- Capítulo Vinte e Quatro –
N/A: Eeeeeepa! O que será que rola entre esses dois agora? XD Estou em dúvida quanto ao futuro do casal... D Mas por enquanto tenho tudo planejado para os próximos capítulos. Continuem prestando atenção nessa "saga USA" de Wishes, ela vale muuuito a pena. Desculpem a demora da atualização, é culpa do Fanfiction que resolveu parar de funcionar no domingo, justo quando eu tava tentando atualizar.
Beijos!
Os dias passaram como borrões, enquanto a casa se enchia de gente. Os amigos observavam pasmos o "fenômeno da multiplicação", pois parecia que os Terrae nunca paravam de aumentar em número.
- Não acredito que você tem tantos parentes e nenhum deles foi nos visitar. – Kali murmurou para a prima durante um dos jantares, que passaram a ser do lado de fora da casa, já que não cabia tanta gente na sala de jantar.
- Tia Michiko não deixou, Kali. – ela disse à prima. – Ela não achou que eu estivesse pronta pra entrar na vida de uma Terrae de novo, e eu concordei com ela.
- Mas e depois, May-chan? Você já está conosco há quase seis anos! Porque ainda se recusava a vê-los e, de repente, resolve vir pra cá?
Aquela era uma questão que a própria May não saberia dizer ao certo.
- Acho que eu quero pôr um ponto final nessa sina de fugir do meu passado. – ela deu de ombros.
- Mas o que aconteceu no seu passado de tão ruim? Você nunca comentou nada comigo... – Kali perguntou, genuinamente preocupada.
May sorriu para a prima, segurando suas mãos. Se ela houvesse contado a Kali tudo pelo que já passara, talvez a prima entendesse porque ela era tão reticente quanto aos homens, principalmente os mais velhos. Kaiba intrometeu-se em sua mente, e ela sacudiu a cabeça. "Ele conseguiu ser uma exceção, sabe-se lá como...", desculpou-se comigo mesma.
- Não vale mais a pena pensar nisso, Kali. Só o que me resta é superar.
A prima sorriu, embora aquele sorriso fosse pouco animado.
- Porque não me conta? Sei que foi algo ruim, e envolve a sua avó. Todos os Terrae a tratam com frieza. – constatou, olhando em volta.
Elizabeth Terrae sabia que não era bem quista entre a família da neta. Suas aparições resumiam-se às horas de comer, como naquele momento, mas sempre acabava sentada sozinha, isolada de todos, pois ninguém queria sentar-se ao seu lado. Era óbvio que aquilo despertara a curiosidade dos amigos e acompanhantes, mas May não estava disposta a dar explicações.
- Kali, quero deixar isso pra trás, está bem?
- Claro, me desculpe.
Mas May sentiu uma certa mágoa no tom de voz da prima, e sentiu-se impotente. Simplesmente não conseguia pôr aquilo em palavras, como nunca conseguira. Se não fosse Kai a entrar em contato com a mãe de Kali, ninguém jamais saberia do que havia acontecido.
Sentiu uma mão em seu ombro e virou-se para encarar os orbes azuis de Seto Kaiba, parado ao lado de sua cadeira. Há dias que não o via. Os dois estavam se evitando.
- Pode vir comigo um instante? – ele perguntou, parecendo um pouco tenso.
Ela pensou bastante, até que deu de ombros e ergueu-se da mesa.
Os dois seguiram para dentro da casa sem chamar muita atenção, ela atrás dele. Desde aquele fatídico beijo no "quintal" de sua casa, o Kaiba que queria seduzi-la parecia ter morrido.
Ele, entretanto, sempre aparecia quando ela menos esperava, como em vezes em que a avó a encurralava sozinha em um corredor. Ele arranjava alguma desculpa para tirá-la de perto da matrona, entregava-a aos familiares e sumia em seguida. Ela não entendia aquelas atitudes, e o que as motivava.
