- Capítulo Vinte e Sete –

N/A: Como prometido, vou explicar o porquê do capítulo ter sido partido em dois. Bem, principalmente por causa da diferença de tematização. Eu pretendia fazer um capítulo só sobre o passado da May, e não da Bastet, mas aí me veio a idéia de escrever essa conversa entre ela, o Yugi, o Seto e o Malik (eu tinha planejado os três indo à festa dela, mas não a conversa em si, pensava em explicar essas coisas mais adiante, mas resolvi acelerar tudo... rs). Então, depois de ver a bagunça que ia ser misturar dois passados diferentes, eu resolvi "partir" o capítulo. Porque senão ia ser muita informação pra vocês.

Bem, tendo isso explicado, vamos à ação! E eu EXIJO um review de cada um que ler este capítulo! Você, que ainda não mandou NENHUMA review, num tem vergonha na cara não? Já passei vinte e seis capítulos e você nem pra me dar um sinal de que está gostando (ou não) da história! Mexa-se, homem, leva menos de cinco minutos! E eu respondo TODAS, que já mandou pode confirmar!

Ela ergueu-se da cadeira onde anteriormente estava sentada, sentindo sua mão deslizar da de Seto Kaiba e perder o contato com a dele. Seus olhos fitavam insistentemente o casal parado à entrada da festa.

Mayra Elizabeth Terrae estava estarrecida, para não dizer embasbacada.

Sua avó estava elegantemente vestida num longo de seda vermelha que delineava o corpo ainda curvilíneo e com "tudo em cima", como diria Kali. Os adornos dourados que complementavam seu visual apenas acentuavam o ar lascivo do conjunto. Os cabelos tingidos de loiro estavam presos num coque falsamente decente, deixando à mostra a linha elegante do pescoço e as maçãs do rosto proeminentes.

Seu acompanhante estava igualmente bem vestido num terno de linho azul que duelava com o vermelho do vestido dela. Os cabelos grisalhos estavam penteados para trás, com certeza com a ajuda de um gel. Os olhos azuis sempre saltavam à vista, ela lembrava, pois eram de um tom raro e quase inesquecível. As mãos agora enrugadas davam-lhe uma certa fragilidade aparente, mas ela sabia que aquilo era mentira.

Ainda lembrava daquelas mãos em seu corpo, ferindo e invadindo.

Estava sem fala, sem raciocínio e sem capacidade de se mover. Somente conseguiu pular assustada quando sentiu mãos em seus ombros. Virou-se para trás para encarar outro par de olhos azuis inesquecíveis, só que de Seto.

Como ela nunca havia reparado naquela semelhança? Eles tinham olhos da mesma cor...

- Mayra – ela o ouviu chamá-la, mas foi incapaz de responder. – Você está pálida.

Mais uma vez, ela ficou calada, olhando assustada para ele. Depois se virou para contemplar novamente o pórtico que separava a área da festa da casa, e encontrou os olhos de sua avó.

Eles estavam tão ou mais maldosos do que quando a encarara brevemente naquela manhã, antes de Seto assusta-la pela primeira vez no dia. E agora ela finalmente compreendia porque a mulher parecia tão satisfeita consigo mesma.

Ela só não queria acreditar que sua avó fosse capaz daquilo para feri-la.

Mas não havia para onde fugir. Lá estava ela, lançando-lhe um sorriso vitorioso, enquanto o homem ao seu lado estava distraído com a decoração. Ela fizera de propósito, mesmo depois de todos os avisos e ameaças de Michiko. E May sabia que aquilo era sua culpa.

Sua avó sabia que ela jamais seria capaz de se mover contra ela.

Miraculosamente, May se viu capaz de tirar os olhos do par para fitar Michele e Kai, que se adiantavam pela direita em direção ao casal, enquanto seus tios e parentes mais próximos que já haviam notado a chegada da mulher e de seu acompanhante faziam o mesmo pela esquerda.

Sem que ela mesma percebesse, seus pés se moveram na mesma direção. Fez-se de surda aos chamados dos convidados, a brancura de seu rosto competindo com a do vestido enquanto avançava quase que em câmera lenta em direção aos dois algozes da sua infância. Quanto mais se aproximava, mais ouvia o tom exaltado dos parentes, que reclamavam algo em italiano indistinguível para ela – sua mente parara de funcionar corretamente desde que avistara os dois.

E depois parou de vez quando ele a viu.

Malakai Maxwell, ela descobriu, continuava o mesmo na essência. Olhou-a de baixo a cima com tal cobiça nos olhos que a fez se arrepiar completamente várias e várias vezes à medida que se aproximava deles. O burburinho irritado cessou assim que todos a avistaram, ao que ela agradeceu, já que começavam a chamar a atenção dos jornalistas.

- Lizzie... – seu tio Edward começou, incerto do que falar.

- Ora, o cordeirinho resolveu encarar os lobos? – Elizabeth o interrompeu, embora em tom baixo, pois era avessa a ver o nome da família ligado a confusões descritas em jornais. Os Terrae, entretanto, lançaram-lhe olhares enviesados.

