- Capítulo Treze –

Ela nunca pensou que poderia se divertir tanto com alguém como Seto Kaiba. Mas foi o que aconteceu. Na noite em que haviam "decidido" namorar, pouco depois de terem seguido para a boate do Almirante, Kali, Haruka e os outros chegaram. Não foi preciso comunicar nada, o clima estava no ar e todos perceberam o que havia ocorrido.

Haruka sorria constantemente. Para ela, aquela era uma boa chance, para os dois, de aproveitarem a vida. Mayra precisava de alguém como Seto, e vice-versa. Já estava vendo o bem que poderiam fazer um ao outro. O único que parecia não estar muito feliz com aquela situação era Hiroki, mas este se esforçava para se animar. Afinal, gostava muito dos dois, Seto e May, e queria vê-los felizes, independente de com quem estivessem.

Motoki, o namorado de Kali, que trabalhava no bar da boate, logo se juntou a eles, e com o grupo completo a animação logo os contagiou. As brincadeiras e piadas faziam todos rir. Algumas vezes um dos casais se dirigia à pista para dançar um pouco. Os outros continuavam na mesa onde haviam se alojado. Logo começaram a pedir bebidas, também. Michael e May foram os únicos a recusar bebida alcoólica, embora os outros maneirassem nas doses.

Quando as músicas começaram a ser mais animadas, todos resolveram dançar. May e Kali, conhecidas ali, logo foram levadas por amigos para dançarem junto a um grupo, mas pouco depois voltavam à turma. "Eu nunca pensei que uma dança pudesse ser tão... sensual", pensou a brasileira, ao ser puxada por Seto para uma dança. O rapaz dançava maravilhosamente bem, coisa que a surpreendeu, e acabou envolvendo-a num clima mais íntimo. Ela o encarou, uma sobrancelha erguida, e não pode deixar de sorrir ao ver o sorriso malicioso brincando nos lábios de Seto. Aquilo era bem característico dele. O japonês a puxou, envolvendo-a pela cintura e, encostando a boca em seu ouvido, sussurrou.

- O que acha de ser seduzida? – a voz estava rouca e baixa, provocando mais um arrepio na jovem.

- Não seria má idéia... – ela sussurrou de volta, tentando controlar o tom de voz, que estava levemente rouco também. O brilho no olhar do namorado intensificou-se.

Ainda dançando, os dois se afastaram dos outros do grupo, indo parar numa das paredes da boate. Seto encostou-se ali, enlaçando-a pela cintura e puxando-a, fazendo com que colasse seu corpo ao dele.

- Você provocou, meu bem... Agora terá que pagar. – ele sussurrou, enquanto acariciava-lhe as costas com uma das mãos.

- Há! Quero ver quem é que vai pagar o quê no final. – ela sussurrou, surpreendendo aos dois com seu gesto impulsivo.

Mas ele não deixou que se arrependesse. Rapidamente colou os lábios aos dela, fazendo-a esquecer do resto do mundo. Céus, aquilo era tão bom! Como podia gostar tanto de sentir o corpo dele junto ao seu? Seria possível se deliciar mais com as carícias suaves do que já estava deliciada?

Do mesmo jeito que era suave, ele era sedutor também. Sabia enredá-la, deixá-la sem fôlego e ciente apenas da sua presença. May ficou pensando o que ele faria se soubesse disso, se é que já não sabia. Para ela parecia tão óbvia a resposta do seu corpo ao dele... A forma com que se entregava à luxúria era impressionante. Nunca pensara que poderia se interessar tanto por um rapaz.

Seto a manteve cativa de suas mãos e de sua boca por um bom tempo. Quando foram se dar conta do tempo, a madrugada já havia avançado bastante. Voltaram pela pista, procurando os amigos, que haviam sentado-se novamente à mesa. Ninguém fez comentários, mas os olhares maliciosos que recebiam deixavam-na vermelha. Imaginou que só não percebiam graças à escuridão do ambiente.

A conversa girou em torno de coisas fúteis, enquanto comidas e bebidas iam e vinham. Quando o sol já estava para nascer, eles resolveram sair. Assim que colocaram os pés para fora do local, porém, pararam.

- A minha casa fica aqui perto. – disse Kali para Seto, Michael, Haruka, Hiroki e Takeru. – Acho que é melhor irmos para lá. Vocês estão bêbados demais para dirigir.

- Com exceção de mim! – Michael salientou, fazendo todos rirem. – E de May-chan. Mas como eu sou o único de nós dois que sabe dirigir...

- Na casa de tia Michiko tem lugar para todo mundo. Podemos ir para lá e passar aqui mais tarde, quando voltarmos para a KC. Aí já estaremos mais descansados. Além do mais, Mike, você está exausto. Mesmo sóbrio, seria perigoso dirigir assim.

