A TEIA DA ARANHA

Capítulo 3 – Caminho da Perdição

Ouço passos por toda a casa, deixando claro que os comensais se agitam. Não quero mais ficar sozinho com aquele louco no quarto... Tenho medo dele. E sei que meus pais também. Muita coisa mudou desde...

Mas minha mente só consegue se recordar daquele momento... De tudo que houve após ouvir de seus lábios 'vou te fazer esquecer o mundo'. Ali começou o caminho da minha perdição... Um caminho sem volta, por mais que eu tentasse resistir.

As mãos de Harry deslizam delicadamente pelos botões do pijama de Draco, abrindo um após o outro, devagar, deliciando-se com a pele branca que surge do corpo deitado e entregue. Cobre-a com beijos delicados, percebendo como se arrepia a esse toque. Sente-se um garotinho, descobrindo todo um novo mundo, mas... Este está repleto de novas sensações. Seu corpo todo responde, desejando saborear cada instante como se fosse o último.

Os olhos prateados se fecham temerosos, morde os lábios diante das ondas elétricas que percorrem toda sua pele, tentando resistir àquilo que ameaça se apossar de seu corpo. Teme tudo que pode sentir e sua mente se povoa das lembranças das sensações de antes... De quando não tinha qualquer prazer, apenas medo.

Lucius deitando-se sobre ele, abrindo seu pijama sem cuidado, mordendo-o com força. Os olhos prateados invariavelmente fechados, desejando que termine logo.

Quando a pele de alabastro fica totalmente exposta, dedos delicados tocam-na com carinho, enquanto os lábios voltam a tomar a boca trêmula. O outro braço o envolve em um abraço quente, aproximando-o, fazendo com que possa sentir o coração disparado de Potter. Abre então os olhos, surpreso, encarando as esmeraldas que o observam, cheias de algo que não consegue definir. Não é a gula pelo poder a que está acostumado, mas... Alguma coisa quente e pura.

- Nunca pensei estar aqui com você. – A voz de Harry soa quase rouca, arrastada, como se para ele fosse difícil se concentrar para dizer essas poucas palavras.

Seus lábios descem vagarosamente pelo pescoço, sentindo a maciez da pele e seu perfume, alternando beijos suaves com lambidas delicadas, mas sempre mantendo os olhos na expressão que ora é assustada ora embevecida. Sabe que cada movimento seu é antecipado pelo medo... Medo de que seja como sempre. E é exatamente o que não deseja. Não sabe se está agindo da forma correta, se realmente é isso que deve fazer, mas segue absolutamente seus instintos.

Toca um mamilo com cuidado, saboreando-o, sentindo sua textura, sorrindo ao vê-lo eriçar-se, aumentando a intensidade, sugando forte. Percebe que é bom, pois Draco joga a cabeça para trás. Passa então ao outro, repetindo os movimentos, sentindo como isso também mexe com seu próprio corpo. Vai descendo então, seguindo um caminho perigoso, percorrendo a linha que avança pelo abdômen, chegando ao umbigo, circulando-o com a língua.

- Você gosta disso? – Os dois se observam demoradamente.

- Go-gosto... – A voz quase não lhe sai, incapaz de definir como isto o surpreende e o deixa confuso.

E as palavras meio sem jeito, a face incrivelmente corada, o excitam ainda mais, demonstrando que Draco não finge, não se esconde atrás de subterfúgios. Essas reações não podem ser forjadas, como se faz com um gemido bem ensaiado. Harry se sente mais seguro, sentindo-se envergonhado por ainda neste momento não confiar totalmente na sinceridade do inimigo confesso.

Suas mãos delicadamente continuam a acariciar o corpo desejado, enroscando-se nos sedosos cabelos loiros ou tocando libidinosamente seus lábios, invadindo aquela boca, sentindo como ainda treme, enquanto ele se delicia com o umbigo bem formado. Seus orbes verdes jamais perdem o contato visual, procurando no rosto bonito qualquer sinal de que aquilo o magoa de alguma forma.

Decide então... É o momento de retribuir todo o prazer que o loiro lhe proporcionara na noite anterior. Suas mãos então vão descendo devagar ao longo de seu corpo, fazendo com que a pele de porcelana se arrepie inteira, chegando delicadamente ao elástico do pijama, descendo aos poucos, levando a cueca junto.

Draco treme, pois se sente tão indefeso neste momento! Quer... Deseja tanto quanto aqueles olhos verdes, mas... Sua experiência só prova que nada disso é bom. Sexo é sujo, é algo bruto, sem prazer, sem sentimento. É apenas alguém mais forte que subjuga outro mais fraco. E queria ser ele o dominante... A posição em que está agora o coloca novamente como o agente passivo dessa ação. O que é humilhado... O que é usado.

Os cabelos compridos platinados caem sobre seu corpo enquanto arranca de forma bruta seu pijama, sem sequer olhar para seu rosto, concentrando-se apenas no próprio prazer, nada mais.

Harry se levanta, olhando para o rosto bonito de seu adversário de forma travessa, despindo-se diante dele. Revela-se tão nu e indefeso quanto o loiro, despido de qualquer poder, apenas um adolescente descobrindo sensações que nunca imaginou sentir. Sorri de forma infantil, tornando-se ainda mais bonito, ajeitando os óculos que teimam em escorregar. Também fica corado, nunca tendo se sentido tão exposto, os olhos prateados que o observam atentos o deixando envergonhado.

E essa expressão tão inocente do moreno faz com que Draco o olhe ainda mais atônito, procurando em seu rosto algum sinal de que se compraz em dominá-lo, mas... Na face sensível somente vê algo que não conhece... Um sentimento que lhe passa confiança, entrega e... Do rosto desce para o corpo magro, mas já tomando forma, a pele sem marcas... Fecha os olhos tentando evitar fixar o olhar em sua genitália, enrubescendo imediatamente, sabendo que Harry percebeu o efeito que causou. E ele é tão evidente que isso seria impossível.

O moreno se deita devagar sobre ele, tomando seus lábios com tesão, os dois sentindo a excitação que os domina. As línguas se encontram sem pudor, já sem controle, a vergonha ficando de lado, os dois entregando-se às sensações. Os olhos verdes encaram os cinza com desejo repleto de ternura.

- Eu quero retribuir... – Beija-o com carinho. – Te dar prazer... – Diz de forma suave, como se fosse mais um pedido do que uma afirmação, esperando ver em seu rosto se é um desejo seu também.

- ...! – A resposta fica presa na garganta, o medo lutando contra a tentação.

Apesar de faltarem as palavras, Harry decide ser atrevido, descendo devagar pelo tórax e abdômen do loiro, roçando o queixo na pele lisa, observando as pupilas brilhantes que o encaram. Sente o pavor no fundo delas, certamente temendo que tudo que irá acontecer seja apenas uma repetição de tudo que já viveu. Por isso mesmo precisa provar a diferença, que isso pode ser bom, se envolver os sentimentos que quase explodem seu peito. E quando passa pelos pêlos pubianos, quando se aproxima do pênis ereto, sente o estremecimento, volta-se para o loiro e sorri.

Aquelas esmeraldas permanecem fixas em seu rosto, tão seguras, apesar de um tanto tímidas. Treme ao sentir a proximidade mais íntima, engolindo em seco, sentindo-se pouco a vontade. A expectativa o apavora, pois tudo isso que se inicia leva à dor e ao sofrimento. E... Nunca pensou que realmente teria que chegar a esse ponto.

Mas quando a língua quente e macia toca seu pênis, algo incrível acontece. Fecha os olhos, sentindo-se perdido em sensações e choques elétricos que tomam seu corpo. Aquele contato delicado, percorrendo seu membro por completo, tomando-o com a boca úmida, tudo isso é diferente demais de tudo que já sentiu. É delicioso, prazeroso, algo que o faz desejar mais e mais. Os movimentos são ritmados, ora intensos ora suaves, fazendo sua mente se turvar, levando-o a um passo além da sanidade.

Suas mãos pela primeira vez soltam o lençol ao qual se agarraram com força desde o início e se colocam sobre os cabelos castanhos, macios e levemente úmidos de suor. Sente como esse toque surpreende o outro, que pára o movimento por alguns instantes, para apenas retomar em seguida, com mais intensidade do que antes. Isso o excita ainda mais, sentindo uma dorzinha gostosa, fazendo-o balançar a cabeça, tomado por uma sensação tão inédita que não tem nem como descrever.