Era óbvio que ela procurava confusão, só não achava que eles teriam coragem de declarar isso à imprensa. "E neste ponto", pensou May, "ela está completamente certa..."

- Elizabeth, eu não entendo o que você pretende com isso. – ela comentou, recuperando a fala.

- Oh, você sabe sim... Eu sempre deixei isso muito claro para você. – a loira respondeu, triunfal.

May lembrou-se de quantas vezes ouvira, quando criança, que era uma parte indesejada da família, pelo menos para Elizabeth. A mulher sempre deixara claro que a odiava de forma completa, tanto por ser filha de sua mãe como por ter roubado a atenção de seu pai. Depois da morte deles, principalmente, os adjetivos pejorativos aumentavam de maneira entusiasmada.

Ela respirou fundo.

- Vamos resolver isso. – respondeu, desviando o olhar para Malakai. – Lá dentro.

- De jeito nenhum! – uma voz familiar comentou, e ela virou-se para ver Seto. Só então notou que ele a havia seguido. – Não vou deixar você sozinha com essas cobras.

Kai, Michele e seus parentes murmuraram uma concordância com o japonês, enquanto os guarda-costas tentavam afastar a imprensa, que observava a comoção como leões observando uma presa, loucos para ouvir algo do que se passava com o grupo.

May sentiu a cabeça latejar, enquanto uma irritação desconhecida tomava conta de seu corpo.

- Quem decide isso sou eu! – respondeu a todos, ao que ouviu exclamações de surpresa. Definitivamente não era de seu feitio se impor daquela forma, mas a situação exigia. Virou-se novamente para sua avó e Malakai. – Vocês dois, pra dentro. – apontou a porta atrás deles. – Já!

Elizabeth caiu numa gargalhada estridente, como se houvesse escutado algo muito engraçado.

- Você, me dando ordens? Isso é insano! – ela respondeu, contendo mais gargalhadas. – Eu fico onde quiser, e o senhor Maxwell igualmente.

May estreitou os olhos, subiu as escadas e deixou os olhos no mesmo nível dos de sua avó.

- Ou você entra, ou eu armo o maior barraco que você jamais poderá imaginar. – ela sussurrou, ainda mais irritada. – Cansei de ser oprimida por você, vovozinha. – salientou, e então virou-se para Maxwell. – Quer sair daqui preso, doutor?

Sua avó se empertigou e Malakai endireitou a coluna. Os dois trocaram um olhar mudo e em seguida entraram na casa novamente, sendo seguidos por May. Esta ficou para trás para sussurar uma ordem aos seguranças.

- Ninguém entra na casa até que eu termine. – ordenou.

Seto, Kai, Michele e os Terrae observaram abismados enquanto o trio se afastavam em direção ao antigo escritório do falecido Adam Terrae.

- Nunca imaginei...

- Madonna mia...

- Ela fez mesmo isso?

As vozes se confundiam, enquanto dentro da casa as coisas simplesmente começavam a se encaixar.

Wishes

May fechou a porta atrás de si e inspirou o ar profundamente, tentando absorver um pouco da essência altiva de seu pai que ainda permanecia naquele escritório. As únicas coisas que farejou, porém, foi o perfume forte demais de sua avó e o odor de suor de Malakai. Podia ter bancado a forte com os amigos e parentes, mas por dentro ainda tremia de medo ao fitar as duas figuras paradas logo perto.

- Nunca imaginei que vocês teriam a coragem... – começou, parando novamente, procurando coragem interna e palavras.

- Ora, querida, admiro você. – Elizabeth ironizou. – Seu pai estaria orgulhoso se visse como você manejou a situação para impedir um escândalo de nível nacional. Ele também tinha essa característica.

Ela não precisava dizer que não fizera aquilo pela família, e sim por si mesma. Enfrenta-los diante de todos seria humilhante.

- Papai estaria horrorizado com a senhora. – ela devolveu, semicerrando os olhos ao sentir a irritação voltando a crescer.

Malakai arregalou os olhos, impressionados.

- E era tão caladinha quando menor... – ele zombou, divertido. – Tornou-se tão asquerosamente arrogante quanto meu filho.

Ela sentiu sua determinação fraquejar ao ouvir a voz que povoara seus pesadelos por tantos anos. Estava mais rouca e gasta, mas era quase a mesma.

- E-Eu tenho orgulho d-da pessoa que m-me tornei. – balbuciou, sentindo as pernas fraquejarem.

"Não, por favor, agora não...", ela pediu em pensamentos. Desde que soubera que estaria de volta à América em pouco tempo, imaginara aquele reencontro dezenas de vezes. Sabia que ele teria de acontecer. Era simplesmente uma das ironias de seu destino. Mas em nenhuma das simulações de seus pensamentos ela fraquejava como agora.

Aquela oscilação de momentos de coragem com momentos de medo definitivamente ameaçava seu sucesso.

- O que vocês pretendiam? – conseguiu perguntar, afinal.

- O que você acha, meu bem? – foi o próprio Maxwell quem respondeu. – Obviamente nós viemos aqui para vê-la.

- Isso eu sei. Mas por quê? – ela reformulou a pergunta, nervosa. – Vocês sabem o risco que estão correndo ao fazer isso, então por que se arriscam?