- Hum... – Takeru ponderou um pouco, o raciocínio avariado pela bebida. – É, talvez seja a melhor idéia mesmo.

- Vamos logo, só leva alguns minutos.

Caminharam até o conhecido parque, dobrando nas esquinas em direção à última rua. A caminhada ajudou a recuperar um pouco da sanidade. Quando chegaram à cerca que ladeava a modesta propriedade, o sol já nascia. Kali, também um pouco bêbada, pediu a May que procurasse a chave. A garota logo a achou, pois ela sempre fora guardada no mesmo lugar: atrás de um vaso de samambaias.

Abriu a porta, pedindo para que fizessem silêncio. "Tia Michiko não merece ser acordada por um bando de baderneiros!", pensou, contendo uma risada. Todos subiram vagarosamente as escadas, alguns pelo cansaço, outros pela bebida, e ainda havia quem subisse assim pelos dois motivos. Levou Haruka e Michael para um dos quartos de hóspedes, depois deixou Hiroki e Takeru no outro, que continha duas camas, enquanto Kali e Motoki dirigiam-se ao quarto da garota. Por fim, só restavam ela e Kaiba no corredor. Ele esperava que ela falasse algo, e ela procurava coragem para, enfim, declarar:

- Hum... O único quarto que resta é o meu. Os outros já estão todos ocupados. – disse, corando suavemente.

- Eu posso dormir no sofá, lá embaixo. Não se preocupe. – ele sorriu calmamente, como se fosse a coisa mais normal do mundo que Seto Kaiba, um dos maiores empresários do Japão, dormisse no sofá da casa de uma "menina" que ele resolvera namorar.

- Ah... Na verdade, eu não me importaria de você... dormir no meu quarto. – completou ela, corando mais ainda. – Isso é, se você prometer se comportar.

Ele ficou compenetrado, parecendo pesar os prós e os contras da proposta, para enfim suspirar.

- Prometo que vou ser um bom menino. – e ergueu a palma da mão, como um escoteiro o faria.

Ela riu, e subiu nas pontas dos pés para depositar um beijo suave nos lábios dele.

- É a primeira porta à esquerda. Pode ir se deitando, eu quero tomar um banho.

- Ok. Eu até te acompanharia, mas estou morto... – disse, sem pensar exatamente no que dizia, e virou-se, seguindo a direção que ela indicara.

Involuntariamente, May imaginou-os juntos na banheira, espuma envolvendo-os, junto com o cheiro dos sais de banho que usava. Seu corpo pareceu pegar fogo, e o ambiente tornou-se mais quente. Observou-o até que ele sumiu na porta de seu quarto e, como se despertando de um transe, seguiu para o banheiro, silenciosamente. Agora sim precisava de um banho, e rápido.

Resolveu usar o chuveiro, pois a banheira evocava as lembranças daquela fantasia maluca, e tratou de terminar rápido. Como sempre, havia um pijama seu pendurado no banheiro, ao lado dos de Kali e Michiko. O que era uma sorte, pois se esquecera de buscar outra roupa, e odiaria ter que entrar em seu quarto só de toalha.

Vestiu-se, pensando que ainda deveria ser muito infantil para usar um pijama de flanela rosa, salpicado de coelhinhos brancos, mas abandonou seus pensamentos ao deixar o lavabo. Caminhou a passos rápidos para o quarto e abriu a porta sem fazer barulho, esperando até que seus olhos se acostumassem à escuridão. Então, dirigiu-se ao lado não ocupado da sua cama, que por coincidência ou não, era uma cama de casal. Sempre gostara de espaço para se movimentar durante o sono. Puxou as cobertas e deitou-se, observando na escuridão que Seto parecia estar só de calça. Quando fechou os olhos e pensou em relaxar, um braço circundou sua cintura, puxando-a até que colidisse com o corpo quente. Ela quase podia sentir o sorriso malicioso no rosto dele.

- Você prometeu... – sussurrou, também sorrindo, de costas para ele.

- Ué, até agora não fiz nada de mais... Ou fiz? – a voz dele tinha um tom divertido, e ela se arrepiou ao sentir um beijo na nuca.

- Não. – ela teve que concordar. Aquilo não era nada desagradável. – Mas é melhor manter esse braço exatamente onde está, senhor Kaiba. Nada de deixá-lo vagar, entendeu?

- Não se preocupe, meu bem. Eu pretendo deixá-lo exatamente onde está, a noite toda.

O tom de promessa despertou uma alegria nova dentro dela. Sorrindo, aninhou-se junto a ele, fechando os olhos. Era uma boa sensação aquela, de ter alguém dormindo junto a si.

