- O 13º Guerreiro -

A Elite dos Doze

Parte V

Shoran chegou no dojo e alongou-se durante algum tempo. Sua perna ainda doía quando fazia algum esforço, mas o braço estava bom. Decidiu treinar sozinho, com alguns movimentos de braço apenas. Apesar de tentar se concentrar, não conseguia pensar em algo que não fosse Sakura. Estava cada vez mais difícil ficar sem vê-la, pois o que ele mais queria naquele instante era poder beij�-la e abraç�-la novamente. O desejo que nutria por ela ficava maior a cada dia que passava.

Cansado, deitou-se no chão e, mirando o teto, apenas a namorada lhe vinha a mente. Ia acabar enlouquecendo daquele jeito. Decidiu ligar pra ela e contar que voltara mais cedo para ver se ficava mais calmo.

Ele se levantou com algum esforço por causa do ferimento, e iniciou o caminho de volta para a casa. Foi direto para o telefone mais próximo, que ficava na sala, do lado da grande escada de pedra. Shoran se apoiou na parede, e telefonou. Alguma coisa lhe dizia que deveria ter ligado antes, mas ele não entendia o motivo.

Touya atendeu ao telefone e, ao perceber que era Shoran, sua voz mudou para um tom de extremo mau humor.

Touya: 'Telefone pra você, Sakura!'

Sakura, que recém havia acordado, estava na cozinha preparando algo para comer. Não estava nenhum pouco a fim de falar com qualquer pessoa no telefone, então simplesmente gritou, mandando dizer que não estava.

Touya (debochando): 'Ouviu isso, moleque? Ela mandou dizer que não est�! Viu? Ela não te ama mais, pode largar dela agora!'

Assim que escutou o que Touya estava falando com Shoran ela corre e arranca o telefone da mão do irmão.

Sakura (desesperada): 'Shoran?'

Shoran: 'Olá Sakura! O que aconteceu?'

Sakura: 'Eu que te pergunto! Você não deveria estar nas montanhas Jun alguma coisa que eu não lembro?'

Shoran: 'É Junling Bainkara.'

Sakura: 'O nome não interessa...'

Shoran: 'É que Wei me obrigou a voltar mais cedo, Sakura...'

Sakura: 'Mas por quê?'

Shoran: 'É que apareceu por lá o cara que vai ser meu novo mestre, já que Wei está envelhecendo. O sujeito tem dezenove anos e é um chato. Acabei me desentendendo com ele e sai perdendo...'

Sakura (preocupada): 'Ai meu Deus... Você está bem?'

Shoran: 'Estou sim... Não se preocupe.'

Sakura: 'Então você não vai voltar pra l�, né?'

Shoran: 'Não, vou ficar por aqui mesmo.'

Sakura (receosa): 'Ah, que bom... (momento de silêncio) Shoran... Tem uma coisa que eu queria te perguntar...'

Shoran: 'Diga.'

Sakura: 'Tem alguma... Ah... Garota diferente por aí?'

Shoran (não entendendo nada): 'Ahn? Como assim? Por que isso agora?'

Sakura: 'Me diga se tem ou não, Shoran!'

Shoran (sem pensar): 'Não tem não Sakura! A não ser...'

Sakura: 'A não ser quem, Shoran?'

Shoran: 'Meiling trouxe uma amiga do colégio para cá. Só isso...'

Sakura: 'Não aconteceu nada entre vocês?'

Shoran: 'Ai meu Deus, Sakura! Está ficando paranóica agora?'

Sakura: 'Não Shoran... Eu só comecei a ter um pressentimento estranho... Um sentimento de que poderia estar acontecendo algo aí em Hong Kong, algo que me deixaria extremamente triste, você sabe...'

Shoran: 'Entendo, mas não se preocupe Sakura... A única coisa que fizemos foi jogar baralho. Eu, Meiling e ela.'

Sakura: 'Promete que não vai acontecer nada?'

Shoran (estranhando): 'Mas Sakura, o que poderia acon...'

Sakura (interrompendo): 'Apenas prometa, Shoran!'

Shoran: 'T�, eu prometo.'

Sakura (suspirando): 'Acho que assim vou me sentir melhor...'

Shoran: 'Sakura, não fique tão angustiada com isso tudo. Sei que a culpa é minha por estarmos separados, mas não posso abandonar todos os meus objetivos pelos quais venho lutando faz tanto tempo...'

Sakura: 'Eu sei, Shoran... O pior de tudo é que eu sei... É muito egoísmo da minha parte te privar de realizar esse sonho só por causa dessa saudade que deve estar me deixando louca... Mas você me garante que vai tentar vir mais vezes?'

Shoran: 'Claro Sakura... Hoje mesmo vão começar meu treinos com meu novo mestre, eu vejo como são as coisas com ele...'

Sakura: 'Está certo... Mande notícias, ok?'

Shoran: 'Claro.'

Sakura: 'Bom, preciso desligar... Até outro dia.'

Shoran: 'Até... Te amo muito, ok? Nada de choradeiras...'

Sakura (rindo): 'Vou tentar!'

Shoran: 'Ótimo. Até mais...'

Shoran desligou o telefone, ainda não entendendo como Sakura tinha se abalado tanto achando que havia acontecido algo, sendo que ela nem sabia que ele já estava em Hong Kong. Pensativo, o jovem pôs-se a subir a escadaria com cuidado, mas quando estava quase no topo, ouviu chamarem seu nome.

Marck: 'Para onde vai?'

Shoran: 'Pro dojo, por quê?'

Marck: 'E sua perna?'

Shoran: 'Está bem, só não dá pra forçar muito.'

Marck (subindo as escadas): 'Podemos trabalhar algumas coisas mais paradas hoje, se você quiser.'

Shoran (dando os ombros): 'Por mim tudo bem.'

Li achou estranho, ele e Marck até que haviam tido uma conversa amigável. Talvez fosse por que agora Shoran sabia que ele era forte, muito mais do que ele, apesar da pouca diferença de idade.

No dojo, Marck ensinou a Shoran algumas maneiras de canalizar sua energia mais rapidamente, com maior intensidade e com menos esforço. Já no fim da tarde, Shoran se encontrava cansado, apesar de nem ao menos ter se mexido muito. Trabalhar com a energia mágica também cansava, e bastante. Deitado, mirando o teto do dojo, o garoto respirava fundo para poder continuar o treino.

Marck (olhando o relógio): 'Não é às sete que servem o jantar? Acho melhor pararmos por aqui...'

Shoran (ainda deitado): 'Pode ir, eu nunca vou jantar com todo mundo...'

Marck (estranhando): 'Mas por que?'

Shoran: 'Sempre estou treinando com Wei neste horário, então me acostumei a jantar mais tarde.'

