N/A: Nossa, quem diria que Prophet Wishes chegaria ao capítulo 21? Eu, quando comecei a escrevê-la, nunca sonhei com isso. Bem, não estou aqui pra reclamar, adoro escrever Wishes, que na realidade já tem 24 caps escritos. Pra quem me perturba pra saber porque eu não posto tudo logo, é porque eu faço vestibular, gente. Ando escrevendo MUITO menos nos últimos três meses, e a tendência é que piore até dezembro, que é quando eu concluo minhas provas, portanto, sempre tento deixar alguma coisa escrita pra não deixar vocês meses sem atualização. (Viram como eu sou boazinha? XD)
Finalmente um dos encontros mais esperados (por mim, pelo menos) acontece neste capítulo. Além da avó, Elizabeth, a May vai rever muita gente, e vai sofrer um bocado. E, ah, pra quem ficar louco pelo cap 22, vai ter que esperar. XD Ele conta finalmente o passado da May, o porque dela ser como é. Poor Kaiba, tenho pena dele... rs

Beijokas!

- Capítulo Vinte e Um –

Como em Nova York ainda estavam no começo da tarde, May sentiu-se frustrada por não ter dito "boa tarde" em vez de "boa noite" quando mandara o Kaiba "passear". Entrou no carro bufando, irritada.

Michele entrou logo em seguida e sentou-se ao seu lado, segurando carinhosamente suas mãos.

- Pronta para encarar Cruela? – perguntou, feliz ao vê-la cair na gargalhada.

- Faz tempo que nem lembrava desse apelido. Porque mesmo chamamos Elizabeth assim?

- Por causa daquele desenho dos dálmatas que você adorava quando era criança, e porque ela realmente é uma vaca muito, muito cruel.

- Gostaria que ela não tivesse conseguido nos separar, Frau. – a garota murmurou, enquanto a abraçava.

- Não importa mais, meu amor. Eu prometo que desta vez nada vai nos separar. – ela prometeu.

- Nada mesmo? – May perguntou, os olhos castanhos refletindo a esperança de uma criança e o brilho das lágrimas que ela tentava conter.

- Nada, meu anjinho. Eu prometo. – Michele repetiu.

As duas se abraçaram, ambas com lágrimas nos olhos. Nenhuma delas notou Haruka e Michael que haviam entrado no carro. Também não notaram quando a comitiva automotiva começou a se mover.

Wishes

Chegaram ao bairro nobre de Nova York em meia hora. A entrada suntuosa de Green Village era constituída por um portão de aço e ouro maciço que se abria por comando de voz – no caso, a voz de um Terrae – e que dava acesso a um esplêndido jardim.

- Que COISA! – exclamou Haruka, espantada. – Só o jardim já é maior que o Central Park, imagina com o resto da propriedade!

- É impressionante. – concordou Michael. – Ei, vejam só, chalés!

Michele riu.

- Vocês me lembram a mim mesma quando entrei aqui pela primeira vez. Dei tantas voltas, querendo olhar tudo, que fiquei tonta.

- Assim vocês me constrangem. – disse May, encabulada com as reações dos amigos.

- Você fica parecendo um patinho medroso só porque é a dona deste lugar? – Haruka riu. – Só você mesmo, May-chan.

A garota apenas deu de ombros, ainda mais vermelha.

- Os chalés são usados pela família, quando se reúne. Vocês ficarão na construção principal, que poderá ser vista daqui a pouco. – explicou Michele, vindo em socorro dela.

A casa, num estilo rococó de proporções faraônicas, era tão impressionante quanto o resto.

- Deve custar uma fortuna manter este lugar. – Haruka comentou.

- Esta foi uma colocação indelicada, Fraülein Tenou. – avisou-a a alemã.

- Oh, perdoe-me, May-chan. – a outra retratou-se, ruborizada.

- Não se preocupe. – a morena sorriu. – Infelizmente não saberia te responder, Haruka; nunca perguntei quando custa a manutenção. – e deu de ombros.

Quando desceram do carro na frente da mansão, encontraram os outros igualmente boquiabertos.

