- Capítulo Dezessete -

Notas: Demorou mas chegou! )

Ela teve que espera-lo terminar o treinamento para que pudessem conversar. Enquanto o observava saltar obstáculos e acelerar a motocicleta, seu coração subia e descia vertiginosamente. Ishtar, o homem que há dois meses imaginava apenas fazer parte de seus sonhos, vivo? E ainda por cima parecia conhecer todos os fatos de seus sonhos, pois a chamava de Bastet.

Mas ela não era nem um pouquinho parecida com a oriental de seus sonhos. Enquanto Bastet, ou Nefertiti, era alta e tinha cabelos negros bem lisos, pele quase negra e olhos azuis sempre rodeados por uma linha negra, ela era levemente bronzeada e tinha cabelos castanho-escuros ou negros, ela não sabia ao certo, super cacheados, na altura dos ombros, e olhos castanhos.

Então como, pelo amor de Deus, ele sabia que era ela? Era a primeira coisa que ela perguntaria quando ele terminasse as voltas pela pista. Ficou observando-o, até que uma sineta tocou e ele saiu, enquanto um outro piloto entrava em seu lugar. Ela sabia que ele viria até ela, inconscientemente, mas sabia. Portanto, apenas deixou-se estar, enquanto esperava-o.

Ele apareceu minutos depois, vestindo jeans e camiseta, adquirindo um aspecto mais suave do que o que tivera em cima da moto. Passou reto por ela, e May soube que deveria segui-lo a um lugar mais apropriado. Caminharam em silêncio, ela se deixando ficar para trás, até chegarem às escadas, por onde subiram para o andar de cima. Ela sabia que aquela sessão era reservada à família do proprietário e seus convidados, portanto, ficou surpresa ao ver um dos empregados entrar tão tranqüilamente ali.

Ficou mais surpresa ainda ao vê-lo abrir uma porta e entrar por ela, deixando-a escancarada. Tratou de segui-lo o mais rápido possível, não querendo que ninguém os visse ali. Não queria interrupções.

- Pode começar. – ordenou, autoritária, recostando-se na porta e cruzando os braços.

- Pensei que você fosse mais gentil. – ele ironizou.

- Geralmente sou, mas no momento estou muito irritada. – ela devolveu, com um sorriso falso. – Quero que me explique porquê essas coisas estão acontecendo.

- Que coisas?

- Tudo! – ela abriu os braços, exasperada. – Há dois anos atrás eu sonhava constantemente com um faraó igualzinho ao Yugi Muttou. Mas, de repente, os sonhos pararam. E, novamente de repente, eu volto a sonhar com ele e acabo encontrando-o na vida real!

- Previsível.

- O que é previsível? – ela voltou a cruzar os braços, emburrada.

- Que você tenha sonhado com o faraó no dia em que conheceu o Muttou. Sente-se, Bastet, e então poderemos conversar.

- Não me chame de Bastet. Eu não sou essa mulher. Não sou uma assassina. – ela pediu, incomodada, lembrando-se da avó a acusa-la de ter causado a queda do avião em que seus pais estavam.

- Foi uma fatalidade que o avião deles tenha caído. Sua avó é uma tirana. – ele comentou, displicente.

Ela voltou a olhar para ele, chocada. Ela não falara sobre o acidente de avião. Nem sobre sua avó.

- Como... Como você sabe?

- É simples, minha cara. Você lembra de quem eu era no passado?

- Um... Um assassino. Como ela.

- Como você. – ele corrigiu. – Mas nós dois éramos mais do que simples assassinos, garota.

- Do que fala?

- Como acha que eu consegui chegar perto do faraó?

- Não faço a mínima idéia.

- Sendo diferente, minha cara. Especial.

- De que forma? – ela deslizou contra a porta até chegar ao chão, sentando-se.

- Magia. Poder. – ele disse, apenas.

- Você era um mago? – ela estranhou.

- Não. – ele respondeu. – Não era o tipo de magia bruta, que Seth tinha. Eu era um "sacerdote".

- Como assim?

- Sendo mais claro: eu podia ver o futuro, o momento atual de pessoas distantes, entre outras coisas.

- Nossa! – ela exclamou, espantada. – E então?

- E então que você também é assim. Ou melhor, era.

- O QUÊ? – ela espantou-se mais ainda.

- Sério. – ele riu.

