- Capítulo Quinze –

Má sorte. Maré baixa. Energia negativa. Era assim que muitas outras pessoas chamariam a situação pela qual ela passava. Para ela, entretanto, era simplesmente estupidez. Existia nome mais perfeito para rotular a tremenda babaquice que fizera? Não! Seria sempre uma babaca, não importava o quanto tentasse modificar aquilo.

- Essa prova vai ser o Apocalipse. – gemeu Takeru, assim que se acomodou dentro da limusine.

May apenas sorriu fracamente ao ouvi-lo. Mokuba, sentado ao seu lado, soltou um suspiro resignado.

- Tenho esperanças de melhorar minhas notas em Computação Gráfica hoje, mas nas outras duas... – ele rolou os olhos. – Enfim, a forca me aguarda no final do mês, quando o boletim chegar.

- Estamos no mesmo barco, companheiro. – Hiroki concordou. – Mas a gente acaba sobrevivendo, como sempre. Afinal, sempre existe alguma professora querendo um suborno pago em... atenções masculinas. – ele falou, rindo, fazendo Takeru rir.

May e Mokuba, entretanto, continuaram quietos. Desde o incidente da noite passada que não se falavam, nem conseguiam se encarar. Estavam olhando para lados opostos, cada um com seus pensamentos.

- O que deu em vocês? – Takeru e Hiroki falaram ao mesmo tempo, estranhando a situação. Logo aqueles dois, que eram tão amigos, estavam assim sem se falar.

- Mau dia. – explicou Mokuba, dando a entender que maiores explicações não sairiam de sua boca.

- May-chan? – Hiroki insistiu.

- Me deixem em paz! – ela respondeu, irritada, sem se virar para eles.

Os dois arregalaram os olhos, mas nada comentaram. O silêncio tornou-se tenso, e assim prolongou-se até chegarem ao colégio. Colégio "Inferno", segundo eles. E parecia estar mais infernal ainda por estarem tão distantes uns dos outros.

May deu graças a Deus quando avistou Claire e Hikari, e correu com as duas para o quarto que as três ocupavam, antes dela se mudar para a Kaiba Corporation. As duas queriam ajuda para revisar a matéria de Computação Gráfica, que era a especialidade da amiga. Aliás, qualquer tipo de informática ligada a imagens tornava-se especialidade da baixinha.

Como de praxe, ela fez com que as duas melhores amigas respondessem perguntas sobre o conteúdo, enquanto fazia uma trança nos cabelos. O olhar distante, entretanto, atraiu a curiosidade das duas.

- Algum problema, May-chan? – Hikari perguntou gentilmente.

- Nenhum... – ela mentiu, baixando o rosto, envergonhada.

- Não minta pra nós. – Claire puxou-a, fazendo com que sentasse no meio das duas. – Ande, conte pras suas maninhas aqui, o que aconteceu com você ontem pra que esteja tão distante?

May correu os olhos pelo antigo quarto, respirando fundo.

- Talvez eu volte a morar aqui com vocês, afinal.

- O quê? Mas como assim? – as duas falaram ao mesmo tempo.

- Bem, eu tive um... contratempo, digamos assim, com o meu chefe.

- Com o Seto? Mas o que aconteceu? Vocês estavam tão bem... – Claire comentou. A amiga contara do namoro com o chefe para as duas, fazendo-as prometer não espalhar a novidade por aí.

- Ele tentou passar dos limites. – ela resumiu, corando furiosamente. – A situação toda evoluiu, e se não fosse por Mokuba, eu nem sei onde teria acordado hoje de manhã.

As duas a olharam com espanto, mas Hikari recuperou-se rapidamente.

- Você disse Mokuba? O que ele tem a ver com a história?

- Bem, ele atendeu uma ligação de sei-lá-quem para o Kaiba, e foi chamá-lo justamente quando... – ela abraçou os joelhos, escondendo ali o rosto, muito vermelho de vergonha. – Agora me respondam: que tipo de idiota eu sou?

- Como assim? – perguntou Claire, que recuperou a voz.

- Ele não teve culpa. Antes mesmo dessa história de namoro, ele havia deixado bastante evidente que queria... fazer vocês-sabem-o-quê comigo. Entretanto, ele sempre respeitou meus limites, e nunca me forçou a nada. Eu não sei o que me deu ontem que eu simplesmente esqueci de mandá-lo parar.

