- O 13º Guerreiro -

A Elite dos Doze

Parte VI

Sakura sentia seu coração doendo como se tivessem lhe esmagado e triturado por completo. Aquelas imagens que vieram em sua cabeça não eram de sua imaginação, ela sabia disso. Seus olhos não paravam de produzir lágrimas que escorriam rapidamente pelas bochechas da garota, chegando até o chão. Parecia que o mundo a volta dela tinha parado. Ela não escutava nenhum dos apelos de Kero, nem qualquer outra coisa.

Shoran havia beijado aquela garota, ele a tinha traído. Talvez ele não a amasse mais, talvez preferisse alguém que estivesse com ele todos os dias... O que sobraria dela se lhe tirassem Shoran?

A garota estava sem o controle das lágrimas que não paravam um segundo. A aflição e desapontamento que ela sentia eram demais para segurar. Chorou durante muito tempo no chão, encostada na cama. Agarrada ao ursinho cinza ela chorou até não conseguir mais.

Foi quando ela finalmente escutou a voz estranha de Kero a consolando. Ele tentava acalmá-la dizendo que chorar tanto não iria mudar o quer que tenha acontecido. E ele estava certo. Ela precisava saber por que Shoran fizera aquilo, e se ele não a amasse mais, era bom saber logo para não sofrer mais tarde.

Sakura (contendo as lágrimas): 'Vou pra Hong Kong, Kero. Custe o que custar.'


Shoran estava sentado em um dos quatro cantos do dojo, olhando para o céu nublado através da janela. Teria que ligar para ela e contar, ela iria entender que fora apenas um impulso, um desejo... Ou talvez não. Talvez ela não o perdoaria, e talvez ela não olharia mais para ele, talvez não confiaria mais nele.

Ele estava a um fio de perder a pessoa que mais amava. Por que teve que ser tão idiota? Por que teve que beijar Nai? Ele não queria perder Sakura, de maneira nenhuma. Mas também não poderia simplesmente ignorar o ocorrido e não contar para ela. Estaria errando pela segunda vez, e isso ele não queria.

Quando uma lágrima escorreu de seu olho, escutou a porta do dojo ser aberta. Enxugou-a rapidamente e viu quem era.

Meiling (encostada na porta): 'Nai me contou o que houve... Eu quase não acreditei.'

Shoran encostou a cabeça na parede, sem responder nada.

Meiling: 'O que vai fazer agora? Escolher uma delas? Ficar com as duas?'

Shoran: 'Não seja idiota, Meiling...Ficarei com Sakura, sem nem pensar sobre isso. O que eu fiz foi...'

Meiling (deduzindo): 'Um desejo? Atração?'

Shoran baixou a cabeça cobrindo-a com as mãos.

Meiling (se aproximando): 'Bom, eu acredito em você por que não sou sua namorada. Fazer Sakura se conformar com isso vai ser difícil...'

Shoran: 'Por que você acha que eu estou assim?'

Meiling (sentando-se do lado dele): 'Alguma coisa você vai ter que dizer para ela, e não vai mentir nada, nem esquecer de alguma parte. Vai falar sério, e de coração.'

Meiling disse como se o estivesse obrigando a fazer daquela maneira. E Shoran entendeu o recado, se falasse qualquer coisa que não fosse totalmente verdade, só pioraria as coisas.

Shoran: 'Vou fazer assim mesmo, Meiling, não se preocupe.'

Meiling: 'Espero que de tudo certo então. Quando pretende contar?'

Shoran: 'Não sei... Talvez eu convença minha mãe a me deixar ir para lá.'

Meiling: 'Hm... Está certo. Bom, mudando de assunto, os bolinhos estão prontos, não vai querer?'

Shoran: 'Não... Podem comer você e a Nai... Vou ficar aqui mais um tempo.'

Meiling (se levantando): 'Certo... Até mais...'


Sakura respirou fundo, melhorou a cara e desceu as escadas da casa.

Sakura (tentando sorrir): 'Olá papai! Precisava mesmo falar com o senhor.'

Fujitaka (lavando a louça): 'O que houve filha? Não parece muito bem...'

Sakura: 'Eh... Bom... Eu preciso ir pra Hong Kong o mais cedo possível.'

Fujitaka parou de lavar, secando as mãos com o pano de prato, enquanto se aproximava da filha.

Fujitaka: 'O que aconteceu, Sakura? Seus olhos estão inchados...'

Sakura (suspirando): 'Ah, papai... Não estou afim de falar disso agora. Eu só queria saber se há alguma maneira de comprar minha passagem...'

Fujitaka: 'Bem filha... Uma passagem internacional como essa é bem cara para nós... Acho que não teríamos condições de bancar, mas...'

Sakura (esperançosa): 'Mas...?'

Fujitaka: 'Lembra que eu e sua mãe fizemos uma poupança pra você logo quando nasceu? Acho que depois de tanto tempo você já tem um bom dinheiro guardado. Se for tão importante pra você ir para Hong Kong, posso tirar o dinheiro de lá e comprar sua passagem.'

Sakura (lacrimejando): 'Ai papai, nem sei como agradecer!'

Sakura abraça o pai com carinho.

Sakura: 'Mas... O senhor me deixa ir sozinha?'

Fujitaka: 'Kero vai cuidar de você. E ele não paga passagem.'

Sakura: 'Ah não... Mas tudo bem.'

Fujitaka: 'Pra quando seria essa viagem?'

Sakura: 'Hoje ou amanhã, o mais cedo possível!'

Fujitaka (sorrindo): 'Então vá arrumar sua mala que eu vou ligar para a companhia aérea.'

Sakura: 'Você é o melhor pai do mundo! Muito obrigada, nunca vou esquecer do que o senhor já fez por mim!'

Fujitaka: 'Você também já fez muito por mim, Sakura... Agora me prometa que vai se cuidar. E deixe o telefone da casa de Li.'

Sakura: 'Tá Vou arrumar as coisas!'

Sakura subiu correndo as escadas e contou a novidade para Kero. Nem ela acreditava como havia sido tão fácil. O bichinho de pelúcia ficou realmente espantado que ela iria mesmo para Hong Kong confiando apenas nas visões que tem. Mas ficou feliz que ele fora requisitado a ir junto.