Sua tia lhe contara, anos depois dela ir morar com ela e Kali no Japão, a forma como conseguira sua guarda. Ao serem lembrados disso, Malakai e Elizabeth trocaram um olhar cúmplice.

- Você não seria capaz de deixa-la cumprir as ameaças. – sua avó respondeu. – Não, você é muito medrosa para isso.

O óbvio desprezo de ambos aliado à sua própria consciência de que a frase era verdadeira despertou em May sentimentos que ela preferia não ter que analisar naquele momento. Seu coração pareceu bater mais devagar e algo dentro de si finalmente morreu, enquanto seus olhos não desgrudavam dos olhos azuis da avó enquanto se enchiam de água.

- Está bem, então. – ela murmurou, e juntando sua últimas forças, abriu a porta de novo.

O que tinha de fazer, de agora em diante, seria o fim de todas as suas esperanças em relação à sua avó.

Os seguranças, que ainda tentavam segurar sua família e amigos do lado de fora, viraram-se para vê-la. Ela apenas o chamou com um acenar de mãos, o que deixou o caminho livre para os outros entrarem e também se aproximarem. Quando virou-se para dentro do escritório, seus olhos estavam frios como pedras de gelo.

- O senhor Maxwell está de saída. Por favor, acompanhem-no até a porta e acomodem-no num táxi.

O olhar puramente espantado de sua avó logo deu lugar a um outro que rivalizava com o seu em questão de frieza.

- Não, ele não vai. – ela resmungou, segurando o "companheiro" pelo braço para que ele não desse mais nenhum passo à frente.

Munida pela coragem de ter toda a sua família às suas costas, May replicou de maneira gélida:

- Sim, ele vai. E se a senhora não quiser ir junto, é melhor larga-lo. – avisou, enquanto dava passagem aos seguranças.

Enquanto as duas duelavam com o olhar, os grandalhões passaram e seguraram Maxwell cada um de um lado, escoltando-o até a entrada. May, Elizabeth, Kaiba, Michele, Kali e alguns dos primos seguiram pelo mesmo caminho, como que para se certificar do que iria realmente acontecer.

May desceu alguns degraus e parou no meio da escadaria da entrada enquanto observava o carro amarelo se afastar, o letreiro em cima reluzindo na noite escura. Graças a Deus todos os convidados já estavam lá dentro. E a imprensa, por mais impressionante que fosse, parecia não haver notado a demora de alguns membros da família e convidados dentro da casa.

Virou-se sem sair do lugar. Sua avó se encontrava dois degraus acima dela. Os outros estavam no topo da escada, apenas observando. Ela encarou a avó novamente, juntando coragem e engolindo seco antes de fazer uma última pergunta.

- O que eu fiz para que você me odiasse tanto?

A mulher pareceu ser pega de surpresa. May observou, pouco à vontade, enquanto os olhos da avó nublavam, cobertos de lembranças às quais ela jamais tivera acesso. Em seguida, os olhos azuis perderam o brilho e voltaram a encara-la, duros.

- Você nasceu.

E, com aquela resposta, a mulher virou-se e voltou para dentro.

May deu as costas aos companheiros que a observavam do topo da escada, imóveis após o desenrolar das pequenas cenas. Em outra situação eles teriam parado Elizabeth e confrontado-a, mas naquele momento a mulher esgueirou-se quase sem ser notada de volta à festa, enquanto a neta respirava fundo e tomava coragem para enfrentar mais uma questão difícil. Uma que ela finalmente entendera depois de clarear a mente.

Virando-se novamente, os olhos sem vestígios do tormento interior, ela subiu os degraus que a levariam a Seto Kaiba um por um lentamente, usando o tempo extra para reunir coragem. Os outros prenderam a respiração ao ver a troca de olhares intensa e nada doce entre o casal.

- Quem foi que disse?

Kaiba sentiu aquela pequena intuição voltando, dizendo que aquela noite certamente não seria a mais feliz da sua vida.

- Do que está falando?

- Quem lhe contou que eu fui estuprada quando era criança?

A pergunta direta pegou a todos desprevenidos. Seto viu os olhos dela perderem o brilho e a vontade de viver, enquanto ela tentava manter-se altiva diante das circunstâncias. E ele sabia como aquilo doía.

- Mayra...

- Eu perguntei quem foi que lhe contou que eu fui estuprada! – ela exigiu saber, irritada.

Seto abriu a boca, mas hesitou em falar o que estava em sua mente desde o dia em que ela adoecera. Abriu a boca mais uma vez, mas foi interrompido.

- Fui eu.

Todos olharam para Michele, estupefatos. Inclusive a própria May, que agora empalidecia. Michele e Seto se olharam. As visões que ele havia tido naquela noite, que contara à loira por horas e horas, deveriam ficar entre os dois. Ambos haviam decidido que a garota sofreria muito se soubesse que suas lembranças haviam sido expostas ao escrutínio do rapaz. Seto agradecia mentalmente à loira pela ajuda inesperada.

- Como você pôde? – o sussurro de May chamou a atenção de todos novamente. Os olhos dela estavam rasos de lágrimas esperando ansiosamente para cair. – Pensei que pudesse confiar em você, Frau.

