N/A: Chegamos ao capítulo que explica ABSOLUTAMENTE TUDO sobre o motivo da May ser o que é, ter ido pro Japão e tudo o mais. Aviso de novo, essa fic é uma NC-17, ou seja, contém cenas não-apropriadas para menores de 18 anos, inclusive sexo e agressão física.
Esse é um capítulo forte, no qual eu passei semanas trabalhando para poder transmitir ao leitor exatamente (ou o mais exatamente possível) os sentimentos da May. As páginas deste capítulo contém cenas que não vão agradar NINGUÉM que ler, creiam-me, mas eu tenho meus motivos para fazer o que faço.
Anyway, espero receber uma review de TODOS que lerem este capítulo até o fim, por que eu passei dias sem dormir direito, chorando, pensando e repensando como fazê-lo, e quero ouvir TODAS as opiniões, mesmo que sejam ameaças de morte! XD
Se você nunca me enviou uma review, mas lê a fic e gosta dela, por favor, faça isso pelo menos hoje. Eu respondo TODAS as reviews, que me manda tá de prova.
Se você lê, adora e JÁ MANDA, mande MAIS UMA! XD Sabem que eu gosto de receber reviews, isso é uma maneira de saber o que as pessoas gostam ou não de ler.
Bem, como já tinha dito antes, eu estou em época de vestibular, então não esperem grandes atualizações. Tenho os capítulos 23 e 24 prontos, o 25 em andamento, e NÃO VOU soltar todos ao mesmo tempo para ter o que postar pra vocês durante novembro e, se Osíris me ajudar, dezembro também. Continuarei recebendo e respondendo reviews durante este tempo, mas nada de N/As nas próximas fics, a não ser as que já estão inclusas nos caps desde que eu começo a escrevê-los.
Um enorme beijo para todos,
Maya

- Capítulo Vinte e Dois –

O prato de comida à sua frente era pequeno e nem um pouco bonito de apreciar, mas ela ainda assim comeu com vontade. Depois de passar dois dias no Exílio, com menos que pão e água disponível, na companhia de baratas e aranhas, ela agradeceria até um pedaço de pão mofado, se este fosse seu jantar.

Felizmente, a cozinheira lhe havia destinado algo um pouco melhor. Não que a mulher gostasse de si. Ela não gostava de nenhuma das crianças do orfanato, em sinceridade. Mas às vezes ajudava os que saíam do Exílio, quando estava num bom dia. A menina agradeceu mentalmente que o dia fosse aquele.

O ovo frito e a torrada eram muito compensadores. O diretor, parado ao seu lado, observava-a com a frieza de uma lâmina, e inspirava o mesmo terror também.

- Já é a terceira vez este mês que você vai para o Exílio, Terrae. Será que não aprende nunca?

Os olhos castanhos dela, tão frios quanto os dele, nem mesmo se desviaram do prato. Ela, na verdade, continuou comendo como se nada houvesse sido dito. Ela já conhecia os procedimentos para evitar a raiva do diretor, embora invariavelmente acabasse parando no Exílio. Ele simplesmente tinha algum ressentimento infundado contra ela.

Ou simplesmente estava fazendo valer o dinheiro que sua avó lhe pagava mensalmente para que ela recebesse o pior dos tratamentos.

- Vá para o quarto. Agora. – ele falou suavemente, mas era claramente uma ordem.

Ela ainda não havia terminado de comer. Ainda estava com fome. Mesmo assim, levantou-se e saiu da cozinha, seguida por ele, sem dizer uma única silaba. Ela sabia o quanto ele adorava se sentir superior às crianças, o quanto adorava humilhá-las. Irritava-a o fato de estar deixando que ele fizesse exatamente aquilo.

Mas os dois meses que já havia passado naquele lugar lhe ensinaram a baixar a cabeça e calar a boca se quisesse continuar viva e saudável.

- E isso é para você aprender a se comportar bem! – ele berrou para ela enquanto fechava a porta do quarto com estrondo.

Os outros, que já estavam dormindo, acordaram e, ao verem quem era, simplesmente viraram para o outro lado e voltaram a dormir. Ela já estava acostumada. Não tinha amigos ali e, na verdade, perdera a vontade de fazê-los.

Há muito tempo que ela não sentia outra vontade além de comer, se matar e fugir dali.

