- Capítulo Dezoito -

N/A: Será que eu sou malvada? Hein? Hein? Sou siiiiim! XD

- Vamos pôr as cartas na mesa, Terrae. – ele disse assim que ficaram a sós.

- Eu imaginei que você diria isso. – ela respondeu, bufando, ainda sentada na cadeira.

- Ótimo, isso facilita as coisas e acelera o processo. – ele resmungou, sentando-se numa cadeira ao lado dela, mas virado de frente para ela. – Por onde começaremos?

- Talvez pela sua canalhice de dormir com uma mulher no dia em que terminamos o namoro. – ela replicou, a voz tão cheia de veneno quanto a dele.

"Céus, será que eu a transformei numa pessoa igual a mim?", ele perguntou-se, assustado.

- Que eu saiba, desde que tínhamos terminado tudo, eu não lhe devo fidelidade.

- Eu sei disso, mas será que você não tem um único pingo de consideração nessa sua carcaça vazia, Kaiba? Você pode não ter nem mesmo uma fibra de músculo cardíaco, mas você sabe que eu havia me afeiçoado muito a você, e que isso me magoaria muito.

- Exatamente.

- Você agiu propositadamente como uma vingança! – ela acusou. – Tudo isso só porque não conseguiu me levar para a cama?

- Como foi que você adivinhou? – ele fingiu-se de espantado, irônico.

- Meu Deus... – ela cobriu o rosto com as mãos, respirando fundo. – Como eu pude me enganar tanto com alguém?

Ele sentiu-se culpado por feri-la mais ainda depois de tudo, mas ele ainda estava muito irritado com tudo aquilo.

- Você queria mesmo que eu pensasse "Ah, coitadinha da Terrae, ela vai ficar arrasada amanhã", depois de você ter me dito com todas as letras que sentia nojo de mim? Que jamais nem sequer cogitara o caso? Não é apenas orgulho, Terrae. Você me ofendeu seriamente.

- Escute, Kaiba, eu disse coisas naquele dia das quais me arrependo. – ela respondeu, tirando as mãos do rosto e encarando-o seriamente. – Esta é uma delas.

Ele calou-se ao ouvir a confissão.

- Eu não tenho nada contra você em particular, Kaiba. Eu apenas queria ser deixada em paz em relação a isso. – ela deu de ombros, levemente ruborizada. – Gostei de toda a atenção que você me deu enquanto namorávamos, o apoio, a companhia... quase tudo. Mas eu não estava, nem estou, disposta a ir adiante num relacionamento, seja ele com quem for. – ela disse, enfática.

- Eu adoraria saber o que te fez tomar esta resolução. – ele declarou, respirando fundo.

- Pensei que você tivesse investigado minha vida. – ela ergueu uma sobrancelha, sarcástica.

- E investiguei. Mas nenhum dos meus advogados conseguiu descobrir nada de mais. Você viveu com seus pais até os dez anos, quando eles morreram. Depois sua avó conseguiu a custódia, embora Michiko tenha tentado obter a guarda naquela época também.

Isso ela não sabia.

- Tia Michiko tentou conseguir minha custódia quando meus pais morreram?

- Achei que você soubesse. – ele disse, mas ela negou com a cabeça. – Bem, o resultado foi favorável à sua avó, com quem você passou o ano e meio seguinte. Até que Michiko voltou a tentar obter sua guarda e, não sei porque, sua avó a cedeu voluntariamente.

Ela sabia o porquê. Michiko tinha provas demais contra Elizabeth, coisas que manchariam seu nome. A mulher simplesmente não aceitava ter sua reputação ferida profundamente na altura da vida em que estava.

- Minha avó tem sua própria maneira gananciosa de pensar. – ela replicou. Se não era a ganância por dinheiro, era pelo poder que conservava nas mãos graças ao nome imaculado dos Terrae e ao dinheiro exorbitante que a família possuía.

- Seria muito mais lucrativo para ela manter você sob sua guarda.

- Kaiba, eu não pretendo discutir sobre minha vida nos Estados Unidos com você. – ela sentenciou, constrita.

- Eu imaginei que não. – ele sorriu ironizando. – Bem, os dados sobre sua vida no Japão são bastante acessíveis.

- Não tenho nada a esconder sobre isso.

- Ótimo. – ele disse, seco. – Mas eu ainda acho que merecia uma explicação sobre essa sua situação, afinal, eu passei meses investindo em você pra depois ouvir algo tão ofensivo...