Marck: 'Hm... Então é por isso que você fica depressivo, garoto. Wei me contou sobre sua paixão pela japonesa, que você ficava triste e perdia a concentração nos treinos. Mas ele não falou que você tinha uma vida social praticamente nula.'

Shoran (se sentando): 'Como assim?'

Marck: 'Você já não vai para escola, não tem amigos, sua única companhia pra se divertir é a garota Meiling. E quando você tem chance de se reunir com o resto da família, nem que seja para brigarem um pouco, você não vai. Isso não é saudável sabia?'

Shoran (achando o cúmulo): 'Está dizendo que eu fico deprimido por que não janto com todo mundo todos os dias? Você é que não está saudável!'

Marck: 'Estou sim, e não é apenas isso. Olha, tudo bem que você seja apaixonado por aquela garota, esse não é o caso. O problema é que se você passar o tempo todo sozinho, a única pessoa que vai parar na sua cabeça é ela, assim você fica deprimido.'

Shoran não falou nada, isso até que fazia sentido. Quando se divertiu um pouco com as garotas numa mera partida de cartas, ficara bem mais relaxado.

Marck: 'Eu, como seu mestre, sei o que é bom pra você, então vá já jantar.'

Shoran (se levantando): 'Se achou O sábio agora, não?'

Marck: 'Não reclame.'

Shoran vai caminhando com cuidado por causa de sua perna, até a sala de jantar. Lá estavam reunidos: Meiling, Nai, Yelan, Wei, Shiefa e Futtie. As outras duas garotas haviam saído com os noivos.

Meiling (surpresa): 'Vai comer conosco hoje, Shoran?'

Shoran (lançando um olhar para Marck): 'Não foi escolha minha...'

Logo uma empregada colocou mais dois pratos na grande mesa, onde os dois se sentaram.

Yelan: 'Mas por que essa folga hoje? Sua perna está doendo, filho?'

Marck: 'Não, senhora Li... Observei um pouco esses hábitos radicais de seu filho e achei que as coisas poderiam mudar um pouco pro bem dele.'

Yelan observou um pouco Marck, depois que ele terminara de falar, um tanto surpresa.

Shoran: 'Também olhei para ele com essa cara. Mas pelo visto ele tem uma explicação lógica pra tudo...'

Yelan: 'Então explique... Não que eu não queira que Shoran jante conosco, mas é que não entendi o que isso vai melhorar na vida dele.'

Marck: 'Bom, Senhora Li, seu filho quase não tem uma vida social, não se relaciona com as pessoas. Não vai para escola, não sai de casa, e nem ao menos convive com a família direito. Pode ser que ele esteja acostumado com isso, mas o tempo vai passando e a solidão vai chegando. Como, além de tudo isso, ele é apaixonado por uma garota que está a alguns milhares de quilômetros daqui, ela é a única que fica na cabeça dele, logo, ele entra em depressão e, conseqüentemente, perde a concentração nos treinos. Por isso que Wei teve de dar umas férias pra ele esses dias.'

A família toda havia parado para escutar a razão de Marck, e Wei apenas sorriu. Quando Marck terminou seu pequeno discurso, todos se mantiveram calados. Shoran se perguntava com que direito que Wei contou a ele toda sua vida, enquanto Yelan pensava que o jovem a sua frente tinha sido uma ótima escolha de Wei para treinar o filho.

Yelan: 'Tem certeza que isso vai funcionar?'

Marck: 'Sim, senhora. De qualquer modo, podemos ver como as coisas fluem. Podemos começar diminuindo duas horas do seu treino diário.'

Shoran (se irritando): 'Duas horas? Em uma semana terei perdido mais de um dia inteiro! Sem chances.' Shoran cruzou os braços e fechou a cara. Marck soltou um longo suspiro.

Wei: 'Parece bastante, mas não é tanto assim, jovem Shoran...'

Meiling: 'É, Shoran, pára com isso. Olha... Acho que Marck tem razão. Assim vai ser melhor pra você mesmo. Prometo que nesse tempo que vai sobrar do seu dia vamos nos divertir bastante!'

Nai (sorrindo): 'Podemos começar amanhã mesmo! Já que depois eu vou embora!'

Marck: 'Isso mesmo, garotas. Encarrego vocês de arranjarem umas festas por aí, ou coisas assim.'

Shoran: 'Festas? Aquele bando de gente amontoada, fedendo a cigarro, dançando umas músicas pornográficas se agarrando como se o mundo fosse acabar? Não, obrigado.'

Meiling: 'Você também exagera, né...'

Marck: 'Ignorem ele, só façam isso, t�?'

Nai: 'Pode deixar, festas são comigo, né Meiling?'

Meiling: 'Com certeza!'

Shiefa (se empolgando): 'Podíamos fazer uma festa aqui em casa!'

Futtie: 'É mesmo! Ia ser tão divertido!'

Yelan (voltando a prestar atenção ao seu prato de comida, ignorando solenemente a idéia das filhas): 'Bom, Marck, autorizo você fazer o que quiser... Gostei dessa sua atitude. Não concorda, Wei?'

Wei: 'Plenamente.'

Marck (curvando um pouco o tronco): 'Obrigada senhora.'

Shoran cerrou os punhos com raiva. Quem Marck pensava que era chegar do nada e mudar toda sua rotina alegando que era pelo bem dele? Mas, o pior de tudo, era sua mãe ter gostado da idéia. Agora ele iria lhe obrigar a fazer um monte de coisas que não gostava... Será que ele não podia entender que ele gostava de treinar, que era seu passatempo, sua diversão? Numa festa só ficaria mais entediado...

Largou o guardanapo que tinha sobre o colo em cima do prato ainda vazio, e saiu sem dizer nada. Todos o seguiram com os olhos até ele sair do aposento. Marck levou a mão à cabeça e começou a se levantar para ir atrás do garoto.

Wei (se levantando também): 'Sente-se Marck... Eu converso com ele.'

Os dois trocaram olhares por alguns instantes, até que Marck volta sentar-se à mesa. Wei sai do cômodo e vai até o quarto dele, onde encontra a porta aberta e ninguém dentro. Então, ele vai até o dojo, sabia que o encontraria lá.

Shoran estava sentado no chão, colocando alguns pesos nas pernas, e assim que Wei se aproximou dele, ele soltou um 'que é!', mal humorado.

Wei: 'Nada... Só queria conversar...'

Shoran (se levantando): 'Não estou a fim de conversar agora...'

O garoto deu alguns pulinhos no mesmo lugar para testar sua perna, e em seguida chutou o ar.

Wei: 'Não vá culpar o médico se esses pontos abrirem...'

Mesmo sentindo um pouco de dor, Shoran tratou de ignor�-la, voltando a dar algumas seqüências de golpes no ar. Wei observa o garoto por um tempo, até que decide falar de novo.

Wei: 'Sei que você tem consciência de que Marck tem razão, só não quer admitir.'