- Sobre o que quer falar comigo? – ela perguntou, quebrando o silêncio tedioso que os cercara desde que entraram.
- Nada de mais. – ele parou diante da porta do escritório que o pai dela costumava usar, quando vivo, e ela sentiu um bolo na garganta. – Pode entrar aí? Vou pegar uns papéis de que preciso e volto em seguida.
Ela olhou dele para a porta, nervosa. Ainda não havia visitado aquele cômodo em particular. Assim como ao quarto dos pais na casa. Ela andava evitando aqueles dois ambientes e a sala de música, além do ateliê de seu pai.
- Cl-Claro. – ela gaguejou, estendendo a mão para a porta.
- Volto já. – ele disse, afastando-se, mas ela nem ouviu.
Assim que sua mão tocou a maçaneta fria, ela sentiu arrepios. Aquele aposento estava impregnado da energia de seu pai. Girou o objeto em sua mão e empurrou a porta, abrindo um caminho para o escritório sóbrio e para seu próprio passado.
O lugar cheirava a papel. As centenas de livros distribuídos em estantes, que iam do chão ao teto e eram acompanhadas de uma escadinha rolante que deslizava perto delas para auxiliar quem quisesse alcançar as prateleiras mais altas. A escrivaninha, propriamente dita, era uma obra de arte feita em carvalho vermelho, com entalhes dignos de um César romano. As coisas em cima dela combinavam bastante, embora o computador e o telefone parecessem berrar modernidade diante de tantas coisas antigas. As cadeiras estofadas de chita dourada que faziam par com o móvel ainda pareciam novas e cheiravam a alfazema, o mesmo perfume que seu pai amava.
Ela sentiu os olhos encherem de água e deu um passo à frente.
Quantas tardes passara naquele mesmo chão, rodeada de almofadas, lápis de cor e papéis coloridos, desenhando enquanto o pai trabalhava? Quantas vezes ele a chamara, de trás daquela mesma escrivaninha, e a colocara no colo para lhe contar uma história ou embala-la de noite? Quantas vezes sua mãe não abrira aquelas portas e se deparara com pai e filha juntos, desenhando, e sorrira dizendo que aquilo era um "complô para burlar seus concertos na sala de música"?
Muitas. Muitas e muitas vezes. Ela podia lembrar de várias, que faziam as lágrimas caírem de seus olhos sem que ela nem mesmo percebesse. Deu mais dois passos à frente, ignorando por hora os quadros na única parede livre de estantes, e estendeu a mão para tocar a madeira.
Wishes
- Papai! Papai! – uma menininha entrou gritando na sala, sorrindo de ponta a ponta, agitando os braçinhos magrelos em direção ao homem sentado na escrivaninha, olhando compenetrado para seu computador.
- Que foi, princesa? – ele murmurou, ainda fixando a tela.
Ela perdeu o sorriso e abaixou os braços, emburrada. Queria que ele prestasse atenção nela. Sorriu e foi para trás da cadeira. A mãe entrou na sala exatamente quando ela começou a fazer cócegas no pai.
Serena observou o marido dobrar o corpo de tanto rir, enquanto sua filha, atrás dele, gritava de alegria. Meneou a cabeça, divertida, e foi segurar a menina de três anos antes que o pai morresse de asfixia.
- De quem você herdou essa mente traquinas? – ela perguntou à pequena, enquanto esfregava o nariz em sua barriga, arrancando-lhe risadas.
- Mãe! Mãe! Pára!
Adam Terrae, ainda se recuperando do "ataque surpresa", ergueu-se da cadeira para pegar a garotinha dos braços da mãe. A menina passou os braços pelo seu pescoço, enquanto o beijava na bochecha, lambuzando-o.
- Mim beijar papai. – ela berrou, batendo palminhas. Serena caiu na gargalhada e ele sorriu para seu pequeno tesouro.
- Papai beijar princesa. – murmurou, salpicando um beijo na boca miúda, fazendo as pernas da garotinha se agitarem.