- E a mídia japonesa achando que você era uma cavadora de ouro quando começou a namorar nii-san. – Mokuba riu, irônico. – Perto disso aqui ele é um mendigo!

- Menos, Mokuba, menos. – May pediu, mais corada ainda.

- Acho melhor subirmos. – Michele comentou, tomando a dianteira. – Vocês devem estar cansados da viagem.

- É verdade. – May concordou.

Todos começaram a subir os degraus da pequena escada que conduzia às portas duplas de entrada, quando estas se abriram. Por elas passou um tipo rígido com bigodes curvados e cabelos divididos ao meio, vestindo um uniforme engomado.

- Bem-vinda de volta ao lar, mademoiselle Terrae. – ele a cumprimentou, curvando-se, com um forte sotaque francês.

- Gaspar! – May surpreendeu-se, abraçando-o. – Deus, só o reconheci quando falou.

- É uma honra saber que ainda lembra de mim, mademoiselle. – ele respondeu, sorrindo. – Deixe-me introduzi-la aos serviçais.

- Oh! – ela viu as filas, uma de cada lado da porta, cheias de empregados, assustada. – Não é necessário. – sorriu para eles. – Detesto apresentações formais. Tenho certeza de que poderemos nos conhecer durante as duas semanas que passaremos aqui. Prometo tentar não dar muito trabalho.

A criadagem riu, mais relaxada.

- Gaspar, será que você poderia acomodar meus convidados em seus quartos? Ah, e se puder ofereça um lanche leve e saudável. Ninguém aqui agüenta mais a comida requintada de avião. – ela sorriu. – Obrigada.

- É para já, mademoiselle. – ele curvou-se e estalou os dedos. Dez ou doze rapazes saíram para buscar as malas, enquanto as criadas se ofereciam gentilmente para acompanhar cada um dos hóspedes aos seus respectivos quartos.

- E tão bom respirar o ar desta casa de novo! – Michele falou, parando ao lado dela. – E você é muito mole pra mandar em tanta gente. – alfinetou.

- Seja paciente comigo, Frau. Eu não nasci para ser uma Terrae. – May murmurou. – Sabe onde está Elizabeth?

- Na área das pérgulas, dando mais uma daquelas festas de chá que ela adora.

- Eu lembro. – e quase fez uma careta, mas desistiu ao lembrar de todos ao redor delas. Sorriu e acenou para os amigos, que subiam as escadas em direção à ala de hóspedes. – Vou atrás dela. – afirmou.

- Quer que eu vá com você? – a loira se ofereceu.

- Não, Frau. Isso é algo que eu tenho que fazer sozinha. – e saiu.

Wishes

Ela livrou-se do casaco em algum ponto da casa enquanto a atravessava para sair do outro lado, que dava para as adjacências recreativas, esportivas, sociais e pessoais da propriedade.

O Jardim das Pérgulas era talvez a única área que May considerava pertencer a Elizabeth de todo o lugar. Desde muito antes dela nascer, a avó havia reivindicado aquele como sendo seu território.

Ela caminhou ao ar livre, circulando pela área das piscinas, tentando não tremer com o vento frio que anunciava o fim do outono e a chegada do inverno. Queria que Elizabeth a visse e absorvesse o choque antes de chegar lá. Afinal, queria vence-la com justiça e perspicácia. O impacto psicológico era o caminho mais fácil para chegar a seu objetivo.

Viu quando uma das amigas da avó a viu, empalideceu e começou a gaguejar algo para as outras. A pequena vitória fez seu sorriso ampliar-se antes de seu "alvo" avista-la, e deixou-a mais serena... Pensou na ironia da expressão enquanto analisava a mulher. Elizabeth era alta, magra e dona de clássicos traços de beleza, perpetuados ano após ano por cirurgias plásticas e aplicações de produtos químicos produzidos pelas próprias empresas Terrae.

A velhice era, no entanto, inegável. Assim como o brilho de ódio em seus olhos azuis que a fizeram tremer por dentro. "Concentre-se, Mayra, você é uma Terrae, e ela apenas tem o sobrenome por conta do casamento", cantarolou mentalmente para se acalmar.

- Vejam quem apareceu! – uma loura gorducha levantou-se para cumprimenta-la.

