- Capítulo Trinta –

N/A: Quem diria que nós chegaríamos aos trinta capítulos? Eu nunca imaginei!

Quando ela acordou, estava sozinha no quarto. Ao abrir os olhos e encontrar-se na cama dos pais, sentiu-se desorientada. Por um minuto, podia jurar que estava de volta aos seus dez anos de idade, e que na noite passada havia corrido para o quarto dos pais com medo do bicho-papão que, podia jurar, estava debaixo da sua cama.

Mas quando se sentou e afastou os cabelos do rosto, o senso de tempo voltou a funcionar. A noite passada não fora nada assustadora. Na verdade, por mais surpreendente que lhe pudesse parecer, fora a noite mais gloriosa da sua vida. Há muitos anos não dormia como um bebê daquela forma. Há muitos anos não acordava tão leve.

Ergueu-se da cama e ficou parada em pé, no meio do quarto, incerta sobre qual seria o próximo passo a dar. Qualquer que fosse, ela não sentia mais receio do futuro. Então se lembrou que era quarta-feira, vinte e cinco de outubro, e que essa data significava algo importante.

O aniversário de Seto. O fato em si já merecia bastante atenção, mas o que mais a preocupava era a agenda de compromissos deles para aquele dia, que era bem apertada. Lançou um olhar para o relógio de cabeceira do pai e quase gritou de susto ao perceber que já eram nove e meia da manhã.

Com o alerta de urgência ligado no mais alto nível, cruzou o quarto sem sequer olhar para as janelas. Se houvesse olhado, veria que uma nevasca caíra durante a noite, surpreendendo a todos. Mesmo que já estivessem praticamente em novembro, ainda era cedo para tempestades de neve como aquela. Portanto, a cidade estava desesperada e vários compromissos haviam sido cancelados ou adiados em algumas horas.

Não sabendo desse fato, entretanto, ela correu para o banheiro mais próximo: o do seu pai. Adam Terrae nunca fora do tipo que cuidava da aparência, mas com a esposa que tinha, vários dos produtos de sua mãe acabavam indo "misteriosamente" para o banheiro do marido. Obviamente os que ela observava já não eram os mesmos daqueles dias. Já estariam fora de validade há muitos anos agora. Mas, obedecendo aos seus desejos mais acalentados, os criados haviam arranjado um jeito de repor todos os objetos.

Até mesmo as roupas nos closets, embora ela não as tivesse visto ainda, haviam sido substituídas por cópias idênticas ano após ano – vantagens de se ser dono das empresas que fabricavam todas aquelas coisas. Ela sabia daquilo. Michele havia feito questão de lhe pôr a par de tudo nos primeiros dias, e ela descobrira que era acalentador entrar naquele banheiro e sentir os cheiros característicos de Adam Terrae.

Seu pai costumava usar perfumes de fragrância amadeirada, combinando à perfeição com o cheiro de sândalo da sua mãe. Tudo muito sutil, do tipo que só se percebe quando se está bastante próximo. Ela respirou fundo, mas então se lembrou da hora e correu para dentro do box.

Os próximos vinte minutos foram gastos para lavar o corpo e os cabelos da maneira mais rápida que ela conseguiu. Talvez, se não estivesse com tanta pressa, tivesse notado a forma como a sua pele resplandecia naquela manhã. Kali já lhe dissera várias vezes que "sexo faz bem à saúde, principalmente à pele", mas ela estava com a mente na lista de coisas a fazer.

Agora de manhã iriam para o laboratório para uma última checagem na edição especial do jogo de duelos que Kaiba estava programando para ser comercializada apenas naquele dia. Seriam produzidas apenas cento e oitenta unidades, portanto, eles tinham tempo suficiente durante a manhã para averiguar tudo.

Cento e sessenta das unidades seriam dadas de presente a alguns convidados do grande evento da noite – a abertura do Torneio Mundial de Duelos, que naquele ano estava sendo realizado ali mesmo, em Nova Iorque, e do qual Kaiba era o grande mantenedor. Ele e Yugi fariam o duelo de abertura, em memória aos velhos tempos em que concorriam de verdade. Ambos haviam "saído do circuito" há alguns anos, depois que suas vidas tomavam rumos mais sérios.

As vinte unidades restantes seriam leiloadas para levantar fundos para caridade. Kaiba não era afeito àquele tipo de coisa, ela bem sabia, mas ele tinha uma grande responsabilidade social como empresário multimilionário, e não se esquivava de cumpri-la. Metade do dinheiro iria para um fundo que apoiaria entidades de proteção ao meio-ambiente, como o S.O.S. Mata Atlântica e o Greenpeace, e a outra metade iria para fundos de assistência a crianças carentes da Ásia e da África.

Ela gostara ainda mais do fato dele ter feito uma enquête entre os funcionários de todas as filiais, japonesas ou não, sobre quais entidades deveriam receber o dinheiro. Era uma maneira de incluir o corpo de funcionários no evento e incentiva-los a tomar suas próprias atitudes a respeito.

Kaiba podia odiar posar de bonzinho, mas sabia muito bem como incitar os outros a fazerem aquilo por ele.

Sorrindo consigo mesma, ela saiu do box e pegou uma das toalhas do pai, esfregando-se para secar a pele. Enquanto isso, a agenda continuava a rolar em sua mente. Depois do almoço, Kaiba e Yugi iriam para uma das emissoras de televisão com quem a Kaiba Corporation tinha parceria para a cobertura dos eventos que promovia, para darem entrevistas no programa de Michael O'Riley.

Ela conhecia Michael quase desde que abrira os olhos pela primeira vez. Ele era um ex-baterista da banda de sua mãe que continuara amigo da família e, quando fora para o mundo da mídia, tratara de apoiá-los em qualquer situação. Ela costumava chama-lo de Mickey quando era criança.

Michael tinha um filho, Daniel. Daniel fora amigo dela por tanto tempo quanto ambos tinham de vida – ele era apenas um ano mais velho. Seus pais inclusive imaginavam que os dois viriam a namorar quando se tornassem adolescentes, mas a vida os separava por mais de meia década. May tivera uma agradável surpresa ao receber um telefonema de Michael enquanto estava visitando a Terrae, naquele primeiro dia da volta aos Estados Unidos.

Ela lembrava muito bem daquela conversa, uma conversa que determinara seu primeiro passo em direção à liberdade. E, por questão de praticidade, rumou para o closet da mãe quando saiu do banheiro. Com certeza acharia alguma roupa ali que agora cabia nela. Enquanto observava a miríade de cores e tecidos, deixou aquela conversa ser repassada em sua mente.

Wishes

- Sentimos muito sua falta, querida. – Michael comentou, com uma voz jovial.

- Fala sério, Mickey!

- Você ainda me chama desse jeito embaraçoso? – ele resmungou, rindo em seguida. – Escute, eu, Lisa e Daniel estávamos com saudades de você sim.

- Eu sei. – ela murmurou, sentando na cadeira que pertencia agora ao seu tio e que antes fora ocupada por seu pai. – Como vocês estão?

- Estamos todos bem, graças a Deus. Suponho que você tenha recebido notícias do Daniel, nesse meio tempo.

Sim, ela sabia que Daniel havia se tornado um duelista. E sabia daquilo apenas porque sua prima também tinha um fraco por ele, como tinha por Kaiba, Yugi e Jounouchi. Daniel se tornara campeão dos Estados Unidos por vários anos seguidos, e chegara mesmo a desbancar Yugi e ir pra final com Kaiba no último ano deste como duelista profissional no Mundial. Havia ficado imensamente feliz com o segundo lugar.

