ANTERIORMENTE EM HOUSE:
Cameron fechou os olhos e também fez uma careta. Mas uma careta de dor. Sentia um ciúme e uma inveja profunda daquela intimidade.
- Você acha que... acha que ainda estaríamos juntos... se não tivesse acontecido... o que aconteceu?
- É claro que nós estaríamos juntos, Andy. – ele confirmou. – E felizes.
Cameron deixa as lágrimas rolarem pelo seu rosto.
- Isso é destino? Eu perdi todas as pessoas que eu amei. Todas. Sem exceção. Inclusive você. O que é estar destinado a algo? Se o destino é algo bom, por que eu estou sozinho? Engraçado como isso soa patético. – ele disse, rindo.
- É, não é? Ah, Robbie, onde foi que erramos? Afinal de contas, era pro mundo ser nosso. Nós somos o estereótipo perfeito. Eu e você. Bonitos, ricos, inteligentes, atraentes, de boa família, bom nome, boa profissão. Eu e você deveríamos ser as pessoas mais felizes do mundo.
- Talvez essa lição seja pra mim, não pra você.
- Por que?
- Como uma punição, por ter abandonado o seminário. Eu falhei, como seminarista, e como pai de família.
Cameron baixou a cabeça, e fechou os olhos.
Se sentia culpada. Culpada por não ter visto que Chase não é qualquer um. Não é um homem como House, Foreman ou até mesmo, Matthew.
Como iria consertar aquilo agora?
XXX
CAPITULO SEIS – O ALCOOL CURA TUDO
Cameron caminhava assoviando no caminho para o bar da happy hour que sempre iam. Dessa vez, o convite havia sido feito por Foreman e não por Chase. Ele havia ficado afastado dela praticamente o dia todo. Não conversaram. Não trocaram duas palavras durante aquele dia. Se tivesse havido um caso pra diagnosticar, teriam trocados opiniões, sugestões, ou até mesmo, farpas.
Ao menos, teria tido-o próximo dela. Falando, o olhando nos olhos, podendo vê-lo, observá-lo... mas ele se afastara cada vez mais. A última vez que tinha realmente o olhado nos olhos, havia sido na noite anterior, no mesmo bar em que ela estava indo naquele momento. Foi quando ela o elogiou por aquele momento lindo ao piano, e ele disse um murmurante obrigado.
Suspirou, chacoalhando os cabelos, tentando se refrescar na brisa leve do verão. De repente, um pensamento invadiu sua mente. O mesmo pensamento que ficou na sua cabeça o dia todo.
Aquela conversa entre Andréa e Chase na capela foi instigante demais. O que será que tinha acontecido? O casamento havia sido desfeito porque algo muito sério tinha acontecido.
E quem era "ele"? Alguém tinha morrido. Isso ela tinha entendido. Mas quem? Andréa tinha mencionado Abney Park, e ela sabia que era um cemitério. Um cemitério centenário. Onde famílias ricas e influentes enterravam seus parentes por gerações.
Chase havia acendido uma vela e feito uma oração "por ele".
Seria o pai de Chase? Andréa o conhecia. Tinha trabalhado pra ele, e tinha se tornado infectologista por causa dele. Ouviu isso da boca dela. Será que ele os impediu de casar? Mas ela pareceu falar sobre ele com tanto carinho. E ficou surpresa ao saber da morte dele pela boca de Chase, no dia em que ela chegou.
Andréa mencionou que sempre ia, todo ano. E Rowan Chase morreu ano passado. Não podia mesmo ser ele.
Ela tinha entendido também que Deus havia tirado alguém deles. Ela disse "pra que dar, se Deus vai tirar?" Deus lhe havia dado alguém. E o tirado. Mas quem? A mente de Cameron viajava as inúmeras possibilidades.
Será que podia ser um filho? Não, não. Chase teria contado que tinha tido um filho.
Teria mesmo?
XXX
Entrou no bar lotado, esticando o pescoço, tentando encontrá-los. Viu Chase e Foreman gargalhando junto com Adam, o bartender, encostados no balcão.