Sakura (arrumando a mala): 'Eu tenho certeza que o que eu vi foi real, Kero. E se por algum acaso não tenha sido, eu já vou poder vê-lo de novo. De qualquer jeito essa viagem vai servir para alguma coisa.'

Kero: 'Não acredito que seu pai deixou você matar aula para ir pra lá mesmo sem saber o que você viu.'

Sakura: 'Papai é muito legal, ele entende essas coisas. Só o Touya que é muito complicado.'

Kero: 'Bom, eu ainda acho que você deveria ligar para ele primeiro.'

Sakura: 'E dizer o que? "OlàShoran! Tive uma visão de você beijando uma loira idiota. Estou indo aí tirar satisfações, chego às oito, OK?"? Sem chances, Kero... '

Kero: 'Vendo por esse lado, acho que você tem razão...'

Sakura: 'Eu sei o que eu faço, e chegando lá eu peço desculpas pra mãe dele por chegar assim, falo com ele e vou embora. Bem rápido. E outra coisa, você não vai ficar junto da gente.'

Kero: 'Está bem... Só por que dessa vez é coisa séria.'


Marck: 'Ahá Achei você... Já que não estava no seu quarto, só poderia estar aqui.'

Shoran: 'Dá o fora, Marck... To precisando ficar sozinho.'

Marck: 'Sou seu mestre, não fala assim comigo. Só eu posso te mandar dar o fora...'

Shoran (irritado): 'O que você quer?'

Marck: 'Nada em especial... Só estou um pouco entediado, vim conversar.'

Shoran: 'Pois vai continuar entediado.'

Marck (sorrindo): 'Eu acho que não... Pela choradeira da loira, o rosto triste de Meiling e essa sua dor de cotovelo, todo mundo percebe que alguma coisa aconteceu. Não quer falar sobre isso?'

Shoran: 'Nenhum pouco.'

Marck: 'Eu poderia ajudar...'

Shoran: 'Você tem uma máquina do tempo? Não. Então não pode ajudar. Cai fora sim?'

Marck: 'Já disse que só eu posso mandar você dar o fora... Bem, pelo que vejo está um bocado irritado além de triste. Tá afim de descarregar a raiva?'

Shoran vira o rosto na direção de Marck, o encarando pela primeira vez naquela hora.

Shoran: 'Como?'

Marck (sorrindo maliciosamente): 'Você sabe... Vou até te dar uma chance: vou usar só o braço esquerdo.'

Shoran mirou-o com um olhar de superioridade, apesar de saber que o mestre era mais forte. Levantou-se e estalou o pescoço, após observá-lo alguns instantes.

Marck (sorrindo de lado): 'Assim até parece que é forte... Bom, as regras são as seguintes: sem magia, sem truques, sem armas. Apenas eu e você até um dos dois cair.'

Shoran: 'Você fala demais.'

O chinês avançou sobre o mestre com uma raiva muito superior àquela que ele sentira na primeira luta dos dois. Shoran tinha raiva dele mesmo, raiva do que fizera. Agora ele nem pensava, apenas liberava o ódio em cima de Marck. Estava agindo como um bêbado que bebe para esquecer seus problemas. Uma pessoa assim fica feliz em quanto tiver um copo na mão. No caso de Shoran, enquanto durasse a luta, sua mente permaneceria no "piloto automático", e suas preocupações não estariam mais lá.

Como prometido, Marck lutava apenas com o braço esquerdo. Shoran tentava golpeá-lo a todo custo, mas sempre desviava de seus ataques. Após uma seqüência de ataques frustrados, Shoran recebeu um murro do mestre que o fez rolar pelo chão do dojo com o lábio sangrando.

Marck (estendendo o braço para que levantasse): 'Você caiu, a vitória é minha.'

Shoran se levanta e limpa o sangue que escorria de sua boca em seguida.

Marck: 'Vá dormir. Talvez sinta-se melhor amanhã.'

Mesmo sem acreditar que aquilo fosse possível, Shoran seguiu o conselho do mestre, retirando-se do dojo.


Fujitaka desligou o telefone, indo direto para o quarto da filha.

Fujitaka (depois de bater na porta): 'Próximo avião para Hong Kong sai amanhã de manhã. Já fiz sua reserva, Sakura.'

Sakura: 'Obrigada papai, você é um anjo!'

Fujitaka (se sentando): 'Agora que já resolvemos isso, e você parece mais calma, pode me contar o que te deixou tão desesperada.'

Sakura respirou fundo e contou ao pai sobre a visão que tivera. Disse que queria falar com Shoran pessoalmente sobre isso. Se ele não a quisesse mais, iria pelo menos saber logo. Mas disse também que acreditava que ele iria se arrepender do que fez, pois vira também o desamparo em que ele ficou depois do beijo.

Fujitaka (abraçando-a com carinho): 'Você vai ver que vai dar tudo certo. Se ele realmente gosta de você, ele vai se arrepender e fazer de tudo para você desculpá-lo. Se ele não fizer isso é por que nunca gostou realmente de você, e você não pode ficar triste por que algo que terminou se nunca começou.'

Sakura: 'Tomara que seja assim, pai...'


Shoran mal dormiu aquela noite. Sua mente não conseguia imaginar nenhuma maneira de conseguir falar com Sakura. Marck nunca o deixaria ir para Tomoeda resolver questões sentimentais, e sua mãe só aprovaria a idéia se Marck também o fizesse. Ele não podia simplesmente ligar ou mandar carta, era um assunto sério demais para ser tratado a distância.

Era muito cedo quando ele levantou da cama, arrumou-se e foi para o dojo. A imaginação do garoto bolava cenas dramáticas em sua cabeça. Sakura chorando desesperada, sem aceitar, jogando objetos na direção dele como nos filmes. E ele làsem poder fazer nada pois ela tinha toda a razão.

Parando de imaginar aquele tipo de coisa, ele decide treinar para ver se conseguia pensar em algo diferente. Entretanto, aquelas cenas voltavam inúmeras vezes, não o deixando se concentrar no exercício.

Algum tempo depois, Marck chega ao dojo, começando o treinamento físico daquela manhã.

Marck: 'Sei que não está muito bem, mas não vamos deixar o treinamento de lado por causa disso. Quero duzentas flexões agora.' (Marck diz dando ênfase no 'agora'.)

