- O 13º Guerreiro -
A Elite dos Doze
Parte III
Os dias que se seguiram passaram rápido de mais. Mesmo sem ter muito o que fazer na pacata cidade, eles encontravam um meio de se divertir. Um dia, os colegas de Sakura e Tomoyo haviam chamado-as para uma festa da turma, e assim Shoran, Meiling e Eriol puderam rever seus antigos colegas. A festa estava super animada, e a notícia de que Sakura e Shoran estavam namorando deixou muita gente enciumada.
Outras vezes, se reuniam na escola para jogar bola ou praticar algum outro esporte. Aquelas semanas, apesar de bastante comuns foram muito bem aproveitadas. Eriol voltou para a Inglaterra com Mizuki, fizeram até uma festa surpresa de despedida. Mas tudo que é bom não dura para sempre, e o fim da segunda semana chegou. Estava na hora de Meiling e Shoran fazerem as malas e voltar à China.
Meiling (arrumando sua mala): 'Não está esquecendo de nada, Shoran?'
Shoran (terminando de fazer a sua): 'Não...'
Meiling: 'Pegou escova de dentes, sapatos, meias...?'
Shoran: 'Sim, sim... E você?'
Meiling (fechando a mala): 'Peguei sim.'
Shoran: 'Vamos descer?'
Meiling (suspiro): 'Vamos né...'
Meiling põe sua bolsa nas costas e carrega uma das malas, enquanto que Shoran vinha atrás com outras duas. Na sala da mansão Daidouji, Sakura e Tomoyo aguardavam.
Tomoyo: 'Bom... Chegou a hora de irmos para o aeroporto... O avião sai dentro de mais ou menos uma hora e meia.'
Meiling: 'Vamos pôr as coisas no carro, vem Shoran.'
Colocaram as coisas no porta-malas do carro preto, e entraram. Seguiram até o aeroporto em silêncio, todos com aparência muito triste.
Meiling (tentando animar): 'Ai gente... Está parecendo que vamos morrer! Nós só vamos voltar para casa... Ainda existem telefones, e-mails, cartas... E eu prometo que volto nas próximas férias!'
Sakura apenas deitou a cabeça no ombro de Shoran suspirando, e Meiling desistiu de dizer qualquer coisa para animá-los.
No aeroporto, Shoran ajeitou os papéis do vôo, e logo estava de volta. Estavam todos sentados com as mesmas caras do carro. Meiling deu um sorriso forçado quando ele chegou.
Meiling: 'Tudo certo?'
Shoran concordou com a cabeça.
Meiling (se levantando): 'Então acho que temos que ir para a sala de embarque...'
A garota abraçou Sakura com força, e disse que se precisasse de qualquer coisa podia contar com ela, e ela a manteria informada sobre Shoran caso ele desse algum sumiço. Sakura agradeceu, e disse que nas próximas férias ela poderia se hospedar na casa dela.
Quando Meiling foi falar com Tomoyo, Shoran fitou Sakura, e a garota não pôde deixar de chorar. Shoran a abraçou forte para que parasse de chorar, mas foi em vão. Ela murmurava que aquilo não podia acontecer com ela, dizia que ia morrer, e em uma atitude desesperada, ela vasculhou a bolsa e tirou a carta tempo, ativando-a rapidamente. Em instantes o aeroporto inteiro estava parado, e apenas ela e Shoran se moviam.
Shoran (espantado): 'Sakura, por que você...?'
Sakura (chorando): 'Não quero que vá Shoran... Por favor... Se você me ama tanto, por que não fica comigo??'
Shoran: 'Sakura... Eu não...'
Shoran não tinha o que dizer, e Sakura percebeu isso. Ela sabia que ele precisava ir pra Hong Kong, e ela estaria sendo egoísta pedindo para ele desistir só para ficar com ela. Ela se aproximou dele rapidamente e o abraçou novamente.
Sakura: 'Eu espero que dê tudo certo pra você, Shoran... Mas quero que você não suma. Quero saber como você anda... Quero ouvir sua voz nem que você me mande uma fita pelo correio... Por favor, faça isso por mim. Não me deixe desamparada de novo...'
Shoran (acariciando os cabelos dela): 'Claro que não, Sakura... Vou fazer qualquer coisa que você quiser... E vou tentar voltar mais cedo, ok?'
Sakura (acalmando): 'Ok...'
Shoran: 'Prometa que não vai ficar triste, vai continuar alegre como sempre foi, e vai se divertir muito na minha ausência. Está certo?'
Sakura (meio contrariada): 'Certo...'
Shoran levanta o rosto de Sakura e lhe da um último beijo. Um beijo triste de despedida, mas que ficaria na memória dos dois. Shoran sentiu o corpo de Sakura amolecer entre seus braços, e todo o barulho do aeroporto voltar.
Quando Meiling abraçou Tomoyo, as duas viram Shoran segurar Sakura no colo e colocá-la nem uma das cadeiras.
Tomoyo (preocupada): 'O que aconteceu?'
Shoran: 'Ela usou a carta do tempo... Fazia bastante tempo que ela não usava magia, deve estar meio enfraquecida...'
Meiling: 'Ah...'
Shoran (com um sorriso triste): 'Ela vai ficar bem... Quando ela acordar, diga que ligamos assim que chegarmos, está bem?'
Tomoyo: 'Claro...'
Os primos se despediram de Tomoyo e entraram na sala de embarque. A partir daquele dia, sua amiga ia sentir muito mais falta de Shoran do que antes. Ela ia ter que dar bastante força para ela se agüentar. A garota sabia que ela não ia poder se comunicar tanto quanto gostaria com Shoran, mas Meiling também ia ajudá-la a superar.
Tomoyo chamou suas guarda costas e a levaram pra casa. Kero foi o primeiro a se desesperar, mas Tomoyo explicou o que acontecera, tranqüilizando a todos.
Touya: 'Aquele moleque causa problemas até quando não está...'
Fujitaka: 'Leve-a para o quarto Touya...'
Touya: 'Está bem...'
Sakura acordou uma hora mais tarde. Fitou o teto e logo se perguntou por Shoran. Fechou os olhos suspirando ao lembrar que aquela hora ele deveria estar no avião, chegando em Hong Kong. Como sua vida seria mais difícil dali em diante... Além da saudade de ter ele por perto que sentia antes, sentiria saudade se seus toques e beijos.
