Quadrado V
Por algum motivo estranho, apenas encontrei-o novamente no fim da outra semana. Ele estava igual a primeira vez que o vi.
Seu longo cabelo escondido, sua roupa sem graça, seu rosto coberto pelos aros ridículos atrás de outro livro estúpido. Por algum motivo tudo isso me incomodou profundamente.
Sentei-me na mesa de frente para ele, no entanto fui ignorado. Tomei-lhe o livro e então ele fitou-me pelo canto dos olhos.
- Oi.
- O que você quer, Heero?
- Conversar.
- Não tenho nada a lhe dizer.
Seu rosto virou em minha direção e eu pude ver que o canto de sua boca estava ferido.
- O que houve com sua boca?
- Problemas familiares.
- Seu pai te bateu?
Perguntei preocupado. A verdade é que minha vidinha de segundo filho era muito fácil, meu irmão mais velho era o orgulho de todos e meu irmão caçula o queridinho, restava-me dispensar toda a atenção que a família poderia me dar e em troca desta pedir dinheiro, o que não falta em nossa conta familiar.
Dinheiro e beleza eram algo que sobrava em minha família, sendo assim eu não tinha nada de especial, não era o primeiro em nada e também não era o ultimo, deixá-los cuidar de meus irmãos e esquecerem de mim era maravilhoso, pois apenas dessa forma eu podia fazer o que eu bem desejasse.
- Não.
- Quem te bateu?
- O marido de minha irmã.
- Por que ele fez isso? Ele é louco?
Eu estava indignado, porém ele riu.
- Mais ou menos isso. Ele é um idiota.
- Disso eu tenho certeza, e para saber disso nem preciso conhecê-lo.
Então ficamos em silêncio por um longo tempo. Essa falta de conversa não me incomodava, até achava agradável apenas ficar sentado vendo-o fitar o nada enquanto e vento fresco lambia nossos corpos e levantava folhas secas.
- Você gostou do jantar?
- Qual jantar?
Ele perguntou completamente absorto, seu pensamento estava tão longe dali que seus olhos semi-cerrados nem se moviam da paisagem.
- O de sábado a noite, jantamos juntos, lembra?!
Seu rosto virou-se novamente para mim. O canto de sua pequena boca de lábios grossos estava inchado e levemente ferido e a parte alta de sua bochecha estava roxa, porém só notei isso quando ele tirou os óculos e esfregou os olhos em claro sinal de cansaço.
- Desculpe-me, estou cansado, mas sim, adorei o jantar.
Ele me disse sorrindo e eu não pude resistir. Toquei-lhe a face machucada aquecendo-a com o calor de minha mão, seu rosto inclinou apoiando-se em minha mão ao mesmo tempo em que seus olhos fechavam-se de cansaço em uma expressão de deleite.
- Como ele ousou marcar um rosto tão bonito?!
Sussurrei, contrariado, mais para mim do que para o garoto. Levantei-me de uma forma gentil quando ele liberou minha mão.
Sorri-lhe de forma afável e ofereci-lhe ajuda para levantar.
- Você está cansado. Deixe-me levá-lo até seu quarto e então você descansa um pouco, as aulas já estão no fim, você precisa dormir, mais tarde eu pego anotações das aulas com seus colegas e as lições de casa.
Ele então envolveu minha mão com seus longos dedos frios e levantou-se, soltei-lhe a mão e passei meu braço por sua cintura, porém em um rápido movimento ele afastou-se de mim com as duas mãos sobre o quadril.
- O que houve?
- Nada.
Ele me disse com um falso sorriso estampado no rosto e as mãos ainda sobre o local onde minha mão tocara.
- Nada?
- Nada.
- Então me mostre seu abdome.
- Não!
- Então me diga o que houve!
- Nada!
Aproximei-me dele e teria segurado suas mãos e levantado sua blusa se um rapaz de aparência tosca não tivesse parado atrás dele e tocado-lhe o ombro direito.
Seu rosto virou-se para o estranho e avermelhou-se de raiva. Seu punho fechado voou rumo ao rosto do desconhecido derrubando-o com um único soco.
- Esqueça-me garoto ou da próxima vez eu realmente te machucarei.
Seu corpo esbelto afastou-se com classe de nós dois, atravessando o jardim e entrando no corredor vazio do instituto onde sumiu. Olhei novamente para o menino estirado no chão que tentava a todo custo parar o sangramento que o soco lhe causara no nariz e, quase rindo, afastei-me, seguindo o caminho que minha vitima tomara.
Logo após entrar no corredor frio encontrei-o encolhido no vão onde ficava a porta do banheiro feminino.
Seu rosto estava abaixado, seu corpo encurvado e encolhido enquanto suas mãos apertavam a lateral de seu quadril.
