Quadrado III

O último dia de aula da semana foi tão ruim quanto os demais, talvez porque era para ser ruim ou talvez porque eu tinha certeza que seria ruim, porém algo aconteceu de diferente nesse dia.

Pela primeira vez seu corpo parou no meio do corredor abarrotado de alunos, seu rosto virou para trás e ele me viu.

Eu estava distante e até um pouco escondido por todo aquele fluxo, no entanto ele me viu, seus olhos límpidos pousaram sobre mim e, naquele instante, me transmitiram a mensagem: eu te vejo.

Ridículo, é claro, porém ele me viu. Ele realmente me viu, e para aqueles que sabem entrar em um jogo de sedução e conquista isso tem um significado inimaginável. Para se conquistar alguém é preciso que essa pessoa te veja, não no sentido de olhar, mas sim no sentido de saber e mostrar que o outro existe para você, o outro é também uma pessoa e não mas um na multidão.

Para mim ele era mais um na multidão, porém eu nunca o fora e saber que para ele eu começava a me destacar da massa de corpos sem nome é um sinal de que eu posso conquistá-lo.

Ao contrário do que muitos possam pensar, eu não corri atrás dele como um cãozinho domesticado naquele exato minuto para tentar conquistá-lo. Foi completamente o oposto.

Eu olhava para ele e ele olhava para mim e ambos dizíamos com o olhar que estávamos esperando alguém tomar a iniciativa, e diga-se de passagem, ficamos nesse joguinho idiota por quase um mês todo.

Um dia qualquer, exatamente como o maldito dia em que o conheci, aproximei-me dele pelas costas e assustei-o quando me sentei abruptamente na mesa onde ele distraidamente apoiava os cotovelos. Seu rosto desencostou-se nas mãos que o sustentavam e olhou-me de cima a baixo como se nunca tivesse realmente me visto.

- Você me deixou esperando.

Ele me disse com sua voz harmoniosa e relaxada, como se ainda estivesse perdido em seus próprios pensamentos.

- Não fui eu quem sumiu no dia da festa.

- Não era eu que estava tentando te conquistar.

Ele estava certo, porém um mês de espera havia me tornado uma pessoa muito mais calma e calculista no que se referia á ele, não me irritaria por tão pouco. Afinal, eu era irresistível e não infalível. Sorri amigavelmente. Não estava mais aborrecido com aquele episódio.

- O que houve naquela noite?

- Problemas com minha irmã. Eu me arrumei todo e estava pronto esperando o horário combinado, porém minha irmã me ligou e pediu-me aos prantos para ajudá-la.

- E você conseguiu ajudá-la?

- Não. Ninguém pode ajudá-la. Apenas consegui adiar os problemas. Chegará o dia em que nem mesmo isso eu poderei fazer e então ela estará completamente sozinha.

- Ela é bonita?

- Não tanto quanto eu.

Ri divertido com aquela resposta, não era o tipo de coisa que poderia imaginar ele me dizendo. Ele olhou-me, seus lábios formando um perfeito arco e seus olhos claros contraídos pelo sorriso e excesso de luz que atravessava a copa da árvore.

- Pretende conquistá-la?

- Não sei. Por que? Pareço ser tão cafajeste assim?

Sorri com a sonora gargalhada que ele deu. Isso significava que eu não o enganava? Que ele nunca acharia que seria o único para mim? Oras, ele estava se tornando realmente interessante, e não digo isso me referindo apenas como futuro amante, mas sim como um amigo em potencial.

- Não te inspiro confiança!

Perguntei teatralmente fazendo-o rir ainda mais, por fim ele fez uma expressão de desentendido e respondeu-me com um convite.

- Eu te deixei esperando aquela noite, não? Imagino que não estraguei realmente tua festa, porém te ofendi, foi grosseiro de minha parte, por isso, te devo uma.

- Que tipo de divida?

- Boatos. Ouvi muitos boatos.

- Está se tornando diferente. Que tipo de boatos?

- Dizem que essa Sexta acontecerá uma festa, não haverá convidados, o boato diz que basta ir ao local levando consigo bebida alcoólica.

- Não ouvi esses boatos, no entanto esse tipo de festa não é realmente incomum, mas o que exatamente você quer me dizer com tudo isso?

- Venha comigo nessa festa.

Espantei-me com o contive, é verdade. Foram poucas as pessoas que me convidaram para sair tendo tanta certeza de minha resposta no tom de voz. Ele simplesmente tinha certeza que eu aceitaria.

