Quadrado VIII
Abri a porta com desgosto e deparei-me com um homem alto, terrivelmente alto. Suas roupas eram negras assim como os longos fios que cascateavam por seus ombros até a altura da cintura.
Seus olhos calmos, indiferentes fitaram-me de cima e sua voz fria soou.
- Procuro Dan.
Dan estava morta e eu não sabia o que dizer, porém Duo apareceu ao meu lado, com suas vestes desalinhadas e sua trança semi desfeita.
- Heero...
Eles se encararam por longos minutos. Não havia surpresa nem nenhum sentimento estampado em seus rostos.
- Volte para casa, Dan.
Não foi um pedido, nem uma ordem ou comentário. Eu não sabia que espécie de categoria aquelas palavras pertenciam, no entanto Duo apenas desviou o olhar e voltou para dentro de casa, como se não houvesse ninguém a porta.
Por fim obriguei-me a comunicar o estranho antes de fechar lentamente a minha porta.
- Dan está morta, lamento.
Eu realmente lamentei aquela noite - não mais do que lamentaria no dia seguinte – e não foi por causa dele.
Após fechar a porta deparei-me com Duo servindo o jantar tranqüilamente.
- Quem era ele, Duo?
Ignorou-me plenamente enquanto terminava de por sobre a mesa todos os alimentos, era muito mais do que nos dois seriamos capazes de comer mesmo se estivéssemos morrendo de fome.
- Quem era ele, Duo?
Insisti quando finalmente ele puxou a cadeira onde eu costumava sentar e encarou-me esperando que eu assumisse meu lugar, no entanto não obtive resposta novamente.
- Quem era ele, Duo?
- Heero...
Ele desviou o olhar ao responder e, por algum motivo, isso me enfureceu mais do que eu jamais imaginaria.
- Quem era ele, Duo?!
Gritei sentindo o sangue subir rapidamente para meu rosto e em resposta recebi outro grito antes dele abandonar a sala.
- Heero!
Não comi o jantar, nem ele.
Ele dormiu em minha cama, de costas para mim. Ignorou-me completamente, não que eu tenha tentado mudar isso, também não lhe dirigi a palavra.
A noite foi longa e monótona. Não sei dizer se acordei antes do horário de sempre ou se simplesmente não dormi. Deixei-o dormindo quando saí para o colégio, não tinha certeza se queria ele ao meu lado naquele momento, além do mais... ele ainda poderia dormir por mais de uma hora e não estaria atrasado para a aula.
Depois de tantas coisas o ano finalmente chegava ao fim, mal conseguia me lembrar de tudo o que acontecera durante os meses, lembrava-me bastante dele, e dela provavelmente.
Estava cansado. Não daquela noite, nem semana. Estava cansado de mim, de tudo. Queria algo diferente.
Mudar meu quarto, nome, aparência. Tudo era tão... desgastante. Nada era como fora antes deles. Mesmo meu nome soava diferente quando não dito por aquela boca vermelha.
Duo não foi para a escola naquele dia. Não houve nenhuma estranheza, ele faltava constantemente.
Não importava o quão bom aluno ele fosse, ele estava reprovado por falta. Esse já era uma boa justificativa para ele não aparecer para qualquer pessoa, mesmo para mim parecia razoável sua falta.
Imaginei que estaria com um humor semelhante ao meu, não que estivesse péssimo, apenas preferiria permanecer quieto em meu canto. Já que lhe cedi minha casa para que pudesse ficar emburrado em paz, não me restou canto onde me manter longe de todos.
Após as aulas caminhei pela cidade, talvez quando eu finalmente voltasse tudo poderia fluir de forma mais tranqüila e harmônica. Poderíamos nos dar bem.
Eu sei. Estou patético.
No que, exatamente, me transformei? No que me transformaram?!
Rendido aos mimos e birras dele!