- Olá, garotos! – ela disse se aproximando.
- Oi, Cam. Este é o Adam. – apresentou Foreman.
- Olá. – ela disse, vendo que Chase tinha parado de rir e se concentrava no seu copo de uísque.
- Está é a Dra. Cameron. – Foreman continuou.
- Vocês trabalham todos juntos? – Adam perguntou.
- Pode se dizer que sim. - ela respondeu, sendo solicita. Olhou para Chase novamente, e ele ainda olhava para o próprio copo.
- Não sabia que existiam médicas tão lindas, acho que vou me consultar no seu hospital mais vezes.
Cameron sorriu envergonhada. Chase deu um olhar bravo a Adam, que arregalando os olhos, soltou:
- Vou trabalhar, com licença. – e saiu.
Chase encarou Cameron e sorriu.
- Cansativo o dia de hoje, certo? – ele brincou.
- É, eu realmente me cansei de ficar sentada, olhando para as janelas. – ela disse brincando, em seguida sorriu.
- E a Andréa, Chase? – perguntou Foreman. – Alguma chance de rolar algo entre vocês?
Cameron se remexeu na cadeira. Levantou levemente os olhos para saber a resposta de Chase.
- Andréa e eu somos... velhos amigos do passado. Só isso. – ele se virou para o bartender. – Hey, Adam, deixa a garrafa de uísque aqui!
- Vocês foram namorados, Chase. Isso não significa nada?
Ele deu uma rápida olhada para Cameron, que devolveu um olhar inquisidor. Adam apareceu e Chase encheu um copo, bebendo de uma vez em seguida.
- Não como antigamente. Eu e Andréa temos um... passado maravilhoso... – Cameron fez uma careta. – e triste. Só isso.
- Triste? – perguntou Foreman.
- Por que? – Cameron se interessou.
- Eu não acho que estou tão bêbado para contar isso pra vocês. Principalmente pra você. – e apontou para Cameron. – Eu vou mijar. – e seguiu na direção do banheiro.
- Chase está insuportável. – disse Cameron.
- Não, ele não suporta você, o que acaba fazendo você não suportar ele.
Cameron não compreendeu.
- Foreman...
- Cameron, ele é louco por você.
- E pelo fato, de não termos um relacionamento, ele desconta em mim.
- Não, ele tá descontando em si mesmo. – ela o olhou, triste. – Não vê o quanto ele bebe? Ele praticamente chega de ressaca no trabalho todos os dias. E tenho certeza que não é por ciúmes de eu ter subido de cargo, ou por ter Andréa por perto. É você.
- Não me faça sentir culpada. Eu... não tenho culpa. – ela mesma não se convenceu.
- Hey, Adam, que tal uns amendoins? – Chase gritou, se aproximando. Foreman e Cameron se calaram.
- Não quer uns bolinhos da minha mãe? – devolveu o bartender.
- Claro. E também me manda duas tequilas duplas. Só pra começar.
Cameron e Foreman trocaram olhares.
Chase se sentou e bebeu de uma vez a metade de um copo de uísque. E gemeu de prazer.
- E aí? – se virou para os dois. – Do que conversavam?
- A vida. – disse Foreman, triste.
- Oh, a vida! – ele cantou: - "Thaaaaaaat's life!"
Cameron o olhou, e riu. Chase parecia tão animado e feliz. Por que o álcool o deixa assim? Me faz me sentir pior. A fuga dele é minha culpa.
Chase continuou cantando:
- "Life is so peculiar/ A fork belongs with a knife/ Corn beef is lost without cabbage/ A husband should have a wife/ Life is so peculiar but, as everybody says, "That's life"!
Algumas pessoas numa mesa ao lado, aplaudem Chase.
Ele levantou o copo de uísque, e agradeceu:
- Obrigado! Obrigado! – ele disse, virando para dentro o conteúdo. – Acho que já estou bêbado.
- Você deveria parar de beber. – disse Foreman.
- Por que? – disse ele, já enchendo o copo. – É a vida. O filósofo Jagger já dizia que ninguém pode ter tudo o que quer. Eu já estou acostumado com isso.