Gostaria de dizer que minha resposta foi não, ou que dei uma resposta afirmativa e o deixei esperando no dia da festa, no entanto isso não aconteceu.

- Onde e que horas nos encontramos?

- Essa Sexta eu passarei na sua casa as dez da noite e te levo para a festa, tudo bem por você?

- Por mim tudo bem, mas dessa vez, avise-me se não for aparecer, ok?

- Ok.

A conversa havia terminado, mas deixei-me ficar ali, sentado ao lado do garoto na mesa, apreciando-o sem realmente prestar atenção nele. Vendo-o admirar o nada, completamente perdido em seus pensamentos, plenamente longe de mim.

A semana foi calma e ensolarada. Na Quarta convidaram-me formalmente para a festa e disseram-me que minha presença bastava, que não era necessária a bebida, porém que deveria ajudar a espalhar a noticia da festa.

Estive distante todos os dias dessa semana, onde meus pensamentos estavam, isso eu não sei dizer, sei que não estavam nele, nem na festa, muito menos em um plano de sedução. Eu estava apenas longe, como não ficava fazia vários anos.

De qualquer forma, aquela semana não foi fácil para os funcionários do instituto. Ora, rodava um boato de que uma estudante seria morta por assassinos de aluguel e uma festa nem um pouco oficial cheia de adolescentes embriagados e sabe-se lá o que mais marcada para aquela sexta feira era motivo de inquietude e estresse para todos os que trabalhavam lá. A minha opinião era que aquela lenda do monstro que vivia embaixo das camas e que matava cruelmente criancinhas era muito mais criativa do que familiares contratando assassinos para matarem suas lindas filhinhas.

Como não ocorreria, oficialmente, nenhuma festa, não havia modo desta ser oficialmente cancelada pela diretoria, correto?

A noite de Sexta chegou sem muitas surpresas e as dez da noite bateram em minha porta. Demorei a atendê-la, pois estava terminado de calçar-me, porém a verdade é que eu quis deixá-lo um pouco parado frente a minha porta, apenas para deixar claro quem estava brincando com quem.

Abri a porta e deparei-me com uma lindíssima mulher parada de costas no meio do corretor. A calça justa e negra modelava as pernas torneadas e musculosas e a blusa vermelha folgada cobria-lhe a parte superior do corpo, exalava um cheio exótico e levemente apimentado ao mesmo tempo em que tudo aquilo, o cheiro e as cores, faziam sua pele alva parecer ainda mais branca, no entanto o mais fascinante era a longa trança de madeixas aloiradas que serpenteava-lhe as costas, descendo pelo quadril estreito e chegando até o inicio das coxas.

Pigareei para chamar-lhe a atenção e quando seu rosto branco de traços bonitos e olhos claros contornados por um lápis negro viraram em minha direção eu a reconheci.

Deveria imaginar que ser enganado, após tantos anos de promiscuidade e galinhagem, deveria significar algo, porém a única coisa que pensei foi que aqueles malditos óculos estragavam e escondiam a magnífica beleza que aquele garoto possuía.

Ele possuía uma aparência sensual e eu o possuiria, era um bom plano para uma deliciosa noite de libação.

Foi divertido ver a expressão de confusão e reconhecimento nos rostos das pessoas que estavam na festa ao verem-no, impecável e lascivo, ao meu lado. Depois da nossa entrada e esse momento de prazeroso exibicionismo a festa continuou como qualquer outra festa, danças libidinosas guiadas por musicas animadas, bebidas e cigarros.

Dancei com o rapaz ao mesmo tempo em que admirava sua aparência. Desde o inicio fui sincero, apenas o que era belo me atraía e eu apenas estava brincando com ele, no entanto, essa noite, eu não estava utilizando meu método clássico de sedução, não, era muito mais prazeroso aproximar-me lentamente, somar bebidas às investidas discretas, tocar-lhe o corpo vez ou outra, prepará-lo, incitá-lo, trazer aquele corpo pecaminoso para perto do meu e não o contrário.

A curiosidade é um fator interessante em um jogo de sedução, pelo jeito do garoto eu arriscaria seriamente a alegar que ele tinha tido poucas ou nenhuma experiência em relacionamentos e isso tanto me ajudava como atrapalhava. Quando sabe-se o que se deseja, sabe-se onde procurar, ser direto e dessa forma tudo flui rapidamente. Quando não há conhecimento prévio por parte do par, ser direto pode dificultar o rumo natural dos fatos, é melhor incitá-lo e despertar-lhe o desejo, a curiosidade de conhecer o que o outro tem para mostrar, ensinar, fazer.

