CAPÍTULO II

Carla acordou com o sol frio de inverno entrando pelas janelas do seu quarto e lançando sua pálida luz sobre ela. O quarto à sua volta tinha pouca mobília, apenas a cama de casal, duas mesinhas de cabeceiras e uma arca ao pés da cama. Havia uma porta perto das janelas que davam para uma peça contígua que era composta de um pequeno closet e um banheiro. Ela olhou preguiçosamente para o relógio na mesinha e fez uma cara de poucos amigos. Já eram quase nove horas, tinha que ir para o escritório. Jogou seu corpo para fora da cama e dirigiu-se para o banheiro. Tinha exatos quinze minutos para se vestir; lavou o rosto e foi até o closet. Olhou para as roupas penduradas, pegou um tailleur vermelho escuro e uma blusinha branca, atirou-os para sua cama. Voltou ao banheiro, abrindo a ducha e enchendo o aposento de vapores.

Dez minutos depois, estava colocando os sapatos de bico fino nos pés, foi até o espelho no closet e, avaliando-se na frente dele, acenou positivamente com a cabeça para si mesma. Levantou seus cabelos castanhos na altura de nuca e, dando duas voltas nele, fez um coque que deixava alguns fios soltos caindo pelas laterais do rosto. Olhou para o relógio no pulso e constatou que já ultrapassara um minuto do seu horário, não daria tempo de comer nada antes de sair. A cozinha não era um lugar muito visitado por Carla, raramente tinha tempo de fazer algo, ou disposição. Foi até o sofá, pegou sua bolsa, abriu a porta e desceu correndo as escadas.

Um táxi estava acabando de deixar um passageiro, ela fez sinal e, minutos depois, estava a caminho. O escritório ficava bem no centro financeiro da cidade, num edifício imponente de linhas retas, ultramoderno. Carla pagou o táxi e entrou no Hall. O recepcionista deu-lhe um breve aceno com a cabeça, cumprimentando, ao que ela retribuiu com um sorriso e tomou o caminho dos elevadores. Apertou o número vinte e um, e as portas se fecharam sem qualquer ruído. Logo depois, ela entrava num andar todo acarpetado em tom tabaco, onde uma moça de olhar eficiente e cabelos ruivos estava sentada atrás de uma mesa de secretária. Carla passou por ela, lançando-lhe um sorriso e dizendo:

– Bom dia, Srta. Trevis.

– Bom dia, Srta. Bastet. – Retribuiu-lhe o sorriso, levantou e abriu a porta atrás de si.

A srta. Trevis entrou no escritório logo atrás de Carla com uma agenda na mão e falou solenemente:

– Você tem uma reunião com produtores do Mercosul às três horas. – E, fitando-a, perguntou: – Aconteceu alguma coisa?

Carla havia se sentado em sua cadeira e olhava a rua lá embaixo através imensas vidraças do escritório. Ela rodou a cadeira e, apoiando a caneta sobre o bloco que estava em cima da grande mesa de carvalho à sua frente, respondeu:

– Sim e não, Carrie. – Seus olhos castanhos pousaram sobre a figura em pé à sua frente. – Preciso de um café... Forte.

Carrie assentiu e saiu pela porta. Carla voltou-se novamente para as vidraças, seus olhos não viam as ruas, estavam fixos no infinito. Um turbilhão de emoções rodava em sua mente. Ela se levantou e começou a andar pelo escritório, como geralmente fazia quando tinha algum problema.

A Srta. Trevis voltou com uma bandeja de prata nas mãos, onde trazia um bule igualmente de prata e uma xícara de porcelana fina, alguns torrões de açúcar, torradas e geléia. Virando-se para Carla, disse:

– Aqui está seu café, Srta. Bastet. – E mais uma vez fitou a expressão da outra. – Tomei a liberdade de acrescentar torradas e geléia ao seu pedido. Imagino que não fez seu desjejum hoje, como sempre.

– Obrigada, Carrie. Deixe em cima da mesa. – E apontou para a mesa de centro em frente ao sofá verde no canto da sala.

– Está bem, Carla. – Colocou a bandeja sobre a mesa indicada e saiu, fechando a porta atrás de si.