- São dois beijoqueiros, vocês. – a mulher, loira como uma deusa nórdica, arqueou as sobrancelhas espessas, olhando para o marido. – Isso ela herdou de você.
- Ciumenta. – ele provocou, rindo.
- Mãe ciumenta! – Mayra bateu palmas, fazendo o pai gargalhar enquanto a abraçava mais forte.
- Ei, isso é um complô! – acusou Serena, divertida.
- Complôô! – repetiu a menina, que se acostumara a ouvir aquela palavra sair dos lábios da mãe. – Mãe quer beijo também?
- Ah, essa é a minha bonequinha! – Serena comemorou, enquanto a tomava dos braços do marido e recebia seu beijo lambuzado.
- Mim quer beijo! – a menina protestou, e a mãe a beijou, rindo.
- Agora que já deu o beijo de boa noite no papai, despeça-se.
- Tchaaaaaaaau, papaaaaaaaaaaiiiiii! – ela gritou, agitando os braços, quase caindo dos da mãe no processo.
- Boa noite, princesa. – ele acariciou o rosto da filha, com aqueles olhos verdes brilhantes sorrindo para ela.
- Boa noite! – ela repetiu, arrancando risadas dos dois.
- Volto já, já. – Serena murmurou, beijando o marido rapidamente.
- Mamãe beijoqueira. – a garota apontou, rindo.
- É, ela nos acusa mas é dez vezes pior, não é, amor? – o pai ajudou, fazendo-a rir.
- Vamos antes que seu pai te contamine com essas idéias bestas. – Serena rebateu, contendo a risada, enquanto a menina pousava o rosto em seu ombro.
- Desenha cavalo, papai!
- Vou desenhar, amorzinho, prometo. – ele piscou-lhe um olho.
Foi essa a imagem que a garota levou para a cama.
Wishes
A mão em seu ombro começou a pesar, e ela voltou ao presente, ainda chorando. Virou-se e quase pulou por cima da escrivaninha quando encarou aquele rosto conhecido tão próximo ao seu. Maxwell!
Era como se ele não houvesse envelhecido um único ano durante aqueles seis em que ela estivera fora do país. Na verdade, ele parecia bem mais jovem do que ela se lembrava. Escaneou dos olhos azuis que pareceriam de um anjo, os cabelos loiros encaracolados, hoje presos numa fita atrás da cabeça, às maçãs do rosto fino proeminentes.
Foi então que viu a cicatriz.
- Kai!
Ele sorriu quando ela finalmente o reconheceu, a cor voltando ao rosto pálido. Aquela cicatriz ele havia ganhado quando tentara defendê-la do pai, uma vez. Ela soluçou, as lágrimas ainda correndo por seu rosto.
- Desculpe assusta-la, Lizzy.
- Kai? É você mesmo? – ela balbuciou, estupefata, estendendo a mão vagarosamente em direção a ele.
Malakai segurou sua mão entre as dele, entrelaçando seus dedos, enquanto observava as emoções que corriam violentas pelo rosto dela.
- Sou eu, Lizzy. Kai. – ele confirmou, voltando a sorrir. Havia um pouco de água em seus olhos também.
Ela sentiu o peso daquelas mãos quentes envolvendo a sua. "Deus do céu!", gritou em pensamentos. Ele crescera para ficar a cara do pai, a não ser pela barriga enorme, que não existia em seu companheiro de noites terríveis do passado. Os olhos demonstravam a dureza de quem já conhecera muitas coisas ruins durante a vida, mas havia também uma doçura que ela conhecera uma vez, uma camaradagem, amizade fiel que a salvara de uma destruição certa.
- Meu Deus... Kai... Eu... Eu nem sei o que dizer.
- Não diga nada, Lizzy. Não precisa dizer nada. – ele respondeu, calmo. – Eu só queria te ver.
Ela sorriu, soluçando mais uma vez enquanto as lágrimas continuavam a escorrer.
- Meu Deus, Kai... Eu queria tanto... tanto...
