- Capítulo Vinte e Nove –
N/A: Preparem a música romântica! Depois de quase trinta capítulos, finalmente a hora chegou...
Seus olhos se abriram sem que nenhum estímulo consciente fosse enviado para provocar o movimento. Seus sonhos eram agradáveis, e não havia nada em seu quarto que pudesse assustá-la a ponto de fazê-la acordar. Mesmo assim, cá estava ela, bastante acordada para alguém que só despertara segundos antes.
Havia poucas horas que sua avó partira para nunca mais voltar. Olhando o relógio de cabeceira, percebeu que ainda eram onze e meia da mesma noite em que Elizabeth Terrae deixara para sempre Nova York e Green Village. E estranhamente não conseguia conciliar o sono.
Sentia-se estranhamente leve. Parecia que um peso enorme havia sido deslocado de seus ombros. Até sua mente parecia mais rápida e eficaz. E a morena achava estranho que só houvesse notado aquilo depois de se livrar da influência da americana. Realmente, a mulher mais velha estava atrasando sua vida há muitos anos.
Levantou-se da cama, cobriu-se com o robe que fazia conjunto com o baby doll que vestia e abandonou seu quarto, descendo as escadas rumo à cozinha. Glória sabia que tinha dificuldades para dormir, às vezes. Talvez houvesse deixado um achocolatado pronto na geladeira, seria só esquenta-lo. Aquilo sempre a acalmava e ajudava a conciliar o sono.
Chegou ao aposento, o único iluminado na casa àquela hora. Olhou brevemente pela janela dele em direção aos chalés: todos com as luzes apagadas, sinal de que seus familiares também já dormiam. Todos haviam respeitado seus sentimentos e a deixado em seu quarto, ruminando o fim da tormenta de Elizabeth, até que finalmente caíra no sono. Michele provavelmente entrara lá e a cobrira, pois não se lembrava de tê-lo feito antes de dormir.
Enquanto pensava se fazia as pazes com a irmã ou não, abriu a geladeira: não, não havia copo de achocolatado à espera. Resolvendo que qualquer outra coisa doce serviria (e sabendo que receberia uma bronca de Glória no dia seguinte), abriu uma das embalagens de chocolate que havia dentro do aparelho, pegou metade da barra, além de um copo d'água, e sentou-se à mesa da cozinha para comer.
Soltando um gemido de satisfação ao sentir a doçura do alimento se espalhando em sua boca, sentiu sua confusão interior dissipando-se. Agora que sua mente estava "leve", conseguia ordenar os pensamentos e emoções corretamente, ao invés de confundi-los e mistura-los como antes fazia.
Descobriu que os sentimentos ruins, como humilhação, carência, sofrimento e dor eram majoritariamente ligados às lembranças e situações em que Elizabeth estava envolvida. Isso significava que estava conseguindo voltar a encarar as pessoas – e, mais importante, as do sexo masculino – como seres humanos normais sem uma faca guardada em algum lugar que mais cedo ou mais tarde lançariam contra ela.
Descobriu, também, que desde que um certo japonês de olhos azuis se intrometera em sua vida, passara a tornar-se mais vaidosa e um pouco menos desleixada com sua aparência. May nunca seria a mais vaidosa das mulheres, mas o fato de estar voltando a se interessar por sua aparência era bastante relevante. Como Michele apontara diversas vezes naqueles últimos dias, a garota costumava ser cuidadosa com sua aparência quando era uma garota, e aquilo sumira depois que seus pais morreram. Obviamente uma maneira inconsciente de tentar passar despercebida.
'Mas ele me notou...", pensou, abocanhando mais um bom pedaço do delicioso doce. Seus sentimentos em relação a Seto Kaiba tornavam-se cada vez mais claros. Ela obviamente gostava da atenção que recebia dele como mulher, já que estava num processo de recuperação de sua auto-estima. Mas ainda se sentia confusa quanto a como deveria responder a esses carinhos.