Ela suspira mais uma vez tentando afastar um pouco Shoran da cabeça. Kero entra no quarto, e fica feliz por ela estar acordada. Conversam um pouco, e Sakura decide tomar um banho, deixando Kero sozinho com o vídeo game.
Shoran e Meiling saem do avião, e logo se encontram com Wei e Yelan no aeroporto.
Yelan (sorrindo): 'Como foi o passeio?'
Meiling (feliz): 'Eu adorei! Mas quem aproveitou mesmo foi o Shoran!'
Yelan: 'Fico feliz que tenha dado tudo certo. Na próxima vez trazemos Sakura e Tomoyo para nossa casa, para agradecer a hospedagem.'
Shoran: 'Ótima idéia. Isso seria mais ou menos quando?'
Yelan: 'Ah Shoran, isso é com Wei. Negocie com ele suas próximas férias.'
Shoran (triste): 'Ahn...'
Yelan: 'Agora que todos estão bem descansados vamos poder voltar às atividades normais. Certo Wei?'
Wei: 'Claro, Senhora. O jovem Shoran vai ter um longo trabalho nos próximos dias. Já conversei com a sua mãe, e ela já autorizou sua ida às montanhas Junling Bainkara para dar continuidade a seu treinamento.'
Shoran (espantado): 'Ah não... Essas montanhas não ficam perto de Cidade de Kantse?'
Yelan: 'Lá mesmo.'
Shoran: 'Mas lá não tem nada!! São só.... Montanhas e mato!'
Wei: 'É este o propósito da ida.'
Meiling: 'Ah... É... Shoran... Eu, normalmente, iria insistir para ir junto... Fazer uma companhia, mas... Sinto muito, dessa vez acho que prefiro ficar em casa curtindo minha cama...'
Shoran (não acreditando): 'Ah... Claro...'
Yelan: 'Discutimos isto em casa... Vamos embora...'
Os quatro seguiram para o carro que os aguardava, e voltaram para a mansão Li. Assim que chegaram Shoran foi ligar para Sakura, que estava aguardando o toque do telefone desde que saíra do banho.
Shoran: 'Você tá legal?'
Sakura: 'To sim... Só acho que estou meio enferrujada...'
Shoran: 'Pois é... Eu também devo estar depois de ficar este tempo no bem bom aí...'
Sakura: 'É... A casa da Tomoyo é tudo de bom mesmo...'
Shoran: 'Não era bem à isso que eu me referia, mas tudo bem... Tenho que te contar uma coisa importante.'
Sakura: 'Fale.'
Shoran: 'Wei me apareceu com a idéia de me levar para umas montanhas para treinamento. Elas se chamam Juling Bainkara, e é tudo puro mato.'
Sakura (confusa): 'E onde diabos fica isso?'
Shoran: 'Mais no centro do país...'
Sakura: 'Uh... Deve ser super divertido...'
Shoran: 'Se é... Vamos eu e o Wei, e a bagagem pesada nas minhas costas. Ele leva as leves por que não está mais na idade de ficar carregando peso por muito tempo.'
Sakura: 'Ai... Não quero nem imaginar... Vê se não se quebra...'
Shoran: 'Isso é o de menos...'
Sakura: 'Eu já teria desistido de tudo isso...'
Shoran (desanimado): 'Tenho que desligar agora... Foi só para avisar que chegamos bem mesmo. Se eu sumir, você já sabe o por quê.'
Sakura: 'É... Vou sentir sua falta...'
Shoran: 'Eu também... E muito...'
Sakura: 'Tchau Shoran, vê se te cuida e manda notícias.'
Shoran: 'Está bem. Te amo, Sakura..'
Sakura (envergonhada): 'Eu também. Até outro dia...'
Ao desligar o telefone Shoran percebeu que passaria um longo tempo sem poder falar com ela de novo.
Já eram quase nove horas, e Shoran pretendia acordar mais cedo do que o de costume para se alongar e desenferrujar. Wei pretendia levá-lo para as tais montanhas dali a dois dias. Teria que se preparar, se não, não iria agüentar nem o primeiro dia.
O sol não estava nem pretendendo nascer e Shoran já estava no dojo dos fundos da casa. O silêncio do lugar era quebrado apenas pelo ruídos de alguns grilos. Sentado, Shoran meditava. Tentava esvaziar a mente dos últimos acontecimentos para conseguir se concentrar no que queria. Ao terminar, iniciou um alongamento de braços e pernas. Ao finalizar isso, era, mais uma vez, somente ele e sua espada. Fazendo movimentos de ataques precisos, Shoran treinava contra inimigos imaginários.
Conforme o dia ia amanhecendo, e os empregados da mansão iam chegando. O velho jardineiro parou em frente do dojo aberto espantado. Ele comenta com uma das empregadas sobre o garoto, que mal voltara da viagem e já estava no dojo novamente. Shoran repara que os dois haviam parado para observá-lo, mas procura fingir que não tinha percebido. Alguns minutos mais tarde eles retomam suas atividades e Meiling aparece na porta dando um bom dia alegremente.
Meiling: 'Desde que horas está aqui?'
Shoran: 'Desde umas quatro...'
Meiling: 'Nossa... Bom, estou indo para o colégio agora. Vim aqui para saber se você já estava sabendo da notícia que eu escutei ontem de noite.'
Shoran (se interessando): 'Que notícia?'
Meiling: 'Ouvi a conversa de sua mãe pela metade ontem...'
Shoran: 'Você não cansa de ficar atrás das portas não é?'
Meiling (sorrindo): 'Pior que não... Mas deixa eu contar. Ela conversava com Wei, e ele dizia que depois que vocês voltarem das montanhas, vai se aposentar, por que você precisa de um mestre mais jovem. Um mais capacitado, que tenha fôlego para lutar contra você, não só ensinar as técnicas, mas propor algum desafio e mais um bocado de coisas...'
Shoran: 'Está dizendo que... Vamos ter um novo mestre?'
Meiling: 'Você vai ter. Eu continuarei com Wei. Não quero entrar para Elite nenhuma, e treino só nos fins de semana. Wei ainda está em perfeitas condições de continuar sendo meu mestre.'
Shoran: 'Mas... Eu não quero um outro mestre! Wei é como um pai pra mim!'
Meiling: 'Sim Shoran... Mas ele vai continuar aqui. Vai continuar a morar conosco, e nada impede ele de vir até aqui ver como você anda.'
Shoran: 'Escutou quem vai ser o cara?'
Meiling: 'Não... Disse que a conversa era pela metade. Se eu tivesse ficado lá teriam me descoberto.'
