CAPÍTULO III

O crepúsculo já caía sobre o Beco Diagonal quando Carla aparatou em frente ao banco dos bruxos, o Gringotes. Ela precisaria de algum dinheiro se estava pensando em se instalar ali por uns tempos. Entrou no prédio com a fachada de mármore e foi direto à recepção, onde um duende a atendeu. Ela passou a chave do cofre de seus pais às suas mãos longas e finas, e ele assentiu com um gesto de cabeça. Meia hora depois, estava de volta à rua com alguns galeões nos bolsos.

Ela desceu a rua principal e virou numa perpendicular que possuía um casebre de aparência duvidosa na esquina. Carla entrou no lugar e pediu um quarto. Havia apenas mais duas pessoas ali, um bruxo idoso e um rapaz com cabelos ruivos, que conversavam animadamente num canto do sofá desbotado. A aparência do lugar não o tornava convidativo para uma longa permanência, mas Carla lembrou que passara muitas tardes agradáveis debruçada sobre o peito de Black dentro daquelas paredes. Uma vez mais sua mente vagou, e viu Sirius sorrindo para ela, jogando seus cabelos para trás como tinha mania de fazer. Afastou esses pensamentos e subiu a escada

Abriu a porta do número doze e entrou, uma nova profusão de imagens começaram a passar por sua cabeça. Carla depositou a valise sobre a cômoda, retirou a capa e foi até a janela. Abriu as cortinas e pode ver os últimos raios de sol perderem-se no horizonte, voltando-se para cama, sentou na beirada. Olhou o relógio e verificou que faltavam poucos minutos para encontrar Sirius no bar. Foi até o banheiro e, olhando-se no espelho, fez a infeliz constatação que Carrie estava certa, ela estava muito abatida. Ajeitou os cabelos e colocou a capa novamente. Desceu as escadas e saiu para a rua. Seu destino: o pub da Bond Street.

Carla entrou no pub e dirigiu-se até a mesa perto das vidraças; inacreditavelmente, o lugar estava mais cheio que nunca. Eddie saiu de trás do balcão, onde parecia estar arrumando os copos, e veio até ela.

– O de sempre, Srta. Bastet? – Lançando o sorriso acanhado de sempre.

– Sim, Eddie, mas duplo, por favor – respondeu-lhe retribuindo o sorriso.

Pouco depois, o barman depositou um copo à sua frente, e Carla começou a saboreá-lo. Ela se perguntou o que estaria fazendo ali, por que havia marcado esse encontro e cedido ao Black. Tinha prometido a si mesma que não voltaria àquele mundo. Todas as suas dúvidas se dissiparam assim que viu Sirius materializar-se na sua frente, envolto em uma longa capa. Ele se sentou e colocou os braços sobre a mesa, enquanto Carla levava novamente o copo aos lábios.

– Você não mudou nada – ele disse dando-lhe um sorriso cínico. – Ao menos aprendeu a beber?

– Veio aqui medir minha tolerância ao álcool? –Dizendo isso, ela apoiou os cotovelos na mesa, depositando o copo vazio à sua frente. – Não seria prudente, não é mesmo?

Black a encarou, os olhos castanhos dela brilharam. Ele esticou as mãos, segurando a que ela havia deixado sobre a mesa, depois de soltar o copo. Carla sentiu um calor inundar sua face e desviou o olhar para a vidraça ao seu lado.

– Imagino que queira saber se decidi ajudá-lo. – E virou seu rosto para encará-lo.

– Você sabe que esse não foi o único motivo pelo qual a procurei. – E fitando-a de dentro do capuz, continuou: – Eu...

– Você precisa da minha ajuda, e eu estou disposta a oferecê-la. – Ela baixou os olhos. – Já aluguei um quarto no Beco para passar a noite.

– Naquele lugar de sempre, Bastet? – Depositou um beijo na mão dela. – Sabia que não tinha esquecido.

Carla pôs-se de pé retirando a mão dos lábios dele, atirou uma nota à mesa e, colocando seu capuz, lhe disse:

– Não significa nada para mim. – E foi em direção à porta. – Amanhã irei para a residência dos meus pais, é apenas temporário. Eu lhe darei notícias.

Ela ganhou a rua segundos depois e foi na direção do seu apartamento. Tinha que voltar ao Beco, mas estava potencialmente abalada; dobrou mais uma esquina e aparatou. Carla entrou na pensão e subiu as escadas. Colocou a chave na porta e girou-a. Um enorme cão preto estava aos pés da sua cama.