Ela já fizera algumas tentativas em cada uma das três opções, e sempre era interrompida na "melhor" parte, como ele fizera enquanto ela comia naquela noite. Ela estava macérrima, uma pilha de pele sobre ossos. A blusa azul-claro que usava estava podre, dos dois dias que passara no cubículo escuro e úmido conhecido como Exílio. Era para lá que as crianças más iam quando faziam malcriação, e ele adorava arranjar uma desculpa para mandá-la para lá.

Ela não sabia o que era pior: as surras que ele lhe dava ou o Exílio. Ela nunca conseguia dormir quando estava presa naquele quartinho. Ali não havia nem mesmo um lençol para que pudesse se proteger dos bichos. Quanto mais uma cama! Era um tipo de sonho que ela tinha: sair dali e ir direto para cama ou, no máximo, desviar do caminho do quarto para comer alguma coisa antes.

Com a barriga semi-satisfeita e o corpo dolorido pela posição incômoda na qual estava há dias, ela se jogou no colchão que lhe era destinado no quarto apinhado de crianças e apagou, exausta de tentar se manter viva quando não havia nenhum motivo para isso.

Wishes

Ela foi tirada de sua cama, no dia seguinte, pelo toque de acordar do orfanato. A punição para quem passasse um segundo além do necessário na cama de manhã cedo era severa, como tudo o mais ali. Além de cansada, porém, ela tinha outro motivo para querer ficar em sua "cama" naquele dia.

Ele vinha busca-la.

Era sempre assim. Todo sábado ele vinha, levava-a para Green Village para que passasse o dia lá, para que os parentes preocupados a vissem. E, à noite...

Chacoalhou a cabeça, querendo espantar os pensamentos funestos. Ela sempre tinha uma pequena esperança de que sua avó mudasse de idéia. Que ela resolvesse ficar com ela, criá-la, deixá-la brincar com Michele nos fins de semana e continuar sua vida como ela fora antes da morte dos pais.

Invariavelmente, porém, sua avó a decepcionava. Mayra Elizabeth Terrae havia sido vendida por sua avó. Vendida para ele. Ele tinha todos os direitos sobre ela. Com certeza fazia uso deles, pensou, enquanto esfregava o corpo para tirar a sujeira do Exílio.

Gostaria de poder lavar sua alma tão facilmente quanto lavava o corpinho pequeno, coberto por pequenas escoriações, tão invisíveis quanto doloridas. O diretor sempre tinha maneiras "limpas" de machucá-la e não deixar nenhuma marca para contar história. À medida que o tempo ia passando, ele ia aprendendo quais partes do seu corpo eram mais macias e suportariam melhor as pancadas. Costumava passar as mãos em todos os lugares, procurando algum em especial, o qual não estivesse muito utilizado ainda, para poder ali aplicar seus punhos... e mais alguma outra coisa.

Murros? Chutes? Na segunda-feira. Havia uma semana inteira para que as marcas se apagassem. Da terça à quinta, ela ia para o Exílio, que às vezes se estendia até a sexta... dependendo do que ele tivesse contado ao diretor, quando a trazia no domingo à noite.

Os parentes, queridos e amistosos, nunca haviam suspeitado. E ela tinha medo demais para confessar. Elizabeth sempre conseguia fazê-los acreditar que estava magrinha e triste ainda de luto pelos pais, e que estava providenciando acompanhamento psicológico para a neta.

Mayra riu, sarcástica, enquanto vestia o conjunto de saia e blusa de linho azul. Ela tinha que se apresentar bem-vestida para "visitar a avó", todos os fins de semana. As crianças dali a odiavam por vê-la sumir durante dois dias, supostamente para passar bons momentos. Eram egoístas demais para se perguntar porque ela sempre voltava um pouco mais mórbida do que na semana anterior.

Todos ali eram marcados pela vida. Nasceram em um lugar ruim, ou simplesmente não eram desejados por suas famílias. Ela havia nascido em berço de ouro, cercada de amor e luxo. Era a antítese de tudo o que eles haviam sentido. E era por isso, também, que a odiavam. Ela riu mais uma vez consigo mesma ao ver os olhares de raiva. Sempre tinha alguém querendo bater nela. Ela realmente devia ser uma menina muito má.