Ele havia se declarado a ela, deixado bastante claro que a amava de verdade. Ela não duvidava da veracidade daquela afirmação, e achava até engraçado o modo como o japonês sentira necessidade de encontrar uma lógica por trás daquele sentimento. Com Kaiba tudo era daquele jeito: ou ele podia explicar com lógica, ou ele refutava. Só que May sabia que o havia encurralado contra a parede quando despertara nele tais sensações, afinal, qualquer um que soubesse um pouquinho sobre o rapaz poderia dizer que ele não fazia o tipo sentimental.
Isso somente fortificava mais a verdade da declaração. Ele não jogaria aquelas palavras ao ar por nada. E certamente a estrangeira gostava da sensação de ser amada, no sentido mais pleno da palavra. Sim, ambos haviam cometido erros naquela jornada que os trouxera ao ponto em que estavam, haviam tentado machucar um ao outro, mas depois de quase três meses, continuavam se procurando como viajantes do deserto procuram água.
Era a vez dela tentar raciocinar por trás de suas sensações. May queria entender o motivo de sentir-se tão ligada ao rapaz, mas sabia de antemão que qualquer explicação lógica seria vazia. Sentimentos não podem ser dissecados desta forma. Terminou com o chocolate e a água, deixou o copo vazio dentro da pia para ser lavado por outra pessoa e subiu as escadas novamente.
Seus passos dirigiram-se automaticamente para seu próprio quarto, mas descobriu seus olhos presos em outra porta. A última do corredor. Havia três cômodos naquela casa os quais a garota evitara como o diabo foge da cruz desde que chegara: o estúdio de gravação no piso inferior, feito especialmente para sua mãe, o ateliê que seu pai mantinha no chalé e que agora era ocupado por Michele e, por último, o quarto de seus pais.
Ela duvidava muito que conseguisse lidar com o estúdio ou o ateliê antes de voltar a viajar. Eram ambientes que exalavam a personalidade e presença de seus pais, mas não como pais, e sim como pessoas, como profissionais e como almas artísticas. Enquanto mudava de rota e caminhava a passos lentos em direção à outra porta, pensou que aquilo era engraçado. Aquilo levara apenas alguns dias depois do acidente fatídico. Ter que aceitar que a alma deles, a personalidade vibrante de ambos jamais voltaria, entretanto, era muito mais difícil.
Para ela era mais fácil aceitar que a parte paterna de Serena e Adam Terrae morreu do que acreditar que as pessoas que eles eram morreram de todo.
A porta tinha um código digital combinado com impressão palmar e ocular para abrir. Era o quarto de objetos mais valiosos da casa, tanto material como emocionalmente. Ela lembrava de cor a numeração. Assim que girou a maçaneta, sentiu um calafrio subir-lhe pela espinha. Sabia que tinha que seguir adiante, entretanto, ou jamais se perdoaria. Forçou a porta a abrir-se, respirou fundo, fechou os olhos e deu o primeiro passo.
O sistema de iluminação ativou-se imediatamente através de sensores de calor. A garota ainda esperou alguns segundos antes de ousar abrir os olhos, mas quando o fez teve que segurar a respiração. O quarto continuava o mesmo. Era absolutamente enorme, embora menor do que como ela se lembrava da época de criança. As paredes eram brancas, quase imaculadas, cortadas vez ou outra por finas listras negras. O objetivo era dar a impressão de que aquilo era um desenho só de contornos, sem cores, e não um quadro real. Os móveis, entretanto, combatiam fervosoramente esta idéia.
O banco no janelão, cheio de almofadas coloridas, imitava o arco-íris que por vezes era possível ser observado daquele ângulo. As cortinhas eram cor de vinho tinto, perfeitas para dar um ar elegante e romântico ao mesmo tempo que escureciam o quarto nos dias de sol forte. Um divã azul marinho fazia conjunto com três poltronas de um tom mais claro de azul, todos com almofadas brancas em cima.
O armário, as cômodas, cabeceiras e penteadeira eram todos brancos com puxadores prateados. A cama, de madeira clara e dossel cortinado cor-de-rosa, tinha uma colcha de retalhos e muitos travesseiros e almofadas em cima, tudo colorido.