Shoran: 'Ahn...'
Meiling (saindo): 'Bom... Até mais Shoran!'
Shoran observou Meiling ir ao colégio enquanto pensava no mestre. Wei cuidou dele desde pequeno e sempre foi ótima companhia. Às vezes era meio misterioso, pois não contava direito quem iria visitar ou se encontrar e simplesmente se ausentava durante o dia todo. Mas isso não era nada que atrapalhasse o relacionamento dos dois. Realmente iria sentir falta de Wei.
Kyle não estava totalmente certo da escolha que estava fazendo, mas tinha um palpite de que iria dar certo. Ele pediu à Kanon, o grande centauro que estava na sala, que era um de seus onze companheiros, para que procurasse por Josh e seu irmão mais novo. Kanon obedeceu às ordens e saiu da sala batendo os cascos no chão de pedra da mansão. Era um homem com um grande corpo de cavalo, sua força muscular era muito maior do que de qualquer homem de duas pernas, e possuía uma magia poderosa que ele desenvolveu em uma outra dimensão, onde havia nascido.
Josh estava na sala justamente discutindo com o irmão Marck. O garoto possui um imenso poder que herdou de toda a linhagem de magos da grande família Mcguarie, e desenvolveu durante seus 19 anos de vida que o rendeu a décima colocação na Elite dos Doze, superando o mal humorado Kojiro que não suporta a idéia de perder para uma criança. Mesmo com tudo isso, Marck não chegara perto do segundo lugar do irmão, que sempre foi o querido da família, fazendo o garoto se desenvolver rapidamente na tentativa de superá-lo.
A discussão dos irmãos continuou até o estrondo dos cascos de Kanon batendo no chão ecoarem pela ampla sala. Os irmãos calaram-se e voltaram-se para o sério centauro.
Kanon: 'Mestre Kyle mandou os dois irem falar com ele. Ele parece bem preocupado.'
Marck (mal humorado): 'E quando ele não está preocupado?'
Josh (repreendendo): 'Respeite Kyle, Marck. Ele tem muita coisa pra se preocupar.'
Marck: 'E você, só por que é o queridinho de todos, acha que pode ficar mandando em mim!'
Kanon: 'Parem os dois. Já brigaram que chega esta tarde. Andem logo que ele está esperando!'
Os dois baixaram a cabeça e foram em direção ao cômodo da casa em que Kyle se encontrava. Todos da Elite, talvez exceto por Koriny e Kojiro, tinham enorme respeito por Kanon e o velho índio Kou. Eram dois velhos homens sábios que sempre ajudavam no que podiam.
Josh e Marck entraram no aposento onde Kyle andava de um lado para o outro, aguardando.
Josh: 'Mandou chamar?'
Kyle (finalmente parando): 'Sim, tenho algo importante para conversar com ambos. Entrem e fechem a porta.'
Marck (fechando a porta atrás de si): 'Milagre que você lembrou que eu existo.'
Kyle: 'Cada um é chamado na hora em que precisamos de suas habilidades, Marck, hoje estou chamando-o por que achei uma atividade perfeita para você.'
Marck: 'Se o negócio é comigo por que mandou chamar Josh também?'
Kyle: 'Além de Josh me auxiliar nas decisões importantes, ele é seu irmão, e deve saber o que você faz ou deixa de fazer.'
Marck (fazendo cara feia): 'Era só o que me faltava...'
Josh (ignorando o irmão): 'E que atividade seria esta?'
Kyle: 'Os anos se passaram Josh, e Wei já está velho para treinar o garoto Li. O considero um mestre muito bom, de extrema confiança. Porém ele mesmo me disse que era melhor um jovem mestre para o garoto, com quem ele poderia se desenvolver ainda mais.'
Josh (já entendendo): 'Não me diga que...?'
Kyle: 'Isso. Quero que Marck seja o novo mestre de Shoran.'
Josh (descordando): 'Mas... Mas Marck é uma criança ainda! Nunca ensinou nada à ninguém e não...'
Kyle (interrompendo): 'Marck treinou muito e tem um grande poder. Passou por momentos que acho que até mesmo eu não suportaria. Ele é bastante jovem, por isso talvez consiga até despertar certa raiva no garoto. Wei tinha laços sentimentais com o jovem por tê-lo criado desde pequeno, por isso não podia simular uma luta que o outro nunca lutaria pra valer. Marck irá ser perfeito para o cargo se tiver paciência e criatividade. Ensinar a lutar não é uma brincadeira, chega a ser uma arte.'
O rosto de Marck pareceu se iluminar enquanto Josh se calava diante de Kyle. Ficou claro que ele que queria o cargo de mestre do jovem Li. E pela primeira vez, Marck havia passado na frente do irmão mais velho, por isso daria tudo de si para ensinar o garoto tudo que tinha aprendido com seu velho mestre.
Marck: 'Pode deixar comigo! Esse Shoran Li vai aprender tudo comigo, e eu vou mostrar para vocês que posso ser um mestre muito bom.'
Kyle sorriu. Ele sabia que o jovem iria ficar determinado.
Marck: 'Mas só uma pergunta... Vou treinar esse garoto por quê? Vocês vivem falando nele, e eu nunca soube para que tanto interesse nele.'
Kyle: 'Ah Marck, esta é uma longa história, mas iremos lhe contar para que entenda as coisas direito... Mas terá de prometer manter sigilo.'
Marck: 'Juro pela minha vida.'
Josh revirou os olhos, não agüentaria aquela história novamente. Retirou-se da sala para não ter de agüentá-la mais uma vez. Kyle entende a irritação de Josh e o deixa partir.
Kyle (iniciando a longa história): 'Tudo começou em Hong Kong, há muito tempo atrás, quando a família Harima se mudou para a ilha...'
Meiling entrou no quarto quando Shoran terminava de arrumar sua bagagem para a viagem.
Meiling: 'Wei já está esperando lá em baixo.'
Shoran (desanimado): 'Eu sei...'
Meiling: 'Te desejo muita boa sorte, Shoran.'
Shoran: 'É... Acho que vou precisar mesmo. Wei vai judiar de mim este mês...'
Meiling: 'Você agüenta! E se não agüentar, eu volto lá pro Japão por que o verdadeiro Shoran deve ter ficado por lá!'
Shoran (sorrindo): 'Quero que cuide de minha mãe e não passe horas no telefone. Confio em você Meiling, ultimamente a poderosa senhora Li está meio estressada com tudo.'