May nunca contara a Kali que conhecia Daniel, embora a prima devesse saber do fato, já que conhecia muito da sua infância.

- Sim, eu soube que ele se aposentou ano passado depois que ganhou o Mundial. Muito esperto da parte dele, sair enquanto está por cima.

Michael não era ignorante da educação que ela recebera desde que nascera. May fora criada para pensar como uma mulher de negócios, e mesmo depois de tantos anos longe dos Terrae e da sua casa, ainda pensava do mesmo jeito, pelo modo como afirmara aquilo.

- Foi o que ele deu como explicação. – ele respondeu, mesmo não aprovando que Adam e Serena houvessem transformado a menina num supergênio mirim. – Ele vai dar uma de repórter pra mim durante os dias do torneio. Sabia que ele vai apresentá-lo no dia da abertura?

- Sério? Isso é maravilhoso! – ela exclamou, realmente feliz pelo amigo. – Lisa deve estar orgulhosa.

- Sim. Você sabe, Daniel sempre gostou da TV, e realmente ficou feliz de poder voltar a ela depois de tantos anos.

- Sim, eu sei. – ela murmurou, absorta.

Daniel e ela foram duas das cinco crianças selecionadas para apresentar um programa infantil na mesma emissora onde Michael trabalhava, por motivos bem óbvios. Ela por ser a princesinha da América, e ele por já ter um pé lá dentro graças ao pai. A questão é que a pequena duplinha, já muito amiga desde bebês, dera mais do que certo na televisão. O programa passou a ser só deles em menos de três meses.

May lembrava com carinho dos seus tempos de apresentadora mirim. Era uma época em que ela não tinha preocupações, tampouco inibições. A carreira da sua mãe estava no auge, e o pai já era famoso como pintor há mais de dez anos, então. Fora uma época de grande fartura, sem dúvidas, e de grande pressão, também, mas como qualquer criança faria, ela tirou o melhor proveito possível.

- Sabe, eu estava pensando se você também não gostaria de voltar a dar as caras aqui pela emissora.

- Eu?

Ela ficou verdadeiramente surpresa. Os O'Riley eram um dos poucos de fora da família que sabiam o que realmente havia acontecido depois da morte dos pais dela, o motivo real para ela ter fugido por seis anos. A prova da amizade forte que eles ainda mantinham era o fato de seus estupros nunca terem ido parar na boca de outro jornalista, nem tampouco Michael haviam contado nada a ninguém, fora ou dentro da mídia.

- Sim, Lizzie, você. As pessoas estão curiosas sobre você. Quando vocês chegaram com o Kaiba, ninguém a reconheceu, e tampouco ninguém sabia que você era parte do time dele naquela época, por causa de todo o mistério que a sua família fez sobre o país aonde você estaria nos últimos anos.

- É, eu até estranhei que nenhum repórter tivesse me abordado, mas pensei apenas que eu havia sido esquecida.

- É, mas um dos fotógrafos viu os carros da Terrae na entrada e resolveu investigar mais a fundo.

- Agora está explicado como descobriram a minha volta.

- Bem, por isso esse alvoroço todo em torno de você desde hoje à tarde. Estão todos loucos por uma foto sua, pra saber porque voltou, se voltou para ficar.

- Eu imaginei que isso fosse acontecer. – ela resmungou, bufando em seguida.

- Você costumava adorar a atenção das câmeras, Lizzie. – Michael, do outro lado da linha, comentou com certa confusão.

- Eu sei, mas desde aquele... episódio, eu estou bem mais reservada. – ela explicou.

Ouviu um resmungo de Michael do outro lado da linha e uma discussão breve com outra pessoa. Então, uma voz feminina falou:

- Lizzie?

- Lisa! – May exclamou, feliz em ouvir a voz da mulher.

- Michael não tem uma grama de delicadeza nesses cento e quinze quilos. – ela resmungou, e May teve certeza que a ruiva olhava mortalmente para o marido. Não pôde deixar de rir.

- Não se preocupe, e diga ao Mickey que eu continuo amando-o.

Lisa riu.

- Ele sabe disso. – ela suspirou, adquirindo um tom mais terno. – Sentimos sua falta, querida.

May suspirou do outro lado da linha também.

- Eu também...

- Tentamos até convencer seus familiares a deixarem você morar conosco, mas eles foram irredutíveis quanto a tirar você do país. E os juízes também.

- Eu agradeço por terem tentado, mesmo assim. É muito importante pra mim saber disso. – ela respondeu, amável.

- Mas agora que está de volta, meu amor, o que eu e Michael achamos, se é que podemos te dar uma opinião, é que você devia mandar a velha vagabunda pra cadeia e retomar sua vida.

May riu. Havia esquecido como Lisa era franca, e como gostava daquilo.

- Essa possibilidade foi cogitada e descartada, sinto informar-lhe. Eu não voltei em caráter definitivo, como já devem ter imaginado.

- Sim, nós concluímos que seria isso.

- Então, não vejo porque voltar às telas se vou sair do país de novo em duas semanas.

- Eu te dou duas boas razões, querida. A primeira é que toda a América está num frisson por sua causa. Estão todos querendo saber como você está, que tipo de pessoa se tornou, e o que está fazendo da vida, quer esteja dentro ou fora de solo americano.

Ela sabia que não podia ignorar aquilo. Ao entrar para o mundo da mídia aos seis anos, tornara-se uma pessoa pública – se é que já não o era antes – e conquistara quase todo o país com o jeitinho de menina levada. "A América esquece, mas sabe lembrar se for necessário", seu pai costumava dizer, e ela sabia que ele estava certo. Os americanos a haviam deixado em paz por seis anos, e agora queriam recuperar o tempo perdido.

- E a segunda? – perguntou, sem deixar transparecer que concordava com a primeira razão.

- Por sua própria causa, Lizzie. Seria o que você faria se aquele maldito acidente nunca houvesse tirado Serena e Adam de nós. Você teria continuado nos Estados Unidos, e teria continuado com sua carreira artística.

Sim, aquilo ela não podia negar. Se nada houvesse acontecido e ela nunca houvesse sofrido estupros ou partido para o Japão, ela certamente ainda estaria na tevê. Não tinha certeza sobre uma carreira musical, já que não queria ser cantora quando menor. Detestava viajar e nunca saber quando voltaria para casa, além das febres incessantes que sempre lhe acometiam naquelas ocasiões. Tinha boas e más lembranças das turnês da mãe, mas quando pesava o valor da carreira de cantora com a de apresentadora, a televisão sempre ganhara.

- Sim, era o que eu teria feito. Mas eu não sou mais daquele jeito, Lisa. Não sou mais aquela garota.

- Nós sabemos disso. E é exatamente por isso que queremos que você aceite a proposta da emissora, Lizzie. Aquela experiência te mudou profundamente, mas você tem que saber o que poderia ter sido para entender o que você quer ser agora.

Wishes

E foi aquela frase que fez sua balança interna pender para o "sim". Então, ela aceitara apresentar a abertura do torneio com Daniel (eles já tinham selecionado uma outra garota, mas ela ainda era a princesinha da América, mesmo que tivesse crescido e passado anos fora, e aquilo renderia publicidade e audiência suficiente para justificar a troca) e se tornar repórter por um dia. Iria acompanhar a manhã de Seto e Yugi, e à tarde iria para o estádio onde o torneio seria realizado para verificar se estava tudo em ordem (junto com Haruka, Michael, Takeru e Hiroki), ensaiar mais um pouco e entrevistar quem estivesse na fila esperando para entrar.

