Nota importante da Autora: No capitulo anterior esqueci de avisar que é Heero Pov, por tanto quem narra não é o Duo, mas sim o próprio Heero. Desculpem a falha e boa leitura.
Quadrado II
Ao fim do dia letivo retirei-me rapidamente da sala e procurei-o no corredor, não demorei a localizar seu corpo magro desvencilhando-se rapidamente para a direção oposta a minha.
Ninguém escapa de mim, querido. Caminhei agilmente até ele e ao emparelhar com o rapaz falei.
- Que coincidência! Nos encontramos novamente!
Seu rosto bobo sorriu.
- Pelo visto não pude fugir de você, não é? O que você quer?
- Está me acusando de te perseguir?
Perguntei com uma expressão exageradamente teatral e um tom de magoa em minha voz.
- Não. Não, isso jamais. Você não mora aqui no colégio, provavelmente só está indo para a área dos quartos porque se perdeu.
Não pude evitar rir. Minha gargalhada ecoou por todo o corredor deserto e a dele logo se juntou a minha.
- Pego em meu próprio truque! Como sobreviverei a essa vergonha!
- Sobreviverá, isso eu garanto. Faremos o seguinte: manteremos isso como nosso pequeno segredinho e, dessa forma, seu ego continuará intacto, certo?
Sorri amplamente. Acabara de surgir a minha frente uma oportunidade única. Ao seguí-lo jamais imaginara que essa chance apareceria, no entanto ela estava ali, perante meus olhos, ajoelhada e implorando para que eu não a perdesse. Oras, nunca seria tolo de perder um momento como esse.
- Mas meu ego já está ferido! Não sei como poderei sobreviver sabendo que fui pego no flagra. No entanto podemos reverter essa situação.
- E como faríamos isso?
- Oras, muito simples. Eu te convido para ir a uma festa, você aceita e fingimos que eu vim aqui te convidar.
Seu rosto perdeu o tom brincalhão, talvez eu tivesse ido rápido demais. Não havia mais volta, teria que convencê-lo, manipulá-lo, desistir ou... improvisar. Minhas opções não eram tão ruins, afinal.
- Não posso. Tenho que estudar.
- Todos os dias?
- Sim, todos os dias.
- Mas a festa é à noite! Você não estuda a noite, estuda? Não há tanta coisa a ser estudada, disso eu tenho certeza.
Paramos. Seu corpo magro virou para mim e seus olhos me avaliaram. Um de nos estava ferrado. Ou eu levaria um não que nunca esqueceria em toda a minha vida ou ele aceitaria e, bem... meu plano continuaria seu curso.
- Não.
- Não?
Ergui minha sobrancelha esquerda em descrença. Vi-o suspirar e responder corretamente.
- Não estudo a noite.
- Então você vai à festa?
- Quem te disse que eu quero sua companhia?
Voltei a sorrir, ele caíra no truque.
- Quem disse que você irá comigo?
Sua boca vermelha abriu-se em pura e doce incredulidade. Ele não tinha notado que eu jamais tinha dito que iríamos juntos. Era uma visão maravilhosa de sua pessoa.
Ele não sabia o que responder, obviamente. Virei-me e comecei a caminha pelo corredor deserto, isso fazia parte do teatro, é claro, porém, antes de sumir em uma curva qualquer, parei, olhei-o e disse.
- Esse sábado às 21h. Esteja pronto, não quero chegar atrasado.
Virei o corredor e esperei. Não, ele não viria atrás de mim, disso eu tinha certeza, no entanto queria escutar sua voz balbuciar a resposta.
- Certo...
Fácil. Nunca achei que fosse ser tão fácil. Sábado ele estaria a minha espera, pronto para cair no meu plano, para me amar e desejar e apenas pensar em mim.
No entanto ainda faltavam dois dias para a noite da festa e eu deveria sumir da face da Terra para que ele não pudesse cancelar o programa.
Tenho certeza que eu deveria agora narrar como esses dois dias passaram rápidos e como, de fato, ele foi para a festa e o que aconteceu, no entanto vou mudar drasticamente o tema da narrativa e falar de um tema que muito me agrada, e a tantos outros também, tenho certeza.
Eu.
Alguns anos atrás eu me mudei para esse colégio. Tinha vivido minha vida toda com minha pequena família numa cidadezinha perdida no mundo e esquecida por Deus. Não existe nada pior que o interior, acreditem.