Shoran iniciou o exercício sem a mínima vontade.

Marck: 'Você faz mais rápido que isso, Shoran. Ande logo que não temos o dia todo.'

Shoran aumentou o ritmo, e assim que terminou foi obrigado a fazer mais cem. Marck o xingava por estar tão devagar, forçando-o a se esforçar mais. Mas mesmo assim, a namorada não lhe saia da cabeça, impedindo qualquer avanço.


O primeiro avião para Hong Kong do aeroporto de Tókio partia às oito horas da manhã. Sakura havia acordado bem cedo, assim como toda a família.

Touya: 'Ainda não estou acreditando que você está autorizando essa viagem maluca, pai... Não vê que a monstrenga está enlouquecendo, só isso?'

Fujitaka: 'Deixe ela ir Touya. Se ela permanecesse aqui, ficaria apenas mais triste. E o dinheiro é dela, se ela quer ir ela pode ir com certeza. E além do mais, perder dois ou três dias de escola não vão mudar muita coisa.'

Touya: 'Mesmo assim! Isso não é certo! Iria junto se não estivesse com um trabalho sério agora...'

Sakura: 'Ainda bem que apareceu esse emprego. Bom, você vai comigo no aeroporto, não é pai?'

Fujitaka: 'Sim, temos que acertar a passagem.'

Sakura: 'Então vamos?'

Fujitaka: 'Claro.'

Sakura: 'Vamos, Kero!'

O pequeno desceu voando as escadas, com uma pequena mala de alguma velha boneca de Sakura amarrotada de coisas.

Kero (empolgado): 'Juro pra você, Touya! Quando chegar lá vou acabar com aquele moleque!'

Touya (contente): 'Assim que se faz! E bate nele por mim também!'

Kero: 'Pode deixar.'

Sakura: 'Ninguém vai bater em ninguém lá... Anda logo e deixa de besteiras.'

Os três partem para Tókio, chegando ao aeroporto em pouco tempo. Lá Fujitaka trocou algum dinheiro para deixar com Sakura e deu uma série de recomendações. Eles se despediram e logo Sakura estava embarcando com Kero.

A garota acomodou-se na poltrona e aguardou a decolagem com Kero em seu colo, fingindo ser um boneco. Mais uma vez a cena do namorado beijando uma estranha lhe veio a cabeça. A vontade louca de chorar voltou, mas ela segurou-se, pois já estava a caminho de Hong Kong e tudo iria se resolver por lá. Ela respirou fundo e olhou pela janela onde a paisagem já se movia e logo ela estaria saindo do chão.

Poucas horas depois, a garota desembarcou no aeroporto de Hong Kong. Ao desembarcar, pediu um favor à aeromoça que estava lhe auxiliando por ser menor de idade. O favor consistia em orientar um taxista que caminho ele deveria seguir para chegar a mansão dos Li. A aeromoça aceitou com boa vontade e a levou até o ponto de táxi.

Com mais alguns minutos, Sakura chega à frente da mansão. Era bastante grande como ela recordava.

Kero: 'Toca logo no interfone pra a gente entrar e tirar satisfações com aquele moleque traidor.'

Sakura: 'Acalme-se, Kero. Seja educado com todo mundo, lembre-se que estamos chegando sem nenhum aviso.'

Sakura foi até o pequeno aparelho com câmera embutida perto do portão e tremendo levemente apertou o único botão. Uma voz feminina atendeu rapidamente. Sakura não entende nada da língua local, mas diz seu nome pois era o que imaginava que havia sido perguntado.


Era um escritório muito amplo onde Yelan Li lia e relia pilhas de papéis. Rabiscava algumas coisas, rasgava e jogava fora outras. Era a rotina cansativa de sempre, até ser interrompida por duas batidas na porta. Era uma das empregadas da casa.

Empregada: 'Senhora, tem uma garota chamada Sakura Kinomoto no portão, peço que entre?'

Yelan (se levantando sem acreditar): 'Sakura Kinomoto? Tem certeza que é esse o nome?'

Empregada: 'Sim senhora. É uma garota jovem, cabelos castanhos e...'

Yelan (interrompendo): 'Mande que entre e chame meu filho imediatamente. Peça que preparem um quarto de hospedes também.'

Empregada: 'Sim senhora.'

Yelan organizou um pouco o material em que trabalhava, tirando os óculos que usava para leitura. Em seguida, ela foi até o hall de entrada, já abrindo a porta da casa para que Sakura entrasse.

Assim que ela chegou dentro da casa, curvou-se pedindo mil desculpas por ter chegado sem aviso prévio. Disse que iria embora o mais rápido possível, só precisava conversar com Shoran e depois ela voltaria para casa.

Yelan: 'Visitas são sempre bem vindas. Pode ficar quanto quiser. Já mandei chamar Shoran, se quiser sentar um pouco, sinta-se à vontade.'

Sakura (sentando): 'Obrigada.'


Marck: 'Anda logo Shoran... Seu tempo está acabando e ainda faltam oitenta.'

Shoran (ignorando e parando o treino): 'Está sentindo isso?'

Marck: 'Isso o que?'

Shoran (deduzindo): 'Essa presença... Só pode ser ela!'

Shoran abandonou Marck e saiu correndo em disparada para a casa sem se preocupar em vestir uma camisa ou colocar os chinelos. Será que era ela mesmo? Continuou correndo e cruzou com uma empregada que tentou pará-lo para dizer algo, mas ele não deu ouvidos. Quando chegou no topo da escada que dava para o hall de entrada não acreditou. Lá estava ela, Sakura, sentada no sofá da sua sala. Ele desceu as escadas correndo, e para diante da sala.

Sakura levantou-se assim que o viu. Toda a cena que a atormentava, e o motivo pelo qual ela estava lá lhe fugiram na vontade de pular em cima dele. Mas não podia render-se àquele desejo. Agüentou firme onde estava.

Shoran (incrédulo): 'Sakura! Por que você está aqui?'

Sakura: 'Isso te atrapalha?'

Shoran: 'Não! De maneira nenhuma...'

Sakura (triste olhando para o chão): 'Eu vim para cá por que a gente precisa conversar...'

Kero: 'E você vai se ver comigo por ter feito o que fez! Você pode até conseguir se desculpar com a Sakura, mas a mim você não engana!'

