- Capítulo Vinte e Oito -


N/A: Será que adianta pedir desculpas pela demora? Eu tive um sério problema com a minha linha telefônica e, como minha internet em casa é discada, não pude acessa-la nem postar novos capítulos. Espero que não dê bronca de novo. E obrigada por todos os reviews que recebi nesse meio-tempo! C-ya, guys!

Ela estava fugindo. Não existia palavra melhor para definir a situação. Não voltou à festa depois que Kaiba abandonou seu quarto. Não voltara a falar com Michele, nem com ele, e Kali parecia ter tido um ataque de raiva contra ela. Tinha que ter ido a uma reunião da família no sábado após a festa, mas acabou fugindo de casa. Teve que se esforçar para conseguir o endereço de Kai, mas cá estava ela, hospedada com o amigo por "uns dias".

Agora já era terça-feira, vinte e quatro de outubro, e ela não sentia a mínima vontade de rever ninguém ainda.

- Lizzie, você não pode ficar se escondendo aqui pra sempre... - Natalie, que viera lhe fazer uma visita pois era a única que sabia aonde ela estava, comentou.

Ambas estavam de camiseta e short, esparramadas no sofá de Kai com refrigerante e pipoca à vontade. Na TV passava um filme de comédia que concorrera ao Oscar no ano anterior, mas nenhuma delas estava realmente prestando atenção.

- Eu não estou afim de voltar pra Green Village, Nath. - a morena replicou, meneando a cabeça.

- Eu sei, mas não precisava desaparecer também, né? - a loira respondeu, sorrindo. - Aliás, como é que a CIA ainda não veio bater na porta do Malakai?

- Ah... - May riu ao ouvir a pergunta. Um riso que ela não dava há dias. - Tia Michiko me fez um grande favor quando me levou para o Japão. Ela não só me tirou das garras de Elizabeth e do pai do Kai, como me emancipou nos Estados Unidos.

- O quê? Você se tornou legalmente responsável por si mesma aos doze anos de idade? - Natalie estava estupefata.

A brasileira deu de ombros.

- Eles não podiam recusar. Eu estava mentalmente em frangalhos por causa da minha família. Não seria saudável me deixar com nenhum deles. Além do mais, o dinheiro passou todo para o meu nome depois que papai morreu. Ela propôs que eu me emancipasse no país, mas ela me levaria para o Japão, onde a justiça é muito mais cuidadosa com a constituição de famílias. Eles nunca me emanciparam lá, para eles a família está acima de tudo. Então os juízes aqui se acalmaram.

- Sei. Por isso ela conseguiu sua guarda tão rápido. Adoção é um processo lento, pode levar anos. - a loira comentou, pois havia ela mesma passado bastante tempo esperando uma família amorosa.

- Teoricamente, ela não me adotou. Ela apenas aceitou me "tutorar" fora do país, onde eu teria estabilidade emocional para crescer como uma "criança saudável". - ela ironizou, apanhando um punhado de pipocas e jogando na boca.

- É, infelizmente a justiça daqui ainda vê crianças que sofreram abusos exatamente como crianças. - Natalie resmungou, pegando mais pipoca também. - Eles não entendem que depois de sofrer um estupro, nós deixamos de pensar como crianças, de agir como elas.

May não era exatamente aberta ao assunto, mas ela e Natalie já havia conversado sobre isso naquela detenção anos atrás. Fora a força da situação que as uniu. Talvez a loira à sua frente fosse a única pessoa com quem ela se sentia confortável o suficiente para falar, e por isso mesmo ela respondeu:

- Eles nunca sofreram o que nós sofremos. - deu de ombros, desalentada.

- Isso é verdade.

- Espero que um dia as pessoas se conscientizem mais disso. Os psicológos querem que a gente volte a ser criança, mas é impossível. Você nunca mais recupera a "inocência infantil"... - a morena comentou, pensativa.

- Mas você ainda é inocente! - Natalie afirmou, rindo apesar do assunto ser sério.

- Eu? - May replicou, surpresa. - Eu não!

- Você ainda é inocente sim, Lizzie. - Natalie repetiu, segurando as mãos da amiga entre as suas. - Boba e ingênua você não é, mas inocente, sim. Você ainda acredita no bem que existe nas pessoas. Ainda acredita que pode fazer o mundo melhor. Consegue se relacionar bem com seus amigos, rir, sair de casa. Isso exige muita coragem, muita força.

