CAPITULO QUATRO - ARREPENDIMENTO

Chase tomava um café olhando uma velha revista médica. A lanchonete do hospital estava vazia. Algumas enfermeiras entravam e saiam, o olhavam com o rabo-de-olho sorrindo e tentando lhe chamar a atenção.

Andréa entrou, andando até o balcão, pedindo um café.

Ela viu Chase tão concentrado na sua leitura que nem notou que ela tinha entrado.

Ela pegou a xícara de café, efetuando o pagamento e seguindo até a mesa dele.

- Hey, lindo!

Chase levantou a cabeça e viu Andy, sorrindo pra ele.

- Oi. – ele a cumprimentou, fechando a revista. – Como estão as coisas?

- Bem, e você?

- Bem. – ele a imitou.

- Aconteceu algo que me deixou encucada. – ela disse.

- O que foi? – ele perguntou bebendo o café.

- Dra. Cameron...

Chase ao ouvir o nome de Cameron prestou atenção.

- ... me deixou preocupada.

- Por que? – agora ele se preocupou.

- Ela foi fazer uma tomografia com você?

- Foi sim mas por que, Andy? – ele perguntou, sem entender.

- Antes dela ir até você, nós a encontramos aos prantos na sala de reunião.

Chase arregalou os olhos.

- Como é?

- É, nós perguntamos, e ela disfarçou. Por acaso seu chefe a ofendeu, humilhou, sei lá?

- Não que eu saiba. – ele respondeu. – Que eu saiba, só estava...

O Pager de Andréa bipa. Ela atende.

- Foreman. Tenho que ir. Fale com ela. Eu nem a conheço, mas ao ver ela daquele jeito me deixou triste.

- Claro. – ele respondeu, vendo-a sair.

Chase começa a pensar.

Foi logo depois que ele saiu? Por que ela estaria chorando?

XXX

Chase encontrou Cameron sozinha no laboratório. Ela parecia triste ou abalada. O que teria acontecido?

- Oi. – ele disse.

Ela se vira para ele, e respondeu:

- Oi.

- Cameron... é... aconteceu alguma coisa?

Ela levantou as sobrancelhas.

- Não, por que?

- Me disseram que você estava chorando. House fez alguma coisa?

Droga, maldito Foreman! Maldita boca grande!

- Não. House não me fez nada.

- Então, por que estava...

- Por nada, Chase. – ela o interrompeu.

- Foi depois que eu sai. Foi por algo que eu disse? – ele perguntou, preocupado.

Ela suspirou. Você jamais entenderia.

- Você se sentiria muito orgulhoso se eu dissesse que sim?

- Orgulhoso?

- Por ter me feito chorar.

- Cameron...

- Relaxa, Chase. Não foi nada. Só estou... cansada. Só isso.

Ela não poderia dizer pra ele. Ainda não. Mas também saber o que? Que ela estava confusa por não discernir o que sentia?

- Quer beber algo mais tarde? – ele perguntou.

Ele sabia o que estava fazendo. Por mais que a companhia dela doesse, não podia deixá-la daquele jeito. Ela parecia triste e parecia estar sofrendo.

Ela levanta as sobrancelhas. Ele a estava chamando pra sair?

- Não se preocupe. Foreman também vai.

- Claro. Por que não? – ela o olhou, e viu aquele olhar doce que ele sempre teve. Que ele sempre lhe deu. – Como nos velhos tempos.

- É. – Chase disse, lhe dando um sorriso que fez o coração dela disparar. - Como nos velhos tempos...

XXX

Por volta de sete horas, Chase atravessou o corredor, andando na direção da sala de reuniões. Trazia resultados de exames para entregar a House. Chegando lá a sala estava vazia. Tanto a de reuniões como a de House.

Encontrou Wilson no caminho.

- Wilson, viu o House?

- Já foi embora. – ele respondeu, indo pra sua sala.

- Tá certo. – Chase murmurou, entrando na sala de House, deixando a pasta em cima da mesa.