- Mas também não precisa provocar, né? – ele brincou, fazendo-a rir, para logo depois caírem em sono profundo.

Wishes

Acordou no dia seguinte com o barulho que vinha da cozinha, no andar de baixo. Panelas, um estalar que indicava óleo fervendo, barulho de água corrente – que bem poderia ser a pia ou alguém servindo-se de algo para beber. Havia também aquele cheiro gostoso de ovos, torradas, panquecas, entre outras coisas.

Virou-se para o outro lado, espreguiçando-se durante o movimento. Imediatamente seu olfato foi invadido por um cheiro característico, amadeirado, forte sem ser agressivo. Só havia uma pessoa que ela conhecia com aquele cheiro. Sorriu ao imaginar que tudo fora mais do que um sonho maluco.

Uma parte racional da sua mente dizia que não era nada bom que ela estivesse tão contente com aquela situação, mas em sua euforia de adolescente, ela não dava atenção àquelas palavras. Seu primeiro namorado. Mesmo que nunca estivesse atrás de um, era engraçado como sentia-se flutuar com aquele pensamento. Talvez não fosse o fato de ter um namorado, e sim a pessoa com quem estava namorando. Se bem que ela jamais admitira, se fosse mesmo aquela a solução.

Levantou-se e procurou no armário alguma roupa composta, mas parecia que havia levado todas para a Kaiba Corp. E como estivera despreparada para dormir na casa da tia, não havia trazido nada. Optou por um short branco de jeans, curto, e uma longa blusa branca e folgada, com motivos ecológicos, que quase cobria todo o short. Prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo baixo e saiu do quarto, descendo as escadas.

Rumou para a cozinha, que a seduzia com aquele cheirinho maravilhoso. Quando entrou, ficou surpresa ao ver ali somente Haruka e Takeru, além de Kali e Michiko.

- Bom dia! – cumprimentou a todos, que viraram-se para a porta.

- Bom dia, dorminhoca. – Kali abraçou-a, puxando-a para a mesa. – Sente-se, estamos aproveitando a rara ocasião em que mamãe cozinha.

Todos riram.

- Eu sou uma mulher de negócios, e não uma dona de casa. – defendeu-se a mulher, rindo também.

- Nós sabemos, tia. – May sorriu. – Onde estão os outros?

- Hiroki quis voltar mais cedo para a empresa. Motoki se ofereceu para levá-lo. Os dois foram ao Almirante, pegar o carro dele. – explicou Haruka. – Mike e Seto foram à padaria. Já devem estar voltando.

- Padaria? – May arqueou as sobrancelhas. Seto Kaiba comprando pão? Era estranho.

- Eu sei que é meio difícil de acreditar, mas eles estavam muito cavalheiros hoje de manhã pra cima de Michiko. Acho que foi pelo barulho dos roncos que fizeram a noite toda.

May riu, embora não lembrasse de ter ouvido Seto roncando durante a noite. Para falar a verdade, era a primeira noite em que dormia tão bem em semanas.

- Não sei como você agüentou, meu bem. – disse Haruka, rindo também. – Eu detesto quando o Mike ronca. Parece um urso. – e as duas caíram na risada de novo, embora a estrangeira estivesse levemente ruborizada por estar discutindo algo tão íntimo como se fosse algo banal.

- Na verdade, eu não ouvi ronco nenhum durante a noite. Eles não devem roncar tão alto assim. – disse ela, franzindo o cenho ao tentar analisar a questão.

Parou ao receber um copo de leite da tia, que sorria.

- Mas os dois são extremamente gentis. Vocês duas são garotas de sorte. – ela sorriu, piscando um olho para a sobrinha.

- Acho que eles é que são homens de sorte, Michiko. – corrigiu Takeru, sempre galante, ganhando olhares afetivos das duas.

- Concordo. Haruka e May não são fáceis de conquistar. – apoiou Kali, todos rindo.

- Bom, então que bom que nós conseguimos esse grande feito. – a voz de Michael vinha de algum lugar próximo à cozinha.

- Oh, já voltaram! – disse Michiko, sorrindo abertamente. – Como são rápidos!

- É o calor que está aí fora, eu aposto. Homens são muito frescos com temperatura. – alfinetou Haruka, enquanto May e Kali riam.

Michael e Seto entraram na cozinha, cada um carregando dois pacotes.

- Nossa, pra quê tudo isso? – perguntou May, afobada ao ver os sacos cheios.

- Bem, temos sete pessoas pra comer hoje de manhã. Eu preciso de mais comida pra alimentar vocês. – Michiko explicou.