Daniel iria acompanhar os dois duelistas japoneses até o estúdio, onde também seria entrevistado. Mokuba e Claire iriam com os dois, já que o Kaiba mais novo recusava-se a largar do pé do irmão mais velho no dia de seu aniversário. Os outros iriam apenas começar a se preparar para o evento.

O plano era mantê-la longe de Seto até o fim do dia, quando a audiência estaria surtando para saber se o japonês mal-humorado havia ou não roubado o coração da garota. Ela sabia que Michael e o pessoal da emissora estavam armando algum plano pra se aproveitar comercialmente de qualquer uma das duas respostas, então simplesmente tratou de esquecer o assunto, já que dificilmente conseguiria descobrir algo àquele respeito.

Agora estava perguntando-se porque ele a deixara sozinha no quarto.

Caminhando para o espelho, espiou o caimento da roupa que escolhera. Uma calça jeans industrialmente alterada para parecer muito clara, quase branca, que era tão apertada quanto possível e moldava todas as curvas de seus quadris e pernas. A blusa era roxa, de seda, com um decote em V "quase" profundo que mostrava o vale entre os seios, dando-lhe um ar sexy. As mangas vinham até um pouco abaixo do cotovelo, largas, imitando triângulos com a ponta voltada para os ombros. Havia uma fita de cetim de um tom mais escuro de roxo que prendia a blusa logo abaixo dos seios, delineando ainda mais as curvas do busto. A barriga era deixada à mostra, e seu piercing brilhava de forma quase recatada.

O conjunto todo parecia funcionar muito bem. Realçava o tom bronzeado da sua pele, herança da família brasileira, e o formato de ampulheta de seu corpo. Era casual ao mesmo tempo que elegante, e mais sugeria do que mostrava. Definitivamente a cara da sua mãe.

Ela escolhera a roupa exatamente por saber que ela aprovaria, e por saber que seria o que usaria se nada daquelas fatalidades lhe houvesse acontecido. Ela sempre fora uma criança vaidosa, e se houvesse crescido normalmente, seria aquela uma roupa de seu gosto.

Descobriu também que já não sentia vergonha nem receio de mostrar o corpo. Com certeza coraria uma centena de vezes naquele dia, mas não procuraria se esconder, nem tentaria puxar a blusa para cobrir a barriga. Alguma coisa na forma como ela e Seto haviam se encontrado na noite anterior havia libertado a sua vaidade, esta que andava fugida nos últimos anos. May sentiu uma satisfação muito feminina e sensual ao girar para se observar de todos os ângulos e decidir que estava maravilhosa.

Precisava agora de sandálias e adereços. A mãe não calçava o mesmo número que ela, infelizmente, e as jóias da mãe eram algo que ela preferia deixar intocadas, pelo menos por enquanto. Além do mais, sabia qual era a jóia perfeita para usar com aquela roupa, o complemento ideal, e esta estava no seu quarto.

Satisfeita, andou descalça e abriu a porta do quarto ao mesmo tempo que Seto aparecia no topo da escada. Os dois apenas se avaliaram por alguns segundos, deixando os olhos passearem pelo corpo alheio e compararem a atual situação de vestidos com a antiga situação de despidos da noite anterior.

Ela sentiu-se ruborizar quando pegou-se despindo-o mentalmente da calça jeans preta e da camisa social branca de mangas dobradas até o cotovelo. Ruborizou também pelo olhar de pura apreciação sexual que recebeu dele depois de deixá-lo avalia-la.

- Bom dia. – murmurou, caminhando em direção a ele.

Seto subiu o último degrau da escada e também caminhou ao encontro dela.

- Bom dia. – ele respondeu, antes de passar um braço pela cintura dela e traze-la para si.

Ela sentiu-se estranhamente energizada quando a boca dele tomou a sua numa guerra silenciosa e as mãos dele insinuaram-se pela sua barriga e quadris, exploradoras. Deixou-se ser envolvida pela deliciosa sensação que emanava dele, um amor ardente, enquanto respondia com igual intensidade.

- Senti quando você acordou. – ele murmurou, depois que se soltaram em busca de ar. Deixou os braços escorregarem para a cintura dela e puxou-a de novo, desta vez apenas para um abraço companheiro. – Só consegui escapulir do bate-papo lá embaixo agora.

Ela deixou-se ser abraçada e o abraçou de volta. Resolveu repousar a cabeça sobre o peito dele, simplesmente porque adorava fazer aquilo, e sorriu quando uma das mãos dele deixou sua cintura para brincar entre seus cabelos. Ele tinha alguma fixação pelos fios negros que ela jamais entenderia.

- Porque me deixou sozinha no quarto? – perguntou, fechando os olhos e sem nenhuma preocupação sobre se alguém os ouviria ou não.

- Achei que você ia precisar de algum tempo pra reorganizar os pensamentos quando acordasse. – ele respondeu, depositando um beijo em seus cabelos.

Ela sorriu e ergueu a cabeça novamente para fita-lo.

- Realmente, tive tempo de pensar em muitas coisas desde que acordei. – comentou, soltando-se dele e rumando para seu quarto quando lembrou que estava descalça.

Ele a seguiu, satisfeito.

- E como se sente? – perguntou.

Como estava de costas para Seto, ele não viu o sorriso que surgiu nos lábios dela ao perceber a preocupação incutida na pergunta.

- Me sinto ótima! – respondeu, alegre, abaixando-se para procurar um par de sandálias específico dentro da mala que ainda não tivera tempo de desfazer totalmente.

Ouviu-o respirar aliviado e, em seguida, o barulho de um corpo pesado sendo largado em cima de sua cama.

- Estava preocupado quanto a isso. – ele confessou, fitando o teto. – Quer dizer que não se arrepende.

Não era uma pergunta, mas mesmo assim ela virou-se para vê-lo quando respondeu.

- De forma alguma. Acho que nunca me senti tão livre quanto quando acordei esta manhã. – ela disse, colocando o par de sandálias prateadas decoradas com strass vermelho em um canto quando rumou para a cama, a fim de fazê-lo encará-la. – Sei que te disse isso num momento em que muitas circunstâncias podiam me fazer confundir as coisas, mas não era mentira. Eu amo você.

Ele não pôde deixar de sorrir ao ouvir o tom preocupado na voz dela. Ainda não entendia como aquela garota fora se apaixonar por ele, mas quem é que estava reclamando?

Puxou-a para um abraço e um rápido beijo que transmitia qualquer pergunta e resposta que pudesse haver entre os dois antes de comentar:

- Sua irmã sabe que vim buscar você, e está nos esperando lá embaixo.

- Então temos que descer logo, ou você vai pra cadeia. – ela brincou, fazendo ambos rirem. Levantou-se da cama e calçou as sandálias.

Elas eram de strass vermelho por uma razão. Combinariam com as jóias que pretendia usar durante o dia e, provavelmente, durante a noite também. Pegou a pequena caixinha de joalheria de dentro da mala e virou-se para ele, sorrindo.

- Você nunca me viu usar isso, mesmo quando namorávamos.

Ele reconheceu a caixinha. Era a mesma que lhe dera no dia que trocaram seu primeiro beijo.

- Realmente. – ergueu-se da cama, indo parar atrás dela e depositando um beijo em seu pescoço antes de falar novamente. – Quero colocá-lo em você.

- À vontade! – ela lhe deu a caixa e virou-se, segurando os cabelos para o alto.

Ele passou a corrente prateada com delicadeza ao redor do pescoço dela e fechou-a rapidamente. Em seguida ambos fitaram o espelho diante deles.