Carla se serviu de café e ficou em pé olhando as nuvens que se agrupavam lá fora, indicando que o dia terminaria chuvoso. Olhou para a imensa mesa de carvalho e pegou um porta-retrato em uma das gavetas trancadas à chave no seu lado esquerdo. Nele, um casal de uns cinqüenta anos sorria para ela, jogando beijos. Ela estava acostumada a ver fotos onde as pessoas se mexiam, mas como outros não, achava prudente mantê-la na gaveta. Deu um suspiro, guardou o retrato dos pais, e foi em direção ao sofá. Estirou-se nele, fitando o teto, e então suas pálpebras pesaram, até que adormeceu.

Quando entrou no terreno dos sonhos, ela viu Sirius. Ele estava mais novo, sorria para ela e a puxava para si. Depois viu uma mulher com um sorriso malévolo e cabelos castanhos ao lado de um homem com uma capa preta, a pele branca como um cadáver, os olhos vermelhos e fendas no lugar do nariz. Seu pulso acelerou, a respiração tornou-se fraca, e ela se viu ajoelhada aos pés dele. Ele apontou a varinha para ela, e um facho de luz verde passou pelos seus olhos. Segundos depois, não estava mais lá, andava por uma rua escura e viu à sua frente o homem com a capa entrar em uma casa. Ela esperou, em seguida, ouviu berros e estampidos e, por sua vez, também gritou e caiu ao chão.

Carla acordou ofegante, com corpo dolorido e com Carrie ao seu lado olhando-a desconfiada. Carla se sentou num pulo e perguntou:

– O que foi? – E encarou a secretária. – Eu acho que cochilei, foi só. Alguém ligou?

– Não, Carla. – Carrie a fitou preocupada. – Você estava gritando e eu entrei para ver o que era.

– Eu gritei? – Ela se sentiu desconcertada. – Deve ter sido um pesadelo.

– Já é o segundo esta semana. – E falando-lhe maternalmente, completou: – Você devia se alimentar melhor. Nem tocou nas torradas!

Carla pôs-se de pé e, virando-se para a secretária, ordenou:

– Carrie, desmarque a reunião com os fornecedores e marque imediatamente uma reunião de diretoria. Quero todos aqui em uma hora, entendeu? – Foi até o telefone, pegou sua linha pessoal, e discou um número. – Vamos, ande! Tenho que viajar urgentemente.

Sem responder nada, a Srta. Trevis saiu para sua mesa e começou a fazer as ligações necessárias. Meia hora depois, surgia novamente no escritório, anunciando que em quinze minutos todos estariam reunidos no salão ao lado.

Uma hora depois, Carla deixava o seu escritório na respeitada rua de Londres em direção ao seu apartamento. Chegou, subiu as escadas e entrou em casa. Foi até o closet, colocou algumas roupas que estavam dobradas em suas gavetas numa valise, tirou o tailleur e vestiu uma longa veste púrpura. Soltou os cabelos, voltou até o quarto e abriu a gaveta da mesinha. Dentro, apanhou um objeto de madeira. Jogou por cima dos seus ombros uma capa da mesma cor, com dois botões dourados e, fechando-a, dirigiu-se para sala. Olhou em sua volta, verificou que estava tudo certo e aparatou.

Fez-se um zumbido dentro da sua cabeça. Ela jamais gostou daquela sensação, mas era a única maneira de chegar onde queria. Aparatou numa estrada onde, no alto de uma colina, erguia-se uma imponente mansão cercada por jardins com teixos muito verdes. Carla caminhou e, assim que atravessou o portão, ouviu um estalido às suas costas. Um elfo doméstico apareceu, ela se virou calmamente enquanto ele se apresentava.

– Meu nome é Gizmo, e essa propriedade é particular. – E, fazendo uma reverência cômica, perguntou: – O que a senhorita deseja?

– Falar com seu amo. Ele está? – E mirou a figura de olhos grandes, orelhas pontudas, envoltas em trapos.

– Gizmo vai ver e já volta, senhorita... –esperando que ela completasse a frase antes de desaparecer.

– Bastet. Diga-lhe que é Carla Bastet. – Viu o elfo desaparecer com um mesmo estalido.