- Ah, não, Chase! – disse Foreman. – Não comece a se lamentar agora.
- Não estou me lamentando. Vocês puxaram o assunto.
- Nós puxamos o assunto? – perguntou Cameron. – Você começou a cantar.
- Eu estou bêbado, eu tenho todo o direito de reclamar da minha vida. – e bebeu do copo novamente.
- Foreman, tira essa garrafa da frente dele. – pediu Cameron.
- Não! – ele berrou, pegando a garrafa, e a afastando deles. – Vocês não têm o direito. Ninguém tem. Principalmente você. – e apontou para Cameron.
- Chase...
- Não, Cameron. Você não... nem começa.
- Por favor, Chase...
- Pára com isso, Chase! – pediu Foreman.
- O que está acontecendo com você? Por que está agindo desse jeito? – pergunta ela, preocupada.
- Olha aqui, eu tenho os meus problemas. E você... não devia ficar me questionando nada. Hoje é dia doze. Eu tenho o direito de ficar bêbado.
- Por que? O que há no dia doze?
Ele tirou a carteira do bolso, e de dentro dela, tirou uma foto amassada. Ele entregou a Cameron, que viu na foto Chase e um bebê. Um bebê loiro com profundos olhos azuis. Na foto, eles sorriam e Chase apontava para a câmera.
Cameron olhou atrás da foto: David 16/11/2001- T12/06/2002.
- Quem é? – Foreman se esticou para olhar a foto. – Tem seu sorriso.
- É meu filho. Ele morreu há cinco anos.
Cameron o olhou, entristecida. Era mesmo um filho.
- Oh, Chase... – ela murmurou, arrasada.
- Esse é o motivo que eu e Andy nos separamos. Nós não conseguimos suportar... perdê-lo.
- Do que ele morreu? – perguntou Foreman.
- Leucemia.
Ah, Deus! Leucemia era algo que eles tratavam com tanta facilidade no Princeton. Como aquilo pode acontecer com ele?
- Nós éramos noivos e Andy ficou grávida. Nós decidimos fazer uma grande cerimônia de casamento depois do nascimento do bebê. Mas desde que David nasceu, isso nunca aconteceu. Nós vivíamos em hospitais, UTI's e pronto-socorros. Mas... não... não pudemos salvá-lo. E isso destruiu o nosso quase casamento. Andy não suportava a perda. Nem eu. Ela não me deixava tocá-la, abraçá-la, nem confortá-la. Decidimos que era mesmo o fim. Foi então que eu vim para cá, e Andy foi pra Cambridge.
Ele engoliu os dois copos de tequila, como se fosse água. E encheu o copo de uísque.
A conversa na capela vinha a mente de Cameron naquele momento.
Era um filho o que Deus tinha levado. Era sobre isso o que Andréa queria dizer sobre ter e Deus tirar.
Eles se amavam, e a perda do filho destruiu aquele amor. Como se o amor deles fosse um barraco velho no caminho de um furacão. O furacão era o futuro imprevisível.
E Chase achava que era uma punição. Que era sua culpa.
- Chase... – começou Cameron. De alguma maneira, precisava confortá-lo.
- Relaxem. Eu estou bem. Andy está bem. Isso é o mais importante. – e engolia o uísque.
- Pare de beber, Chase. – disse Cameron, alcançando a mão dele.
Ele a olhou.
- Acho melhor eu ir pra casa. – ele disse, se levantando, carregando a garrafa, fugindo da proximidade com ela. – Adam, eu to indo. Amanhã eu volto.
- Vai em paz, cara.
- Vou. Claro. – ele murmurou.
Chase andou na direção da porta, tendo Cameron e Foreman atrás dele.
- Crianças, tenho que ir. Minha gata tá me esperando. – ele se virou para Cameron, parecendo preocupado. - Você leva ele? Acho que ele não tá bem pra dirigir.
Cameron olhou para Chase, que virava a garrafa sem ter noção do seu redor.
- Meu carro está aqui, - ela apontou para um carro do outro lado da calçada. – eu levo ele.