- Estou machucando? – Um tom de preocupação claro nas palavras de Harry.

- Não... É... É bom...! – Abre os olhos levemente surpreso, encarando a expressão preocupada que o observa. Sente-se estranhamente diferente, envolvido em algo totalmente distinto do que já experimentou.

Harry reinicia o carinho delicado, dessa vez sob o olhar do loiro, tomando a glande, depois todo o pênis em sua boca, deliciando-se com a face levemente corada que o encara, mas claramente apreciando o que faz. Suga com força, sentindo como a pele macia fica levemente rígida, deixando claro que algo está para acontecer.

Draco já não tenta disfarçar o efeito que isso provoca dentro de si, tudo nítido em seus olhos, que até parecem fora de sintonia, perdidos nas sensações, mas que acompanham cada pequeno passo, percebendo o cuidado e a suavidade. E vai sentindo como isso vai aos poucos o deixando maluco, se segurando para não gemer, ainda não desejando demonstrar, mesmo sem saber por quê. Logo seus olhos se fecham novamente, sua expressão plena de prazer, sentindo pela primeira vez uma queimação gostosa percorrendo seu membro.

Seus orbes se abrem novamente, podendo ver perplexo como o moreno se lambuza quase brincalhão, sorrindo de forma travessa, deixando claro que esse era somente o começo. E com a boca ainda umedecida instintivamente vai descendo, sugando de leve seus testículos, tirando-lhe a sanidade, jogando-o novamente no mundo povoado de sensações. Sente cada lambida, descendo, chegando devagar ao ponto que o faz reagir. Sente-se apreensivo, mas a sensação que isto produz é tão deliciosa que não mais resiste, entregando-se àquilo como jamais fez com alguma coisa antes.

A boca quente volta novamente ao pênis, lambendo com ânsia, segurando firmemente as pernas, desejando dar ainda mais prazer ao loiro, que joga a cabeça para trás. Por que mais do que fazer amor com ele, mais do que desejo, Harry quer provar que fazer sexo com carinho e sentimentos sinceros é bom. Continua com as carícias, das coxas suas mãos descem, introduzindo suavemente um dedo dentro dele, surpreendendo-se com a reação que isso produz. Os olhos de Draco estão apreensivos, com algo que para ele é apenas uma carícia mais íntima, mas que logo percebe que é muito mais que isso. O observa, esperando que peça que pare, ainda sem saber exatamente o que há de errado nisso.

Os dedos de Lucius preparam-no de forma nada delicada, fazendo-o sempre se perguntar qual a necessidade de preparação se é feita dessa forma.

Ao sentir o dedo atrevido o sangue de Draco gela, olha receoso para Harry, mas logo percebe o quanto isso é diferente. É desconfortável, sem dúvida, mas não dolorido. Na realidade, não machuca como está acostumado. É impossível não fazer a comparação, pois da forma que o moreno faz é... É estranho... Nada de dedos grosseiros e sem cuidado, nada de força ou pressa. Nada da mão bruta sobre sua boca para encobrir seus gemidos doloridos... Sente os movimentos ritmados, gentis, tocando-o por dentro com carinho, se revelando com o tempo incrivelmente delicioso.

Harry novamente toma seus lábios, deitando-se completamente sobre ele, suas ereções se tocando diretamente, fazendo o loiro gemer alto, por mais que tente evitar, sentindo que seus gemidos têm vida própria, saindo contra sua vontade. Prepara-se para o próximo passo, sabendo que o momento é inevitável, ainda temeroso, mas totalmente tomado pela sensação de que vai ser especial. E quando finalmente a penetração acontece, quando sente que o moreno está dentro dele, sua respiração fica em suspenso.

E a penetração brutal, as lágrimas escorrendo por seu rosto, que nunca são notadas, pois o pai jamais encara seus olhos. Parece até que o homem toma o corpo de um estranho, não o do próprio filho, e encará-lo seria perceber nesse momento quem é a vítima real de seu abuso.

Há dor, mas inexplicavelmente algo que não o faz se sentir usado. Os movimentos do outro são suaves, delicados, penetrando-o devagar, fazendo com que a queimação dolorida do início vá se transformando em algo intenso e prazeroso. Aumenta lentamente o ritmo, o fazendo gemer ainda mais alto. Procura os olhos verdes para ter certeza se o continuam observando, sentindo-se feliz por encontrá-los diante de si, vendo que o olham atentos.

- Ah!... Mais... – Essas palavras saem sem qualquer controle.

Nada em sua vida, até o momento mais delicioso, seja ele qual for, pode se igualar àquilo que se apossa dele. Quer gritar, pôr para fora toda a sensação que parece fazer pressão dentro dele, mas ao mesmo tempo se cala, concentrado nos leves espasmos em seu abdômen, o pênis latejando com cada vez mais força dentro dele. Os beijos são cada vez mais intensos aquela língua sedutora quase o deixando sem ar.

E sem que os dois pudessem prever, tudo vai ficando mais profundo. As sensações se exacerbam, quase os levando a sair completamente da realidade. O mundo gira apenas em torno deles, enquanto os movimentos de Harry aumentam de intensidade, sendo acompanhados pelo corpo do outro sob ele, e se levanta dando espaço para que se movimente também. E por mais que tente esperar um pouco mais, segurar aquilo que sente queimar seu pênis por dentro, não consegue e o gozo vem com força, fazendo-o jogar o corpo para trás. Nada como isso lhe aconteceu, nunca sentiu algo tão íntimo e maravilhoso.

O peso do corpo de Harry desaba sobre seu corpo fazendo Draco instintivamente envolvê-lo em seus braços. Sente algo que nunca pôde imaginar. Todo o prazer que sentiu é indescritível, mas nem se compara com algo que se apossa do mais profundo do seu ser. Sente vontade de ficar ali para sempre, de ter esse corpo sempre junto de si, não apenas pelo sexo, mas por... Encara o rosto que o observa, um sorriso lindo estampado na boca vermelha. Vê algo inédito, quando aqueles orbes de esmeralda o admiram, um brilho estranho no mais profundo deles.

- Eu te amo... – As palavras saem roucas, cheias de uma paixão que já é clara em toda a sua face.

- ...! - Draco sente medo disso.

Era o seu objetivo que os sentimentos do Potter chegassem a esse ponto, mas o efeito que estas palavras produzem dentro de si mesmo é assustador. Elas encontram eco e sente uma necessidade imensa de retribuí-las, não deixando que caiam no vazio. Quer dizer o mesmo mais do que tudo, mas refreia esse impulso. Os próprios sentimentos o amedrontam, beijando os lábios convidativos, como se para evitar que o que sente o domine e fale aquilo que não deve ser dito. Mas estão ali, presentes entre eles. Fecha os olhos, tentando fugir do calor daqueles olhos. Sendo vencidos pelo cansaço, os dois adormecem assim, um nos braços do outro, o corpo de Harry se acomodando delicadamente ao lado dele, tão juntos como nunca imaginaram que estariam.

ooOoo

Os olhos cinza se abrem preguiçosamente, tentando focar no ambiente à meia-luz em que está. A lua lança sua luminosidade através da janela, fazendo-o ficar mal humorado por ter acordado no meio da noite. É então que sua mente começa a se dar conta de onde está e... Com quem. Olha para o lado e vê: Harry Potter dormindo abraçado ao travesseiro, um sorriso satisfeito e ar tranqüilo. O observa por alguns instantes, reparando nos traços belos, nos cílios longos, no nariz delicado, na boca de lábios finos e rosados. Aos poucos se lembra dos detalhes do que aconteceu entre eles, das sensações, do prazer, mas... Os sentimentos surgem também com muito mais força que tudo e isso o amedronta.

Draco se levanta depressa, procurando não acordar o outro, assustado demais para encará-lo. Precisa fugir dali... Fugir daquilo que sentiu... Não podia ter deixado acontecer. Era apenas um plano, mais um dos mirabolantes que preparara contra seu eterno inimigo ou seus amigos. Mas fugira do controle e agora ele se vê emaranhado em sua própria teia.

Veste o pijama rapidamente, pegando o robe pesado que usava, saindo correndo pelo corredor, arrastando-o pelo caminho. Só quer chegar a seu quarto, esconder-se de si mesmo e da dura realidade a sua frente. Virando um dos corredores, quase chegando à entrada da casa, nas masmorras, esbarra com alguém, quase sendo lançado ao chão. Cambaleia, levantando irritado, olhando para um Crabbe surpreso, uma barra de chocolate nas mãos e a boca completamente suja.