Ela não deu mais nenhum passo, sabia que a propriedade devia estar cercada com alguma proteção mágica, ou seja, era inútil seguir sem autorização. Porém, um novo estalido às suas costas não a fez esperar muito. Carla se virou, e para sua surpresa, um homem alto, com cabelos compridos loiros e penetrantes olhos cinza, materializou-se nos jardins à sua frente, envolto numa capa preta. Ele a fitou por alguns instantes, até que a voz dele quebrou o silêncio:

– Minha cara e bela Srta. Bastet. – Sorriu maliciosamente.

– Lúcio. – Ela retribui-lhe o sorriso e estendeu a mão. – Galanteador, como sempre.

– Posso encarar isso como um elogio? – E, pegando a mão que lhe era estendida, depositou um beijo terno.

– Entenda como queira, meu caro. – Ela deu-lhe um sorriso zombeteiro.

– Sempre maltratando os corações que conquista, não, Bastet? – E como se a mão dela ainda estivesse presa pela dele, a puxou de encontro a si. – Você demorou muito para voltar, não pude esperar.

Carla estava tão próxima a ele que podia sentir sua respiração. Lúcio Malfoy fora seu namorado na época que estudara em Hogwarts, e junto com Bellatriz e Narcisa, formavam um dos grupinhos da Sonserina. Todos os quatro haviam se tornado Comensais da Morte.

Saindo de seus pensamentos, disse:

– Nunca o maltratei Lúcio, e nunca alimentei sua esperança de um casamento comigo. – E retirando a mão dele da sua, continuou: – Você se casou com a Narcissa, não foi?

– Sempre bem informada. – Respondeu oferecendo-lhe o braço. – Não quer conhecer a propriedade?

– Seria um prazer. – Aceitou o braço que lhe era oferecido.

Eles caminharam um pouco até se afastarem da casa o suficiente para não serem vistos, ouvidos ou sequer incomodados. Carla percebeu que Narcisa devia estar na casa e, por isso mesmo, não fez questão que Lúcio a convidasse para entrar.

– O que a trouxe aqui, Carla? – E encarou-a. – Bella me disse que você tinha ido cuidar dos negócios dos seus avós trouxas, não?

– Lúcio, não gosto quando se refere à eles dessa forma. – E olhando-o duramente, explicou: – Este é um dos motivos pelo qual não daríamos certo juntos. Onde está Bella?

– Em Azkaban. Você não soube da prisão dela? – Ele a olhava fixamente, enquanto se sentavam no banco do jardim.

– E-Eu não sabia... Vim procurá-la. Você tem notícias dos outros? – Um leve brilho passou pelos olhos dela.

– Severo ainda leciona Poções em Hogwarts; Crable, Goyle, Avery, sim... Creio que todos estão bem. – Olhou-a. – Você voltou definitivamente?

– Sim, eu pretendo ficar. – E colocou-se de pé. – Acredito que o Lorde das Trevas volte em breve.

– Seu retorno está cada vez mais próximo. – E, pondo-se de pé também, segurou-lhe a mão. – É uma pena que tenha demorado tanto a retornar, eu nunca te esqueci, mesmo depois de todos esses anos.

– Nosso tempo já acabou, Lúcio. – E virou-se para partir, dizendo: – Manterei contato. Adeus.

Em uma fração de segundos, Carla foi puxada para trás e Lucius a prendeu em seus braços. Sorrindo, ele disse por último:

– Eu não vou deixar que se vá sem uma recordação. – E comprimindo o corpo dela contra o dele, continuou: – Digamos que seja apenas uma lembrança para o futuro, Srta. Bastet.

Ela não pode desvencilhar–se dos braços que a prendiam, e quando percebeu, os lábios dele já lhe arrancavam um beijo. A mente de Carla rodopiou. Afinal, ele sempre fora um homem envolvente, e ela tinha que admitir que estava carente.

Soltando-a logo em seguida, ele acrescentou:

– Eu devia tê-la esperado. Adeus, senhorita. – E fazendo uma nova mesura, a deixou nos jardins num estalido.

Carla saiu pelo portão e aparatou.

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N/A: Meninas, desculpem essa sua autora, mas ontem tive problemas em acessar a net e de postar o caps. Espero que vcs possam me perdoar por isso!!! Um imenso obrigado á todas que me deixaram reviews e um bjo estalado na bochecha!!! Amo vcs!!! Lud vc veio!!!! Muri, vc voltou!!!!Bjokas!