fizemos. Se o fruto vai nascer ou não, é outra questão.
Ela o fitou por algum tempo, absolutamente sem expressão. Parecia precisar de tempo para digerir a informação. Em seu atual estado de espírito, mesmo que ele houvesse tentado ajuda-la, só havia piorado a situação. Ela suspirou, fechou os olhos por alguns segundos e levantou-se, mexendo nos cabelos.
- Se me dão licença, eu vou dormir. Estou muito cansada.
Estou despedaçada. Era isso que queria realmente dizer, mas uma ponta de orgulho reprimiu a confissão. Não se envolver emocionalmente. É, era realmente muito ingênua. Murmurou uma despedida e saiu, sob o olhar pesado dos outros.
WishesEla remexeu-se na cama ao sentir dois braços abraçando-a e puxando-a para perto de um corpo bem maior que o seu e mais forte também. Voltou a mexer-se, o que só ocasionou que seu corpo aninhou-se ao outro, sem que ela mesma notasse. O rosto afundado no travesseiro e aqueles braços deliciosos em sua cintura, além de que agora surgia uma boca que beijava suavemente seu ombro. Hmmmmm... Que tipo de sonho era aquele?
- Acorde, pequena. Preciso falar com você.
E que voz era aquela? Devia estar louca. Primeiro que estava tendo um sonho pra lá de indecente, e depois que a pessoa que a abraçava em seu sonho tinha a voz do seu chefe. Tinha que acordar daquele sonho. Mas como?
- Pequena, se você não abrir os olhos, eu vou tentar outra maneira de te acordar. Acho que você não gostaria de me deixa usar certos... recursos.
Abrir os olhos! Claro, porquê não havia pensado naquilo antes? Tão óbvio, que seu cérebro deveria ter desconsiderado mesmo antes que pudesse analisar isso. Era só abrir os olhos e estaria de volta à sua cama, em seu quarto na casa de sua tia, esperando as aulas começarem. Toda aquela história de projeto Alpha e Seto Kaiba eram apenas parte de um pesadelo. Era isso.
Mas quando abriu os olhos estava no quarto destinado a si no prédio da Kaiba Corp, deitada em sua enorme cama de casal, presa nos braços de ninguém mais ninguém menos que Seto Kaiba em pessoa. Ela pensou que muitas mulheres deveriam dar tudo para estar naquela mesma situação, mas ela só queria ser deixada sozinha com aquele peso de infelicidade em seu coração.
Encarou com surpresa os olhos azuis do chefe, que, ao contrário do que a situação sugeria, estava extremamente sério e, se podia dizer... pesaroso por alguma coisa.
- Meu Deus! Isso não é um pesadelo?
O rosto dele se contraiu por alguns segundos, mas logo ele voltou a ficar sério.
- Não, isso não é um "pesadelo". – e ele girou-a deitada na cama, fazendo com que ela acabasse deitando em cima dele. A fina camisola de algodão, mesmo infantil, não era capaz de esconder as curvas de um corpo tão tentador. Ele apertou-a mais contra si pela cintura, mas estava convicto em seus objetivos ao ficar ali. Ela tentou fugir por algum tempo, mas logo que viu que ele não tentava assedia-la, relaxou um pouco, mas não dispensou a vigilância que mantinha sobre ele.
- O que está fazendo aqui?
- Tentando me desculpar com você.
- Hein? Desculpar-se comigo?
- Sim. Eu fui um pouco... enfático demais, em certas coisas que lhe disse no apartamento de Haruka.
- Você foi? – ela estava tão abobalhada ao vê-lo pedindo desculpas que não conseguia fazer mais nada além de repetir tudo que ele dizia em forma de perguntas.
- Eu fui. Eu não devia ter dito que seria melhor não ter te contratado. Não foi o que eu quis dizer, me entenda.
- Não pareceu. – ela desviou o olhar, recobrando a capacidade de pensar respostas.
Ele segurou-lhe o queixo com gentileza, fazendo-a encara-lo novamente.
- Eu quis dizer foi que você ainda é muito ingênua, muito jovem. – ele disse, sério. – Você ainda não tem experiência, e se envolve facilmente com as coisas. Isso é um risco pra você, pois se acabar se envolvendo demais num projeto, qualquer coisa que o prejudique vai te atingir imensamente. Haruka e Michael sabiam do que eu estava falando. Estávamos só querendo te proteger.
Ela o fitou, mais surpresa do que nunca. Ele queria protege-la?
- Me proteger?