A brasileira involuntariamente lembrou de Kaiba lhe falando a mesma coisa. Ela não se achava tão forte quanto os outros pareciam pensar que ela era.

- Não sei, Natalie, não sei mesmo... E você está fazendo a mesma coisa. - ela adicionou, sorrindo.

- Tive sorte de achar um homem que me tratasse bem e que tivesse paciência suficiente para me esperar. - ela replicou, referindo-se a Daniel.

May se viu pensando novamente em Seto Kaiba. Certamente ele era bastante insistente e não havia deixado uma única abertura para que nenhum outro rapaz a paquerasse (e ele sabia, como já havia dito a ela algumas vezes, que Hiroki e Mokuba eram "balançados" por ela), mas não exatamente a esperara. Afinal, Valerie havia passado uma noite com ele, não é mesmo?

- Natalie...

- Sim? - a loira, que estivera observando as mudanças de expressão no rosto da amiga, sorriu e a incentivou a continuar.

- Se você e o Daniel brigassem... Brigar mesmo, de acabar com o namoro... e ele corresse pros braços da ex no mesmo dia, bêbado, querendo se vingar de você ou coisa do tipo... O que você faria?

A loira sorriu.

- Tecnicamente ele não teria me traído, já que nós teríamos acabado tudo logo antes. Não poderia acusá-lo de traição.

- Sim, mas ele estava querendo te atingir de qualquer forma. Fazer isso na noite em que vocês terminaram é canalhice. - a morena retrucou, desconfortável.

- Não necessariamente. - Natalie retrucou, risonha. - Ele estaria bêbado, puto da vida comigo, mas estava machucado também. Um namoro pode ser casual para a maioria das pessoas, mas gente como nós, que sofremos tanto por causa de homens, não namora casualmente.

Ela parou um pouco, pensativa, antes de continuar:

- Nós somente nos envolvemos quando confiamos plenamente naquela pessoa, quando a queremos tanto que conseguimos esquecer os horrores do passado ao lado dela. Exigimos o mesmo dessas pessoas, entretanto: uma entrega total.

May teve que concordar. Quantas vezes ela não "negara fogo" a Seto Kaiba por não confiar plenamente nele? Muitas.

- Sei que você deve estar irritadíssima com ele por causa dessa "traição", querida, mas ele ama você.

A morena arregalou os olhos.

- Como você sabe?

- Pelo jeito como vocês interagiram na festa. – a loira sorriu, complacente. – Lembre que eu já passei por todo o processo antes de você...

- Na verdade, Natalie, nós dois não devíamos estar juntos. – May respondeu, lembrando de Bastet e Seth. – Desde que nos conhecemos, éramos inimigos, sabe? Extremos opostos. E não me venha com aquela de "opostos se atraem" porque isso só é válido para eletricidade e magnetismo.

- Não é porque vocês começaram com o pé errado que têm que continuar com o mesmo pé. – a amiga contrariou. – Isso é um pensamento ridículo. Imagina se todo mundo que de cara te detestasse nunca te desse uma chance de provar que você é legal?

- Eu sei, eu sei... – May resmungou, um pouco chateada. – É que a gente sempre se machuca. Nós mais brigamos, discutimos e tiramos um ao outro do sério do que namoramos ou fomos amigos. Discussões seriíssimas, às vezes.

- Todo relacionamento tem seus altos e baixos, Lizzie, e os nossos principalmente. Daniel e o Kaiba precisam vencer nosso medo. Eles querem fazer exatamente aquilo que mais nos apavora, e mesmo sabendo que eles não vão nos estuprar, nosso inconsciente luta contra essa possibilidade. O fato de você machucá-lo, e ele a você, é parte do processo pra que você perca o medo.

- Como assim? – ela perguntou, confusa.

- Que tenta fazer algo às vezes quebra a cara, Lizzie. O fato de você estar sentindo dor, ressentimento, qualquer coisa, significa que ele está tentando provocar uma reação sua, uma reação que indique que você o ama do jeito que ele ama você, que confia nele para qualquer coisa.

May negou.

- Eu tenho medo.

Natalie semicerrou os olhos, fazendo linhas na testa.

- Medo de quê, querida?