O jovem parecia ignorar tudo o que o antigo mestre falava, repetindo os mesmos movimentos.

Wei: 'É bom ser orgulhoso, jovem Shoran, mas às vezes você tem que aceitar que ele está certo. Se eu tivesse reparado que era isso que te deixava assim, já teria feito a mesma coisa, mas parece que foi ele quem percebeu. Marck está certo e você vai ter que acatar a decisão dele.'

Shoran continuou como se Wei fosse uma sombra no aposento.

Wei: 'Se você não acredita que isso trará algum resultado positivo, não faça isso nem por ele nem por você, faça por mim. Eu quero te ver onde seu pai não conseguiu chegar e me orgulhar do garoto que criei como se fosse meu filho.'

Wei virou as costas sem esperar uma resposta, pois sabia que ela não viria. Porém, assim que ele encostou a porta de correr do dojo, percebeu que Shoran havia parado com aqueles golpes frenéticos.

O garoto tinha vontade de se atirar no chão e chorar como uma criança. Ao mesmo tempo que sentia falta de seu pai, seu coração se apertava por Sakura, sua raiva por Koriny aumentava e a vontade de dar um soco na cara de Marck também. Queria que o mundo explodisse e que pudesse explodir com ele. De joelhos, ele socou o chão com força tentando aliviar a dor.

Ele parou, colocando a cabeça no lugar. Não importava se ele abrisse um buraco no chão, seu pai não ia voltar à vida, Sakura não ia aparecer diante dele e nem Marck, nem Koriny sumiriam de sua vida. Pensando que nenhum de seus problemas se resolveriam tão cedo, ele deixa escapar uma lágrima de sofrimento e saudades.

Wei observou Meiling e Nai se aproximando e preferiu deixar o resto com elas, voltando para casa.

Meiling: 'Shoran, você está... Chorando?'

Droga, ele pensou, não tinha percebido a entrada de Meiling, e agora lá estavam ela e Nai olhando para ele, surpresas. Shoran recuperou a aparência séria que sempre teve e tratou de se levantar.

Shoran: 'Não, Meiling, não estou chorando.'

Meiling (entrando no dojo): 'Ninguém vai caçoar de você se você admitir isso, Shoran.'

Shoran (quase gritando): 'Mas eu não estava chorando!'

Meiling faz um sinal para Nai entrar, pois a garota ainda estava do lado de fora. As duas observam Shoran olhar para fora da janela do dojo como se pensasse em algo.

Meiling: 'Você não parece muito bem Shoran... Quer se distrair um pouco? Eu e Nai já jantamos, se você não estiver com fome podemos fazer alguma coisa juntos e...'

Shoran: 'Não Meiling... Estou de cabeça cheia, vou acabar brigando com vocês. Faço o que vocês quiserem amanhã já que vou ter duas horas de treino a menos...'

Nai (tentando desanuviar o ambiente): 'Gosta de sorvete? Tem uma nova sorveteria aqui perto, podíamos ir...'

Shoran (indo com elas até a porta): 'Sim, sim... O que vocês quiserem... Agora poderiam me deixar sozinho?'

Assim, Shoran fechou a porta antes que elas respondessem qualquer coisa. Lá ele deitou-se no tatame e, pensando na vida, acaba perdendo a noção do tempo, terminando por dormir lá mesmo.

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Marck entrou sorrateiramente no dojo pela manhã. Pé ante pé ele se aproximou do pupilo com uma grande e gorda bexiga de água nas mãos. Ele posicionou-se atrás da cabeça de Shoran e largou o balão, saindo de perto logo em seguida. A bola explodiu assim que encostou na nuca do garoto, espirrando água por todos os lados.

Shoran praticamente pulou de susto. Ficara completamente molhado, sem contar que a água era fria. Quando olhou para frente, encontrou Marck rindo com cara de bobo, deixando-o completamente irritado.

Shoran: 'Por que diabos você fez isso, seu idiota?'

Marck (rindo): 'Por vários motivos!'

Shoran: 'Pois comece a enumer�-los e a desculpar-se agora!'

Marck: 'Primeiro por que já são oito e meia da manhã. Segundo por que hoje está bastante quente, perfeito para treinaremos com estas bexigas e você vai se molhar bastante de qualquer jeito. E por último, por que é realmente muito divertido acordar alguém com água!'

Shoran (torcendo a barra da camisa): 'Não vejo nada de divertido nisso!'

Marck: 'Pois eu vejo! Agora suba logo pro seu quarto e vista um calção de banho.'

Shoran (saindo): 'Já disse que odeio você hoje?'

Marck: 'Ainda não... Mas você acabou de acordar, terá bastante tempo pra isso. Agora ande logo, sim?'

Shoran sai do dojo bufando. No seu quarto ele encontra um abandonado calção de banho e o veste, deixando a roupa molhada no banheiro. Sua perna ainda tinha um curativo, mas se ele ia se molhar como Marck havia dito, talvez fosse melhor tir�-lo. Ele retirou as faixas que cobriam o machucado, revelando o ferimento. Já estava bem melhor, mas não estava cem por cento.

O garoto retornou aos fundos da casa e, quando chegou ao jardim entre a mansão e o dojo, viu Nai e Meiling usando biquínis, brincando com uma mangueira. Sentiu o rosto esquentar, mas logo afastou aqueles pensamentos. Marck gritava para que ele se apressasse.

Quando Meiling o viu logo disse que a água estava ótima, melhor que a da piscina. Nai apenas corou admirando o belo físico do primo da amiga.

Shoran: 'Elas também vão fazer parte desse treino maluco hoje?'

Marck: 'Claro. Elas vão ajudar bastante! Só espero que você olhe pras bexigas, não pra elas.'

Shoran: 'Não se preocupe, não sou como você.'

Marck (depois de revirar os olhos): 'Venham c�, meninas! O treino vai ser o seguinte: Shoran ainda está com a perna machucada então vai ser algo bem leve, por enquanto.'

Shoran (reclamando): 'Minha perna já está boa...'

Marck: 'Fique quieto, Shoran. Eu que sei das coisas por aqui.'

Shoran: 'Vamos começar nossa contagem então: Marck, eu te odeio. Primeira vez.'

As meninas abafaram um risinho, mas se calaram quando Marck voltou a dar as instruções do treino.

Marck: 'É muito simples. Tenho aqui uma boa quantidade de bexigas como vocês podem ver. O que faremos é simplesmente atirar em você, Shoran. O que você faz é evitar se molhar, sem sair dessa área. (apontando um espaço entre duas pedras) Quando terminarmos, iremos avaliar se você está seco ou não.'

Shoran: 'Não seria muito mais pratico você usar seu arco e flecha, Marck?'

Marck: 'Certamente que não. Se você não desvia é mais um machucado pra sua coleção. Sem contar que além de estar super quente, com bexigas é muito mais divertido.'

Shoran: 'Você até parece uma criança.'