- Bom dia. – Seto cumprimentou May, dando um leve beijo em seus lábios antes de sentar-se. – Eu nunca imaginei que essas coisas fossem tão pesadas pra carregar. – disse ele, apontando os pacotes que agora estavam em cima da mesa.

- Pois é, veja como é bom ter quem faça o trabalho sujo pra você. – disse Kali, fazendo-o rir.

- Realmente, espero nunca mais ter que fazer isso. – completou ele, fazendo todos rirem. – Não nasci pra ser 'dono-de-casa', definitivamente.

- Não fale isso na minha frente, que eu sou capaz de armar uma situação dessas só pra ver você fazer isso de novo. – disse Haruka, rindo.

- Tenha pena de nós, querida. – Michael passou um braço por seus ombros.

Michiko rapidamente esgotou todas as compras que os rapazes haviam feito, e logo a mesa estava entulhada de várias coisas deliciosas. Todos demonstraram sua apreciação pelo convite com murmúrios de satisfação, o que deixou a anfitriã satisfeita.

May admirava o corpo que via pela primeira vez. Seto, assim como Michael e Takeru, vestia um short e camiseta, provavelmente peças antigas de seu tio. Michiko deveria ter cedido as roupas ao vê-los vestidos de forma tão elegante, como estavam na noite anterior, ao descerem para o café-da-manhã. Seto tinha um corpo bonito, definido, mas não como se fizesse academia e pegasse em pesos. Ela diria que estava tudo na proporção perfeita, pelo menos aos seus olhos.

Ao dar-se conta do que fazia, porém, tratou de se concentrar na comida, enquanto tentava não ruborizar muito. Os outros estavam tão distraídos com a conversa que pareciam não ter percebido o que se passava com ela, ao que dava graças. Seto, que tinha um braço ao redor de seus ombros, ouvia uma piada de Michael, e também não havia percebido. Mas sua mão acariciava-a constantemente no ombro, como se ele tivesse feito aquilo a vida toda.

Foi então que ela lembrou-se.

- Oh, meu Deus! – ela exclamou, e todos viraram para observá-la, alarmados.

- O que foi? – Seto perguntou, mantendo-a junto a si, atônito.

- A aula. – olhou para Takeru, depois para Seto. – O que a diretora vai achar disso?

- Ah, não se preocupe. – Takeru disse, sorrindo, e todos os outros pareciam mais aliviados também. – Seto ligou para o colégio, dizendo que nos prendeu, nós dois e Hiroki, para um trabalho de urgência no último momento. A diretora não gostou nada disso, claro, mas caiu feito um patinho.

- Oh... Vou ficar com um peso na consciência agora. – insistiu a morena, parecendo um pouco escandalizada com toda aquela situação.

- Relaxe. – Seto acariciou-lhe o ombro mais uma vez, sorrindo. – Você é muito certinha, sabia?

- Que eu saiba isso não é um defeito. – ela defendeu-se.

- Não disse que era. – ele continuou. – Além disso, você andava mesmo precisando se divertir. Estava muito tensa com toda aquela conversa que tivemos antes.

- Hum... – ela lembrou-se da conversa sobre o progresso do projeto. – Bem, eu estava tensa, sim, mas isso não é motivo para faltar aula ou sair pra me divertir. Tudo que eu precisava era dormir.

- Não, May-chan. – Haruka negou, séria. – Você estava mesmo transtornada com aquela história toda. Foi uma ótima idéia levarmos você conosco.

- Concordo. – Michael, Takeru e Kali falaram juntos.

Ela observou um por um, para enfim suspirar.

- Bem, o que está feito, está feito. Não posso mudar nada agora. – "E nem mudaria, se pudesse!", uma vozinha interior falou, mas ela não deu atenção. – Só não quero que aconteça de novo. Se me virem tensa, é melhor me doparem e me deixarem dormir até o dia amanhecer, ok? – perguntou, com um sorriso.

Todos sorriram de volta, voltando ao tema da conversa que tinham antes. Seto aproveitou a distração dos outros para roubar-lhe um beijo.

- Eu não me arrependo de ter levado você ontem. – sussurrou, com um sorriso perigoso, e piscou um olho. Ela não pôde deixar de sorrir.

- Você não toma jeito. – disse, meneando a cabeça, em desalento.

- Não sei se você gostaria de mim se eu tomasse jeito. – disse ele, malicioso, e fê-la calar-se com mais um beijo, esse que não passou despercebido.

- Hey, deixem essas coisas pra de noite. – brincou Kali, e todos riram, May dividida entre rir e enrubescer.

Parecia que teria de se acostumar com aquilo. E, surpreendentemente, pegou-se pensando que não seria nada difícil.