- De estar confundindo as coisas. – ela respondeu, mas quando viu a expressão confusa no rosto de Natalie, explicou melhor: - Eu acho que estou fazendo uma transferência de afeição, sabe? Como meus pais morreram, e eu não sou exatamente dependente da tia Michiko emocionalmente, eu acabei transferindo essa necessidade de autoridade, segurança, pra ele, eu acho... Como se eu quisesse que ele agisse como meus pais agiam comigo.

- Entendo... Você acha que o ama porque vê nele alguém que cuidaria de você e te protegeria, não é? – a morena assentiu, respondendo à pergunta da outra. – Mas existe uma coisa que diferencia o Seto Kaiba dos seus pais, Lizzie... Você não desejava seus pais, obviamente, mas você o deseja mais obviamente ainda.

A estrangeira assentiu, ficando vermelha.

- Mas podem ser só hormônios. – ela defendeu-se, lembrando quantas vezes falara aquilo mesmo para o próprio Kaiba.

- Pare para pensar, Lizzie: você iria tão fundo numa relação com ele se fossem só hormônios?

Ela nem precisou pensar muito.

- Não.

- E você consegue imaginar uma vida sem ele? Sem contato absolutamente nenhum?

May observou a amiga loira por um tempo, surpresa com a pergunta, depois fechou os olhos, tentando vizualizar uma situação como aquela. Talvez, se ela voltasse para os Estados Unidos, assumisse as empresas da família ou resolvesse fazer qualquer outra coisa... Kaiba odiava os Estados Unidos, dificilmente o encontraria se voltasse ao país que chamava de casa.

Mas havia um pequeno problema.

- Eu consigo ver, Natalie, mas... Não sei, me dá uma sensação de vazio ao pensar nisso. – ela se abraçou, sentindo pequenos arrepios a percorrer-lhe a espinha. Seria aquele o destino dos dois?

Natalie sorriu, satisfeita, e então proferiu sua última pergunta:

- E se ele morresse, Lizzie? O que você sentiria?

Ela tentou mais uma vez imaginar um mundo sem o japonês de olhos frios. Só que, desta vez, ele estava morto. Na outra visualização ele ainda vivia, e de certa forma aquilo a acalmara. Mas um mundo onde não haveria absolutamente nenhuma possibilidade de vê-lo era surpreendentemente sem-graça. Ela sentiu seus olhos encherem de lágrimas ao imaginar uma cova com lápide de mármore, escrita com o nome dele e a data de sua morte.

- Eu...

Mas ela foi interrompida pelo barulho de chave na fechadura. Quando esta se abriu, revelando não só Kai como Michele, ela sentiu-se levemente desconfortável. Ainda não estava pronta para enfrentar a família. Mas foi a pessoa atrás de Michele que fez seu coração bater mais rápido, a boca secar e um repentino rubor subir-lhe às bochechas.

- Eu demorei cerca de trinta e seis horas para pensar na possibilidade de você estar hospedada com Malakai. – os olhos azuis, normalmente indiferentes, estavam furiosos. – Levei mais um ou dois dias para arrancar dele a confissão, e então viemos para cá. Agora será que dá pra explicar que palhaçada foi essa?

Seto estava tão irritado que nem percebeu que voltara a falar em sua língua nativa. May, para evitar um embaraço maior, resolveu responder no mesmo idioma.

- Eu precisava de uma folga. – replicou em japonês, e percebeu que a irritação dele cresceu.

- Precisava fugir e deixar todo mundo louco de preocupação por causa disso? – ele argüiu, irado.

- Escute, Kaiba, eu...

- Quieta! – ele ordenou, e ela arregalou os olhos, surpresa.

Quando o viu se aproximando, ergueu-se num pulo. Não chegou a recuar, entretanto, e logo ambos estavam face a face. Os outros observavam a cena confusos e um pouco atordoados. Ela, entretanto, não estava disposta a aceitar aquela grosseria calada.

- Quieto fica você! – ela berrou, tão irritada quanto ele. Os olhos azuis se prenderam aos dela e uma nova guerra começou a ser travada através dos olhares.

- Você é uma criança imatura e completamente estúpida! – ele comentou, e ela sentia a raiva dele fervendo através da Junção.

Não tinha dúvidas, porém, de que ele sentia a dela igualmente.

