Quadrado VII

Muito embora eu tenha chamado a ambulância, ainda esperançoso que ela sobrevivesse, e que esta tenha chegado rapidamente com os médicos ao dormitório, ela já estava morta, irreversivelmente morta. Simplesmente não havia nada a ser feito, ela já estava morta quando cheguei.

Então o médico olhou-me, após levar o corpo, e perguntou-me qual o nome dela e então eu notei, jamais soube o nome dela, nem quando ela fingia ser menino nem quando, subitamente morta, ela virou mulher. Eu simplesmente não sabia nada ao seu respeito e agora ela estava morta, ela jamais me contaria nada.

Não há nada que possa ser dito sobre os momentos subseqüentes. Seu corpo gélido fora declarado morto e seu nome, afinal, declarado. Encarreguei-me, por motivações pessoais inexistentes, de seu enterro e velório. Que me restava fazer além de garantir-lhe paz na morte se em vida apenas o atormentei?!

Por mais que sua certidão de óbito e o maravilhoso vestido que eu escolhera para que usasse pelo resto de sua mórbida eternidade deixassem claro seu sexo feminino, para mim ela ainda era o rapaz sentado sob a frondosa árvore lendo algum estúpido livro cultural.

Sem sua existência meu mundo voltava a ser apenas meu, eu. Mas faltava algo, eu apenas já não era o bastante para preencher meu próprio mundo, faltava ele. A certeza do desgosto e frustração que ele podia me trazer, a certeza da plena incerteza, a certeza de seu quarto.

Não havia mas uma porta onde buscá-lo, seu quarto já não existia. Jamais o encontraria com o olhar fixo no nada, o vento lambendo seu rosto pálido e o sol dourando seus longos fios castanhos.

Ah, eu ainda o queria. Mesmo morto eu o queria!

Seu rosto andrógeno nada me dizia sobre o que em seu corpo mirrado deveria ser obvio. Faltava-lhe sexo, mas sobrava-lhe beleza. Eu o queria todo.

Não era como amor, não, longe disto. Era posse. Ele era meu e eu o queria todo, queria sua vida, suas coisas e roupas, seu corpo, sangue, carne, órgãos e alma, queria sua morte, pois, assim como tudo nele me pertencia, ela também me pertencia.

A seda vermelha de seu caixão fingia tingir docemente sua pálida face enquanto o negro vestido empalidecia seus braços e busto. Seu corpo tão infantil não parecia mais maduro em morte, nem seu belo rosto em paz. Não havia nada naquele berço além de uma criança morta.

Eu não gostava de crianças.

Esses seres diminutos de corpos assexuados e frágeis, vozes estridentes e existência repugnantemente irritante.

Agora no mundo havia menos uma criança, ótimo.

No entanto seu corpo naquela caixa não me parecia ótimo. Eu queria vingança. Queria matar lentamente quem me tirou a chance de tê-lo, de sentir sua adorável pele sob a minha, suas delicadas mãos em meu corpo, sua respiração ofegante. Queria ver novamente sua face avermelha-se, queria-o bêbado sobre o bar, sua dança, seu corpo esgueirando-se pelos corredores abarrotados do instituto, sua fuga desesperada do quarto. Desejava intensamente beijar-lhe novamente a boca de forma tão rude que seria capaz de arrancar-lhe a alma por esta.

Jamais deveria tê-lo deixado partir.

Arrependia-me de não tê-lo arrastado para cama naquele momento em meu banheiro. Não, não precisava tê-lo levado para cama, ali, no chão ou contra a parede estava ótimo.

Queria uma nova chance para obter o que eu desejava, o que tanto desejara. Ela era tão linda, tão minha. Mesmo morta eu a desejava. Mesmo morta ela me frustrava.

Sentia-me indignado com sua incrível capacidade de arruinar meus planos, de fazer-me desejar algo que não podia ter.

Agora realmente podia compará-la à minha geladeira, afinal, além da incrível capacidade de não me corresponder, ambos eram branquíssimos e gélidos.

Desejava tocar-lhe as mãos e comprovar que eram como gelo, porém faltava-me vontade, sua falta de calor já era intensa o suficiente para ser sentida a distancia, não necessitava toque.