- Lizzie... – a loira começou, incerta, mas não teve tempo de continuar. Os olhos de May agora dardejavam o próprio Kaiba.

- Satisfeito, Kaiba? – perguntou, sentindo-se humilhada e pequena. – Talvez agora eu finalmente perca a graça pra você, agora que sabe que eu não sou a virgem recalcada que você pensa.

E, com essas palavras, a garota correu escada acima.

- Merda! – Kaiba murmurou antes de ir atrás dela.

Os outros ficaram em silêncio resignado, até que uma voz o interrompeu novamente.

- Porque ela não me contou? – Kali perguntou, e todos se viraram com olhares pesarosos em sua direção. – Eu também sou da família! Minha mãe sabe, vocês sabem... todo mundo sabe, menos eu!

A japonesa saiu correndo, irritada.

- Dios! – Edward e Marco exclamaram ao mesmo tempo.

Michele olhou para o tio e o primo, resignada.

- Dias difíceis estão a caminho. – foi tudo o que disse.

Wishes

Como hóspede da casa, ele não foi barrado pelos seguranças ao seguir uma veloz May escadas acima em direção aos aposentos privativos da família. Ele a viu sumir por uma porta e batê-la logo em seguida. Correu naquela direção e teve sensações conflitantes de preocupação e alívio ao notar que a namorada estava tão transtornada que nem pensara em trancar a porta.

Entrando silenciosamente no quarto e procurando avistá-la, descobriu que ela estava encolhida e escondida atrás da cama. May chorava silenciosamente, de um jeito que ele sabia que ela havia aprendido nos tempos de orfanato. Ele também não passara por aquilo? Sentou-se cuidadosamente ao lado dela e assistiu imóvel ao corpo dela se sacudindo.

Era óbvio que ela sabia que ele estava ao seu lado. Ela o escutara subindo as escadas, correndo atrás dela, abrindo a porta. Além disso, havia a Junção que lhes permitia uma intimidade de compartilhar energias, sentimentos e localizações de uma maneira absurdamente completa. Ela sentia a ansiosidade dele ao mesmo tempo que sabia que ele sentia seu sofrimento. Mas ainda não era capaz de encará-lo.

Levantou a cabeça, que antes descansava sobre os joelhos, e virou-a para o outro lado.

- Vá embora. - murmurou entre um soluço e outro.

- Não vou. - ele respondeu suavemente.

- Eu quero ficar sozinha... - ela balbuciou, sentindo que uma nova torrente de lágrimas chegaria já, já.

- Mas eu não vou deixar. - o japonês retrucou, afastando os cabelos dela de seu rosto e puxando-o para que pudesse encará-la. Ela fechou os olhos.

- Kaiba, por favor...

Ele sentiu a súplica chegando a si com ondas de agonia. Ela estava indubitavelmente se sentindo humilhada. Não aguentando mais ficar apenas parado observando, ele a rodeou com os braços e fez com que deitasse a cabeça em seu ombro.

- Não importa quantas pessoas tenham te abandonado no passado, Mayra. Eu não vou fazer o mesmo.

Apenas por estar sem forças, ela disse a si mesma, deixou-se estar entre os braços do homem enquanto mais lágrimas desciam pelo seu rosto.

Wishes

Michele retornou à festa com a mente enevoada de problemas. Havia Kali, a quem ela havia se afeiçoado bastante nos últimos dias, e que agora recusava-se a falar com qualquer um. Havia Lizzie, que no momento deveria estar tendo mais uma de suas crises de depressão, mas ela tinha fé que Kaiba daria conta do recado. Havia Elizabeth, pavoneando-se pela festa como se ela fosse a anfitriã e jurando que havia dado a volta por cima - e, pelos falecidos Adam e Serena, Michele jurou que nem mesmo Lizzie a impediria de quebrar o queixo da velha vagabunda.

Mas no momento seu principal problema era uma dor de cabeça lancinante e um vestido que mal lhe permitia respirar.

Tentando controlar seu corpo, ela simplesmente parou de caminhar e fechou os olhos. Pare de se machucar, disse a si mesma. Os problemas se resolverão com tempo e paciência, do mesmo modo como você sempre os resolveu. Agora acabe com esse faniquito e se controle!, resmungou para si mesma, irritada com suas próprias fraquezas. Estava abrindo os olhos e recomeçando a caminhar quando esbarrou em alguém.

Seu corpo foi impedido de encontrar o chão por um par de braços que a abraçou e a trouxe de encontro a um corpo alto, magro e definido. Mais por instinto do que por qualquer outra coisa, ela se viu colocando os braços ao redor da cintura do homem também. Subiu os olhos do peito coberto pela camisa branca de linho e o terno preto para encarar um rosto bronzeado, emoldurado por uma cortina de cabelos cor-de-palha e destacado pelos brilhantes olhos da cor da lavanda.

- Olá. - Malik cumprimentou, enquanto mais um sorriso malicioso chegava-lhe ao rosto.

Wishes

Ela finalmente ergueu a cabeça novamente, as lágrimas agora sob controle. Respirou fundo, fechou os olhos e os abriu de novo, só para encontrar os olhos azuis dele a observá-la.