Sua mãe brincava dizendo que seu pai havia tentado transformar o quarto deles em uma de suas famosas pinturas. Aparelhos como televisão, som, vídeo e computador estavam embutidos nas paredes e camuflados com pedaços de compensado pintados de branco. Havia dois criados-mudos, um de cada lado da cama. Os abajures em cada um eram idênticos, e um deles tinha uma extensão telefônica. Por fim, quatro portas, duas de cada lado – um banheiro e um closet para cada um.
May podia jurar, por mais impossível que fosse, que ainda sentia o cheiro de sua mãe no quarto. Sândalo. As essências dela ainda estavam em cima da penteadeira, junto com todos os cremes e as maquiagens. May adorava os perfumes. Em sua infância, costumava chama-los de "vidros mágicos", pois eram dos mais variados tamanhos, formatos e cores.
Saiu de sua contemplação saudosa ao sentir uma presença amiga atrás de si, observando-a da porta que deixara aberta.
- Oi? – Seto sorriu, arriscando entrar dentro do quarto e fechar a porta atrás de si.
- Oi. – ela respondeu, sorrindo com calma. – Sem sono?
- Sim. – ele concordou, observando o cômodo. – Você também?
- Uhun. – a estrangeira murmurou, antes de rumar para a cama e sentar-se delicadamente lá. Continuava sendo tão macia quanto se lembrava.
- O quarto dos seus pais? – ele perguntou, observando as quatro pinturas penduradas nas paredes, todas feitas por Adam Terrae.
- Sim. – ela respondeu novamente, deixando-se deitar na cama. – Ainda não tinha vindo aqui.
- Compreendo. – ele parou de contemplar as paredes para fita-la. Uma sensação inominável a dominou ao se ver sob o escrutínio daqueles orbes azuis.
- Ansioso para... – a garota olhou o relógio no criado-mudo de seu pai. – daqui a pouco?
Ele entendeu a referência.
- Na verdade, não. – ele sorriu, malicioso. – Não gosto de aniversários.
- Ah, é. – ela lembrou-se que ele já lhe havia dito aquilo quando namoravam. Quando o viu se aproximar, sentou-se na cama novamente para dar espaço para que ele sentasse junto a si. – Lembrei que você só gosta de aproveitar a data para fins comerciais.
Ele riu baixinho, deixando-se cair ao lado dela na cama.
- Aprendeu rápido.
May sorriu, condescendente.
- Nem um pouco ansioso com o evento de amanhã? – insistiu.
- Não. – ele negou mais uma vez, para depois mudar de assunto. – Você está bem?
A princípio a pergunta soou-lhe estranha, mas então a lembrança de toda a situação com sua avó voltou.
- Acho que sim. – ela deitou-se ao lado dele, olhando para o teto. – Estou me sentindo estranhamente leve.
Seto riu.
- Elizabeth exalava veneno por todos os poros. Acho que qualquer um dentro desta casa está se sentindo como você.
- Você está?
O rapaz virou-se, fitando-a no fundo dos olhos por alguns segundos antes de responder.
- Devo admitir que a saída dela me deixou menos estressado. Eu andava preocupado com você em relação a ela.
A morena deixou-se sorrir carinhosamente para ele. Uma sensação quente a preencheu.
- Obrigada, eu acho. – respondeu, o que o fez sorrir também.
- De nada.
Os dois caíram em um silêncio agradável por alguns minutos. Deitados lado a lado, fitando o teto, procuravam seus próprios pensamentos.
- Sabe, é engraçado... – May tomou a iniciativa de retomar a conversa, levemente desconfortável.
- O quê? – o moreno quis saber, os olhos azuis agora mirados nela.
- Nós dois. Há três meses atrás eu mal sabia quem você era, e hoje...
- Hoje...? – ele incentivou.
- Hoje, nós dois estamos aqui, nos Estados Unidos, conversando como amigos de longa data.
- De certa forma, nós somos. – o japonês replicou, pensativo. – Nós nos conhecíamos em vidas passadas.
- Mas hoje somos pessoas completamente diferentes. Eu não tenho absolutamente nada de Bastet comigo. Não conservo sua aparência, tampouco a personalidade. E por mais que você se ache parecido com Seth, o Sacerdote, vocês também são pessoas diferentes.
Ele teve que concordar. Analisara aquilo por anos e chegara à mesma conclusão.