Marck: 'E quem disse que não sou? (sorriso bobo) Chega de papo! Se você se sair bem nesse primeiro jogo, temos um mais difícil para mais tarde. Não dêem mole pra ele, meninas!'

Meiling e Nai (segurando duas bexigas cada uma): 'Certo!'

Shoran tomou uma certa distância dos atiradores enquanto Marck se armava também. Ao sinal de Marck, todos iniciam o bombardeio. Logo de início Shoran já percebeu que as bexigas de Marck chegavam mais rápido e mais longe, enquanto as de Meiling eram um pouco mais fracas. As de Nai eram lentas e fracas, não indo muito longe. Todos demoravam cerca de dois segundos para pegar novas bexigas nos baldes, tempo suficiente para ele se preparar para um novo desvio.

Ele conseguiu desviar das três primeiras levas de bexigas sem problemas, nem dor na perna. O problema era que mesmo desviando, quando as bexigas batiam no chão elas espirravam a água nele. Se ele se molhasse não cumpriria o objetivo que era ficar seco. Ao perceber isso Shoran viu que Marck não seria bobo em fazer um treinamento tão simples.

A quarta leva de bexigas chegou, e Shoran desviou primeiramente das jogadas por Marck, saltando para a frente das que vinham de Nai. Assim ficou a uma distância que a explosão de água não o atingisse. Preocupado com o estouro, as próximas bexigas chegaram perto demais para serem desviadas.

Como último recurso Shoran canalizou sua magia para fora como ambos os mestres já haviam ensinado, e assim permitiu que as quatro bolas o atinjam.

Meiling: 'Pegamos ele!'

Marck: 'Olhem direito, mocinhas.'

As duas amigas observam Shoran novamente. Ele permanecia seco, apesar de todas as bolas de água terem o acertado em cheio.

Nai (não acreditando): 'Impossível! Como ele fez isso?'

Meiling (pensando numa desculpa): 'Eh... Ah...'

Marck (mentindo): 'Ele se moveu rapidamente, impedindo que a água o atingisse. Eu e Meiling que já treinamos bastante vimos os movimentos, foi muito bom, não é Meiling?'

Meiling: 'Se foi...'

Nai (espantada): 'Nossa...'

Marck: 'Bom trabalho, Shoran. Agora venha c�, veremos se você está seco realmente.'

Shoran estava um pouco molhado apenas do joelho para baixo. As garotas acharam ótimo, mas Marck não ficara satisfeito. Puxou Shoran para um canto para que Nai não escutasse o que conversariam.

Marck: 'Escute aqui, Shoran. Os grandes guerreiros podem fazer exatamente o contrário do que você faz com a energia. Você a expande, colocando para fora do corpo como se fosse uma nova pele. Além disso, você pode concentrar em apenas um ponto, como quando você ativa um dos ófuros. A diferença é que eles podem criar uma esfera dessa energia e disparar contra você. Contra isso não basta desviar, elas explodem ao simples toque. Se você não puder se proteger dos estouros não vai adiantar nada. Apenas a parte de baixo das suas pernas estão molhadas por que você não desviou das explosões. Sem contar que essa barreira que você faz só bloqueia substancias maleáveis como a água, um ataque de verdade te feriria do mesmo jeito.'

Shoran: 'Eu percebi que estava me molhando com aqueles estouros um pouco tarde. Mas é difícil desviar da explosão e das próximas bexigas ao mesmo tempo! Por isso expandi a energia para que não me molhasse. Se eu pudesse sair daquele espaço ficaria muito mais fácil...'

Marck: 'Fez certo usando aquela energia, mas o propósito dessa força não é para defesa, e sim para o ataque. Fazendo isso sua força tanto física quanto mágica aumenta, a fina barreira que ela produz é uma mera conseqüência. Se quer uma barreira use um ófuro do vento que é infinitamente mais útil para este caso.'

Shoran: 'Mas então como eu posso desviar de todas sem sair daquele espaço? É impossível!'

Marck: 'Isso já é problema seu, descubra você mesmo o que fazer.'

Ao dizer isso, Marck retornou para junto das garotas que já haviam estourados umas bexigas a mais uma na cabeça da outra.

Marck: 'Ei, ei! Tive um trabalhão pra encher tudo isso! Não para é brincar, é pra tacar nele!'

Nai: 'Mas ele não se molhou quase nada! Vamos ter que fazer de novo?'

Marck: 'Ele molhou um pouco as pernas, lembra?'

Meiling: 'Mas foi quase nada...'

Marck: 'Mas molhou, por isso vamos repetir.'

Nai: 'Certo...'

Os três pegam duas bexigas cada, e Shoran retorna ao mesmo espaço marcado. Com todos preparados, Marck da o sinal e o bombardeio começa. Shoran tinha um plano, que talvez não funcionasse, mas ele deveria tentar.

Quando as seis bexigas estavam quase o atingindo, Shoran expande a energia e salta o mais alto que conseguira, desviando assim das bexigas e dos estouros. O problema daquele plano era que, quando voltasse ao chão, as próximas bexigas já estariam a caminho e talvez não tivesse tempo para desviar. Precisava pensar em algo.

Assim que Shoran saltara, Marck soube exatamente o que aconteceria: ele voltaria ao chão e escorregaria feio. Shoran só podia ficar dentro de uma área calçada de pedras lisas. Com aquela água toda que já tinham atirado, e com a perna dele machucada, certamente ele não iria conseguir pisar no chão sem escorregar.

Apesar de poder jurar para si mesmo o que aconteceria a seguir, Marck se surpreendeu quando viu Shoran se aproximar do chão primeiro com as mãos, fornecendo o equilíbrio que precisava. Em seguida se impulsionou para trás, caindo em pé. Os balões de água estouraram onde ele havia caído antes, mas a água do estouro o atingiria se não tivesse saltado novamente, pousando fora da área demarcada.

Shoran (desapontado): 'Droga... Pensei que tivesse mais espaço!'

Marck (consolando): 'Ao menos está seco. Mais uma vez, garotas!'

No início era divertido para as meninas ficarem atirando bexigas de água, mas fazer aquilo a manhã inteira se tornara bem tedioso. Já perto do meio dia o treino nem tinha mais graça, pois nenhuma delas estava motivada para ficar atirando bexigas com a mesma velocidade e força de antes.

Marck (se irritando): 'T�, chega! Isso não vai mais levar a nada desse jeito... Podem ir almoçar todos vocês.'

Meiling e Nai agradeceram se enrolando numa toalha deixando as bexigas pra trás. Apesar do alívio de poderem parar, Nai ainda queria ficar pelo pátio admirando Shoran. Enquanto as duas se secavam, a estrangeira observava Shoran discutir com o mestre. Ela não sabia o motivo de tanto empenho nos treinos, nem como ele podia de mover tão agilmente, mas era esse mistério que a deixava cada vez mais apaixonada por ele.