Meiling: 'É verdade... Vou fazer uns chazinhos para ela.'
Shoran: 'Isso... Obrigada. Até mais, Meiling.'
Shoran da um beijo na testa de Meiling e sai do quarto com a mochila seguido pela prima.
Wei: 'Está trazendo somente o necessário, não é?'
Shoran: 'Sim...'
Wei: 'Ótimo. Leve minha mochila que e vou levar a sacola com alguns mantimentos de emergência.'
Shoran coloca a pesada mochila de Wei sobre a sua, e sente o corpo tombar um pouco para trás. Ele se recupera o equilíbrio e solta um suspiro, aquele treinamento ia ser um sacrifício...
Wei (olhando para o topo da montanha ao longe): 'Pois bem... Aqui estamos.'
Shoran e Wei finalmente chegaram à região montanhosa, depois de tomar um avião para a cidade mais próxima e seguir viagem com um jipe por estrada de terra.
Shoran (cansado): 'Nós não vamos subir, vamos?'
Wei: 'Claro que vamos, jovem Shoran. De que valeria vir até aqui se não olharmos a paisagem do alto? Mas a última coisa que faremos vai ser subir, vamos ficar aqui na floresta antes.'
Shoran solta um longo suspiro. Suas costas doíam, e ele não via a hora de tomar um demorado banho. O tempo estava úmido, e a umidade aumentava quanto mais eles adentravam o mato.
Wei (sorrindo): 'Está difícil de passar por aqui, jovem Shoran... Abra o caminho na frente, sim?'
Shoran não reclamou, mas ficou evidente que estaria mais feliz treinando no dojo. Com a espada em punhos foi cortando os arbustos que atrapalhavam a passagem.
Depois de duas longas horas de caminhada, os dois chegaram à uma ampla clareira, onde finalmente Shoran largou as bagagens e aliviou seus ombros. Sentados em uma pedra, os dois descansaram por alguns minutos, mas o aprendiz foi logo obrigado a levantar.
Wei: 'Estou morrendo de cede, jovem Shoran. Encha esses cantis de água, por favor.'
Shoran: 'Por que não os trouxe cheios?'
Wei (olhar distante): 'Ah Shoran... O sabor de água pura de um rio não tem igual... Encha-os, sim?'
Shoran: 'Mas onde vou achar um rio?'
Wei: 'Siga seus instintos.'
Shoran se levantou contra gosto da pedra que agora até lhe era confortável, e foi atrás de um rio. Entrou alguns metros no mato e parou para tentar escutar algum barulho de água, mas só escutou o cantar dos pássaros. Continuou caminhando sem rumo, sempre tentando guardar pontos daquele lugar para conseguir retornar à clareira.
Depois de alguns minutos andando, Shoran já havia quase desistido. Foi quando avistou de longe algo se movendo cautelosamente. Sem movimentos bruscos, Shoran se aproximou e viu que era um pequeno roedor. Ele olhava para os lados e procurava no ar algum odor com seu focinho. O garoto continuou parado, e o pequeno rato começou a caminhar depressa com algumas paradas. Shoran o seguiu, e por sorte, o animal o levou direto para uma pequena nascente. Nem acreditando na própria sorte, Shoran encheu os dois cantis e voltou à clareira.
Wei: 'Por que demorou tanto?'
Shoran: 'Tive que seguir um rato pra conseguir água, teria sido impossível achar sem aquele bicho.'
Wei não deu ouvidos e bebeu longos goles de um dos cantis.
Wei: 'Vamos fazer o que viemos fazer, então. Treinar.'
Pondo-se de pé, Wei caminhou até o centro da clareira esperando por Shoran.
Wei: 'Sem armas hoje.'
Shoran largou a esfera negra que carregava no bolso e foi de encontro a Wei. Talvez se ele desse o melhor dele, Wei daria um desconto e o deixasse descansar. Colocou-se em posição, e aguardou. O mestre fez sinal positivo cm a cabeça, e Shoran partiu pro ataque com velocidade. O primeiro ataque foi bloqueado, assim como o segundo. Com os braços sendo segurados, Shoran tentou usar as pernas para derrubar Wei, que o puxou com força para trás, fazendo o garoto cair feio no chão.
Shoran (se levantando): 'Minhas costas já não estavam bem...'
Wei: 'Então espere para ter 60 anos, se se queixa agora não vai parar em pé na minha idade.'
Novamente um sinal positivo, e Shoran inicia uma nova seqüência de ataques. Procurando ser mais rápido que o velho mestre, o garoto atacou com pernas e braços e Wei defendia todas. Mas Wei já não estava mais agüentando o fôlego, e foi nessa hora que Shoran aproveitou para mandá-lo pro chão.
Shoran (ajudando-o a se levantar): 'O senhor está bem?'
Wei: 'Estou sim... Está evoluindo Shoran. Tirar vantagem da fraqueza do outro é uma tática, mas quase nunca vai lutar contra velho homem comum como eu.'
Shoran: 'Aí eu descubro a fraqueza dele.'
Wei: 'Faça as fraquezas, Shoran. Não as descubra.'
Shoran: 'Falar é fácil...'
Ao dizer isso Wei partiu para atacá-lo. Ao invés de atacar várias vezes, acertou em cheio no braço direito de Shoran, que sentiu grande dor, interrompendo a luta.
Wei: 'Assim eu crio sua fraqueza, jovem Shoran.'
Shoran (sentindo bastante): 'Pensei que você fosse quebrar meu braço...'
Wei: 'Se quebrasse não iríamos poder continuar o treinamento. Bom... Já vai escurecer, é melhor acamparmos aqui e começar a treinar de verdade amanhã cedo.'
Shoran: 'Está bem...'
A noite estava fria, e os mosquitos não deixavam Shoran dormir. Além disso, a urgência em ir ao banheiro não estava mais dando para segurar. Contra vontade, Shoran sai de dentro da barraca, e entra um pouco no mato para fazer suas necessidades.
Aliviado, ele começa a voltar para a clareira, mas antes de chegar, escuta um ruído estranho. Parecia alguma coisa saindo rapidamente dos arbustos.
Shoran: 'Wei...?'
Ninguém responde, porém pôde perceber que algo havia passado bem rápido para o lado oposto ao que estava. O estranho foi que Shoran não viu nada, apenas sentiu a energia se movimentando. Só poderia ser alguma coisa mágica. Por mais que procurasse não encontrava nada e nem conseguia sentir a presença novamente, o deixando inquieto.