- Shhh... Não chore. – ele pediu, puxando-a para perto pela mão que segurava.
Quando aqueles braços se fecharam ao redor dela, ela percebeu que não sentia medo. Embora ele fosse muito parecido com o pai, ela não sentia sequer um arrepio de alerta circular em seu corpo. Tudo que ela conseguia sentir era o calor dele, a emoção que o corpo dele transmitia ao seu sem necessidade de palavras ou gestos.
E ela finalmente o abraçou de volta, descobrindo que já não havia o que temer.
- Muito... Muito obrigada. – disse, finalmente, e soube no mesmo instante que ele entenderia todos os sentidos que ela queria dar à frase.
Wishes
Assim que abandonou a casa, depois de conduzir Malakai ao escritório, Seto se viu rodeado pelos primos de Mayra, além de Michele, Kali e Haruka.
- Onde está Lizzy? – a pequena Anne perguntou, observando-o com certo desprezo.
- No escritório. Kai Maxwell veio vê-la.
- O quê? – Michele se eriçou na mesma hora, parecendo uma leoa protetora. – Eu disse a ele que não viesse até aqui! – ela exclamou, perturbada.
- Eu o trouxe. – ele sentenciou e cruzou os braços, numa clara indicação de que iria entrar em conflito com ela caso fosse necessário.
- Com que direito você o traz até aqui? – a loira perguntou, cruzando os braços também.
- Com o direito de quem sabe do que ela precisa.
- Ah, e quem disse que você sabe do que ela precisa?
Ele sorriu, superior.
- Desculpe, mas não a ouvi gritando por socorro até agora. Será que estou surdo?
Michele abriu a boca para retrucar, mas descobriu que não tinha como discordar daquilo.
- Isso não significa que ela não esteja com medo! – ela retrucou, e todos os primos concordaram, formando uma muralha Terrae contra ele.
- Ela precisava vê-lo. – ele teimou.
- Por quê?
Quem perguntou foi Sophia, a mais calma de todos.
- Porque só ele pôde fazê-la parar de se esconder das pessoas.
Os primos soltaram exclamações em italiano. Haruka e Kali não entendiam nada. Michele o encarava como se ele houvesse traído a pequena amizade que surgira entre eles nos últimos dias.
- Depois do que lhe contei há alguns dias atrás, Michele, você é capaz de discordar de mim?
Era um desafio direto. Os primos Terrae viraram-se para a prima adotiva, Haruka e Kali imitando-os. Todos tensos em ansiosa espera. A loira fitou-o nos olhos por longos segundos, o verde dos dela duelando com o azul dos dele, e alguma coisa que pareceu enxergar através deles a acalmou.
- Não, eu sou obrigada a concordar com você.
Wishes
Três horas depois, com uma longa conversa travada logo que ela conseguiu parar de chorar, Malakai se despedia dela no portão da frente da casa.
- Não precisa, Lizzy. – ele insistiu.
- Precisa sim, Kai. Você nunca conheceu meu lado teimoso, mas se insistir muito, vai acabar se encontrando com ele.
Ele sorriu.
- É muito bom ver a pessoa que você se tornou.
Ela sentiu os olhos se encherem de água de novo.
- É bom ver que você está vivo e bem, Kai. – ela respondeu, a voz um pouco embargada. – Me desculpe por ter ficado tantos anos longe.
- Eu entendo perfeitamente, não se preocupe.
Foram interrompidos por Gaspar e Seto, que desciam as escadas em direção a eles.
- Gaspar, por favor, avise o James que ele levará o senhor Maxwell até sua casa. – ela pediu.
- Oui, mademoiselle. – o mordomo respondeu, voltando para dentro da casa.
Ela olhou para trás, observando Seto, que se postava tranquilamente a alguns passos de distância, dando a eles um pouco de privacidade para trocarem as últimas palavras.
- Vamos manter contato, eu prometo. – ela murmurou, sorrindo.