- Você é idiota? Não olha por onde anda? – Ele grita irritado, mais por estar represando o choro, do que realmente com o garoto.

- Eu... Ahn... Mas por que você está correndo pelo corredor a essa hora? – O rapaz pergunta meio sem pensar, parecendo ainda surpreso por vê-lo.

- Cala a sua boca! – A possibilidade de ser descoberto lhe causa náuseas. – Isso te interessa?

Sai tão depressa que não dá tempo de qualquer resposta, ensandecido por chegar ao seu quarto privado, onde poderá desabafar tudo que oprime o seu peito. Entra, evitando bater a porta e acordar mais alguém. Entra no seu banheiro e pára diante do espelho, observando seu reflexo por alguns minutos. Sente as entranhas se contorcerem, por causa do que sente e pelo que terá que fazer. E pela primeira vez na vida sente vergonha do rosto que vê diante de si.

Não consegue segurar mais o choro, pois a dor dentro dele é grande demais. Entra no box e liga o chuveiro, deixando a água cair sobre seu rosto, pouco se importando se seu pijama começa a ficar encharcado. Precisa lavar essa sensação de desgosto que sente... Esquecer tudo que sentiu no momento em que estava envolvido naquele abraço, quando sentiu o coração de Harry sobre o seu peito, batendo tão acelerado quanto o seu. Deixa o seu corpo despencar no chão, soluçando enquanto a água continua a cair sobre seus cabelos.

- Eu não posso... Não quero sentir isso! – Chuta a parede, tentando extravasar toda sua frustração. – Droga! Por que fui me apaixonar por ele? – Abraça as pernas e chora convulsivamente, soluçando e resmungando sob a água do chuveiro, que já começa a deixar sua pele avermelhada, mas levando para o ralo a tristeza que ele não pode dividir com ninguém.

ooOoo

Harry acorda assustado, parecendo ter ouvido uma porta bater. Senta depressa, ainda sem entender muito bem o que está acontecendo. Sabe que não foi mais um dos seus pesadelos então... Finalmente se recorda, coloca os óculos e olha com um sorriso para o lado, esperando ver o loiro, se surpreendendo por encontrar apenas um lugar vazio. Essa constatação o faz levantar, vestindo o pijama aflito, decidido a procurá-lo, mas... Sabe que não pode fazer isso.

Pára diante da janela, observando a escuridão do lado de fora e a lua cheia dominando o céu nublado. Sente-se culpado, pois tudo que fizeram pode ter ido além dos limites de Draco. E mesmo ciente de tudo pelo que ele já passou, não pôde se conter. Tinha que ser o heróico príncipe que o salvaria, mostrando que podiam enfrentar tudo, juntos. Por que sempre precisa ser tão impulsivo? E as pessoas que ama sempre acabam sofrendo por causa disso.

Mas não adianta ficar se lamentando, precisa conversar com ele e o fará na primeira oportunidade em que ficarem sozinhos no dia seguinte. Sai pelo corredor cabisbaixo, surpreendendo-se por logo se ver diante da entrada da sua casa. Diz a senha mecanicamente, subindo as escadas para o dormitório. Só quer deitar a cabeça no travesseiro e dormir, mas duvida que consiga pegar no sono.

- Onde você estava? – A voz de Ron soa desconfiada, sussurrada da cama ao lado da sua.

Harry se volta sobressaltado, tendo que se encostar aos pilares de sua própria cama para não cair. Observa o rosto do amigo envolto pela escuridão, iluminado apenas por uma tênue luz vinda da janela. Sua expressão parece severa, bem incomum para o garoto que considera seu melhor amigo.

- Agora você deu pra me vigiar? – Harry tenta conter a raiva que brota dentro de si.

- Não... – Rony fica sem graça. - É que você anda estranho e misterioso ultimamente.

- Sei que todos me consideram o 'salvador do mundo bruxo'... – Levanta a voz, mas diminui o volume quando vê Neville se agitando na cama. – Mas eu sou um indivíduo... Tenho direito a ter uma vida própria, sem ter sempre alguém me 'protegendo'.

Ron se levanta da cama e o encara com seriedade. Essas palavras machucam-no como o amigo talvez nunca possa entender.

- Eu nunca te encarei como 'salvador'! – Olha bem para os olhos verdes cheios de revolta. – Sempre te vi como um amigo.

Harry sente-se envergonhado pelas palavras duras que jogou sobre ele, coloca a mão sobre o seu ombro, sabendo que toda a raiva que sente é de si mesmo.

- Desculpa... – Diz em um tom mais calmo. – Não ando muito bom ultimamente... Tudo que anda acontecendo... Esses pesadelos...

Ele não dá tempo para que o amigo diga mais nada, pois se deita, virando para o outro lado e cobrindo a cabeça com o lençol. Se sente oprimido por todos os sentimentos conflitantes, prazer e culpa, alegria e medo, tudo convergindo para o que houve entre eles e a reação de Draco. O que quer mesmo é chorar, mas sabe muito bem que não pode, pois seria ouvido e teria muitas explicações a dar.

Ron observa o amigo ainda alguns minutos e fica ainda mais preocupado. Algo está acontecendo com ele e não é apenas a volta de Voldemort, a Umbridge e os pesadelos. Existe alguma coisa por trás de tudo isso. Ele parece sempre estar raivoso ou eufórico... E isso não é comum nele. Não que seja um especialista em sentimentos, como diria Hermione para irritá-lo. Mas conhece Harry como ninguém e sabe que algo está acontecendo e precisa descobrir o quê.

ooOoo

Aquela que poderia ter sido minha noite mais mágica, pois para uma pessoa comum descobrir o amor é especial, foi um tormento. Não consegui fechar os olhos sem recordar tudo que aconteceu e o que senti. E saber que depois disso eu simplesmente teria que entregá-lo para a morte... Até para mim isso era radical demais.

Mas não havia mais volta... Ou haveria? Passei a madrugada toda pensando em como fugir ao meu compromisso com meu pai e poupar a vida de Harry. O certo é que não havia esperança para o que sentia, pois esse sentimento era proibido para alguém como eu. Mas como justificar que meus planos falharam e não pude entregá-lo? Droga! Eu podia ser inteligente, mas não estava no meu repertório 'Como Salvar a Vida de Harry Potter'.

Só depois de refletir muito sobre isso que cheguei a uma conclusão. Era a única chance, apesar de ser doloroso. Sabia que ele iria sofrer demais e eu também, mas não havia opção. E quando deixei meu quarto na manhã seguinte, estava impecavelmente vestido, como sempre, cercado de meus asseclas e decidido a salvar meu inimigo.

Harry desce as escadas para tomar o café da manhã, ainda cansado pela noite em claro e pela confusão emocional que o corrói por dentro. Precisa ver... Falar com Draco e saber como ele está.

Junto com ele descem seus inseparáveis amigos, que se preocupam com sua expressão sisuda, apesar de não ser incomum desde que este ano começou. O quinto ano de escola está sendo difícil demais, não exatamente por causas acadêmicas, mas nesse dia sua expressão está particularmente estranha, sempre cabisbaixo.

- Tem certeza que está tudo bem? – Hermione pergunta quase não alcançando o garoto enquanto desce as escadas apressado.

- Vou te dizer pela enésima vez que estou bem... – Há certa impaciência em suas palavras. – Só tive insônia.

Hermione olha para Ron e percebe por sua expressão que deve se calar. Pelo jeito ele também já tentara e tivera a mesma resposta ou coisa pior.

Enquanto percebe que estão quase chegando ao saguão do castelo, os olhos verdes percebem certa presença que o faz levantar a cabeça. Draco está parado no centro dele, cercado por Crabbe, Goyle, Pansy e mais alguns garotos que estão ao seu redor apenas pelo prestígio. Pensa em sorrir, mas a expressão no rosto do outro logo apaga qualquer impulso de fazer isso. Vê nele o adversário de sempre, o mesmo garoto que socou no dia anterior, com aquela mesma expressão de nojo. Mas isso é normal, faz parte do que combinaram. Só que os seus olhos estão diferentes, parecem odiá-lo novamente.

- Olha quem está vindo pessoal... – Volta-se para os outros e novamente para Harry, que já está diante dele. – O otário Potter!