- Mas isso é muito simples. – respondeu Claire, que era realmente boa conhecedora "desses assuntos", como não fazia questão de esconder.

- Como assim? – May ergueu a cabeça, fitando-a.

- Você não o mandou parar porque você queria que ele continuasse.

- Impossível.

- Por quê?

- Você sabe que eu não gosto nem de falar nessas coisas, quanto mais gostar delas.

- Querida, você é uma adolescente cheia de hormônios, com um namorado lindo, experiente, disposto a satisfazer todas as suas fantasias. E demonstrando isso! É um quadro bastante estimulante, pelo menos pra mim. Se aquele pedaço de mau caminho olhasse uma vez pra mim como sempre olha pra você... – ela rodou os olhos, fazendo as duas amigas rirem.

- Isso é sério, Claire. Não há chance de eu querer... ir para a cama com alguém. E muito menos com Seto Kaiba.

- Ué, porquê "muito menos com Seto Kaiba"? Afinal, ele é seu namorado. Nada mais natural que...

- Isso não é natural. – interrompeu-a May. – Eu não quero transar com ele. – ela disse, enfatizando a palavra com um tom de nojo na voz e uma careta no rosto.

- Então você tem personalidade dupla. Seu corpo diz que sim, sua mente diz que não. Um dos dois assume nessa hora. – brincou novamente Claire.

- Não sei não... Só sei que isso não está me cheirando bem.

- Só porquê seus hormônios estão finalmente superando essa sua barreira psicológica em relação a homens ou sexo? Vamos ser francas, May, você não é mais nenhum bebê que só pensa em coisas puras e não tem certas reações ao sexo oposto quando encontra um belo exemplar deste.

- Eu sei que não, mas mesmo assim... É estranho. – ela meneou a cabeça, perdida. O sinal tocou, avisando sobre o início das provas.

- Quase havia me esquecido que estávamos no Colégio Inferno. – Hikari suspirou, desanimada. – Vamos andando, meninas, as provas nos aguardam.

As três deixaram o quarto e rumaram para a sala.

- Fique com você. – Hikari entregou-lhe a chave do quarto que já fora sua. – Pode ir pra lá quando terminar as provas, se quiser ficar sozinha.

- É, procure espairecer um pouco. – Claire sorriu.

- Obrigada, meninas. – ela as abraçou, e as três entraram na sala, tomando seus lugares.

Ela nem virou-se para localizar Mokuba que, como sempre, sentava atrás dela. Sua confusão em relação a um dos Kaiba ainda era imperativa demais para que ela conseguisse falar normalmente com o outro.

Wishes

May suspirou de alívio ao sair da sala de prova, ao término dos exames. Era sempre uma das primeiras a terminar. Toda aquela confusão em relação a Seto, felizmente, não parecia ter afetado seu raciocínio, o que garantiu que ela terminasse as três provas do dia algumas horas antes da maioria dos alunos. Escorou-se na murada do outro lado do corredor e ficou observando o enorme céu azul de lá. Sua mente voava longe, e portanto não percebeu que estava sendo observada por um par de olhos azuis, que a analisavam com a frieza do aço.

Seto estava ali já há algum tempo, esperando que ela terminasse as provas do dia. As poucas pessoas que saíram antes da garota o encararam como se outra cabeça tivesse nascido sobre seus ombros, mas, como sempre, ele não dava a mínima. Entretanto, à sua frente, encontrava-se exatamente a pessoa que ele queria ver. O uniforme escolar, de saia e blusa social, ajudado pelo cabelo trançado, davam-lhe um ar de garotinha do primário, que esperava que os pais viessem buscá-la.

Entretanto, o que ele podia ler através dos olhos castanhos desmentia a imagem de criança. A confusão e preocupação que faziam as orbes distantes brilharem de angústia diziam que a maturidade da menina não condizia com seu tamanho ou aspecto físico: já havia ultrapassado as barreiras da idade. Ele bem o sabia. Para uma garota de dezessete anos, Mayra era alguém extremamente ajuizada e madura. Pensava muito antes de tomar decisões e costumava se resguardar quanto às pessoas, principalmente se fossem homens.