Enquanto descia as escadas, perguntou-se mais uma vez porque a avó a odiava tanto. Sabia que ela e sua mãe nunca haviam gostado uma da outra, mas, afinal, Serena e Mayra eram pessoas diferentes. O fato da garotinha ter previsto o acidente de avião que levara o filho único que Elizabeth tanto amava, porém, só fizera piorar o temperamento de sua avó.

Há oito meses que eles haviam morrido. Nos seis primeiros meses depois do fato, ela ouvira todos os dias o quanto ela e a mãe tinham sido a maldição da vida de Elizabeth Terrae.

- Vocês o tiraram de mim! Ele entrou naquele avião por causa daquela vagabunda da sua mãe. E você, sua bruxinha, matou os dois. Você é nojenta! Uma assassina! Uma assassina!

Então, quando ela lembrava dessas palavras, ela entendia porque estava sofrendo tanto. Sua mãe dizia que pessoas que matam pessoas nunca se dão bem, que Deus as puniria. É lógico que sua mãe nunca pensou que ela fosse se tornar uma assassina. Mas Mayra entendia que não estava excluída do grupo punido por Deus.

Também por isso seu silêncio.

Ela merecia tudo que estava sofrendo. Merecia o ódio das crianças, merecia seu desprezo, merecia os murros. Merecia as mãos que a machucavam, que a violavam, e tudo o mais o que viesse com elas.

Quando alcançou o andar de baixo, ele estava chegando. Encostou-se à parede, desejando não ser notada por mais algum tempo. Uns últimos segundos de lamentação antes do terror de todo fim de semana.

- Senhor Maxwell! – o diretor o cumprimentou, todo sorrisos enquanto aceitava sua mão em um cumprimento. – Veio buscar a fedelha, imagino.

- Sim. Hoje não levarei mais ninguém comigo. – ele disse, e ela ficou desapontada.

Ele, de vez em quando, pegava uma das outras crianças também, e aquilo significava menos sofrimento para ela. Já que ia sozinha, entretanto...

- Ela deve estar chegando. – o diretor falou, satisfeito consigo mesmo. – Passou um tempo em detenção, você sabe, deve estar mais lenta hoje.

O sorriso do senhor Maxwell espelhou o do diretor.

- Ótimo. Talvez eu nem precise amaciá-la hoje. Espero que não tenha deixado marcas nela. Os parentes comeriam meu couro vivo se soubessem.

- E o meu também. Não se esqueça disso. Não tenho motivos para ser descuidado com ela. – e percorreu com os olhos a sala, em busca dela, até que a viu escorada, no cantinho da escada. – Aí está você, Terrae.

"Droga!", ela pensou, quando Maxwell virou-se para ela e percorreu-a com os olhos, a lascívia viva dentro deles. Ele era um demônio, enviado do inferno para torturá-la por ter matado seus pais. Sentiu calafrios percorrerem-na por dentro, mas respirou fundo antes de andar até eles.

- Bom dia, senhor Maxwell.

Ela nunca demonstrava o medo que tinha dele. A não ser quando ele a estava subjugando, aí não havia como esconder. Mas era uma pequena vitória pessoal sua o fato dele se irritar toda vez que ela friamente o cumprimentava no sábado de manhã.

- Como ela está bonita hoje... – e abaixou-se, estendendo-lhe um doce, que ela pegou apenas porque sabia que se não pegasse o fim de semana seria pior. – Sua avó está louca para vê-la.

Ela não falou nada, apenas continuou fitando-o impassível. Ele ergueu-se novamente.

- Estamos atrasados. Vamos. – disse, e virou-se, com um aceno de cabeça para o diretor.

- Nos veremos no domingo à noite, Terrae. – o mesmo falou para ela, com um sorriso escarninho.

Ele e o senhor Maxwell eram companheiros de tortura, por assim dizer. Ela já os pegara trocando idéias sobre como bater ou fazer outras coisas e não deixar marcas. Os dois haviam criado uma ligação através do que faziam a ela, embora não gostassem um do outro verdadeiramente. Era mais como se contassem o que lhe faziam para competir, para saber quem era pior com ela.

Entrou no carro dele e saltou para o banco de trás, apertando o cinto. O filho do senhor Maxwell, de dezesseis anos, estava sentado no banco da frente, e lançou um rápido olhar para ela pelo retrovisor enquanto o pai dava a volta para sentar-se no assento do passageiro.

- Dirija, Malakai. – ele ordenou, e o garoto nada respondeu, apenas rodando a chave na ignição, colocando o carro em primeira marcha e dando partida nele.