- O que é que você disse? – ela desafiou, cruzando os braços sobre o peito.

- Que você é imatura e estúpida. Alguma mentira? – ele também cruzou os braços, sério.

- Tudo nesta frase é mentira! – ela respondeu, ofendida.

- Então como você explica sua total falta de consideração com amigos e familiares que passaram quase quatro dias sem notícias suas, preocupados que houvesse acontecido algo sério? – perguntou, sentindo o sangue correr mais rápido devido à raiva. – Como explica sua inabilidade de dar um telefonema sequer para acalma-los e informar seu paradeiro?

O rosto dela empalideceu e depois voltou a enrubescer.

- Eu sou emancipada na América, se você não sabe. Não devo explicações do que faço a ninguém.

- Ah, claro, e como fico eu? Ia voltar ao Japão e dizer à sua tia que não sabia aonde você havia se metido? Ia sofrer um processo da justiça já que você só teve autorização para viajar porque eu tinha me responsabilizado por você?

Ela desviou os olhos dos olhos dele.

- Me desculpe por isso. Não estou com a cabeça muito boa nos últimos dias. – murmurou, encabulada.

A mudança de atitude parecia ter amainado a fúria dele. Ela o ouviu respirar fundo e pigarrear antes de voltar a falar baixo e em inglês.

- Ainda por cima deu àquela mulher estúpida que você chama de avó a satisfação de saber que você está fugindo dela.

Ela voltou a olhar para ele, e em seguida lançou um olhar para Michele. Ainda estava desapontada com a irmã por ter contado a ele sobre seu passado.

- Não pude evitar. – respondeu em inglês também, jogando-se no sofá.

- Nós entendemos que você esteve sob muita pressão nesta última semana, Lizzie, - Kai começou, conciliador. – mas só existe uma maneira de fazer Elizabeth parar.

- Eu sei... Mas eu não queria chegar a esses extremos. – ela suspirou, fechando os olhos.

Michele fez menção de se aproximar, mas depois resolveu que não o faria. Olhou diretamente nos olhos da irmã mais nova enquanto falava:

- Eu nunca entendi, Lizzie. Mesmo quando papai e mamãe estavam vivos, ela nunca ligou para você. – comentou, e sentiu que a irmã se machucava ao ser lembrada daqueles fatos. – Ela sempre te acusou de trazer azar, além de outras coisas. – ergueu uma sobrancelha, recebendo um olhar condoído da irmã. – O que te fez adorar tanto uma pessoa que sempre te quis mal?

A morena observou todos. Ninguém falava nada. O grupo inteiro parecia curioso para ouvir a resposta.

- Por causa de uma boneca. – ela respondeu, surpreendendo a todos.

O murmúrio geral começou instantaneamente, e quem pôs fim a ele foi Natalie.

- Ei, gente, calma! – quando finalmente todos calaram-se, ela voltou a observar a amiga. – Dá pra explicar melhor?

Ela assentiu, respirou fundo e olhou para Michele:

- Lembra de uma bonequinha que eu tinha chamada Emília, feita com retalhos de pano, toda colorida e cheia de trancinhas?

- A que a mamãe te deu? - ela perguntou, e a mais nova assentiu. - Lembro, sim. Você ficou arrasada quando o Brutus rasgou ela toda.

- Brutus era um dos cães de guarda da mansão. - ela explicou aos outros. - Um dia eu estava brincando com a boneca no jardim quando fui chamada pra entrar, e acabei esquecendo a pobrezinha do lado de fora. Os cães são soltos de noite, e o Brutus farejou a minha boneca e rasgou com os dentes.

- Pobrezinha! - Natalie exclamou, companheira. - É muito ruim para uma menina perder a boneca preferida.

- Sim, eu fiquei arrasada. Lembro que chorei por dias seguidos. Eu tinha uns quatro anos na época, o vovô James ainda era vivo. Só sei que depois de uns quatro dias, quando a mamãe e o papai já tinha comprado todas as bonecas da cidade e ainda assim eu continuava chorando, ele apareceu no jardim onde só eu estava e trouxe a boneca de volta inteira.

Michele estranhou.

- Tem certeza? Nunca mais vi aquela boneca depois que o Brutus acabou com ela.