Ele, é claro, pensara ser imune à barreira. Afinal, havia feito senhoras muito mais seguras de si dobrarem o orgulho por sua causa. No entanto, a adolescente estrangeira provara não merecer o rótulo de indefesa que normalmente era atribuído a sua pessoa. Tímida, sim. Burra, não. Ele tivera de persistir muito antes de conseguir ultrapassar algumas barreiras encontradas no caminho para a vitória. Agora, porém, sentia que todas as barreiras estavam erguidas novamente.

Viu-a puxar de dentro da camisa alguma coisa, que brilhou à forte luz do sol do começo de tarde. Era um colar, sem dúvida, e de ouro. Mas não conseguiu observar a peça mais detalhadamente, pois ela a escondeu de novo sob as roupas, resmungando algo como "Idiota..." no processo. Ele, então, decidiu quebrar a calmaria.

- Acordou do lado errado da cama? – perguntou, o tom de voz frio como gelo. – Ou na cama errada?

Ela teve um sobressalto e pulou para trás, encarando-o, assustada e ofegante. Os olhares se encontraram por algum tempo, antes dela corar e virar-se para fugir dali.

- Ei! – ele a chamou, fazendo-a parar de correr, mas não virar-se. – Não pretende me deixar falando sozinho, pretende?

- Não quero falar com você agora. – ela respondeu, ainda de costas para ele. Seto, entretanto, logo alcançou-a e parou à sua frente. Seu rubor aumento. – Falo com você quando chegar à Kaiba Corporation.

- Ah, não mesmo. – ele segurou-a pelo braço quando ela tentou fugir novamente. – Eu não dirigi para fora da cidade por uma hora para chegar aqui, esperar mais uma hora sentado, finalmente falar com você e ter que ouvir isso. Sem chance. Nossa conversa vai ser agora.

Ele sentiu o corpo dela tremer, e soltou-a. Fitou-a nos olhos, para descobrir um imenso medo ali estampado. Estranhou a reação, pois nunca lhe havia dado motivos para ter medo dele.

- O que deu em você, afinal? Não estou te reconhecendo, Mayra.

"Quem não está reconhecendo quem aqui sou eu a mim mesma", ela pensou, atemorizada. "Não é possível que eu seja tão estúpida assim! Controle-se!"

Respirou algumas vezes antes de encará-lo novamente.

- Certo. Diga logo o que você quer falar. – respondeu, com receio transparecendo na voz.

- Não acho que esse seja um assunto para ser tratado nos corredores de uma escola. – ele falou, irônico. – Algum lugar onde possamos conversar sem ser interrompidos?

Ela mergulhou a mão no bolso da saia, sentindo a frieza das chaves do quarto. Teria coragem de levá-lo para lá? Não queria ficar sozinha com Seto num ambiente tão íntimo, mas parecia não haver escolha. Com o corpo tremendo novamente, respondeu:

- Há sim. Siga-me.

Os dois andaram por alguns minutos antes de chegarem aos alojamentos das garotas. May procurou abrir logo a porta, para evitar de encontrarem alguém nos corredores que pudesse interpretar aquilo de maneira errada. Ambos entraram rapidamente no quarto, e ela logo trancou a porta, sentando-se perto dela, avaliando suas chances de fugir dali a qualquer indício de ameaça por parte dele.

O que não passou despercebido a ele, mas Seto preferiu não tecer comentários. Sentou-se na cama que ela havia oferecido e a encarou, observando como as mãos pequenas agarravam com desespero os braços da poltrona onde ela se sentava. Lembrou-se de como aquelas mãozinhas haviam percorrido seu corpo na noite anterior, e controlou a libido. Não era hora para aquele tipo de reação vinda de seu corpo.

- Certo. Comecemos do início. Nós estávamos muito bem ontem, e se não fosse por Mokuba poderíamos estar melhor ainda. No entanto, você praticamente fugiu do meu apartamento depois daquela odiosa interrupção. Por quê?

- Porque foi um erro. – ela respondeu, baixando o rosto.

- Não considero o fato de um homem e uma mulher se desejarem fisicamente um erro, Mayra. Muito pelo contrário, é a natureza.

Ela lembrou-se de Claire, e de como a amiga falara que ela não o interrompera porque queria consumar a relação. Não podia ser verdade, era simplesmente impossível.

- Você não é capaz de entender, Kaiba. Eu disse a você que nós dois não íamos dormir juntos. E eu não pretendo fazer isso. – ela o encarou, mas desviou rapidamente o olhar. – Eu finalmente recuperei o juízo, e acho que nós dois esperávamos coisas muito diferentes desse relacionamento, então, é melhor parar por aqui antes que o problema se torne ainda maior.

