- Capítulo Vinte e Três –

N/A: Certo, esqueçam a vontade de me matar um pouquinho, senão vão ficar sem o fim da fic. XD

Ela acordou no dia seguinte com o corpo todo dolorido, mas a mente estava limpa. Incrivelmente limpa como não estava há muito tempo. Suas emoções eram tranqüilas, alegres até. E, no entanto, a última coisa da qual era lembrava era de estar chorando na frente do Kaiba antes de perder a consciência.

Encontrou Michele dormindo desconfortável em uma poltrona que arrastara até um dos lados da cama. Sorriu ao perceber que a mulher passara a noite toda ao seu lado, embora não gostasse de ter despertado tal proporção de preocupação. Hesitou um pouco antes de acordá-la, mas não era justo deixar a pobrezinha dormindo daquele jeito por mais tempo.

- Frau! – chamou, enquanto a sacudia suavemente. – Frau, acorde.

A loura respirou fundo antes de abrir os olhos e se erguer aos poucos, soltando pequenos gemidos por conta dos músculos maltratados durante a noite.

- Lizzy! – ela sorriu, os olhos verdes luminosos sobressaindo no meio de tantos cachos dourados. – Você está bem? – perguntou, levando a mão à testa dela para checar sua temperatura.

- Há tempos não me sinto tão bem. – respondeu, com um pequeno sorriso. – O que houve? Não me lembro de muita coisa, apenas de estar chorando no chalé... E agora acordei aqui.

- Você teve uma febre, meu anjo. – a loira acariciou-lhe o rosto, feliz ao ver que a menina não lembrava dos pesadelos que tivera no dia anterior. – Como acontecia quando era pequena e viajava com seus pais.

- Ah... – ela sorriu ao lembrar daquilo. – Que bom que você está de volta, então.

Michele sorriu e sentou-se ao lado dela na cama, abraçando-a.

- Deus, Mayra, você não sabe como senti sua falta! – ela disse, abraçando-a mais forte.

- Eu também, Frau! – May retribuiu o abraço, feliz. – Senti muito a falta da minha irmã mais velha.

Michele sorriu, e sem motivo aparente seus olhos se encheram de lágrimas.

- Desculpe por não ter estado aqui, meu amor. Depois que seus pais morreram, quero dizer.

- Oh, Frau... Esqueça isso! – disse, limpando as lágrimas do rosto da alemã. – Tia Michiko me contou que a Cruela te impediu de voltar.

- Eu deveria ter tentado mais... Sua mãe ficaria desapontada comigo! – ela insistiu, e May a abraçou ainda mais forte, acariciando suas costas.

- Michele Rommel... Sua babaca! – xingou, rindo em seguida. – Você foi adotada pelos meus pais tantos anos antes de eu nascer que duvido que eles possam ter se desapontado por sua causa. Eles te amavam, assim como eu também amo você. E tenho certeza de que eles sabem que você fez tudo que pôde na época. De qualquer modo, Cruela é um inimigo formidável.

- E mais uma vez você vai ter que lutar com ela sozinha... – Michele segurou as mãos da "irmã mais nova", apertando-as entre as suas. – Eu queria tanto te proteger dela...

- Estava escrito nas estrelas que eu teria de enfrentá-la. Como o Harry Potter tem que enfrentar o Voldemort, ou Darth Vader e Anakin Skywalker, ou Batman e Curinga, ou...

- Já entendi, já entendi! – a loura riu, prazerosa. – E como todos eles, você vai derrotar sua arquiinimiga e se tornará a heroína do mundo!

- Menos, Frau, menos! – May riu, feliz de ver que a irmã voltava ao normal. – Agora vá para o seu quarto se arrumar, a não ser que queira ser comparada a um leão.

A loura se ergueu num rompante e, procurando o espelho mais próximo, postou-se diante dele. O grito que veio em seguida apenas fez May gargalhar, pois se ela fora vaidosa um dia, havia sido pela influência que Michele exercia sobre ela.

- Lizzy, meu amor, se você estiver boa mesmo, eu vou para o meu quarto me arrumar. Estou parecendo um espantalho! – exclamou, num tom horrorizado que divertiu mais ainda a morena.

- Vá em frente, Frau. Vou descer pra comer alguma coisa.