As risadas soam entre os presentes, mas Harry sequer as nota ou as reações acaloradas de Rony, somente consegue ver o desprezo no rosto que na noite anterior era só... Encara-o com firmeza, procurando em seus olhos um vislumbre de que isto é apenas parte da estratégia de disfarce, mas desanima ao perceber que não é um truque.

- Afinal, ele caiu direitinho no nosso plano de provocá-lo. – Diz com todo o sarcasmo de que é capaz. – E agora o coitadinho está fora do quadribol.

E o grupo que o acompanha finge estar chorando como um bebê, zombando dele, enquanto aquela expressão desprezível característica de Malfoy está ali, um sorriso digno de um soco. Ele então puxa Pansy para junto de si e a abraça por trás, fazendo claramente a garota tremer de emoção.

- Fala pra ele como sou mais esperto, Pansy. – Fala no ouvido dela sensualmente, provocando Harry ainda mais.

Potter continua ali parado, seus olhos se estreitando, uma raiva crescendo dentro dele a cada palavra e muito mais com a aproximação com 'aquela' garota. Para ele não importam todos os outros, somente as ações de Draco. E elas começam a revelar uma verdade assustadora.

- Você é inocente demais! – Os olhos cinza o encaram diretamente, deixando claro do que está falando. – Acredita em qualquer coisa que eu diga ou faça.

- Seu... – Harry avança contra ele, grudando em seu pescoço, apertando com força, como nunca se imaginou capaz de fazer, os dois caindo no chão, Potter completamente sobre o loiro.

Os asseclas de Malfoy ficam parados, olhando perplexos com o ataque violento, enquanto Ron e Hermione tentam segurar o amigo furioso. Mas a raiva parece lhe dar uma força descomunal, sendo quase impossível separá-los. Mas depois de tanto tentar os dois conseguem afastá-lo, tentando controlar a fúria que o faz se debater.

Ele não consegue dizer nada, engasgado com os sentimentos fortes que o fazem apenas pensar em como foi enganado e como sua ingenuidade sempre o faz ser um idiota. O nó em sua garganta o sufoca, mas seus olhos não saem do loiro que é ajudado pelos colegas de casa a se levantar.

- Eu te odeio! Quero que você morra! – Grita no saguão, suas palavras invadindo o salão, já fazendo com que alguns outros alunos comecem a aparecer.

Draco se força a encará-lo, com aquela expressão de desprezo que tão habilmente sabe fazer. Mas por trás dos seus olhos, todo esse espetáculo infeliz o destrói. Sabe que sua atitude é covarde e cruel, mas sem isso Harry continuaria a insistir, pois o griffyndor não é do tipo que desiste fácil de algo. Mas se seu coração está apertado, seu rosto não o demonstra. Mas se propôs a ser impiedoso neste caso e não pode fraquejar.

Hermione percebe que é preciso tirar Harry dali rapidamente, pois os curiosos já se acumulam e algo como isso daria o motivo desejado para a expulsão do amigo. Sinaliza com a cabeça para que Ron o arraste para longe de Malfoy, o que ele tenta, mas só consegue com dificuldade. É então que Potter parece se acalmar.

- Pode me soltar. – Empurra os braços de Weasley, soltando-se e ficando de pé, de frente para o adversário. – Ele não merece tanta atenção. Rapidamente começa a subir as escadas, sendo seguido pela amiga que o segura pelo braço fazendo-o voltar-se, rosto transtornado.

- Temos que ir para a aula! – Ela diz, mas logo se arrependendo ao ver o fogo em seus olhos.

- Eu não vou. – Fala devagar, em um tom cavernoso incomum para ele. – Se alguém perguntar... Diz que eu morri.

Ele sobe depressa, sob o olhar atento de Draco, que ainda luta para se manter inteiro. Leva a mão ao pescoço, sentindo dor no local onde sofreu a agressão. Jamais sentiu um sentimento de frustração tão grande, mas que precisa estar escondido, guardado apenas para si. Não há mais ninguém que o ouça, que o tente entender, como o rapaz que sobe a escada, completamente destruído. E foram as suas palavras o carrasco.

- Vamos informar a Umbridge. – Goyle diz segurando o braço do loiro.

- Não vão falar nada sobre isso... Pra ninguém. – Volta-se furioso para os colegas de casa. – Quem fizer isso vai se ver comigo.

- Do que você está falando? – Pansy olha incrédula para o belo rosto. – Você tem o Potter em suas mãos depois desta agressão.

- Eu disse NÃO! Entenderam? – Seu rosto deixa claro que não há qualquer argumento que possa mudar sua decisão. Ele dá as costas para os demais, se dirigindo para o caminho que o leva de volta às masmorras. Ouve que alguém corre em sua direção e sente as mãos de Pansy segurando seu braço.

- Você não vai para a aula de poções?! – Há estranheza no rosto da garota, sabendo que esta é a aula preferida do garoto.

- Não estou a fim. – Solta o braço com força, deixando-a atônita para trás.

Segue com certa pressa, querendo sumir dos olhos de qualquer aluno da escola e, ao ver-se sozinho em um dos corredores, Malfoy pára. Fecha os olhos e fica alguns minutos apenas parado, voltando a cabeça para cima. O nó em sua garganta ameaça sufocá-lo, sentindo uma dor profunda no peito. Apóia um dos braços na parede, abaixando a cabeça e não conseguindo mais segurar o choro. Não quer se sentir tão frágil, mas precisa desabafar aquilo que o oprime.

- EU ODEIO A MINHA VIDA! – Grita chutando a parede, mas parando depressa quando sente que está se machucando. Segue então como um zumbi pelo corredor. Precisa chegar ao seu quarto... Precisa esquecer tudo que sentiu na noite mágica e voltar à dura realidade.

OoOoo

Agora, aqui sentado diante desse diário idiota, finalmente reflito sobre o que fiz naquele dia. Pela primeira vez sacrifiquei meus interesses por alguém e isso foi mais decisivo do que tudo que já me acontecera. Eu decididamente não pensava ou agia como meu pai esperava, como um futuro Comensal da Morte. Havia algo dentro de mim que na hora nem eu reconheci. Na verdade, eu pensava que apenas queria poupar a pessoa que eu descobrira amar, um desejo altamente egoísta, mas abriu a brecha para que minhas ações futuras fossem diferentes. Meu íntimo iniciara uma mudança que nem eu mesmo podia deter, o que me colocou na situação difícil em que estou agora, em desgraça, me preparando para uma missão possivelmente suicida.

Apesar de tudo que sente, toda a necessidade de estar junto de Harry, dos sonhos intensos que tiram seu sono, Draco se mantém em sua estratégia. Sabe que o mantendo com raiva, poderia dizer ao pai que falhara e pronto, esse seria o fim dos planos para matar Potter.

E por algum tempo continua a perturbar Potter e seus amigos, como sempre fez, notando como suas ações já não recebem mais raiva, mas um profundo desprezo dos olhos verdes. Não pode negar que isso o machuca, mas é melhor assim. É inegável que muitas vezes pega as esmeraldas o procurando no salão, nas salas de aula e por toda a escola, sempre desviando o olhar quando percebe ter sido notado. Com o tempo isso passa...

O pior de tudo é exatamente quando Harry parece se aproximar de Cho novamente, sempre gentil e tímido diante dela. Certo que ele estar com outra pessoa serve aos seus propósitos, mas... Vê-lo perto 'daquela' garota faz seu sangue ferver.

"Adoraria ter uma besta em minhas mãos... E atingi-la diretamente entre os olhos." – Olha para a menina com olhos assassinos. – "Isso me daria um imenso prazer..."

Balança a cabeça procurando deixar esse pensamento maligno de lado.

"Tenho que parar com isso! É bom ele se aproximar dessa..." – Tenta sempre se convencer disso, tentando usar de lógica.

Certo que sabe que esse nunca foi seu ponto forte, mas pode tentar.

"Mas eu adoraria tê-la presa numa estaca..." – Um sorriso maldoso surge em seus lábios. – "E com uma fogueira sob ela."

Sabe muito bem que muita coisa acontece com Harry que nem pode imaginar, vê em seus olhos que continua sendo assombrado pelos pesadelos dos quais nunca quis falar e que ele e seus amigos andam aprontando algo pelas costas da Umbridge. Não sabe muito bem o que pensar sobre isso, pois seu único pensamento está na proximidade dos feriados do Natal e... Precisa ser convincente o suficiente para se safar de mais esta.