- Ele me pediu para não dizer a ninguém que a boneca tinha sido concertada. Disse que a vovó a tinha costurado pra mim, segundo ele dizendo que "acabou com a minha paciência ouvir a pirralha chorando todo dia", e que ela tinha pedido a ele pra me entregar sem dizer quem tinha costurado ela.

- E você se baseou em uma ocasião de um milhão pra decidir se gostava da velha ou não? - Seto escarneceu, sem acreditar.

May franziu o cenho, desapontada.

- Não é você mesmo que me chama de ingênua? - ela apontou, e ele pigarreou antes de voltar a falar.

- Mas aí já é ingenuidade demais! Você sofrer como sofreu nas mãos de Elizabeth e ainda assim se fiar numa lembrança remota, provavelmente a única boa que você tem em relação a ela, para manter um afeto irracional por ela? Que tipo de loucura é essa?

A menina sentiu seu coração entristecer.

- Não sei, eu acho que desenvolvi um tipo de dependência em relação a ela desde criança. - respondeu, puxando as pernas para cima do sofá e abraçando-as, pousando a cabeça nos joelhos.

- Isso é suicídio, Mayra... - Kaiba murmurou, um tanto quanto pesaroso por ela.

- Eu sei, mas a gente não escolhe de quem vai gostar, não é? No coração não se manda. - ela replicou.

Os dois se encararam em silêncio mudo por breves segundos antes dele endireitar a coluna e endurecer o olhar.

- Sinto muito por você, mas sua vida só vai voltar a seguir em frente quando você cortar relações com ela. - ele comentou, neutro, mas graças à Junção ela podia sentir o pesar dele em ter que lhe dizer isso. - Esta mulher vai continuar a machucar você sempre que tiver uma oportunidade. A única solução é cortar as oportunidades.

- Eu sei... - ela repetiu, sentindo-se desalentada. Alguma coisa dentro dela ainda tinha esperanças de fazer a avó vir a gostar dela de verdade.

Kaiba ficou ainda mais desconfortável.

- E não vai ser fugindo dela que você vai resolver a questão. - concluiu, sério. - Você precisa descobrir de quem gosta mais: dela ou de você.

E saiu do apartamento, deixando para trás um clima tenso. Todos voltaram a olhar para ela, que apenas fechou os olhos, dizendo a si mesma mais uma vez que era uma boba e uma fraca.

- Lizzie... - estando somente ela, Natalie, Michele e Kai no apartamento, a cantora parecia disposta a falar mais abertamente. - Eu acho que eu tenho uma idéia.

- Idéia? - a morena e sua irmã perguntaram juntas, curiosas.

- Sim, uma idéia para você se afastar da sua avó sem machucar mais ninguém. - Natalie confirmou, esperançosa.

- Então nos conte. - pediu Michele, e a meia-hora seguinte foi preenchida por tudo menos silêncio.

Wishes

No final do dia, estavam todos reunidos para mais um jantar na mansão Terrae. Era a penúltima noite dos visitantes japoneses, então, mesmo sem a presença da anfitriã e herdeira da família, o clima era de festa. Elizabeth também estava ali, mas era sumariamente ignorada por todos. Pela família porque toda ela conhecia o que a senhora fizera à única neta, e pelos visitantes porque todos ali percebiam que a família não gostava dela e que, desta forma, também não era recomendável se aproximarem.

Foi, então, com surpresa que viram May descer as escadas dos fundos da mansão para alcançá-los nos jardins.

- May-chan! - Mokuba gritou, e imediatamente um pandemônio se formou para chegar à herdeira foragida.

Todos pareciam querer abraçá-la e repreendê-la ao mesmo tempo, pensou Seto, divertido. Ele observava a confusão à distância, sentado em uma das mesas agora vazias. Ninguém, entretanto, parecia notar sua ausência entre a turba de Terraes e japoneses.

May, entretanto, deu um jeito de cumprimentá-los e fugir deles ao mesmo tempo e, surpreendendo todos, foi diretamente à mesa de Elizabeth, que também estivera observando a confusão de seu assento.

- Preciso falar com você. Lá dentro. - murmurou, um pouco sem fôlego.

- A foragida voltou! Não achei que você fosse tão medrosa, menina. - a mulher respondeu, zombeteira.

- Preciso falar com você agora. E você não vai gostar. Prefere que seja aqui, na frente de todo mundo, ou na privacidade do meu quarto?