- Cuidado, hein! Desça as escadas devagar. – a alemã recomendou, enquanto saía correndo do quarto.

May a achou tão parecida com sua mãe naquele momento! Oh, que saudades ela sentia...

Michele Rommel estava num orfanato numa das cidades da Alemanha onde sua mãe fazia uma turnê. Mais por intuição do que por caridade, Serena Terrae resolveu visitar justamente aquele orfanato, e desde que pusera os olhos na criancinha loura com olhos verdes angelicais, apaixonou-se por ela. Quando voltou ao Brasil, trazia consigo a garotinha.

Seu pai, Adam, também amava Michele como se fosse sua filha. Quando a garota ficou adolescente, entretanto, e May já havia nascido, ela pediu para reassumir o nome que usava no orfanato – Rommel – ao invés do Terrae que estava em sua certidão de adoção, e recusou qualquer parte na herança que o jovem casal queria dividir entre as filhas.

Eles insistiram, entretanto, em pagar integralmente sua faculdade, e assim fizeram. Por sorte o dinheiro estava depositado em uma conta em seu nome, e Elizabeth não pôde resgatá-lo, de modo que a garota pôde concluir sua faculdade com tranqüilidade. May ficou feliz ao saber notícias da irmã que não via há mais de um ano, dadas por Michiko pouco depois de chegarem ao Japão.

A tia, e agora responsável legal, não quis que elas se encontrassem pessoalmente, pois pressentia que May ainda não havia se curado de todos os maus-tratos que sofrera naquele país abominável, e não queria expô-la a nada que pudesse prejudicar ou retroceder seu progresso. Mesmo a adorável alemã. Qualquer coisa que lembrasse remotamente Elizabeth poderia prejudica-la.

Mas elas haviam se falado por telefone dúzias de vezes desde então. Assim como ela falava com Kai. Com o tempo, sua vida sedimentou-se no Japão, e ela parou de desejar rever os dois companheiros de sofrimento. Sentia-se egoísta, agora, e agradecia ao bom Deus pela oportunidade de reencontrar tantos amigos, e vê-los todos bem.

Com esse espírito de tranqüilidade, tomou um banho rápido, vestiu saia jeans e camiseta branca, sem se preocupar muito com o visual, e desceu descalça as escadas, apenas a corrente em forma de chave em seu pescoço. Os cabelos estavam molhados, escorrendo em pequenas ondas que logo dariam lugar aos cachos rebeldes e volumosos, quando secassem.

Rumou direto para a cozinha, pensando na cara de Glória quando a visse. A caminho, checou as horas, e surpreendeu-se por ser ainda tão cedo. Mal chegavam às seis horas e meia da manhã. Por isso a casa ainda dormia.

Com Glória, entretanto, sempre se podia contar. A mulher acordava como se fosse um galo, logo após o amanhecer, e dormia o mais cedo que conseguisse. May avistou o corpo robusto e o avental branquinho da mulher antes mesmo de entrar na cozinha.

- Bom dia! – saudou em português, alegre, segundos antes de atravessar a porta, e depois estacou. Seto estava parado ao lado da cozinheira, com uma clara expressão de desistência e irritação. – Bom dia, Kaiba-san! – cumprimentou, em japonês, lembrando de sua educação.

Ele a fitou, de olhos arregalados, coisa que ela estranhou, mas logo voltou ao ar carrancudo de antes.

- Bom dia, Terrae. – cumprimentou. – Por acaso sua cozinheira fala alguma língua que eu conheça?

- Só português. – e olhou ao redor. – O tradutor ainda não acordou?

- Não o estou vendo. Ele é invisível? – o rapaz debochou, e ela viu que ele tinha olheiras fundas e escuras que não estavam ali no dia anterior.

- Está com algum problema? – perguntou, preocupada.

- Claro! Como você quer que minha mente funcione antes de tomar duas xícaras de café puro e pelando de quente? – ele resmungou, e ela sorriu.

- Ah, é só isso? – riu um pouco e virou-se para a cozinheira. – Glória, meu amor, o homem está querendo um cafezinho daquele que papai adorava.

- Era isso que ele estava tentando me dizer? – perguntou ela, desfazendo a expressão confusa de antes. – Credo, pra quê gesticulou tanto? – deu de ombros e virou-se para a máquina de coar café.