- Claro. – ele sorriu de volta. – Não vou deixar você sumir tão fácil desta vez. – ele brincou.
Ela se viu novamente envolvida por aquele abraço cálido dele. Retribuiu-o muito mais espontaneamente do que da primeira vez. Quando finalmente se separaram, descobriram Seto ao lado deles.
- Muito obrigado, senhor Kaiba. – Malakai balbuciou, quando viu a limusine parada ao lado deles e o chofer saindo do carro.
- Não foi nada, Malakai. – ele aceitou a mão que o outro homem oferecia, dando-lhe um aperto que denunciava certa tensão. – Nos veremos amanhã.
- Claro. – ele virou-se para a menina novamente. – Boa noite, Lizzy. – despediu-se.
- Boa noite, Kai. – ela lhe deu um último sorriso doce e um beijo na bochecha antes dele entrar no carro.
Os dois ficaram parados à frente da mansão, observando a limusine serpenteando pelo caminho que passava pelos chalés e levava aos jardins, em seguida para os portões. Ela baixou a cabeça, levemente encabulada, juntando forças para erguê-la.
- Muito obrigada, Kaiba. – ela disse, virando-se para ficar de frente para ele. – Não sei por que, nem como, vocês se conhecem, mas deu pra perceber que você ajudou Kai a vir até aqui.
- Se quer mesmo saber, ele é meu CEO para a América do Norte.
CEO designação dada às pessoas que exercem funções presidenciais em filiais de multinacionais. Um CEO coordena as atividades das filiais de um determinado país ou região econômica, prestando relatórios à sede da empresa periodicamente.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
- Ele trabalha pra você? – balbuciou, espantada. – Como eu nunca o vi no prédio da filial daqui?
- Ele estava viajando. – Seto explicou.
- Ah... – ela o fitou nos olhos, confusa. – Isso não te obriga a ajudá-lo a resolver uma questão pessoal.
- Eu fiz o que achei certo. – ele defendeu-se, sério.
- Não estou discutindo esse ponto. – ela acalmou-o. – Só queria entender suas motivações.
- Quem sabe um dia você não descobre? – ele respondeu, um pouco ríspido.
Ela voltou a observá-lo, mais calma do que poderia supor que estaria naquela situação.
- Seja lá qual for o motivo, eu agradeço muito. – ela repetiu, fazendo uma reverência ao estilo japonês. – Isso foi muito importante pra mim.
- Eu sei que foi.
Ela assentiu com a cabeça. Ele estivera observando a despedida deles, não seria difícil supor coisas a partir dali. Virou-se novamente para o caminho que a limusine seguira momentos antes.
- Kai é uma pessoa muito especial. Devo minha vida a ele. – murmurou, o olhar perdido no horizonte.
- E ele a vida a você, pelo que me contou. – ele replicou, imóvel.
Ela virou-se para ele, pálida.
- O que ele te contou?
Ele ficou surpreso ao ver o quão assustada ela ficava só de pensar na possibilidade dele saber alguma coisa. Ergueu uma sobrancelha.
- Disse que vocês se uniram no passado pra escapar de uma enrascada.
- Eu não fiz nada. Ele que conseguiu tudo sozinho.
Kaiba negou.
- Não foi isso que ele me disse.
- Kai é muito gentil. – ela disse, os olhos voltando a encher-se de lágrimas. – Sempre foi.
- Tem algo a ver com o que aconteceu entre você e a sua avó?
Aquela era uma pergunta perniciosa. Ele queria saber se ela mentiria para ele. Aquilo definiria muita coisa. Ele a virou para que se encarassem frente a frente.
- E então? – perguntou, diante do silêncio dela.
Ela soltou-se dele e foi sentar-se nos degraus da escada, a cabeça baixa.
- Ele conhece o que você quer me esconder, não é? – ele perguntou, por fim.
Ela ergueu a cabeça, assustada.
- Você não vai pressioná-lo para contar, vai?
"Eu não preciso", ele pensou, mas colocou as mãos nos bolsos da calça e foi sentar-se ao lado dela.