Shoran simplesmente deu um tapa no animalzinho alado, que voltou rapidamente na sua forma original para revidar, se posicionando a frente de Sakura.

Kero: 'Estou falando sério, moleque! Você já fez a Sakura chorar e sofrer muito! Não vou mais permitir que faça isso com ela!'

Sakura (irritada): 'Pára, Kero! Eu vou conversar com ele e já disse para você não se meter nessa história. Você veio a pedido de meu pai para me acompanhar, não para estragar tudo!'

Yelan ainda estava no hall assistindo à cena. Pelo que podia ver o assunto que eles tinham para tratar era importante, e o guardião só iria atrapalhar. Decidiu que daria um jeito de deixá-los sozinhos.

Yelan: 'Shoran, aqui não é lugar para tratar de assuntos importantes. Mostre à Sakura onde será o quarto dela enquanto estiver aqui. Eu vou acompanhar Kerberus até alguém que eu quero que ele conheça.'

Shoran concordou e foi com Sakura em silêncio para o quarto.

Yelan acompanhou Kerberus pelo caminho até os fundo da casa, mas logo perto da porta encontrou quem procurava.

Marck (não entendendo nada): 'Senhora Li, o Shoran saiu correndo desesperado pra algum lugar e eu não o encontro!'

Yelan: 'Ele não vai treinar mais hoje, Marck. Mas trouxe Kerberus para lhe fazer companhia.'

Marck analisou o grande leão que agora estava com as asas recolhidas.

Marck (se abaixando e passando a mão na cabeça de Kero): 'Não sabia que a senhora tinha animais de estimação...'

Kero: 'Escuta aqui moleque, eu não sou nenhum animal de estimação!'

Marck: 'Que lindo! Ele fala! Onde a senhora o conseguiu? Veio de alguma dimensão paralela?'

Yelan: 'Kerberus é o guardião da mestra das cartas Clow, Marck. Ela é a namorada de Shoran e acabou de chegar na casa.'

Marck (ainda acariciando a cabeça de Kero): 'Ah... Entendi...'

Yelan: 'Espero que vocês se entendam, preciso continuar meu trabalho.'

Assim, Yelan deu as costas para os dois. Marck sorriu feliz para Kero, a verdade era que ele sempre quis um animal de estimação.

Marck: 'O que você gosta de fazer? Posso te conseguir um novelo de lã bem grande, um afiador de unhas e uma caixa de areia...'

Kero: 'Eu já falei que não sou nenhum animal doméstico, cara! Eu sou o poderoso guardião que protege o lacre das cartas e se você continuar me tratando como um gatinho eu acabo com você.'

Marck (sem dar ouvidos): 'Legal... Vou buscar uma tigela de leite! Fique aí, ou se quiser pode ir lá pra fora, tem um jardim bem grande... Só não pegue os passarinhos das gaiolas.'

Marck seguiu correndo pelo corredor, deixando Kero com uma enorme gota na cabeça. Quem aquele sujeito pensava que era para tratá-lo daquela maneira? Ele iria fugir dali antes que ele arranjasse uma coleira. Kero seguiu pelo corredor no sentido oposto ao que o rapaz havia ido, entrando em corredores e quartos diferentes.

Alguns minutos mais tarde Marck voltou ao lugar que estavam antes com a tigela, mas não encontrou Kero. Foi para rua e ele também não estava lá. Nada no dojo e o jardineiro não tinha visto nenhum leão passeando pelo quintal. Marck ficou preocupado, talvez seu novo bichinho estivesse com problemas.


Sakura e Shoran entraram no amplo quarto de hospedes. Uma empregada se retirou assim que eles entraram. A roupa de cama havia sido trocada, as cortinas haviam sido abertas e o banheiro organizado.

Sakura: 'Não precisava isso tudo... Nem sei se vou passar a noite aqui...'

Shoran: 'Claro que vai! Mal chegou já quer ir embora?'

Sakura (indo até janela): 'Eu não quero incomodar vocês, e além do mais estou faltando no colégio.'

Shoran (se aproximando): 'Uma semaninha não vai fazer diferença...'

Sakura (olhando a paisagem): 'Se eu fico uma semana aqui Touya me esgoela.'

Shoran (abraçando-a pelas costas): 'Será que antes da gente conversar sério a gente não podia matar um pouco a saudade?'

Sakura sente um arrepio percorrer as costas inteiras. Shoran beijava-lhe o pescoço carinhosamente. Ele a vira de frente pra ele, encostando seus lábios nos dela. Seria tudo maravilhoso se ela não soubesse que aqueles mesmo lábios que ela beijava haviam sido beijados por outra alguns dias antes.

Sakura (o empurrando de leve): 'Shoran eu não posso fazer isso sem conversar com você antes...'

Shoran (suspirando): 'Bem, eu também tenho que te falar algo, então... Acho melhor falarmos logo.'

Sakura (sentando na cama): 'Certo... Eu começo então.'

Shoran (sentando numa poltrona a frente dela): 'Pois comece.'

Sakura respira fundo pensando em como diria para ele. O importante era que ele iria escutá-la, a maneira com que ela falaria não era importante, por isso começou depressa.

Sakura: 'Bom... Ontem eu tive algo que nós podemos chamar de... Visão. Só que nada premonitório ou coisas assim, eu vi uma cena que deveria estar acontecendo naquele mesmo instante. E o que eu vi, Shoran, me deixou realmente triste, eu realmente não esperava isso...'

Shoran: 'O que você viu? Fala...'

Sakura (depois de suspirar): 'Eu vi você... Beijando uma garota.'

Shoran ficou sem reação. Então ela sabia tudo desde o início e viera até Hong Kong para falar sobre isso. Sakura esperava alguma resposta que não chegava, pois Shoran estava completamente zonzo com o que tinha ouvido. Sakura começou a chorar quase que imediatamente.

Sakura (entre soluços): 'Eu chorei um monte aquele dia, não querendo acreditar que aquela cena fosse real, mas eu sabia que era. Pensei que talvez você não me quisesse mais, ou que achasse melhor ter uma namorada perto de você...'

Shoran estava em estado de pânico interno. Ele via a namorada chorar por culpa dele, sem saber o que fazer. Se sentia um mostro por causar tamanho sofrimento na garota que mais amava.

