Quadrado VI
Respondi-lhe ainda sonolento e ouvi sua risada não vazia de emoções, mas cheia de algo que não reconheci.
- Então agora podemos ser amigos?
- E não podíamos antes?
Dei de ombros ao responder e continuei sério com meus olhos fechados, meu péssimo humor não tinha diminuído nem um pouco.
Sua mão afastou as mechas que caiam desalinhadas sobre meu rosto e eu abri meus olhos e vi-o fitar-me distraído.
- Eu gostaria de ter um amigo, Heero.
- Não me parece que você tenha buscado por um, muito menos se esforçado para tornar seus amigos aqueles que tentaram se aproximar de você.
- Desculpe, às vezes não sei direito quem sou, fico confuso e faço coisas estranhas.
Seu rosto estava triste e já não me fitava, as nuvens pareciam ser mais interessantes.
- Tipo o quê?
- Não sei, afastar os que tentam se aproximar, talvez.
Levantei-me e bati em minha roupa para que as folhas caíssem e lhe estendi a mão em um convite enquanto lhe perguntava.
- Você vai para a aula?
- Não. E você?
- Não mais. Quer andar por aí?
Senti sua mão envolver a minha e seu corpo levantar com seu rosto sorridente.
Caminhamos pelas redondezas, sem rumo e sem pressa. Deveria dizer que tivemos uma conversa divertida e amigável e que o amo? Não, não foi bem assim, aliás, longe disso.
Caminhamos em silêncio, estávamos mais sozinhos do que um com o outro. Olhávamos com pouco interesse as ruas quase desertas onde o vento carregava lentamente folhas secas, não havia crianças pequenas brincando risonhas nos parques nem suas gentis mães que alegremente assistiam-nas jogar, menos ainda flores, as árvores não estavam com suas folhas lindamente tingidas de dourado pelo outono, mas não havia flores que colorissem a paisagem. Desculpe se o cenário não é romântico, estávamos apenas matando aula e não em um filme de comédia-romântica adolescente.
- Vai ter festa essa semana?
- Sempre tem.
- Boa?
- Não o bastante para valer minha presença.
Vi-o sorrir, se continuássemos nesse assunto provavelmente meu humor mudaria para melhor. Festas eram para mim algo como um reino, eu não ia às festas eu era a festa.
- Você ficou chateado comigo?
- Pelo quê, exatamente?
Parei e fitei-o diretamente, seu rosto estava pensativo e duvidoso, porém não havia constrangimento nele.
- Por ter dispensado seus cuidados.
- Não.
Ele sorriu e continuou a andar, eu não sorri, não havia graça. Dispensar meus cuidados?! Não, ele havia me expulsado de seu quarto. Quantos desejaram que eu soubesse os seus nomes? Quantos desejaram que eu lhes visitasse, me oferecesse para cuidar-lhes a ferida? Que eu me preocupasse?
Não importa. Eu sou melhor que isso. Sou melhor que tudo isso, que todos. Não me afetava toda aquela situação e ele não tinha nenhum significado especial para mim, não, ele era um qualquer para mim.
- Solte-me!
Escutei sua voz dizer em fúria e só então notei que ele virara a esquina e eu ficara para trás. Corri na direção de onde sua voz tinha vindo.
Parei surpreso ao ver àquela cena, o rapaz bizarro, sim aquele que minha vitima quebrara o nariz com um murro pouco antes de sumir por semanas da escola, segurava-o a força pelo braço enquanto ele debatia-se tentando libertar-se da mão que o segurava.
- O que está acontecendo aqui?
Perguntei incomodado, ele me pertencia e ninguém tinha a liberdade de tocá-lo a força.
O rapaz olhou-me severo e seguro e sua voz soou, talvez mais tosca que sua própria aparência.
- Ele vem comigo.
Era ridículo demais e não pude segurar minha risada, melhor, gargalhada, avancei sobre ele e com um murro quebrei-lhe novamente o nariz. Vi-o cair ajoelhado com as mãos sobre o rosto enquanto o garoto liberto ia para traz de mim.