- Não, não vou. Eu quero que você me conte o que é, ninguém mais.
O porquê de aquela frase trazer lágrimas aos seus olhos mais uma vez escapou de sua mente. Talvez fosse porque ela sabia que jamais teria coragem, ou porque ela descobriu que queria muito compartilhar aquilo com alguém, ou melhor, com ele.
O fato é que voltou a chorar silenciosamente.
- Ah, meu pai... – ele suspirou, exasperado, enquanto passava um dos braços pelos ombros dela, trazendo-a para perto de si. – Você hoje decidiu imitar uma torneira, por acaso?
- Desculpe... – ela deixou-se ficar presa naquele semi-abraço, a cabeça encostada no ombro dele. – Eu ando muito sensível ultimamente.
- Esqueça... – ele disse, afagando-lhe as costas numa tentativa de confortá-la.
- Não sei como você me agüenta. – ela comentou de repente. – Eu ando insuportável desde que chegamos aqui.
Ele meneou a cabeça, negando mais uma vez.
- Isso é mentira. – ele replicou, calmo.
- O quê, vai dizer que adora me ver chorando e ter que me consolar? – ela perguntou, irônica.
Ele sorriu, malicioso.
- Se isso me der um motivo pra encostar em você... – e deu de ombros, fazendo-a gargalhar.
- Kaiba, você só pensa em sexo? – ela perguntou, ainda rindo. Enxugou as lágrimas o máximo que pôde.
- Não, pequena. Com você nunca é só sexo. – ele negou, sério.
Ela apenas o observou, estranhamente confortada com aquelas palavras.
- Nós estamos indo longe demais com isso. – comentou, por fim, ruborizando.
Ele voltou a sorrir.
- Acho que já não há mais volta.
Ela concordou com um assentir de cabeça.
- Não sei como você conseguiu, Kaiba, mas eu só penso em você ultimamente. – revelou.
Ele a fitou, espantado.
- Finalmente consegui fazer você admitir isso? – ele perguntou, ainda sem acreditar. – Hoje deve ser meu dia de sorte.
Ela riu mais uma vez.
- Você é estranho.
- Você também. – ele replicou, calmo, erguendo-se e estendendo a mão para ajuda-la. – No entanto, estamos aqui, não é? Presos um ao outro de formas que nem quero pensar, e não nos matamos ainda. – continuou, divertido. – Vamos dar uma volta. – convidou.
Ela sorriu e aceitou a mão que ele oferecia, erguendo-se. Ele a enlaçou pela cintura e a puxou para junto de si, unindo o rosto ao dela. Não a beijou, entretanto, fato que apenas fez um arrepio de vontade correr pela espinha dela.
- Pronta para o passeio, pequena?
Ela podia sentir a ponta do nariz dele contra o dela, suas respirações se misturando com aquele frio outonal. O vento os envolveu, fazendo-a sentir frio e instintivamente encostar o corpo mais ao dele, em busca de calor.
- Talvez.
Foi a vez dele de gargalhar. Ainda sorrindo, ele continuou enlaçando-a pela cintura enquanto começavam a caminhada. O silêncio que se abateu sobre ambos foi acolhedor, bem-vindo. Eles tinham coisas demais na cabeça para pensar, e falar qualquer coisa naquele momento seria perigoso.
Ela finalmente passou um braço pela cintura dele, deixando os dedos acariciarem-lhe a região, demonstrando que ela apreciava a companhia. Ele virou-se para ela e sorriu, fazendo um carinho semelhante em sua cintura, ao que ela riu baixinho. Deixaram-se estar, então, naquele clima de camaradagem enquanto saíam da trilha principal, ela guiando-o instintivamente em direção ao chalé de seus pais.
Chegaram lá em poucos minutos. Ela separou-se dele para tirar o colar e inserir a chave de ouro na fechadura. O mecanismo de defesa foi ativado.