Chase vê num canto um piano. O piano do chefe.

Sentiu uma vontade imensa de tocá-lo. Será que conseguiria depois de tantos anos?

Sentou, e sentiu as teclas geladas nas pontas dos dedos.

Sorriu, feliz. Lembrou que tocava para David há alguns anos atrás. Ele adorava, ria feliz ao ouvir a voz grave com sotaque dele

Começou a tocar, deixando a melodia encher a sala.

Cameron andava até a sala de reuniões e ouviu o som do piano.

House ainda não sabe que é um médico.E não um pianista.

Ao se aproximar do vidro, viu que não era House, era Chase! Ele tinha os olhos fechados, e tocava com perfeição.

Tentou fazer com que ele não a visse, e ficou somente ali parada o observando, tocar.

Ele parecia tão sereno, tão calmo.

E então ele começou a cantar.

- "What if there was no lie/Nothing wrong, nothing right/ What if there was no time /And no reason or rhyme /What if you should decide / That you don't want me there by your side /That you don't want me there in your life".

Chase percebeu que cantava pensando em Cameron. Como aquela letra dizia exatamente o que seu coração transbordava!

- "What if I got it wrong/ And no poem or song/ Could put right what I got wrong/ Or make you feel I belong/ What if you should decide/ That you don't want me there by your side/ That you don't want me there in your life."

Cameron fechou os olhos e escutava a voz de Chase como se nada mais fizesse som naquele hospital. E sabia que aquelas palavras saiam do seu coração. Que aquelas palavras não podiam significar outra coisa. Que aquilo era pra ela. Sobre ela.

As lágrimas voltavam a lhe cair. Aquela dor voltava a doer.

Oh, Deus, o que ela tinha feito?

- "Oooh, that's right/ Let's take a breath and jump over inside/ Oooh, that's right/ How can you know it, if you don't even try?/ Oooh, that's right."

- Cameron? – ela sentiu uma mão no seu braço. – O que houve?

Cameron olhou Wilson a olhando preocupado.

- Wilson!

Ele a viu com os olhos vermelhos e a emoção estampada no seu rosto.

- Você está bem?

- Estou. Viu o House?

- Ele já foi. Nossa, - ele se surpreendeu ao ver Chase pelo vidro. – Não sabia que ele tocava. Você sabia...?

Ao se virar pra ela, viu Cameron entrando na sala de reuniões.

Ele deu um leve sorriso, ao perceber que as lágrimas dela e Chase tinham alguma coisa em comum.

- Acho que sou obrigado a fazer alguma coisa... – ele murmurou pra si mesmo.

XXX

Cameron entrou no bar lotado que tinha marcado com Foreman e Chase e os encontraram lá com Andréa e Parker, o novo intensivista que Foreman tinha contratado.

Ela se aproximou e viu que o grupo ria animado.

- Cameron! – Foreman gritou. – Até que enfim! Achei que não viria.

- É. Tive que esperar sair uns exames da patologia. – ela não poderia dizer que tinha ficado no hospital até tentar organizar sua mente. Colocar suas emoções no lugar.

- Hey, Cam, esse é Parker, vai trabalhar comigo e Andréa.

- Como vai? – o rapaz negro e altíssimo a cumprimentou.

- Allison Cameron. – ela disse, esticando a mão.

- Adam! – gritou Chase, visivelmente bêbado. – Manda umas garrafas aqui!

- Chega, Robbie! – pediu Andréa.

- Não, acabamos de chegar. Manda uns amendoins também. Manda todo o tipo de petisco que você tiver ai.

- Claro, doutor! – o bartender gritou.

- Manda umas tequilas também! – ele gritou novamente

Cameron o observava, e chacoalhava a cabeça.

- Vocês estão aqui há dez minutos e já estão bêbados? – ela questionou.

- Só um pouco. – disse Foreman, feliz.

Cameron se senta e Chase grita para Adam pedindo outro copo.