– Chase! Se cuida, cara, te vejo amanhã!
- Claro. – ele respondeu sem sequer olhar para Foreman. Se virou, e começou a andar pela calçada.
- Corre atrás dele, Cameron. – Foreman pediu, chamando um táxi, enquanto Cameron ia atrás de Chase.
- Chase! Vamos, eu te levo pra casa.
- Não preciso que você me leve pra casa.
- Meu carro está ali, eu te levo.
- Me deixe em paz, Cameron. Vá você pra casa. Eu vou sozinho.
Chase andou cambaleando na calçada e Cameron andou atrás dele.
Chase escutou o barulho dos saltos altos dela, e se virou.
- Vai embora, Cameron.
- Chase, por favor.
Ele pára e a olha confuso.
- Por que você está aqui? O que você quer?
- Você está bêbado. E deprimido. Me deixe te levar pra casa.
- Eu não preciso de você.Será que você não percebe? Eu faço isso todos os dias. Não preciso de você.
- Chase... por Deus, o que está havendo? Por favor! Por que está fazendo isso? Por que eu vejo essa raiva por mim... ?
Ele explodiu:
- Porque eu te odeio. – ele respondeu, furioso.
Cameron piscou assustada.
- O quê? – ela perguntou, com o coração disparado.
– Odeio você. Odeio por você estar me tornando nesse estúpido fracassado.
Cameron o olhou, apavorada. Agora podia ver como ele estava, como ele se sentia.
Chase gritava, com os olhos vermelhos:
- Eu amo tanto você que dói. Dói tanto que nem sei o que fazer. Eu sonhei tanto com você. E em todos esse sonhos você era minha. Minha mulher, minha amante, a única pessoa que importava pra mim. E eu não consigo superar isso. Como não consigo superar nada na minha vida.
Ele voltou a tomar ar. Estava furioso, vermelho, e falava rápido, como se tudo aquilo tivesse entalado na sua garganta.
- Eu perdi tudo que eu amava, Cameron. Minha mãe, meu pai, David... eu me acostumei a perder, e eu não consigo superar nada disso. Estar com você 24 horas por dia é como estar sob tortura. E eu não consigo superar isso.
- Chase, me perdoe.
- Cameron... me deixa em paz. – os olhos dele encheram de lágrimas. – Pare de me fazer perguntas. Pare de olhar pra mim. Pare de falar comigo. Me deixa em paz pra eu poder esquecer você.
- Chase... – ela se comoveu, e começou a chorar também. – me perdoe. Jamais achei que você se machucaria tanto.
Chase fez uma careta, e levou a garrafa a boca. Bebeu um gole tão longo que virou toda a cabeça pra trás, lhe fazendo perder o equilibro. Ele caiu no chão.
- Chase!
- Vai embora, Cameron. – ele continuou no chão. - Por favor. Me deixe em paz.
Ela levou a mão ao rosto dele, e Chase fechou os olhos, sentindo o calor da mão dela, se sentindo exausto. Ele respirou com dificuldade, tentando se acalmar.
Ele abriu os olhos, e a encarou. Se levantou, fugindo da mão dela, deixando a garrafa jogada no chão e voltando a andar pela calçada.
- Chase... por favor, não faça isso.
Ele se virou para ela.
- Cameron, esquece de tudo que eu te falei. Vá embora, finja que você não me viu, finja que não me conhece. Sei lá, qualquer coisa, só me deixe em paz. Antes que eu peça demissão.
Ele se virou, esticando o braço no exato momento em que um táxi passa, parando imediatamente.
- Chase, por favor... – mas ele mandou o taxista seguir.
Cameron viu o táxi ir embora e suspirou alto.
O que eu faço agora?
XX
Cameron estacionou seu carro na manhã seguinte, sentindo uma estranha sensação. Era um sentimento confuso, incompreensível. Uma ansiedade, uma agitação. Como se tivesse esquecido algo.
Tinha dormido mal. Havia tido sonhos inacabados.
Sonhou com a época em que estava casada, e era apenas uma estudante de medicina.