Voltou para a barraca, onde tudo estava em ordem. Se deitou e procurou dormir, mas estava ligado demais no que escutava do lado de fora que só conseguiu dormir horas mais tarde.
Wei levantou cedo na manhã seguinte, muito mais cedo que Shoran, que quando abriu os olhos, se deparou com seu novo treinamento o aguardando. O mestre havia pegado umas três dezenas de grossos galhos curtos, e fincado-os no chão da clareira formando um circulo preenchido.
Wei (firmando um último tronco no chão): 'Bom dia, jovem Shoran.'
Shoran (observando): 'Bem que eu achei que você estava demorando demais pra fazer uma dessas comigo...'
Wei (se levantando): 'Pois é... Deveria ter começado há muito tempo esse tipo de treinamento com você, mas a mansão é um local muito tumultuado pra esse tipo de exercício.'
Shoran: 'Sei...'
Wei: 'Bom, coma alguma coisa e faça o que tiver que fazer. Vamos começar a treinar logo em seguida.'
Alguns minutos mais tarde, Wei estava posicionado em cima de um dos tocos fincados no chão nas pontas dos pés, enquanto Shoran precisava ficar sobre dois pra manter o equilíbrio. Os dois iniciaram alguns movimentos em cima dos tocos, apenas batendo as espadas, sem a intenção de derrubar, apenas se acostumar com os pedaços de madeira.
Shoran caiu diversas vezes, e Wei o acusava de não ser capaz de se concentrar em duas coisas ao mesmo tempo. O equilíbrio é fundamental em qualquer luta. Ele dizia também que se cair no chão, ficaria vulnerável e perderia a luta em segundos.
Aos poucos ele se adaptou aos troncos e conseguiu manter o equilíbrio, sem precisar olhar para baixo à procura de onde pisar. Wei percebeu isso, assim, avançou com mais velocidade, forçando-o a passar para o outro lado do circulo de troncos, onde ele não estava acostumado.
Chegando perto do meio-dia, eles descansaram e conseguiram algumas frutas para comer e uns pequenos animais. Enquanto tentava engolir um preá queimado, Shoran escutou novamente barulho em um arbusto próximo, o que o fez levantar rápido e correr até a folhagem para ver o que era. Porém, antes dele chegar a planta, ele sentiu a energia fugir e se apagar por completo.
Wei: 'O que acontece, Shoran?'
Shoran: 'Parecia que havia alguma coisa aqui... Ontem à noite percebi a mesma coisa.'
Wei: 'Alguma coisa como? Um animal?'
Shoran: 'Pode ser... Mas essa coisa tinha uma aura mágica, pois senti a energia fugindo e desaparecendo por completo rapidamente.'
Wei (cabisbaixo): 'Tentaria lhe ajudar se fosse capaz de sentir, Shoran. Estudo magia, mas não a possuo. Poucas as pessoas nascem com isso... É um dom valioso e sabe disso...'
Shoran: 'Pareceu triste agora, Wei... Você já desejou possuir magia no passado?'
Wei (desviando o olhar): 'Se desejei, jovem Shoran... Mas deixe isso para lá, foram só algumas lembranças das quais não gosto que voltaram.'
Shoran nunca havia pensado nisso, mas antes de começar a servir à família Li, Wei tinha uma vida diferente. Quem sabe uma família com até mesmo filhos. O velho homem nunca tinha falado nada sobre o passado com ele, ou sobre quem o havia ensinado artes marciais ou sobre quem o criou. Até mesmo seu segundo nome Shoran desconhecia... Ele achou melhor parar de pensar sobre a vida pessoal do mestre e terminar a comida que ainda tinha.
Depois de mais algumas horas de treino à tarde, Wei disse que ficariam mais um dia naquela clareira, e que treinariam durante a noite também, para que no dia seguinte, Shoran fosse capaz de lutar sobre os troncos de olhos vendados.
Shoran: 'Está louco! Não vou conseguir fazer isto de olhos vendados... Ainda caio de olhos abertos!'
Wei: 'Por isso mesmo... Com uma meta distante, você se esforça mais e evolui com velocidade.'
Shoran aceitou mesmo contrariado, e com o entardecer, Wei parou para descansar, mas ele continuou treinando. Fazendo os mesmos movimentos que fazia sobre o solo no dojo, ele tentava fazer sobre os troncos. Tropeçou feio quando deu um passo para trás, e Wei o encarou com ar de reprovação. Ele já estava cansando de só cair e levar sermão, iria conseguir fazer aquilo nem que fosse a última coisa que fizesse.
Levantou-se e tirou a parte de cima do kimono branco, usando a faixa que o prendia como venda. Respirou fundo e se concentrou pra fazer os movimentos. Logo no primeiro, escorregou pela ponta do tronco, pisando no chão. Wei sorriu, percebendo que assim ele não iria chegar a lugar nenhum. O mestre se levantou e foi até o pupilo para lhe dar um último conselho:
Wei: 'Quando estiver de olhos vendados, a atenção da pessoa deve estar muito maior, e pra conseguir isso, você não pode estar preocupado nem com raiva do jeito que está. Está com raiva do exercício só por que não consegue fazer... Concentre-se, esvazie a mente disso, e faça os movimentos com mais lentidão. Firme um pé antes de levantar o outro. São essas pequenas diferenças que vão fazer você vencer seus obstáculos.'
Shoran: 'Mas o senhor faz rápido e como se nunca tivesse saído do chão.'
Wei: 'Se eu caísse, não seria seu mestre, jovem Shoran.'
Shoran concordou e voltou a tentar, seguindo os conselhos de Wei. Atacando um inimigo invisível com a espada, ele fazia movimentos mais lentos, mas com mais perfeição do que antes. Até o total pôr do sol, Shoran já estava muito melhor do que antes. Dava passos com firmeza e confiança, sem cair ou perder o equilíbrio com freqüência.
Quando fazia um dos movimentos, sentiu novamente a energia mágica misteriosa, que passou de ante dele numa velocidade incrível. Com o susto ele caiu ao chão e tirou a venda dos olhos rapidamente, à procura do ser. Wei acompanhou Shoran com os olhos até uma árvore, onde o adolescente encontrou uma flecha fincada que produzia uma fumaça cinza. Parecia estar vaporizando diante dos olhos dele e quando a tocou, ela se transformou em pó, que foi carregado pelo vento antes de chegar ao chão.