- Não sei o que você ainda faz aqui. - ela murmurou, livrando-se dos braços dele e se erguendo.

Kaiba ficou de pé também, estranhamente sereno.

- Estou cuidando de você. - ele respondeu, sério.

Ela ousou encará-lo desta vez.

- O quê? Eu ainda não perdi a graça? - sibilou, irônica, mostrando a ele uma faceta sua que ele jamais conhecera. - Se você ainda não se tocou, Kaiba, eu sou material usado. - concluiu, zombeteira.

Ele sentiu o sangue começar a ferver de raiva. Segurou-a pelo braço quando a viu tentando se afastar.

- Jamais refira-se a si mesma nestes termos novamente. - avisou, os olhos azuis frios como gelo.

- E porque não deveria, Kaiba? - ela insistiu, um súbito ataque de raiva contra ele, contra sua avó, contra Maxwell e contra si mesma a dominá-la. - É de mim que eu estou falando, então eu falo como quiser!

Ele lhe agarrou o outro braço e a puxou para junto de si, fitando-a ferozmente.

- Não vai se depreciar a esse ponto na minha frente! - exclamou, irritado.

- O que você tem a ver com isso? Porque se importa? - ela gritou de volta, tentando soltar-se. - Está me machucando!

- Não, Mayra. Quem está te machucando é você mesma. - ele respondeu num tom baixo que foi capaz de fazê-la sair do ataque de raiva. - Não percebe que está deixando os dois ganharem se começar a se depreciar do jeito que eles te depreciam? - ele perguntou, afrouxando o aperto nos braços dela para poder acariciá-los.

- Eu nunca me superestimei, Kaiba. Eles não falaram nada que eu já não soubesse.

- Você não é um brinquedo, Mayra. Não é uma prostituta. Tem que tirar isso da sua cabeça. - ele meneou a cabeça, desapontado.

- Você tem razão, Kaiba. Eu não sou mais uma prostituta.

Ele sentiu a irritação voltar.

- Você nunca foi uma. - desta vez ergueu as mãos para segurar o rosto dela. - Quantas vezes vou ter que dizer isso para você acreditar?

- Nenhuma, porque eu nunca acreditarei nisso.

Desta vez foi ele quem fechou os olhos, rogando por paciência.

- Admito que a sua ingenuidade foi um desafio no começo, mas não sei porque você cismou que eu só gostei de você por este motivo. Você é muito mais do que um corpo. - ele comentou, enquanto tentava controlar a raiva.

- Jura? - ela perguntou, cínica. - Porque eu sempre pensei que não passaria de uma prostituta na sua cama.

A pouca paciência dele se esvaiu.

- Mayra, você está pegando pesado no que diz... - avisou.

- E daí? Eu não ligo! - ela se afastou dele, andando pelo quarto. - EU-NÃO-LIGO! - gritou. - Não ligo pra você, pra Frau, pra minha avó, pra NINGUÉM! Pedi pra me deixar sozinha, foi você quem quis ficar! Agora aguenta! - disparou, furiosa.

Diante do silêncio e do olhar pesaroso dele, a respiração dela foi aos poucos voltando ao normal. Uma bomba precisa de combustível para continuar explodindo, e ele não pretendia alimentar a bomba dela.

- Você é muito forte, Mayra. - Seto murmurou, com um olhar triste. - Não enfraqueça agora.

Pega de surpresa, ela arregalou os olhos.

- Forte, eu? - repetiu, e depois voltou ao modo sarcástico. - Você está pirando, Kaiba.

- Não, não estou. - ele respondeu, convicto. - Sei muito bem do que estou falando.

Ela apenas revirou os olhos e lhe deus as costas. Que ele achasse que ela era forte! Ela não se sentia nada forte naquele momento, enquanto mais lágrimas inundavam seu rosto. Definitivamente ele estava louco!

- Mayra... - ela ouviu o chamado, mas não se virou. Segundos depois, dois braços a envolviam num abraço forte. Ela sentiu Kaiba apoiar o rosto em seus cabelos. - Você esteve num orfanato e sofreu muito enquanto esteve lá. Também sofreu na mão de sua família. Teve que enfrentar tudo isso sozinha, já que todos se afastaram ou foram obrigados a se afastar de você.

- E daí? - ela murmurou, chorosa, entre um soluço e outro.

- E daí que você está aqui, meu bem. - ele respondeu, depositando um beijo suavemente num dos ombros dela.

- Você também está. - ela replicou, sentindo a força da torrente de lágrimas aumentar.

- Sim, eu estou. - ele apertou o abraço ao redor dela. - Mas existe uma diferença substancial entre você e eu.

"Sim, existe", ela pensou. "Você não tem medo das coisas, mas eu tenho". Virou-se dentro do abraço para fitá-lo.

- Que diferença?

- A maneira como encaramos as coisas. - ele respondeu, olhando fundo nos olhos dela. - Eu fui parar num orfanato quase com a mesma idade que a sua. Tinha um irmão mais novo que dependia de mim pra sobreviver. Também não tinha amigos lá, e os funcionários do lugar eram horríveis. Quando Gozaburou apareceu, eu agarrei a chance de sair de lá e levar Mokuba comigo com todos os dentes.