- Não quero beber, Chase. Alguém tem que estar sóbrio aqui.

- Relaxe. – Chase disse, enquanto Adam enche um copo de uísque e empurra para Cameron. – Hey, Adam, deixe a garrafa aqui.

Cameron e Foreman trocaram olhares.

- Não imaginava que você bebia tanto. – disse Foreman.

- Tem muita coisa que você nem imagina sobre mim, amigo. – disse ele, esvaziando um copo.

- E aí Andréa, quer dizer que vocês foram namorados de faculdade? – perguntou Foreman.

Ela assente com a cabeça.

- Três anos. – disse Chase.

- Lembra das férias em Paris? – ela riu lembrando.

Chase ainda bebendo, ri junto.

- Grandes férias, Andy, passamos três dias num quarto de hotel!

- Bem, não lembro de ouvir você reclamar. – ela lhe deu uma leve cotovelada, dando um sorriso malicioso.

Foreman e Parker riem junto.

Cameron começou a ficar incomodada com aquilo. Seu estomago revirou. Não estava muito a fim de saber as intimidades do passado.

A dor voltava a bater. A sensação de queimação no estômago também.

- Você ainda toca piano? – Andréa perguntou a Chase.

Todos o olharam.

- Não. Não mais.

- Como não? Robbie era fantástico. – ela disse para os outros.

- Não, não era. – ele disse, envergonhado.

- Era sim. – Andy o defendeu.

- Antes eu tinha uma platéia. – Chase tentou explicar. - Na verdade, uma única pessoa na platéia, agora não tenho mais. Não tenho mais vontade de tocar, Andy.

- Não foi o que eu vi. – Cameron disse.

Ele a olhou nos olhos.

- Eu vi você tocar agora pouco na sala do House. Foi lindo. Jamais soube que você tocava. – ela lhe disse sem piscar.

Ela e Chase trocaram um olhar cúmplice. Como se aquele momento em que ela o viu fosse único. Fosse só deles.

Como se ela soubesse que aquela musica era pra ela, sobre ela. E que ele sabia que ela sabia.

Andréa observou os dois e sorriu. Era ela. Ela era quem tinha o machucado tanto.

Tão longe, tão perto...

- Foi lindo... – ela sussurrou novamente.

- Obrigado. – ele disse, sendo sincero.

XXX

Umas duas horas depois, Andréa e Chase andavam na calçada, de braços dados voltando pra casa.

- Você realmente não quer dormir aqui? Meu sofá é enorme.

Chase gargalhou.

- Não. Eu vou pra casa. Vou pegar um táxi mesmo.

- Tudo bem, então... – ela ao menos tentou. Eles voltaram a andar. O vento gelado fez o cabelo de Chase se espalhar todo. – É ela, não é?

- Quem? – Chase não entendeu.

- Dra. Cameron. Ela é sua garota. A garota que não te quer.

Chase parou e se virou para ela. Ficou em silêncio, apenas a olhando.

- Eu vi como você olha pra ela. É horrível. Tê-la tão perto.

Chase suspirou.

- Sabe de uma coisa? – Andréa disse. – Não perca a esperança. Talvez ela perceba que você é a coisa mais incrível que tenha aparecido na vida dela.

Chase riu.

- Quando, Andy? Quando?

- Não sei. Mas te digo uma coisa. Eu sei que sou um pouco suspeita pra falar, sempre tive relacionamentos fracassados, mas... eu vi algo no olhar dela, que me diz que você ainda tem chance.

- Acho que não. Amar alguém não é suficiente para despertar o amor, Andy. Cameron não vai me amar, assim, subitamente. Se mesmo depois do que nós tivemos, mesmo depois de tanto tempo que nós nos conhecemos, ela não me amou, não me quis... duvido que ela o faça agora.

- Nunca duvide do amor, Robbie. O amor pode brotar de onde você menos espera.

Chase riu.

- Obrigado, Andy. Você realmente é única.