- Não acredito... Não me lembro de nada disso. Todos os meus sonhos eram relativos a maneiras de matar o Faraó. Ela nunca usou poderes.

- Qual foi o último sonho que você teve?

- Bem... Eles estavam numa festa, comemorando sua prisão e morte no dia seguinte. O faraó e seu salvador viram Bastet disfarçada de dançarina, seduzindo-os...

- Isso explica. – ele riu mais ainda. – Você está se lembrando aos poucos de sua vida passada. Bastet só usou seus poderes quando era menor, uma criança. Guardou-os por toda a adolescência e vida adulta em segredo.

- Você parece conhece-la bem.

- Acostume-se a pensar nela como sua vida passada. – ele disse, enfático. – E, sim, eu a conhecia bem. Eu fui o mestre dela.

- Mestre? Mas ela o odiava... – May estava confusa.

- Sim, porque eu traí seu povo e fugi, depois de um tempo. Mas ela foi criada por mim. Eu a ensinei a matar, a seduzir, a usar seus poderes...

- Que ironia. – ela sussurrou.

- Uma das grandes. – ele concordou, no mesmo tom. – E fico surpreso ao saber que você ainda tem esse dom.

- Quê?

- Seus poderes divinatórios, Bastet. – ele explicou, um tanto irritado. – Você ainda vê o futuro e todas aquelas coisas.

- Eu nunca vi o futuro.

- Então como sabia que o avião ia cair?

A pergunta pegou-a de surpresa. Ambos calaram-se, fitando um ao outro com desconfiança. "Aquilo não pode ter sido uma previsão...", ela balbuciava mentalmente.

- Foi apenas um pesadelo. Eu sentia falta dos meus pais quando eles viajavam.

- E sonhava com aviões caindo cada vez que eles faziam isso?

- Não. – ela negou, a contra-gosto. – Mas isso não quer dizer nada.

- Você ainda tem um grande poder adormecido dentro de si. É por isso que sonhou com o passado toda vez que estava para encontrar Yugi Muttou.

- Mas eu sonhava com ele há dois anos atrás, e eu não o conhecia nessa época.

Ele a observou, silencioso, e saiu da cadeira em que estava para sentar-se à frente dela, no chão.

- Veja bem, o destino existe, mas não como muitas pessoas pensam. Não é algo que está escrito e não pode ser mudado. Uma pequena mudança de atitude sua pode modificar totalmente seu futuro, e ele nunca mais será o que seria antes. Eu creio que era seu destino encontrar o Muttou há dois anos atrás, mas, talvez por ter sonhado com ele, você fez algo que alterou seu curso.

- E o destino o trouxe de volta à minha vida agora. – ela completou.

- Você entrou no espírito da coisa. – ele sorriu. – Era seu destino conhece-lo novamente, então você poderia adiar indefinidamente isso e nunca encontra-lo, mas aquele encontro teria de acontecer, nessa ou em outra vida.

- E o Kaiba? – ela questionou, lembrando-se que ele também fazia parte do passado. – Eu o vejo nos sonhos também. É Seth seu nome.

- Você e o Kaiba tiveram um passado em comum naquela época. – ele disse. – Odiavam-se a ponto de armar um para o outro várias armadilhas. Ele a requisitou como amante, descobriu seus poderes e vocês se uniram por um tempo, pois assim conseguiriam seus objetivos. Mas sempre se odiaram.

- É meu destino odiar o Kaiba para sempre?

- Emoções não têm destino. – ele disse, simplesmente. – Não existe amor ou ódio que dure para sempre.

- Você conseguiu me deixar confusa. – ela sorriu fracamente.

- É normal. Você também não gostava de saber e conseguir fazer o que fazia quando era criança na outra vida. Eu tive que me esforçar muito para faze-la gostar dos dons que recebeu.

- O avião foi a única ocasião em que eu soube o que ia acontecer, Ishtar. – ela respirou fundo. – Não acho que isso seja exatamente um dom. Pode ter sido algum lapso temporário.

- Só porquê você não sentiu mais nada, não significa que você não tenha mais os dons, minha cara. Você e Kaiba ainda são poderosos, nesta ou em qualquer outra vida.

- Você não se dá bem com ele, não? – ela perguntou, pois ele ficava tenso toda vez que falava de Seto ou Yugi.

- Nunca gostei de nenhum dos dois. Não nos damos bem. – ele deu de ombros e se levantou, indo até o armário do quarto.