No dia de partir procura instintivamente Harry, tentando buscar nele a coragem que terá que ter para enganar o pai, mas em vão, pois não o vê em local algum, nem os seus amiguinhos. Mas logo nota que a odiosa garota está a sua frente, cercada de algumas meninas, todas tagarelando da forma que odeia. Só que um nome é citado insistentemente por uma e outra, fazendo com que decida prestar atenção naquela balbúrdia.

- Mas conta como foi. – Uma garota loira ravenclaw pede em alto e bom som, não se importando quem escute.

- Isso... Fala... Ele beija bem? – Uma menina gryffindor de cabelos ruivos segura no braço dela, sacudindo-a de leve.

- Nossa! Parecia que eu fui às nuvens e voltei. – Cho fala isso empolgada, talvez mais por estar contando isso para as amigas. – Pensei que ele era inexperiente, mas não parecia... O Harry beija bem demais.

A menção disso faz os olhos de Draco se estreitarem e a antiga imagem da estaca e da fogueira volta a sua mente. Mas decide se acalmar e permanecer ali, bisbilhotando a conversa das pequenas gralhas.

- O importante é que você beijou Harry Potter e todas as garotas vão querer te matar de inveja. – Diz uma terceira garota, a quem Draco sequer olha.

- Verdade... – Cho diz um tanto tímida, mas com um sorrisinho vitorioso nos lábios.

- Mas você já esqueceu o Cedric? – A loira fala com um tom levemente reprovador.

- Mas ele é Harry Potter! – Cho olha para ela, tentando de alguma forma justificar-se.

"Que garota fútil!" - O loiro sente suas entranhas se retorcerem, não acreditando que esta garota possa ter feito uma observação dessas.

Harry merece mais do que isso. Decide ir embora e deixar essazinha para trás. Não vale a pena. Mas quando passa por ela esbarra com força, quase a fazendo cair. Por um instante seus olhos se encontram, quase a trespassando com o olhar fulminante, cheio de raiva e desprezo. Mas o momento é rápido e logo ele se afasta sem nada dizer.

Mas enquanto as outras tagarelam sobre a grosseria do loiro, Cho mantém os olhos nele se afastando, sabendo que sentiu algo muito forte, pior que apenas falta de educação ou soberbia. Um sentimento muito mais intenso que a deixou arrepiada, mas na verdade não sabe dizer o que.

ooOoo

Draco entra pela porta de casa sem alarde, pois não sente a mínima vontade de voltar. Sabe que um momento difícil o espera e toda a dor que sua casa representa. Não que não ame os pais, em absoluto, pois a mãe é tudo para ele, sempre carinhosa e gentil. Ama o pai também, mas o teme ainda mais, e esse é o grande problema. Não acredita que esta é a relação pai-filho que a maioria das pessoas tem, e muito menos a que deseja. Lembra-se dele na sua infância. Não havia um legítimo carinho, a relação deles sempre parecia distante, mas sabe que seu avô era um homem muito severo e isso o faz entendê-lo um pouco melhor. Mas não há justificativa para o que acontece entre eles há cinco anos e os rumos que sua relação está tomando. Às vezes não se sente um filho, mas pior que os comensais que adulam seu pai, e que são desprezados por ele. E sempre se pergunta se Lucius realmente o ama.

Quando passa pelo grande saguão de entrada sua mãe sai de sua sala particular, rosto radiante por vê-lo, abraçando o filho com toda a força. Os braços quentes dela passam todo o calor que sente, fazendo Draco curvar-se um pouco e acomodar a cabeça no ombro dela.

- Nossa! Parece que você cresceu mais ainda! – Ela diz suavemente, com um tom divertido, afastando-se um pouco para olhar o rosto cansado do filho. – Pensamos que você chegaria mais tarde.

- A viagem foi mais rápida... – Há um profundo desânimo em suas palavras.

- E você veio bem sozinho da estação. Mas parece cansado... – Narcissa toca seu rosto com delicadeza. - Suba e se refresque para o jantar.

- Não! – A voz de Lucius vem da porta da biblioteca, fazendo-os se voltar sobressaltados em sua direção. – Temos muito o que conversar.

Draco abaixa a cabeça e respira fundo, procurando dentro de si toda a força para conseguir enganar o próprio pai. Anda resignado, passando pelo pai parado na porta, sentindo o olhar duro dele sobre si. E este lhe dá a certeza de que a conversa dos dois vai ser ainda mais difícil do que imaginava. O garoto se coloca próximo da janela, vislumbrando a neve alta do lado de fora. Procura demonstrar calma, sabendo como seu pai parece farejar medo. Olha para o homem de cabelos platinados que anda em sua direção, olhar reprovador, e tenta pensar em algo para começar a falar. É difícil, sua coragem toda sumindo de repente.

- Nevou bastante por aqui. – Tenta dar um tom casual, procurando as palavras certas para começar a mentir.

- Por quanto tempo você pretende ficar falando de amenidades? – Lucius observando cada detalhe da expressão do filho, percebendo como suas palavras o paralisam. – Conheço-o muito bem pra saber que está tentando me enrolar.

Os olhos cinza se voltam para ele temerosos, sem saber o que responder. Deve ir logo ao assunto e dizer como 'falhou miseravelmente'? Ou deve sondar primeiro a fim de descobrir como isso pode ser recebido?

- E não me venha com mentiras... – O pai dá pouca chance para os movimentos do filho, vendo que isso o faz andar na direção da poltrona de espaldar alto perto da porta. Típico passo de quando Draco se sente encurralado. – Por que você afastou o Potter?

- Ahn?! – A surpresa faz seus olhos se arregalarem. – Não sei do que o senhor está falando?

Lucius caminha até ele, seu olhar mais satânico, fazendo com que recue até encostar à parede. Coloca as duas mãos, uma de cada lado de sua cabeça, impedindo qualquer possibilidade de fuga. Aproxima-se ainda mais, seus rostos ficando frente a frente.

- Eu... Er... Ahn... – Odeia se sentir dessa forma, o que tira qualquer lógica que possa usar nesse momento. – O senhor soube da briga que tivemos no jogo entre as casas? Isso acabou...

- Eu sei o que aconteceu depois da briga. – Os olhos de Lucius parecem feitos de gelo ao dizer tais palavras. – E não me diga que isso os afastou.

Draco passa por baixo de seus braços e anda rápido para o outro lado da biblioteca. O pai se volta para ele devagar, deixando claro que não há escapatória.

- Não sei do que... – A voz dele sai trêmula. Sua face fica corada, sentindo vergonha, não que se sinta sujo, mas...

- Você foi até as últimas conseqüências... Eu sei. – Diz em um tom frio, mas baixo, provocando ainda mais terror. – E depois de ter a suprema confiança de Potter... De levá-lo a um ato tão íntimo desses... Você...

- De onde o senhor tirou essa idéia! – Precisa tomar uma atitude ou tudo estará perdido. – Eu jamais... Nunca... Iria fazer tal coisa. Ainda mais com ele!

- Pensa que sou um idiota como você? – Não há qualquer dúvida nos olhos do pai. – Tenho um espião dentro daquela escola... Alguém que segue cada passo seu.

O sangue de Draco gela imediatamente. Nunca poderia imaginar que o pai chegasse a esse ponto em seu plano, demonstrando como não há qualquer confiança da parte dele na honestidade do próprio filho. Afinal... 'Filho de peixe'... Mas sabe que não pode fraquejar nesse momento. Por Harry.

- E por acaso esse dedo-duro me viu fazendo aquilo que o senhor insinua? – Tenta jogar com isso, pois sabe muito bem que não havia ninguém com eles naquela sala trancada. – Ou essa pessoa presume...

Um sorriso maléfico surge no rosto severo, causando ainda mais medo. Uma expressão irônica se desenhando, fazendo-o se aproximar. Chega a admirar a coragem do filho, um covarde assumido, para enfrentá-lo dessa forma.

- Há várias formas de concluir isso. – Lucius se aproxima tanto do filho que este se encosta a uma estante, o hálito quente chegando ao rosto juvenil. – Devia tomar cuidado ao deixar o local do ato... A porta ficou entreaberta o suficiente para que meu espião pudesse ver das sombras o Potter nu sobre o colchão.

- Eu... – Isso o desarma completamente.

- Além disso... Você devia ser mais silencioso... – Chega ainda mais perto de seu rosto, seus lábios roçando a pele clara. – Nunca o ouvi gemendo tão alto... Ele foi melhor do que eu?