Hospedei-o, alimentei-o, deixei que descansasse em minha cama, saí de minha casa na calada da madrugada para deixá-lo em paz.
Ridículo, ridículo, ridículo.
E eu nem o havia fodido.
Votei para casa ao fim da tarde, os cômodos estavam na penumbra e pairava um silencio agradável. Caminhei sem pressa enquanto verificava se ele não estaria na sala.
Ocorreu-me então que ele poderia ter partido, novamente. Que talvez dessa vez não voltasse.
Era tolice. Ele sempre voltava. E ela sempre voltava nele.
Passei pela porta do meu quarto e parei, ali estava ele.
Sua trança escurecida pela ausência de luz escorria-lhe pelas costas, suas mãos pendiam relaxadas. Sua face parecia serena, embora um pouco arroxeada, e pendia levemente para o lado. Seus pés roçavam lentamente o chão enquanto seu corpo oscilava fracamente para os lados.
Mesmo assim, com sua pele pálida e fria e sua respiração congelada, ele continuava linda, pendurado por uma corda no centro de meu quarto.
Corri em sua direção. Não sabia o que fazer. Pensei em chamar os médicos, a ambulância. Afastei-me. Ocorreu então que não poderia deixá-lo assim, pendurado.. poderia estar acabando com o resto de vida que lhe sobrava. Voltei, mas faltava-me lamina.
Corri para a cozinha, no entanto agarrei o telefone tentando pedir ajuda ao mesmo tempo em que procurava uma faca.
Esbarrei-me no batente da porta quando entrei novamente em meu quarto, agarrei-lhe a cintura e cortei a corda.
Senti seu corpo frio pesar em meus braços, logo alguém chegaria para salvá-lo. Deitei-o no chão e antes mesmo que decidisse arrancar-lhe do pescoço o laço que o sufocava a campainha tocou.
Deixei-o apenas para abrir a porta e retornei ao seu lado sendo seguido por médicos.
Seu corpo estirado sobre o piso do meu quarto ainda vestia o uniforme escolar. Não importava a minha rapidez, nem desespero, ele estava mortos, irreversivelmente morto.
Deja vu.
Perguntaram-me seu nome antes de levarem o corpo.
- Duo.
Dessa vez eu sabia o nome, muito embora tenha desejado dizer Dan. Como ela ainda vivera, mesmo morta, no corpo do irmão, talvez a matando novamente, ainda restasse Duo.
Levaram-me para o hospital após o interrogatório e, parado na entrada deste, eu o encontrei.
Estava como estivera no dia anterior. Sua roupa negra, seu cabelo escuro desta vez estava preso, em suas mãos um cigarro L.A. sabor qualquer-coisa e seu corpo encostado na parede.
Senti seus olhos fitarem-me, mesmo agora não saberia dizer que cor eles eram, mas sou capaz de garantir a frieza que ali reinava.
- Qual teu nome?
- Heero.
Respondeu-me distraído entre uma tragada e outra. Pedi um cigarro e ele me entregou a caixa.
- Você fuma, garoto?
- Agora fumo, Heero. De onde você a conhecia?
- Dan? Casei-me com ela faz alguns anos.
Ascendi o cigarro e encarei-o. Então esse era o esposo?! O idiota. O louco. Um belíssimo idiota ele era, afinal.
- E Duo?
- Somos irmãos.
- Casou-se com sua irmã, então?
Olhou-me indiferente e respondeu soprando sobre meu rosto a fumaça.
- Eram adotados.
Nosso silencio durou até fim de seu cigarro quando estendeu-me a mão pedindo de volta mais um que logo começou a fumar.
- Há uma coisa que você um dia entenderá, rapaz. Não há como fugir deles. Em breve desejará arrombar-lhes as covas apenas para tê-los mais uma vez consigo.
Era insano demais para minha cabeça por isso não respondi, o homem era doido. Doido e compulsivo.
Ascendeu o terceiro cigarro.