May riu, uma grande gargalhada, mas parou ao ver que ele mais uma vez a encarava, sério e tenso.

- Não quer sentar? – ofereceu as cadeiras da mesa que os funcionários usavam pra fazer suas refeições, ali mesmo na copa. – O café-da-manhã só vai sair em umas duas horas. – disse, tentando lembrar dos horários que tinha que cumprir quando morava ali, por exigência de Elizabeth, claro. – Mas se quiser eu peço pra Glória preparar alguma coisa pra você.

O rapaz se jogou numa das cadeiras que ela oferecera quando a viu andando em sua direção, mas ela passou reto por ele e foi até a geladeira, onde achou um copo de leite achocolatado pronto para ser tomado.

- Não acredito que você lembrou, Glória! – exclamou, erguendo o copo para que a brasileira visse do que estava falando.

Ela riu.

- Claro que eu lembro, pequena Lizzy! – a mulher respondeu, como se houvesse escutado uma ofensa. – Você sempre gostou do meu achocolatado.

- Você é a melhor, Glorinha, a melhor! – exclamou, salpicando um beijo na bochecha da mulher, que corou e voltou ao coador de café.

Seto a viu sentar-se exatamente na cadeira à sua frente, do outro lado da mesa.

- Então você está se sentindo melhor? – perguntou, cauteloso.

A garota estava tomando o leite, mas acenou com a cabeça numa afirmativa, corando suavemente. Limpou o bigodinho de leite que ficara em seu rosto e respondeu, a voz falhando um pouco.

- Desculpe-me por ter caído no choro em cima de você. Se é que não fiz coisa pior, já que não lembro de mais nada.

- Você esqueceu tudo? – ele perguntou, surpreso.

Ela assentiu, os cabelos molhados agitando-se.

- Era pra lembrar de alguma coisa? – perguntou, sentindo o rubor subir mais uma vez.

- Absolutamente nada. – ele respondeu, convicto. – O que importa é que você está bem.

Ela sorriu, alegre por ver que ele se preocupava com seu bem-estar.

- Não vou faltar ao trabalho hoje não, viu? – avisou, rindo.

Ele reprimiu um sorriso, mais uma vez tenso.

- Pode ficar em casa, se quiser.

- Não, Kaiba. – ela negou, agora mais séria. – Eu estou bem, de verdade. Passar o dia aqui dentro não vai ser bom. Além do mais, estou empolgada com esse novo projeto. – disse, e seus olhos adquiriram aquele brilho que ele conhecia tão bem.

- Bom saber. – ele respondeu. – Ah, como eu agradeço? – perguntou, ao ver que a cozinheira se dirigia a ele com um bule de café fumegante e uma xícara.

- Diga obrigado. – respondeu, falando o agradecimento em português.

- Obrrigaddo. – ele balbuciou para a cozinheira, que sorriu, satisfeita, e voltou para o fogão, onde preparava algo que começava a cheirar muito bem.

- Saiu-se muito bem. – May bateu palmas para incentiva-lo, mas nem assim conseguiu arrancar dele um sorriso. Nem mesmo um daqueles safados que ele tanto gostava de lançar pra cima dela.

Ela o estava achando muito estranho. Observou-o beber um pouco do café, e o flagrou lançando-lhe um rápido olhar, mas assim que a viu observando-o ele desviou os olhos. Achando que o problema estava em si, ela resolveu fazer um teste. Pegou seu copo de achocolatado e ergueu-se, indo sentar numa das cadeiras que ficavam do lado da dele.

No mesmo instante ele arrastou um pouco a cadeira para o outro lado.

- Kaiba, o que houve? – ela perguntou, subitamente irritada.

- O quê? – ele ergueu a cabeça, fitando-a surpreso.

- Qual é o seu problema comigo? – questionou, erguendo-se da cadeira.

- Não tenho nenhum problema com você! – ele respondeu, sua calma se evaporando.

- Então porque está fugindo de mim?

- Do que está falando, Terrae? – ele perguntou, confuso.

- Do que eu estou falando? Abra os olhos, Kaiba! – ela berrou, explodindo pela primeira vez na frente dele. – Até ontem você estava me cantando como um cão no cio, louco pra conseguir me dobrar, e hoje fica fugindo, saltando pros lados e arrastando cadeiras toda vez que me aproximo de você!