- Como vai, Scarlett? – May se viu obrigada a beijar a melhor amiga de sua avó para manter as aparências. – Boa tarde, senhoras. – cumprimentou as outras, que retribuíram o cumprimento.

- Você está um arraso! – Scarlett, vaidosa como sua avó, aprovou imediatamente o visual da garota, e May murmurou um agradecimento.

- Mayra. – sua avó cumprimentou, lacônica.

- Que é isso, vovó? Não vai nem me dar um abraço? Não nos vemos há tantos anos...

O brilho de surpresa nos olhos dela valeu todo o esforço para manter o falso sorriso.

- Vamos, Elizabeth, não aja com comedimento por nossa causa. Sei que também está louca para abraça-la! – Scarlett incentivou, entusiasmada.

May fingiu um olhar esperançoso para a avó, deliciada ao confirmar sua suspeita de que Elizabeth não contara nada de suas atrocidades às amigas. Sua avó levantou-se com relutância e a abraçou, ambas recebendo palmas das outras senhoras, emocionadas com a cena. May aproveitou o barulho para sussurrar no ouvido dela.

- Preste bem atenção no que eu vou dizer agora. – começou, a voz num timbre reptiliano que emprestava mais força às palavras. – Espero que esteja preparada para conhecer o monstro que criou, Elizabeth. Ele está bem aqui, dentro da sua casa, quer dizer, da minha, e está pronto para tornar sua vida um inferno.

Quando soltou-se dela, ganhou um sorriso falsamente encabulado.

- Vou deixa-las se divertirem, agora. Nos vemos mais tarde no jantar, não é, vovó querida?

- Ah... É claro, Mayra. – a voz dela soava tão forte como a de um touro, mas May sabia que a havia abalado.

Suspiros emocionados foram ouvidos enquanto ela dava as costas e seguia para a mansão.

- Primeiro round. Vencedora: eu!

Wishes

Ela encontrou-se com Michele mais tarde. A amiga havia se estabelecido no chalé que seus pais costumavam usar quando queriam privacidade.

- Espero que não se importe de eu ter ficado aqui. – a loura disse, abrindo os braços como se abraçasse a sala, quando ouviu o barulho de chave na fechadura.

- De modo algum. – May tornou a pendurar a chave de ouro no colar, depois que entrou, deixando a porta encostada. – Tenho certeza de que eles gostariam disso. E eu também. – ela sorriu, alegre.

- E aí? Como foi com a Cruela? – Michele perguntou, puxando-a para sentar-se junto a ela no sofá.

- Ela tremeu nas bases. – a morena contou, sorrindo mais ainda. – Acho que ela pensou que eu jamais teria forças para enfrenta-la.

- Mas você tem! – a mais velha a abraçou. – E, aliás, está fabulosa!

May corou ao lembrar do vestido rosa com o qual passara a tarde.

- Aquilo era só para ela. – apertou a barra do vestido indiano que usava nas mãos, um tanto encabulada. – Uma encenação.

- Eu sei. Você costumava ser vaidosa, quando pequena.

- Falou bem: costumava.

- Você está muito mudada. – Michele endureceu o semblante. – Era expansiva, alegre, enchia o ambiente de alegria. Agora parece uma criança medrosa, querendo se esconder de tudo e de todos.

- Eu não teria dito melhor. – Seto concordou, entrando pela porta que não fora trancada.

- O que faz aqui, Kaiba? – May revidou, irritada com o que acontecera entre eles mais cedo. – Pensei que fosse passar a noite trabalhando.

Ele trocou um olhar cúmplice com Michele antes de responder.

- Tem alguém aqui que, no momento, me interessa mais que os negócios.

- Ah... – foi tudo que ela disse, emburrando. Assim que ele sentou-se ao seu lado, no sofá, completou: - Vou deixa-los a sós para que possam se agarrar.

E levantou-se, mas foi puxada de volta para o sofá, caindo sentada no colo dele.

- Eu estou falando de você, sua boba. – ele abraçou a cintura dela para que não pudesse fugir, enquanto ela corava. – Não sei de onde tirou a idéia de que eu estou interessado na senhorita Rommel.