Ele era uma das vítimas do próprio pai. O homem era um pedófilo. Mayra não queria nem pensar o que o rapaz passara durante a infância nas mãos dela. Ela só o conhecia há dois meses, e ainda assim nos fins de semana, e não conseguia agüentar o homem. Malakai havia perdido a mãe muito cedo. Enquanto a mulher era viva, o pai não ousava tocá-lo. Depois que ela se foi, então...

Era como a história dela, só que uma história que já se estendia há muito tempo. Ela não tinha dúvidas de que o garoto continuava sofrendo abuso do pai, mesmo já adolescente. Era uma questão de domínio. O rapaz, entretanto, estava começando a se rebelar, pelo brilho raivoso que ela via em seus olhos.

Quando o homem abriu a janela para fumar, esticando a cabeça para fora, ela aproveitou para menear a cabeça em uma negativa desesperada para ele pelo retrovisor. "Por favor, não faça nada! Eu terei que agüentar as conseqüências mais tarde!", pediu com os olhos, e o rapaz desviou seus brilhantes olhos azuis dela. Mayra sentiu algo emperrar em sua garganta, o medo corrompendo-a. Será que ele prosseguiria em sua revolta?

Wishes

Quando chegaram a Green Village, a barriga dela estava roncando. Sua avó ficou tão irritada que a enviou para a cozinha sem uma única palavra, apenas com um apontar de dedos. Mayra agradeceu a Deus o fato dela ter medo do que os Terrae fariam se soubessem que estava sendo maltratada.

Sentiu-se suja por não contar a eles a verdade, mas não tinha coragem. Mesmo sabendo que ela tinha medo dos verdadeiros Terrae, os Terrae de sangue, ela nunca abria a boca para sussurrar a verdade. Estava de tal forma corrompida por eles que nem mesmo isso ela conseguia fazer.

Encontrou Glória na cozinha, que sorriu ao vê-la.

- Oi, menina! É tão bom vê-la. – disse. – Mas está muito magrinha. O que lhe servem nesse seu colégio, afinal? Pão e água?

Elizabeth havia explicado a todos sua ausência durante a semana com o fato de que ela agora estudava num colégio interno ali perto. Ninguém suspeitava. Glória era a única pessoa ligada a sua mãe a quem Elizabeth não odiava, pelo simples fato de ser uma fantástica cozinheira. Havia contratado um tradutor para conseguir se comunicar com a cozinheira.

- Estou com fome, Glória. – ela respondeu em português, pois era a única língua que a morena falava. – Tem algo gostoso pra me dar?

- Mas estamos quase na hora do almoço! – a baiana exclamou.

- Eu estou com fome... – a menina reclamou, e ao ver aqueles imensos olhos castanhos pidões a mulher não resistiu.

- Tome. – cortou uma fatia de bolo de laranja para ela, enquanto colocava ao lado torradas e geléia de goiaba, juntamente com um copo de suco de limão. – Não pode comer mais, ou não vai almoçar direito.

- Obrigada. – a menina murmurou antes de atacar o prato e o copo.

Glória a observou comer com voracidade, como se não visse comida há dias. Se a mãe dela ainda estivesse viva, daria um esporro na velha por deixá-la no colégio onde a pobrezinha nem comia direito. E estava bem mais calada, também. Nem parecia a menina animada que sempre corria para beijá-la e abraçá-la todas as manhãs.

Dona Serena a protegeria da velha. Mas sem Dona Serena ali, ela ficava calada, porque não tinha pra onde ir se perdesse o emprego, principalmente sem saber falar inglês. Suspirou. Gostaria de ser corajosa como a menina Michele. Ela era outra, aliás, que andava sumida há meses. Estava numa faculdade do outro lado do país e nunca ligava.

Ela nunca poderia imaginar que Elizabeth havia colocado a corajosa Michele para fora de suas vidas.

- Obrigada. – Glória despertou ao ouvir o segundo agradecimento da menina. Aquela garotinha era uma jóia que estava se perdendo. Pena que a avó não notava isso...

- Suma daqui antes que eu lhe dê uma surra. – brincou, sorridente.

Mas não havia ali a risada costumeira dela. A menina Mayra saiu calada e taciturna, como sempre voltava desde que começara o colégio interno.