- Você fez o que tinha que fazer. - ela respondeu, convicta. Ele sorriu ao perceber que ela se preocupava com ele.

- Sim, eu fiz. - murmurou, acariciando levemente o rosto dela. Viu-a fechar os olhos e pensou em quão importante e reveladora aquela conversa seria. - Mas eu me tornei uma pessoa amarga. Fechei as portas para muitas pessoas que me pediram ajuda depois que enriqueci. Acreditavam que todos eram cínicos e interesseiros, exatamente igual ao que eu me tornara.

- Você não é interesseiro. - ela protestou.

- Sou sim, quando se trata de negócios. Mas você mesma viu como eu lidei com você e o pessoal quando vocês chegaram. Eu perdi a fé nas pessoas. - ele completou, baixo.

- Você passou por muita coisa ruim quando era muito jovem. - ela justificou.

- Você também. Mas você não é amarga, Mayra. Não. Você é tímida, é retraída, gosta de passar despercebida e se esconder debaixo de roupas folgadas porque tem medo de que notem você. Mas você não é sarcástica, não destrata ninguém. Consegue sorrir e ser gentil.

Ela sentiu o clássico "algo entalado na garganta".

- Kaiba...

- Você tem medo de que algum homem a note e goste de você. Tem medo de que isso a leve de volta ao passado, quando você foi violentada por aquele maldito. - continuou ele, sentindo o sangue ferver lentamente de raiva, principalmente quando a ouviu soluçar de novo. - Foi por isso que nunca quis dormir comigo.

Ela não podia dizer mais nada. Apenas assentiu.

- Admito que no começo eu a procurei por diversão. Você era uma funcionária, e por mais que eu a achasse muito desejável, eu tinha meus próprios códigos de ética profissional. Pretendia apenas provocá-la pra ver até onde você aguentava. Adorava vê-la corar, achava divertido. Eu a rotulei como virgem patética e recalcada.

Ela tentou instintivamente fugir do abraço dele ao ouvir aquilo, mas não conseguiu. Ele a apertava forte, e os olhos azuis que encaravam os seus eram determinados e límpidos.

- À medida que fui convivendo com você, porém, descobri que era mais que aquilo. O modo como se entregou de coração ao projeto foi o primeiro sinal. Aquela conversa que tivemos no seu apartamento sobre o projeto foi outro. Você deixa uma faceta mais expansiva sua tomar conta quando está trabalhando, sabia? - ele comentou, sorrindo. - Seu rosto se ilumina.

Ela sentiu-se corar. Baixou o rosto.

- Acho que foi quando eu comecei a gostar mesmo de você. As outras provocações foram maiores, mais bem-planejadas, e eu acabei deixando minha ética profissional de lado com você. E então finalmente convenci você a me dar uma chance. - ele riu.

Ela riu baixinho, sentindo que parava lentamente de chorar, absorvida na conversa dele. Seto sentou-se numa cadeira e puxou-a, fazendo-a sentar-se em seu colo. Enlaçou-a pela cintura com o braço e segurou seu rosto com o outro.

- Não sei quanto tempo levamos até que você relaxasse mais com os meus toques, mas era compensador quando eu voltava na noite seguinte e sentia que sua resistência havia diminuído.

- Você era bem insistente. - ela comentou, e ambos riram.

- Eu sabia o que queria. E queria você. - ele explicou, fazendo-a corar de novo. - Mas enquanto ficávamos só na conversa, eu tive de me expor muito a você. Contei quase tudo da minha vida, embora nada seja mais segredo, infelizmente. - comentou, irônico, fazendo-a sorrir.

- Você e Mokuba se mantiveram unidos. É isso que importa.

- Eu tive que lutar muito pra isso, Mayra. Perdi as contas das vezes em que tentaram separar Mokuba de mim. Tive que feri-lo muito no processo também. Vocês dois são bem parecidos. - ele comentou, carinhosamente passando o dedo sobre os lábios dela. - Ambos foram muito machucados por pessoas que amavam, intencionalmente ou não, mas passaram por isso e sobreviveram. E ainda conseguem ser maravilhosos a seu modo.

Ela esbugalhou os olhos, atônica. Nunca o vira fazer um elogio tão profundo a alguém, que dirá a ela.

- Kaiba...

- Deixe-me terminar. - ele pediu, e ela respirou fundo, assentindo. Kaiba sorriu. - Estou acostumado a tratar Mokuba de maneira diferente da que trato os outros. Mokuba é a única coisa na minha vida que realmente importa. Ou era. - ele sorriu. - Me acostumei a protegê-lo, talvez de forma tão extrema que até hoje sou meio neurótico com o tempo que ele passa longe de mim. Mas descobri que eu sou capaz de arrancar meus cabelos por mais uma pessoa.

Ela apenas o fitou, sem a capacidade de falar-se ou se mover.