- Desculpe-me, qual teu nome?
- Heero.
- Você a teve?
- Quem?
- Dan.
Seus olhos brilharam de forma selvagem estreitando-se perigosamente quando me fitou. Não havia resposta para essa pergunta. Eu era incapaz de distingui-los.
- Não. E você?
- Ela era minha esposa, o que você acha?
- Me referia a Duo.
- Dan? Eles eram a mesma pessoa.
Seu quinto cigarro chegou ao fim e o seguinte logo iniciou-se, eu ainda estava em meu segundo.
Ela era casada. Ele era casado?
Como seria possuí-la? Seriam realmente iguais, embora diferentes?
- Duo era casado?
- Dan era minha esposa.
O homem era realmente desequilibrado. Dan, Daniele, Duo... começava a me confundir de quem ele falava. Quantos cigarros aquela caixa possuía? Comecei a acompanhar-lhe o ritmo do fumo.
Heero, Heero, Heero.
Quase podia ver seu pálido corpo sobre o dela, pressionando-a, prendendo-a. Os fios negros soltos espalhando-se pelas costas largas e caindo, por conta do movimento continuo, sobre o rosto avermelhando. Podia sentir-lhe as mãos prendendo-a pelos pulsos.
Eu poderia ter tido isso.
Se eu me transformasse nele, seria uma forma de tê-la... tê-los.
Ponderei seriamente fugir do sol, deixar meu cabelo crescer e pintá-lo de preto, porém a idéia perdeu-se com o findar da brasa em meu fumo.
Puxei outro L.A. para meus lábios.
- Ele esteve contigo esse ultimo mês?
- E contigo antes disso.
- Por que ele foi para você?
- Por que ele foi para você?
A caixa de fumo finalmente chegou ao fim. Toda aquela fumaça não deveria estar nos fazendo bem.
Imaginei que a conversa acabaria ali e que poderia finalmente ficar sozinho, afinal, viciado como ele era não agüentaria, teria que ir comprar mais outra caixa. Eu estava enganado.
Tirou de dentro de sua jaqueta outra L.A.
Que espécie de pessoa carrega consigo, em suas vestes, mais de uma caixa de cigarro quando ambas estão cheias?!
Parecíamos duas locomotivas.
- E o enterro de Dan?
- Foi tranqüilo, Duo apareceu por lá.
- E o enterro de Dan?
- Qual Dan?
- Dan.
As vezes era difícil entender do que exatamente estávamos falando, deveria ter parado de fumar e entrado no hospital para buscar informações, mas não parei.
- De quem eles fugiam?
Olhou-me tranqüilamente com os dedos próximos a boca enquanto dava outra tragada, por fim jogou o cigarro não findado no chão e olhou para cima, para o céu, como ele era lindo, e soprou a fumaça.
-Bem... eles estão juntos agora.
Desencostou-se da parede e foi embora para o estacionamento.
Seu carro era preto e seu motorista bizarro.
Deveria ter entrado, no entanto fui comprar cigarro na banca mais próxima. Ele havia levado a caixinha de L.A.
Suicídio.
S-u-i-c-í-d-i-o.
Acordaram-me no hospital, pois foi lá onde dormi, para avisar-me sobre sua morte. Eu já sabia de sua morte, mas não que fora suicídio.
Parece tão clichê.
Tão tedioso.
Nem em sua morte ele era grandioso.
Poderia ter se dado ao trabalho de ser morto por alguém, ao menos.
Nada de missa para ele.
Iria arder no inferno como mandava o figurino.
Pelo menos ele arderia em algum lugar, mesmo não sendo em minha cama.
Voltei para casa no inicio da tarde, caminhando tranqüilamente pelas ruas da cidade, sentindo o sol claro lamber minha face com seus cálidos raios. O vento ameno acariciava minha pele enquanto brincava com as pontas de meu cabelo.