Ele arregalou os olhos, surpreso com todo aquele ataque de fúria.

- Que você acha que eu sou? Um brinquedinho que você usa quando quer e depois joga fora, deixa de lado? Eu não sou seu brinquedinho, está me ouvindo? – ela berrou, abraçando a si mesma em seguida. – Não sou brinquedo de ninguém para que me tratem desse jeito!

Os dois se fitaram, ela com fúria faiscando nas orbes castanhas, ele com completa surpresa e palidez no rosto cansado. Ele não entendia como ou porquê haviam chegado a esse ponto, mas lembrava muito bem de tudo que havia presenciado na noite anterior.

- Desculpe, Terrae, eu tenho que trabalhar.

Disse, apressado, e saiu, nem mesmo terminando de tomar a primeira xícara. Ela ficou encarando a porta por onde ele saiu, atônita, e uma estranha sensação de abandono a envolveu, tirando todo o brilho da manhã que nascia ao seu redor. Sentiu uma mão em seu ombro e virou-se, encarando a cozinheira, que a observava preocupada.

- Está tudo bem, pequena Lizzy? – ela perguntou, também surpresa com a atitude da menina.

May respirou fundo e abriu um pequeno sorriso.

- Não se preocupe, Glória. Eu estou apenas cansada, eu acho. – respondeu, e a cozinheira deu de ombros, voltando aos seus afazeres.

Quando Michele desceu, linda como uma das pinturas de seu pai, ela tratou de esquecer o evento.

Wishes

Trocou de roupa quando chegou a hora de irem para o laboratório, tanto por causa de sua avó, que estava para acordar, quanto por causa do novo ambiente. Ela não era nova-iorquina de nascença, mas morara quase uma década ali, e sabia como era importante a aparência para as pessoas de Nova York.

Os convidados seguiram para uma limusine das empresas Kaiba que os levaria por um tour pela cidade, enquanto os outros seguiam para o trabalho. O laboratório ianque era tão bem equipado quanto o do Japão, e logo eles se enturmaram com os americanos.

O chefe do laboratório lhes explicou que eles já tinham o projeto do jogo inteiro, e que eles apenas fariam algumas modificações no original para criar uma versão especial que seria distribuída aos convidados do senhor Kaiba, na festa que ele daria um dia antes do torneio mundial de duelos, do qual ele e Yugi participariam com uma pequena luta de abertura.

Eles conversaram um pouco entre si, combinando inserir ali algumas idéias particulares do quinteto, que deixariam o jogo ainda mais incrível.

- Ei, gente! Tive uma idéia! – Takeru falou, deixando-os curiosos. – Sei que o plano era trabalharmos esses dez dias somente em meio período, para passearmos na parte da noite, mas que tal dar duro aqui durante mais horas todo dia, na metade desses dias? Daí ficamos com cinco dias livres pra curtir respeitosamente a Grande Maçã!

- Grande T.K.! – Hiroki o cumprimentou com um aceno de cabeça e um tapinha no ombro. – Estou completamente de acordo!

- Nós também! – Michael falou, apontando a si mesmo e a Haruka.

Os quatro viraram para May, a única que faltava dizer se concordava ou não. Ela engoliu seco. Teria que sair da KC todo dia direto para o conglomerado Terrae, a fim de tomar parte nos negócios da família, afinal, estava de volta aos Estados Unidos, mesmo que por pouco tempo. Não podia relaxar. Ainda tinha que organizar festas, orientar os empregados de Green Village para preparar os chalés para que os membros da família fossem acomodados, entre tantas outras coisas.

Acabaria pirando, mas não conseguia negar nada aos seus amigos.

- Eu estou dentro! – ela estendeu a mão, e todos os amigos a espalmaram, com sorrisos satisfeitos.

Ela pensou num único e valioso benefício daquele acordo: poderia ficar muito tempo longe do Kaiba, alegando cansaço ou um compromisso. Dando de ombros, sem querer pensar nele, pois lhe voltava à cabeça a cena do início da manhã, voltou aos seus afazeres.

Aquela seria a melhor versão especial que as empresas Kaiba produziriam.