Meiling: 'Vamos, Nai... Estou com fome e você nem se secou ainda!'

Nai (se secando): 'Desculpa...'

O almoço aconteceu normalmente, seguido de um tempo de descanso. Shoran ficou no seu quarto, com a televisão ligada, mas pensando em outras coisas. Ele voltou à realidade ao escutar batidas na porta: era Marck. Shoran logo perguntou o que ele queria.

Marck: 'Nada demais. Só queria falar para você umas coisas que andei planejando...'

Shoran (se atirando na cama): 'Vai querer que eu mude o jeito de me vestir, de dormir e de comer porque isso afeta minha personalidade atrapalhando nos treinos? Não, obrigado, sem mais mudanças inúteis. Já estou ficando aqui um tempão sem fazer nada como você queria.'

Marck: 'Não é nada disso. Só queria estabelecer uma rotina... Sei lá... Organizar as coisas.'

Shoran (se virando pra ele): 'Você já foi mestre de alguém antes?'

Marck: 'Não, primeira vez, por quê?'

Shoran: 'É que eu andei pensando. Sabe o que me parece isso tudo?'

Marck (não entendendo): 'O quê?'

Shoran: 'Parece que você tem medo de não conseguir, se preocupando com todos os detalhes para que as coisas aconteçam exatamente como você planeja. Parece que você está tentando provar para alguém que você pode fazer isso sem ajuda.'

Marck permaneceu calado, totalmente impressionado. Parecia que Shoran tinha invadido sua mente, e agora sabia de todas as suas ambições.

Shoran (estranhando): 'Por que essa cara, falei algo muito ruim?'

Marck: 'Não! Quer dizer... Sei l�! Por que você acha isso?'

Shoran (rodando os canais da televisão): 'Não sei... É a impressão, apenas. Mas afinal, o que você veio fazer aqui?'

Marck (sentando na poltrona): 'Ah... É mesmo. Eu pensei no seguinte: Dividiremos seu treino em duas partes: Parte da manhã, começando as seis e meia e terminando as onze e meia, e a parte da tarde, começando as duas e indo até sete horas.'

Shoran: 'E o resto da noite?'

Marck: 'Faça o que quiser, apenas fique longe do dojo...'

Shoran: 'Suspeitei...'

Marck: 'Na parte da manhã vamos fazer exercícios de preparo físico, musculação, técnicas da espada, essas coisas... E na parte da tarde treinamos sua força interna, magia. De acordo?'

Shoran: 'Pode ser...'

Marck (se levantando): 'Ótimo. Bem, era só isso. Recomeçaremos o treino com as bexigas pelas duas. A divisão começa pra valer amanhã.'

Shoran: 'Tá.'

Marck se retira do quarto deixando Shoran e indo para seu quarto, fazer, provavelmente, o mesmo que o pupilo: nada.

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Na ala feminina da casa, Nai e Meiling trocavam as roupas de banho. Conversaram um pouco, mexeram no computador da chinesa e depois, sem nada pra fazer, Nai se senta na cama, perguntando algumas coisas para Meiling, só pra alimentar sua curiosidade.

Nai: 'Você também treina como Shoran, Meiling?'

Meiling: 'Como Shoran obviamente que não. Nem se eu realmente quisesse eu ia poder acompanhar ele. Todos os dias de semana ele treina no dojo, nos fins de semana ele estuda com minha tia. É esse o tempo que o dojo está livre que eu faço os meus treinos.'

Nai: 'Você não podem... Dividir o dojo?'

Meiling: 'Sem chances... Estamos em níveis completamente diferentes. Shoran é bom em tudo, é difícil acompanh�-lo. E não é só nos treinos... Uma vez que tínhamos prova no colégio e eu não conseguia entender a matéria, eu achei que se tivesse uma das aulas da minha tia com ele, poderia pegar a matéria. Mas longe disso, mesmo tendo apenas dois dias de aula por semana ele está muito mais adiantado que nós.'

Nai (impressionada): 'Que demais... Mas ele também não faz outra coisa, né... Treina e estuda, essa é a vida dele. Deve ser realmente chato.'

Meiling: 'É o que ele gosta, não podemos fazer nada. Sem contar que minha tia até prefere que ele estude em casa. Quando íamos pra escola juntos, muitos garotos implicavam com ele, até os alunos mais velhos arranjavam briga só por que ele é o herdeiro do clã.'

Cada pergunta de Nai que Meiling respondia deixava a garota cada vez mais interessada, e visivelmente mais apaixonada pelo primo da amiga. Ao fim das perguntas Nai chegou a rolar na cama abraçada ao travesseiro comentando que Shoran era perfeito. Murmurava que seus olhos eram penetrantes, seus cabelos desajeitados eram lindos e seu corpo o fazia parecer ter uns dezoito anos no mínimo. Meiling a lembrava inúmeras vezes de Sakura, mas a garota parecia não ligar, deixando a chinesa até um pouco preocupada.

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Depois de fazerem nada em seus respectivos quartos, mestre e pupilo se reencontraram no mesmo lugar onde tinha treinado com as bexigas anteriormente. Marck explicou que continuariam usando as bexigas, mas que o treino mudaria.

Marck: 'Agora ao invés de fugir delas, você vai ter que peg�-las, evitando que estourem ou que caiam no chão.'

Shoran: 'Só isso?'

Marck: 'Exatamente.'

Shoran: 'E ainda tem bexigas cheias pra fazer isso?'

Marck: 'Tem sim... Reservei umas pra a parte da tarde, me ajude a peg�-las.'

Os dois levaram vários baldes de bexigas para a área de antes, e só nesse trajeto no mínimo cinco bexigas estouraram.

Shoran: 'Essas bexigas são muito frágeis... Deve ter comprado por preço de lixo.'

Marck: 'Exatamente. Além de economizar dificulta o treinamento, bom não é?'

Shoran (revirando os olhos): 'Maravilhoso...'

Marck (se posicionando perto dos baldes): 'As garotas vão ficar de fora dessa vez, acho que elas não gostaram muito de ajudar. O que você deve fazer é apenas pegar as bexigas e pôr nesse balde que está do seu lado sem que elas estourem.'

Shoran: 'Certo...'

Shoran observou o mestre alguns instantes. Ele estava rodeado por quatro baldes: dois de cada lado. Como só tinha dois braços iria atirar duas bexigas por vez e teria tempo de coloc�-las no balde enquanto ele pegava mais duas.

O simples plano furou nos momentos seguintes. Marck abriu os braços e os levantou um pouco. Cinco ou seis bexigas acompanharam o movimento, subindo e flutuando ao lado do mestre. Ele esticou os braços para frente e todas as bexigas voaram em direção a Shoran.

Todas chegam ao mesmo tempo, deixando o rapaz confuso sobre o que fazer. Tentou pegar uma ou duas, sem sucesso. Todas as outras estouraram no chão.