"Identificação vocal", uma vozinha metálica avisou, e ela cantou o refrão de uma das músicas da mãe, até que sua voz fosse reconhecida. "Senhorita Mayra Terrae, sua entrada foi liberada". Ela teve de girar a chavinha de ouro outra vez na fechadura até que a porta finalmente abrisse.
- Mecanismo interessante. – ele disse, atrás dela, assim que entraram. – Da outra vez que eu vim aqui a porta já estava aberta, nem percebi que havia um sistema de segurança.
- Minha mãe fez questão. Ela e Elizabeth não se davam bem, e vovó sempre gostou de se meter em todos os assuntos dos meus pais. Então ela pediu ao papai que construísse na propriedade um lugar pra eles, só pra eles e pra eu e Frau. Ela fez questão de deixar Elizabeth de fora.
- Então ela não está autorizada a entrar aqui.
May concordou.
- Só quem tem uma cópia da chave sou eu, Frau e Gaspar, por causa da limpeza que precisa ser feita periodicamente. Mas ele precisa de uma de nós duas pra passar pelo identificador de voz.
- E quando não há nenhuma de vocês na propriedade?
- Não há limpeza neste chalé. – ela respondeu, achando que era óbvia a conclusão. – Depois a moda pegou entre a família, principalmente porque somos muitos, e os outros chalés foram construídos.
Ele assentiu, pensativo. Havia observado-a durante aquela primeira semana em Nova York. Já estavam na quinta-feira, e todas as noites, durante o jantar, ela era solicitada em uma mesa diferente, conferenciando com os parentes mais velhos que trabalhavam nas Corporações Terrae, tomando conhecimento do andamento de diversos projetos da família e emitindo opiniões.
- Vocês são muito unidos. Sua família. – esclareceu, quando viu a dúvida nos olhos dela.
Ela terminou de fechar a porta e colocar o colar de volta no pescoço.
- Sim, somos muito apegados. Há um grande respeito pela hierarquia dos Terrae. Eu estou no topo, e devo ser respeitada mesmo que só tenha dezessete anos. – ela replicou, num tom zombeteiro que o fez sorrir.
- Notei que você se incomoda com isso.
- É lógico! Poxa, quem sou eu perto deles? Eu sou nada! Eles têm muito mais experiência, são muito mais inteligentes, e no entanto me babam por causa de uma porcaria de hierarquia de família. – ela resmungou, irritada.
Quando ela começou a subir as escadas para o andar superior, ele apenas a seguiu.
- Você é muito inteligente, Mayra. Seu teste de QI e suas notas provam isso.
- Grande coisa! Eu sei que tenho QI alto desde que tinha cinco anos, e isso nunca me impediu de cometer burrices.
- Errar é humano.
- Kaiba, eu estou tentando me rebelar contra a hierarquia. Se você ficar me apaziguando sempre, não vai dar!
Ele sorriu, assim que subiram o último degrau.
- É essa a intenção.
Ela parou, fitou-o e rodou os olhos.
- Definitivamente você é esquisito.
- Um esquisito que você adora. – ele fez questão de lembrar, com um sorriso de ponta a ponta do rosto.
- Seu chato! – ela reclamou, mas acabou rindo.
Chegaram a uma porta no fim do corredor, onde ela entrou e ele a seguiu. Era, obviamente, o quarto principal. Havia uma enorme cama king size com colunas, dossel e muitas almofadas. Rosas brancas estavam num vaso de cristal sobre um aparador de latão trabalhado. Os armários embutidos nas paredes eram quase invisíveis. Ao longo do quarto, cadeira, almofadas e, para surpresa dele, um terraço enorme no lugar do que seria a sacada.
- É lindo, não é? – ela murmurou com devoção, sentando-se no chão coberto por colchões, almofadas e plantas. – Eu tenho dormido aqui toda noite. Adoro ficar olhando para o céu, contando as estrelas. – continuou baixinho, indicando que ele deitasse.