Hilário pensar que mesmo em sua morte ela continuava insignificante. Eu era sua morte, eu era a festa. Seu amplo velório permanecera, literalmente, vazio até saberem que, além do morto, eu estava lá.

Sentado diante do baú eu fitara a morta por horas e não me cansara disto. Quantas surpresas ela poderia trazer-me? Fora uma incógnita durante a vida, contrariando toda a lógica de meu mundo ela fizera tudo da forma errada, subitamente morta ela me revelara seu verdadeiro sexo, que choque me causara! Agora eu fitava-a e pensava "Surpreenda-me!".

Essa era sua surpresa para mim.

Nada.

Seu corpo branco e frio como qualquer cadáver.

Ela era uma estátua que logo entraria em decomposição.

Surpreendia-me não haver surpresa.

Ouvi as exclamações de surpresa e o som dos corpos levantando-se dos bancos, olhei para trás e lá estava ela, lindíssima em sua roupa cor de noite com seus fios claros caindo-lhe por sobre os ombros como raios de sol.

Parou ao meu lado e ao debruçar-se sobre seu próprio corpo me fez sentir seu perfume e ouvir sua voz suspirar pouco antes das bocas encostarem-se.

- Dan,,,

Ah! Eu estava doido.

Em algum maravilhoso momento de todos esses fatos eu havia sido desprovido de minha sanidade e coerência e, neste momento, eu delirava completamente aturdido.

Toquei-lhe a cabeça acariciando-a e ele olhou para mim. Seu corpo estava coberto por uma calça e blusa social e um sobretudo, ele se atirou contra mim e eu o abracei.

Eu achava estar confortando o corpo masculino da garota que eu encontrara morta, da garota que eu estava pagando o enterro, que eu via deitada no caixão por cima dos ombros do rapaz. Eu tinha enlouquecido e ninguém me fez o favor de internar-me em um sanatório.

Logo nos separamos e permanecemos juntos, lado a lado, fitando-a exercer sua morbidez no caixão a nossa frente. O velório não se prolongou muito mais e, de alguma forma estranha, ele, a minha mórbida alucinação caminhante, hospedou-se em minha casa poucos dias depois.

Dan...deveria tê-la amado.

Via-o caminhar lentamente pelos cômodos de minha casa e ignorava-o, era apenas meu delírio particular. Minha frustração em carne e osso atormentando meu desejo, mesmo morta eu o queria. Mesmo enterrada ele andava pela minha casa e seus fios soltos balançavam ao vento de seus passos lentos, roçando suas claras pontas em meu corpo toda vez que cruzava meu caminho.

Não sei quando nem de que forma amei-o. E ela era realmente um homem.

Em algum momento dos longos dias que cri estar louco, por qualquer motivo, ele me abraçou. Não houve choro nem lamento, não compartilhou comigo nenhuma lembrança ou pensamento. Simplesmente abraçou-me e deixou-se escorregar até o chão onde se sentou, ainda enlaçando meu corpo que o acompanhara em sua queda.

Era ridículo sentir o calor de seu corpo supostamente ilusório e sem vida contra o meu e após tornarem-se freqüentes seus silenciosos abraços não foi difícil fazê-lo amanhecer em minha cama.

Dan, ainda havia calor em seu corpo, mas não havia ninguém ali. Deitava-se em minha cama com total indiferença e jamais falou-me nada, seus olhos eram vazios e claros como se feitos de vidro.

Arranquei-lhe os óculos ridículos e mantive seus fios sempre soltos, pois assim em agradava, mas nele não havia vontade de agradar-me, não havia nada. No entanto era um bonito brinquedo e eu continuava frustrado.

Eu tinha-o e não era isso que eu queria, enjoava-me, sentia tédio. Havia sido doce a batalha para conquistá-lo e tê-lo não era amargo, simplesmente não tinha gosto algum.

Voltei, um dia, para casa e não o encontrei. A casa estava completamente vazia e assim ficou por semanas, não me preocupei nem o procurei, ele não era o rapaz que eu decidira conquistar, era apenas um corpo vazio. Não senti sua falta em minha cama, mas sim pela casa. Podia ainda sentir sua presença perambulando lentamente com seus passos mudos como sua boca.

Quase dois meses depois tocaram a campainha de minha casa e, sem preocupar-me em perguntar quem era, abri.

-Boa tarde, Heero.

Disse-me Dan com seu sorriso bobo estampado em sua face branca.