Ela colocou a mão sobre a boca para abafar o grito que deu quando viu o cetro dourado. O mesmo do sonho.

- Lembra disso?

- Claro.

- Você o devolveu para mim.

- Como? – ela estava novamente confusa.

- Na noite em que você e o Kaiba se deitaram pela primeira vez, quando eu havia sido encurralado por tentar matar o faraó, ele estava com este cetro no quarto dele. Você o roubou e o trouxe para mim.

- Então você conseguiu fugir.

- Com sua ajuda. Realmente não entendo, Bastet, o porquê de você ter feito aquilo. Mas salvou a minha vida.

- Talvez tenha sido pelos velhos tempos. – ela ponderou. – Em que você a criava.

- Eu nunca fui um pai para ela, se é isso que você quer insinuar. – ele negou. – Eu fui duro, cruel. Eu a tornei o que ela é nos seus sonhos.

- Eu espero descobrir mais sobre o passado dela do que sobre o futuro.

- Com medo de ver sua noitada com o sacerdote? – ele escarneceu.

- Não exatamente. – ela deu de ombros. – apenas gostaria de entende-la. Eu sinto o que ela sente, ajo como ela age, durante os sonhos. Mas nunca entendo a razão de tudo aquilo.

- Seu passado é tão triste na outra vida como já foi nesta, garota. – ele advertiu, e ela estremeceu. – Se quiser se abrir para observar o passado de Bastet, terá de enfrentar o seu próprio primeiro.

Ela sabia que estava fugindo de seu próprio passado desde que chegara ao Japão. Ishtar colocou o cetro em suas mãos, e de repente ela foi tragada por uma força descomunal. Estava agora num aeroporto, que ela reconheceu ser o aeroporto de New York, vestida com um belo vestido e caminhando calmamente ao lado de Kaiba. Foi quando o avistou na frente: o homem de cabelos loiros, olhos azuis e rosto de anjo, que simbolizava seu demônio particular.

Ia gritar, mas no instante seguinte estava de volta ao quarto de Ishtar. Ele havia tirado o cetro de suas mãos, e agora colocava um espelho à sua frente. Ela não poderia ter ficado mais surpresa: seus olhos estavam azuis como o mar.

- Que diabos...? – ela recuou para trás, instintivamente, mas deu de costas com a porta.

- Seus poderes de previsão. – ele respondeu, sucinto.

- Quê? – ela observou-o, amedrontada. – Este é meu futuro?

- Um provável futuro. – ele corrigiu. – Mas lembre-se: nem tudo é o que parece.

Ela repetiu a última frase, abobalhada. Os dois se observaram, azul contra lavanda, por um longo minuto. Os alto-falantes da casa, então, começaram a funcionar.

Senhorita Terrae, por favor, dirija-se ao hall de entrada. Sua tia a aguarda com urgência.

- Tenho que ir. – ela tentou levantar, mas as pernas tremiam. Ishtar a ajudou a levantar-se e firmou-a enquanto as pernas lentamente paravam de tremer. – Qual é seu nome atualmente?

Ele sorriu, sardônico.

- Ishtar. Malik Ishtar. – respondeu, achando graça no ar espantado dela.

- Meu nome é Mayra Terrae. – ela disse. – Não quero que me chame de Bastet.

- Certo, Mayra. De qualquer forma, você está indo embora. – ele disse. – O sacerdote precisará de você para despertar os próprios poderes. Vocês são luz e trevas.

- Não entendi.

- Não tem problema. Agora que seu dom foi despertado, você entenderá em breve. – ele sorriu e abriu a porta para ela. – Nos veremos novamente. – avisou.

- Eu acredito nisso. – ela sorriu, sardônica, e abandonou o quarto.

Mas não seria tão fácil assim apagar as lembranças do que acontecera lá dentro.

Wishes

Michiko explicou que Kaiba havia convocado uma reunião especial para dali a algumas horas, e que se quisessem voltar a Tóquio a tempo, deveriam partir logo. May e Kali tiveram meia hora para se arrumar e logo estavam se despedindo dos anfitriões. May queria ter falado novamente com Ishtar, mas ele não apareceu nem por um segundo.

Quando já estavam no carro, a caminho de Tóquio, foi que May parou para analisar as palavras do rapaz.

Se quiser se abrir para observar o passado de Bastet, terá de enfrentar o seu próprio primeiro.