Shoran (sem saber o que dizer): 'Sakura eu... Me desculpe...'

Sakura (ainda chorando): 'Por que você fez uma coisa dessas comigo, Shoran? Você sabe o quanto eu sofro por ter que ficar longe de você, mas eu agüento por que é para você realizar seu sonho! Só que ver você com outra eu não agüento de maneira nenhuma! E você tinha me prometido que nada aconteceria!'

Ele não agüentou ver a namorada se debulhando em lágrimas daquela maneira. Ele levantou-se e foi até ela, puxando-a pela mão para que se levantasse e o abraçasse.

Sakura (dando soquinhos no peito dele): 'Por que você fez isso, por quê!'

Shoran (após enxugar as lágrimas dela com as mãos): 'Você não vai mais precisar chorar por causa disso, Sakura. O que eu fiz foi um grande erro que vai me fazer sentir remorso o resto de minha vida. Eu apenas fiz o que fiz por que ainda sou um idiota imaturo que deixou os hormônios subirem à cabeça.'

Sakura (chorando copiosamente): 'Como você pôde quebrar sua promessa, Shoran? Como?'

Shoran olhou-a nos olhos e ela pode ver que ele também lacrimejava.

Shoran: 'Eu juro pra você que eu não queria... Juro pela alma de meu pai. Faz um tempo que eu não penso em outra coisa que não fosse você, estava ficando maluco! A única coisa que me passava pela cabeça era você, seu rosto, seus lábios, seus beijos... Aquela garota veio dizer que me amava, e meu corpo simplesmente se deixou levar por esse desejo carnal. Acredite em mim Sakura!'

Sakura (se afastando dele sem parar de chorar): 'Você acha que eu também não tenho vontade de beijar aqueles caras lindos que me convidam pra sair? Óbvio que tenho! Também passo horas pensando em você e tudo mais, mas não é por isso que eu vou beijar o primeiro que vier se declarar pra mim!'

Shoran: 'Você é mulher, Sakura! Não deve ser tão difícil se controlar.'

Sakura (não acreditando no que tinha escutado): 'Agora está virando machista, Shoran? Se você quer saber, pra mim deve ser muito mais difícil do que pra você! Eu freqüento uma escola e sou popular lá Já não sei mais quantos garotos dispensei! Eu vou em festas, vejo todos os meus amigos se divertindo com seus namorados ou ficantes! Eu imagino como seria bom se você estivesse làmas eu não substituí você por ninguém!'

Shoran permanece calado.

Sakura (baixando o tom de voz): 'Eu te amo Shoran... Eu preciso de você... Preciso mesmo. Mas nós não podemos ficar juntos. Eu me dispus desde o início a esperar por você... Se você acha que não consegue fazer o mesmo, tudo bem. Terminamos isso agora e nos falamos depois que terminar se treinamento.'

Shoran: 'Nem pense nisso, Sakura! Eu também amo você, e muito. Não ia conseguir ficar sem você... O que eu fiz foi um erro enorme. Eu sou humano, eu não sou perfeito! Eu cometi um equívoco, e prometo que não vou repeti-lo.'

Sakura: 'Você também prometeu que não ia acontecer nada e aconteceu.'

Shoran: 'Verdade, mas eu preciso que você me dê essa chance...!'

Sakura: 'Eu não sei se ainda confio em você, Shoran... Sabe quanto as promessas que fazem à mim são importantes. Você feriu meus sentimentos, e talvez demore algum tempo para eu voltar a acreditar em você como antes.'

Shoran: 'Eu imploro que você me dê essa chance Sakura... Não me abandone por favor! Juro que se não cumprir com minha palavra alguma outra vez na minha vida, eu desisto de tudo que tenho aqui e vou para Tomoeda ficar com você até o fim dos nossos dias.'

Sakura (se acalmando): 'Mais uma promessa que talvez não cumpra...'

Shoran: 'Droga, Sakura! Eu amo você mais do que tudo! Mas você está do outro lado do oceano! Me controlei por muito tempo, mas ontem eu não consegui! Foi a maior besteira da minha vida, mas aconteceu e agora eu já não posso fazer mais nada! A única coisa que eu posso fazer é te pedir desculpas...'

Sakura: 'Se ontem você não conseguiu, vai conseguir amanhã? É isso que me preocupa, Shoran... Se você não consegue se controlar não há por que continuarmos a namorar.'

Shoran: 'Eu consigo me controlar Sakura... E só não consegui essa vez! Eu juro que não vai acontecer de novo... Confie em mim!'

Sakura: 'Não sei, Shoran... Preciso de um tempo pra pensar nisso, está bem?'

Shoran baixa a cabeça triste.

Sakura: 'O que você tinha para me dizer era isso?'

Shoran: 'Sim...'

Sakura (indo até a pequena mala que havia trazido): 'Está bem.. Se quiser trazer o Kero pra cá pode trazer.'

Shoran entendeu o recado e dirigiu-se até a porta dizendo que se o visse o traria.

Sakura escutou a porta ser fechada a suas costas, e imediatamente novas lágrimas brotaram de seus olhos. Ela atirou-se na cama apertando o travesseiro fortemente. Por que aquilo tinha que estar acontecendo com ela? Ela queria perdoar Shoran, mas seu coração doía horrores só de pensar no que tinha acontecido. Talvez só o tempo a fizesse perdoar Shoran totalmente, e ela não o perdoaria se ele errasse de novo nem que ela ficasse com saudades dele até o fim de sua vida.


Kero andava pelos corredores da mansão, bisbilhotando os cômodos.

Kero: 'Mas que coisa chata essa casa enorme! Já nem sei mais voltar para onde estava...'

Finalmente Kero viu uma porta maior e mais bonita no final do corredor que o deixou bastante curioso. Abriu a maçaneta com cuidado, espiou para ver se estava vazia e entrou. Era um quarto enorme com um lustre magnífico preso ao teto. Ao centro uma cama com colchão de água digna de um rei. Mais ao lado um enorme sofá e mais a frente uma televisão gigantesca. Ao fundo uma porta tão bonita quanto a da entrada levava a um banheiro que Kero concluiu ser maior que o quarto de Sakura.