Não havia pressa, não havia mundo. Eu estava sozinho novamente.
Eu.
Gostava dessa palavra.
Eu.
Tinha que gostar, afinal, gostava antes, não poderia simplesmente mudar, eu era velho demais para mudar. Eu gostava demais de mim para querer mudar.
Fechei meus olhos lentamente enquanto jogava por cima de meu ombro direito minha jaqueta. Não estava frio, mas as folhas secas rolavam pelo chão.
Podia sentir o perfume, os passos, as pontas dos seus longos fios roçarem lentamente em mim. Eu estava só.
Voltei para casa. Estava tudo escuro e o jantar que ele me preparara na véspera de sua morte apodrecia calmamente sobre a mesa da sala.
Às vezes parece que tudo está dando errado.
Às vezes tudo dá realmente errado.
Temo que o meu caso não era o primeiro.
Abri silenciosamente a porta de meu próprio quarto e caminhei até minha cama. Ele estava ali.
Ainda estava parado no centro de meu quarto, seu corpo pendendo para os lados, sua pele branca, seu suspiro congelado.
Deitei-me na cama e senti seu corpo ao meu lado, frio e encolhido. Deveria tê-lo agarrado aquela noite.
Eu estava ficando obcecado por isso?
Fechei meus olhos e ignorei tudo aquilo, seu corpo pendurado no centro do aposento, seu corpo encolhido ao meu lado, seu corpo passeando pelo corredor, no entanto ainda existia o perfume.
Seu cheiro invadia minhas narinas e entorpeciam meus sentidos fazendo-me divagar lenta e dolorosamente para um lugar distante e eu precisava fumar.
Seria realmente impossível permanecer naquela casa nos próximos dias.
Habitar minha própria casa significava conviver com minha doce assombração particular, era tê-lo em todos os cantos, vê-lo passear pelos cômodos, permitir-me enlouquecer lentamente com sua latente ausência.
Retirei-me de casa tranqüilamente enquanto ascendia meu cigarro, suas entranhas já deveriam estar se decompondo.. assim como nosso jantar. Desagradável.
Eu não tinha para onde ir.
Era fim de tarde e eu não tinha para onde ir, onde dormir.
Voltar para casa não era uma possibilidade, menos ainda ir para a casa de meus pais. Inferno, inferno, inferno. Minha vida seria um inferno se eu voltasse para lá, como eu já disse, não há nada pior do que o interior.
Ou melhor! Há algo pior do que interior. Perder minha liberdade seria muito pior do que qualquer interior perdido no mais remoto canto do país.
De qualquer forma, isso não vem ao caso, eu precisava de um lugar onde dormir. E precisava também de alguém que limpasse a minha casa, afinal logo os restos orgânicos federiam.
Fui para o colégio falar com o reitor, coordenador, diretor, pró-reitor e metade dos funcionários da maldita instituição antes que conseguisse a chave de um dos quartos para estudantes.
Não me dei ao trabalho de conhecer o meu aposento, eram todos iguais mesmo e, afinal de contas, carregava comigo apenas minha jaqueta e a caixa de L.A., eu precisaria de ambos.
Comprei roupa, xampu, escova de dentes, blábláblá. Eu era perfeito, mas ainda era humano, precisava de banho, roupas limpas e noites de sono, além de muitos cigarros. Como a noite estava um tédio optei por visitar o meu cadáver preferido.
O necrotério estava vazio e morbidamente branco, háháhá, não vem ao caso.
Ele ainda estava lindo. Lindo e pálido e frio e impecável e nu. Especialmente lindo e nu. Quais seriam as chances do médico infeliz deixar-nos a sós por alguns minutos?
Afinal de contas ele ainda estava bonito. Talvez estivesse mais bonito se seu cabelo não estivesse desgrenhado, mas isso até lhe dava um certo charme.Ascendi um cigarro enquanto o admirava e fui expulso do recinto por isso.