- Sentiu saudades?

Brincou de forma retórica enquanto eu permitia-lhe entrar em minha residência. Não trazia nada consigo, suas roupas eram simples e sujas e seu cabelo, provavelmente trançado, estava escondido em suas roupas. Olhei-o de cima a baixo avaliando-o, deplorável, e ele fedia.

- Você fede, precisa de um banho.

- Obrigado, também senti saudades.

Deprimente, aquele era Dan. Vi-o caminhar para o meu quarto e o segui após trancar a entrada de minha casa, não o encontrei, pois já entrara no banho, no entanto suas roupas imundas estavam jogadas no meio do quarto.

Ri.

Abri meu armário e joguei sobre a cama qualquer roupa que de lá tirei. Mesmo enrolar-se em lençóis seria melhor do que voltar a vestir aqueles trapos que estavam jogados no chão. Não demorou para que ele aparecesse na sala, com seu cabelo encharcado pingando para todos os lados e minha roupas largas, desalinhadas, em seu corpo mirrado permitindo-me ver sua pele pálida. Deja vu.

Sentou-se no sofá e apanhou na mesa de centro a caneca com café que eu deixara ali para ele. Sua boca pequena e vermelha contraiu-se soprando lentamente o liquido que fervia.

-Seu nome é Dan, correto?

Era uma pergunta idiota e mesmo inconveniente, se seu nome não me fora necessário em todos esses meses, não seria agora que precisaria sabê-lo. No entanto queria saber, mesmo que apenas o usasse quando ele morresse.

- De certa forma, sim.

- E aquela menina?

- Minha irmã, Dan.

- Dan?

- Sim, Dan. Antes de sermos adotados ninguém se deu ao trabalho de nos nomear e Dan era a única coisa que lembrávamos.

- Adotados?

- Sim. O senhor que nos adotou batizou-nos de Daniele e Duo.

- E como devo chamá-lo?

- Tanto faz.

Assisti seu rosto sumir por trás da caneca enquanto me acostumava com a idéia de tê-lo de volta. Perguntei-me como seria de agora em diante, se teria que conquistá-lo, se queria conquistá-lo, se ele ainda era ele.

Quem estaria falando comigo? Dan? Duo? Minha alucinação?

Ali estava ele, bebendo café comigo, em minha sala e Dan estava morta e enterrada, eu não havia respeitado seu luto nem sua dor. Eu sabia disso.

- Vai dormir aqui?

- Hoje?

- Sim.

- Desculpa, hoje terei que voltar ao colégio. Pedirei um novo quarto, não posso, afinal, me hospedar aqui eternamente.

- Por que não?

- Não posso pagar.

- A eternidade não me custa tão caro.

Ele riu, riu como antigamente. Sua risada baixa e fina com seu rosto avermelhando-se rapidamente. Adorável.

Agradeceu-me as roupas, o banho e o café e partiu caminhando lentamente pela rua, com sua trança balançando felinamente em suas costas.

O morto caminha pelo instituto, diziam e olhavam-no aterrorizados. Se antes de sua suposta morte Duo era ninguém, após perder a irmã tornou-se repugnado, no entanto ainda caminhava pelo corredor como antes, muito embora todos desviassem de seu corpo e não o contrario. Não me foi difícil encontrá-lo sentado sob aquela mesma árvore, como na primeira vez. Desta vez não lia, nem olhava tranqüilamente para o nada, estava apenas sentado naquele banco entediado. Sentei-me ao seu lado.

- Oi.

- Eu morri com ela.

Fitei-o sem entender completamente, no entanto não precisei perguntar para que sua mão indicasse a região fazendo me olhar ao redor. Não havia ninguém por perto.

- Sou um morto ambulante. Não há a menor diferença entre Daniele e eu. Somos, afinal, o que sempre fomos: Dan.

- Isso não é verdade. Você é você e, embora vocês sejam parecidos, não são a mesma pessoa.

Eu estava sendo legal, como eu tinha mudado, surpreendente, mas nem eu era capaz de dizer quem era quem. Não sabia quem tinha beijado, não sabia quem eu tinha agarrado no banheiro, não sabia com quem eu tinha dançado, nem quem me expulsara do quarto. Teria sido ele ou ela?