Wei arregalou os olhos sob os óculos. Aquela flecha só poderia pertencer a uma pessoa no mundo, e essa pessoa era Marck. Se o garoto já estava lá, era melhor agilizar o treinamento de Shoran, pois parecia que ele tinha pressa.
Shoran (confuso): 'O que aconteceu com aquela flecha? E como ela pode carregar tanto poder mágico??'
Wei (começando a levantar acampamento): 'É melhor juntarmos nossas coisas e seguir caminho, Shoran. Vá buscar mais água, a próxima trilha é longa e vamos precisar bastante.'
Shoran: 'Mas e o treino sobre os troncos??'
Wei: 'Vamos deixar pra próxima. Vá buscar água, Shoran.'
Shoran pegou os cantis e seguiu até a nascente. Wei nunca havia lhe parecido tão preocupado ou irritado como estava.
O mordomo esperou até Shoran se distanciar, e se voltou para a direção de onde a flecha viera, onde um homem jovem saiu do meio das árvores. Tinha os cabelos escuros como os do irmão, e olhos também pretos. Não era muito alto, mas parecia muito forte. Carregava uma espada na cintura e um arco sem flechas nas costas. Wei logo o abordou tentando esclarecer os fatos.
Wei: 'Por que está com tanta pressa, Marck? Kyle quer alguma coisa de mim?'
Marck (sorrindo felizmente): 'Não... Eu que estou ansioso mesmo! Já ficou sabendo das novidades?'
Wei (não entendendo): 'Novidades?'
Marck: 'É... Sobre o novo mestre que Kyle escolheu pro garoto aí...'
Wei: 'Ah! Que bom que ele já escolheu! Eu conheço ele?'
Marck (se orgulhando): 'Está diante dele.'
Wei parou por alguns instantes. Marck seria mestre de Shoran? Marck era forte, mas não tinha tanta experiência assim. Era apenas alguns anos mais velho que Shoran! Deveria ter algo errado naquilo.
Wei (tentando entender): 'Você será mestre de Shoran?'
Marck: 'Eu mesmo. Não é demais? Finalmente vou mostrar pra todo mundo que sou capaz de fazer um ótimo trabalho. Até mesmo Josh vai me elogiar, e Kyle irá se impressionar quando o garoto vencer Koriny num passe de mágica.'
Wei: 'Sei... Esse é um trabalho mais difícil do que você pensa, Marck...'
Marck: 'Sei que é... Mas estou pronto pra isso. Antes que eu me esqueça de lhe contar, eu que vou testar o garoto também.'
Wei: 'Ótimo, mas você chegou depressa de mais. Nem começamos o treino realmente.'
Marck: 'Eu percebi, mas eu vou esperar. Só atirei a flecha por que queria falar com você, e precisava despachar garoto.'
Wei: 'Tudo bem... Agora se esconda que ele deve estar voltando.'
Marck: 'Desde que ele não me veja tudo bem, posso esconder minha aura, só esconder a aura das flechas que é complicado, afinal são feitas de magia.'
Wei: 'Entendo, mas agora vá.'
Marck: 'Até mais.'
Shoran apareceu na clareira logo em seguida, logo perguntando o que ele havia ficado fazendo. Wei respondeu que estava procurando o tal ser mágico que ele tinha falado.
Shoran: 'Ele não está aqui mais... Pelo menos não consigo sentir nada.'
Wei: 'Melhor assim. Buscou a água?'
Shoran (juntando algumas coisas): 'Sim, e podemos partir. Só não entendo por que tanta pressa e o que era aquela flecha.'
Wei (ajudando): 'Tem coisas que a gente não entende mesmo...'
Com todos os equipamentos nas costas, mestre e discípulo seguiram pelo mato fechado. Shoran pensava que Wei poderia estar escondendo algo dele enquanto abria caminho na floresta. O mestre nunca havia mentido, mas ele estava um tanto misterioso.
Caminharam juntos por horas, e quando o dia amanheceu pararam à beira de um pequeno rio, onde conseguiram uns peixes e fizeram uma boa refeição.
Wei: 'Vamos seguir este rio até uma cachoeira, jovem Shoran.'
Shoran ergueu a cabeça olhando na direção de onde o rio vinha. Até onde podia enxergar, não havia cachoeira alguma.
Shoran: 'Tem certeza que é este o rio?'
Wei: 'Sim. Ainda falta uma boa caminhada, por isso vamos logo.'
Quando Shoran julgava ser quase cinco horas da tarde, a cachoeira que Wei dizia apareceu. Atravessaram alguns arbustos e lá estava ela. Rodeada de muitas pedras grandes, a cachoeira quase fazia do lugar o verdadeiro paraíso. Paraíso seria se certa pessoa de olhos verdes estivesse lá pra complementar à paisagem. Shoran sacudiu a cabeça, aquela realmente não era uma boa hora para pensar em Sakura. Mais uma vez ela iria roubar-lhe a concentração.
Wei continuou caminhando para mais perto da queda d'água, e Shoran pôs-se a segui-lo. Subiram em uma das grandes pedras e largaram as bagagens.
Wei: 'Como é bom estar aqui de novo. Faz tempo que não venho à uma cachoeira, vou até meditar com você, jovem Shoran.'
Shoran: 'Meditar?'
Wei: 'Exatamente. Vai dizer que nunca viu monges e alguns lutadores meditarem em baixo de uma cachoeira? Faz muito bem, alivia as tenções, você se concentra mais e se purifica.'
Wei terminou aquelas palavras tirando a camisa e os óculos que usava, iniciando um aquecimento de braços.
Wei: 'O que está esperando, jovem Shoran? Ande.'
Shoran fez o mesmo que o mestre, que agora já entrava na água. O rio não era fundo, batia na cintura de Wei. O senhor se dirigiu até a cachoeira, sentou-se em uma pedra que ficava em baixo da queda d'água. Com as pernas cruzadas e olhos fechados, Wei de desliga do mundo pela meditação.
Shoran já havia meditado muitas vezes com o mestre quando ele achava que era necessário, mas seria a primeira vez que faria aquilo embaixo de uma cachoeira. Ele colocou um pé dentro d'água e se arrepiou com a temperatura. Respirou fundo e entrou de uma vez só. Caminhou até a cachoeira e subiu na pedra com certa dificuldade. A água caia e escorria pela pedra em ritmo forte, tornando-a escorregadia. Quando conseguiu subir na pedra e sentiu a água cair sobre o corpo desanimou um pouco. O peso que a água fazia ao cair sobre suas costas era bastante grande, e algumas pedras que vinham junto com a correnteza, machucavam-lhe a pele. Sem contar que a água dificultava a respiração.