Wishes

Os parentes sempre ficavam encantados com o fato dela segui-los até a porta e pedir que ficassem mais, quando vinham visitá-la. Não podiam imaginar que ela apenas queria adiar o anoitecer, e o novo encontro com Maxwell. Ele nunca ficava ali durante as visitas, mas sempre dava um jeito de aparecer depois do jantar.

Quando ela não conseguiu mais adiar, acompanhou a avó até a sala de jantar, onde comeram num mórbido silêncio. Os empregados da casa, que detestavam a mulher, ficavam incomodados com cada minuto que tinham que passar em sua companhia, principalmente depois da morte do filho e da nora.

Mesmo que a comida de Glória fosse deliciosa, a menina resolveu comer pouco. Quase certamente levaria socos na barriga naquela noite. Uma vez ela vomitara o jantar em cima dele, depois de uma seqüência de socos, e se arrependera amargamente durante o resto daquela interminável noite. Era melhor se prevenir.

Com um timing perfeito, ele apareceu assim que os criados levaram os pratos sujos.

Ele e sua avó se encaminharam para perto da lareira acesa, enquanto Mayra jogava uma partida de xadrez com Malakai. Eles agiam friamente um com o outro, pois se o pai dele descobrisse a tímida amizade que havia entre eles, os dois jamais se veriam outra vez. Precisavam um do outro para agüentar aqueles fins de semana loucos.

Era tudo uma fachada para enganar os empregados. Eles achavam que, na verdade, Elizabeth estava tendo um caso com o advogado que havia conseguido a guarda de Mayra para ela. Por isso não estranhavam que o homem passasse os fins de semana ali.

- Ele está bravo. – Malakai avisou entre uma jogada e outra, o rosto coberto pelo braço que movia as peças do jogo para que seu pai não o visse mover os lábios.

- Percebi. Você brigou com ele? – ela perguntou num fio de voz. Sua arma para se esconder eram os longos cabelos negros.

- Pode-se dizer que sim. – ele entristeceu-se ao ouvir o gemido baixinho que ela soltou, enquanto movia seu bispo para o lugar que a torre dela ocupava anteriormente, capturando-a. – Escute, não fique brava comigo. Descobri uma coisa importante ontem.

Ela ergueu a cabeça, os olhos arregalados, mas então lembrou-se dos dois espectadores do outro lado do cômodo, que ficavam atentos a tudo que eles faziam.

Baixou a cabeça, tentando controlar o coração que parecia querer saltar pela boca.

- O que você descobriu?

- Tem alguém vindo. Alguém de fora do país. Uma mulher. – ele sussurrou, ainda mais cuidadoso depois do pequeno deslize dela. – Uma parente sua. Não sei o nome. Malakai ficou puto ontem quando conversava com sua avó no telefone. Eu ouvi tudo pela extensão do meu quarto.

Ele tinha o mesmo nome que o pai. Na verdade, era Malakai Maxwell III, neto do grande Malakai Maxwell, fundador da empresa de advocacia da família. Por isso ela o apelidara de Kai, porque não gostava do nome do pai dele.

Ele havia sorrido, quando, numa das noites em que ela e Elizabeth dormiram na casa deles, ela lhe confidenciara aquilo, enquanto eles se encontravam de madrugada no quarto dele. Eram como dois companheiros de guerra conspirando à procura da vitória.

- O que isso tem a ver conosco, Kai? – ela perguntou baixinho, os olhos adquirindo um brilho novo, esperançoso.

- Eles têm medo dela, Lizzy. – ele respondeu. – Parece que ela é da família da sua mãe. E que sabia que ela não gostava da sua avó. Deixou claro, pelo que eu entendi da conversa deles, que iria averiguar se você estava mesmo em boas mãos.

Ela respirou fundo, a esperança morrendo.

- O que uma pessoa que nem mora nesse país poderá fazer por nós? Além do mais, você nem sabe o nome dela. – ela comentou, "comendo" um dos peões dele com sua rainha. – Provavelmente eu não a conheço. Deve estar apenas querendo tirar um peso da consciência. Virá aqui e ignorará qualquer coisa que encontre de errado.

- Não penso assim. – ele comeu sua dama com o outro peão. – Ela estava tensa no telefone. – e lançou um olhar disfarçado para Elizabeth. – Algo me diz que essa mulher não vem pra cá apenas pra satisfazer uma curiosidade, ou tirar um peso da consciência. Eu vou descobrir mais sobre ela, e então a encontrarei e contarei tudo.