Ela sorriu, tímida com o elogio, e esticou o braço no momento em que passava um táxi.

Chase riu.

- Tá tão doida pra me ver pelas costas?

- Estou. Você está bêbado demais pra ficar andando por aí. – ela abriu a porta e Chase entrou. – Boa noite, querido. Pensa no que eu disse.

- Vou pensar.

O táxi acelerou.

Chase se acomodou no banco, passando as mãos nos cabelos, tentando evitar o pensamento.

Não perder a esperança. Puff! Que bobagem.

Não vai adiantar nada, mesmo se eu quisesse.

Só vai doer mais. Só vai piorar a minha situação, se eu ficar remoendo isso noite após noite.

Chega. Chega. Acabou agora. Não vai ter mais Cameron!

Acabou agora. Vou levantar a cabeça, trabalhar duro e esquecê-la.

Agora. Agora mesmo!

XXX

Cameron olhava para seu próprio reflexo no espelho.

Baixou os olhos e viu uma foto sua com seu falecido marido num porta-retrato.

Como tinha ficado tão inflexível? Tão dura, insensível e indiferente?

Ela tinha que admitir que tinha se tornado uma pessoa difícil demais. Que não parecia mais a pessoa que costumava ser.

Fechou os olhos e lembrou de Chase.

Chase tinha se tornado mais importante pra ela do que ela pensava. O tempo que passaram juntos foi incrível. Foi precioso.

Então por que ela fugia dele como o diabo foge da cruz? Por que tinha medo de se aproximar, medo de se envolver?

Ah, não. Tudo se resumia àquilo? Medo?

Era medo, medo sim. Medo de tê-lo. Tê-lo e perdê-lo. Assim como teve Matthew. Assim como o perdeu.

Não podia deixar as coisas continuarem assim.

Não podia ver Chase tão triste daquele jeito. Precisava vê-lo como era antes. Quando estavam juntos.

Juntos? Quando foi que eles estiveram juntos?

Fechou os olhos, e começou a lembrar dos momentos que tiveram. De todas as vezes que passaram a noite juntos no seu apartamento. Lembrava do seu cheiro, do seu gosto, do seu sorriso. De como ele a fazia chegar as alturas só com um único beijo.

Suspirou. Ah, que beijo!

Uma saudade suprema lhe abateu. Sentia tanta saudade que doía.

Sentir saudade era um sentimento. Chase não podia culpá-la de não sentir nada.

E aquela sensação era terrível.

Tinha tomado uma decisão. Não ia mais se esconder numa casca. Ia deixar as coisas acontecerem. Por que fugir agora? Aquela dor voltava sempre. E o remédio era estar bem com Chase.

Era tê-lo próximo. Será que assim toda aquela sensação terrível de abandono iria embora?

XXX

N/A: Gente, tomei um puta susto quando escutei a musica que Chase toca. Fiquei até assustada de como era tão incrivelmente identificável com o relacionamento de Chase e Cameron. Pra quem não sabe, (acho que quase ninguém, afinal não é uma música muito conhecida), ela se chama "What if?" da fantástica banda Coldplay.

Na maioria dos episódios, tem musica boa, então resolvi por umas também.

AGRADECIMENTOS a todos que leram, principalmente, CAMILA, MAI, GABI e SALLY.

Ai vai a tradução da canção: "E se?"

E se não houvesse mentira?

Nada errado, nada certo

E se não houvesse tempo?

E nem razão, nem rima

E se você tivesse que decidir

Que não me quer ao seu lado

Que não me quer na sua vida

E se eu entendesse errado?

E nenhum poema ou música

Pudesse corrigir o que entendi errado

Ou fazer você sentir como é estar no meu lugar

E se você tivesse que decidir

Que você não me quer ao seu lado

Que você não me quer na sua vida

Oooh, vamos tentar

Vamos tomar fôlego e entrar nessa

Oooh, está certo

Como você pode saber, se você nem tenta?

Oooh, vamos tentar