A corrente era fina, quase invisível se não fosse pelo brilho metálico. Delicada, feita de rubi lapidado até ficar plano, uma borboleta fora esculpida e era o pingente. Ela colocou pequenas argolas prateadas e uma pulseira de rubis para combinar e voltou a olhar seu reflexo no espelho. Seto aparecia logo atrás dela, as mãos na sua cintura, a figura alta destacada contra ela. A cabeça dele repousava sobre a sua, e um sorriso muito raro de paz residia em sua boca.

- Você está linda. – ele murmurou, e viu-a sorrir, ruborizando de leve novamente. – Mas se pretende sair com essa roupa, sugiro que pegue um moletom e um sobretudo.

Ela franziu as sobrancelhas, confusa.

- Por quê?

- Não olhou pela janela hoje? – ele devolveu a pergunta, surpreso. – Nevou durante a madrugada.

- Jura?

Com os olhos arregalados, May correu para a janela e afastou a cortina. Uma camada de branco cobria todo o jardim.

- Por isso estava sentindo mais frio do que o normal. E também por isso aquela barulheira lá embaixo. – a garota comentou, ainda espantada. – É muito cedo para nevar.

Seto deu de ombros.

- Aconteceu. Tivemos de tomar café aqui dentro por causa da neve, por isso você escutou barulho.

- Falando em café, estamos super-atrasados! – ela resmungou, puxando um casaco do armário, além de uma bolsa vermelha, jogando coisas lá dentro, e em seguida correu para fora.

O japonês a alcançou nos primeiros degraus da escada.

- Temos visitas. – comentou, para alertá-la antes que chegassem à sala de estar.

- Quem? – ela perguntou, sem tirar os olhos da escada para não pisar em falso.

- O'Riley e a família. Conheço o filho dele. Já duelou comigo. – Seto lançou-lhe um olhar breve quando chegaram ao pé da escada. – Estão ansiosos para vê-la.

- São amigos dos meus pais há décadas. Mickey, Lisa e Daniel gostam muito de mim, graças a Deus. E eu também gosto muito deles. – ela lançou-lhe um breve olhar e quando viu que ele estava meio nervoso, segurou-lhe a mão. – Ei, fique calmo! Eles não vão publicar nada que a gente não queira.

- Eu sei. Eu tenho um contrato muito rígido com a emissora, e exigi o profissional mais íntegro de que fiquei ciente. – ele sorriu, mas voltou a ficar sério. – Estou mais preocupado em relação ao seu passado. Suponho que não queira que tudo seja exposto na mídia.

- Não, não quero. – ela parou de andar para fitá-lo nos olhos. – Eles já sabem de tudo há anos, Seto. Desde que Michiko descobriu o que acontecia e me salvou. E você nunca conseguiu descobrir essa parte do meu passado, nem com o melhor dos seus detetives.

Ele lhe havia dito, quando tentava convence-la a trabalhar para ele, que havia pesquisado seu passado. E pelo modo como continuara agindo depois daquele interlúdio, ela presumiu que ele não conseguira nem mesmo um boato sobre aquilo, o que lhe garantira que o assunto continuava sigiloso.

Seto teve que aceitar aquilo como um argumento a favor de O'Riley. Detestava jornalistas, mas estava disposto a dar um voto de confiança ao homem, pelo menos daquela vez. Ao ver que a desconfiança sumia do rosto dele, May beijou-o rapidamente e continuou a caminhar, puxando-o pela mão.

Foi assim que entraram na sala: de mãos dadas, ela sorridente, ele resmungando.

Wishes

Daniel O'Riley era um jovem de dezenove anos muito bem-resolvido. Nascera numa família de classe média que se tornou rica alguns anos depois do seu nascimento. O dinheiro ajudava a tornar tudo mais bonito, sem dúvidas, mas o amor de seus pais era o elemento principal. Ele fora amado, não só por ser filho único, mas por ser quem era.

Adorava visitar Green Village, a mansão dos Terrae, quando era pequeno. Serena Terrae era linda e cantava divinamente, e adorava cantar para colocar a filha mais nova para dormir. Ele adorava ouvi-la cantar à noite quando passava dias lá.

Mayra Elizabeth Terrae era um caso à parte. Ele a apelidara de Le Fay quando tinha sete anos, porque ela era baixinha e tinha olhos e cabelos escuros, além da pele bronzeada. Era o modo como ele imaginava o povo das fadas.

Desde que a vira quando bebê, sentira uma adoração gratuita por ela. Ela sempre parecera cercada de mágica, e alguma coisa inexplicável sempre acontecia quando estava perto dela.

Ele sabia que ela podia fazer mágica. Ela já levitara objetos quando eram pequenos. Já fizera chuviscar rapidamente. Já até mesmo o fizera flutuar alguns centímetros acima do chão, num momento em que ele lhe provocara uma ira profunda. Ela o avisara que ele poderia se machucar no seu primeiro jogo de basquete pelo time da escola, e ele teria realmente quebrado o braço se não fosse pelo aviso.

Aquele havia se tornado o pequeno segredo deles, e ele gostava de mantê-lo assim até hoje. Haviam apresentado um programa juntos por quase três anos, até que os pais dela morreram. Depois do acidente ele só conseguira vê-la uma vez, no velório, em que se abraçaram e não falaram nada. Eram unidos demais para precisarem de palavras.

Ele tivera ódio dela pelos próximos três anos, pois a garota simplesmente sumiu e seus pais se negavam a lhe dar qualquer informação. Quando ele começou a entrar na idade de pensar em garotas, porém, os pais lhe haviam contado o que havia acontecido com a amiga, e ele ficara entre o horror e a tristeza por vários dias antes de se recuperar.

Depois de pedidos insistentes não só dos pais como também de Michele, ele desistiu de tentar encontra-la. Passara os próximos três anos arrancando pequenas informações deles, como o fato dela estar estudando num colégio interno no Japão e morando com uma tia. Ele até fora até o tal colégio, uma vez em que tivera de viajar para o Mundial de Duelos que se realizaria em Tóquio, mas perdera a coragem de vê-la. Era a sua vez de ter um pressentimento, e ele pressentiu que ainda não era a hora de revê-la.

Agora, finalmente, podia vê-la descendo as escadas, apressada como se lembrava que ela era quando criança. Costumava se atrasar para as aulas e dar um sorriso amarelo para as professoras, que via de regra amoleciam e a perdoavam. Ele entendia completamente, pois não havia nada que também não fizesse por ela.

O homem ao lado dela era nada mais, nada menos que Seto Kaiba. Ele ouvira os rumores de que os dois haviam namorado por um curto período de tempo, mas haviam acabado o namoro. Daniel conhecia a reputação de quebra-corações de Kaiba. Ele não se "amarrava" a ninguém, e até onde sabia, o homem sabia ser frio e antipático de uma maneira mais irritante que a de qualquer um.

Entretanto, ele era tão bom para ler pessoas quanto era para guardar segredos, e ele conseguiu ver além da fachada mal-humorada. Talvez fosse porque hoje era o aniversário do homem, mas havia certo brilho nos olhos dele quando desceu para o café-da-manhã que não se apagara de forma alguma, mesmo que ele tentasse. E agora que o japonês estava do lado da pequena fada, o brilho era ainda maior.

Daniel adorou saber que o homem de gelo estava na coleira, e quem tinha o controle desta era a sua amiga. E o homem não parecia nem um pouco irritado com a situação, apesar de estar resmungando e olhando para ele e para o pai como se fossem demônios. Bem, todo mundo sabia que Kaiba detestava jornalistas, principalmente se estivesse numa posição desvantajosa como a que estava agora.

Mas no segundo seguinte Daniel esqueceu suas conjecturas acerca de Seto Kaiba, pois um corpo menor chocou-se contra o seu e ambos foram ao chão, abraçados.