No seu sonho, havia chegado em casa e encontrado Helen, a velha enfermeira de Matthew, chorando. Ela se desesperou, e Helen lhe disse, que seu marido havia piorado. Ela foi até a cama, e entrou em choque. Ali não estava Matthew, estava Chase.
Acordou assustada, soluçando. E em seguida, chorou. Chorou toda a dor que sentia.
Todas suas frustrações, medos e sonhos impossíveis. A sensação de perda, o desprezo, a indiferença dele, a frustração e decepção que ela causou... Chorou o medo de amar, medo de ter, medo de perder... Medo de implorar perdão... Medo de encarar a realidade de que perdeu a oportunidade de ser feliz de novo... Ser feliz pra sempre.
Chorou por ter percebido que queria Chase mais do que tudo. E que não sabia o que fazer, como dizer, como pedir perdão... Como se aproximar, de como não lhe frustrar novamente...
Estava com tanto medo de se reaproximar, principalmente depois do que ele havia dito na noite anterior, que até pensou duas vezes se ia trabalhar ou não. Estava com medo de encará-lo novamente.
Era engraçado. Havia feito sexo com ele, havia dormido com ele, sabia de cor o seu gosto, o seu cheiro... fechava os olhos e sabia de cor como era o seu corpo. Era uma intimidade única, mas naquele momento, não tinha coragem sequer de olhar nos olhos dele.
Era culpa. Uma culpa sem fim.
Depois de tudo. Tudo o que foi dito e sentido, um "eu gosto de você sim" não faria sentido. Talvez ele nem acreditasse...
- Cameron! – ela ouviu.
Ela se virou.
- Wilson! O que faz aqui numa manhã de sábado?
- Problemas, pra variar. E você? Não me diga que House arranjou um caso pra diagnosticar em pleno sábado?
- Você conhece seu amigo muito bem. – ela respondeu e Wilson riu.
- Como você está?
- Bem. – ela disse, baixinho.
- Parece doente.
- Só dormi pouco e você?
- Ótimo. Tenho um convite pra você.
- Pra mim? – ela ficou surpresa. Isso não é típico do Wilson.
- É. Eu tenho um ingresso sobrando para o jogo dos Lakers no Garden hoje a noite. Quer ir?
- Jogo dos Lakers? – ela pensou. Ela lembra que Matthew era apaixonado por basquete, e acabou considerando. – Quem vai?
- Ahmm... Eu, House e... – achou melhor não mencionar o nome de Chase. - ... Cuddy. Quer ir? Vamos, vai ser legal. Esses ingressos estão esgotados a meses.
- Tá, claro. Por que não? – ela topou, por fim.
Uma distração. Se continuar pensando em Chase o tempo todo, vou enlouquecer.
XXX
Chase olhou o céu de fim de tarde da cobertura do Hospital. Ele vê o sol batendo nos telhados das casas, deixando tudo em um tom dourado. Sorriu. Gostava daquelas cores. E gostava daquele momento do dia.
Suspirou. A dor de cabeça que sentia, finalmente, havia cedido.
A dor tinha ficado latejando o dia todo. Conseqüência da bebedeira da noite anterior. Fora que tinha se sentido enjoado, cansado, e com uma sede interminável.
A noite anterior voltava a sua cabeça.
Ele agora lembrava do que dissera. De que falara sobre David. Sobre Andréa. E que dissera tudo o que viera a sua mente para Cameron.
Fez uma careta de desgosto.
O olhar de pena que ela lhe dera, após saber de David, o deixou mais irritado que tudo. Queria que Cameron sentisse tudo: desprezo, nojo, ódio. Menos pena. Pena era o pior sentimento que alguém pode sentir por outro.
E além disso, sentia vergonha. Por parecer fraco e desiludido. Parecia que Cameron tinha esse poder sobre ele. De deixá-lo mal, arrasado. Ela parecia poderosa, intransponível. Ele, um fracassado mal-amado.
Escutou o barulho da porta se abrindo, e nem se virou. Só podia ser House, perguntando porque ele não atendeu o celular. A paciente não tinha salvação mesmo.