Seu passado estava mais próximo do que ela imaginava, se aquela suposta visão indicava algo. Aquele homem que aparecera era o responsável, junto com sua avó, pelo ano e meio mais miserável de sua vida. O ano e meio seguinte ao acidente de avião que levara seus pais embora.

Ela, sinceramente, desejaria sepultar aquilo de uma vez por todas.

Mas sabia que mais dia, menos dia, teria que voltar aos Estados Unidos e rever o rosto da mulher que morava em sua casa, a custa de sua herança, e que a odiava mais do que tudo no mundo. Mas May simplesmente não conseguia deixa-la na rua. Não era de seu feitio fazer aquilo. Odiava aquela mulher com todas as forças, mas simplesmente não sabia fazer mal deliberadamente a alguém.

O outro aspecto mal resolvido de sua vida atendia por um nome: Seto Kaiba.

O empresário estava obviamente evitando falar com ela, mas May sabia que ele não estava mais ressentido. Naquele único mês que passaram juntos ela conseguiu conhecer mais sobre ele do que muitas pessoas conheciam, e uma dessas era saber quando ele não simpatizava com alguém.

Ela podia dizer com segurança que ele não só não estava mais bravo com ela, mas aparentemente se arrependia de ter estragado tudo. Não que ele quisesse voltar a namorar com ela. Ela duvidava sinceramente daquilo. Mas acreditava que ele se arrependia de ter sido tão sórdido ao ponto de pôr fim na pequena amizade que eles haviam formado durante o namoro.

Ela sentia falta das conversas, dos filmes que assistiam juntos, das risadas. Dos passeios nos parques da cidade, quando ele pacientemente esperava que ela tirasse fotos e mais fotos. Ela nunca tivera um companheiro, e era aquilo que ele havia simbolizado para ela.

Alisou a prega da saia, observando sua roupa. Aquele tanto de roupas que havia comprado para sair com ele para locais mais elegantes ou mais festeiros, no final das contas, conquistava-a lentamente. Ela havia achado tudo aquilo demais para ela, no começo, mas agora que as roupas já estavam em seu closet há mais de um mês, ela começava a ver a beleza, a simplicidade de cortes e o agradável efeito que as roupas produziam quando ela se olhava no espelho.

Percebeu que Haruka e Kali haviam, afinal, ajudado-a a criar um guarda-roupa variado, mas com seu jeito, sua cara. As cores suaves, a mistura de sex appeal e ingenuidade, as flores e borboletas estampadas ou construídas com brilhantes nas jóias que comprara... Elas haviam se preocupado em dar a ela um guarda-roupa com o qual ela pudesse se sentir à vontade, mas na época ela estava tão nervosa que não havia percebido.

Mas agora ela gostava daquelas roupas. Sentia como se estivesse sofrendo um processo de adaptação: pouco a pouco estava ficando mais preocupada com sua aparência, que antes era muito desleixada. Kali era a principal responsável por aquela mudança, já que ela a obrigava a usar as roupas novas sempre que estavam juntas. Dizia que "roupa bonita em período de fossa é melhor que sexo e chocolate". May apenas ria e abraçava a prima, mas agora entendia o comentário.

Ela era bonita. Finalmente May podia dizer que acreditava naquilo. Quando ela via seu reflexo no espelho, agora, ela sentia que estava bonita, que era bonita, que poderia ficar ainda mais se quisesse. Mas ainda não contara nada a Kali, ou a prima tentaria acelerar o processo. May tinha seu próprio tempo para mudar, e ele tinha que ser longo e lento. Já conseguia deixar um pedaço da barriga – aquele que continha o piercing – aparecer, mas ainda ficava vermelha. As calças justas e as blusas decotadas ficariam para uma próxima fase da transformação.

Estava usando um dos conjuntos que era ingênuo e provocante ao mesmo tempo. Uma blusa no estilo camponesa, semi-transparente, que deixava ver o contorno borrado de seu sutiã por baixo e uma saia de pregas branca com sandálias indianas. O look ficava bem nela, combinava com seu jeito light de viver.

"Eu preciso relembrar como é esse meu jeito light", ela pensou. "Ultimamente ando muito irritada por tudo e por nada..."

- Tudo bem, May-chan? – Hikari, sentada ao seu lado, perguntou.

- Claro! – May sorriu.

- Está tão calada... – a prima continuou, sorrindo também.