- Descobri que há uma pessoa que mexe muito comigo. Ela consegue me deixar curioso, furioso, preocupado, saudoso... - ele disse, apertando mais o abraço e fazendo com que seus rostos se aproximassem. - Essa pessoa conseguiu me deixar puto quando se recusou a usar meu primeiro nome, e quando me disse que eu era menos que um amigo. Depois começamos a namorar, mas ela não quis trocar o tratamento mesmo assim. Depois terminamos, e eu senti uma falta tão grande dela que comecei a tratá-la mal apenas por medo de me aproximar demais.

- Kaiba, você está se equivocando...

- Não, não estou. Só que a diferença entre esta pessoa e o meu irmão, é que por ela eu sinto desejo também.

Mesmo que ela já soubesse disso há tempos, May corou violentamente. Ele não estaria fazendo aquele discurso todo somente para dizer que a desejava. Engolindo seco, ela recuperou a voz.

- Aonde você quer chegar com isso?

O braço dele ao redor da sua cintura se apertou, enquanto o rosto dele quase se colava ao seu.

- Você ainda não percebeu? - Kaiba perguntou, sorrindo. - Eu estou dizendo que amo você.

Mais uma vez os olhos dela se arregalaram, e ele achou que ela parecia adoravelmente inocente naquele momento.

- V-Você... Você o quê? - ela chacoalhou a cabeça, pensando ter ouvido errado.

- Eu amo você. - ele repetiu, firme.

Ela meneou a cabeça.

- É impossível. Você está confundindo as coisas.

- Não, não estou. Tive tempo suficiente para ponderar a respeito.

- Mas...

- Não existe mas. - ele a interrompeu, e ela o encarou, ainda surpresa. - Eu tenho tido sentimentos conflituosos em relação a você há muito tempo. Desejo está presente, é óbvio. Mas eu jamais perseguiria uma mulher do jeito que eu te persigo por desejo, Mayra.

A morena abriu a boca para falar algo, mas não conseguiu. Fechou-a novamente.

- Eu nunca pensei que fosse me ver apaixonado por uma colegial que fazia tipo de difícil e inalcançável. Eu nunca precisei pedir por companhia feminina, Mayra. Poderia ter desistido de você e satisfeito meu desejo com outra mulher qualquer. Eu o fiz uma vez. - ele lembrou, e a imagem de Valerie se formou na mente de ambos. - Mas descobri quando acordei no outro dia que não havia sentido prazer nenhum. Fora puramente físico.

Ela desviou o rosto, constrangida, mas ele o segurou de novo, fazendo-a encará-lo.

- Eu transei com Valerie pensando o tempo todo em você. - ele revelou, irritado por ter ido tão fundo em suas confissões. Não era de seu feitio desnudar sua alma daquele jeito, mas... Olhou para ela e descobriu que não se importava que ela soubesse, ele apenas queria dizer-lhe aquilo. - Eu fiz de Valerie minha prostituta, Mayra, porque enquanto meu corpo exigia tudo e mais um pouco dela, minha mente focava-se em você, por mais que eu tentasse esquecê-la.

- Você estava magoado comigo. Não me surpreende que não me tirasse da cabeça. Eu também fiquei praguejando contra você e contra mim mesma durante toda aquela noite.

- Concordo. – ele resmungou, lembrando que naquela noite se sentira falsamente vitorioso por ter uma mulher sob si que obedecia a todos os seus comandos... ao contrário de uma certa morena. – Mas você acha que é do meu feitio perseguir uma adolescente que deixou claro que tem nojo de mim por três meses?

Ela teve que negar aquilo.

- Não. Você gosta de mulheres mais velhas e liberais. – ela admitiu.

- Então você terá de concordar comigo também que não foi apenas desejo que me moveu até você esse tempo todo.

Ela respirou fundo e, nervosa, assentiu.

- Eu fugi de você depois daquilo como o diabo foge da cruz, Mayra. – ele respondeu, e ela lembrou que o mês seguinte ao fim do namoro deles fora passado quase que completamente longe um do outro. – Eu queria evitar você para que pudesse pensar com clareza. Sem a influência dos hormônios.

Ela assentiu, compreendendo. Incrivelmente, ela sempre conseguia deixar os hormônios dele em ebulição quando estavam perto um do outro.

- Bem... – ele continuou, sorrindo. – Descobri que sentia falta de você. Daquele enorme número de conversas que tivemos para que você me conhecesse melhor e relaxasse comigo. Fazia muitos anos que alguém não estava interessado em me ouvir daquele jeito. A não ser o Mokuba, claro.

Os dois trocaram um olhar cúmplice, lembrando das risadas e experiências trocadas naquelas ocasiões, e May não sentiu nenhum desconforto quando o abraço em sua cintura apertou-se.

- Pensei que era simplesmente comodismo, que havia me acostumado a ter você por perto e nada mais. Mas não era bem assim. – ele continuou, acariciando-lhe o rosto. – Eu passei a sonhar com você toda noite. – e, diante do olhar chocado dela, ele riu. – É, você tem mais poder sobre mim do que pensa.

- Mas, Kaiba...