- Chase? – ele ouviu a voz de Cameron. Era uma voz calma, baixa, lenta. Obviamente, ela não se sentia mais confortável perto dele.
Tinha falado demais.
Ele se virou e a viu. Ela usava jeans, botas, e uma jaqueta. Tinha o cabelo amarrado num rabo de cavalo, e usava uma maquiagem leve, com um gloss acentuando os lábios.
Chase sentiu uma pontada no coração. Como queria que ela estivesse ali linda daquele jeito para ele.
- Como está a Sra. Edelman? – ele perguntou, fingindo interessado.
- Ela faleceu há vinte minutos. Você está aqui a todo esse tempo?
- É... não. Eu... estava na lanchonete... antes. – disse envergonhado. Cameron parecia incomodada.
Ele precisava dizer. Precisava se desculpar pelo comportamento horrível dele.
- Cameron...
Ela o encarou, tentando ficar firme. Ele continuou:
- Eu... eu queria pedir desculpas por ontem. Eu estava bêbado e... ontem foi um dia... surreal. – Chase dizia, a olhando sem piscar. Ela o olhava com pena. – Não, Cameron, por favor, não me olhe assim...
- Chase...
- Eu sei que falei demais. Que eu... nem devia ter mencionado Andréa ou... ou... David. - ele pareceu confuso e profundamente triste.
- Chase, você não precisa... não precisa se desculpar. É difícil superar a perda de alguém. Principalmente um filho. – ele a fita com os olhos cansados. – Sinto muito pelo seu filho. Eu não sabia.
- Como poderia? – ele perguntou com um meio sorriso nos lábios.
- Por que você nunca me disse?
- Porque... assim é mais fácil. Esquecer ajuda a seguir em frente. Mas seguir em frente também não é fácil.
- Chase... sobre ontem. Sobre nós...
- Cameron... não. É melhor não. Esquece tudo o que eu disse. Imagino como isso deve ser insuportável pra você. Ter um cara choramingando o tempo todo. – ele pareceu envergonhado. – Desculpe, Cameron. Estou sendo egoísta e chato.
Essa é a minha deixa. Vou conseguir. – ela pensou.
- Chase, não sei se é tarde demais pra eu dizer isto, espero que não, mas...
- Eu sei o que você vai dizer. E eu acho que é o melhor.
O coração de Cameron gelou. O estomago revirou. Ele sabe?
Ele continua:
- Melhor mesmo nós... sermos amigos. Como antigamente. Sem pressões, sexo no quarto de pacientes, ou sem House jogando indiretas na nossa cara. – Cameron ficou em choque. - A amizade que eu e você tínhamos... antes.
Cameron ficou sem palavras. Não era isso o que ela queria ouvir. Ele nem a deixou falar. Queria dizer que... O que eu ia dizer? Droga, Chase, você não me dá uma segunda chance nem pra isso?
Chase a olhava, interessado, esperando uma resposta dela.
Cameron o olhou. Ele ainda usava o jaleco, que lhe passava dos joelhos, por cima da camisa azul escura e a gravata vinho. Tinha os cabelos revirados devido ao vento do fim de tarde, e os olhos azuis dele brilhavam de expectativa.
Como ela queria dizer não. Mas já o frustrara tanto. A coragem pra dizer que o queria, se fora.
- Com certeza. – ela responde. Por um segundo, Cameron achou que Chase pareceu desapontado, mas ele sorriu. Um daqueles sorrisos enormes que só ele sabia dar. Um sorriso que fazia qualquer pessoa sentir que o sorriso era só pra ela.
Ele assentiu, ainda sorrindo.
- House ainda precisa da gente?
- Não.
- Então vou me trocar, tenho que sair. – ele deu uns passos na direção da porta.
- Você tem um encontro? – ela disse, com um pavor na voz. Cameron, se controla.
- Ah, não. Vou sair com House e Wilson.
Cameron arregalou os olhos.
- Como? Eu também. – ela quase gritou.
Ele a olhou confuso.
- Eu vou com eles no jogo dos... – ele começa.