De certa forma estava feliz por ela estar morta. Isso me garantia, finalmente, que "ele" sempre seria ele.

Toquei-lhe gentilmente o rosto e beijei-o, no entanto Duo virou o rosto fazendo-me beijar-lhe a bochecha. Afastei-me e esperei que ele me encarasse.

- Desculpe.

- Tudo bem.

Ficamos calados por longos minutos, nunca havia desejado tão intensamente que ele falasse algo, qualquer coisa. Seu silencio me deixava inquieto, parecia que a qualquer momento ele voltaria a ser aquele corpo sem vida.

Lembrei das noites que estive com ele e ocorreu-me, finalmente, que, de fato, eu estive com ele, mas em momento algum ele esteve comigo.

Eu não lhe fiz a menor diferença. Eu não fazia a menor diferença. Eu lhe era nada. Queria-o para mim, queria saber como era ser desejado por ele, desejava que ele estivesse comigo.

Olhei-o aterrorizado. Eu era nada.

Desejei que ele estivesse morto no lugar de Dan. Talvez eu fizesse diferença para ela. Se ele não me correspondia, quem havia me correspondido na festa e no banheiro era Dan. Eu queria aquilo de volta. Eu queria Daniele, eu não o queria. Desejava trocá-lo por ela, o enterraria vivo se, dessa forma, a terra tirasse de seu corpo a chama da vida e enfiasse-a no frio corpo de sua semelhante.

Dan... eu deveria tê-la amado.

- O que houve, Heero, está tudo bem?

- Sim, claro.

Claro que não estava. Daniele. Ela estava morta e eu queria matá-lo por não ter morrido em seu lugar. Eles eram iguais, por que ele não podia ser ela?

- Desculpe, Duo, tenho que ir.

E foi o que fiz, não esperei sua resposta, caminhei rapidamente para longe daquele maldito lugar onde a conhecera... ou o conhecera.. não importava. Comecei a correr quando saí de seu campo de visão. Corri por muito tempo. Corri sem parar.

Corri pela cidade sem rumo. Fugia de sua morte, talvez. Fugia de seu assassino, sim, Duo a havia matado quando não morrera em seu lugar. A quanto tempo eu corria? Seria eu capaz de correr até morrer para então reencontrá-la? Eu queria reencontrá-la?

Parei subitamente cansado. Ela era um simples capricho. Era apenas uma garota qualquer, qualquer outra poderia substituí-la.

Dan...

Agora arrastava meus pés pela calçada, já era fim de tarde e eu estava, finalmente, cansado. Caminhava sem pressa e ao aproximar-me de casa, vi um pequeno corpo encolhido no chão de minha porta. Corri até ele, pulei o portão, e abaixei-me em frente à pessoa. Deja vu.

Daniele...

Seu rosto ergueu-se e seus olhos claros me fitaram, seus lábios sorriram e sua voz doce soou em notas de enganação e morte.

- Finalmente! Estava ficando preocupado.

Duo...

Sua voz me fazia desejar que ele fosse Daniele. Desejava me enganar, eu desejava me enganar! Mas ela estava morta, morta e enterrada. Mas eles eram tão iguais...mesmo sua estúpida voz era igual.

- O que você faz aqui, Duo?

Ele levantou-se e bateu da roupa a poeira do chão. Levantei-me também e fitei-o.

- Vamos entrar, Heero.

Esperou-me abrir a porta sem me apressar. Eu não estava animado, longe disso, começava a sentir meu péssimo humor concentrar-se em minhas têmporas, eu teria, em breve, uma brutal dor de cabeça.

- Vim lhe preparar um jantar. Você parecia transtornado hoje à tarde, quando conversamos no banco, em baixo da árvore, fiquei preocupado.

Falou entrando em minha casa no exato momento em que abri a porta, simplesmente se dirigiu para minha cozinha sem esperar-me entrar nem falar se queria ou não jantar.

Ele colocou na cozinha as sacolas de compras que só agora eu notava a existência e voltou-se para mim com uma expressão de estranheza. Eu não havia respondido nada.

- Você está bem?

Caminhou até mim, no meio da sala, e tocou-me a testa.

- Você parece pálido, venha... lave seu rosto, parece cansado.

Guiou-me até o banheiro do meu quarto e colocou-me em frente a pia abrindo em seguida a torneira de água fria.