Carla fechou a porta calmamente, retirou a capa atirando-a na cama junto com a chave, aparentemente sem percebê-lo, e foi para o banheiro. Houve um estalido, e em seguida, ela ligou o chuveiro, fazendo o barulho de água invadir o ambiente. Entrou de novo no quarto e viu Sirius deitado na cama com a cabeça apoiada nos braços. Ela o encarou e falou com voz suave:

– Por que não toma um banho?

– É um convite? – Fitou-a maliciosamente.

– Apenas uma sugestão. – Devolveu-lhe o olhar.

Ele levantou e foi até o banheiro, por sua vez, Carla sorriu, indo em direção a janela. A noite estava agradável, e ela se deixou ficar ali, olhando o céu. Não percebeu que o som da água havia cessado e que a porta do banheiro se abrira. Parado no limiar da porta, envolto apenas na toalha, Black admirava-a. Seus cabelos castanhos claros soltos balançando com a brisa e a silhueta escultural delineavam um quadro tentador. Ele se aproximou devagar e abraçou-a pela cintura.

Carla sentiu o corpo dele grudado ao seu e virou-se rapidamente na tentativa de escapar dali, mas Black foi mais rápido e a envolveu num longo e apaixonado beijo. Apesar de querer negar, Carla sabia que nunca amara ninguém como amou, e ainda amava, Sirius Black. Mesmo que tentasse, não iria resistir às suas investidas. Interiormente, ela esperara por aquele momento durante doze anos, e nada, nem ninguém, a impediria de desfrutar cada segundo ali com ele.

Carla acordou no dia seguinte com uma agradável brisa roçando seu rosto. Ela se espreguiçou e, sem olhar para o lado, esticou a mão por sobre sua cabeça, alcançando o travesseiro e puxando-o. Sabia que Black não estava mais ali; sorrindo, aproximou o travesseiro do nariz e exalou o cheiro dele. Se aquilo foi um sonho, positivamente não quero mais acordar – pensou, sorrindo para si mesma.

Suspirou, atirando o travesseiro de volta e deslizando para fora dos lençóis. Foi até o banheiro, lavou o rosto e prendeu os cabelos. Voltou até o quarto, jogou a capa sobre os ombros, e saiu para rua. Carla não podia adiar muito o que estava prestes a fazer, precisava voltar para sua casa, a casa de sua infância, a Mansão Bastet. Uma vez instalada ali, todos saberiam que ela havia voltado, e conseqüentemente, onde achá-la.

Os avós paternos de Carla eram bruxos de uma família tradicional, já os maternos, totalmente trouxas. Alguns de seus parentes bruxos haviam torcido o nariz quando seu pai anunciou seu casamento com a sua mãe. O fato era que uma família com dois filhos bruxos, onde um era uma mulher irascível, a esposa trouxa do filho gerava algum mal estar. A mãe de Carla, por sua vez, optou por abandonar o mundo trouxa e permanecer com o marido. A filha mais nova dos Bastet nunca se casou e, quando morreu ainda jovem, não deixou herdeiros. Então, só sobrara Carla, a neta meio trouxa, mas educada com todos os requintes de um bruxo puro sangue, coisa que a menina nunca gostou. Depois da morte de seus pais, Carla ainda ficara com os avós alguns anos, até que Voldemort sumiu e Black foi preso.

Ela foi tirada de seus pensamentos quando viu o imenso vale surgir à sua frente e, no centro dele, um edifício majestoso. Carla olhou à sua volta e entrou nos jardins. Atravessou rapidamente a distância até a porta de entrada, e com um toque da varinha e algumas palavras, a porta se abriu. Entrou no aposento escuro e pode ver que o tempo ali não passara; tudo estava igual como há doze anos. Parecia ver seu avô sentado na poltrona lendo os jornais do dia e sua avó entrando pela sala dizendo que ela deveria subir e tomar um banho para jantar. Ela sorriu e correu os dedos pelo sofá. Olhou a escada à sua frente e subiu correndo, como fazia quando tinha quinze anos... Abriu a terceira porta à esquerda do corredor da ala oeste, e seu quarto surgiu à sua frente, exatamente como ela o havia deixado.

Um estalido às suas costas a fez virar-se e dar de cara com uma figura pequena, igual a Gizmo, só que alguns anos mais velha. A elfa doméstica fitou a moça em pé à sua frente e um leve sorriso apareceu em seu rosto.

– Menina Bastet? – E assentiu com sua cabeça. – Dixie fica feliz em vê-la, senhorita. Dixie esperou muitos anos para que voltasse.