- Não se faça de coitado, você não é. – ela replicou, tensa. – E vai ficar sem explicação.

Ambos apenas se encararam, fuzilantes, para depois ele abrir a boca.

- Eu quero me desculpar pela... falta de consideração com você. – ele comentou, constrangido. – Não costumo agir por impulso, mas tudo que fiz naquele dia foi exatamente isso.

- Eu achei que você fosse mais elegante numa derrota. A boa classe só aparece nas vitórias? – ela alfinetou.

- Eu nunca fui derrotado. – ele replicou, irritado. – Estamos resolvendo a situação ou deixando-a ainda mais complicada?

- Não sei, Kaiba. Mas eu ainda tenho muitas coisas a lhe dizer.

- E eu apenas uma.

- Fale logo, então.

- Não quero que trate o Mokuba como vem fazendo. – ele falou, rígido. – Ele está sofrendo muito por sua causa.

- Por nossa causa.

- Eu não parei de falar com ele. – ele devolveu, irritado.

- E como você quer que eu aja? Ele é seu irmão, droga. Não dá pra separar um Kaiba do outro na minha cabeça. – ela confessou. – Gosto muito de Mokuba.

- Eu sei. Aprenda a nos separar, Terrae. Eu não gosto de ser ligado a ninguém, nem a ele. Eu sou único. Mokuba também, a seu próprio modo.

Ela apenas o fitou realmente desolada.

- Eu realmente me arrependo de ter te conhecido, Kaiba.

- Do que está falando, Terrae? – ele argüiu, confuso.

- Eu comecei a namorar com você porque achei que você merecia uma chance. – ela começou a se explicar. – Eu havia feito um pré-julgamento de você, e odeio quando isso acontece. Ademais, todos os nossos amigos gostam de você, então eu achei que eu realmente estivesse errada a seu respeito.

- E?

- E eu estava atraída por você. – ela confessou, fitando-o com raiva. – Você já sabe disso, não precisava me forçar a falar de novo.

- Quer dizer que não está mais atraída por mim, Terrae?

- Não, Kaiba. Nem por você nem por ninguém. Nunca mais. – ela meneou a cabeça.

Ele sentiu o peso das palavras.

- Continue.

- Bem, depois que começamos a namorar, eu realmente me convenci de que lhe havia julgado mal. Você foi muito, muito legal comigo. Descobria coisas que nem eu sabia que queria ter ou fazer e as entregava pra mim. Não sei o que você viu em mim, Kaiba, além de um corpo razoável. Isso não pode ter sido o motivo de você insistir tanto.

- Você sabe que entre nós dois não há uma simples atração física e sexual, Terrae.

- Sim, eu admito isso. Não era simplesmente atração. Era... fascínio, gosto de proibido, algo assim. Nós dois tínhamos um... tempero especial. – ela sorriu.

Ele não pôde deixar de retribuir o sorriso.

- Mas tudo ruiu naquela noite no seu quarto. – o sorriso sumiu para dar lugar à um esgar. – Eu não o culpo de todo. Eu fiquei tão envolvida quanto você. Esqueci de te mandar parar.

- Você não quis parar, Terrae.

- Pode até ser, Kaiba. Eu ainda não descobri o que me fez ficar calada naquela noite. – ela deu de ombros. – Mas quando Mokuba entrou e todo aquele clima desceu pelo ralo, parecia que eu tinha tomado um banho no Ártico.

Ele também, mas não ia dizer isso.

- Não sei, eu comecei a me lembrar de todas as minhas convicções, minha ética pessoal e profissional, pensei nos meus pais... Entrei em desespero e tive que sair. E você bateu a porta na minha cara! – ela berrou, lembrando-se de repente.

- Me desculpe por isso também. Foi um ato completamente ridículo.

- Ainda bem que admite... – ela replicou. – Bem, no dia seguinte tivemos aquela conversa horrorosa, e eu juro que nunca me senti mais burra e traída na minha vida.

Ele semicerrou as sobrancelhas, intrigado. Ela respirou fundo e continuou.

- Eu acho que você me fez confiar de novo em pessoas que não eram minha família. – ela confessou, trazendo as pernas para cima da cadeira e abraçando-as. – Eu sou muito desconfiada, por várias coisas que já sofri nas mãos de muita gente. Mas eu realmente estava me abrindo mais para o mundo por sua causa. Estava gostando de estar ao seu lado, e quem sabe se você tivesse esperado um pouco mais eu talvez decidisse voluntariamente ir para a sua cama.