Foi melhor dessa forma, acreditem. Eu tento a todo custo acreditar nisso.
Sentei-me no chão em frente ao estabelecimento e continuei a fumar, afinal, eu tinha comprado os cigarros para poder fumá-los e eu os fumaria.
Às vezes penso que estava ficando viciado nele, mas logo não me trariam nenhuma satisfação.
Naquela mesma noite Heero também foi visitar nosso cadáver preferido, ficou com ele por mais de meia hora e apenas me viu quando estava indo embora.
- O que você faz aí?
- Fumo. Quer um?
Estendi-lhe a caixa de L.A. e ele fitou-me com indiferença antes de responder.
- Não, obrigado. Agora não.
Essa era nova. O senhor compulsivo não queria me acompanhar no vicio.
- Vai fazer algo essa noite?
- Não.
- Gostaria de ir tomar chá comigo?
- Onde?
- Minha casa.
Imaginei que seria um bom momento para dizer não e ir embora, como todas as mães nos ensinam a fazer quando um estranho nos convida para algo assim, mas mesmo assim aceitei.
Adentrei seu carro e assisti o motorista bizarro, sim, ele era o bizarro, levar-nos para a ilustre mansão que ele chamava de casa.
Tomamos chá de whisky enquanto não conversamos e nos agarramos quando, após horas, continuamos não conversando.
Ele cheirava a eles e isso realmente era incrível. Não digo incrível no sentido de fantástico ou adorável, mas sim no sentido de histericamente insano e possessivo.
Beijar sua boca era como beijar todos de uma vez, tocar em seu corpo, por mais que fosse diferente, remetia a idéia de tocá-los. Era como se os dois estivesse com ele, dentro dele.
Ele os possuía e isso era inaceitável. Eles eram meus. Quis matá-lo por isso. Torcer-lhe o pescoço até sentir sua traquéia estourar sob meus dedos e o ar abandoná-lo plenamente para então desmembrá-lo e estripá-lo. Eu estava ficando violento.
Parei de agarrá-lo e afastei-me.
Heero não tentou me puxar, nem tentou me agarrar, simplesmente não lhe fez diferença eu largá-lo e sentar-me ao chão tranqüilamente.
Eu precisava fumar. Realmente precisava fumar.
Nenhum cigarro tinha o gosto que eu queria, por tanto eu os ascendia para tragá-los uma única vez e então apagá-los. Por fim parei com essa idiotice, disse-lhe tchau e fui embora.
Caminhei pelas ruas desertas por tempo o bastante para me arrepender de não ter pedido-lhe para que o rapaz bizarro me levasse para casa. Cheguei em casa, cansado e agradecido por não morar mais longe ainda.
Abri a porta e o fedor insuportável de matéria orgânica em decomposição atacou-me em meio a escuridão e todos os meus fantasmas continuaram passeando tranqüilamente pelos cômodos.
Duo atravessava-me para adentrar minha casa enquanto outro bebia café em meu sofá. Passeavam pela sala e outro servia a mesa ao mesmo tempo em que outro estava sentado aos meus pés, encostado no batente da porta, com o rosto escondido nos joelhos que estavam flexionados para cima. Podia vê-lo caminha pelo corredor trôpego de ressaca enquanto suas mãos espalmavam a parede pelo caminho.
Fechei rapidamente a porta e caminhei para o colégio, não lamentava por ter que andar mais. Voltaria feliz andando para a casa de Heero se dessa forma não precisasse ficar com minhas alucinações.
Deitei-me em minha macia cama no instituto e por mais cansado que estivesse não consegui dormir.
Eu não conseguia dormir e isso me enlouquecia.
Não se tratava de uma simples noite de sono a menos, era muito mais que isso.
Eu não conseguia dormir faziam noites.
Também não dormia durante o dia.
E eles andavam pela minha casa e pelo meu bairro.
Eu os via pelas ruas e pelos corredores agora vazios do instituto.