- DANNY BOY! – ela gritou, feliz ao vê-lo, e abraçou-o mais forte. – Senti tanto a sua falta!

- Nem parece! – ele resmungou, ofegante. Ela o havia pegado de surpresa. – Ei, Le Fay, você não é tão leve quanto parece, sabia? Sai de cima!

Seus pais riam às gargalhadas, acompanhados por Michele. Kaiba o fuzilava com os olhos, encostado à uma parede próxima. Os outros apenas observavam tudo em choque, e depois comentavam algo baixinho. Ela sorriu, beijou-o em todo o rosto e finalizou com um sonoro beijo na boca, que ele apostou que elevaria o ódio de Kaiba por si em dez graus.

- Também te amo, sua peste! – ela resmungou, antes de erguer-se e ajuda-lo a levantar-se. – Mickey!

Daniel assistiu com prazer seu pai sofrer o mesmo tratamento, mas o velho estava preparado e não caiu como ele.

- Menina, você continua cheia de energia! – ele resmungou, um pouco ofegante também.

- E agora está linda! – Lisa, que ganhou um abraço logo que May largou seu marido, exclamou. – Sua mãe adoraria competir com você pelas atenções dos homens.

May riu alto, de um jeito que não fazia há exatamente seis anos e meio.

- Ela ganharia em qualquer ocasião! – exclamou, modesta, enquanto ruborizava de uma maneira que Daniel considerava adorável.

Conversaram bastante, por quase vinte minutos ininterruptos, sobre o rumo que suas vidas tomaram desde que se separaram. May sentiu-se confortada por estar na presença de amigos tão próximos de seus pais. Era quase como estar com eles.

- Le Fay, acho que estou apaixonado por você. – Daniel anunciou quando fizeram uma pausa nas fofocas, puxando-a para mais um abraço. – Casa comigo?

O moreno viu os olhos azuis do japonês tornarem-se lâminas de aço apontadas para si ao proferir a frase, mas descobriu que adoraria provocar o único homem que lhe roubou um título mundial antes.

- Já sou comprometida, Daniel. Olha o respeito! – ela respondeu, rindo. – Mas tenho uma prima que adoraria conhece-lo pessoalmente. – e então virou-se, buscando uma cabeça morena em particular. – Ei, Kali!

A prima virou-se. Não se falavam há dias, mas mesmo assim a japonesa respondeu ao chamado e se aproximou, rebolando da maneira mais sexy que conseguiu. May viu os olhos de Daniel brilharem de apreciação, e decidiu que os dois se mereciam.

- Acho que não preciso te apresentar a figura. – murmurou para a prima e deixou-os, puxando Michael e Lisa consigo.

- Lizzie, querida, você poderia não ter me arranjado mais uma vítima. – murmurou Lisa, que lançava olhares maternalmente ciumentos para o filho.

- Deixe-o se divertir. – Michael defendeu o rapaz, e May apenas balançou a cabeça em negativa.

- Eles vão se entender muito bem, eu garanto. Ei, porque só vieram me visitar agora? – inquiriu, curiosa.

- Na verdade, viemos aqui três vezes semana passada, mas você nunca estava em casa.

Ela assentiu, compreendendo. Era quase assustador lembrar que há poucos dias atrás estava atarefada acima do que era esperado apenas para manter distância de Seto, mas ela supunha que o amor tinha daquelas confusões.

- Entre o laboratório da Kaiba Corporation e as reuniões com a diretoria da Terrae, eu tive pouco tempo para ficar em casa. – explicou, omitindo razões.

Michael, como sempre, ficou sério ao ouvir o assunto ser mencionado.

- Não gosto do jeito como eles fazem de conta que você tem trinta anos e pode dirigir uma multinacional com mão de ferro.

Ela sorriu, compreensiva.

- Na verdade, eu posso fazer isso. – ela explicou, achando graça do olhar irritado que ele lançou sobre si. – Você sabe muito bem que eu tenho uma inteligência acima do normal, Mickey.

- Sim, mas não tem experiência no ramo, o que é essencial.

- Na verdade, eu até tenho alguma. Venho ajudando tio Eddie a dirigir a empresa de longe há anos. Por que acha que todos os Terrae estão aqui? Anteciparam a reunião de família, aproveitando a minha vinda, para discutir assuntos da empresa comigo.

- Ou seja, Mick, ela dirige a empresa. – Lisa não perdeu a chance de provocar o marido. – As mulheres dominam o mundo, meu caro, admita isso!

- Pelo amor de Deus, mulher, ela só tem dezessete anos! Ninguém nessa idade pode dirigir coisa nenhuma!

- Na verdade, Mickey, nós temos um exemplo vivo de que a sua teoria é furada aqui. – May replicou, rindo. – Esqueceu que o Seto dirige a Kaiba desde que era mais novo do que eu? E veja aonde ele chegou.

Os três olharam para Seto, que agora conversava com Hiragizawa sobre os atrasos na agenda.

- Vocês dois são muito precoces. – ele respondeu, abraçando-a. – Gostaria de pensar que foram crianças normais.

Ela o abraçou de volta, pois Michael tinha um jeito muito semelhante ao do seu pai, o que a confortava.

- Nós não fomos, e não quero que sinta pena de nós por isso. – ela replicou, beijando-o na bochecha. – Gostamos de quem somos e já aceitamos que ambos somos fora do padrão.

Lisa e Michael trocaram um olhar cúmplice, antes que a ruiva fizesse a pergunta.

- Você gosta muito dele, não é, querida?

Ela olhou para trás, fitando o assunto da conversa. Seto sentiu a observação e virou-se, fitando-a pelo que lhe pareceram milênios antes de lhe enviar um sorriso safado e voltar a atenção para Takashi, que ainda tagarelava sobre a agenda do dia. Ela então voltou a fitar o casal, com um sorriso igualmente malicioso, enquanto ruborizava.

- Acho que se pode colocar dessa forma. – respondeu, segurando uma risada.

- Alguma coisa me diz que vocês dois já passaram e muito dos olhares ardentes. – Lisa murmurou, e o marido soltou uma imprecação, afastando-se enquanto murmurava algo sobre "mulheres", fazendo-as rir.

- Não sei mentir, Lisa, então simplesmente não vou responder essa pergunta. – ela respondeu baixinho, ruborizando mais.

- O que já serve totalmente como resposta! – a mulher riu, deliciada. – Vocês realmente são muito precoces, se é que me entende.

- Entendo... – May, envergonhada, desviou o rosto do olhar malicioso da outra.

Por sorte, Hiroki estava se aproximando para salva-la... mesmo que o rapaz não soubesse disso. Mokuba o acompanhava, ambos sorridentes.

- May-chan, estamos discutindo uma questão de suma importância aqui e precisamos da sua opinião. – Hiroki, sempre galanteador, cumprimentou Lisa com um "mas que mulher linda!" que a ganhou completamente.

- Do que estão falando? – May quis saber, curiosa.

- Estávamos discutindo se meu irmão nos mataria por querer pedi-la em casamento também. – Mokuba declarou, provocando mais risadas em Lisa e um rubor ainda maior em May.

- Bem... – a garota deu de ombros. – Acho que só ele pode responder isso, mas eu não aceitaria os pedidos, desculpem. – respondeu, tímida.

- Uma lástima... Eu te faria muito mais feliz. – Hiroki resmungou, com um drama digno de um Oscar, fazendo-a rir. – Mas devo dizer que você está muito apetitosa hoje. Onde estão as calças folgadas e as blusas frouxas?

Só porque se sentia extremamente à vontade entre os amigos, ela permitiu-se responder com idêntico humor.