Tratou de ignorar aqueles fatos e iniciar a meditação. Era difícil para ele ignorar a pequena tortura que a cachoeira trazia, sem contar que de pouco em pouco tempo tinha que colocar a cabeça fora do alcance da água para respirar.
Wei: 'Você está fazendo tudo errado.'
Shoran abriu os olhos e percebeu que Wei não estava mais ao seu lado.
Wei: 'Em primeiro lugar, deve esvazia a mente de qualquer coisa, e manter o corpo mais parado possível. Assim seus batimentos cardíacos vão diminuir, e você não precisará ficar respirando desse jeito. E já que o peso da água está lhe incomodando tanto, faça a água parar de cair em você que tudo estará resolvido.'
Shoran: 'E como faço isso?'
Wei: 'Se eu dissesse como perderia a graça. Não saia daí até conseguir. Boa sorte.'
Shoran procurou se acalmar como Wei havia dito, e respirando fundo tentou esvaziar a cabeça. Conseguiu permanecer por muito mais tempo, mas não conseguia se livrar dos pensamentos. Se ao menos conseguisse isso poderia pensar em como fazer a água não atingi-lo para poder sair dali.
Algum tempo se passou e o dia já tinha quase escurecido por completo. Wei apenas observava o fracasso do discípulo que por mais que se escorçasse, não conseguia. Shoran sabia que se ele não conseguisse Wei realmente o deixaria lá até conseguir. Sendo assim, ele decidiu pular a parte de esvaziar a mente e ir direto para a parte de impedir a água.
Não tendo nenhum ófuro consigo, não poderia invocar o vento para formar uma barreira sobre si. Pensando nisso, Shoran percebeu que nunca havia feito magia sem algum instrumento. Teria que descobrir algo que tinha sempre consigo, e que fosse capaz de barrar a água.
A primeira coisa que lhe veio a mente foi sua própria magia. Talvez se a colocasse pra fora, a energia conteria a água. Tecnicamente funcionaria, mas na prática talvez Shoran não conseguisse. Era sua única opção, então não havia motivos para não tentar.
Tentou controlar aquela força que tinha, mas era impossível. Era como tentar enxergar com um dedo do pé. Pensativo, e com a força d'água pesando-lhe nas costas, pensou em como ele conseguia produzir magia.
Quando invocava o deus do trovão, ele concentrava sua energia no ófuro, que produzia o ataque mágico. Quanto mais energia fosse posta no pedaço de papel, mais forte seria o ataque. Mas por que conseguia concentrar a força, e não conseguia espalhá-la? Talvez fosse só fazer o contrário do que fazia normalmente. Ao invés de se concentrar em um ponto, teria de se concentrar no próprio corpo para produzir aquela energia.
Pensando positivamente e concentrado, Shoran dedicava-se de corpo e alma para vencer aquele desafio. Aos poucos, Shoran sentiu que a água parecia ter diminuído um pouco, mas tão pouco que talvez fosse até impressão. Agora ele não poderia parar e se concentrando mais e mais, ele sentiu que realmente a água estava cessando.
Wei, que observava atento, viu a água que caia desviar de caminho quando chegava perto de Shoran, como se houvesse uma barreira ao redor do garoto que empurrava a água para os lados. Instantes depois, a energia que Shoran liberava cessa, e a água volta a cair sobre sua cabeça.
O garoto sai de baixo da cachoeira e respira fundo. Deixando-se cair na água do rio, ele relaxa curtindo a felicidade de ter conseguido. Boiava e olhava para o céu, até deparar-se com o rosto de Wei, o mirando de cima.
Wei: 'Parabéns, jovem Shoran. Só levou duas horas e meia pra conseguir.'
Shoran levantou-se espantado. Nunca pensou que agüentaria ficar tanto tempo debaixo de tanta água.
Shoran: 'Ah Wei... No início, não consegui me concentrar e esvazia a cabeça. Por isso passei pra parte de impedir a água...'
Wei: 'Fez muito certo.'
Shoran (não entendendo): 'Ahn?'
Wei: 'Quando você estabeleceu seu objetivo, que era impedir a água, você se concentrou ao máximo e esvaziou totalmente sua mente, focando apenas o seu desejo de por aquela força pra fora. Você cumpriu com as duas tarefas perfeitamente.'
Shoran sorriu e Wei retribuiu o gesto.
Wei: 'O que você fez exatamente for expandir sua magia, jovem Shoran. Fazendo isso sua magia e corpo se fortalecem. Enquanto sua energia rodeia seu corpo, seus ataques mágicos ficam muito mais fortes, e se você tentar golpear alguém, a dor que a pessoa sentirá será bem mais intensa.'
Shoran ouviu as explicações e finalmente concluiu que era bom estar naquelas montanhas, apesar de tudo. O garoto achou que seria uma chatice, mas não era. Gostou daquele lugar, e talvez mudasse sua opinião sobre meditar sob cachoeiras.
Wei vasculhou uma das malas e tirou uma toalha para que ele se secasse e depois disso iriam arrumar as barracas para dormirem. Com as tendas prontas, Wei não demorou a dormir, já Shoran teve algumas dificuldades para fechar os olhos.
Através da barraca semi-transparente ele podia avistar a lua cheia, e mirando o satélite natural, seus pensamentos iam até quem ele menos queria que fossem. Será que ela estaria olhando para lua também? Talvez... Lembrou-se dos inúmeros beijos que trocaram quando estavam juntos, o que o deixou ainda mais triste. Antes era mais criança e não tinha problemas com isso, queria apenas estar junto dela. Agora já crescido precisava dela, e precisava tocá-la. Ainda mais agora que já havia provado do gosto de sua boca. Lembrou-se de seus cabelos, seu pescoço, seus seios...
Respirou fundo e virou-se para não mais enxergar a lua. Achou melhor pensar na ardência que sentia nas costas ao se mexer, por causa dos vários pequenos cortes que algumas pedras fizeram. Automaticamente lembrou-se da garota fazendo-lhe um curativo na mão na ocasião em que lutou contra Eriol. Olhou para a mão e ainda podia ver uma cicatriz. Sorriu ao pensar que realmente iria inflamar se ela não tivesse feito o curativo.
Virou-se de bruços, enfiando a cara no travesseiro. Se ficasse pensando na namorada iria ficar a noite inteira acordado e não conseguiria treinar no dia seguinte. Determinado a parar de pensar na garota, conseguiu finalmente dormir.