Wishes

O resto do dia passou rápido, e ela quase não o sentiu. Kaiba não deu as caras no laboratório, coisa pela qual ela ficou grata, pois a deixou mais tranqüila para trabalhar. O fato de ter uma equipe inteira de especialistas em holografia a seu dispor ajudou também. Era estranho estar no comando de gente mais velha que ela, o que a fazia corar e esbarrar em coisas mais vezes do que o normal, mas eles pareciam haver simpatizado com ela.

Quando se despediu dos amigos, no fim da tarde, eles já haviam adiantado uma boa parte do projeto.

- Se continuarmos neste ritmo podemos terminar ainda mais cedo! – animou-se Takeru. – Oi, Michele! – saudou a loira, que se ergueu do banco onde estava sentada e se aproximou deles.

- Oi, gente! – ela cumprimentou, detendo os olhos na irmã. – Pronta?

A morena deu de ombros.

- Se eu estiver você me deixa me esconder debaixo da cama?

Ela riu.

- Não, senhorita! – e a puxou.

- Aonde vocês vão? – Haruka perguntou curiosa.

- À Corporação Terrae. – esclareceu Michele, enquanto puxava a irmã mais nova e seguia para a saída. – Esta fugitivazinha passou muito tempo fora. Tem que se inteirar dos assuntos da empresa.

May resolveu não mencionar que entrava em contato com tio Edward, o atual presidente da corporação e primo de seu pai, todo mês. Além do mais, fazia no CISJ outro curso, além de computação gráfica: administração de empresas com especialização no ramo da indústria da beleza. Isso tornava o conhecimento das empresas da família parte do seu currículo educativo. Os professores adoravam saber que ela já era dona de um conglomerado pra lá de grande no ramo de produtos de beleza e moda. Ela não precisava estagiar em outro lugar, portanto.

- Nos vemos mais tarde! – acenou para os amigos antes de entrar na limusine com o logotipo das empresas Terrae.

Michele, sentada ao seu lado, abriu uma agenda. Ela comandava o departamento de relações públicas da corporação, mas estava dando uma de secretária para a irmã mais nova, a herdeira de tudo. May sorriu enquanto ouvia as explicações do que elas teriam de fazer durante a semana.

- Veja bem, eu instruí o pessoal da casa para ir acomodando os parentes à medida que fossem chegando. Os chalés começaram a ser preparados hoje pela manhã. O estoque de comida está cheio, os geradores prontos a ser acionado caso haja uma pane no sistema de energia da residência, contratamos alguns trabalhadores temporários...

Os Terrae faziam, todo ano, um mega-encontro em Green Village, o "Quartel General" da família. Ela conhecia a rotina. Como a família era imensamente grande, espalhada por todo o mundo, os chalés começaram a ser construídos para que fosse possível acomodar todos.

Como ela avisara ao tio Edward que estaria no país durante as próximas duas semanas, ele resolvera antecipar o encontro e aproveitar sua presença. Ela não tinha certeza de que queria rever todos eles depois de tantos anos fora. Seria estranho. Mas então se lembrou de quão unidos os Terrae eram, e pensou que pelo menos Elizabeth não poderia ficar lhe enchendo a paciência enquanto a propriedade estivesse entupida de gente.

Quando a limusine parou, estavam em frente a um prédio muito parecido com o da Kaiba Corp do Japão. Há anos ela não pisava ali. Era meio estranho. Quando avistou seu tio parado na entrada, esperando-a, porém, ela saltou do carro direto para os braços dele.

- Madonna mia! – ele exclamou em italiano, afinal, os Terrae haviam se originado na Itália, e portanto todos eles aprendiam a falar italiano. – Você está linda, Elizabeth!

Os parentes sempre sentiram dificuldade em pronunciar seu primeiro nome, oriundo de uma tribo indígena brasileira. Embora ela detestasse o nome que recebera por causa da avó, não se importava quando os parentes a chamavam assim. Ela os amava, descobriu, mesmo com todos aqueles anos de separação.

- Tio Ed! – ela sorriu, beijando as bochechas do homem. – É tão bom vê-lo!

- Menina... – o tio enrubesceu, envergonhado, e em seguida a abraçou. – Annika vai adorar ver que você ficou linda como sua mãe.

- Tia Annika está aqui? – ela olhou em volta, e encontrou a tia logo atrás.