- Espere. Eu ainda não terminei. – ele pediu, silenciando-a. – Depois de um mês em que te vi muito pouco, fui informado do tal evento aqui nos Estados Unidos que cairia exatamente no dia do meu aniversário e, embora eu odeie datas comemorativas em geral, era uma grande chance de aumentar as vendas. Mas ao vir para cá, comecei a descobrir mais coisas do seu passado.

Ela enrijeceu novamente. Ele acariciou suas costas, tentando acalma-la.

- Descobrir o seu passado me deixou muito perturbado. – ele disse, sério, os olhos fitando o nada. – Eu tinha aquela imagem de virgem recalcada sua, e jamais pude estar tão errado em toda a minha vida. Você não era uma adolescente pudica. Você havia sido estuprada e agredida quando tinha dez anos e então desenvolveu um medo enorme de manter até mesmo amizade com homens. E isso de repente explicava tudo o que nós havíamos passado desde o começo, mesmo que de uma maneira muito sórdida. Você nunca encontrou prazer nos braços de um homem, só conheceu a violência e a decepção.

Ela assentiu, sentindo os olhos molharem de lágrimas novamente. Os soluços começaram a aparecer.

- A mudança de ambiente no Japão a deixou mais à vontade consigo mesma, pois você sabia que não veria nem sua avó nem aqueles dois estupradores se virasse uma esquina, e então você construiu uma nova vida para si, esqueceu o passado. Mas mesmo assim ele sempre interferiu na sua vida. Você passou anos sem ter contato com sua família na América até que o colégio pediu um estágio. Então você lembrou que já era dona de uma multinacional bilionária e que não precisava de um estágio. E aí você contatou Edward.

Ela estava tão surpresa com a análise quase perfeita dele que sua voz falhou mais uma vez.

- Você não gostou de ter que voltar aos Estados Unidos por "obrigação" profissional. Mas resolveu enfrentar a situação e terminar de vez com o poder que sua avó e Malakai ainda tinham sobre você. E eu me sinto feliz por isso. – ele sorriu. – Mas quando você caiu de febre no primeiro dia e eu finalmente descobri o seu passado, Mayra, eu fiquei tão perturbado que acabei fugindo não só do seu quarto, mas da própria mansão Terrae.

Ela o olhou, estupefata.

- Sério?

- Sério. – ele sorriu. – Passei toda a noite fora, rodando pela cidade, tentando ordenar os pensamentos. Eu estava pesaroso e furioso ao mesmo tempo. Queria matar aquele trio idiota e manda-los pro quinto dos infernos. E me sentia culpado por não ter estado lá para proteger você como eu protegia Mokuba.

- Você não teve culpa de nada, Kaiba. Ninguém poderia tê-los impedido. – ela meneou a cabeça, resignada. – Não se sinta culpado.

- Eu sei disso, mas é irracional. – ele respondeu, voltando a ficar sério. – Foi então que eu percebi a extensão dos meus sentimentos por você, Mayra. Eu estava louco para voltar pro Japão e levar você comigo, e te proibir de pisar nesse país miserável de novo.

Ela sorriu, sentindo-se necessária. Não conseguiu deixar de corar, entretanto.

- Você consegue me deixar encabulada como ninguém. – ela resmungou, rindo.

- E você consegue fazer meu coração bater mais rápido. – ele respondeu, encostando o rosto no dela de novo até que seus narizes se tocassem. – Eu amo você. É tudo que eu posso dizer.

Ela sentiu a respiração parar enquanto erguia os braços para segurar o rosto dele entre as mãos.

- Eu... não sei o que dizer. – respondeu, num sussurro.

Ele também respirou fundo antes de continuar.

- Você precisa se libertar antes de conseguir viver alguma coisa com quem quer que seja. – ele respondeu, sério, descolando o rosto do dela. – Se você decidir que quer viver isto comigo, Mayra, é só me avisar.

Ela o encarou por alguns segundos, enquanto pesava suas palavras. O modo como fugira de todos e o tratara indicava que ainda se deixava afetar pelo que sua avó ou Malakai faziam. Por isso ela se sentia fraca. E por isso não conseguia definir o que Seto Kaiba representava para ela.

- Me desculpe... – murmurou, levantando-se para deixa-lo erguer-se também.

- Não preciso de desculpas. – foi tudo que ele disse.

Ela viu nos olhos azuis as chamas de carinho, preocupação, ansiedade. Ainda estava confusa sobre se aquilo era realmente amor ou não. Mas se não fosse, o que seria?

- Kaiba, eu...

- Ah, tem isso também. – ele lembrou-se, sorrindo com amargura. – Não vou aceitar que me chame mais pelo meu sobrenome, Mayra. Quando voltar a falar comigo sobre isso, será para usar o meu primeiro nome.

Ela abriu a boca para falar algo, mas descobriu que não havia nada a dizer. Aquilo feriu Seto mais do que qualquer outra coisa que ela tivesse dito naquela noite. Aquela intuição dizendo que a perderia, afinal, estava certa. Deixando-a confusa e triste, sabendo que mais nada poderia fazer, ele virou e saiu, fechando a porta.

Ela sentiu os olhos marejarem novamente, o coração começar a bater mais rápido e a cabeça querendo explodir. Sem saber mais o que fazer, deixou seu corpo cair na cama e ali ficou.

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