No dia seguinte dia, ao nascer do sol Wei já estava de pé. Dessa vez apenas tinha feito uma pequena fogueira onde assava dois peixes que havia pegado. Ao lado havia algumas frutas.
Wei: 'Venha comer seu café da manhã, Shoran. Vai precisar dele.'
O garoto saiu de dentro da barraca e se juntou a Wei. Até no meio do mato, o mordomo conseguia fazer uma comida deliciosa.
Shoran: 'Que loucura preparou pra mim hoje, Wei?'
Wei (calmamente): 'Nada demais. Apenas escalar a cachoeira.'
Shoran (espantado): 'Escalar a cachoeira? Como espera que eu faça isso??'
Wei: 'Atrás da água tem muitas pedras com várias fendas. Apenas afaste a água como fez sentado na pedra e suba.'
Shoran: 'Ah, claro... Aquela cachoeira deve ter uns quinze metros. Acha que eu consigo sustentar aquilo que fiz antes até chegar lá em cima?'
Wei: 'É esse o desafio.'
Shoran: 'E se eu cair?'
Wei: 'Só vai ter que se levantar e começar outra vez.'
Wei mordeu seu peixe e o assunto terminou por ali. Shoran olhou a cachoeira enquanto comia. Wei estava louco... Demorara duas horas e meia para conseguir produzir aquele poder, mas só conseguiu sustentá-lo por alguns segundos. Agora ele teria de escalar uma cachoeira fazendo aquilo...
Wei: 'Vamos ficar aqui até você conseguir fazer isso, Shoran. Pode levar quanto tempo for necessário, uma ou até duas semanas se você achar necessário.'
Assim Shoran se acalmou um pouco, pelo menos não teria de ficar tentando sem parar. Logo que terminou de comer, Shoran entrou na água mais uma vez. Chegou ao pé da cachoeira e subiu na pedra. De pé, apalpou as pedras atrás da cachoeira, procurando saliências onde poderia apoiar as mãos e um dos pés. Segurando firme nas pedras, Shoran tentou repetir a expansão de sua magia como havia feito no dia anterior. Após algum tempo recebendo água no rosto ele consegue, mas quando se apóia na pedra sob seu pé para tentar subir, a magia se desfaz e Shoran escorrega voltando à estaca zero.
Aquele desafio iria ser muito difícil, mas ele não desistiria fácil. Após mais algumas tentativas frustradas, Shoran decide voltar a se sentar sob as águas, para tentar, sentado, manter aquela energia por mais tempo para depois tentar escalar a cachoeira.
Sakura passou cola com cuidado na borda do envelope, e fechou-o com carinho deixando-o sobre a mesa. Espreguiçou-se com vontade na cadeira e se levantou. Seus olhos voltaram para o envelope endereçado a Shoran Li. Aquela era a terceira carta que mandava contando as novidades. Não esperava pelas respostas, pois sabia que ele não estava em casa, mas fazia questão de mandá-las, só para contar as novidades. Nessa última estava enviando uma fotografia dos dois se beijando no quarto da amiga Tomoyo. Ela havia pego a imagem pelo vídeo que tinha filmado, e mandara imprimir duas cópias em papel fotográfico. A foto tinha ficado realmente boa.
Sakura se vira para sua cama, e lá estava a sua cópia da foto sobre o travesseiro. Era estranho se ver beijando alguém, mas ela gostava. Ficou olhando a imagem enquanto mil e uma coisas passavam por sua cabeça. Assim ficou até seu pai bater na porta perguntado se podia entrar. A garota escondeu a foto em baixo do travesseiro e disse que podia.
Fujitaka: 'Vim lhe dar boa noite e já me despedir, já que viajarei amanhã muito cedo.'
Sakura: 'É verdade... Cuide-se, papai.'
Pai e filha se abraçaram e Fujitaka prometeu que traria algo como lembrança das escavações. A garota agradeceu, e acenou para o pai enquanto ele saia do cômodo.
Sakura tirou a foto de baixo do travesseiro e guardou-a na gaveta da escrivaninha. Gostaria de deixá-la em um porta-retrato, mas se Touya visse ficaria indignado. Ela desejou boa noite a Kero que talvez já estivesse dormindo, e deitou-se em sua cama, pensando no que o amor de sua vida estaria fazendo.
Poderia estar dormindo, ou até mesmo treinando. Shoran já tinha um corpo perfeito, treinar mais ainda, só o deixaria irresistível. O que seria um problema para ela, ia ter ciúmes de toda e qualquer mulher que olhasse pro SEU namorado. Não deixaria que nenhuma garota se aproximasse dele, e ela iria se esforçar para ser atraente pra ele também, se não ele poderia até lhe trocar por outra.
Sakura admirou-se quando percebeu que estava pensando naqueles absurdos. Shoran nem estava com ela, estava bem longe, e assim permaneceria por mais bastante tempo. Ela não poderia fazer nada, aquela era a única chance de Shoran realizar seu sonho de entrar para a Elite em nome de seu pai, e também de vingar-se da mulher que o matou. Sakura entendia os motivos de Shoran, só não aceitava que isso os afastasse tanto.
Parando de pensar no namorado, ela trata de dormir. Amanhã seria um novo dia, mais um dia que ela esperaria pelo retorno de Shoran.
N/A: Olá!!!!!!!! o/ Desculpa demora! Eh q acabou q eu fui pra casa de uma amiga e não deu pra postar... . Bom, queria agradecer a Diu q revisou a fic pra mim dessa vez pq o Sapox num podia, e queria me desculpar com ela pq esqueci di mandar ela escrever as notas dela... XDDD Queria tbm desejar boa viagem pra ela pq ela foi pra Salvador e agora soh volta em fevereiro! X(
Bom, o que acharam do cap?? Gostaram do treino?? E do Marck?? XD Quanto mais eu escrevo mais eu gosto dele... Ele é divertido, vcs vão ver... Acham q o Shoran consegue subir a cachoeira? Tarefa difícil... o Wei não tá dando folga pra ele... Mas tbm, ninguém mandou ele querer tanto entrar para elite... problema dele agora, vai ter q agüentar tudo q eu to preparando pra ele... risada maligna Bom, acho q até o cap 5 vcs já me matam, mas tudo bem...
Ah! Quero agradecer a TODOS que comentaram na história... MUITÍSSIMO obrigada! -
Bem..Chega de ladainha neh... Até o próximo capítulo! o/
Beijos!