O cavalo em sua mão caiu no chão, provocando ruído. Ela respirou fundo, aparentando uma falsa calmaria, enquanto se abaixava para pegar a peça. Maxwell e Elizabeth os olhavam, com olhares suspeitos, mas logo voltaram às suas conversas.

- Isso é muito arriscado, Kai. – foi tudo o que disse, sentindo o coração doer no peito.

- É a nossa única chance. – ele replicou. – Eu não posso com ele sozinho. Mas se essa mulher for realmente tudo o que eles dizem, nós temos uma chance de acabar com essa nojeira. Ou vai me dizer que quer continuar sendo usada pelo meu pai e aquele filho da puta que dirige o orfanato?

Wishes

Ela ainda estava pensando na conversa, enquanto acompanhava o pai de Kai para o quarto. Chegara a hora mais temida do fim de semana. Ela respirou fundo, tentando reunir serenidade para enfrentar o problema, mas ao lembrar-se do fim de semana anterior qualquer paz de espírito que pudesse existir em seu ser se evaporou.

Maxwell abriu a porta do quarto que normalmente ocupava, satisfeito. Ele estava afim de tirar um bom proveito daquela menina naquela noite. Ela fora parte do acordo que fizera com a senhora Terrae. A mulher não tivera nenhum escrúpulo em vender-lhe a menina. Apenas dissera que ele teria tudo o que queria se lhe desse o controle da fortuna da neta.

E ele conseguira aquilo, não fora? E agora se divertia com a pequena todos os fins de semana. Ela tinha quase doze anos, mas era pequena para a idade, e tinha aqueles olhos infantis e ingênuos. Aquele conjunto apenas o deixava mais excitado.

- Deite. – ordenou, a língua escapando para fora da boca pela força do desejo que sentia.

Ela fez o que lhe foi mandado, resignada. Aquela pose de indiferente logo ruiria, como sempre ruía quando ele começava a tocá-la. Alisou seu corpo primeiro por cima da roupa, só para perturbá-la.

- O que a garota bonita do Max vai querer hoje à noite? Sorvete ou banana split?

A alusão aos doces era uma forma de falar de determinadas partes de seu corpo. Ela não desviou os olhos do membro dele, que ficou visível assim que ele arriou as calças. Ele nunca usava uma cueca por baixo. Ela engoliu em seco ao ver o quão rijo ele estava naquela noite, e fechou os olhos, nauseada, ao lembrar da última vez que tivera que colocar aquilo na boca.

- Ah, você é uma safadinha, não é? – ele disse, subindo por cima dela. – Resolveu ficar com a banana.

Quando ela abriu os olhos, ele encontrou neles aquele ódio velado que só conseguia deixa-lo mais excitado.

- Você vai fazer por bem ou por mal, menina? – perguntou perto do ouvido dela, enquanto sua mão se insinuava entre as pernas dela, procurando um ponto em especial.

Ela sabia que não haveria escolha, e que se não fizesse ele acabaria espancando-a também. Entretanto, o olhar de ódio continuava em seu rosto, e ela fechou as pernas quando a mão dele se insinuou para mais perto de sua calcinha.

Era um instinto que ela simplesmente não conseguia controlar.

E, ao mesmo tempo que sentia a dor de lembrar que sua avó era a responsável por aquilo, outra dor a atingiu: a do punho dele começando uma longa série de socos em seu rosto.

Wishes

Quando ela voltou ao orfanato, no dia seguinte, não teve tempo de falar mais uma vez com Kai para impedi-lo de continuar com aquele plano maluco. Ela já havia sofrido o bastante no dia anterior pra saber que preferia deixar as coisas como estavam. Aquilo só iria piorar as coisas.

O diretor levou umas duas horas com ela, obrigando-a a se contorcer e mover embaixo dele para não morrer por não conseguir respirar. O homem era enorme de gordo e, por Deus, sempre doía quando ele começava com suas estocadas.

Ela seguiu de pernas bambas para o quarto, entrando nele sem fazer barulho. Não queria ser linchada pelos colegas se os acordasse. Ela já tivera demais para um dia. Respirou fundo, sorrindo suavemente ao lembrar que no dia seguinte os outros teriam aulas, e ela ficaria sozinha no orfanato quase o dia todo. O que não deixava de ser ruim mas, pelo menos, haveria menos gente com ódio dela por perto.