Soltou-se do tio para correr e abraça-la, sentindo uma alegria imensa ao ver aquelas pessoas tão queridas.

- Lizzy, cara mia. – a tia abraçou-a, lágrimas escorrendo de seus olhos. – Sentimos muito por você ter passado por tudo que passou nas mãos daquela víbora. Se nós houvéssemos sequer suspeitado...

O ânimo dela se arrefeceu um pouco ao ser lembrada daquilo.

- Não importa mais. – ela disse, enquanto Edward e Michele se aproximavam. – Ela não pode mais me fazer mal.

- Deveria nos deixar jogar a víbora no olho da rua. – seu tio disse sério, quando se aproximou. – Ela não merece tudo o que você dá a ela.

- Eu sei tio... Ela pode ser horrível, mas ainda é mãe do meu pai. Eu sei que ele não gostaria de vê-la ter um fim destes, apesar de tudo.

- Você é quem sabe. Se mudar de idéia, por favor, nos avise. – avisou Annika, rindo, o que diluiu a tensão que se instalara entre os quatro.

- Você e Michele estão sob a proteção da família, agora. – o tio disse, abraçando as duas sobrinhas. – Ela vai ver o que lhe acontece se mexer com qualquer uma das duas. Vai provar um pouco da união dos Terrae.

- Ela que tente. Nós duas quebraremos seu nariz! – animou-se Michele, fazendo todos rirem, e os quatro adentraram no prédio finalmente.

As quatro horas seguintes foram de pura magia. Pelo menos ela sentiu-se assim. Adentrar de novo na vida de sua família era algo doce, e não doloroso, como ela pensava que seria. Ficara à beira das lágrimas várias vezes enquanto observava a sala que antes fora de seu pai, as roupas que foram de sua mãe, e que estavam em exposição num pequeno museu que haviam construído no último andar do prédio, em homenagem a ela, e as salas de reuniões, onde já passara horas, quando criança, observando a interação da família, comendo pizza, doces e refrigerante.

Descobriu que sentia saudades daquilo. Do envolvimento com o grupo, das tristezas e alegrias compartilhadas, do clima alegre que sempre reinava nas empresas em Green Village antes do avião cair. Pegou um porta-foto que estava na mesa de seu tio, que um dia seria sua, e observou a si mesma quando pequena, rodeada de primos e parentes, além dos pais. Estava vestida como a Bela Adormecida, que era o tema de seu aniversário naquele ano. Faltava-lhe um dente, visível enquanto sorria e apagava as velinhas.

- Sinto saudade deles. – murmurou para ninguém em especial, apenas precisando libertar aquilo de dentro de si.

- Todos nós sentimos. – Michele a abraçou, tirando a foto de suas mãos, para encurtar o sofrimento. – Eles estariam orgulhosos de você se a vissem agora.

May negou com a cabeça, sorrindo.

- Você, sim, tem muitos motivos de orgulho, Frau. – ela pegou as mãos da irmã, segurando-as entre as suas. – Fico feliz só de olhar pra você. – falou, com um sorriso besta.

- Eu amo você, Lizzy. Sempre vou amar! – a loira falou, abraçando-a. – Tenho certeza que, onde quer que estejam, Serena e Adam estão muito felizes de ver a pessoa que você se tornou.

A morena baixou o rosto e largou as mãos da outra, respirando fundo.

- Vou ao banheiro. – avisou, escapando rapidamente para a portinha no fim do corredor.

Lá deixou seu pranto correr. Bem, havia um pouco de dor na volta, afinal.

Wishes

Quando voltaram para Green Village, já passava das onze da noite. Edward e Annika, que vinham com eles, explicaram que ficariam num dos chalés para ajudá-las a recepcionar o resto da família, que começaria a chegar no dia seguinte. Michele e May agradeceram, obviamente mais seguras agora que os tios estavam ali.

Como a avó já deveria estar dormindo, May se permitiu tirar as sandálias de salto alto, que estava usando o dia todo. Os pés, desacostumados, estavam doloridos. Mas ela sorria quando passaram pelas portas que davam acesso ao hall de entrada da casa.

De certa forma, a visita ao edifício central das empresas da família e o reencontro com os tios haviam feito uma catarse dentro dela, liberando todos os sentimentos ruins e deixando apenas a paz e a tranqüilidade que a dominavam desde que entrara na limusine para voltar para casa.