Certo, aquilo parecia ter surtido efeito sobre ela. May não saberia dizer se tinha sido seu tom de voz ligeiramente agressivo ou a evidente urgência estampada em seu rosto, mas não importava: ela estava seguindo para dentro. Subiram as escadas num silêncio quase comum, rumaram pelo largo corredor sempre em frente até chegarem às últimas portas deste. A porta em frente dava para o antigo quarto de seus pais - lugar que ela ainda não visitara desde que voltara à América. A da esquerda era o quarto de Michele, e a da direita dava para o seu quarto.

Este parecia ter parado no tempo há seis anos. Mantinha exatamente a mesma decoração de quando ela deixara de usá-lo. Era absolutamente povoado pela cor rosa - paredes, colcha de cama, lençóis, travesseiros, cortinas, bichos de pelúcia, materiais escolares antigos, cadeiras, mesas... Absolutamente rosa. Até mesmo a televisão, projetada especialmente para ela, era rosa. Ela sempre lembrava do esmero de sua mãe, que via de regra adorava renovar o tema rosa de seu quarto. Talvez tivesse sido abduzida por ETs rosas algum dia, seu pai costumava brincar. A conseqüência é que ela, agora quase uma mulher adulta, era um pouco traumatizada com a cor e raramente usava uma peça de roupa rosa - atualmente o laranja era sua cor favorita.

Sua avó sempre torcia o nariz quando entrava naquele quarto, e era exatamente o que fazia naquele momento. May pensou tê-la ouvido murmurar "louca", mas resolveu ignorar.

- Pode me ouvir? - perguntou, sentando em sua cama.

- Ainda não estou surda, garota! É claro que posso ouvir!

- Não era nesse sentido, mas tudo bem... - a morena deu de ombros. - Tenho uma novidade pra você. Uma que espero que você encare bem.

A mulher ergueu uma sobrancelha, sarcástica.

- Vamos, explique-se!

- Seguinte: desde que eu voltei a pisar nos Estados Unidos e aqui em casa, você só tem me perturbado. Mesmo eu tentando deixá-la à vontade e querendo abandonar o passado, você faz questão de jogá-lo na minha cara.

- Isso é óbvio, porque eu lhe pouparia? - a senhora deu de ombros, um sorriso malévolo aparecendo em seu rosto.

- Bem, eu havia prometido a tia Michiko-

- Mulherzinha ordinária... - sua avó resmungou, raivosa, interrompendo-a.

- Eu havia prometido a tia Michiko - May continuou, mais uma vez ignorando propositalmente os xingamentos da mulher. - que só viria para cá para dar um ponto final no seu domínio sobre a minha pessoa.

Elizabeth rompeu em gargalhadas.

- Você, tomando uma atitude? Isso é a coisa mais ridícula que já ouvi! - ela exclamou entre risadas, extasiada. - Você nunca foi capaz de impor-se a mim, menina, e sabe disso muito bem.

May assentiu.

- Sim, eu devo admitir que nunca fiz esforços para mudar esta situação, mas agora é diferente.

- O que está diferente agora?

- Eu estou diferente! - a garota exclamou, levantando-se. - Eu não sou mais uma menina que não sabe o que fazer, que tem medo do que você possa fazer. Eu agora estou ciente de quem eu sou e do que sou capaz, vovó, e tenho ciência também de que não vou tolerar mais que você se imponha a mim. Eu jamais vou conseguir ser feliz enquanto você fizer isso.

- Veremos.

- Sim, veremos. Te dei uma semana pra provar que merecia que eu continuasse protegendo você da fúria da família, vovó. Você sabe muito bem que eles só não te colocam no olho da rua porque eu peço que não façam isso.

Agora ela conseguira atingir a mulher. Elizabeth mexeu-se desconfortável na cadeira que escolhera para se acomodar, indicando que ela não falava nada mais que a verdade.

- E agora você também pretende me colocar na rua, menina?

- Não. - ela respondeu, e viu a mulher respirar aliviada. Era estranho a sensação de que a vida de sua avó como ela a conhecia dependia apenas de sua vontade. - Mas também não vai mais ficar nesta casa.

- O quê?

O choque de Elizabeth era evidente. Ela realmente nunca pensara que a neta era capaz de tomar uma atitude contra ela.