- Está tudo bem?
Seu rosto contorceu-se em um sorriso sofrido e sua voz baixa respondeu que sim. Estendi-lhe a mão e ajudei-o a levantar, passei seu braço sobre meus ombros e segurei-o pelo braço livre.
O caminho para os dormitórios foi curto e percorrido em silêncio. Ao chegarmos em sua porta ele tentou dispensar-me, porém recusei-me a ir embora sem antes colocá-lo em sua cama.
- O que é isso?
Perguntei assustado ao abrir a porta, por todo o chão via-se bandagens e restos de algodão sujos de sangue e os lençóis revirados também estavam manchados de vermelho.
Seu corpo soltou-se do meu e caminhou com paços arrastados para a cama e ali deitou-se. Só então, vendo seu corpo pálido esticado sobre a sujeira de sua cama é que notei o sangue em suas mãos e em sua blusa.
Avancei até ele e toquei sua blusa de linho branco começando a puxá-la para poder ver a ferida, porém seus olhos abriram-se e suas mãos seguraram as minhas.
- Relaxe, não é nada sério. Os pontos devem ter estourado novamente.
Continuei a olhá-lo como se ele tivesse duas ou três cabeças sobre seu pescoço, então ele tossiu e soltou-me.
Seus dedos tentaram inutilmente desabotoar a manga de nosso uniforme escolar, porém libertei-o dessa tarefa desabotoando eu mesmo, sem a menor dificuldade, os botões de seus pulsos.
Em seus braços haviam terríveis marcas roxas e, aproveitando que ele começava a cochilar, dei-me o direto de abrir sua blusa e ver, e talvez até cuidar de sua ferida, no entanto assim que toquei em seu colarinho seus olhos se abriram e sua mão deteu, novamente, a minha.
- Relaxe, não há nada sério. Não quero que você me veja, respeite isso.
Fiquei sem graça, é lógico, porém queria saber como ele realmente estava.
- Você quer que eu chame alguém?
- Não, não é preciso. Uma pessoa está vindo me ajudar, logo ela estará aqui.
- Tem certeza?
- Sim. Não se preocupe, Heero. Depois que ele me deu o segundo soco e eu caí no chão consegui proteger grande parte de meu corpo com meus braços.
- E por que você está sangrando?
Ele riu, riu como se fosse lógica a resposta.
- Ele chutou muitas vezes onde não consegui proteger.
Seu riso me perturbou mais do que eu gostaria de admitir, era como se ser espancado não fosse algo tão ruim. Masoquismo nunca foi minha preferência.
Fiquei mais um pouco, apenas ao seu lado, olhando-o e esperando sem pressa a pessoa que viria cuidar dele e teria ficado milênios ao seu lado usando a espera como desculpa, porém seus olhos se abriram quando tirei-lhe os óculos do rosto e sua voz soou sonolenta.
- Por favor vá embora agora.
- Esperarei a pessoa chegar.
- Não, por favor, vá embora.
- Mas...
- Não se preocupe. Estarei bem.
Com muito desgosto retirei-me do quarto e, praguejando, fui embora.
Não demorou muito e a noticia se espalhou. A cada passo que eu dava, escutava milhões de cochichos sobre eu e minha suposta incontrolável paixão pelo nerd.
Imaginei que eles esperariam mais de mim. Eu? Apaixonado? Nem coração eu tenho e mesmo se tivesse, não seria por um garotinho desarrumado e enfadonho que eu cairia de amores.
Todos aqueles olhares e sussurros atingiam diretamente o meu ego e me irritavam, por que eles achavam que eu, logo eu, aquele que poderia ter quem desejasse, qualquer menina ou menino de beleza imensurável, iria me apaixonar por... aquilo!
Pior do que ser feio, é ser bonito e se passar por feio! E era exatamente isso que ele fazia. Os abomináveis óculos gigantes, o maravilhoso cabelo escondido, as roupas sem graças e o rosto bonito escondido por trás de um livro tão ou mais enfadonho que o dono.
Por que ele se escondia atrás disso tudo? Por que ele fingia ser patético?
Por que ele precisava tanto ser ridículo? Por que ele queria ser comum? Ele podia ser lindo, ele era lindo! Porém ele simplesmente lutava exaustivamente contra isso.
Por que ser apenas adorável se ele poderia ter o mundo aos seus pés?
Não faz diferença!
Ele estava destruindo a minha imagem de ser perfeito e inatingível. Eu não me apaixonava, eu seduzia e usava as pessoas. Eu não amava, eu me divertia. Se ele colocava minha imagem em risco, então eu o deixaria, esqueceria-o.
E foi isso que fiz.