- Lave o rosto, vou buscar um copo de água.

Dan...

Fiquei estático fitando a água escorrer rapidamente para o ralo, não demorou para que ele voltasse com um copo de água.

- Tome, beba Heero.

Segurei o copo sem animo enquanto ele fechava a torneira e me fitava parado exatamente na minha frente.

- Pelo visto você não lavou seu rosto, pelo menos beba a água e tome um banho, ou deite-se enquanto preparo o jantar.

Permaneci calado e ele sorriu para mim. Seu sorriso era tão lindo. Seus olhos desviaram para uma parede, seu rosto ficou rubro e seu sorriso alargou-se.

- Deixe-me cuidar de você como você cuidou de mim aquele dia, Heero.

Assustei-me ao escutá-lo e fitei-o como se nunca o tivesse realmente visto, era ele e não ela. Era ele e ele estava vivo!

Deu-me as costas e começou a caminhar para fora do banheiro enquanto sua voz soava divertida.

- Hun, deja vu.

Senti ímpetos de correr até ele, segurá-lo e jogá-lo no chão. Agarrá-lo e fodê-lo ali mesmo. Mas não o fiz, estava confuso. Não sabia quem eu realmente queria, se seria Duo ou Dan. Não sabia se, realmente, existia diferença entre eles.

Se Duo foi quem me correspondeu, foi Dan quem me rejeitou? Porém Duo também me rejeitou, então teria Dan me correspondido também?

Eu queria aqueles momentos de volta, queria uma nova oportunidade, mas não sabia com quem fora cada momento, não sabia se queria Dan ou Duo. Não sabia se, para mim, realmente existia diferença.

Odeio gêmeos, duas pessoas tão iguais capazes de confundir os olhos e o coração. Eu não tinha coração. No entanto, se não o tinha, o que me causava tanta angustia?!

Ele já tinha ido para a cozinha fazia tempo e eu me encontrava sentado no chão frio do banheiro, podia ouvir os sons que produzia enquanto preparava a comida, não sabia que ele era capaz de cozinhar, não conseguia puxar de minha memória coisas sobre ele, não conseguia saber se o que eu lembrava era com ele ou com ela.

Eu e ela, ela era ele. Eu e ele, ele era ela. Ele e ela eram a mesma pessoa.

Eu os amava? Seria, eu, capaz de amar?

- Heero?

Olhei para frente e ali estava ele, ela, sorria-me um tanto inseguro.

- O jantar está pronto, venha comer, espero que você goste.

- Você sente falta dela, Duo?

Permaneceu mudo por longos minutos antes de responder-me de forma imparcial.

- Crescemos juntos, tínhamos o mesmo nome, o mesmo rosto. Éramos iguais. Gostávamos das mesmas coisas e podíamos simplesmente trocar de lugar, sempre trocamos de lugar. Quando eu era criança, rasparam minha cabeça para que pudessem nos identificar, ela raspou a dela, para que continuássemos iguais.

- Então você sente falta?

Suspirou de forma conformada.

- De certa forma somos a mesma pessoa. Mas sim, sinto a falta dela... E de mim.

Não parecia disposto a continuar naquele assunto e deixou isso claro quando me deu as costas e caminhou rumo ao quarto, no entanto queria saber mais, queria mais, queria tudo. Ele era meu capricho e eu o queria todo.

Seu corpo, alma, sangue, suas lembranças, seu futuro, queria sua dor e amor, ele era meu e eu teria tudo.

- Você a amava?

Parou no centro de meu quarto e fitou-me perplexo. Suas sobrancelhas ergueram-se incredulamente e sua boca vermelha pronunciou da forma humanamente mais clara possível.

- Você sabe o que é o amor, Heero? Você já amou alguém? Mesmo seus irmãos?

- Não.

Respondi indiferente fitando-o nos olhos. Sua expressão mudou e sua voz soou cansada, respondeu sem fitar-me.

- O amor é composto por quatro paredes. Eu a amava mais do que a mim mesmo, pois, para mim, ela era mais eu do que eu. Carinho, confiança, companheirismo e compreensão. Essa são as quatro paredes do meu amor por ela. Daniele sempre está no centro e essas paredes que a cercam fazem com que eu sempre a ame.

- Então você jamais amará outra pessoa?

- Não dessa forma.