- Você não soube? Mandei incinerar, ontem!

Lisa gargalhou, acompanhada de Mokuba, enquanto Hiroki apenas a abraçava e girava-a no ar, risonho.

- Bem, agora é sério, preciso falar com você. Na verdade com todo mundo. Assunto da KC. – respondeu.

- Oh... – May virou-se para Mokuba e Lisa, despediu-se dos dois e acompanhou o amigo em direção a Michael, Haruka e Takeru. – Bom dia, gente!

- Oh, deve ser uma miragem! Ou um clone! – exclamou Haruka, de olhos arregalados. – Quem é você e o que fez com a nossa May-chan?

Depois de todos rirem da brincadeira e dela ruborizar completamente, todos se acomodaram em pé mesmo, ao redor de Takeru, que mexia em algo em seu notebook. May tirou os óculos de dentro da bolsa e os colocou, já que não conseguia enxergar nada.

- Ah, agora você está parecida com a May-chan que conhecemos. – Hiroki provocou, brincalhão. – Aliás, faz tempo que não te vejo de óculos.

- Estou usando lentes desde que aterrissamos aqui. – ela revelou, sorrindo encabulada. – Sabe como é, a imagem da família e tal...

- Sei. – ele a abraçou, plantando um beijo em seus cabelos. – Não deu tempo de colocar as lentes hoje?

- É. – ela concordou, bufando. – Sabe, estava até começando a gostar. É bem menos incômodo do que os óculos.

- Você deveria continuar usando, querida. – Haruka comentou, franzindo os olhos ao observá-la. – Ajuda a mostrar seus olhos. Eles são lindos, e ficam tão apagados atrás desses aros horrorosos!

May riu, mas calou-se quando Takeru chamou a atenção de todos.

- Tenho um amigo que trabalha numa companhia daqui do seu país, May. Eles estão desenvolvendo um novo material para ser utilizado como tecnologia de ponta na fabricação de computadores. Ele não quis me dar muitos detalhes, mas mandou uma apresentação em Power Point com algumas informações. Aparentemente estão precisando de investidores, e como ele sabe que estou trabalhando para o Seto, pensou que ele podia se interessar.

- E daí? – Hiroki, sem entender o que eles tinham a ver com isso, perguntou.

- Eu dei uma olhada na apresentação sozinho, e acho que o que eles estão tentando desenvolver pode ser o que precisamos para a Arena Alpha.

Todos arregalaram os olhos e passaram a moderar o tom, unindo mais as cabeças para poder cochicar.

- Quer dizer que nunca mais teremos de ver aquela maldita "Pane no sistema, pane no sistema!" escrita no computador? – May perguntou, esperançosa.

- Talvez. – Takeru sorriu. – Todos vocês lembram das matérias de química?

Os alunos do CISJ viam as matérias normais – biologia, matemática, física, química, japonês, etc. – em menos tempo do que os alunos de colégios normais, o que significava que eles terminavam o curso colegial aos catorze anos.

A partir daí eram vistas apenas matérias relacionadas com a profissão que cada um decidia seguir, e esse era o motivo de muitos aceitarem estudar no colégio e pagarem pelo privilégio – o fato de saírem dele numa média de dezoito ou dezenove anos com empregos garantidos e sem precisar fazer faculdade.

- Estou meio enferrujada na química, confesso. – Haruka resmungou, e Hiroki e May acompanharam o protesto.

- Bem, se vocês não lembram, os átomos de carbono podem combinar-se entre si em três formas: grafite, diamante e fulereno. As duas primeiras não nos interessam. Mas o fulereno... ele pode ser nossa salvação.

Todos trocaram olhares, mas continuaram calados, esperando o resto da explicação.

- Vocês lembram a organização geométrica dos átomos de carbono no fulereno? – Takeru perguntou.

- Se não me engano... – Michael sussurrou, pensativo. – Eles se organizam em pentágonos e hexágonos. Os átomos ficam nos vértices dessas figuras. E eles são ligados de maneira muito semelhante a uma bola de futebol. Por isso é chamado também de Buckbola.

- Isso mesmo! – Takeru sorriu, aprovador. – Bem, a questão é que a organização é extremamente parecida com uma bola de futebol. São feitos em grupos de sessenta átomos, ou múltiplos desses números. E são ocos, exatamente como uma bola.

- Mas são agrupamentos minúsculos, Takeru. – May rebateu. – Não podem nem ser vistos a olho nu! Que diferença faz se são ocos ou não?

- Faz toda a diferença, May-chan. – ele respondeu, satisfeito. – Esse meu amigo e a firma dele estão tentando incorporar núcleos de outros átomos no centro do fulereno. Faz idéia das propriedades que isso dá ao composto?

Os outros quatro ficaram estarrecidos, suas próprias mentes avaliando as possibilidades.

- Eles estão usando núcleos de átomos de metais leves. Sódio, Lítio, Potássio. A estabilidade é incrível, a condutividade elétrica é quase indescritível, e os riscos de superaquecimento são bem mais reduzidos do que os materiais que usamos atualmente. Se eles conseguirem realmente estabilizar o híbrido e produzir em larga escala, pode ser a nossa salvação.

- Mas se são metais leves, o risco de evaporarem é ainda muito grande! Você sabe que o projeto Alpha usa estruturas de larga escala, Takeru. – Haruka falou, evitando usar palavras mais específicas por medo que alguém escutasse.

Os cinco envolveram-se num pequeno debate acerca de prós, contras, defeitos, vantagens, possibilidades de outras hibridações, até que Seto se aproximou.

- O que está acontecendo aqui?

Takeru forneceu-lhe uma versão resumida do que contara aos outros – até porque Seto lembrava dos assuntos de química – que o deixou curioso. Por fim, o rapaz cedeu a cadeira para o amigo e chefe, que navegou pela apresentação em slides e absorveu-se em pensamentos.

- Seto? – May, atrás dele e apoiada nas costas da cadeira, chamou-o.

Os outros ficaram surpresos por ouvi-la finalmente chamando-o pelo primeiro nome, mas não falaram nada. Como o namorado não respondeu ao chamado, ela deixou a mão deslizar para cima e para baixo em frente ao rosto dele, o que finalmente chamou sua atenção.

- Oi? – ele respondeu, finalmente, virando-se para fita-la.

- Achamos que você devia ir com Takeru a esta firma para verificar esse projeto. Pode ser o material que estávamos procurando.

Os outros concordaram. Seto e Takeru trocaram um olhar entre si.

- Realmente, Seto, pode ser o que estamos procurando. – Takeru repetiu, convicto.

- Vou verificar minha agenda e entraremos em contato com a companhia o mais rápido possível. Mas não poderemos ir lá antes de novembro terminar. Tenho muito o que fazer até lá.

Os outros sorriram, assentindo.

- Pelo menos é uma chance de resolvermos pra sempre esse problema. – Haruka suspirou, aliviada. – Já estava subindo pelas paredes com isso. Nossos avanços ficam muito limitados pela baixa qualidade do material que usamos nos testes.

- Eu sei, mas é melhor não depositarem muitas esperanças para que não haja uma grande decepção, caso estejamos enganados. – ele respondeu, demorando o olhar sobre May, que corou.

- Ei, eu aprendi a lição daquela vez! – ela resmungou, fazendo os outros rirem.

- Acho bom! – ele provocou um pouco mais, zombeteiro. – Mas também acho bom vocês comerem algo, partimos em meia-hora para a Kaiba.

Os outros logo se dispersaram em direção à mesa cheia de comida, deixando o casal a sós. Kaiba cruzou os braços, lançando-lhe um olhar indagativo.