- Mas o que há de estranho em termos nos tornado tão ligados? – perguntou, curioso.
- É que somos completamente diferentes um do outro, também. – ela explicou, virando-se para fita-lo melhor. – Sabe, qualquer um que nos colocasse lado a lado sem nos conhecer jamais apostaria em nós como uma dupla dinâmica ou qualquer coisa assim.
Ele sorriu pela alusão a um companheirismo do tipo Batman & Robin.
- O que importa? Nós funcionamos juntos, não é?
Ela o fitou nos olhos antes de assentir com a cabeça.
- Isso é verdade. – sorriu meio acanhada, para então completar com franqueza: - É que eu ando me sentindo meio perdida...
- Em que sentido? – Seto perguntou, confuso.
Ela virou-se, deitando de bruços e agora olhando-o de uma perpectiva mais elevada. Ele agarrou uma das mechas do cabelos que caía sobre seu rosto depois que ela se inclinou em sua direção.
- Como te explicar isso? – a brasileira fez uma careta, pensando numa maneira simples de pôr o que sentia em palavras, enquanto ele apreciava as mudanças de expressão em seu rosto.
- Respire fundo e seja sincera, só isso.
Ela riu baixinho, mesmo que nervosa, fez o que ele dizia e voltou a abrir a boca:
- Na verdade, eu sinto como se houvessem duas pessoas completamente diferentes dentro de mim. – revelou, despertando a curiosidade do rapaz, que agora tinha um dos braços descansando confortavelmente sobre sua cintura. – Uma é a pessoa que você conheceu naquele dia na loja do Yugi...
- E a outra é a que você reencontrou desde que chegamos aqui. – ele completou por ela.
O olhar espantado da garota não o surpreendeu.
- Como você adivinhou?
- Não precisei pensar muito a respeito. Você adquiriu uma personalidade completamente oposta à que tinha antes de ser... – ele tentou completar a frase, mas viu-se incapaz de pronunciar aquela palavra. Os olhos dela escureceram. – Quando você voltou para o local onde tudo aconteceu, eu achei que era normal que as coisas "revivessem" na sua cabeça.
May assentiu, compreendendo a lógica dele.
- O meu problema é que eu despertei minha antiga personalidade, e agora eu não sei mais quem eu sou de verdade.
Seto riu, observando que de qualquer forma ela continuava um bocado ingênua.
- Mayra, Mayra... – murmurou baixinho, enquanto a puxava para se encaixar entre seus braços.
Sabendo que estava precisando daquele apoio, ela se deixou capturar pelo abraço. Seus próprios braços mecanicamente mexeram-se para abraçá-lo de volta, enquanto sua cabeça descansava no ombro dele. Uma das mãos do japonês elevou-se para afagar seus cabelos, e ela sentiu a respiração voltar ao normal lentamente.
- As duas são você. – ele continuou, e ela encontrou o olhar límpido dele que passava mais segurança do que ela sentia em si mesma. – Você tem um lado mais tímido e recatado, ao mesmo tempo em que tem um lado mais extrovertido e sexy.
- Mas como pode?! – ela protestou, confusa.
Seto abaixou a cabeça em direção à cabeça dela, absorvendo o perfume de seus cabelos. Ele adorava os aromas dela.
- Antes você era uma menina que só conhecia coisas boas, Mayra. A personalidade extrovertida e sexy não se encaixa completamente na pessoa que você é agora. Mas a adolescente apagada e introspectiva também não. As duas são lados opostos e complementares seus.
- Não sei, não... – ela murmurou, ainda sentindo-se perdida consigo mesma.
- Obviamente que seu lado reservado e desconfiado ficou muito mais evidente depois de toda aquela... situação. – ele pontuou, desconfortável. – Mas aquilo não surgiu do nada por causa de um trauma. A reserva e a desconfiança já existiam dentro de você quando seus pais ainda eram vivos, só que costumavam se expressar em doses bem menores.
Ela fechou os olhos e absorveu o calor que emanava do corpo dele, tentando fortificar-se.
- Às vezes eu acho que simplesmente endoidei... – sussurrou, agoniada.
- Você não é doida! – ele protestou, irritado. – Está apenas tentando se encontrar depois de passar tanto tempo tentando se perder.