- Ah, não sabe? – ela ironizou, apontando o indicador para o nariz dele. – Talvez seja sua evidente apreciação masculina dela.

Michele riu dos dois, e então falou.

- Querida, eu acho seu namorado muito bonito, mas não estou interessada nele por causa disso.

- Você é mulher, Frau. Um ser inteligente. – e apontou Seto mais uma vez. – Este aqui, quando se trata de mulher, só pensa com a cabeça de baixo.

Seto lançou um olhar cômico para Michele.

- Ela é ciumenta assim mesmo ou é coisa passageira?

- Mayra é muito generosa, mas também é muito protetora com as pessoas que gosta.

- Isso se refere a você ou a mim?

- Aos dois.

- Dá pra vocês pararem de falar de mim como se eu não estivesse aqui?

- Eu vou tomar um banho. – avisou Michele. – Sintam-se à vontade.

E levantou-se, subindo as escadas que levavam ao primeiro andar.

- Como é que eu fui gostar de uma garota de colegial ciumenta?

- Tirando a parte do ciumenta, eu me pergunto a mesma coisa todo dia.

Ele riu e beijou-a rapidamente.

- Desculpe-me pela cena no aeroporto. – ele pediu, surpreendendo-a. – Confesso que queria provoca-la um pouco.

Ela ergueu uma sobrancelha.

- Você anda tão humilde ultimamente... Estou até estranhando.

- Digamos que eu ando te conhecendo melhor ultimamente, e aprendi que às vezes passo dos limites com você. – disse, mexendo no cabelo dela enquanto a encarava no fundo dos olhos.

- Você não me engana, Kaiba... – ela sorriu. – Você tem um ego grande demais pra saber pedir desculpas a alguém.

- Mas foi o que eu acabei de fazer... – ele a lembrou.

- É verdade. – ela se surpreendeu.

- Acho que agora é você quem está me subestimando. – ele respondeu, divertido.

Ela respirou fundo, e como sempre fazia, simplesmente relaxou no colo dele, observando-o atenta e silenciosa.

- Mayra? – ele a chamou de volta ao mundo real. Segurou o rosto dela entre as mãos. – No que está pensando?

- Em nada... – ela murmurou, fechando os olhos ao sentir os dedos dele deslizando suavemente pelo seu rosto. – Estou cansada, é só isso.

Ele continuou a "massagem" no rosto dela enquanto a puxava para mais perto de si, beijando-a na testa.

- Eu imaginei que fosse isso. – ele roçou os lábios nos dela rapidamente, simplesmente porque sentia vontade de fazer aquilo. – Já disse a você que não está sozinha, pequena.

Ela abriu os olhos para encarar aquelas duas pinturas azuis que eram os olhos dele, buscando uma força que ela mesma não tinha. Sentia-se tão fraca e vulnerável depois daquele encontro com sua avó...

- Não chore... – ele murmurou suavemente ao ver os olhos dela se enxerem de lágrimas, e deixou que seus instintos o guiassem. Abraçou-a com delicadeza, voltando a mexer em seus cabelos e encostando a bochecha ali, enquanto usava a outra mão para afagar suas costas. – Não chore...

Ele perguntou-se o que estava fazendo naquele pequeno chalé, sentado naquele sofá com aquela garota no colo. Ele sempre esquecia todo o seu autocontrole quando estava com ela. Na verdade, ele esquecia de si mesmo para se concentrar nela sempre que a garota estava por perto.

- Me desculpe... – ela murmurou, num choramingo, abraçando-o como uma criança que se agarra aos pais. – Me desculpe...

Por algum motivo que, na hora, ele não soube identificar, um arrepio subiu por sua espinha.

- Você não precisa se desculpar por nada, meu bem, nada. – ele respondeu, sentindo um "bolo" no estômago ao vê-la naquele estado. – Não precisa se desculpar. – repetiu, tentando acalma-la.

- O que está acontecendo aqui? – Michele, que descia arrumada para o jantar, parou de ajeitar os cabelos ao ver sua amiga naquele estado. – Mayra?

- Frau! – assim que a viu, May pulou do colo de Seto e correu para abraça-la. – Frau!