Tinha uma banheira de hidromassagem que cabiam até cinco Kerberus com folga. Sem pensar duas vezes o bichano virou as duas torneiras e começou a encher a banheira. Voltou para o quarto, se acomodando no sofàligando a televisão.

Assistiu à alguns desenhos animados da tv a cabo e depois voltou ao banheiro onde a banheira já estava cheia. Achou vários vidrinhos com sais e espuma para banho e despejou-os na água da banheira, entrando e ligando a hidromassagem.

Sentia-se no paraíso. Ele relaxou na banheira durante vários minutos, depois brincou com frascos de shampoo e por fim, finalmente deixou a banheira. Ele puxou o tampão e sai da água, se sacudindo logo em seguida, molhando o banheiro todo. Viu um roupão branco dobrado cuidadosamente sobre uma prateleira, e o vestiu sem pestanejar.

Saiu do banheiro e se atirou na cama que sacudiu parecendo uma bolha gigante. Deu alguns pulos e terminou por adormecer por ali.


Shoran entrou em seu quarto batendo a porta atrás de si. Por que tudo tinha que ser tão complicado? Teve vontade quebrar o quarto todo, e jurou que se Marck aparecesse por ali quebraria a cara dele. Não que ele tivesse algo a ver com o assunto, mas sabia que com o mestre isso não era um problema. Assim que pensou nisso, o dito cujo bateu à porta.

Shoran (se segurando) : 'O que quer dessa vez?'

Marck (segurando uma tigela de leite): 'Sabe onde está Kerberus?'

Shoran: 'Não, não sei.'

Ao dizer isso Shoran bateu a porta. O que ele queria era voltar lá para onde Sakura estava e escutá-la dizendo que o perdoava. Mas não havia passado nem dois minutos que havia a deixado pensando sobre o assunto. Aquela expectativa o estava deixando maluco. Sua sanidade mental estava dependendo da resposta de Sakura.


Yelan finalmente terminou de organizar a enorme pilha de papéis em seu escritório. Cansada, pediu para que ninguém a incomodasse e subiu para o seu quarto. Chegando ao fim do corredor achou estranho a porta estar aberta, pois sempre a mantinha fechada.

Entrou cautelosamente e não acreditou no que viu. Kerberus estava deitado na sua cama, vestindo o roupão italiano caríssimo de Shang. Ela o guardava com todo cuidado pois o falecido o adorava e, embora já tivesse sido lavado inúmeras vezes, Yelan continuava sentindo o perfume do marido.

Quase entrando em desespero pelo que via, tinha vontade berrar e expulsar o guardião do quarto. Mas ela não podia, era uma senhora séria e de classe, deveria agir como tal: chamaria outro para fazer isso por ela.

Yelan: 'MARCK!'

Marck, que procurava por Kero tentando atraí-lo dizendo "Psss psss! Aqui gatinho...!", correu imediatamente em direção à senhora.

Marck (tomando cuidado para não virar o leite): 'O que aconteceu? A senhora está bem? Parece um tanto exaltada...'

Yelan (apontando o quarto com a cabeça): 'Veja você mesmo.'

Marck entrou no quarto e também não acreditou no que via. Imediatamente foi a até a cama, deixando a tigela de leite ao lado.

Marck (o cutucando para que acordasse): 'Então era aqui que você estava, procurei você pela casa toda... Trouxe seu leite.'

Kero levantou a cabeça sonolento, e ao escutar a palavra "leite" percebeu que seu estomago estava vazio, assim deu uma longa espreguiçada e se dirigiu até a tigela.

Marck: 'Ele não é um amor? E com esse roupão está uma graça. Sabia que adoro gatos, Sra. Yelan?'

Yelan (irritada): 'Marck! Este é o meu quarto, e este simples roupão do que esse bicho está vestindo é uma das coisas mais importantes que eu tenho!'

Kero nem tinha notado a presença de Yelan no cômodo, e assim que a viu percebeu que estava encrencado.

Marck: 'Ele é apenas uma criatura inocente, Sra... Não sabe o que faz.'

Yelan: 'Não importa se ele sabe ou não sabe, quero que você o tire daqui imediatamente!'

Marck: 'Parece que ela não gostou muito de você, Kero... Vamos lá pra fora sim?'

Kero (tirando o roupão e o atirando na cama): 'Está bem...'

Os dois se retiraram do aposento sob o olhar fuzilante de Yelan. Assim que saíram, ouviram o forte baque da porta sendo fechada.

Marck: 'Falei pra você ficar lá...'

Kero: 'Pra você me tratar feito um gatinho? Sem essa...'

Marck: 'Mas olha a encrenca em que você se meteu! Acho que a Sra. Yelan não gosta nem que Shoran entre sozinho no quarto dela, quem dirá você.'

Kero: 'Eu ia saber que aquele era o quarto dela?'

Marck: 'Por isso que não devia ter saído pela casa. Bom, vamos pro meu quarto agora.'

Os dois seguiram alguns corredores e chegaram ao quarto de Marck, onde Kero deitou sobre um grosso tapete peludo e continuou sua soneca enquanto o rapaz lhe fazia um cafuné no pescoço. Marck sorriu ao escutar Kero ronronando.


Era uma manhã como outra qualquer na pequena fortaleza em que viviam os cinco guerreiros. Quatro deles curtiam a monotonia do local, saindo do prédio de tempos em tempos para observar o nada que havia ao redor.

Satori Genai era um deles. Homem grande e carrancudo como Kojiro, porém preferia ficar em casa fazendo o almoço a sair para as guerras. Shinai Tsukuma, seu companheiro no tédio do momento, era um sujeito feliz que passava o dia todo lendo histórias em quadrinhos.

Era uma tarde como outra qualquer, em que o pequeno Whan Long dormia rodeado de almofadas, livros, doces e uma grande jaula de aço reforçado e um escudo de magia. Quem o olhasse, diria que estavam judiando do garoto, afinal, aparentando apenas nove anos, o que poderia fazer?

Shinai soltou uma gargalhada alta ao virar a página da revista. Logo foi repreendido por Satori. O pequeno estava dormindo e não seria bom acordá-lo.

Shinai: 'Eu sei, eu sei... Mas não deu pra resistir!'