Eu não tinha o que responder, mas deveria ter dito algo, qualquer coisa seria melhor que nada. No entanto fiquei calado.

Sorriu-me e retirou-se do meu quarto, não o segui. Não estava com fome.

- Você não vem? Estou te esperando.

Perguntou-me quando, depois de um tempo, voltou ao meu quarto.

- Não, estou sem fome.

- Ah.

Não pareceu feliz nem surpreso com essa resposta, simplesmente sentou-se em minha cama e ficou me encarando. Não fiz nada.

- Vamos ficar assim para sempre, Heero? O que aconteceu?

Não respondi, apenas continuei imóvel e com meu olhar fixo nele.

- Bem, acho que você quer ficar sozinho. Estou indo embora. Até.

Disse conformado após um derrotado suspiro, levantou-se de minha cama e deu-me as costas novamente, ao mesmo tempo em que caminhava rumo à saída.

Ele ia embora. Realmente ia embora e me deixar ali, novamente, como fizera por dois meses fazia pouco. Talvez eu nunca mais o visse, teria perdido-o e perdido-a para sempre. Não, eu não me importava mais com ela, desejei-a por desejá-lo, pois ela fingia ser o irmão. Era ele quem eu queria.

Levantei-me rapidamente e puxei-o com força para dentro do meu quarto. Vi-o perder o equilíbrio e chocar-se contra mim.

Caímos sobre minha cama e, antes que ele pudesse tentar algo, prendi-o contra meu corpo em um firme abraço e virei-nos na cama de forma a deitar em suas costas.

Agora ele estava preso, ele era meu, não havia fugas nem escapatórias, eu tinha todo o tempo do mundo. Eu era mais forte.

Encostei meu rosto no dele esfregando lentamente nossas bochechas. Senti o perfume em seus cabelos macios e sussurrei docemente e seu ouvido.

- Não. Eu te quero aqui.

Ele não lutou nem reagiu, por tanto soltei-o e dei-lhe espaço para que pudesse virar de barriga para cima na cama. Fitei-o analisando sua expressão de surpresa, pousei minha mão sobre sua face, eu conhecia aquele rosto, aquela pele.

Contornei-lhe a boca com meu dedo antes de beijá-lo e, ao não ser rejeitado, aprofundei o beijo.

Seus braços enlaçaram meu corpo enquanto suas mãos agarravam a parte de trás da minha camisa. Seu rosto avermelhava-se com a mesma velocidade de sempre, eu já conhecia tudo aquilo. Os suspiros, os fios soltos caídos ao redor de seu rosto, seu corpo magro sob o meu, não era confortável. Seus ossos me espetavam, mas tudo bem.

Era estranho finalmente tê-los comigo e como minha mente se ocupava com ele, como eu estava com ambos, mesmo sabendo que a garota estava morta.

Ele estava certo desde o inicio. Não importava nada que ele pudesse fazer, ele ainda seria ambos.

No entanto, o mais incrível deste momento, não é a forma como simplesmente quase não evoluímos nesse tempo em que divaguei enquanto o beijava, mas sim o fato de que, subitamente, alguém tocou a campainha da minha casa longas vezes consecutivas.

Ponderei todas as possibilidades sobre quem poderia estar sendo tão desagradável assim, porém não cheguei a conclusão alguma. Minto, cheguei à conclusão de que adoraria enfiar um tiro na testa do infeliz.

Repentinamente lamentei não possuir nenhuma arma em casa e, a cima de tudo, ter demorado tanto para agarrá-lo.

Abri a porta com desgosto e deparei-me com um homem alto, terrivelmente alto. Suas roupas eram negras assim como os longos fios que cascateavam por seus ombros até a altura da cintura.

Seus olhos calmos, indiferentes fitaram-me de cima e sua voz fria soou.

- Procuro Dan.

Dan estava morta e eu não sabia o que dizer, porém Duo apareceu ao meu lado, com suas vestes desalinhadas e sua trança semi desfeita.

- Heero...

Continua.

Nota da Autora:

Mais uma vez, desculpem-me pela demora.

Espero que tenham gostado.

O próximo capitulo é o último.

Beijos, Zika McDragon

Ps: Feliz Natal e Feliz ano novo super atrasado para todo mundo!

Desejo tudo de bom nesse ano de 2008 e nos muitos que estão por vir.