- Estava pensando. – esclareceu a estrangeira, tentando aparentar tranqüilidade.

- Não pense demais, querida, ou vai ficar com rugas cedo. – avisou Kali, ao que May não pôde deixar de rir.

- Obrigada pelo aviso, Kali.

- Disponha. – a prima respondeu e inclinou-se para ligar o rádio do carro.

Kali e Michiko entraram numa acalorada discussão sobre estilos de música, e May apenas as observou. Ela era feliz no Japão, mas não 100 feliz. Por mais que Michiko fosse uma mãe para ela, May sentia falta de sua mãe, com a voz aveludada que fazia sucesso pelo mundo todo, o rosto angelical e o amor exalando de todos os poros. Ela e seus pais haviam sido completamente felizes por um tempo. Um tempo curto, mas bem aproveitado.

Num impulso, ela puxou um dos CDs da mãe que carregava na bolsa no último mês e entregou-o a Kali.

- Já que vocês duas não se decidem, eu tomo a decisão. Vamos ouvir a mamãe cantar.

Kali arregalou os olhos e abriu a boca para falar algo, mas Michiko a cortou.

- Acho uma ótima idéia, May-chan. A voz de Serena era perfeita. Faz muito tempo que não a escuto. – e inseriu o CD no aparelho do carro. Kali, entendendo o jogo entre as duas, calou-se.

A voz profunda, emotiva e cativante de sua mãe penetrou em seu cérebro e desencadeou aquela conhecida sensação de paz. May recostou-se no banco e fechou os olhos, apreciando a música de todo o coração, um sorriso brotando no rosto. Serena Lima, conhecida como Serena Terrae no mundo artístico, fora uma daquelas poucas estrelas privilegiadas capazes de manter fama e felicidade juntas por um longo tempo. Seus dez anos de carreira foram interrompidos no auge pelo acidente de avião que a matara e levara seu pai junto.

May podia jurar que lembrava da voz de sua mãe cantando em francês para que ela dormisse, acariciando seus cabelos e ninando-a nos braços. Quase podia sentir as mãos dela passeando pelo seu cabelo, sussurrando palavras doces que toda filha deveria ouvir da mãe.

- May-chan? May-chan, acorde. – a voz de Kali a obrigou a abrir os olhos, trazendo-a de volta à realidade. Ela estava deitada no banco de trás do carro, com a cabeça no colo de Kali, que acariciava seus cabelos.

"Então era isso...", pensou, com certa tristeza. Por um momento podia jurar ter sentido sua mãe viva, ao lado dela, abraçando-a.

- Você dormiu enquanto escutava sua mãe cantar. – Kali explicou. – Achamos melhor deixa-la dormir o resto do caminho.

May encarou sua tia e sua prima e sorriu em agradecimento.

- Eu estava mesmo precisando. Faz semanas que não durmo tão bem. – disse, espreguiçando-se. – Chegamos? – olhou ao redor e viu o prédio da Kaiba Corporation se aproximando.

Takashi as esperava na porta do edifício.

- May-chan, seja bem-vinda de volta a Tóquio. – ele disse, à guisa de cumprimento. Depois, ao observa-la melhor, acrescentou. – Você está muito bonita hoje.

A garota corou, como sempre acontecia quando ele a elogiava.

- Que é isso, Takashi, meu cabelo está todo desgrenhado... – disse, apontando a massa de cachos que haviam se tornado mais rebeldes ainda depois daquele cochilo.

- Seus cabelos são lindos. As japonesas morrem de vontade de ter cabelos assim.

- Isso é verdade. – Kali se aproximou dos dois e passou um braço pelo ombro da prima. – Eu sempre admirei o cabelo da May-chan.

- Takashi, acho que você não conheceu minha prima ainda...

- Kali Marchant. – a própria Kali se apresentou, com um brilho nos olhos que May reconheceu de longe.

- Takashi Hiiragisawa. – ele apertou a mão que ela estendeu. – A senhorita também é muito bonita.

- Oh, aqui está um homem que sabe elogiar uma mulher. – Kali riu, afetada, e May se afastou dos dois, segurando uma risada. Kali sabia o caminho para a sala do Kaiba, então não seria necessário esperar pela prima.

Michiko logo juntou-se a ela.

- Essa minha filha é incorrigível.

- Ela ama o Motoki, mas não descarta as possibilidades que surgem, quando gosta delas. – May comentou.