Marck: 'Ao menos uma você devia ter pegado Shoran! Peguei você de surpresa nessa, mas mesmo assim...'

Shoran: 'Como se fosse fácil! Por que você mesmo não faz?'

Marck: 'Se é assim que você quer...'

Eles trocaram de lugar. Shoran segurou com cuidado duas bexigas em cada mão e as atirou na direção de Marck. Com uma velocidade incrível e tremendamente precisa, Marck apanhou todas as bexigas e as depositou no balde com perfeição.

Marck (voltando para seu lugar de antes): 'Sua vez.'

Shoran ficou boquiaberto por alguns instantes, sem entender como aquilo poderia ter acontecido. Se Marck ao menos explicasse como fizera, as coisas ficariam muito mais fáceis.

Marck: 'Eu não vou estar do seu lado numa luta lhe dizendo o que fazer, vou? É a mesma coisa aqui, ache sozinho um jeito de vencer o desafio.'

Shoran concordou e voltou para seu lugar. O mestre tornou a lançar as bexigas. Dessa vez jogou apenas quatro e em velocidades diferentes para facilitar. Sem conseguir pensar em algo melhor, Shoran repetiu a tática anterior, terminando sem nenhuma bexiga no balde. Marck não lhe dera tempo para pensar, mas se ele reclamasse disso, o mais velho iria dizer que numa luta ele não teria tempo pra pensar, o que era verdade.

O inglês preparou mais um grupo de bexigas para serem lançadas. Shoran observou que para fazer as bexigas flutuarem, Marck acumulava a energia dele em torno delas, forçando-as a subir. Se ele pudesse fazer isso antes que as bexigas estourassem, poderia salvar todas sem nem ao menos se mexer.

Tentando isso, mais quatro bexigas estouraram no chão.

Marck (sério): 'A partir de agora, cada duas bexigas que você deixar estourar, será um dia que eu vou te acordar com um balão de água fria as cinco da manhã.'

Era só o que faltava, se perdesse as próximas quatro bexigas já teria dois dias de cama molhada. Se ao menos seu plano funcionasse...!

As quatro bolas seguintes começaram a levitar dos baldes. Shoran pensou em como Marck tinha feito para pegar as quatro bexigas, e assim acabou bolando outro plano. Acumulou toda a energia que conseguia nas próprias mãos, e correu para pegar as bexigas. Antes mesmos de encostar nelas, elas já estouravam. Mais quatro bexigas e dois dias sendo acordado do mesmo modo que fora mais cedo.

Marck: 'Pelo visto começou a usar seu cérebro... Está no caminho certo.'

Shoran: 'Mas as bexigas estouraram! E eu acumulei toda a energia que pude nas minhas mãos!'

Marck: 'Aí está seu erro. Lembra que você usou essa energia pra bloquear a água? Quando ela era forte, bloqueava mais água. Digamos que quando a energia fica forte, ela fica mais dura, ou seja, se você acumular uma forte energia nas mãos e tentar as bexigas, será o mesmo que acert�-las com um taco de beisebol.'

Shoran: 'Então... O que eu preciso é acertar a quantidade de energia que vai apenas amaciar a queda da bexiga?'

Marck: 'Exatamente. É meio complicado, mas você consegue. Se não conseguir, aí você é o idiota que eu sempre pensei que fosse.'

Shoran: 'Eu também penso que você é um idiota.'

Marck: 'Nossa! Que coincidência! Já que nós sabemos um que um acha do outro, não precisamos brigar nem ficar aqui discutindo. Voltemos ao treino.'

Depois de estourarem todas as bexigas e terem que encher mais um monte delas para continuar o treino, eles alcançam o fim da tarde com Shoran pegando duas ou raramente três em cada quatro bexigas atiradas. Marck não pareceu ficar contente com o resultado final, e Shoran apenas adquiriu um intenso mau humor por ter se esforçado tanto e não recebido nem um incentivo.

Ao escurecer, Shoran se retirou para um banho. Assim que saiu do banheiro secando os cabelos, ele escutou algumas batidas na porta. Era Wei trazendo uma bandeja com biscoitos e um grande copo de suco de laranja.

Shoran: 'Por que trouxe até aqui? Eu já estava indo lá pra baixo...'

Wei (deixando a bandeja sobre a escrivaninha): 'Queria ver como você estava.'

Shoran: 'Minha perna está ótima, não sinto mais nada.'

Wei: 'Que bom, mas não era disso que eu falava, jovem Shoran.'

Shoran (sentando na cama e comendo uma bolacha): 'Ah não? Então sobre o que é?'

Wei: 'Os treinos com Marck... Está gostando?'

Shoran: 'Na verdade... Não muito. Ele inventa um monte de coisas estranhas, não diz uma palavra de incentivo, exige um monte de mim e diminui o tempo do treino. Contraditório, não? Realmente não entendo o que passa na cabeça dele...'

Wei: 'Reparei que ele comprou milhares de bexigas de água hoje... Também achei estranho, mas depois vi que foi uma boa idéia. Só que sua mãe pediu que eu fizesse algumas coisas hoje, por isso não cheguei a ver se você conseguiu pegar as bexigas.'

Shoran: 'Só três... E foram poucas as vezes em que consegui.'

Wei (surpreso): 'Você conseguiu três bexigas hoje?'

Shoran: 'Sim, por quê?'

Wei: 'Controlar a intensidade de energia que se libera é realmente difícil, Shoran. Seu pai demorou alguns dias pra conseguir bons resultados.'

Shoran (se animando): 'Verdade?'

Wei: 'Verdade! Parece que Marck está fazendo um bom trabalho com você!'

Shoran: 'Ele podia ao menos ter me parabenizado por isso, não?'

Wei: 'Provavelmente ele não quer dar o braço a torcer de que você é um bom aluno, assim como você nunca vai admitir que o que ele está fazendo com seus treinos é totalmente correto.'

Shoran: 'Pode ser...'

Wei (se retirando): 'Bom, eu vou indo... Terei que acordar cedo amanhã.'

Shoran: 'Boa noite!'

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Os dias em Hong Kong foram passando, e Shoran já se acostumara com a nova rotina. Não estava mais tão irritado com isso, o que lhe aborrecia de verdade eram as manhãs em que Marck o acordava com água fria como havia prometido que faria.

Por não ter muito o que fazer, acabava sendo arrastado por Meiling e alguma de suas amigas que já praticamente viviam na casa a ir passear em shoppings ou parques. Apesar de insistirem muito, a meninas nunca conseguiram arrastar o garoto para alguma festa noturna, para a tristeza de Nai.

Marck achava que a mudança gradual de comportamento de Shoran era um grande avanço. Ele sorria com muito mais freqüência, e se interessava por coisas que antes ignorava.