- Não, ele vem comigo. Você já tinha sido avisado, não volte a procurá-lo.
Adoraria que o rapaz bizarro aparecesse todas as vezes que eu estivesse mal-humorado, quebrar-lhe o nariz tinha ajudado a melhorar meu dia!
Afastamo-nos daquele local e o ocorrido não só não afetou nosso passeio como não foi posteriormente comentado.
Por fim voltamos ao instituto e então, parados frente ao prédio onde ficava seu dormitório, nos despedimos.
- Até amanha, Heero?
- Se você aparecer no colégio, sim, até amanha.
Deu-me ás costas e começou a caminhar rumo á entrada do edifício, seu corpo fino ficava mirrado dentro do uniforme escolar lhe dando um ar infantil, até mesmo um pouco efeminado, seus sapatos pretos não faziam eco no asfalto e sua trança estava escondida.
- Por que você esconde a trança?
Ele parou e demorou a virar-se, lentamente, sorrindo para mim.
- Nenhum motivo em especial. Por que?
- Deixe-a solta.
Seu olhar pareceu pensativo por um tempo, mas seu riso logo alargou-se ainda mais.
- Está bem. Amanha estarei com a trança exposta.
Não é como se eu quisesse assumir que esperei ansiosamente o dia seguinte, mas na verdade esperei. E foi com completa e total desilusão que, após esperar toda a manhã para poder encontrá-lo, vi seu corpo frágil aproximar-se de mim com os encantadores fios loiros escondidos sob o pano branco e leve de sua blusa.
- Boa tarde, Heero.
- O que houve?
Boa tarde? Esperei horas para receber apenas um "boa tarde"? Não, desculpe. Eu estava decepcionado, aliás, mais do que decepcionado. Como uma ponta de faca, a decepção começava a cutucar minha alma.
Eu queria uma explicação e eu teria uma boa explicação.
- Como assim o que houve?
- Sua trança.
Seu olhar era desentendido e suas sobrancelhas curvavam-se em curiosidade sobre sua testa enrugada pela confusão.
- Que tem minha trança?
- Você me prometeu que estaria com ela solta hoje, acaso esqueceu?
Sua face assumiu uma expressão suave e seus olhos vagavam lentamente pela paisagem como se buscassem nesta a lembrança da promessa. Por fim seus finos dedos afastaram o colarinho da blusa e puxaram para fora os fios presos por um elástico.
-Desculpe-me. É verdade eu tinha te prometido, não sei o que me aconteceu, devia estar distraído quando me arrumei e escondi-a.
Não me parecia ser exatamente essa a verdade, no entanto não cheirava a mentira. De qualquer forma não dei valor, suas mãos acariciando docemente as mechas soltas que emolduravam seu rosto me distraiam alegremente.
O que fizemos então? Sentamos-nos em qualquer lugar e ficamos calados. Ele não era interessante o bastante para que eu fizesse um interrogatório, nem esse era o meu estilo. De qualquer forma ele não parecia querer conversar, pois não tentou iniciar um diálogo.
Os óculos estavam pendurados no bolso de sua blusa e o sol sobre seu rosto sereno fazia-o apertar os olhos claros, suas mãos já não brincavam com os fios de seu cabelo, não, o vento fazia isso, sua boca vermelha não sorria, mas parecia que o fazia.
Não era como um ato romântico nem apaixonado, era um capricho, eu o quis e por isso fiz o que fiz. Eu não esperava algo cinematográfico, mas talvez tenha pensado que seria diferente.
Inclinei-me sobre seu corpo, fechei meus olhos e juntei meus lábios contra os dele e então ele não fez nada. Foi frio como gelo no sal. Eu poderia ter beijado minha geladeira e talvez ela fosse mais adorável comigo do que ele foi.