- O que ainda faz na minha frente? Pensei que tinha dito pra você comer! – ele exclamou, irônico.

- Quem decide a hora que eu como sou eu. – foi a resposta dela, com um esgar de boca.

Ele sorriu, puxando-a pelo braço em direção à mesa.

- Você precisa de comida, meu bem. Desde ontem à tarde que não come nada.

- Eu estou bem! - ela resmungou, sentando-se. Ergueu uma sobrancelha quando ele não a acompanhou. - Você não vai comer?

- Já fiz isso. - sorriu, superior, e ela teve que segurar uma risada.

- Céus, como você é presunçoso!

- Obrigado pelo elogio, amor. - sussurrou para ela, antes de se afastar de volta ao local onde Takashi o aguardava. May acenou para o amigo e resolveu se concentrar na comida.

Um corpo sentou-se ao seu lado, e ela não pode evitar lançar um olhar de relance para a irmã. Desviou os olhos logo em seguida, voltando à tarefa metódica de empilhar comida no prato. Michele pigarreou, chamando-lhe a atenção.

- Pois não? - a morena retrucou, fria.

- Ainda está com raiva de mim? - "E por uma coisa que eu nem fiz!", a loira pensou, mas manteve o pensamento para si.

- Um pouco. - a mais nova respondeu, cortando pedaços de maçã.

- Quanto tempo vai levar para você me perdoar?

May fechou os olhos e respirou fundo, buscando seus próprios sentimentos.

- Perdoar eu já perdoei. Só que me sinto magoada e não confio mais em você. - respondeu, abrindo os olhos úmidos de lágrimas que queriam cair.

- Perdão, amor. - Michele capturou uma das mãos da irmã mais nova entre as suas. Seu olhar dizia claramente como precisava ser perdoada. - Nunca quis te magoar, e fiz apenas aquilo que julguei melhor. Você é a pessoa mais importante da minha vida e eu já estive longe de você por tantos anos! Não quero passar por isso de novo... - murmurou, meneando a cabeça.

May odiava ver a irmã triste. Fungou rapidamente e esboçou um sorriso.

- Hum... Podemos tentar começar do zero de novo. - murmurou, o sorriso se alargando pouco a pouco.

Michele pareceu surpresa por um momento, depois sorriu de volta e abraçou-a.

- Frau... Você está quase me esmagando! - May reclamou, ofegante.

- Desculpe... - a estonteante loira soltou-a. - Acho que estou muito emotiva últimamente.

- Eu também...

As duas trocaram sorrisos cúmplices e caíram na gargalhada. "Deus, é tão bom estar com ela de novo!", pensaram.

- Hum... Alguma novidade? - a morena perguntou, pois haviam passado algum tempo sem se falar também.

- Tenho, sim. Você pode me arranjar o telefone daquele seu amigo loiro?

- Quem? - May ergueu as sobrancelhas, confusa. - Jounouchi?

- Não... O nome dele era Malik, eu acho.

- Ishtar-sama? - May assustou-se e caiu na gargalhada de novo. - De onde você o conhece?

- Da sua festa, oras... Eu estava lá toda irritada e bêbada depois que você subiu e ele apareceu do nada! - exclamou a loira. - Você sabe que eu não ajo normalmente quando bêbada, então...

- Frau... Você atacou o Ishtar? - ela pensou que não poderia haver surpresa maior que aquela.

- Se por atacar você quer dizer que eu o carreguei até a minha cama e não o larguei até o dia seguinte, então, sim, eu ataquei.

Certo, podia haver surpresa maior.

- E você não pegou o telefone dele?

- Não, o homem sumiu tão rápido quanto apareceu. Quando eu acordei ele tinha ido embora.

- Uau... Você e Malik Ishtar. - a garota ficou repetindo para si mesma enquanto tentava digerir as informações.

- Não pense que me faz de boba não, mocinha. Sei muito bem o que você andou fazendo com o Seto ontem de noite.

May corou, envergonhada.

- Ai, Frau...

- Fui no seu quarto hoje de manhã para conversarmos em particular, mas você não estava lá. Perguntei ao Gaspar se ele a tinha visto, mas ele disse que você estava no quarto de Adam e Serena com o Seto desde a noite anterior.

May lançou um olhar fulminante para o mordomo, que apenas sorriu de volta, sabendo do que se tratava.

- Eu e Seto já dormimos juntos antes e nunca aconteceu nada. - ela afirmou, baixinho.

- Mas desta vez aconteceu. Eu sei disso e você não me engana. - Michele afirmou, apontando-lhe acusadoramente o indicador.

May rodou os olhos e em seguida adquiriu um sorriso malicioso quando uma idéia passou por sua mente.

- Então... Está afim de um repeteco com o Malik, é? - perguntou, cínica.

- Adoraria. - Michele respondeu, sem problemas. - Mas na verdade quero tratar de outro assunto com ele.

- Hum? - a morena franziu o cenho, curiosa.

- Sabe como é... Depois de ter visto aquele abdômen, não pude deixar de pensar que ele daria um ótimo modelo para a nossa nova campanha de cuecas.

May piscou os olhos e, quando a imagem de Malik de cueca num outdoor se formou em sua mente, deixou escapar uma sonora gargalhada.

Wishes

O resto do dia passou como um raio. Eles chegaram à Kaiba Corporation muito mais animados depois das notícias sobre o possível avanço nas pesquisas deles graças ao amigo de Takeru. Seto arregaçou as mangas e ajudou-os a detectar e reparar todos os possíveis erros do programa. A equipe americana havia sido dispensada, já que o resultado final deveria ficar sob segredo de estado até o fim do dia. Yugi foi com eles e achou graça do bônus que ela havia feito com ele e Kaiba para quem conseguisse um certo nível no jogo.

Ela teve que se dividir entre cientista e repórter a maior parte do tempo, mas quando a equipe se trancou no laboratório com Seto para corrigir os erros, a equipe de filmagem e Mokuba e Claire ficaram de fora. O almoço serviu para reunir todos de novo, e ela aproveitou para gravar algumas tomadas para a propaganda do evento na TV. Quando finalmente rumaram para o estádio da Kaiba Corporation, Seto lhes havia pedido que transformassem a versão atual do duelo de arena numa versão light da Arena Alpha. Seria a primeira propaganda feita a respeito do projeto, e ao mesmo tempo mostraria ao mundo que os cinco adolescentes não estavam brincando na hora de trabalhar. Como benefício adicional, faria os concorrentes da empresa se roerem de raiva.

Daniel acompanhou Seto e Yugi, junto com Claire e Mokuba, para o carro da emissora que os levaria ao programa de seu pai. As garotas que já estavam na fila ficaram alvoroçadas ao ver os três maiores duelistas dos últimos tempos juntos e caminhando tão perto delas. May apenas riu e acompanhou os outros quatro amigos na difícil tarefa de transformar uma mera arena de duelo n'A arena de duelo. Passou a tarde indo e voltando do palco para os laboratórios do estádio, treinando para ser apresentadora, entrevistando os espectadores que chegavam e ajustando os novos consoles da arena.

Quando a tarde terminou, ela estava mais nervosa do que antes. Saiu correndo para o camarim para tomar um bom banho e deixou a cabeleireira e a maquiadora arrumarem-na. O vestido que usaria era branco e vaporoso, sem um formato específico. Dava-lhe a aparência de uma fada ou outro ser místico. Daniel certamente aprovaria. Seu cabelo foi arrumado para parecer uma cascata de cachos selvagens e a cor dos olhos foi ressaltada com sombras verdes que a deixaram com uma impressão ainda maior que era uma fada que escapara da floresta.