Satori apenas suspirou e voltou sua atenção ao garoto que dormia confortavelmente. Fazia um ano que eles haviam sido resignados por Kyle para impedir que Whan Long fizesse besteiras, e também discipliná-lo. O problema era que Whan ainda era uma criança, e pior, uma criança rebelde e mimada.

O carrancudo sorriu ao pensar se aquela criança fosse incomodada, mataria todos eles. Tão pequeno e com tanto poder sem controle, apenas um Long podia isso.

A pequena criança começou a se mexer durante seu sono, e acidentalmente bateu de leve a cabeça em uma das barras da jaula, despertando.

Whan Long tinha aparência de um garotinho normal. Talvez fosse até um pouco magro demais, mas nada preocupante. Tinha os cabelos escuros, e apenas o que lhe diferenciava eram o par de olhos de gato amarelos.

Satori (cauteloso): 'Já acordou, pequeno Whan? Quer comer alguma coisa?'

Whan não respondeu, apenas se levantou colocando as duas mãozinhas nas barras de aço, lançando um olhar amedrontador para Satori.

Satori: 'O que houve? Quer ir ao banheiro?'

Whan: 'Não, eu quero mais que isso.'

Satori: 'O que quer? Garanto que nós damos um jeito de conseguir pra você.'

Whan (falando mais alto): 'Por que tenho que ficar enjaulado! Odeio esta jaula.'

Satori: 'Por quê? Ahn... Por que...'

Whan: 'Se não querem que eu aja como um monstro não me tratem como um!'

Até mesmo Shinai parou de ler para ver a alteração de Whan.

Satori: 'Acalme-se, Whan... Você sabe que não temos...'

Whan (interrompendo): 'Vocês todos ficam aí o tempo todo fazendo o que bem entendem! Acham que bom ficar aqui dentro? Não, não é! E agora eu me irritei com essa história! Vou embora, vou pra perto e Kyle que é o único que me respeita!'

Satori (se levantando): 'Pare Whan! Você sabe que nós não vamos deixar você sair! Foi o próprio mestre Kyle que mandou nós cuidarmos de você, ele que mandou vivermos afastados da Elite, tudo o que fazemos é ordem dele... Respeite as decisões do mestre!'

Whan Long pareceu chocado ao ouvir aquilo. Fora Kyle que o criara desde bebe, ele o considerava seu criador, seu pai. Mas agora, ele se revelara ser na realidade seu carcereiro, a pessoa que o mantinha preso, o tratando como um monstro. Era mesmo um homem falso que tinha lhe traído, iria acabar com ele.

Os cabelos e vestes do garoto começaram a se movimentar, enquanto uma aura vermelha e cheia de ódio começava a aparecer. Satori arregalou os olhos, e gritou para que Shinai chamasse os outros. Whan, que ainda tinha suas mãos sobre as barras de ferro, fez com que elas esquentassem tanto que ficaram vermelhas, se transformando em lava, corroendo o chão de pedra da casa.

Satori estava assustado, mas precisava fazer algo. Começou a alimentar a barreira que havia depois da jaula com suas forças para que ficasse mais forte, até um ponto que ela ficara de um tom azul brilhante.

Whan tinha o rosto sério, olhos fechados, completamente envolto pela aura que apenas crescia. Satori sabia que por mais poderosa a barreira que ele fizesse, não iria segurá-lo, mas ele deveria evitar a todo custo um combate.

Shinai apareceu novamente sozinho na sala, dizendo que os ventos já haviam levado a mensagem, e que logo Thiago e Adraã estariam lá. Logo em seguida começou a fazer a mesma coisa que Satori, fortificando ainda mais a barreira.

Ela se tornou tão poderosa que não tinha cor definida. Parecia ter uma textura gelatinosa com manchas de várias cores brilhantes que iam se modificando.

A aura vermelha e odiosa de Whan triplicara quando o garoto abriu os olhos e um raio vermelho intenso saiu de suas pupilas, neutralizando sem dificuldade a barreira, e atingindo Satori de raspão na perna. Se ele não tivesse corrido estaria com um buraco na barriga. Em seguida, Whan produziu fogo com as mãos atirando enormes bolas ferventes em Satori, que dessa vez, por causa do ferimento, não conseguiu fugir.

Shinai pulou sobre do garoto com uma espada que o pequeno fez derreter apenas com a aproximação do seu corpo. Deu um tapa no que restou da espada, e colocou a outra mão na barriga de Shinai, queimando e abrindo-lhe a pele.

Whan Long abandona os dois na sala e saiu da casa. Finalmente ele estava podendo ver a luz do sol novamente. Um par de grandes asas de dragão abriu-se em suas costas e ele as esticou como se espreguiçasse depois de muito tempo parado. Em pouco tempo estava voando no céu em direção da mansão que abrigava o resto da Elite dos Doze.

O garoto voava rapidamente pelo céu claro. Quanto mais rápido voasse, mais rápido lutaria contra o homem falso em que ele antes acreditava. Whan sentiu que o céu estava começando a ficar agitado. Ventos fortes começaram, e um enorme tufão o atingiu, fazendo-o girar e cair no chão.

Thiago e Adraã haviam chegado, aquele era um dos ataques do árabe. Quando o garoto se ergueu do chão abrindo suas asas novamente, Thiago soube que ele não iria parar.

Thiago: 'Por que está agindo assim, Whan? O que deu em você!'

Whan: 'Vocês me tratam como um monstro, então um monstro é o que eu vou ser!'

Após dizer isso, atacou com os raios vermelhos saídos de seus olhos novamente. Os dois desviam habilmente, mas quando menos esperava, Whan percebeu que Thiago segurava seus braços para trás. O garoto tinha o corpo de uma criança pequena, não tinha muita força física, mas podia aquecer seu corpo de modo que tudo que tocasse se transformasse em lava.

Thiago sentiu suas mãos começarem a queimar e, imediatamente, começou a recitar algum tipo de feitiço. Assim que terminou, o corpo de Whan Long começou a congelar, a partir das mãos que Thiago segurava.

Com o garoto imobilizado, Thiago se afastou e o observou.

Adraã: 'Não acho que isso vá bastar.'

Thiago: 'Eu tenho certeza que não vai, mas esse gelo é muito sólido, temos algum tempo para avisar os outros. Mande uma mensagem pelo vento, diga que ficaremos aqui tentando segurá-lo por algum tempo.'