- O que você espera do nosso namoro? – ele deliberadamente ignorou a última parte, e perguntou diretamente o que lhe interessava saber. – Eu disse que não seria amor.

- Nem era o que eu queria. Entrei nessa de namorar com você com todo o meu juízo me avisando a mesma coisa, Kaiba. Não gosto de relacionamentos amorosos, é só isso. Eu esperava talvez que assim que me tivesse nas suas mãos você parasse de me perseguir. Que o que quer que eu tenha que lhe chamasse a atenção perdesse a graça em alguns dias, e você dissesse que eu era muito jovem e muito pudica pra você.

Ele se espantou, tanto com a fala quanto com o tom frio da voz. Ela realmente havia erguido as barreiras novamente. "Péssima notícia!"

- E por que não deu fim a tudo quando percebeu que você não "perdeu a graça" pra mim? – ele perguntou, um certo aborrecimento transparecendo na voz.

- Porque aí eu já tinha perdido o juízo. – ela o encarou, os olhos tão gelados quanto a voz. – Talvez eu tenha acabado gostando daquela atenção toda, daquele mimo, e deixei seguir a coisa. Mas nunca imaginava que chegaríamos ao ponto que quase chegamos ontem. – e seu rosto enrubesceu, indicando que não estava tão indiferente quanto queria aparentar.

- Sei. Então quer dizer que o fato de você não ter me mandado parar ontem foi simplesmente um lapso de julgamento?

- Exatamente.

- Por que será que eu não acredito nisso?

- Porquê você é orgulhoso demais pra admitir que eu não estava louquinha por você.

- Você estava.

- Não, não estava.

- Mesmo que você não queira admitir, estava sim.

- Não interessa. Estou pondo um ponto final em toda essa estupidez.

- Ponto final? E eu não tenho direito de opinar não? Que eu saiba o namoro é entre duas pessoas, e não uma. Para terminá-lo você tem que ter uma boa razão.

- Você ainda não encontrou razão para terminar essa idiotice? – ela exaltou-se, fitando-o com fúria. – Pois eu vou te dar uma, Seto Kaiba: eu jamais vou fazer sexo com você. Eu tenho nojo de pensar nisso. Satisfeito?

"Grande! Fiz a maior merda da minha vida!", ela praguejou mentalmente. Toda aquela situação a estava tornando um gatinho arisco. Por que não conseguia controlar a língua? "Idiota! Idiota! Idiota!"

- Muito satisfeito, obrigado. – ele respondeu, a voz como gelo fazendo a coluna dela se arrepiar. – Não se preocupe, não vou mais fazê-la sentir náuseas. Pode ficar tranqüila.

No momento em que ele levantou da cama, ela ergueu-se da cadeira como se tivesse levado um choque. Destrancou a porta automaticamente, e controlou-se para não abri-la.

- Você vai me despedir agora ou depois?

Ele fitou-a, meio espantado. Depois tornou a fechar o cenho, enquanto se aproximava. A vontade de abrir a porta e correr quase dominou-a, mas May conseguiu controlar-se a tempo.

- E porquê eu deveria despedi-la? – ele falou, agora a fitando de muito perto. – Você não é ninguém assim tão importante pra mim que eu não agüente nem vê-la. Não, Terrae, você é insignificante demais para que eu me incomode tanto. Além do mais, você é minha empregada, e quem decide sua demissão sou eu. Faça o favor de não tentar mandar em mim novamente. Passe bem.

Ele abriu a porta e saiu, quase atropelando Hikari quando passou. A amiga fitou May como se questionasse o que havia acontecido ali. A brasileira apenas se jogou em sua antiga cama e começou a se xingar baixinho.

Wishes

Valerie Williams Meiou era do tipo loira estonteante. Fazia pescoços virarem quando passava em seus modelitos minúsculos, quase sempre acompanhada por um exemplar do sexo oposto igualmente belo. Os olhos azuis e as jóias caras deixavam claro sua ganância e gosto por opulência. Seus olhos de turquesa, entretanto, mostravam apenas surpresa ao ver o maravilhoso e sexy Seto Kaiba entrar no restaurante como uma tempestade.