A menção disso quase o faz desmaiar. Tudo de bonito e doce daquela noite se torna travestido de sujeira ao ser comparado àquilo que acontece entre ele e o pai. Fecha os olhos, procurando esquecer que o homem está tão próximo e que sua lembrança mais doce está sendo maculada dessa forma.

- Eu só consigo gemer de dor... – Há raiva em suas palavras, ditas com uma voz profunda que afasta Lucius. - Quando sua mão não está sobre minha boca.

O homem fica diante dele ainda surpreso. Sua determinação estremece, sentindo pela primeira vez o sabor da realidade. Todas as vezes que se sentiu frustrado, com medo, precisava subjugar alguém, ter poder... E Draco fora seu bode expiatório. Mas jamais pensou nele como seu filho naqueles momentos. Ele era alguém mais fraco, alguém a quem podia dominar. Mas neste momento se viu nele... Também odiara seu pai, nos momentos em que o espancava, em que o fazia se sentir um fraco e inútil. Mas... Sabe que não pode fraquejar neste momento, como se sentisse novamente o chicote de seu pai nas costas... Há muita coisa em jogo.

- O mais importante é POR QUÊ? – Assume a postura de líder duro. – Tem de haver uma razão pra você afastá-lo...

As mãos de Lucius seguram o filho pela gola do casaco, fazendo com que este o observe nos olhos, encarando diretamente os olhos quase prateados. Um leve gemido sai da boca levemente aberta, deixando claro que este movimento o machuca.

- Por acaso... Você não teria se apaixonado por ele de verdade, não é? – Isso é dito com ressentimento.

- N-não... Por favor... O senhor está me machucando. – A voz sai sufocada, pela dor e pelo medo, tentando disfarçar no olhar seus verdadeiros sentimentos. O pai o solta, mas sem tirar os olhos dele, esperando uma resposta. – O senhor está maluco?

- Então... Por quê? – Tenta ler em sua expressão se diz realmente a verdade.

- Bem... Eu... – Procura controlar sua linguagem corporal, temendo ser descoberto. É difícil encontrar uma forma de sair dessa enrascada, ainda mais com os olhos de Lucius sobre ele dessa forma. – Tive medo... Não queria que se repetisse... Eu... Com ele... Aviltante!

Esconde o rosto nas mãos, mais pra esconder seus verdadeiros sentimentos quanto a isso, mas continua a emitir ruídos de profundo nojo.

"Para alguma coisa anos de interpretação do personagem que criei para mim mesmo tinha que servir!" - Mas logo sente a mão pesada do pai agarrando seu braço com força e é obrigado a encará-lo.

- Pois vai ter que engolir seu orgulho e reconquistá-lo. – Há uma expressão estranha em seu rosto. – E rápido... O tempo está escasso.

- Mas... Ai! – A mão de Lucius segura o braço dele ainda mais forte, machucando-o de verdade.

- Você ainda não entendeu. – Seu rosto fica ainda mais sério. – O futuro da nossa família depende do sucesso desse plano.

- Co-como assim? – Percebe que não é uma manobra de manipulação, mas há medo real nos olhos do pai.

- Você pensa que me custou barato manter a fortuna da família e... Impedir minha ida para Azkaban? – Ele respira fundo, tentando afastar toda a frustração e medo dos últimos quatorze anos. – Sabia que o Lorde voltaria e como esse preço que paguei pela liberdade seria visto por ele.

Solta o braço de Draco ao ver uma lágrima solitária descer por seu rosto. Mas não há qualquer som que demonstre a dor que provavelmente sente, atento às palavras do pai como nunca.

- Sinto que a minha posição na hierarquia dele está cada vez mais complicada. – Seus olhos se estreitam com o pensamento. – E minha queda põe você e sua mãe em alto risco. Não posso permitir que nada lhes aconteça.

Draco nunca viu o pai da forma como vê neste instante. Não que suas palavras justifiquem suas ações passadas, mas pelo menos faz o rapaz entendê-lo um pouco melhor. Chega a sentir pena, pensando no peso que vem carregando por todos esses anos.

- Entregar a vida de Potter para o Lorde... – Fala de cabeça baixa, mas a ergue para encarar o filho mais uma vez. - Isso vai me alçar à posição que ocupava no passado.

- Mas eu não quero... Desprezá-lo é uma coisa, mas matá-lo... – Fala quase choramingando. - Não há outro jeito?

- Está na hora de crescer. Você terá que assumir meu lugar algum dia. – Uma leve irritação surge em sua voz. – Ou você prefere ver sua mãe nas mãos do Lorde?

Estas suas últimas palavras não deixam qualquer escolha para o jovem Malfoy. Jamais deixaria algo acontecer com ela, mesmo que precise sacrificar Harry para isso. Sente uma dor incrível se iniciar em seu peito, uma angústia por saber que não há saída.

- Ok... Vou seguir... Nossos planos. – Segura o mais que pode a pressão que oprimi seu peito.

Percebendo que talvez não consiga mais disfarçar, abre a porta e sai, passando pela mãe atônita, que percebe que o filho começa a chorar. Sobe as escadas e se tranca no próprio quarto, decidido a salvar a família, mesmo que isso lhe custe a coisa mais preciosa que já sentiu na vida.

ooOoo

Para um garoto que foi criado como eu, quando nada que quis me foi negado, a situação em que fui colocado era altamente frustrante. Pessoas como Potter, Weasley e Granger tiveram que enfrentar sempre as dificuldades que a vida lhes impôs. Mas eu era um garoto mimado, egocêntrico e vaidoso... Como reagir a uma situação dessas? Pensei muito no que fazer, em formas de escapar às responsabilidades que a realidade me impunha, mas... Não havia saída.

Mesmo hoje, novamente tendo o futuro da minha família em minhas mãos, não consigo deixar de pensar naquela noite terrível em que o menino rico foi jogado nos braços da dura e cruel vida real. Confesso que chorei, pelo que precisaria fazer, mas principalmente por perceber que perdera para sempre minha inocência. Estava mergulhado no mundo obscuro do comensal que seria em breve.

Draco volta à escola decidido a reconquistar a confiança de Potter, mesmo que não seja o que quer, mas... Não tem escolha. É recebido com alegria por Pansy Parkinson, mas quase não a vê, pois seus olhos seguem o moreno que chega acompanhado dos amigos inseparáveis. Percebe que um olhar é dirigido para ele disfarçadamente, mas logo se desvia, uma profunda expressão de desdém. E por alguns dias inicia-se um verdadeiro jogo de gato e rato, onde o loiro tenta se aproximar, mas falha, para seu desespero.

E evitar Malfoy parece uma arte para Harry, que disfarça seus atos escorregadios e saídas rápidas com a necessidade de manter a Armada de Dumbledore segura. Fica ligeiramente intrigado com a insistência do loiro em tentar falar com ele, mas não deseja conversar de forma nenhuma. Nada do que possa lhe dizer pode apagar suas palavras sobre o que tiveram juntos. Está cansado de se sentir um idiota e essa pessoa tem a capacidade de sempre despertar o que tem de pior nele.

Mas como as rodas do destino se movem contra nossa vontade, em um dia frio do final de janeiro, Harry espera pelos amigos para irem a mais uma reunião da AD. Não sabe exatamente por que os dois demoram tanto. Está parado diante da porta de entrada, observando a neve que cobre todo o terreno na escola, parecendo um mar branco.

- Como está o pai do Weasley? – Draco diz isso mecanicamente, pois ensaiara essa entrada desde que voltara.

Harry olha para ele com repulsa, suas esmeraldas carregadas de rancor.

- Não venha me dizer que está realmente preocupado com isso... – Suas palavras saem carregadas de todo o ressentimento que sente.

- Eu não sabia o que dizer... – Sua voz sai fraca e abaixa a cabeça, evitando o olhar do outro. - Achei que isso faria você ser menos severo comigo.

- O que você quer agora? – Harry ajeita os óculos, um movimento que denota o seu nervosismo. – Já não se divertiu o bastante?

- Eu... Quero conversar. – Tenta se segurar, pois sua vontade é agarrá-lo e beijar-lhe a boca insanamente.

- Não temos mais nada a falar um com o outro. – Fica claro nos olhos dele o quanto está magoado. – E pare de me seguir... ME DEIXA EM PAZ!

Malfoy tenta segurar o braço dele, mas o moreno o puxa com força.

- Larga ele, Malfoy! – A voz de Rony troveja por detrás deles.