- Exatamente. Quero que todos se dediquem ao projeto, claro, mas não desejo que nenhum de vocês seja prejudicado por conta dele. Me diga uma coisa, Mayra.
Ele sentou-se, obrigando-a a sentar-se também, em seu colo. A situação poderia ser envolvente, se a situação fosse outra. Ambos se encaravam nos olhos com expectativas e um pouco de medo.
- Você abandonaria o projeto se eu assim permitisse?
A pergunta a pegou completamente desprevenida.
- Do que está falando?
- De você, Mayra. Você é uma ótima programadora visual, levando-se em conta o nível de seu conhecimento, que ainda será ampliado. Tem tudo para crescer indefinidamente no ramo. Mas talvez minha teimosia nos tenha feito precipitar a sua entrada no mercado.
Ele a deixou solta sobre seu colo, segurando o rosto dela com as duas mãos.
- Talvez esse emprego seja muito precoce para você. Entenda, não a estou criticando. Mas se você for ficar desse jeito toda vez que surgir um problema, é melhor que saia logo. Estou lhe dando a chance de pular fora agora.
Ela o encarou, um brilho de horror nos enormes olhos amendoados.
- Não... Não!
- Não o quê?
- Eu não quero sair! Eu... – ela balançou a cabeça, confusa, e levantou da cama, andando para lá e para cá pelo quarto. – Eu sei que você teve que praticamente me forçar a assinar aquele contrato, mas eu adoro a KC! Adoro o meu trabalho!
Ela o encarou quase com desespero, e Kaiba se viu tomado por uma grande compaixão. Aquela garota realmente provocava coisas estranhas nele. O empresário levantou da cama e, puxando-a por uma das mãos, saiu do quarto.
- Para onde você está me levando?
Ele não respondeu, mas ela logo descobriu. Ele abriu as portas que davam na varanda e abriu caminho para que ela passasse na frente.
- As damas primeiro. – sorriu misteriosamente.
Ela o observou, desconfiada, mas acabou passando para a varanda, apoiando-se no gradil e observando a cidade iluminada abaixo deles. Sentiu vertigens e, pela primeira vez desde que o conhecera, ela não ficou irritada quando Kaiba a abraçou por trás e a trouxe para junto de seu corpo.
- Está vendo toda a cidade?
- Sim... – ela sussurrou, observando as luzes multicoloridas que se espalhavam por Tóquio.
- Você deve saber que podemos ver todas essas luzes por causa de um cientista americano chamado Thomas Alva Edison.
- Sim, o inventor da lâmpada.
- Ele foi um grande homem. Muito inteligente, dedicava-se a vários projetos. Fundou um império industrial fabuloso. Você conhece os boatos sobre ele?
- Que boatos?
- "Um gênio é 1 de inspiração e 99 de transpiração". Essa frase é de sua autoria. Sabe o que diz uma lenda sobre a invenção da lâmpada?
- Aquela que diz que ele tentou 999 vezes antes de conseguir produzi-la?
- Ah, vejo que está seguindo meu raciocínio. – ela mais sentiu do que viu o sorriso dele. – Imagine só, 1000 tentativas. Somente a última deu resultados concretos.
- Pobre homem, deve ter ficado arrasado cada vez que falhava. – ela condoeu-se.
- Edison não tinha tempo de sentir pena de si mesmo, Mayra. Ele queria concluir aquele projeto e o faria, nem que fosse o último de sua vida. Você tentaria 999 vezes construir algo?
- Acho que não... – ela murmurou, um pouco envergonhada.
- Pense bem, pequena. Edison teve todas as oportunidades possíveis para desistir daquele projeto, render-se. Se não fosse pela persistência dele, talvez nem estaríamos vendo todas essas luzes hoje.
Ela voltou a prestar atenção na cidade. Cada pequeno pontinho de luz parecia lembrar de uma das 1000 tentativas de Edison. E que alegria ele deveria ter sentido quando finalmente funcionou!
- Eu gostaria de saber se você tem a fibra de Edison. Irá até o fim com o projeto da Arena Alpha ou pretende amolecer com qualquer obstáculo que apareça?
Ele a virou para si, querendo olhar nos olhos dela quando ela respondesse, ainda mantendo-a em seus braços.
- Eu não sei. Juro que não. – ela respondeu de cabeça baixa, mas ele ergueu seu queixo com uma das mãos, fazendo-a encara-lo. – Eu não posso garantir nada. Aliás, só posso garantir que darei tudo de mim em cada tentativa para que tudo dê certo.