Já tinha passado das duas horas da manha e tínhamos evoluído pouco, decidi deixá-lo para buscar bebida, talvez um pouco de álcool ajudasse.

Voltei poucos segundos depois e vi seu corpo esbelto movendo-se de forma frenética e luxuriosa, observei-o por alguns segundos e então ele me viu e, estendendo-me sua delicada mão de dedos finos e logos, pediu-me a bebida.

Entreguei-lhe o copo. Seus olhos claros brilhavam de uma forma estranha enquanto sua boca pequena solvia em um único e largo gole todo o líquido que havia no recipiente.

O que ele fez com o copo? Não sei. Mas seus braços envolveram minha cintura e pescoço ao mesmo tempo em que seu corpo encaixava-se ao meu sem interromper a dança lenta e viciante que poucos segundos atrás ele dançava sozinho.

- Você é lindo.

Sua voz doce sussurrou em meu ouvido ao mesmo tempo em que sua respiração ofegante atingia meu pescoço.

- Diga que sou lindo e farei o que você desejar.

- Você é lindo.

Respondi igualmente ofegante em seu ouvido sem ter exata noção do que ele havia me prometido. Estava surpreso e fascinado, queria-o não apenas por causa do desgosto que me causara aquele dia embaixo da árvore ou por vingança por ter deixado-me esperando aquela noite.

Eu o queria.

Seus braços saltaram-se de mim e seu corpo livrou-se de meu abraço com facilidade, assisti-o afastar-se de mim, porém seu corpo não se somou à massa suada e pouco interessante que se reunia ao nosso redor na pista de dança.

Vi-o subir no balcão do bar e aproximei-me rapidamente, a luz foi direcionada para seu corpo elegante e a musica trocada para uma lenta e voluptuosa.

Seu corpo começou a mover-se lento e hipnótico atraindo a atenção de todos para si, sorri. Estava claro que a musica possuíra seu corpo e este se movia à base de álcool.

As mãos macias começaram movimentos rápidos ao mesmo tempo em que o rapaz acelerava o ritmo da dança, toda a festa parara para assisti-lo exatamente como eu fizera, percorriam toda a extensão do corpo, sendo seguidas, as mãos, centímetro por centímetro por nossos olhos atentos. Começava a ficar realmente interessante e a assemelhar-se a um strip-tease.

Strip-tease! Não, ninguém olha para aquilo que me pertence.

Aproximei-me do balcão e em um único impulso pus-me em pé frente ao garoto, por um estante ele e toda a festa pareceram surpresos, mas então juntei meu corpo ao dele, guiando-nos sensualmente através do som, ele estava completamente bêbado.

Meus lábios curvaram-se em riso, senti seus lábios quentes roçarem minha bochecha e não resisti, senti minha respiração ofegar em seu pescoço enquanto, de minha boca, escapavam palavras sussurradas em seu ouvido.

- Eu vou te beijar.

Ouvi-o ofegar. Minha boca trilhou sem pressa, dando-lhe o tempo necessário para indignar-se com minha atitude, o caminho de sua orelha até sua boca, beijando-o lenta e docemente enquanto nossos corpos continuavam a dança e o resto não existia.

Suas mãos em minha cintura e a minha na dele, nossos corpos unidos como nossas bocas, respirações ofegantes, a longa loira traça parcialmente desfeita ao mesmo tempo em que mechas soltas colavam-se ao seu rosto suado e minha mão em sua nuca permitia-me apoiar-lhe o rosto e acariciar-lhe a bochecha enquanto beijava-o. Então ele desmaiou.

- Continua.

--- Nota da Autora ---

Hoho! Desculpa a demora, tive sérios problemas com a escola.. ' mas agora já está tudo bem, acho.

Como pedido de desculpas e uma forma de agradecimento às pessoas que comentaram Quadrado e que me deixaram muito feliz e com animo para voltar a escrever, estou postando a parte da festa, que é uma das minhas partes preferidas!

A partir desse capítulo talvez o texto tome um rumo inesperado, mas espero que gostem e que confiem em mim!

E quanto aos dois Duos... Tehe.. só existe uma coisa que posso dizer no momento... Mistérios, mistérios, mistérios!

Espero que tenham gostado e que comentem!

Kiss Kiss, Zika McDragon!