O olhar dela dizia que ele havia destruído aquela possibilidade ao dormir com Valerie. Ele se sentiu muito estúpido naquele momento.

- Eu nunca pensei que você fosse tão... tão... covarde a ponto de procurar uma fuga numa outra mulher. Eu não me apaixonei por você, Kaiba, mas eu gostava muito de você. E meu coração ficou arrebentado ao ouvir a história todinha da boca da sua "amiga" na manhã do dia seguinte.

Ela sentiu as lágrimas chegarem aos olhos, mas forçou-se a não libera-las, engolindo seco antes de continuar a falar.

- Eu sei que sou infantil, ingênua, que não sou a mulher ideal pra você. Mas eu realmente te odiei naquele instante, Kaiba. Te odiei com todas as minhas forças. – e uma lágrima solitária desceu. – Eu posso ser somente uma menina idiota pra você, Kaiba, mas eu já tive a minha cota de experiências ruins na vida. Você teve as suas com o orfanato e seu avô. Eu tive as minhas com a minha avó. Coincidência, não?

Ele engoliu seco, também. Nunca havia parado pra pensar como eles eram parecidos.

- Você superou bem suas dificuldades, Kaiba. Você tinha Mokuba ao seu lado. Ele te amava, te ama muito e nunca deixaria você na mão. Eu tenho certeza de que ele morreria por você se fosse preciso. Só que eu não tive ninguém para me ajudar contra a minha avó. Ninguém em quem pensar como alguém importante, que me desse forças pra seguir em frente.

Ela mais sentiu do que percebeu as lágrimas caindo.

- Além do mais, eu sou mulher. Nós sentimos mais fortemente os impactos de traições. – ela balançou a cabeça. – Eu só quero dizer, Kaiba, que você me feriu muito, mas que eu quero deixar isso pra trás e seguir em frente, como você fez quando chegou à presidência da Kaiba Corporation. Eu agora tenho uma família e amigos pra me apoiarem e não me deixarem cair. Eu só quero te pedir uma coisa.

- O quê? – ele perguntou, antevendo a resposta.

- Quero te pedir que não brinque mais comigo. Que respeite minhas vontades e, se for difícil demais pra você, que me deixe sair da sua vida de uma vez. Eu não vou agüentar mais uma decepção na vida, Kaiba. Kali diria que eu sou jovem demais pra sofrer assim e, pela primeira vez na vida, eu concordo plenamente com ela.

Ela enxugou as lágrimas e ergueu-se, ficando de pé à frente dele.

- Pense no que eu disse. Conversaremos mais uma vez, e então decidiremos o que fazer. – ela finalizou. – É uma pena ter perdido o grande amigo que você foi pra mim.

Ela abandonou a sala, respirando fundo para conter uma nova onda de lágrimas. O grupo que antes estivera com eles os aguardavam do lado de fora. Ela sabia que Kaiba estava vindo logo atrás dela também, e irritou-se com os olhares melindrados que o pessoal mandou para ele quando viram como ela estava.

- Dêem um desconto! Isso não é da conta de vocês! – avisou, irritada, desviando deles e indo direto para o elevador, sendo seguida pelo mesmo Kaiba. Ambos estavam sendo observados pela atônita platéia de longe.

- Não precisa me defender. – ele disse, baixinho.

- Cale a boca, pra variar! – ela ordenou, e entrou no elevador assim que ele abriu, sem esperar resposta.

Wishes

Naquela mesma noite, sozinho com um cálice de vinho em sua mão, Seto Kaiba observava o céu da varanda do seu apartamento, repassando mentalmente tudo que havia acontecido naquele dia.

Havia sido um dia intenso, ele admitiu. Convocara a reunião porque achara que aquele era o melhor momento, mas talvez tivesse feito um julgamento errado, pois tudo saíra ao contrário do que ele queria.

Primeiro, ele odiava aniversários. Data estúpida! Não via nela nada de especial. Mas a coincidência de um novo torneio de card game estar para começar nos Estados Unidos era demais para que ele deixasse passar a oportunidade. O magnânimo Seto Kaiba, fabricante de vários dos jogos de duelo mais famosos do mundo, iria usar seu aniversário com fins comerciais. E iria lucrar muito...