Adraã: 'Certo.'

Adraã juntou as mãos e começou a murmurar algo parecido com uma reza no idioma dele. O vento passou a circulá-lo rapidamente. Ele ergueu os braços para cima e o vento que o circulava subiu, sumindo no céu que agora estava calmo.

Adraã: 'Kanon deve perceber a mensagem em alguns instantes.'

Thiago: 'Ótimo. Agora vamos segurar esse garoto por aqui. Faça o que fizer, não morra.'

Adraã: 'O mesmo pra você.'


Kyle finalmente estava vivendo um dia em sua vida em que não estava preocupado com nada. Koriny estava quieta no seu canto, não havia mais gritos dos irmãos Mcguarie enchendo a mansão de ruídos, e o treinamento do jovem Li ia às mil maravilhas. Se Kojiro e Kanon não estivessem na mesma sala que ele, ele se esparramaria no sofá e dormiria o dia todo.

Kojiro (de saco cheio): 'Não agüento mais esse lugar. Por que não podemos ir para outros lugares como Sinita, Gahfin, ou até mesmo Fogth? Grandes povoados vivendo uma batalha constante, uma guerra sem fim! Seria muito melhor travar batalhas, montar estratégias, devastar exércitos, sentir a adrenalina correndo no sangue! Mas não!Temos que ficar por aqui, fazendo nada.'

Kyle: 'Aprenda a se divertir com o silêncio, Kojiro... Um dia vai aprender que viver em paz é melhor do que toda essa ação.'

Kojiro (cruzando os braços): 'Tomara que eu nunca aprenda.'

Kyle se aborreceu um pouco, mas já estava acostumado com as reclamações do companheiro. Sentado na confortável poltrona, Kyle começou a fechar os olhos, conforme o sono ia lhe tomando conta. O ruído do vento batendo à janela era o único barulho da sala, o que a deixava ainda mais aconchegante. Porém foi obrigado a deixar aquela tranqüilidade quando Kanon abriu a janela, deixando uma ventania intensa entrar na sala.

Kanon (se voltando para o mestre): 'Adraã e os outros estão com problemas.'

Kyle se levantou num pulo, olhando assustado para o grande centauro.

Kanon: 'Whan Long se irritou e fugiu. Eles não sabem como Satori e Shinai estão, e ele e Thiago vão segurá-lo por lá enquanto nos preparamos.'

Kyle (irritado): 'Era só o que me faltava! Estava tudo tranqüilo demais... Tem idéia de onde Whan quer chegar?'

Kanon: 'Eles estão ao sul da casa, se Whan continuar na direção que começou vai chegar aqui em Hong Kong.'

Kyle: 'Droga... O será que ele quer?'

Kojiro (batendo os punhos): 'Bom, temos alguns milhares de inocentes correndo perigo de serem queimados vivos... Quando começamos a lutar?'

Kyle lançou um olhar a ele de intensa reprovação quanto àquela atitude. Kojiro abaixou a cabeça e deixou da sala de fininho.

Kojiro: 'Vou chamar os outros.'

Em instantes os outros três integrantes restantes da Elite estavam no aposento, escutando a situação.

Kyle: 'Todos devem saber que aquele garoto voa mais rápido do que Thiago ou Satori podem correr. Precisaremos pegá-lo antes que chegue à ilha. O plano é apenas aprisioná-lo novamente. Apesar de um tanto problemático, Whan Long é um de nossos companheiros. O plano é colocá-lo dentro de uma barreira totalmente indestrutível, para que eu possa acalmá-lo.'

Koriny: 'Não é esse o pivete que tem um poder que destrói qualquer barreira que alguém possa fazer?'

Kyle: 'Ele mesmo.'

Koriny: 'Então por que o plano é fazer uma barreira? Depois dizem que você é o cérebro da elite...'

Kyle: 'Eu sei o que estou fazendo, Harima. Agoran, Kanon, preciso que reúna um bom grupo de centauros poderosos.'

Kanon concordou, fazendo um feitiço rapidamente que abriu um portal dimensional por onde o grande centauro entrou e sumiu.

Kyle: 'Kou, comece agora o mantra para invocar a maior quantidade de espíritos que puder, e chame qualquer alma ainda disposta a usar magia pelo mundo dos vivos.'

Kou: 'Vou precisar de algum tempo para isso senhor.'

Kyle: 'Tudo bem, desde que o faça.'

O velho índio se recolheu para um salão que havia na casa. Com uma pequena faca ele fezz um corte em sua mão. Com o sangue começou a escrever o mantra no chão em letras grandes. Precisaria escrevê-lo todo no chão para depois invocar os espíritos.

Na sala, Kojiro aguardava sua missão ansiosamente.

Kyle: 'Você, Kojiro, irá até a mansão Li buscar Marck. Chegue lá escondido, não deixe ninguém ver você. A última coisa que precisamos é que o garoto Li descubra isso e decida vir junto.'

Kojiro (desapontado): 'Por que eu fico com a tarefa mais inútil?'

Kyle (irritado): 'Você pode usar o teletransporte, é muito mais rápido pra esse tipo de coisa. Agora vá e não discuta.'

Kojiro foi muito a contra gosto. Kyle estava muito alterado. Como um dia tão perfeito como aquele poderia ter se tornado tão terrível?

Kyle (respirando fundo): 'Koriny, ajude Thiago e Adraã a detê-lo mais um pouco e Josh, siga até a casa e veja como Shinai e Satori estão. Cuide deles, e apareça se estivermos com problemas.'

Josh concordou como o esperado, mas Koriny obviamente tinha que reclamar de algo.

Koriny (sarcástica): 'E você, Kyle? Vai ficar aqui nos vendo lutar?'

Kyle (sério): 'Não. Eu vou reunir alguns dos homens mais poderosos que conheço. Preparem-se, pois a Elite dos Doze precisará de ajuda.'


N/A: Oláááá Espero que agora a listinha das pessoas que queriam me matar diminua um pouco XDDDD Mas e aí? Gostaram? - Espero q sim!

Queria agradecer a Miaka q revisou o cap mas não deixou nenhuma nota dessa vez! Brigada! o/

Até o próximo capítulo e não deixem de visita o www(ponto)13guerreiro(ponto)cjb(ponto)net! Beijããão