- Ah, o pobretão está querendo dar uma de valente. – O loiro se volta para encará-lo. – Por acaso virou o guarda-costas dele? Quem sabe ganha algum dinheirinho extra!

Hermione segura o ruivo com dificuldade, enquanto Harry se aproxima deles e faz sinal para que o sigam. Ele está cansado de tudo isso e quer distância de Draco. Sobem pelas escadas, deixando para trás o loiro ainda nervoso.

E por mais alguns dias Draco tenta, suportando a proximidade ainda maior de Harry e Cho, a imagem dos dois se beijando se formando em sua mente e perturbando-o ainda mais. Cada vez que a garota se aproxima, tem ímpetos de arrancar todos os cabelos dela para ver se a menina fica bonita careca. Precisa de todo seu talento interpretativo para disfarçar a raiva que o consome.

Mas a sua oportunidade aparece em uma noite em que Harry novamente tem uma de suas agradáveis detenções com a Umbridge. Draco fica a espreita, esperando que ele saia. O segue discretamente até que estejam longe, mas no momento em que chegam às escadas Harry percebe sua presença.

- Você de novo! – Continua a subir as escadas. – Já falei pra me deixar em paz.

- Só quero conversar. – Draco o segue, aumentando o passo para tentar alcançá-lo. – Não corre tanto... Sabe que tenho fôlego fraco.

- Não quero conversar! – Harry aperta o passo.

Quando chegam a certo ponto, um dos andares, pois os dois perdem a noção de onde estão, concentrados apenas nessa perseguição sem sentido, Draco o alcança e segura pelo braço.

- Me dê... Uma chance... De me explicar... – Fala quase sufocando.

- Não te devo nada... – Harry tem de admitir que também está exausto.

Draco o empurra para dentro de uma porta, percebendo que estão em um dos banheiros, ficando satisfeito com a privacidade relativa que terão. Solta o moreno que procura sair, mas ele se coloca na frente da porta para impedi-lo de escapar.

- Me deixa sair! – A voz de Harry sai genuinamente ameaçadora.

- Só depois que você me ouvir. – Draco se encosta à porta, uma expressão súplice no olhar. – Mas prometo que depois disso não te perturbo mais.

A afirmação parece acalmar um pouco o exaltado moreno, que relaxa os punhos que estavam cerrados ao longo do corpo. Nada do que ele possa dizer vai convencê-lo a confiar novamente, mas... A promessa de não tê-lo mais pelos corredores como uma sombra é por demais tentadora.

- Muito bem... Pode falar. – Olha para ele em atitude desafiadora. – Mas já aviso que não sou o idiota que você pensa.

- Não é mesmo... – Se aproxima um pouco, podendo encará-lo com clareza. – Eu sou o idiota...

Potter tenta disfarçar a surpresa que as palavras de Draco produzem. Jamais imaginaria ouvir isso dele, o que o deixa ainda mais desconfiado.

- Não pensa que essa sua falsa humildade vai me convencer. – Novamente se coloca na defensiva, cerrando os punhos. – É fácil vir aqui e ficar dando uma de arrependido...

- Eu sei que mereço toda essa hostilidade. – Ele se aproxima ainda mais. – Aquilo tudo que te falei... Mas... Queria explicar...

- Não tem o que falar... – Harry também avança, mas claramente enfrentando-o. – Como explicar que nós... Fizemos... E no dia seguinte você me mostrou como fui usado.

- Eu... Tive medo... – Abaixa os olhos tentando esconder a dor que o possui. – Do que estava sentindo.

- São meras palavras... – Por mais que se sinta tentado a acreditar, luta contra isso. – Tudo o que me disse antes... Acho que até a história do seu pai foi somente uma forma de me comover.

Isso irrita profundamente o loiro, pois se nessa história toda havia algo de verdadeiro, se algum momento foi autenticamente sincero, foi ao se abrir sobre os problemas com o pai. Avança para Harry, que recua temeroso, chegando muito próximo.

- Você acha que inventei tudo isso? – Abre a camisa mostrando os hematomas ainda presentes em seu pescoço. – Acha que fiz isso em mim mesmo?

Um silêncio perturbador se instala entre eles.

– Se pensa mesmo assim... – Se volta e caminha para a porta. – Não temos mesmo o que conversar.

Draco sai, deixando um Harry abalado demais para dizer qualquer coisa. Olha para a porta insistentemente, se perguntando se deve ir atrás dele, mas algo em seu íntimo diz que o loiro não é confiável. E quanto mais pensa, mais encontra desculpas para si mesmo a fim de não admitir que talvez esteja errado.

- Humm... Se eu fosse você iria atrás dele. – Uma voz feminina, maliciosa e reprovadora vem detrás de Harry. Ao se voltar se depara com a Murta. – Ele está falando a verdade...

Isso o abala, pois jamais esperaria ouvir isso vindo dela, encarando-a interrogativamente. O que a Murta sabe para fazer uma afirmação tão categórica?

- Eu... Bem... A vida de um fantasma é muito solitária... – Ela parece ficar envergonhada, mas é apenas parte de sua performance. – À noite percorro os canos e...

- Você espiona os garotos nos chuveiros?! – A surpresa de Harry é autêntica, imaginando quantas vezes foi alvo de tal espiã.

- Pode parecer pior do que é... – Dessa vez ela fica sem jeito, pois Harry é a única pessoa que a trata decentemente. – Mas isso não vem ao caso... O importante é que ouvi o loiro gostosinho naquela noite.

- ...! – Harry engole em seco, meio sem graça sobre o que ela sabe sobre aquela noite.

- Não sei o que vocês aprontaram... – Murta nota o rubor nas faces do garoto e se encosta maliciosamente nele. – Safadinho... Mas sei o que ouvi ele dizer no chuveiro... De madrugada...

- Me fala... Eu preciso saber. – Seu estômago dá voltas ao pensar em como tratou Draco há poucos minutos atrás.

- Coitadinho... Ele estava chorando. – Ela se afasta e senta na janela, cruzando as pernas. – Estava desesperado porque se apaixonou por alguém... Acho que era você.

Ele se aproxima e fica diante da janela, sorrindo para ela, abalando a fantasma que sempre esteve presente em sua vida escolar.

- Murta... Você é uma das garotas mais legais dessa escola. – Harry diz, fazendo-a descer e enlaçá-lo pelo pescoço.

- Você acha mesmo?! – Ela abre um sorriso largo e se afasta um pouco. – Mas vai atrás dele...

Não é preciso dizer isso duas vezes. Harry desce as escadas em desabalada, sem medo de encontrar quem quer que seja, pensa apenas em encontrá-lo antes que entre em sua Casa e fique fora de seu alcance. Não pode deixar para o dia seguinte, pois o remorso o corrói por dentro. Percorre corredores escuros, apenas com a iluminação da varinha, sem recear nada, apenas como vai ser o encontro dos dois. Vê o loiro logo à frente, em um corredor que nem imagina onde pode ser, tendo feito o caminho mecanicamente.

- Es-espera... – Pára já sem qualquer fôlego.

Draco se volta e o olha surpreso. Descera as escadas, desanimado por ter perdido Harry para sempre, mas sentindo certo alívio no mais fundo de seu ser. Seria a destruição de sua família, mas Potter estaria vivo. E ouvir a voz dele as suas costas o faz tremer.

- ...! – As palavras lhe faltam, coisa rara, seus olhos brilhando ao encarar o rosto afogueado.

O momento não pede palavras, também porque nenhum dos dois sabe o que dizer, andam depressa um para o outro e se beijam com paixão. Draco enlaça o moreno pela cintura, enquanto Harry o abraça pelos ombros, os dois se perdendo em um furor absoluto. A saudade, a ânsia pelo toque, a necessidade dos beijos... Tudo isso os perde completamente, esquecendo-se de todo o cuidado com olhos alheios. Esquecidos que o que sentem é proibido e que a realidade os espreita.

ooOoo

- Eu ainda quero saber por quê? – Os olhos cinza se estreitam, o ciúmes o corroendo por dentro.

Harry o puxa para si, acomodando-o em seus braços sob o cobertor quente, percebendo uma relutância teimosa dele, isso o fazendo sorrir.

- Já conversamos sobre isso. – Potter passa a mão em seus cabelos loiros ainda suados, somente fazendo-o aumentar a expressão emburrada. – Preciso manter as aparências.