Ela não freqüentava mais a escola desde que chegara ali. Na verdade, ela não saía do orfanato a não ser que fosse para a casa de Maxwell ou Green Village. Ninguém podia vê-la, afinal, com a morte dos pais as fotos dela e da avó haviam sido publicadas em todos os jornais e revistas circulantes no país. Sua avó não podia correr o risco de alguém reconhece-la na rua. Ou de um dos casais que vinham adotar crianças a encontrasse, então ela normalmente passava muito tempo sozinha no sótão da casa, na companhia de velhos livros deixados ali por antigos habitantes.

Ela limpava-os e os lia, pela falta do que fazer. Adorava ler, assim como adorava música, pintura, teatro... Seus pais, como partes daquele mundo artístico, haviam criado na filha o gosto por todo aquele mundo. Ela sabia cantar, tocar vários instrumentos, atuar um pouco e ler com uma dicção quase perfeita, digna de uma Terrae.

Ela, entretanto, nunca quis seguir a carreira da mãe ou virar pintora como o pai. Estava mais para um hobby do que uma vocação profissional. Seu pai sempre quisera grava-la cantando músicas, mas ela recusou. Acabou decepcionando-o duplamente, quando ele percebeu que ela não era tão boa pintora assim. Ela sabia desenhar muito bem, mas quando largava o lápis e pegava os pincéis...

Ela chacoalhou a cabeça, sem querer lembrar daquilo, ou acabaria chorando de novo.

Acomodou o corpo dolorido no fino colchão que lhe servia de cama, enrolou-se no lençol e ficou observando as estrelas através da janela.

Será que aquela mulher de outro país os ajudaria?

Wishes

Ela descobriu, oito meses depois, a resposta. Estava levantando, depois de levar uma surra de Kelly, uma das garotas do orfanato, quando sentiu mais do que viu que o círculo de crianças ao seu redor se dispersava. Uma mão ficou à sua vista, estendida para ajuda-la.

- Consegue se levantar?

Ela não aceitou a mão estendida, pois aprendera a desconfiar de tudo e de todos, mesmo de alguém com uma voz tão bonita e carinhosa. Ergueu-se sozinha, tentando limpar o rosto com as mãos cobertas de lama e sujando-o mais ainda no processo. Endireitou as costas e fitou a mulher acocorada a sua frente.

- Bom dia.

A mulher arregalou os olhos ao ouvi-la cumprimenta-la com tanta cordialidade.

- Bom dia, garota. – sorriu, alegre. – Sabe quem eu sou?

A menina negou com um agitar da cabeça, os cachinhos negros balançando com o movimento. A mulher a achou adorável, mesmo suja de terra.

- Sou Michiko Lima. Ou Marchant, depois que me casei. – respondeu. – Sou prima da sua mãe.

A menina pulou para trás, assustada.

- Você o quê?

- Sou prima da sua mãe. – a oriental repetiu, satisfeita. – Vim busca-la.

- Me buscar? – ela recuou mais. – Pra onde vai me levar?

- Para um lugar onde ninguém vai machucar você. – ela respondeu, séria.

- Não sei do que está falando.

Ela acabara de ver o diretor parado pouco atrás delas, e mais uma vez o medo engasgou sua garganta.

- Venha comigo, Mayra. Eu responderei todas as suas perguntas. – ela estendeu a mão.

- Vá com ela, Terrae. – o diretor afirmou, para apressá-las.

- Mas...

- Já disse pra ir. – ele respondeu, agora menos amigável, e recuou ao ver o olhar da mulher. – Você não mora mais aqui. Você agora é dela.

Sem outra alternativa, a menina seguiu a mulher, que foi para um táxi. O homem que o dirigia fez um esgar para a garota, pensando na sujeira que ela faria no seu limpinho carro, mas calou a boca antes de poder falar qualquer coisa. A japonesa estava lhe pagando bem demais.

- Deixe-me dizer-lhe uma coisa. – a mulher disse, assim que o carro começou a se mover, e olhou fundo nos olhos da menina. – Você é somente de você mesma. Jamais será propriedade de ninguém. Eu lhe prometo isso.

E ela veio a descobrir, com o passar do tempo, que Michiko Marchant não quebrava suas promessas.