Afastei-me depois de um tempo sem que o beijo virasse algo além de um inocente selinho. Fitei seu rosto tranqüilo de olhos cerrados e boca convidativa, pensei em tentar mais uma vez antes que ele acordasse de seja qual fosse o sonho que ele estava tendo, porém antes de decidir-me seus olhos me encararam e ele me disse de forma gentil.
- Desculpe-me.
Ri cretinamente. Eu o havia beijado e sido rejeitado, eu que deveria pedir desculpas, eu era o pervertido que o atacara, pois era assim que eu me sentia.
- Não há o que desculpar, eu que te peço desculpas por ter te beijado, jamais deveria tê-lo feito.
- Não há problema nisso. Não precisa se desculpar, perdoe-me por não ter correspondido.
Não me pareceu ter lógica, mas antes que eu argumentasse ou questionasse seu corpo levantou-se e saiu.
Oh, eu era um idiota. Pior do que idiota. Eu provavelmente era um cretino, pervertido, maníaco sexual e manipulador, se eu não o era significava que eu tinha algum problema, pois, afinal, era exatamente assim que eu me sentia.
Permaneci naquele lugar por mais um tempo, não que eu achasse que ele voltaria, apenas estava apreciando a frustração que o doce sabor de seus lábios macios me traziam, por fim parei com minha tortura pessoal e caminhei para minha casa.
A rua era um tédio assim como tudo naquela cidade. Antes essa cidade era um mundo, não tinha limites, agora era um tédio. Não existia mais a cidade, existiam apenas quatro pontos: minha casa, o quarto dele no instituto, ele e eu.
Arrastava-me pela calçada sem pressa até que, ao aproximar-me de casa, vi o pequeno corpo encolhido no chão de minha porta. Corri até ele, pulando o portão para economizar tempo, e abaixe-me em frente a ele.
Seu rosto pálido ergueu-se quando toquei-lhe o ombro e então vi o sangue no canto de sua boca e o inchaço em sua bochecha.
- O que foi isso?
Perguntei ao mesmo tempo em que o levava para dentro da minha casa, não houve resposta e quando terminei de trancar a porta vi-o encostado na parede ao meu lado encarando-me, seus olhos claros imploravam por algo e seus lábios curvados num sorriso que tinha como origem o próprio formato.
O que eu deveria fazer? Eu era um cretino, maníaco sexual, lembram? Abracei seu corpo estreito e o levei até o banheiro em meu quarto.
- Lave o rosto, vou buscar gelo.
Corri para a cozinha como se ir até ela fosse uma viajem longa e tenebrosa e levei comigo para o banheiro uma cuba cheia de gelo.
- Voltei.
- Já parou de sangrar.
- Mesmo assim é melhor colocar gelo, por causa do inchaço.
Seu rosto já estava limpo do sangue e o gelo que eu passava em sua boca e no canto desta fazia-os ficarem ainda mais vermelhos e úmidos, tentadores. Estávamos parados no meio do banheiro, frente a frente e talvez eu tivesse resistido a toda aquela situação, porém seu lábios separaram-se como em um convite, como em um sussurro, como em um suspiro e o gelo afundou-se brevemente na delicadeza daquele ato e então eu o agarrei.
Empurrei-o contra a parede quase o derrubando no chão, porém meu corpo prensava-o fortemente não lhe permitindo escapar e minha boca parecia prender a dele na minha.
Eu sou um pervertido aproveitador e desgraçado. Sou o que vocês quiserem e podem me jogar no mais profundo canto da cadeia acusando-me de tentar corrompê-lo, eu não pararia aquele beijo por nada nessa vida.
Houve um suspiro e então ele correspondia ao meu beijo. Soltei-lhe as mãos e pressionei-o ainda mais contra a parede, eu não estava sendo gentil, no entanto deveria.
O beijo era forte e selvagem, muito me surpreende sua boca já ferida não ter voltado a sangrar, suas mãos agarravam minha camisa buscando um pouco de apoio, talvez. Eu não o tocava, meu corpo não me dava espaço para isso, apenas espalmei minhas mãos contra a parede e rezei para que não o machucasse prensando-o daquela forma.