Então, resolveu levar os amigos com ele. Estava afim de ver como eles se sairiam sem os professores por perto. Era um bom teste, para saber se precisariam de mais alguns meses de assistência. Mas May havia mudado bastante coisa nos planos dele. Primeiro, desmontara todo o seu plano de ficar em hotéis. Ele não tinha casa nos Estados Unidos, simplesmente porque não gostava do país. Ele era obrigado a visitá-lo sempre, por conta dos negócios, mas nada o faria pagar mais do que as taxas alfandegárias e custos de suas empresas para um país tão revoltante.

Ele concordara com a oferta porque já ouvira muito falar de Green Village. A casa era famosa há anos. Os Terrae não eram, definitivamente, apenas mais uma família de riquinhos.

Eles eram muito, muito poderosos, e todas as suas ramificações, familiares e empresariais, demonstravam essa força. Os Marchant, parentes distantes, eram sócios dos Terrae em várias de suas empresas. E Michiko Marchant era uma das mulheres, ou melhor, das pessoas mais poderosas do Japão. O fato dela gostar de uma vida simples só tornava maior sua reputação.

Green Village era, por assim dizer, o coração da família. Os Terrae daquela casa eram os mais poderosos entre todos eles. Seto não era burro. May era herdeira de uma fortuna que a manteria sem ter que trabalhar por duzentos anos, ou mais. Mas ele tinha relações comerciais com os Terrae em vários pontos do mundo, e sabia que eles não eram do tipo que fica com as pernas para o ar quando conseguia fazer fortuna.

Era algo de sangue, ele achava. Os Terrae, os Marchant, entre outros ramos da família, pareciam gostar mais de fazer dinheiro do que dele propriamente dito. Não que eles fossem ambiciosos ao ponto de passarem por cima de todo mundo. May era uma legítima Terrae, íntegra e trabalhadora. Sua avó é que era a exceção.

Mas a própria Elizabeth era apenas uma Terrae de nome.

Ele já ouvira falar dela, também. O escândalo que levara Serena e Adam Terrae, ambos talentosos artistas e empresários, trouxera de volta à mídia o nome de ambas, Elizabeth e Mayra.

Levantou-se da cadeira onde estava e caminhou com passos silenciosos até seu escritório pessoal. Mokuba já estava dormindo, e ele não queria perturbar o irmão.

"Você tinha Mokuba ao seu lado. Ele te amava, te ama muito e nunca deixaria você na mão."

As palavras dela voltaram à sua mente, enquanto ele sentava em uma escrivaninha e ligava o computador. Tirou uma chave do bolso e destrancou uma gaveta, tirando de lá uma pasta comum de arquivos de escritório.

Sim, ela tinha razão. Ele tinha Mokuba. Sempre tivera Mokuba. E Seto era capaz de admitir, somente para a si mesmo, que Mokuba era o único motivo dele continuar com sua sanidade em dia até agora. Gozaburou Kaiba sabia muito bem como enlouquecer alguém, mas Mokuba, com sua inocência infantil e amor devoto ao irmão, servira como um pilar para um jovem Seto, tão criança quanto seu irmão no físico, mas muitos anos mais velho na maturidade.

O computador terminou de ligar, enquanto ele abria a pasta que tirara da gaveta. Ali estavam todos os arquivos sobre ela. Ele digitou Green Village; Terrae no serviço de busca que sua empresa oferecia e deixou o programa rodando à procura de informações, enquanto relia a ficha completa dela.

Nome: Mayra Elizabeth Terrae
Idade: 17 anos

Aniversário: 1° de agosto

Residência: residência dos Marchant, seus representantes legais, situada no bairro de Domino, Tókio...

Ele voltou a reler o começo da ficha. "Elizabeth!", pensou, irônico. "Carrega consigo o nome da mulher que lhe causou tanto sofrimento. Definitivamente surpreendente", ele pensou consigo mesmo. Já havia lido aquela ficha completa, mas não estivera interessado o suficiente para reparar naquele detalhe. Como deveria ser o sentimento de passar a vida sob o nome de alguém que se odeia?

Ele sabia como era aquela sensação.

Voltou a concentrar-se na ficha, enquanto terminava de ler detalhes residenciais, estudantis e de imigração. Sua atenção só tornou-se realmente ativa quando o detetive passou a escrever um resumo de sua história de vida.