Trouxe comigo, em meu histórico, muita inocência e algumas poucas namoradinhas de minha infância.
Inacreditável, eu sei. Eu também já fui ignorante e deplorável.
De qualquer forma, foi em uma festinha, muito comum de acontecer nesse instituto, que tudo mudou.
Ainda não tinha ninguém a quem eu pudesse chamar de amigo, colegas eu tinha muitos, e fui nessa festa para me divertir e conhecer pessoas.
Já era madrugada quando meus olhos encontraram a criatura mais perfeita de todo o universo.
O corpo esbelto e estreito, elegante. A blusa extremamente justa e a calça folgada cobriam parcialmente o corpo suado e brilhante.
Seu quadril enfeitiçava-me a cada volta e curva que fazia, usufruindo cada nota e tom da musica, fascinando a todos. Aproxime-me desse ser divino de rosto delicado e cabelos escuros e curtos.
Comecei a dançar frente a essa pessoa acompanhando-lhe os movimentos em um pedido mudo para dançarmos junto e com muita surpresa senti sua mão puxar-me para mais perto.
Dancei com o ser mais magnífico que já conheci, decorei cada detalhe de sua pele cor de café com leite, os maravilhosos formatos de seus expressivos olhos e voluptuosos lábios.
Ao fim da festa estávamos em algum corredor escuro da casa onde fora a festa nos beijando ardentemente. Vi quando aquele ser guiou-me para um cômodo qualquer e trancou a porta.
Seu corpo pecaminoso prensava-me contra a parede ao mesmo tempo em que beijávamos e nossas mãos percorriam nossos corpos.
Foi nesse momento em que me assustei ao constatar algo que não me passara pela cabeça. Empurrei-o e observei seu corpo na penumbra do quarto.
- Um homem...
Sussurrei incrédulo. Vi por um momento seus olhos infantis fitando-me com curiosidade, então seus olhos voltaram a ser felinos e sensuais enquanto sua boca carnuda curvava-se em um sorriso.
- Você é um novato.
Vi sua mão delicada acender a luz e seu corpo sentar-se em um sofá solitário no meio do recinto.
- Você é tão lindo. Achei que já teria ouvido falar de mim. Sou famoso por ser andrógino. Pensou que fosse uma mulher?
Meu rosto avermelhou-se, a verdade é que eu não havia pensado em nada, apenas tinha me deixado levar pela situação.
- Quantos anos você tem?
- Quatorze.
- Só! Mas é apenas uma criança! Quem são seus amigos, rapaz?
- Ainda não tenho nenhum.
- Ótimo. Rapaz, você é lindo, porém não tem a menor noção disso. Vou te mostrar o quão lindo você é e te ensinar a ser tão irresistível e desejável quanto eu. Vou te apresentar todos aqueles que você deve conhecer. Você será inesquecível, garoto.
E foi assim que me tornei o que sou. Ninguém tinha me dito que eu era tão lindo, que eu podia ser e fazer o que eu quisesse, que poderia ter qualquer um que me chamasse à atenção.
Foi nesse dia que as mulheres passaram para o segundo lugar da minha lista e os homens para o terceiro lugar, é claro.
Andróginos estão no topo de minha lista, eles são minha preferência.
Quanto ao deus que conheci aquela noite. Nunca o tive. Tornei-me algo que eu chamaria de pupilo, quase um bichinho de estimação, e o máximo que fizemos foram àqueles beijos trocados na penumbra do quarto.
Voltemos aos fatos que interessam a narrativa.
Eu realmente sumi completamente da vista do meu alvo e boatos rolavam soltos pelo instituto sobre o meu alvo. Alguns diziam que, assim como meu 'mestre' eu escolhera um rapaz para transformar em um quase-deus. Outros diziam que eu estava completamente apaixonado. A maioria dizia que eu estava louco. Eram poucos os que estavam certos, eu estava apenas jogando com meu novo brinquedo.
Sábado à noite eu fui buscá-lo, no entanto ele não estava lá.
Não vou dizer que isso não me enfureceu, seria mentira. Eu fique furioso e cheguei a cogitar a possibilidade de arrombar seu quarto para verificar se ele estava fugindo de mim, o que definitivamente estava.
Mas isso não estragou minha noite, de forma alguma. Apenas me fez cometer algumas atrocidades e exageros como me embriagar completamente e ficar com, se eu lembro bem e depois de beber tanto eu garanto que não lembro nada com muita clareza, umas quinze garotas diferentes e uns três rapazes.