-... Lakers. – ela termina. – Contra os Knicks. É por isso que eu estou vestida assim. Wilson me convidou hoje de manhã. – e ela mostra o ingresso que tinha acabado de tirar da jaqueta.
Ele a olha e olha o ingresso, surpreso.
- Ele me disse que o quarto ingresso era da...
-... Cuddy!
Eles se encaram, rindo.
Cameron balança a cabeça, dizendo:
- Ou Cuddy realmente desistiu, ou... – Chase a interrompe:
-... Wilson quer bancar o cupido. – ele ri.
Eles trocam um olhar divertido.
- É melhor eu ir me trocar, senão perco o trem. – ele anda até a porta. Será que eu chamo? Melhor não. Chamo sim. – Cameron, você quer vir comigo? Digo, de trem.
- Eu tava pensando nisso. Deve ser difícil achar lugar pra estacionar.
- E House, provavelmente, vai de moto. Vou até deixar meu carro aqui.
- Vamos sim. Vou com você.
Ele abre a porta, e a mantêm aberta para ela passar. Ela sorri com o cavalheirismo dele, e ele devolve um olhar apaixonado. Cameron tremeu.
Oh, Deus! É hoje. Tem que ser hoje.
XXX
N/A: Gancho para o próximo episódio (quer dizer, capítulo) para deixar a mulherada arrancando os cabelos. Como eu havia dito no N/A do episódio anterior, os capítulos eram para serem maiores. Mas resolvi fazê-los menores para ter mais capítulos, e pra vocês lerem com mais freqüência. (eu sei como é chato aguardar um capitulo de uma fic adorada).
Mas como eu disse para minha super amiga Lis, desde a cena da capela, até o climax que vira no próximo episódio, eram para ser um único capitulo. Mas achei que era informação demais, e demoraria mais ainda para eu postar. Mas tá praticamente tudo pronto. É só mesmo por no papel (ou no Word). Já tive problemas com fics anteriores. A fic vai indo, indo, e de repente, ela não termina mais como o planejado sabe. Como se tivesse vida própria. Mas esta aqui estou conseguindo deixá-la nos trilhos, sem descarrilhar. (Uau, baixou o House em mim aqui. Falando com metáforas.)
AGRADECIMENTOS ESPECIAIS A: MAI, MONA, CAMILA, LALÁ, NAIKY, KATE, DRA. CAMERON E GABY, obrigada por me infernizarem a ponto de sonhar com a fic. AGRADEÇO também a LIS: safada!!! Pára de espalhar spoilers na comu!! Isso é meu trabalho!! O seu trabalho é deixá-las querendo mais!!!!
ALUSÕES:
A música que Chase canta no bar é "Life is so Peculiar" do mega Louis Amstrong. Quem quiser procurar, para ouvir, ela faz parte da trilha sonora do filme "Segredos do Coração" (em inglês, "Love Affair") com Warren Beaty e Annete Benning.
Tradução (ao menos a parte cantada por Chase): A VIDA É TÃO PECULIAR
Life is so peculiar
A vida é tão peculiar
A fork belongs with a knife
Um garfo tem que ficar com a faca
Corn beef is lost without cabbage
Um bife temperado está perdido sem repolho (!)
A husband should have a wife
Um marido tem que ter uma esposa
Life is so peculiar but,
A vida é tão peculiar, mas
as everybody says, "That's life"!
como todo mundo diz, "É a vida!"
Lakers é a abreviação para os "Los Angeles Lakers", time de basquete da cidade. Knicks são os "New York Knicks", que é um time de basquete também. E Garden é o Madison Square Garden, um imenso lugar para eventos, shows e jogos. Para motivo de comparação, é como o Ginásio do Ibirapuera, aqui em São Paulo. Não serve só para jogos, mas para qualquer evento.
O Filósofo Jagger é o Sir Mick Jagger. E a frase: "ninguém pode ter tudo o que quer", é uma tradução livre da frase "You can't always get what you want", que é uma canção (MARAVILHOSA, diga-se de passagem) dos Rolling Stones. House menciona para Cuddy a frase e o "filósofo Jagger" no episódio Piloto.