"Casa...", pensou, olhando em volta. Já estava chamando aquele lugar de casa novamente. Mesmo com Elizabeth e tudo que havia passado ali dentro, aquele sempre fora seu lar. Ela podia sentir aquele calor inconfundível que a propriedade lhe despertava novamente. Aquele calor que sentia quando seus pais viviam ali.

Ouviu barulho de risos, e seguiu-o até que deu na parte de trás da casa, na área das piscinas. Os amigos japoneses e seus convidados estavam todos lá, além de duas figuras que se destacavam no meio, e que ela reconheceu imediatamente.

- Marco! Sophia! – correu, pulando nos braços dos primos, que a abraçaram de volta.

- Lizzy! – o rapaz, de quase dois metros de altura, exclamou. – Você continua uma tampinha.

Ela riu.

- Não me provoque, Marco, eu ainda sei onde lhe dar uns socos pra lhe fazer calar a boca. – ameaçou, fazendo os olhos castanhos do rapaz rirem, e sua boca acompanhar o processo. – Ei, você está um gato!

- Você não ficou pra trás, cara mia. Admitamos que nós, os Terrae, somos todos lindos. – comentou Sophia, fazendo os dois rirem.

- Phia, que saudades de você. Que anda fazendo da vida? – May perguntou com os olhos brilhando, enquanto Michele e os tios se aproximavam. – Onde está Anne?

- A tampinha está dormindo. Nunca agüentou ficar acordada até tarde.

- Com quantos anos ela está?

- Dez.

- Dez! – e a brasileira arregalou os olhos. – Nossa. Eu me lembro do cotoquinho que ela era, não batia nem no meu joelho. – sorriu, encantada.

- Pois é, mas não a chame de cotoco na frente dela, ou vai ouvir poucas e boas. Anne odeia que falem da sua altura.

Os três riram.

- Ah, oi gente! Desculpem a falta de educação. – ela cumprimentou os outros, que haviam ficado em silêncio, apenas observando a interação entre os primos.

- Nós entendemos perfeitamente, querida. – Haruka a abraçou. – Chegou tarde, hein? Até o Seto chegou antes de você! – e apontou o rapaz, entre os outros japoneses, que a observava quieto e sério.

- Bem, acho que agora entendo o porquê dele se consumir tanto na KC. Essa vida de empresário é sofrida! – brincou, fazendo os outros rirem, e arrancando um pequeno sorriso dele.

- Nós vamos deixar vocês, jovens, conversando. – Edward falou, abraçando a esposa. – Não agüento mais estes serões.

- Boa noite, titio, titia. – ela os abraçou uma última vez.

- Boa noite, pai, mãe! – Marco e Sophia repetiram o ritual.

- Juízo, vocês três. – Annika alertou, enquanto entrava na casa com o tio.

Um silêncio caiu sobre o grupo enorme, enquanto Michele e os primos sentavam-se. May continuou de pé. Estava tentando arranjar coragem para algo que sabia que tinha de fazer logo, ou não conseguiria dormir com a consciência limpa. Respirou fundo, fechando os olhos, para em seguida abri-los novamente, encarando um par de olhos azuis em especial.

- Posso falar com você em particular? – ela perguntou, por fim.

Haruka, Kali e Michele prenderam a respiram, as três encarando Seto enquanto aguardavam sua resposta. Os outros, percebendo que havia um clima tenso, também começaram a prestar atenção.

Ele respirou fundo, como ela havia feito antes, e ergueu-se de onde estava sentado.

- Claro.

Ele desembaraçou-se do grupo, vindo até ela.

- Não demoraremos. – ela avisou aos outros, virando e começando a caminhar para longe do grupo.

Os dois caminharam em silêncio. Poucos segundos depois, ouviram vozes, sinalizando que os outros retomaram a conversa, pontuada por gargalhadas. O vento estava forte naquele dia, e frio. Ela se abraçou, baixando a cabeça enquanto pensava em como começava a falar, e ficou surpresa quando ele pôs a jaqueta que estava usando em seus ombros, protegendo-a do vento.

- Obrigada. – sorriu alegre. Ele, entretanto, continuo sério.