A morena deixou-se ficar presa no abraço, com as mãos dele a acariciarem-lhe as costas e os cabelos, acalmando os nervos. Ele devia ter razão: ela estava apenas insegura.
Lembrou de Natalie: forte, feliz, começando uma carreira de sucesso e descobrindo seu próprio valor como pessoa. Antes de conhecer Seto, Michael, Haruka e os outros, ela sempre imaginara que morreria sem se relacionar com mais nenhum homem, sem casar ou ter filhos. A simples idéia deixava-a extremamente nervosa, a princípio.
Virando para encontrar mais uma vez o olhar azul do rapaz deitado consigo, a garota percebeu que conseguia se imaginar dali a dez anos ainda com ele, talvez casada e com filhos. O pensamento, ao invés de deixá-la aflita, enchia-a de alegria. Sua carreira ainda era um ponto de interrogação. Sabia que tinha aptidão para várias coisas, mas ainda não definira o que queria para si no campo profissional, embora pudesse se visualizar trabalhando na Kaiba Corporation, ou cantando...
- Algum problema? – Kaiba a chamou, sem saber o que se passava em sua cabeça.
Ela levou alguns segundos para parar de fita-lo fixamente e sorrir sem receio.
- Obrigada.
- Hein? – ele argüiu, obviamente confuso.
- Você me faz bem.
- Ah... – ele riu, um tanto quanto embaraçado. – Acho que é isso que um homem apaixonado faz. – murmurou, por fim, após segundos de hesitação.
Ela corou, desviando o olhar. Pôs-se a pensar naquela outra situação. Obviamente o que quer que sentisse por ele era forte. Não era de forma nenhuma fraternal, visto que o homem conseguira fazer o milagre de deixá-la desejando-o quase sempre que o via. Estava descartada a possibilidade de ser apenas um substituto para seus pais.
Naqueles meses, ela descobrira um lado dele que poucas pessoas conheciam, e descobrira também que sentia-se extremamente feliz de ser uma das poucas a partilhar aquele "tesouro". Ela queria que ele fosse feliz, com ou sem ela. Aquilo passou pela sua cabeça sem que precisasse parar para pensar, e dissipou todas as suas dúvidas.
- Nós não devíamos ter tido essa conversa. Estávamos brigados, lembra? – perguntou a ele, subitamente muito mais à vontade com ele e consigo mesma.
- Não gosto de brigar com você.
Ela gargalhou ao ouvir aquela afirmação.
- Mentira! Você adora me irritar! – provocou, maliciosa.
- Eu gosto de provocar você, mas não de vê-la triste ou aborrecida. – ele retorquiu, convicto.
- Que tal fazermos as pazes? – a morena sugeriu, satisfeita com o que ouviu.
- Pensei que já tínhamos feito... – Seto respondeu, dando de ombros.
- Me desculpe por ter sido tão cega esse tempo todo. Sei que acabei magoando você também.
Ele negou com a cabeça.
- Não importa.
- Importa sim!
- Esqueça, Mayra, não vou morrer por causa disso. – replicou, erguendo uma sobrancelha, irônico.
Ela sorriu de novo. "Ele é tão confiante, seguro de si...", pensou, e uma nova pergunta se formou em sua mente.
- Seto, você já tentou "ser perdido" alguma vez?
O rapaz pareceu pensar por alguns segundos, então abriu a boca para respondê-la, mas então a fechou de novo, aparentemente espantado.
- Do que você me chamou?
Azuis encontraram castanhos numa troca de confissões mudas enquanto ela corava e engolia seco antes de responder.
- Eu te chamei de Seto.
Os dois se arrepiaram ao mesmo tempo. Sem desprender seu olhar do dela, Seto ergueu-se e a fez sentar também. A eletricidade subiu no ar inteiramente ao redor deles. A lembrança de todos os beijos, carinhos e descobertas que tivera ao lado do japonês vieram à mente da morena, e ela descobriu que não sentia receio nenhum de estar com ele.
- Você faz idéia do que acabou de fazer? – ele perguntou baixinho, a voz um pouco rouca, a respiração mais difícil. Quanto tempo esperara para ouvir aquilo?