- Calma, meu amor! – Michele a abraçou, lançando um olhar preocupado para Seto, que deu de ombros, desalentado, por não saber o que estava acontecendo.

- Frau, não deixe eles me levarem de novo, por favor... – ela agarrou os braços da mais velha com força, o olhar vidrado, como se não estivesse ali. – Ele vai me bater...

- Ninguém vai bater em você, meu amor. – e, compreendendo de repente, Michele levou uma mão à garganta dela. – Meu Deus, você está ardendo em febre!

- Febre? – Seto sussurrou. Como não havia sentido o corpo dela quente?

- Mayra sempre teve saúde fraca quando era pequena. Sempre que viajava com os pais para outro país, caía doente na volta. Eu me lembro que ela estava boazinha num minuto e ardendo no outro... – Michele meneou a cabeça, respirando aliviada. – Eu sei como tratar disso.

Seto ergueu-se.

- Talvez seja o cansaço dela. Revelou pra mim que não dormia há dias... – ele comentou. – E depois o enfrentamento com a avó de quem ela não gosta. Deve ter sido demais para um único dia.

- Isso é mais psicológico do que patológico propriamente dito. – a loura falou, sorrindo. – Por favor, vá avisar aos outros que não iremos jantar. Vou subir com Mayra para o quarto dela e ficarei lá durante a noite.

- Frau... O que você está fazendo aqui? – May voltou a balbuciar, alucinando. – Se ele te achar aqui ele te mata, Frau... Você tem que sair. Eu não posso, mas você pode.

- Ninguém vai matar ninguém. – Michele foi dura ao dizer isso, enquanto pegava uma das mantas que estava sobre o sofá e a envolvia nela. – Vamos, meu anjo, você vai direto pra cama... – começou a conversar com ela enquanto andava para a porta.

- Cama não! – May se soltou, parecendo não reconhecer mais nada ali. Seto suspeitou, então, por causa de outro arrepio que sentiu na espinha, que havia ali uma pitada daqueles dons dela agindo sobre a consciência, nublando-a.

Ele sabia que havia um bom motivo para odiar o Egito Antigo e aquelas visões malucas.

- Para a cama, meu amor... Vou pedir à Glória que faça aquela canja que sua mãe adorava, você vai ver, vai ser tiro e queda.

Michele tentou se aproximar dela, mas a garota recuava.

- Não, não me toque... Você não vai me bater de novo, vai? – ela perguntou, num fio de voz, os olhos castanhos arregalados de medo.

- Eu nunca bateria em você, Lizzy... – Michele adoçou a voz, chamando-a pelo apelido de quando era menor. – Venha comigo, venha. Michele vai te proteger do homem mau.

- Frau! – May a reconheceu, finalmente. – Frau, temos que sair daqui. Ele vai chegar! – murmurou, num tom medroso.

- Claro, meu amor, vamos embora. Sei de um lugar ótimo para nos escondermos, onde ele não vai nos achar.

Seto arregalou os olhos, pensando que Michele também havia enlouquecido, mas então percebeu que ela apenas estava tentando convencer a mente debilitada da garota a ir passivamente com ela.

- Vamos logo! – May a abraçou. – Vamos logo, Frau.

Michele fez um sinal para ele, que concordou com a cabeça, e seguiu com May para dentro da mansão. Seto então perguntou a um dos empregados que apareceu para ajuda-las a subir onde seria realizado o jantar. Seguiu para lá e descobriu que todos já estavam reunidos, a avó da garota de um lado, os amigos do outro.

- Seto? Onde está May-chan? – Haruka perguntou, procurando-a com o olhar. – Pensei que você tivesse ido busca-la.

- Mayra está doente, Haruka. Seu organismo estava debilitado quando embarcou no avião, e a mudança de fusos deve ter piorado a situação. Está com um pouco de febre.

- Vou atrás dela. – Kali se levantou rapidamente, mas Seto pôs uma mão no seu ombro.

- Michele está lá com ela. – disse, fazendo Kali respirar fundo, aliviada. – Pediu que prosseguíssemos ao jantar sem elas.

- Já não era sem tempo. – Elizabeth murmurou, ganhando olhares irritados dos jovens. – Aquela menina sempre teve a saúde fraca.