Os saltos retiniram, mas ninguém ouviu, pois o som estava muito alto quando ela finalmente entrou no palco. A massiva aglomeração da platéia, que gritava, tirava fotos, balançava cartazes e chamava seu nome deixou-a com um frio na barriga ainda maior e uma sensação de volta ao lar em seu coração. Ela tivera aquilo aos sete anos de idade, e tinha de volta. Eles não a haviam esquecido. Muito pelo contrário, recebiam-na de braços abertos. Algumas lágrimas de felicidade rolaram pelo seu rosto ao ouvir os coros de "eu te amo", e ela prometeu-se que jamais passaria tanto tempo de novo fora do seu país. Aquela era a sua casa.

O medo de falhar sumiu, e a antiga May vívida e segura de si reencarnou na nova May. Ela e Daniel apresentaram as bandas e cantores que ali passavam, fizeram brincadeiras que deixaram todos rindo, posaram para fotos nos intervalos e até dançaram em algumas apresentações mais entusiasmadas. O entrosamento dos dois era harmonioso, mesmo que anos houvessem passado desde a última vez que estiveram juntos sob os holofotes.

Quando a hora de trazer Yugi e Kaiba para o palco chegou, uma tensão elétrica se espalhou pelo ar. As brincadeiras foram reduzidas e até mesmo a platéia estava em silêncio. O primeiro a entrar foi o baixinho, arrancando suspiros das fãs e recebendo muitos flashes de câmeras fotográficas. Quando Seto entrou, porém, a audiência foi à polvorosa. Yugi, sem dúvida, era mais querido por todos, mas o misterioso romance dele com May fez com que sua entrada fosse a mais esperada. Assim que ele parou ao lado da namorada, os flashes começaram a espocar.

- Muito bem, meninos. - ela começou, parando entre Seto e Daniel. Os flashes ainda espocavam. - A batalha de vocês vai dar início ao nosso torneio. Será um três contra três com morte súbita. Cada um de vocês tem uma torre e um baralho de cartas que poderão usar durante o jogo. - apontou as três torres visíveis dali, que seriam os pontos onde os jogadores fariam suas jogadas ao invés de um deck.

Os três assentiram, sérios.

- Todos os três têm microfones presos ao redor de suas cabeças. - apontou um que ela mesma usava, do mesmo tipo. - Qualquer jogada que pretendam fazer deve ser anunciada pelo microfone antes de ser feita. Quem desrespeitar esta regra recebrá uma punição em forma de perda de pontos. Dependendo da jogada, a perda pode variar de quinhentos a mil e duzentos pontos. - ela continuou, e os três assentiram mais uma vez. - O último que restar com pontos de vida é o vencedor. - concluiu.

Os três assentiram, indicando que compreendiam, e Daniel tomou a palavra.

- Ei, Lizzie, quero um beijo de boa sorte! - pediu, um sorriso malicioso em seu rosto.

Ela havia totalmente esquecido da tentativa deles de encurralar a ela e a Seto, durante à tarde. A correria era tanta que o assunto simplesmente sumiu de sua cabeça. Agora tinha a nítida sensação de que uma cilada fora armada de volta. Seto apenas contribuiu quando passou um braço pela sua cintura e declarou, com o microfone ligado:

- Nem pense nisso, O'Reily, ela é minha.

A multidão voltou a gritar e aplaudir, extasiada. May sentiu-se corar até a raiz do cabelo. Não teve coragem de olhar para o camarote de onde sua família e os amigos assistiam tudo.

- Acho que é ela quem decide isso, Kaiba. - foi a resposta de Daniel, provocando ainda mais a alegria da multidão.

Yugi apenas observava, um sorriso igualmente malicioso, mas resolveu tomar partido na situação.

- Vamos fazer o seguinte. - ele começou, sorrindo. - Vocês dois tiram os microfones por um tempo e fecham os olhos. May-chan escolherá quem vai receber um beijo de boa sorte.

- Eu topo. - Daniel respondeu, com um olhar desafiador para Kaiba.

- Sem problemas. - o japonês também concordou.

Enquanto os dois tiravam seus microfones e fechavam os olhos, ela desativou seu próprio microfone e o de Yugi para uma conversa particular.

- Que idéia de jerico foi essa??? - questionou, corando mais ainda.

- Daniel me pediu uma ajudinha pra aprontar com você e o Seto. Como eu adoro ver o meu amigo contrariado e submetido a você, eu concordei inteiramente.

- Mas isso é maldade comigo! Além do mais, ele vai ficar louco da vida com você depois.

Yugi sorriu e acariciou o rosto da garota com uma das mãos.

- Eu estou acostumado ao mau-humor dele, não se preocupe. Agora vá beijar o homem que você ama! Quanto mais rápido começar, mais cedo vai terminar.

- Eu juro que te esgano, Yugi! - ela resmungou, mas ele apenas riu e a empurrou.

Seto estava obedientemente de olhos fechados, mas Daniel já estava se mexendo de novo. Pediu a ela que fizesse silêncio para que o outro não percebesse e a empurrou para perto do japonês. A multidão soltava gritinhos abafados a cada movimento. Quando ela começou a tirar o microfone da cabeça, um coro de "Beija! Beija!" já se havia estabelecido. May não podia dizer a Daniel que Seto sabia que ela estava bem à frente dele, graças à Junção, mas ela podia ver o sorriso safado no rosto do namorado.

Quando ela deu mais um passo para perto dele, a multidão voltou a gritar, mas calou-se rápido. Sentindo borboletas no estômago, ela foi se aproximando lentamente dele, provocando os espectadores ao fazê-lo naquela velocidade. Quando estava finalmente se inclinando para ele, Kaiba tomou a dianteira e, enlaçando-a pela cintura, tomou seus lábios nos dele num beijo que deixava claro a quem ela estava desejando boa sorte. Ela sentiu as borboletas sumirem de seu estômago e a languidez tomar conta enquanto deslizava os braços pelo pescoço dele e deixava sua língua provocá-lo pela audácia. Sabia que havia mais gente ao redor, mas era como se ninguém mais existisse além dos dois.

Em algum momento o beijo deixou de ser puramente desejado para se tornar carinhoso. Ela sabia que havia crianças assistindo, mas simplesmente não conseguiu soltar-se dele até que se separaram em busca de ar. O braço dele continuava firmemente preso à sua cintura. Os olhos azuis brilhavam de encontro ao dela enquanto ele sorria malicioso e arfava em busca de fôlego.

- Boa... sorte. - murmurou assim que conseguiu recuperar a voz.

Ele apenas sorriu, soltou-a e colocou o microfone de volta no lugar, questionando:

- Satisfeito, O'Reily?

- Não, mas eu aceito a derrota. - ele respondeu, e os três dirigiram-se para a arena, deixando uma May ainda surpresa para trás.

N/A: Wishes é cultura! XD

O Buckminsterfulereno foi descoberto já há algum tempo, no século XX. É a mais nova variação alotrópica de carbono encontrada. Sua utilização envolve o campo da tecnologia, como fibras óticas. Pode ser chamado de Fulereno ou Buckyball (Buckbola), em homenagem ao seu descobridor e por parecer uma bola de futebol quando visto ao microscópio eletrônico. Cientistas estão pesquisando maneiras de usá-lo para fabricar chips de computador mais estáveis e de condutividade elétrica mais acentuada do que o silício, o atual material usado na fabricação dos chips. As informações sobre as propriedades do fulereno fornecidas acima são verdadeiras. O advento da combinação dele com elementos metálicos é apenas uma suposição da autora da fic que pesquisou a respeito.