- Eu sei, e assim como você não aprovo isso, mas Kali não é tão fútil quanto parece. Ela aprenderá com seus próprios erros.

May concordou com um balançar de cabeça e as duas entraram no elevador. Kali e Takashi correram para entrar a tempo, afinal, o rapaz estava trabalhando.

Subiram até o andar do escritório do presidente Seto Kaiba, que não estava à vista. May aproveitou para ajeitar o cabelo, olhando-se num dos espelhos do corredor. Não que quisesse impressiona-lo, apenas não queria parecer desleixada.

Ela estava para abrir a porta da sala de conferências quando esta foi aberta por dentro e, após ser aberta, ela teve de engolir seco ao ver Seto vestido informalmente, com jeans e camiseta, parado à porta e olhando para ela. Quando ela finalmente teve coragem de encarar seu olhar, uma onda de choque perpassou seu corpo.

Um avião. A entrada de Green Village. O quarto de seus pais. E novamente aquele homem loiro.

Ela deu um passo para trás, assustada.

- Credo! – exclamou alto, deixando os outros confusos.

- Boa tarde pra você também. – ele respondeu, resmungando, e afastou-se para deixa-los entrar.

May engoliu seu constrangimento e passou por ele sem olha-lo de novo. Porque ela havia tido uma nova visão quando encarara os olhos azuis do Kaiba? O cetro de Ishtar não estava ali...

- Você e o Kaiba tiveram um passado em comum naquela época. – ele disse. – Odiavam-se a ponto de armar um para o outro várias armadilhas. Ele a requisitou como amante, descobriu seus poderes e vocês se uniram por um tempo, pois assim conseguiriam seus objetivos. Mas sempre se odiaram.

- É meu destino odiar o Kaiba para sempre?

- Meu nome é Mayra Terrae. – ela disse. – Não quero que me chame de Bastet.

- Certo, Mayra. De qualquer forma, você está indo embora. – ele disse. – O sacerdote precisará de você para despertar os próprios poderes. Vocês são luz e trevas.

- Não entendi.

- Não tem problema. Agora que seu dom foi despertado, você entenderá em breve. – ele sorriu e abriu a porta para ela. – Nos veremos novamente. – avisou.

"Meu Deus! Será que ele é realmente a reencarnação de Seth? Será que ele lembra de tudo também?", ela pensou, erguendo novamente o rosto assombrado para fitá-lo por sobre o ombro. Ele ainda estava imóvel ao lado da porta, seguindo-a com o olhar como se ela tivesse criado outra cabeça. "Ele sabe!"

Kaiba pareceu recuperar os movimentos e fechou a porta assim que Takashi e Kali passaram. Depois voltou-se para os outros, que ainda observavam a cena sem entender nada, e começou a falar.

- Chamei-os aqui hoje, sem a presença de seus professores do projeto Alpha, por ser esta uma reunião que diz respeito somente a vocês.

May se acomodou entre a tia e a prima, Takashi sentando ao lado de Kali depois de distribuir os memorandos da reunião.

- Eu sei que estamos no final de outubro, chegando ao fim do prazo de experiência, e isso os deixa bastante inseguros sobre o que vai acontecer a seguir.

Ele olhou para os cinco jovens que trabalhavam para ele nos últimos dois meses e meio e sorriu.

- Devo parabenizá-los. Estão se saindo melhor do que eu poderia esperar. – ele disse, e todos respiraram aliviados. – Como vocês estão bastante adiantados em relação ao nosso cronograma, eu tomei a liberdade de altera-lo um pouco.

Ele respirou fundo e sentou-se na poltrona que usualmente ocupava quando uma daquelas reuniões acontecia, entre Haruka e Takeru.

- Seus professores já estão avisados. Haverá, na semana que vem, o lançamento mundial de um de nossos jogos de realidade virtual para computador. Todo o projeto foi concluído a contento e haverá uma festa que, coincidentemente, cairá no dia do meu aniversário. Eu, então, resolvi dar uma passada na nossa filial norte-americana, onde haverá a festa, e pretendo entregar aos convidados uma versão especial do jogo.

Todos começaram a entender aonde ele queria chegar.

- Nós projetaremos esta versão especial, não é? – perguntou Hiroki, empolgado. – Que máximo!

Mokuba, que estava presente também, sorriu para o amigo.