- Sim. – ela respondeu no mesmo tom, sorrindo. Sentia como se um enxame de insetos estivesse voando em sua barriga. – Você não respondeu a minha pergunta.
- Qual era a pergunta mesmo? – ele resmungou, antes de enlaçá-la mais uma vez e colar o rosto ao dela.
- Ah... Não importa. – ela murmurou, antes de suas bocas se colarem.
O gosto era absolutamente diferente de tudo que ela já havia provado com ele. Havia honestidade, carinho, entrega... Amor. Ela percebeu que sabia que o amava há muito tempo, só não queria admitir para si mesma.
Ele deslizou as mãos sobre seu corpo suavemente, de maneira quase imperceptível, com uma devoção tal que a fez arquear-se em direção a ele para oferecer mais de si. Suas mãos agarraram o tecido da camisa do pijama dele, fazendo com que o mesmo subisse para lhe dar acesso à pele.
Seto sentiu o turbilhão de emoções que dominava o corpo da garota em seus braços. Ele a amava mais do que jamais poderia medir, e tivera muito receio de que nunca chegassem àquele momento. Ele tinha medo de perdê-la para si mesma. May jamais poderia amá-lo de volta se não aprendesse a se conhecer primeiro.
Suas mãos alcançaram o laço que prendia o robe de seda e o desfizeram. Sua boca explorava a dela com avidez enquanto suas mãos trabalhavam para livrá-la de todo e qualquer tecido que a cobrisse.
A brasileira sentia seu sangue correr mais rápido, como se cavalgasse à velocidade da luz dentro dela. A Junção que os unia agora propiciava a descoberta da sensação do outro, o que era extremamente sensual. Ela sentiu-se sorrir sob a boca dele enquanto mordiscava seu lábio e começava a trabalhar nos botões da camisa dele.
A mordida em seu lábio inferior fez outra parte da anatomia do japonês despertar. Suas mãos começaram a erguer a camiseta dela, obrigando-o a parar de beijá-la para conseguir tira-la. Ela aproveitou a pausa e fez o mesmo com a camisa dele. Não demorou muito para que ele voltasse a se apossar de sua boca de maneira arrebatadora.
- Desta vez... – ela murmurou, ofegante, enquanto a boca dele descia de seu pescoço em direção aos seios e as mãos livravam-na do short. – vamos até o final. – terminou de anunciar.
O japonês parecia surpreso, mas ela não lhe deu tempo de pensar nada. Agarrando-se aos cabelos castanhos dele e fitando aqueles olhos azuis com malícia, ela depositava pequenos beijos sobre a boca dele, sem deixá-lo tentar um aprofundamento. Seto sentiu a doce tortura que ela provocava em si e respondeu de maneira igualmente torturante, enquanto suas mãos subiam para brincar com os bicos dos seios da garota.
Ela sentiu ondas de prazer espalharem-se por seu corpo. As mãos dele eram quentes, estranhamente suaves. Sabia que ele estava se contendo para ir com calma, já que era como se fosse sua primeira vez – e de certa forma era mesmo. – e sentiu o amor aumentar ainda mais ao entender a consideração que ele tinha por sua pessoa.
Beijou-o com toda a sua vontade enquanto sentia as mãos dele agora no elástico da calcinha, abaixando-a lentamente, fazendo com que surgissem borboletas na barriga dela. Seto soprou ar no ouvido dela, provocando risadas, distraindo-a e seduzindo-a lentamente. Os dois se encararam por alguns segundos, imóveis, percebendo a importância crescente do momento, e enquanto ele terminava de tirar-lhe as roupas, ela diminuiu as luzes no ambiente, para passar a sensação de penumbra.
Ele a deitou sobre a cama, parando para admirar o corpo completamente nu abaixo de si. Envergonhada, ela tentou cobrir-se com os braços, mas ele a parou.
- Você não tem o que temer. – murmurou baixinho, enquanto tirava a calça e a cueca ao mesmo tempo e as jogava em algum lugar. Em seguida, deitou-se em cima dela. – Tem certeza do que está afirmando? – perguntou, ainda sem voltar a acariciá-la, querendo manter o controle sobre si mesmo.