Ele estava em meu quarto e em minha cama e atrás de mim, sussurrando coisas inteligíveis em meu ouvido, mantendo minha pele arrepiada e meu corpo constantemente tenso.
Por fim paguei-lhe um maldito velório e ele limitou-se a assombrar minha casa a qual sempre assombrou e a sussurrar em meu ouvido.
Era minha culpa?
Era um fantasma?
Eu o queria e eu o tive e mesmo assim me amargurava querê-lo, me azedava a alma tudo o que tinha feito.
Ou o que não tinha feito?
Eles eram um ou ele era dois?
Eu nem sabia diferenciá-los. Estavam ambos mortos e mesmo assim eu os queria. Assumi todos os bens que possuíam e que ficaram abandonados no colégio. Algumas roupas e sapatos, uma foto, alguns livros e duas identificações iguais, uma era dela eu sabia.
Desejava mais, sempre mais, ponderava a possibilidade de transformar-me em Heero para, dessa forma, tê-los tido indiretamente em um passado remoto, ou nem tanto.
Água não tinha o mesmo gosto nem nenhuma comida era saborosa nem havia desejo de foda e todos os cigarros eram podres e insatisfatórios.
Eu era um desgraçado.
Preguei nas quatro paredes do meu quarto fotos dele, muito embora eu só tivesse a foto que encontrei nas coisas dele, as das carteirinhas de identificação e a de seu corpo pendurado no centro de meu quarto que eu recortei no jornal. Não era muita coisa, nem nada incrível, mesmo assim eu desejei ter mais paredes em meu quarto.
Não organizei o velório, simplesmente paguei e mandei que fizessem algo que prestasse, no entanto.. o caixão eu escolhi pessoalmente. Não comuniquei ninguém, nem sabia quem poderia comunicar.
Eu simplesmente me arrumei e fui para o velório.
Heero estava encostado na porta fumando como sempre e como sempre usando preto. Não deveria ser realmente difícil para ele ir a um velório, ele sempre estava vestido a caráter mesmo.
- Não vai entrar, Heero?
- Não, obrigado. Já tive o bastante sua morte. Deixo-te o velório ao menos.
- O bastante da morte dele?
- Sim, já tive a morte dele, agora te deixo o velório.
Não fazia sentido, mas agradeci mesmo assim e entrei.
Sentei em frente ao caixão e aqui estou.
Cheguei finalmente em mim, ao fim... ou ao inicio.
Eu poderia violentá-lo ali mesmo.
Eu realmente posso violentá-lo.
Mas infelizmente me falta vontade, me falta a ânsia de tê-lo mais uma vez. Não o quero mais uma ultima vez, quero mais uma vez.
Como sou ridículo.
Como virei isso?
No fim,não fez sentido.
Então se trata apenas de uma plena idiotice banhada a sofrimento e amargura que, provavelmente, nem são meus.
FIM.
Nota da Autora:
Fim! Finalmente o fim!
Não ficou como eu queria... achei que ficaria melhor, mas espero que vocês tenham gostado mesmo assim.
Gostaria de agradecer do fundo do meu coração a todos aqueles que leram, me mandaram comentários e tiveram paciência com a minha longuíssima demora.
Gostaria também de pedir novamente desculpas pela demora.
Preciso agradecer especialmente a Jukaa que teve paciência comigo, a Dani que foi torturada, a Jan que me ameaçou de morte e ao more que me deixou na fossa dizendo que eu jamais terminaria só para me fazer terminar oo... também agradeço a Illy! Eu me sentia muito culpada quando lembrava da empolgação dela com o mundo yaoi e com os fics e eu cruelmente sem terminar o meu.. '
Dedico Quadrado a Dani, pois esse texto jamais teria existido se ela não tivesse vindo para a minha casa em 2006!
Beijos, Zika McDragon!
Até a próxima e muito obrigada a todos!