- Sim, vocês projetarão esta versão especial. – Kaiba continuou, sorrindo. – Pensem como se estivessem me dando isso de aniversário. – ele disse, e quase todos riram. – O projeto piloto está com o pessoal da filial, para que eles preparem o laboratório para vocês. Receberão as instruções quando começarem o desenvolvimento. Mas...

O tom malicioso não escapou aos ouvidos dos outros, que ficaram curiosos.

- Esta viagem não será somente a negócios. Haverá tempo para conhecerem Nova Iorque e se divertirem por lá.

May, Kali e Michiko trocaram um olhar espantado.

- Algum problema? – Kaiba perguntou, percebendo o ocorrido.

- Nada. – May respondeu, séria. – Eu morei em Nova Iorque quase toda a minha vida.

- Sério, May-chan? – Haruka perguntou, sorrindo. – Pensei que você fosse brasileira...

- E sou. – May sorriu. – Meus pais moravam em Nova Iorque na maior parte do ano por causa do emprego.

- E o que eles faziam? – Michael perguntou, interessado.

- Deixem os detalhes para mais tarde. – disse Kaiba, incomodado com aquela conversa. – O que eu queria dizer a vocês era que, como haverá uma parte de diversão na viagem, eu estou autorizando cada um de vocês a chamar mais uma pessoa que irá conosco. Por isso chamei Michiko e Kali.

- Enviarei minha autorização para que as duas viajem amanhã mesmo. – Michiko garantiu.

Kali soltou um gritinho de alegria e abraçou May, o que arrancou risadas dos outros.

- Vamos voltar à capital do mundo, May-chan! – ela disse, animada.

- É... – May corou, pois não gostava de chamar atenção, e sorriu para a prima.

- Espero que avisem seus amigos e se preparem, pois em quatro dias estaremos embarcando rumo a Nova Iorque. Serão hospedados no melhor hotel da cidade e...

- Com licença. – May ergueu a mão, pedindo a vez de falar, corada, e ele assentiu. – Eu ainda tenho uma casa lá. Não seria mais prático se todos ficássemos nela?

- O QUÊ? – Michiko gritou, assustando alguns. – Mayra Terrae, você não vai voltar para Green Village.

- E porque eu não deveria, tia?

- Oras, porquê! ELIZABETH! Esse nome lembra a você de algo? – ela perguntou, zangada.

- Tia, eu não vou deixar de rever Green Village por causa de Elizabeth. Ela sabe muito bem que não deve mexer comigo de novo. Aquela casa é minha. Minha e dos meus pais.

- E por acaso aquela mulher tem escrúpulos? Depois de tudo que ela fez, você ainda assim quer voltar a vê-la? – Michiko perguntou, respirando fundo para tentar se conter.

- Acalme-se, tia. – ela disse, lembrando das palavras de Ishtar. – Está na hora de acabar com o poder que aquela mulher tem sobre mim. E só há um jeito de fazer isso. – declarou, convicta. Então virou-se para Kaiba. – Nós ficaremos todos em minha casa. Lá há bastante espaço para acomodar a equipe e nossos convidados.

- Tem certeza? – ele perguntou, para se certificar. – Não quero lhe causar aborrecimentos, Terrae. Não sei do que vocês falam, mas eu não pretendo passar uma semana entre uma guerra familiar.

Ela deixou escapar o detalhe de que ele sabia que Elizabeth era sua avó.

- Não haverá nenhuma guerra. Ela é pudica demais para enfrentar a batalha por si mesma. – ela escarneceu, deixando transparecer parte do ressentimento que guardava daquela mulher. – Eu lhe garanto que você jamais vai sentir tanta paz quanto sentirá se resolver aceitar minha sugestão.

- Isso é verdade, Green Village é um paraíso na Terra. – Kali confirmou.

- Então está decidido. Pedirei ao Ishida para fazer os contatos com o pessoal da sua casa, é só me dar o número.

- Não vai ser necessário. Eu mesma ligarei para lá.

Michiko arregalou os olhos em horror novamente, mas desta vez manteve a boca fechada.

- Estão dispensados.

Os outros, um pouco constrangidos com os acontecimentos, levantaram-se e saíram depressa. Eles dois, no entanto, ficaram para trás. May conseguiu convencer a tia a ir na frente. Queria falar com ele a sós. Assim como sabia que ele queria falar com ela.

E não deu outra.

- Vamos pôr as cartas na mesa, Terrae. – ele disse assim que ficaram a sós.