- Isso mesmo. - May cruzou os braços, séria. - Você vai sair desta casa em exatamente... - olhou em seu relógio de pulso. - trinta minutos.

A mais velha empalideceu visivelmente, mas parecia ter perdido a capacidade de falar.

- Como você não demonstrou nenhuma intenção de enterrar o passado ou ser mais legal comigo, a única opção que eu tenho é tirar você da minha vida. - May continuou, e seus olhos perderam o brilho. Ela realmente sentia muito por ter que fazer aquilo. Acreditara até o último minuto que conseguiria fazer a avó gostar dela. - Liguei para um spa de luxo em Los Angeles para pessoas da sua idade. Você será uma hóspede permanente por lá. Pagarei todas as suas contas, mas haverá um limite de gastos. Se você ultrapassá-lo, terá que arranjar dinheiro sozinha.

A mulher lentamente recuperava a cor, mas continuava olhando um tanto assustada para a neta.

- Não virá às festas de família, nem às reuniões das empresas, nem passará os feriados conosco. Estará terminantemente proibida de pisar nesta cidade de novo. Se suas amigas quiserem vê-la, terão de ir vê-la no seu novo lar. - continuou, fazendo força para soar calma e dura.

- Proibida de pisar na cidade? - Elizabeth finalmente perguntou algo, e May respirou fundo.

- Sim. Malakai Maxwell também será avisado. Minha tia ainda tem todas as provas que reuniu contra vocês, então, se eu tiver de ver suas caras de novo, será para colocá-los no tribunal.

- Você não teria coragem! - a avó exclamou, espantada.

- Teria, sim. - a neta respondeu, serena. - A família realmente não se importa com o escândalo, até porque nós seríamos vistos como vítimas. Você e Malakai, além do falecido diretor do orfanato, seriam os vilões. - ela deu de ombros. - Prefere passar o resto da vida no spa ou na cadeia?

Era isso. Finalmente ela havia tido coragem de enfrentar Elizabeth. E não estava sendo mole, não. Mas as opções que dera a ela garantiriam sua paz de espírito.

- Você realmente mudou, menina. - foi tudo que a avó resmungou, antes de perguntar: - Quanto tempo ainda tenho para arrumar as malas?

Wishes

Vinte minutos depois, um carro luxuoso parou em frente à mansão. May, que estava ao lado de Elizabeth nas escadas da entrada, deu sinal a Gaspar para que colocasse as malas da mulher no automóvel. O símbolo do spa reluzia em tons metálicos, contrastando com a lataria escura. As duas olharam uma para a outra, sentindo o desconforto que sempre as perseguia quando estavam juntas. Sabendo que provavelmente aquela seria a última vez que veria a mulher mais velha, a estrangeira virou-se para ela no momento em que o motor do carro voltava a ser ligado.

- Sei que nunca superou a morte do papai, e que culpa a mim e à minha mãe por isso, mas desejo que consiga encontrar paz interior. Vovô não gostaria de ver a pessoa que você se tornou. - murmurou, pesarosa, lembrando do falecido avô.

A americana de nascimento pareceu absorver profundamente aquelas palavras, e talvez fosse a única vez em que realmente tivesse escutado parte da agonia interior que provocava na neta.

- Ele certamente gostaria de ver a pessoa em que você se transformou. - finalizou, depois de um tempo, e começou a descer as escadas em direção à sua nova vida.

May assistiu quieta enquanto o carro se afastava pelo caminho sinuoso em direção aos portões longínquos. Perdeu-o de vista logo que entrou entre os chalés, e foi só então que deixou suas lágrimas caírem. Ela realmente não queria que as coisas tivessem que terminar assim. Sentiu duas mãos carinhosas em seus ombros e logo depois foi abraçada. O perfume adocicado de sua irmã chegou-lhe ao nariz.

- Você fez a coisa certa, Lizzie. Não havia outra opção. - Michele murmurou, tentando confortar a garota mais nova.

Mesmo assim, um soluço conseguiu escapar de sua boca enquanto as lágrimas simplesmente continuavam descendo.

- Sabe de uma coisa? - perguntou, num sussurro dolorido.

- O quê? - a loira inquiriu suavemente, nervosa.

- Mesmo depois de tudo isso, eu não consigo sentir ódio por ela.

E, com essa frase, soltou-se da irmã e voltou para dentro da casa.