Nascida no Rio de Janeiro, passou os dois primeiros anos de sua vida com a família da mãe, uma poderosa família dona de uma empresa de peças automotivas de sucesso. Posteriormente, por conta do início da carreira internacional da mãe, mudaram-se para Green Village, residência permanente dos Terrae, onde vive até hoje Elizabeth Karen Weiss Terrae, avó da investigada.

Dos dois aos dez anos de idade, morou nesta casa em Nova York, estudou em colégios particulares, viajou em algumas das turnês da mãe e começou a tomar contato com as empresas da família.

Kaiba sentiu pena dela. May era inocente demais para ser incluída no mundo dos negócios com apenas dez anos, mesmo que como mera observadora. Os Terrae, como ele já havia concluído, eram viciados em trabalho. Haviam tendências familiares para ingressar na vida profissional numa idade precoce.

Bem, quem era ele pra falar algo? Quando tinha dezesseis anos já estava na presidência da Kaiba Corporation. Ele sabia o que era ser cobrado sem ter como dar ao cobrador o que ele queria. Ele, entretanto, fora esperto o suficiente para aprender rápido a virar um predador do ramo, e não a presa.

Ela, entretanto... Kaiba quase riu ao pensar nela dirigindo um conglomerado como o dos Terrae. Era uma idéia ridícula!

Seu pai, Adam Terrae, e sua mãe, Serena Terrae, faleceram pouco depois dela completar dez anos. Houve uma briga entre várias ramificações da família pela posse da herdeira majoritária, mas sua avó recebeu a guarda dela. A investigada viveu até os doze anos com a avó, quando Michiko Marchant entrou com um processo de revogação contra a guarda da menina. Os detalhes do caso não foram encontrados, assim como fatos sobre o ano e meio que a investigada passou sob custódia da avó.

Kaiba queria muito preencher aquela lacuna de um ano e meio. Pensava seriamente em falar com Michiko antes da viagem, mas no atual estado de seu relacionamento com May, duvidava muito de que a tia dela fosse colaborar. "Não custa tentar...", ele pensou.

A reação de Michiko ao ouvir May sugerir que ficassem em sua casa fora bastante espontânea e poderosa para deixa-lo com os cabelos da nuca em pé. Ele quase pudera tocar a tensão de Michiko naquele momento, e a da própria May também. Havia algo muito importante dentro daquela lacuna.

Ele tinha que descobrir aquilo. Não podia deixar que nada interferisse em seus negócios. E, teve de admitir, estava preocupado com ela também. Ele fechou o arquivo e o guardou na gaveta, sabendo que o resto das informações eram sobre a vida da jovem May Terrae no Japão, e aquilo era algo que não lhe preocupava.

Aquele ano e meio ianque, porém, ainda o deixava de cabelos em pé.

Ele vira. E sabia que ela havia visto também. Alguma coisa havia acontecido quando ele abrira a porta e fitara os olhos dela. Eles haviam ficado azuis como os seus ou, mais precisamente, como os da garota egípcia que lhe aparecia em sonhos. Ele tivera certeza, então, de que ela era, de alguma maneira, a tal garota. Afinal, aqueles sonhos haviam começado a tornar-se mais freqüentes depois que ele a conhecera.

Ele vira, sendo tragado pelos olhos dela, aquela visão de um aeroporto, eles dois e um terceiro homem, a casa ao fundo. Ele não fazia idéia do que aquilo significava, até que ela sugeriu que ficassem em Green Village. Aquela, do mesmo modo que seus sonhos revelavam um possível passado, era uma visão que revelava o futuro.

Mas ele não fora capaz de comentar nada com ela. Apenas a perseguira com o olhar durante toda a reunião. E sabia que ela sabia que ele tinha visto também. Infelizmente, sua conversa desviara para outro ponto, muito mais recente e constrangedor, do que o passado e o futuro que ele queria discutir.

O fim do relacionamento deles.

Ele não sabia porquê, nas últimas semanas, estivera tão estranho. Primeiro que, depois daquela noite com Valerie, não havia procurado mais nenhuma de suas "amigas" para dividir uma noitada quente. Segundo, andava pensando demais naquela adolescente estrangeira, e se sentindo culpado por tê-la magoado.

Era óbvio que ele ainda a achava muito atraente.