Fazia pouco mais de um mês que ele parara de procurá-la como mulher, e quando soube por seu pai que ele estava levando uma menina consigo aos jantares que comparecia, Valerie não acreditou. Ao ouvir a descrição da garota que seu pai fizera, entretanto, ela lembrou-se imediatamente da moça. "Uma adolescente!", pensara na época, chocada. "O que deu em Seto para sair com uma garota de colegial?"

Agora, entretanto, o homem entrava como um furacão, sentando-se num banco alto igual a outros vinte que rodeavam o bar em forma circular. Não pronunciara uma só palavra, entretanto uma bebida lhe foi servida logo que sentara. O barman já conhecia as preferências do jovem milionário.

- O que Kaiba faz aqui a essa hora do dia? – Makoto, seu "acompanhante", perguntou.

- E como eu vou saber? Já não nos vemos há um mês.

- Ele está possesso com alguma coisa. Algum negócio que quebrou?

- Duvido. Se fosse isso já estaríamos sabendo.

- Então só pode ser uma mulher.

Valerie voltou a observar o milionário ao ouvir o comentário do amante. "Será?"

- Eu vou conferir isso. – disse ela, levantando-se. – Fique aqui.

Makoto protestou parcamente ao vê-la caminhando em direção ao jovem. Aquele Kaiba sempre era uma pedra em seu sapato. O fato de Valerie ter que conquistá-lo para que o pai dela não despedisse Makoto só o deixava ainda mais furioso. Já provara sua competência um milhão de vezes. O que o velho Meiou precisava ver ainda para permitir um relacionamento público de sua filha com o advogado mais proeminente da Meiou & Williams Advogados?

Valerie sentou-se no banco ao lado de Seto, com seu sorriso mais malicioso no rosto.

- Ora, ora, quem eu encontro no meio do dia bebendo. Pensei que sua política fosse de ingerir álcool apenas fora do horário de trabalho.

- Você está pisando em areia movediça, Valerie. Eu não estou bem para joguinhos hoje.

- Joguinhos? Quem está jogando aqui? Eu não. – disse ela, displicentemente arrumando o cabelo.

- O que você quer?

- Apenas descobrir o motivo da sua fúria.

Seto rolou os olhos, impaciente.

- Mulheres, sempre se metendo onde não devem, e querendo te controlar.

- Hum... Então é uma mulher? – o sorriso malicioso aumento. – Ou melhor, uma menina?

Seto pareceu prestar verdadeira atenção nela pela primeira vez desde que a loira surgira do nada ao seu lado.

- O que está insinuando?

- Sinceramente, Seto, eu não consigo imaginar o que te deu pra começar a sair com uma garotinha de colégio, ainda por cima tão sem graça, mas como eu já não tinha mais nada a ver com isso, deixei estar.

Ela parou um pouco, para apreciar o efeito das palavras que viriam a seguir.

- Agora, encontrar você furioso por causa de uma mulher no meio do dia, ainda por cima bebendo, é algo novo para mim. Geralmente são as mulheres que se alteram quando mantêm "amizade" com você... Parece que a menininha conseguiu te abalar.

- Você está completamente enganada. Ela não tem nada a ver com isso.

- Você precisa ser um pouco mais convincente, querido. – ela interrompeu-se para pedir um brandy ao barman. – O que houve? Ela te deu um chute?

O silêncio que se seguiu respondeu mais do que as palavras que ele poderia ter proferido.

- Quem cala consente. Já ouviu esse ditado?

- Sim, mas não se aplica a mim.

- Sei... Ela te atingiu feio, hein? Agora... onde ela te atingiu? Foi no orgulho? – ela encostou a ponta do indicador sobre a testa dele, e deixou-o escorregar para baixo até atingir o peito do rapaz. – Ou seria aqui embaixo?

- Valerie, como você mesma disse, isso não é da sua conta. Suma da minha frente agora. – ele respondeu, grosseiro.

- Credo, ferida profunda. Mas ainda não dá pra saber quando dos dois alvos ela acertou... Ou foram os dois?

Ele segurou o braço dela com força, apertando-o. Valerie soube que ficaria com um hematoma ali.

- Escute aqui, Valerie. Você vai sumir da minha frente ou eu não me responsabilizo pelo que farei com você.

- Não tenho medo de você, querido. Makoto está comigo. – ela apontou o advogado a algumas mesas de distância. O rapaz os observava com uma raiva contida no olhar. – Qualquer coisa que você faça, ele tratará de devolver a você na mesma moeda.