- Absoluta. – ela respondeu, confiante. – Não quero fazer isso com mais ninguém.
Ele sorriu, voltando a beijá-la, agora mais suavemente. Suas mãos agora acariciavam o corpo dela cuidadosa e lentamente, temendo despertar nela lembranças desagradáveis de homens que ele mataria se pudesse.
Como se lendo seus pensamentos, ela estendeu temerosamente as mãos em sua direção. Os olhos inseguros prenderam-se nos dele enquanto acariciava levemente o peito sem pêlos, sentindo a textura mais áspera da pele dele encontrando as palmas macias de suas mãos, mostrando que não estava nem um pouco receosa de que ele fosse machuca-la da mesma forma que outros haviam feito. Ele era mais quente do que ela, também, o que o fez se arrepiar, pois a mão "fria" dela deslizava agora sobre seu abdômen.
Sorrindo para ela, que estava corada, ele depositou um suave beijo em seus lábios antes de afagá-la com calma e gentileza dedicadas apenas a uma pessoa especial. O amor que ele sentia encontrou seu próprio caminho em direção ao coração dela, e lá descobriu o amor que ela sentia por ele.
Sentindo-se completamente à vontade com o homem que conquistara seu despedaçado coração, ela ergueu as mãos, circundando a cintura dele e seguindo por suas costas, arranhando-o suavemente com as unhas e provocando arrepios e explosões de prazer aonde quer que tocasse. "Nunca foi assim...", pensou, um tanto aturdida. Nunca sentira aquela volúpia, aquela vontade de provar cada pequena parte do corpo dele, de tocá-lo até perder o sentido do tato.
Nunca se sentira tão poderosa, também. A parte baixa da anatomia dele estava de encontro a suas pernas, rija e pulsante, e ela não se incomodava com aquilo. Não tinha medo algum do que sabia que iria acontecer, pois tinha plena confiança nele. Seto, ao sentir que ela entregava-se de coração a ele, começou a distribuir beijos em sua pele, sentindo o gosto dela enquanto provocava fogo dentro dela.
May sentiu uma onda de calor espalhar-se por seu corpo e depois concentrar-se em seu ventre. Era uma sensação deliciosa e que apenas alimentava ainda mais sua fome dele. Enquanto a boca dele provocava as mais variadas sensações ao mordiscar seus seios e eriçar os mamilos, as mãos dele procuravam o ponto entre suas coxas.
Ela sentiu quando Seto inseriu dois dedos na parte mais íntima de seu corpo. A sensação era vagamente familiar, só que muito mais agradável. Ela sabia que estava sendo "preparada" para recebê-lo dentro de si, mas o movimento dos dedos dele fez mais do que aquilo. Ela sentiu seu corpo inteiro reagir ao toque experiente, arquejando-se em direção ao corpo dele, buscando mais prazer e mais entrega.
As luzes diminuíram de força, deixando-os numa suave penumbra. A mudança de intensidade parecia apenas ressaltar ainda mais a cor dos olhos dele, fazendo-os brilhar ainda mais intensamente. As mãos dela desceram das costas para as nádegas dele, agarrando-as e implorando por mais. Seto sorriu, abrigou-se entre as pernas dela, fazendo-a circulá-lo com elas, beijou-a e murmurou no ouvido dela.
- Aishiteru mo, Mayra-chan.
Ela sentiu todo o seu corpo responder à declaração, relaxando e cumprindo a última das etapas para que finalmente a união entre eles se concretizasse. Ela sorriu, passou os braços em torno do pescoço dele e o beijou, antes de responder.
- Aishiteru mo, Seto-kun.
O rapaz deixou-se afundar dentro dela de forma lenta, cuidadosa, deixando-a acostumar-se a ele antes de se aprofundar demais. Sentia o corpo dela rodeando-o, abraçando-o, enquanto ela instintivamente movia os quadris em direção a ele, fazendo-o entrar um pouco. Depositando um beijo carinhoso nos lábios da garota, ele começou a movimentar-se dentro dela de forma rítmica e torturante.