Mas não era isso que o fazia se arrepender de ter tido aquela conversa com ela. Por tudo que haviam conversado naquele mesmo dia, ele se arrependia de ter perdido a única pessoa que conseguira despertar nele mais do que simples camaradagem além de seu irmão.

Ela havia sido, ele entendia agora, uma espécie de terapia para ele. Uma forma de expor a alguém seus defeitos e suas qualidades, e estranhamente se importava com a opinião dela. May era jovem, inocente, mas não era burra nem se deixava enganar tão fácil quanto poderia parecer.

Ela era, afinal, uma Terrae. Tinha uma pureza de alma, apesar do que pudesse ter lhe acontecido de ruim na vida, mas havia aprendido com as situações difíceis a se guardar e proteger. Ela o havia desmontado durante o namoro, com aquele olhar inocente, e o brilho nos olhos quando ele ousava ir um pouco mais longe nas carícias. O mundo dele virara de cabeça para baixo sem que ele percebesse ou se importasse.

Ele não estava apaixonado por ela. Disso tinha certeza. Mas, assim como ela sentira afeição por ele, havia se afeiçoado à garota. De certa forma, aquela relutância dela em seguir adiante com a rotina de um casal o deixara sem escolhas, a não ser passar o tempo que tinha com ela expondo seu lado intelectual, e não o físico. Ela fora a única que dera atenção a isso.

Não que as outras não o achassem inteligente. Ele sabia fazer muito dinheiro, e isso dizia tudo para elas. Mas May não tinha ambição sobre a fortuna dele. A dela era constrangedoramente maior do que a dele. Ela também não tinha ambição física por ele, embora o desejasse. O que a fizera mudar de opinião sobre ele não foram os beijos, as noites de tentativas malsucedidas de sedução ou as roupas que lhe havia comprado.

Foram os filmes dos mais variados gêneros que haviam assistido juntos e discutido exaustivamente por horas depois. Foram os passeios no parque, em que a observava se empolgar com as mínimas coisas e fotografar algo de segundo em segundo, e a acompanhara num passeio calmo, acompanhados de algodão doce e refrigerante.

Foram as noites de conversas sobre a vida de cada um no sofá do apartamento dela, descobrindo gostos em comum, divergências, eventos constrangedores e outros dignos de uma boa gargalhada.

Ela o havia feito voltar a reparar em si mesmo como uma pessoa que tinha muito a acrescentar aos conhecimentos gerais de outra pessoa. O modo como o observava fascinada enquanto ele contava momentos interessantes de suas viagens pelo mundo, como ria de coisas nas quais ele nunca vira graça, e que de repente se mostravam cômicas. O modo como se emocionava quando falava sobre seus pais, e ele apenas a escutava, mexendo nos cabelos dela, apenas contemplando as várias facetas dela.

Ele estava tão fascinado por ela quanto ela estava por ele. E aquele tempero do qual ela falara continuava existindo, apesar dela querer fingir que não.

Voltou-se para o computador e, ao observar fotos de Green Village, percebeu que aquela era a casa que aparecia naquela visão maluca. Sim, era um possível futuro para ambos. Kaiba não acreditava em seu passado egípcio, não acreditava que alguém pudesse ver o futuro.

Mas ele sentira aquela explosão de energia quando eles se encararam. Ele vira os olhos dela mudarem completamente de cor diante de seus olhos por um milésimo de segundo, de forma quase imperceptível. Ele sentira o abalo dela depois daquela visão. Ele a havia sentido chegar ao prédio, de alguma forma. Soubera que ela estava vindo. Abrira a porta no exato instante em que a sentira do lado de fora da sala.

Ele havia, realmente, sentido coisas demais naquele único dia.

Decidiu-se por procurar Michiko no dia seguinte. Tomou o resto de seu vinho, desligou o computador e foi para seu quarto, antevendo sonhos nada bons para aquela noite.

N/A: A cena do Kaiba com os arquivos sobre a May foi para que vocês conhecessem mais a respeito dela, coisas que eu não teria como inserir de outro jeito. XD Mas ainda tem muito mais por aí. Ah, tenho até o capítulo 23 pronto, portanto, se vocês forem bonzinhos e mandarem muitas reviews eu postarei mais rápido. XD

Ah, tenho um blog agora, para deixar os leitores atualizados sobre as minhas fics. Se vocês deixarem comentários lá posso colar por lá uns pedaços do próximo cap, quem sabe? ) Façam uma autora feliiiiiiiiz.

Beijokas