Atravessaram a área das piscinas, chegando perto da área das quadras esportivas, e ela sentou-se num banquinho que havia ali, acompanhando a trilha. Ele sentou-se ao seu lado. Os dois viraram ao mesmo tempo, erguendo as pernas e dobrando-as uma sobre a outra, sentando de frente para o outro.

- Então, o que queria falar comigo? – ele argüiu.

- Eu... – ela não sabia como começar. O cheiro que a jaqueta exalava a envolvia e confundia. – Eu queria lhe pedir desculpas.

Ele arregalou os olhos, surpreso.

- Desculpas?

- É... – ela se encolheu mais dentro da jaqueta, desconfortável. – Eu fui muito grossa com você, hoje de manhã. E sem necessidade nenhuma.

- Mayra...

Ela o olhou nos olhos. Um arrepio lhe correu o corpo quando o ouviu falar seu nome. Ela sabia que estava ficando perigosamente próxima do abismo chamado Seto Kaiba.

- Escute, Kaiba. Eu estou muito nervosa ultimamente. Não tenho boa relação com a minha avó. – ela disse, e ele quase riu, sarcástico. Boa relação? Há! – Mas isso não é motivo pra descontar em você.

- Mayra... – ele chamou pela segunda vez, mas ela ergueu a mão, pedindo silêncio.

- Deixe-me terminar, por favor. – ela disse, respirando fundo mais uma vez. – Eu não tenho o direito de ditar suas ações nem nada do tipo. Tive uma reação exagerada ao seu comportamento hoje, e me sinto muito envergonhada por isso. Eu sempre disse que queria que você largasse do meu pé, e quando você começa a fazer justamente isso, eu fico histérica.

- Mas você...

- Não gosto do jeito como você avança e recua o tempo todo. Isso é verdade. Mas você nunca me deu falsas esperanças. Muito pelo contrário, você sempre me deixou bem claro o que queria de mim. E eu deixe bem claro que não te daria o que você queria. – ela deu de ombros. – Acho que fiquei triste. Eu gostava da atenção que você me dava, por pura vaidade. Em suma, assumo toda a culpa do incidente de hoje de manhã. Você tem todo o direito de enjoar de mim.

Ele abriu a boca para falar algo, mas o som não saiu. Observou o modo como ela se encolhia em sua jaqueta, como os cabelos dela levantavam ao sabor do vento. O brilho meio envergonhado dos olhos dela. O rubor das bochechas. E a extrema solidão que enxergou nos orbes castanhos.

Ele se ergueu, respirando fundo três vezes. Não devia fazer isso. Não podia. Não depois de tudo que tinha visto. Estendeu a mão para ela, que o observou, confusa. Levou três segundos para segurar sua mão e levantar. Ele então a puxou, rodeou sua cintura com o braço livre e esmagou sua boca contra a dela.

O contato entre as bocas foi como a fagulha que detona uma bomba. Ela entreabriu os lábios, aceitando a invasão da língua dele, enquanto a sua tomava vida própria e tornava-se igualmente ativa. Seus olhos se fecharam, seus braços rodearam o pescoço dele, o corpo se apertou contra o dele instintivamente. Os braços dele a rodearam com igual força, enquanto o duelo em suas bocas se travava e indicava que naquela batalha não havia perdedor.

Ele afastou a boca da dela, mas não o rosto. Suas testas estavam coladas, os narizes se roçavam, enquanto o vento frio os rodeava sem que nenhum deles sentisse. A jaqueta estava no chão, mas ambos estavam perfeitamente aquecidos, fora e dentro do corpo.

- Quem disse que eu enjoei de você? – ele sussurrou, mas depois a largou, afastando-se em direção à casa.

Ela o observou ir, e quando ele sumiu numa das portas, o frio subitamente voltou a se apossar do seu corpo. Parecia que ela havia pulado no abismo, afinal.

N/A: Eu agradeço de coração todos os reviews que chegaram do capítulo 22. Estava muito curiosa sobre a reação de vocês (achei que iam querer me matar, hehehehehe!). Bem, desculpem a demora da atualização, é o vestibular que está chegando. Para vocês, queridos, postei no meu LiveJournal trechos dos dois próximos capítulos. Curtam: http:// maya-snape . livejournal . com

Beijokas!