Ele sorriu, deixando o indicador escorregar pelo rosto dela, aparentemente satisfeito com a resposta.
- Eu quero seu sangue nesse projeto, pequena. Mas eu quero que você entregue seu sangue por vontade própria, e não que o entregue por ter assinado um contrato.
- Eu prometo a você que não farei isso. Lutarei pela Arena Alpha porque quero que ela seja concretizada. É o meu desejo. – ela sorriu fracamente.
- Bem, devo informa-la de que você acabou de ganhar na mega sena.
Ela riu da comparação. Sentia-se novamente leve, como se seu peso não existisse. Estava se sentindo necessária, e aquela era uma boa sensação. E, por mais que ela quisesse negar, aquele brilho de desejo nos olhos do chefe aos poucos se tornava algo de que ela gostava.
Seto ficou mais sério e, passando os braços dela pelo pescoço, enlaçoua pela cintura, trazendo-a para mais junto de seu corpo. Sentiu o corpo da garota estremecer, e soube que não era de frio. Ele não conseguia entender como, mas saber que a agradava fazia uma grande diferença para ele.
Baixou a cabeça lentamente em direção à dela, para não espanta-la, sempre mantendo-a presa em seu contato visual. Seu nariz brincou com o dela, dando um toque carinhoso ao clima de sedução, e somente quando a viu sorrir ele permitiu que sua boca buscasse a dela. E foi muito bem recompensado.
Ela não conseguia entender como ele arrancava tantas respostas positivas de seu corpo, mas sua mente simplesmente parava de funcionar quando ele estava assim tão próximo. Tudo que seu cérebro registrava era o contato de suas peles, o hálito dele misturando-se com o seu, o tom tão azul daqueles olhos. O cheiro tão característico dele com o qual ela já se acostumara, os lábios cheios que pareciam bastante convidativos. E quando ele finalmente a beijou, foi como se uma bomba elétrica explodisse dentro dela.
Nenhum dos dois conseguia pensar em nada, na verdade. Estavam ambos concentrados em provar e sentir o gosto um do outro, em descobrir locais em que suas mãos pudessem passear com destreza e respeito ao outro, formas de aumentar aquele prazer. Era tão inconsciente quanto natural estarem procurando um ao outro com tanta avidez depois de mais de um mês de troca de olhares e pequenos duelos verbais.
Quando finalmente separaram seus rostos em busca de ar, o contato visual foi novamente estabelecido. Mayra não sabia quantos limites internos havia abandonado naquele simples beijo, mas imaginava que fossem muitos. Seto apenas queria repetir a experiência muitas e muitas vezes, indo cada vez mais longe, para cada vez chegar mais perto do prazer total...
- Ah, agora eu sei porque demoravam tanto.
Seto instintivamente colocou-se à frente de Mayra para protege-la do olhar malicioso de Haruka.
- Estava à nossa procura?
- Sim. – a loira disse, entrando no apartamento pela porta que o rapaz inadvertidamente deixara aberta quando entrara. Mayra, atrás dele, corava cada vez mais e respirava fundo, tentando se acalmar. – Queria saber se May-chan vai precisar de ajuda pra se arrumar.
- Arrumar? – a garota, confusa e curiosa, saiu de trás do outro. – Do que está falando?
- Ué, você não contou a ela? - Haruka perguntou a Seto.
- Ainda não tivemos tempo de conversar sobre isso. – respondeu, e virou-se para a estrangeira. – Além da conversa que tivemos agora, vim para convida-la a sair conosco.
- Vamos para uma boate! – confessou Haruka, excitada. – E você vai conosco, óbvio.
- Não posso, gente. Tenho aula amanhã!
- Você precisa se divertir um pouco, querida. Já falei com Kali, ela também vai.
- Mas tenho aulas de manhã.
- Não se preocupe com isso. – Seto se meteu na conversa, sorrindo para ela. – Venha conosco e deixe para pensar em estudar amanhã.
Mayra olhou de um para o outro e suspirou.
- Será que em algum momento eu realmente tive o poder de escolher?
- Se quer saber, querida, é claro que não! – Haruka declarou, contente. – Vamos, vou te deixar linda! Seto, faça o favor de sumir por um tempo. Vai ser uma surpresa.
- Está bem. Vou dizer a Michael que você estará aqui.
E o rapaz saiu, deixando a menina sozinha para lidar com uma ávida Haruka, que pensava em mil possíveis visuais para ela.