– Por que não foi embora, Dixie, quando lhe dei liberdade? – falou sorrindo.

– Ir embora? Dixie nunca ir embora. – Ela abaixou seus imensos olhos. – Dixie cuida da casa e espera menina Bastet voltar.

– Não me chame de menina, Dixie. – E gargalhou. – Já não sou uma menina faz alguns anos.

– Vai ser sempre menina Bastet para Dixie. – E entrou no quarto, mostrando com as mãos. – Dixie deixou tudo como menina gostava, vê?

– Sim, Dixie. Obrigada. – Seus olhos marejaram. – Está tudo como me lembro... Há doze anos...

– Dixie vai preparar alguma coisa para a menina comer. – Um novo estalido, e a elfa se foi.

Carla se deixou ficar inebriada pela atmosfera do seu antigo quarto. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Lembrou da menina com o uniforme de escola sentada na beirada da cama, colocando as últimas peças de roupa num malão. Ela estava tão excitada com a idéia de ir estudar magia, usar a varinha como vira mil vezes seu pai e avós usarem. Todos tinham ficado felizes quando ela recebera a carta de Hogwarts. Carla sempre tivera tudo o que queria, era mimada aos extremos e, sinceramente, não gostava nada disso. A ida para escola significava para ela a liberdade, pelo menos de escolha.

O expresso para Hogwarts apitou na plataforma quando ela, seus pais e seus avós estavam se despedindo. Era o aviso de que seu primeiro ano na nova escola começava. Mundo novo, amigos novos, tudo aquilo que mais desejara por anos. Carla entrou no vapor enquanto ouvia mais um longo apito indicando que a partida estava próxima. Acenou para seus parentes e sumiu no interior do trem.

Procurou um vagão vazio, mas constatou que o mundo inteiro tinha filhos indo para Hogwarts. Resolveu verificar qual estaria menos cheio e encontrou um com apenas três garotos da mesma idade dela. Novatos, isso era um alívio, apesar de não parecerem ter notado sua presença. Carla perguntou:

– Posso me sentar com vocês? – Seu tom era normal.

Não houve resposta, os meninos continuavam entretidos em uma animada conversa. Carla os analisou, um era magro com cabelos castanhos e olhos escuros; o outro usava óculos e tinha olhos e cabelos escuros, sendo que estes últimos pareciam fugir-lhe da cabeça. Ela riu-se interiormente de seus pensamentos e passou à análise do último menino. Ele tinha um belo sorriso, os cabelos lisos escuros um pouco mais compridos que os do outros dois, olhos cinzentos, e uma maneira um tanto quanto charmosa de jogá-los para trás quando ria; era muito atraente. Sorriu, surpreendendo-se pela demorada análise do garoto, e tentou mais uma vez ser respondida.

– AHN! – Seu tom foi bem mais alto que o primeiro e surtiu o efeito desejado; os três a olharam, ela sorriu. – Posso me sentar com vocês?

– Sim, senhorita – o menino de cabelos castanhos respondeu e chegou-se para o lado.

– Já está galanteando de novo, não é Remo? – falou o de óculos.

– Deixe isso para quem entende – respondeu o do belo sorriso. E, fazendo o que Carla supôs ser uma mesura, completou: – Claro, Mademoiselle. Permita-me que me apresente. – Deu-lhe um beijo na mão e continuou: – Black, Sirius Black. – Virando-se para os outros dois, acrescentou: – Esses são Remo Lupin e Tiago Potter.

Ele a fitou esperando sua reação, mas Carla não conseguiu expressar outra a não ser uma explosão de risos. Os outros dois meninos, que já estavam segurando o riso há algum tempo, romperam em gargalhadas. E os quatro passaram o restante da viagem conversando. Essa foi a primeira vez que Carla viu Sirius. Sempre gostou da maneira dele jogar os cabelos para trás e sorrir... Era simplesmente irresistível.

Foi trazida de volta à realidade pela voz da velha elfa que a chamava para comer.

– Menina Bastet, Dixie fez os pratos preferidos da menina. – E sorriu acanhada. – Carne de porco com ervilhas e Plum Duff de sobremesa.

– Vamos, Dixie. – E devolveu-lhe o sorriso. – Deixe-me lembrar como você cozinha bem.

E dizendo isso, levantou-se da cama e saiu em direção ao andar de baixo.

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N/A: Amores de minha vida, agradeço cada palavrinha deixada p mim! Amo receber o carinho de vcs e tenham certeza que faço cada fic com a mesma intensidade dele que recebo! Bjos estalados!!!! Amo vcs!!!!