Havia roupa demais entre nos dois, eu não conseguia sentir direito o corpo que eu pressionava violentamente contra a parede, talvez a culpa não fosse apenas da roupa, meu corpo estava menos sensível por causa da força que eu estava utilizando e por causa da tensão q eu sentia, mas isso não é importante, eu não o sentia direito e ele com quase total certeza sentia-me muito bem.
Afastei-me um pouco, somente o necessário para que minhas mãos pudessem puxar-lhe a blusa, porem suas mãos agarraram as minhas não me permitindo esse ato. O beijo foi interrompido e eu encarei-o esperando que fizesse algo.
Seus lábios inchados ainda mais por conta do beijo curvaram-se em um verdadeiro sorriso e sua voz soou um pouco sem graça ao mesmo tempo em que seu rosto tornava-se graciosamente rubro.
- Estamos indo rápido demais, não?
- Desculpe. Você tem razão.
Ele olhou-me e sorriu mais amplamente e então eu lhe fiz o convite.
- Gostaria de jantar essa noite comigo?
- Que horas?
- Já está quase na hora do jantar. Você vai para seu apartamento, toma um banho e se arruma, é mais ou menos o tempo que levarei para me arrumar e chagar lá para te buscar. Aceita?
- Claro!
Levei-o até a porta e o deixei ir com apenas um leve roçar de nossos lábios, não tinha total certeza que o deixaria partir caso beijasse-o verdadeiramente.
Demorei pouco mais de uma hora para recompor-me, tomar banho e vestir-me e então saí para buscá-lo. Caminhei rapidamente pelas ruas desejando poder encontrá-lo o mais rápido possível.
Não demorei muito para chegar no prédio onde ficava seu dormitório e em poucos minutos, talvez segundos, cheguei a porta escancarada de seu quarto e ao seu corpo pálido esticado, ainda com o uniforme escolar, no chão sobre uma poça de sangue, seu sangue.
Corri em sua direção em completo desespero e verifiquei que não havia sinais vitais. Desabotoei alguns botões de sua blusa para ver exatamente onde estava a ferida, talvez ainda houvesse como salvá-lo, no entanto eu estava errado nestas duas crenças.
Ao abrir-lhe parte da blusa, deparei-me com um pequeno buraco de bala em seu peito de onde já não jorrava sangue e, abaixo do tiro, ataduras fortemente amarradas ao seu tórax mostravam-me nitidamente que não se tratava de um garoto, mas sim de uma garota.
Muito embora eu tenha chamado a ambulância, ainda esperançoso que ela sobrevivesse, e que esta tenha chegado rapidamente com os médicos ao dormitório, ela já estava morta, irreversivelmente morta. Simplesmente não havia nada a ser feito, ela já estava morta quando cheguei.
Então o médico olhou-me, após levar o corpo, e perguntou-me qual o nome dela e então eu notei, jamais soube o nome dela, nem quando ela fingia ser menino nem quando, subitamente morta, ela virou mulher. Eu simplesmente não sabia nada ao seu respeito e agora ela estava morta, ela jamais me contaria nada.
C-O-N-T-I-N-U-A
Nota da Autora
Então... sei que demorei, novamente, desculpem.
E acho que não respondi quase nenhum comentário, mil desculpas.
Hoje eu vou viajar e passar um tempo fora, mas tentarei responder todos os comentários antes de viajar, então... se você receber a resposta de um comentário já respondido, desculpe mesmo, é que o ultimo mês de aula foi uma completa loucura e acabei ficando completamente lesada.
Estou postando tudo, sim, T-U-D-O o que eu tenho de Quadrado, espero que gostem!
Gostaria de agradecer profundamente a todos aqueles que leram e comentaram em Quadrado, e espero que gostem da surpresa
Feliz Natal e Bom Ano Novo!!!
Beijos, Zika McDragon!