"E você terminou de destruí-la, partindo sua auto-estima em caquinhos", Seto pensou em responder, irritado, mas controlou-se.

A matrona Terrae estalou os dedos, e logo uma série de pratos foram apresentados aos convidados e servidos de acordo com seu gosto. Seto observou que a mulher comia sem uma mínima mancha de preocupação no rosto, enquanto Kali, do outro lado, lançava olhares preocupados a ele de vez em quando.

Ele agora podia entender porque May a odiava.

Frio como gelo, piscou um olho para Kali antes de levantar-se no meio da refeição.

- Me desculpem, perdi a fome. – alegou, e deu as costas à mesa.

Assim que saiu do salão de jantar, começou a correr em direção às escadas, e subiu-as de dois em dois degraus. Alguma coisa lhe dizia para ir para o quarto da garota, que ele tinha que verr algo. Aqueles arrepios continuavam periodicamente, num ritmo que se assemelhava muito às batidas de um coração. Seus instintos o levaram à porta certa, e ele ficou satisfeito ao ver Michele e uma senhora gorducha, cada uma sentada numa cadeira, ambas ao lado da cama, onde a menina repousava.

- Como ela está?

Michele ia lhe perguntar como voltara tão rápido, mas calou-se diante da preocupação evidente dele.

- Não muito bem. Está lutando contra os antibióticos. Parece até que quer ficar doente... – a loura estranhou.

- Eu vou indo, dona Michele. – a outra mulher falou.

- Muito obrigada, Glória, nós ficamos com ela agora. – Michele respondeu em português, pois era o único idioma que a cozinheira falava. Viu a mulher mais velha pegar a bandeja com um prato de sopa intocado e sair silenciosamente.

- Ela continua delirando? – Seto perguntou, quando ficaram a sós.

- Sim, às vezes fala coisas sem sentido. Continua repetindo que alguém vai bater nela. Quero deixar claro que Serena e Adam jamais levantaram a mão para ela. – ela comentou, defendendo seus amigos.

- Não se preocupe, eu nunca duvidei disso. Mayra já me contou como era sua vida com os pais. – ele a tranqüilizou.

- Eu não entendo do que ela está falando... – Michele estava confusa, e preocupada por causa daquilo.

Seto teve mais um daqueles lampejos de clareza. "É claro, eu tenho que ver o que se passa na cabeça dela!", ele pensou, lembrando-se que quando ela estava sob jugo de seus dons ele tinha acesso aos pensamentos dela. Era por isso que sentia um comichão puxa-lo até aquele quarto.

- Sinto que não vou gostar nada de fazer isso... – murmurou consigo mesmo.

- O quê? – Michele, que estivera observando o rosto da amiga, levantou os olhos para encara-lo. – Do que está falando, Seto?

- Michele, será que eu posso te pedir um favor? É para o bem dela. – disse, indicando a adolescente com um meneio de cabeça.

- Qualquer coisa. – a alemã garantiu.

- Quero que fique parada, calada, não importa quão estranhas as coisas lhe pareçam a partir de agora. Eu tenho tudo sob controle. – murmurou, com uma confiança que não possuía. – Eu vou entrar na mente dela.

- Você o quê?

- Eu vou entrar na mente dela.

- Seto, você endoidou?

- Eu bem que gostaria que fosse isso. – ele murmurou, irônico. – Não dá tempo de explicar, ela está se fechando. – comentou, surpreendendo a si mesmo. Como ele sabia daquilo? "Ah, não importa!" – Prometa-me que não vai tomar nenhuma atitude.

- Kaiba, se você a colocar em perigo...

- Prometa.

Michele o encarou por segundos, respirou fundo e assentiu com a cabeça.

- Ótimo. – ele arregaçou as mangas da blusa que usava, deixando-as na altura dos cotovelos, e respirou fundo. – Aí vamos nós. – e encostou as palmas das mãos uma de cada lado do rosto dela.

Os olhos dela imediatamente se abriram para ele. E estavam azuis.

Wishes

N/A: Ai, ai, ai... Próximo capítulo os cabeludos segredos da May serão revelados. Vocês me aguardem que o tranco vai ser duro!