O que mais lhe deixou impressionado foi uma vez que o garoto se irritou com as bexigas de água que lhe acordavam todo dia, levantando antes da cinco da manhã. Ele colocara alguns travesseiros em baixo do cobertor para Marck pensar que ele estava dormindo. Assim que o inglês se dirigiu até a cama com uma bexiga na mão. Shoran o acertou em cheio com outra. A partir daquele dia Marck parou de despert�-lo daquela forma.

Eram aquelas pequenas atitudes que tinham deixado a vida de Shoran mais tranqüila, sem tanta pressão e sofrimento.

Shoran ligava para a namorada com freqüência, que se animava ao perceber que ele estava feliz, mas quase sempre perguntava da tal garota amiga de Meiling, ou de outras que poderiam aparecer.

Mesmo tendo diminuído o tempo de treino, Shoran estava aproveitando mais. Apesar de brigarem muito ainda, Marck havia se tornado um bom amigo, e as brigas eram mais por implicância mutua.

As aulas dos fins de semana com Yelan tinham se tornado menos chatas, até mesmo os exercícios que a mãe passava como tarefa para o fim de semana seguinte estavam mais fáceis.

Meiling aproveitava que a grande casa estava passando por momentos felizes, e vivia levando amigas para passar a tarde, ou dormir na mansão. Nai ia com mais freqüência, dando mais uma distração a Shoran que se dava bem com ela.

Estaria tudo ótimo se certos dias a saudade não apertasse fortemente. Apesar de tudo estar indo as mil maravilhas, Sakura continuava longe. A vontade que tinha de poder toc�-la novamente o deixava maluco. Passava algumas noite em claro, muitas delas na cozinha comendo o que encontrasse. Tinha certeza de que estava engordando por causa dela.

Em alguns fins de tarde que ia para a piscina na mansão se refrescar, ele tinha vontade de se afundar na água e não levantar mais. Queria tanto matar o desejo de beijar e acariciar a namorada que olhava até mesmo para Meiling com outros olhos.

Repreendia-se várias vezes por isso, mas não podia evitar. Certas vezes que Nai estava na piscina com ele e Meiling ele era obrigado a se retirar para não cometer alguma burrice. Sabia que a estrangeira gostava dele e ela fazia de tudo para que ele a notasse, como recusar entrar na piscina para ficar deitada no sol na frente dele se bronzeando, coisa que seria impossível pois àquela hora o sol já começava a se pôr. O incrível era que quanto mais Nai tentava se aproximar dele, mais Sakura se preocupava em perguntar se tinha ou não tinha acontecido alguma coisa entre eles.

Foi em uma tarde chuvosa, em que Shoran, Meiling e Nai estavam no dojo conversando logo após o treino do garoto que ele teve de dar razão as preocupações da namorada.

Meiling (se levantando): 'Wei disse que faria bolinhos de arroz... Vou ver se já estão prontos, esperem aqui!'

Shoran (se levantando também): 'Pode deixar que eu vou, você vai se molhar. Já estou todo sujo mesmo...'

Meiling (não fazendo questão): 'Já que insiste...'

Shoran sai do dojo e corre até a casa, fugindo da chuva. Meiling e Nai se olham, sem ter um bom assunto. Nai olha para o chão, depois para o teto, e decide falar.

Nai (hesitando): 'Meiling... O que eu faço?'

Meiling (sem precisar de explicações sobre o que ela estava falando): 'Sinceramente, eu não sei o que você faz... aqueles dois passaram por tanta coisa antes de ficar juntos... Não quero te desanimar, mas acho que Shoran não iria trocar a Sakura por ninguém nesse mundo...'

Nai (cabisbaixa): 'Meiling... Acho que você não entendeu direito... Antes eu estava só afim dele... Mas agora que eu convivi mais algum tempo com ele, eu to gostando dele de verdade!'

Meiling se sentia dividida. Queria muito consolar a amiga, dizendo que ela tinha chances e tudo mais, mas não poderia mentir. Ela sabia que Shoran era apegado demais à japonesa.

Meiling: 'Bom Nai... Eu entendo que você goste dele, e até acho que você fez uma ótima escolha, por que até eu já fui apaixonada por ele... Shoran é o sonho de várias garotas, é perfeito demais pra não se apaixonar. Acho que você deve fazer o que seu coração mandar e ver no que dá. Não vou te dizer que certamente ele irá te rejeitar por que nunca se sabe o que vai acontecer. Você pode ter uma chance sim, se você ama ele de verdade lute por ele. Só te digo que você não pode obrig�-lo a desistir do que ele ama por você, você vai ter que aceitar o que ele decidir...'

Nai: 'Tá... Então eu vou falar pra ele... Se der em algo, ótimo, se não... Eu supero.'

Meiling (sorrindo): 'Te desejo boa sorte!'

Shoran (abrindo a porta): 'Os bolinhos estão prontos!'

Meiling: 'Oba! Onde estão?'

Shoran: 'Na cozinha, oras...'

Nai: 'Por que não trouxe?'

Shoran: 'Não quero farelos no meu tatame... Vamos comer lá.'

Meiling (se levantando): 'Larga de ser chato...'

Shoran: 'Chato nada... Trouxe sombrinhas pra vocês.'

Dizendo isso Shoran mostra as duas sombrinhas pras garotas. Meiling sorri maliciosamente e pega uma sombrinha da mão dele e sai correndo na frente.

Meiling (acenando): 'Vamos rápido senão vai esfriar!'

Shoran: 'Apressada como sempre...'

Shoran e Nai saíram do dojo, dividindo a mesma sombrinha. Meiling deu um sorriso meio triste. Sempre dava um jeito de juntar duas pessoas, mas ninguém nunca a juntava com ninguém. Sempre ficava sozinha no final das contas. Será que era tão feia assim que ninguém a queria?

Nai caminhava devagar ao lado de Shoran que segurava a sombrinha no alto. Ela parecia meio constrangida. Ele perguntou se estava tudo bem e ela assentiu com a cabeça. Shoran não entendia porque ela ficara tão quieta de repente.

Eles chegaram na varanda da casa, onde Shoran deixa a sombrinha molhada. Ele abriu a porta, dando passagem para Nai entrar, mas a garota fechou a porta se colocando na frente dele.

Shoran (não entendendo): 'O que houve?'

Nai mirava o chão molhado, criando coragem para falar o que sentia.

Nai (corada): 'Eu preciso te dizer uma coisa importante, Shoran.'

Shoran: 'Fala.'

Nai (olhando para o chão): 'Bom... Você sabe que... Quando você me conheceu eu já era meio afim de você. Só que agora... Agora as coisas mudaram um pouco, e eu acho que o que eu sentia ficou maior. Agora eu fico arranjando motivos para Meiling me convidar pra vir aqui, só que na verdade eu só quero ver você de novo.'