Os olhos dela não deixaram por um minuto sequer os dele. Ambos pareciam energizados, brilhantes. Nenhum dos dois pareceu perceber o halo de luz que se fechava ao redor de ambos, fruto da Junção, que encontrara sua oportunidade para se solidificar ainda mais. Os dedos dele encontravam-se entrelaçados aos dela, as mãos unidas numa forma de companheirismo e entrega mútua.
O ritmo acelerou, as mãos se apertaram mais fortemente, as ondas de prazer começaram a se descarregar em todo o corpo do casal. Suas energias pareciam se fundir em uma só enquanto seus corpos chegavam próximos ao ápice do prazer.
Enquanto a eletricidade parecia carregar-se para explodir dentro dela, May fechou os olhos e dentro de sua cabeça formou a primeira de suas visões desperta. Ela podia ver a si mesma e a Seto esparramados no sofá da casa de sua tia, no escuro, observando as luzinhas de uma árvore de Natal piscando multicoloridas. Ele a abraçava por trás e acalentava, o rosto já semi-adormecido. Ela se dividia entre olhar para ele e para a árvore e sorrir, absolutamente feliz. E então a visão acabou, e a única luz presente além da fraca iluminação dos abajures era a luz da Lua que banhava a cama de forma reverente.
Ela foi abençoada primeiro, sentindo o corpo todo estremecer, a visão turvar-se e uma quantidade impressionante de fogos de artifícios explodirem em suas pupilas.
Finalmente, o corpo dele rendeu-se à situação e começou a tremer. O rapaz perdeu a força e deixou o corpo cair sobre o dela. Sentiu os braços dela ao redor dele antes que ambos explodissem em energia e a absorvessem novamente. Sua respiração encontrava-se tão ofegante quanto a dela, a mulher que compartilhara consigo a noite mais importante da vida de ambos.
Sentindo que o gradiente de energia os deixara exaustos, os últimos esforços dele foram para cobrir-se e a ela com as cobertas da cama. Aninhou sua cabeça entre as almofadas coloridas e ajeitou a semi-adormecida "menina" em seus braços, sorrindo ao vê-la entre o sono e a realidade.
- Feliz... aniversário. – ela murmurou entre bocejos, dando uma breve espiada no relógio de cabeceira atrás dele. Sorriu, fechou os olhos e adormeceu.
Ele não era do tipo que cansava em apenas uma vez. Em tempos anteriores, passaria horas exigindo da mulher que estava com ele suor e sangue. Mas daquela vez fora diferente. Fora mais forte, mais sensível, mais importante. De alguma forma suas energias pareciam ter sido drenadas. Observando o rosto adormecido de sua agora mulher, ele percebeu que não teria ficado mais feliz de outra maneira.
Aquela sensação de perda finalmente o deixara. Ela era dele. Ela estava com ele. Ela o amava. Era tudo o que importava. Sentindo seu corpo clamar por repouso, ele também fechou os olhos e entregou-se a Morfeu, não sem antes abraçar fortemente a mulher amada.
Ele jamais a deixaria escapar de novo.
Wishes
N/A: Vou precisar passar um mês sem atualizar a fic. Não que vocês já não estejam acostumados com os meus atrasos, mas normalmente eu adianto o máximo que puder! Desta vez não vou poder escrever Wishes durante este tempo. Estou trabalhando, a internet da minha casa continua uma bosta (to postando isso do trabalho), eu tenho tantas outras fics pra prosseguir também! Além do meu curso de inglês!
Por isso adiantei este capítulo. Achei que vocês mereciam, depois de toda a paciência que tiveram comigo. Saga Estados Unidos está chegando ao fim, o que significa que de verdade estamos na reta final de Wishes. Próximo capítulo: aniversário do Seto!
C-ya, guys!
PS: pra quem gosta de ler uns pedacinhos de capítulos antes de serem postados, eu tenho o hábito de postar estes pedacinhos no meu livejournal. Daqui a umas duas semanas, mais ou menos, devo recomeçar a escrever o próximo capítulo, e então devo soltar por lá uns pedaços pra vocês se divertirem enquanto o dito-cujo não chega. Fiquem de olho!
Ah, inventei uma regra agora: se não tiver review, eu não atualizo. xD
Feliz Páscoa!
Beijos!