- É ele o seu garotinho? Aquele pelo qual você dormiu comigo? – ele perguntou, irônico.

- Ele mesmo.

- Seu pai não gostaria de saber que você me contou toda essa história quando acabamos. Não que eu não descobrisse sozinho, mas saído da sua boca, seu amiguinho aí pode sofrer as conseqüências.

- Você foi mesmo atingido por uma mulher, querido. Só dor de cotovelo pode explicar sua vontade de vingar-se em alguém que é completamente inocente nessa história. Dê à menina meus parabéns quando a encontrar.

- Dê-lhe você mesma. – ele soltou o braço dela com brusquidão. – Se ele te amasse de verdade, não deixaria que você dormisse comigo para salvá-lo. Será que vale a pena o sacrifício, Valerie?

- Você não entende nada de amor, Seto. O que Makoto e eu temos refere-se apenas a nós dois. Você jamais entenderia o que uma pessoa é capaz de fazer por amor, querido. Você não ama ninguém.

Seto sentiu o peso das palavras da loira. Valeria era egoísta, gananciosa e adorava dinheiro, mas ela realmente amava o rapaz. E ele, Seto Kaiba, não amava ninguém. Talvez Mokuba, mas sem dúvida não havia mais ninguém em seu coração. Realmente, o que ele entendia de amor?

- Não preciso de amor, Valerie. Nunca precisei. Vingança, superioridade e riqueza são coisas pelas quais me interesso.

- E você quer se vingar de quem, meu bem? Da menininha? O que ela te fez? Não era boa na cama?

- Não lhe dou o direito de especular sobre isso, Valerie. Mayra não é como você. Ela também não gosta de amor.

- Duvido. Ela é apenas um coelhinho que foi ferido em algum ponto da vida. Desenvolveu defesas para não ser ferido novamente, apenas isso.

- Você não a conhece.

- E por isso mesmo sou mais imparcial no julgamento que você. Quer dizer que não dormiu com ela?

- O que te interessa isso?

- Nada em especial, apenas curiosidade. Você me deu um chute, e alguém fez isso com você pela primeira vez. Quer dizer que você andou cometendo celibato? Ou tinha outros azes na manga?

Seto resolveu pôr um ponto final naquela conversa idiota.

- Tenho uma proposta a lhe fazer.

- Sério? E se eu não estiver interessada?

- Se isso acontecer, seu pai perde o contrato que eu pretendia fazer com ele. Você sabe que a Meiou & Williams não anda tão bem quanto parece.

A loira ficou tensa.

- Isso é injusto.

- O mundo é injusto, querida. É pegar ou largar.

- Você nem falou ainda o que é essa proposta.

- É simples: uma noite. Uma única noite. Hoje. No seu apartamento. A noite toda.

- E em troca você fechará o contrato?

- Exatamente.

- Você sabe como manipular as pessoas, querido. Vou avisar a Makoto. – ela levantou-se, mas ele a segurou.

- Ele vai ficar sabendo, mas não do jeito que você quer.

Valerie suspirou.

- Ele não tem nada a ver com isso, Seto.

- Mas vingança é vingança, Valerie. Eu estou afim de machucar alguém. E esse alguém vai ser seu garotinho.

Ela o encarou por algum tempo, pensativa.

- Você disse uma única noite?

- Exatamente.

- Então você terá sua vingança, meu caro. E espero não ter que lhe prestar mais nenhum favor depois disso.

- Não se preocupe. Seu pai ficará sabendo da sua colaboração.

- Não pode contar a ele que sabia de tudo!

- Eu sei o que faço, Valerie. Vai ser bom pra todo mundo. – ele observou Makoto, que estava cada vez mais nervoso. – Menos pra ele.

- Você é horrível, sabia?

- Sabia sim. Já me disseram isso hoje, só que com outras palavras.

- Ótimo. Reúna toda a sua raiva, frustração e dor de cotovelo. Essa será sua única chance de vingança. Pelo menos comigo, será a única.

- Saberei aproveitá-la.

Ela suspirou e sentou-se novamente.

- Vamos começar logo com isso.

- Como quiser. – o sorriso malicioso não alcançava os olhos azuis, e quando ele a puxou para beijá-la como um homem faminto por uma mulher, Mayra Terrae era a última coisa que passava por sua cabeça.