Não o procurei, não o visitei, não perguntei sobre ele em momento algum. Ele havia praticamente me expulsado do quarto! Por que correr atrás dele feito um cachorrinho? No entanto não posso negar que meu olhar vagava pelos corredores buscando sua figura baixa e estreita esquivando-se dos outros corpos, mas não o vi.
Após duas ou três semanas ele reapareceu, ou quase isso.
Eram quase cinco horas da manhã quando meu telefone tocou e, com muita má vontade e sono eu o atendi.
- Cuide dele durante as aulas.
Foi a única coisa que me falaram antes de desligarem.
Minha noite de sono foi estragada e meu mau-humor era palpável, meu dia estava começando da pior forma possível e a única coisa que eu conseguia pensar era que, até o fim do dia, ele pioraria ainda mais.
Arrumei-me lentamente antes de sair de casa e mais me arrastei do que caminhei para o instituto. Ah! Como eu desejei que o colégio fosse para o inferno e eu pudesse dormir novamente entre minhas cobertas quentinhas e minha cama macia!
Independentemente do tempo que levei para me arrumar e me arrastar resmungando sem parar, eu cheguei antes do horário da aula.
Larguei minha mochila na minha sala e, atravessei os corredor e cômodos vazios até chegar no pátio onde deitei-me no gramado e admirei o céu. Estava mais dormindo do que acordado, imaginando coisas estúpidas e infantis quando o pátio começou a encher de alunos, alguns poucos deitaram-se ao meu lado, a maioria conversava embaixo de árvores ou prolongava suas horas de sono sentados nas carteiras das salas de aulas.
Ouvi quando o sinal tocou, no entanto não levantei, estava com sono e com preguiça, minhas maravilhosas notas garantiam que perder alguns dias de aula não colocavam meu ano letivo em risco.
Por mais estranho que pareça, acredito que a melhor companhia da vagabundagem e das festas era, obviamente, a capacidade de desenvolver bem seu papel estudantil. Não adianta viver de festa em festa e mandar a escola para o inferno, pois, no fim, esta o agarra de jeito e te tira tudo aquilo que você gosta. As festas são ótimas, mas, infelizmente, é o estudo que garante o futuro, e as festas do futuro.
Os estudantes, pouco a pouco, arrastaram-se para suas respectivas salas de aula e eu permaneci ali, cochilando melhor do que antes, graças ao silencio tranqüilo e ao sussurro distante que às vezes vinha do instituto ou do vento nas árvores.
Abri meus olhos ao ouvir o som de passos, a claridade me confundiu a vista e apenas reconheci a pessoa que parara na minha frente quando esta abaixou-se e ficou parada encarando-me.
Sua pele continuava pálida como antes e seu braço apoiado em seu joelho em cuja mão fechada descansava o rosto levemente risonho lhe dava um ar infantil.
Sorri ainda meio adormecido para ele enquanto me divertia admirando os vários fios loiros que brilhavam em seu cabelo castanho claro. Devo ter dito que ele era loiro e em seguida confundir-vos ao dizer que seu cabelo era castanho, mas quero deixar claro que não me expressei mal. Seu cabelo possui um tom exótico e maravilhoso, um castanho tão claro que poderia ser chamado de loiro, mas que, ainda assim, era escuro demais para assim ser chamado.
Acredito que o tom exato seria semelhante ao mais puro mel espalhado sobre uma superfície de prata sob o sol do meio dia de um agradável dia de verão, nem castanho nem loiro, mas, de certa forma, um pouco de ambos.
- Bom dia.
Ele me disse de forma amigável e em seguida deitou-se ao meu lado.
- Perdi alguma coisa importante essas últimas semanas?
- Meu interesse.
Respondi-lhe ainda sonolento e ouvi sua risada não vazia de emoções, mas cheia de algo que não reconheci.
- Então agora podemos ser amigos?
- E não podíamos antes?
Dei de ombros ao responder e continuei sério com meus olhos fechados, meu péssimo humor não tinha diminuído nem um pouco.
Nota da Autora
Oioi lindos!!!
Hoje estou postando quase tudo o que tenho escrito até agora, ia postar mais , porém a ultima parte que escrevi ainda está sujeita a mudanças e talz... ficaria chato postar algo e depois ter que apagar para colocar como deveria ser.
Acho que algumas pessoas já estão desconfiando da surpresa que eu disse no inicio do primeiro capítulo que teria, mas não vou confirmar nada, se alguém perguntar algo que é verdade não direi nada, tratarei como se fosse algo absurdo. Surpresa é surpresa e eu espero que vocês gostem dela! '
Gostaria de agradecer aqueles que comentaram e tentarei responder todos os comentários hoje mesmo.
Desculpem a demora em responder os comentários e de postar o novo capitulo.
Desejo que tenham gostado.
Espero comentários!
Kiss Kiss, Zika McDragon!