Shoran não sabia o que dizer. Nai era uma ótima garota, se deram bem desde o início. Ele amava Sakura com todas as suas forças, o problema era que o desejo de tê-la nos seus braços de novo já estava quase impossível de se controlar. A loira parada em sua frente era muito bonita, lhe causava arrepios na espinha e tudo mais, mas não era Sakura. Recordou dos beijos e carinhos da namorada, e de como era bom ter uma garota ao seu lado.

Nai (voltando a olhar para o chão): 'Eu sei que você tem namorada e tudo mais, mas eu não podia deixar de tentar fazer alguma coisa...'

Shoran continuava observando a garota a sua frente. Pequena e indefesa, dizendo que o amava, aceitaria tudo o que ele fizesse, só precisava tomar a iniciativa. Sakura não saía de sua cabeça nem por um instante, mas ele tinha certas vontades que a japonesa não supriria estando longe e, naquele instante, elas estavam florescendo rapidamente. Ele era um adolescente com os hormônios a toda velocidade e, no momento, até fora de controle.

Nai: 'Eu não quero atrapalhar seu namoro, essa não é minha intenção... Eu só queria que você soubesse e avaliasse se ficar longe dela morrendo de saudades valia tanto a pena assim e...'

Nai calou-se ao sentir a mão de Shoran na sua nuca e seus lábios encostando-se aos dele. Cada pêlo de seu corpo arrepiou-se e ela retribuiu ao beijo, abraçando-lhe também. O beijo se aprofundou, e Nai acabou encostada na parede. A felicidade da garota era tanta que ela não estava nem um pouco preocupada com a amiga que ainda esperava os dois para lanchar.

O beijo continuou por mais alguns instantes, até que Shoran se separou dela, percebendo a loucura que havia cometido. Nai sorria de leve com os olhos brilhando de felicidade. Shoran levou as mãos a cabeça olhando para o chão, aquela não era Sakura. Ele não podia ter feito aquilo. Ele havia prometido que não o faria! O mundo girava e sua cabeça borbulhava em pensamentos sobre o que fazer. Como poderia ter sido tão fraco deixando-se levar por um mero desejo carnal? Encostado à uma pilastra um pouco a frente de Nai ele se remoia pelo que fizera, chegando a sentar no chão molhado da varanda, despertando a preocupação da estrangeira.

Nai (se aproximando): 'Você tá legal?'

Shoran (com a cabeça baixa): 'Nai, não fala mais comigo está bem? Pelo menos por um tempo. O que eu fiz foi um impulso errado, eu não sinto nada por você, me desculpe. Agora vá embora, Meiling está esperando você.'

Nai se espanta, por um momento tinha achado que ele retribuía seus sentimentos, mas agora entendia que ele apenas sentia falta da namorada. Sentia inveja da garota a quem ele tanto se dedicava e amava. Talvez nunca alguém a amaria daquela forma.

Nai: 'Shoran, eu pensei que...'

Shoran: 'Me deixe em paz, Nai...'

Com lágrimas nos olhos ela se levantou e entrou na casa, deixando Shoran sozinho.

A chuva só aumentava, mas Shoran não se importava. Por que ele tinha que ser tão fraco? Foi só uma garotinha vir dizer que o amava pra ele ceder e agarr�-la. Sakura teria toda a razão do mundo em brigar com ele, ele escutaria todas as broncas que ela daria sem discordar. Ela estaria certa de tudo, era um idiota mesmo. Sem contar que tinha quebrado a promessa que fizera! Idiota, fraco, burro...

Por mais que se repreendesse ele não poderia voltar no que fez. Levantou-se e seguiu lentamente pela chuva até o dojo. Agora ele tinha medo de não ser perdoado, e ficar sem a garota que mais amava por simples impulso de seu corpo.

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N/A: Olá pessoas!. Primeiro eu gostaria de agradecer mesmo mesmo mesmo à Miaka que tah dando uma força enorme pra mim! Inclusive é ela que está postando esse cap pq eu provavelmente estarei em Minas Gerais quando vocês estiverem lendo isso."

Bom... queria dizer que o site q eu falei nas notas passadas naum apareceu pq eu naum sabia q o ia tirar meu endereço... u.u o endereço www(ponto)13guerreiro(ponto)cjb(ponto)net ! Como eu disse tem coisas interessantes lá... Dêem uma olhadinha"

Queria pedir desculpas à Rafinha Himura Li... Eu tinha prometido à ela, fazer as notas desses cap juntas, mas não deu... u.u Vamos fazer no próximo, ok?

Também queria parabenizar a Miaka que está de aniversário dia 16 agora! Parabéns! Mtas felicidades e tudo de bom!

Sobre o cap... Bom, não me crucifiquem! XDDDDD No próximo cap vcs vão ver que ateh foi bom isso ter acontecido... bom, naum vou dizer nada! Apenas... Leiam o próximo cap! o

Beijos!

Notas da Miaka:

Euzinha aki... Ai, ai, ai, ai, ai... Q nervo, hein, gente? Sabe o q é pior? Eu já sabia há séculos q isso ia acontecer e mesmo assim fiquei dando chilique na frente do PC...

Revisei e postei esse cap como a Júlia me pediu, mas, se tiver algum errinho, me perdoem... Viajei no carnaval, perdi aula e fiquei atolada de coisa pra fz... Mas a Julinha me ajudou muito revendo as vírgulas, viu, moça! E obrigada pelos votos... Meu niverzinho ficou mais feliz depois disso (sim, é dia 16/02, data em que estou postando esse capítulo...).

Espero que tenham gostado do cap tanto quanto eu... Tá muito fofo! E a continuação vai ser melhor ainda! Sem contar que eu adorei a visão pessimista do Li sobre festas, vocês, não? XDDDD Esse garoto é dos meus! XDDD (É, sou meio anti-festas superlotadas onde qualquer um chega em você e pede pra ficar sendo que duas horas depois nem lembra da sua cara... ‚'' Posso ser antiquada, mas sou eu, ué? '')

Beijinhos!

Notas da Diu:

Vocês devem estar se perguntando o que eu to fazendo aqui, mas como mamãe disse ali em cima, ela revisou meio por cima o capitulo e me pediu uma mão pra dar uma lida melhor. Agora, eu é que peço que me desculpem por algum erro, assumo toda minha culpa! "

Ah, como é bom voltar a revisar o 13º! Tava com saudades! E vocês, leitores raivosos nem se preocupem que eu já to bolando um plano maquiavélico de tortura para essa autora maluca que não tem mais o que inventar, colocarei em prática assim que voltar de viagem! Hehe

Concordando com o Li e com minha mãezinha, eu também odeio esse tipo de festa... Eu adoro ir em festas, na verdade, mas é pra dançar e curtir com as minhas amigas... Faço das palavras da Miaka as minhas: posso parecer antiquada, mas sou eu!

Acho que é isso! Espero que gostem e até mais! Beijos!

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