Ele seguiu o conselho, e ela logo deitou-se ao lado dele. Ambos usaram almofadas para apoiar as cabeças, enquanto ele soltava uma exclamação ao ver que, quando ela apertou um botão, o teto do terraço começou a "entrar" numa saliência da parede da casa, deixando a abóbada estrelada acima deles a banha-los com sua graciosidade.
- Olhe a lua, as estrelas, e diga se há maior prova de coragem do que essas pequenas "bombinhas" de hélio que explodem e nos cedem sua luz à noite.
- Nunca parei para filosofar a respeito. – ele disse, dando de ombros.
- Não? – ela se surpreendeu. – Em que planeta você vive?
Ele riu.
- No planeta do dinheiro.
- Ah... – ela voltou a olhar o céu, desapontada. – Esperava mais de você, Kaiba.
- O quê?
- Não sei, achei que você sentisse algo mais do que vontade de transar com alguém e ganhar dinheiro.
- Minha vida não se resume a isso. – ele respondeu, um tanto rabugento.
- Ah, é? Então porque é disso que fala quando eu faço esse tipo de perguntas? Você vive pensando em cifras!
- Eu penso em você também.
Ela virou-se para olhá-lo, espantada, e depois desviou o rosto, envergonhada.
- Kaiba, não comece...
- Não estou começando nada. Isso já está acontecendo há muito tempo, e você sabe disso.
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
- Não podemos ignorar isso?
- Não. – ele a puxou pela cintura, fazendo-a moldar o corpo ao seu e virar-se para vê-lo. – Você sabe que não, Mayra.
Ela apoiou-se nos cotovelos para poder deixar o rosto acima do dele.
- Você sabe que eu não vou pra cama com você.
- Mas você quer.
Ela apenas ficou encarando-o, olhos nos olhos, sem coragem para confirmar ou negar nada. Ele a prendeu a si pela cintura, e com o outro braços afastou os cabelos dela que caíam em seu rosto.
- Diga-me que não quer, e eu paro de tentar.
Aquilo era um desafio, e ela adoraria aceita-lo, mas tinha que admitir que não havia como falar aquilo.
- Eu não sei mais o que quero. – murmurou, encostando a cabeça no ombro dele.
Ele virou-se para acomodar o corpo dela contra o dele, aproveitando para mexer em seus cabelos, tentando conforta-la.
- Não pense nisso agora. Não pretendo seduzir você está noite.
- Não? – ela perguntou, surpresa.
- Não. – ele respondeu, convicto. – Quero que você me conte o que houve entre você e sua avó antes de tentar qualquer coisa.
Os olhos dela se arregalaram, surpresos, e o corpo enrijeceu, nervoso.
- Você vai morrer querendo, então. – disse, fechando os olhos para não ter que encara-lo.
- Eu acho que não. – ele respondeu, bem-humorado. – Sei do que sou capaz, e vou convencer você a me contar isso antes de voltarmos ao Japão.
- Deixe de ser convencido, Kaiba.
- Não é convencimento. É simplesmente... algo que tem que acontecer, por assim dizer.
Ela meneou a cabeça, negando.
- Não vou falar disso nem com você, nem com ninguém. – sentenciou, dando-lhe as costas.
Mas ele continuava a abraçá-la.
- Que tal esquecer isto esta noite?
- Eu adoraria... – ela respondeu, num sussurro.
- Então esqueça. – ele respondeu no mesmo tom, a boca próxima ao seu ouvido. – Aqui só estamos eu e você. Ninguém vai nos atrapalhar.
O que a surpreendeu de verdade não foram as palavras, mas o tom carinhosos na voz dele. Ela nunca ouvira aquele tom antes. Voltou a virar-se para ele, encarando-o nos olhos.
- Onde esse passeio termina, Kaiba? – perguntou, por fim.
- Onde você quiser estar. – ele respondeu, suave, abraçando-a mais uma vez.
E, porque não queria estar em nenhum outro lugar, ela o abraçou de volta e fechou os olhos.