Já era umas cinco da manhã quando me dei conta de onde eu estava, e mesmo agora eu não tenho certeza se realmente estive lá, acredito que foi um sonho embriagado e confuso,totalmente irreal.
Era um dormitório do colégio e duas pessoas discutiam, um homem e uma mulher, a janela estava aberta e o vento frio se esfregava contra meu corpo, eu estava, provavelmente, sem blusa ou com ela aberta.
Sentei-me confuso na cama e vi algo onírico. O rapaz que não saíra comigo essa noite estava parado frente a minha cama, porém havia dois deles.
Certo... eu estava completamente bêbado, era possível que eu estivesse vendo-o duplicado por conta do álcool, no entanto eles vestiam roupas completamente diferentes.
Ao verem que eu estava acordado, ou que achava que estava acordado, eles viraram-se e se beijaram.
Poderia muito bem alegar que não tinha sido puro sonho uma vez que acordei, realmente em um quarto completamente trancado do instituto, mas não fazia sentido dois rapazes iguais se beijando. Eu tinha, definitivamente bebido demais e tinha sonhado com gêmeos. E isso para mim era uma grande novidade, não tenho tara por pessoas iguais.
Pessoas iguais são sinônimos de problema. Não há de existir nada pior do que não saber ou não poder distinguir a pessoa com quem você namorou e se, ao ver uma pessoa igual a que namora, confunde-a com a primeira e num momento louco e confuso vê-se apaixonado por ambas? Ou pior! Ambas apaixonadas por te.
A angustia da traição, o medo da descoberta, a dúvida que corrói a alma e divide o coração, não sabê-las diferenciar é muito pior que amar a ambas ou traí-las. Não reconhecê-las é o mesmo que não amá-las realmente. E o pior é ver as faces absolutamente semelhantes dobrarem-se em lágrimas perante você não ter nada a dizer.
São poucos que entendem que os olhos confundem o coração, assim como o coração confunde os olhos. E sempre se corre o risco, nesses casos, de ambos, coração e olhos, se confundirem mutuamente e terminar-se cego.
Não. Eu, não. Tenho pavor a tudo aquilo que poderia me arrebatar ao amor e mais pavor ainda tenho de pessoas iguais.
Mas isso não é importante, apenas faz parte de minha ressaca.
Levantei-me da cama só para verificar se o chão já voltara ao seu lugar. Sim, o chão já estava mais calmo, aceitava ficar imóvel abaixo dos meus pés, porém o mundo ainda estava rápido demais girando ao meu redor.
Aproximei-me da janela e olhei a rua deserta. Nada pior do que um Domingo à tarde. Sim, já era tarde, provavelmente era hora do almoço, mas ainda não tinha fome.
Escancarei a janela e sentei-me em seu batente ao mesmo tempo em que aproveitava a fresca brisa que invadia o quarto abafado e meu ser inquieto.
Voltei a pensar nele, o rapaz desprezível que me deixara esperando frente a sua porta, não o odiava, não agora, talvez odiasse depois, quando minha cabeça e estomago fixarem-se corretamente em seus devidos lugares.
Não iria procurá-lo, ele não valia mais que isso, era um capricho e por ele eu solvera todas as gotas de álcool que ele tinha por direito. Bebi, namorei, dancei, gritei e seduzi por mim e por ele e agora tudo estava acabado. Pelo menos por agora, durante minha ressaca.
A semana passou como um borrão para mim, adoraria esquecê-la, após minha ressaca o incomodo de ter sido deixado esperando alguém que não apareceu encheu-me de uma impaciência e irritabilidade pouco característica em meu humor.
Observei-o de longe, sem me preocupar com a discrição, todos os momentos dessa insuportável semana. Seu corpo esbelto esgueirava-se e desvencilhava-se pelos corredores e pátios do instituto em todos os momentos livres ou de troca de aula. Ele estava em todos os lugares e isso me estressava, me deixava com os nervos à flor da pele.
O último dia de aula da semana foi tão ruim quanto os demais, talvez porque era para ser ruim ou talvez porque eu tinha certeza que seria ruim, porém algo aconteceu de diferente nesse dia.
Continua.
--- Autora ---
Agradeço a todos os que leram e principalmente a Blanxe, pois ela foi a única que comentou, tenho certeza que se ela não tivesse comentado eu teria deletado Quadrado do site.
Espero que vocês tenham gostado e que comentem.
Beijos, Zika McDragon