- Mas não acho certo... – Draco ameaça levantar do colchão, mas é puxado de volta. – Nós nos vemos aqui todos os dias, nos arriscando... E você sai com 'aquela'... Bem no dia dos namorados!

O abraço se aperta, Harry trazendo-o para junto de seu corpo, beijando sua testa. Os olhos prateados o encaram, manhosos, sabendo que há lógica na tática, mas se comporta de acordo com seu temperamento possessivo.

- E propõe o quê? – Harry claramente sendo irônico. – Talvez nós possamos ir juntos à cidade, diante de todos, de mãos dadas...

- Ah... Cala sua boca. – Está legitimamente nervoso. – Odeio quando você é sarcástico!

Harry o beija ardentemente, lutando com sua resistência inicial, mas logo sentindo o corpo entregue em seus braços. Puxa-o ainda mais para si, sabendo onde todo esse calor os leva. O ciúmes dele o excita ainda mais, tocando-o mais intimamente, deixando claro que não há ninguém mais para ele.

ooOoo

Draco segue pelo caminho que leva a Hogsmeade. O tempo está frio, mas sem neve, as nuvens carregadas denunciando que a chuva não demora muito. Segue a certa distância o casal que caminha lado a lado, mas sem sequer tocar as mãos. Harry parece completamente sem graça e a garota, tímida, apesar de lembrar muito bem de suas palavras quando falava sobre o beijo.

"Eu adoraria estragar esse momento fluffy!" – Pensa seriamente, mas não sabe como.

Sente o toque de Pansy em seu braço, sempre pendurada, mas... Isso lhe dá uma idéia! Cochicha algo no ouvido dela, que reúne outras meninas slytherins e correm para ultrapassar o casal. Sorri ao vê-las caçoando dos dois.

Ele continua os seguindo e entra sorrateiramente em uma casa de chá, tão exageradamente decorada para a ocasião, tão... Malfoy não encontra uma palavra açucarada e nojenta o suficiente para definir tudo aquilo. Senta-se em uma mesa nos fundos, de onde pode ver distintamente a mesa onde estão os dois, mas só pode ser visto se quiser. O ambiente carregado combina com os casais se amassando por todo canto, todos exceto aquele que vigia. Harry parecendo cada vez mais sem graça. Percebe que sabe o que se espera dele neste momento, mas que é mais do que desejava fazer nessa representação. Pelo menos o loiro espera que sim.

"Se ele a beijar... Não sei do que sou capaz!" – Espanta a proprietária que lhe oferece mais chá.

Mas de repente o encontro parece desandar. A garota se descontrola, demonstrando a falta de caráter que Draco observou naquele dia, falando coisas sem nexo e deixando Harry cada vez mais corado. Todos o observam, inclusive o loiro, logo sendo visto por ele, que lhe dirige um olhar duro. Isso lhe provoca um ataque de riso silencioso, quase caindo da cadeira, deliciando-se com o rostinho indignado e o ciúme idiota da garota por causa da Granger. Tudo desculpa esfarrapada de uma menina fútil.

Quando ela sai, chega a ter pena de Harry, tão encabulado que se confunde com o cor-de-rosa da decoração. Ele logo se levanta e sai, irritado, provavelmente atrás da 'cabeça oca' que o está deixando escapar. Quer segui-lo e provar que sabe todo o valor que ele tem, mas sabe que não deve.

Sai daquele lugar enjoativo e se depara com a chuva forte que cai, amaldiçoando a decisão de Harry de sair com 'aquela'... Praticamente o obrigou a sair também e enfrentar esse tempo horrível. Vê o moreno entrar no Três Vassouras, então sabe que não alcançou a 'falsa ex-namorada'. Decide voltar para Hogwarts, nada mais tem a fazer nesse lugar.

Entra na Sala Comunal ainda amaldiçoando o tempo e o caminho, reclamando como sempre é de seu costume. Ela está em um profundo silêncio, o que deixa-o satisfeito. Afinal, pode ter a Casa toda para si. Acomoda-se no sofá, esticando as pernas e se aquecendo diante da lareira acesa. Pensa no encontro frustrado de Harry, mas... Não pode deixar de pensar em si mesmo. Tudo o que pensou sobre Cho e... Não pode se dizer melhor do que ela. Talvez até seja pior, pois a garota queria apenas impressionar as amigas, mas ele o vai levar para a morte. Mas um ruído o tira de seus pensamentos.

- Quem está aí? – Se levanta depressa, na defensiva.

- Sou eu... Crabbe. – Ele aparece da passagem que leva ao dormitório masculino.

- Que foi? – A lembrança das palavras do pai sobre um espião o deixa furioso. – Estava me espreitando?

- Esprei... O quê? – Ele realmente não conhece o significado dessa palavra. – Eu estava deitado... Tive uma dor de barriga e não pude...

- Me poupe do seu relatório. – Volta a se sentar, balança a cabeça, sentindo-se bobo por pensar que um idiota desses pudesse espioná-lo.

Crabbe se aproxima dele, meio sem jeito, com um aspecto horrível, mas completamente vestido.

- Isso chegou pra você. – Estende para ele um pergaminho. – Pediram pra te entregar.

Draco puxa-o da mão gorda, vendo que vem do seu pai, o selo da família claro no lacre. O colega continua diante dele parado. Isso o irrita, talvez mais por ter sido o mensageiro de más notícias. Faz sinal para que saia, no que é prontamente atendido. Quando se vê sozinho, rompe o lacre, abrindo o pergaminho devagar, temeroso de seu conteúdo.

Acordo será fechado daqui há três noites. Casa do Grito. Não falhe.

Tudo tão frio e sem assinatura, mas sabe muito bem quem é o autor e quais suas intenções. Seu pai sabe da censura de correspondência, talvez por isso tenha sido tão conciso, mas isso não faz com que seu conteúdo o machuque menos. Por mais que seja doloroso precisa fazer. Então... É o fim.

ooOoo

No final de semana os dois não se encontram, Harry sendo cercado pelos amigos em tempo integral e na segunda a reportagem bombástica com a entrevista de Harry revelando os detalhes da volta de Voldemort e os nomes dos comensais presentes em seu retorno. Draco lê o jornal junto com seus asseclas, mas se irrita por motivos diversos dos deles. Sabe o quanto isso vai deixar seu pai ainda mais raivoso. Se ele pretendia matar Harry rapidamente, agora isso não aconteceria. Olha para o moreno e faz um comentário qualquer com os outros, do qual nem se lembra.

À noite, depois da detenção, Harry chega à sala onde Draco o espera, observando a lua pela janela, alheio a chegada dele. Sorri ao vê-lo assim tão distraído, aproximando-se e o enlaçando por trás, encostando o queixo em seu ombro.

- Você está tão pensativo... – Encosta os lábios nos pescoço alvo, fazendo-o estremecer. – Senti sua falta esses dias.

- ...! – Draco deseja falar algo, mas não consegue. Seu coração apertado por algo que não pode controlar.

- Está tão silencioso! – O faz se virar de frente para ele, ficando ainda mais preocupado quando os olhos cinza o evitam. – Não vai me dizer que ainda está emburrado por causa da Cho!

- Não... Eu... Quero te fazer uma surpresa. – Engole em seco decidido a salvar a mãe, vencendo a relutância dentro de si mesmo. – O nosso dia dos namorados.

Um sorriso satisfeito surge no rosto bonito do moreno, seus olhos brilhando diante de algo tão romântico. Depois das baboseiras que ouviu de Cho naquele dia, essas palavras lhe parecem o frescor de uma brisa.

- Mas temos que arranjar uma forma de sair de Hogwarts. – Nem acredita que está dizendo isso, mas continua em frente.

- Por que fora da escola? – Isso causa estranheza em Harry que estreita os olhos.

O loiro o abraça, beijando seu pescoço, enroscando-se nele. O calor daquele beijo derruba qualquer desconfiança, entregando-se à delícia do contato.

- Aqui é igual aos outros dias... Quero algo diferente. – Lágrimas teimam em surgir em seus olhos, mas procura disfarçar para evitar que ele descubra a farsa. – Podemos ir à Casa dos Gritos. Só não sei como.

- Eu sei... Mas é segredo. – Harry se perde no abraço, enredando seus dedos nos cabelos loiros, aspirando o perfume de sua pele. – Quando faremos isso?

- Amanhã à noite, depois do toque de recolher. – Malfoy o abraça forte, como se quisesse retê-lo ali para sempre.

- Calma... Assim você me machuca. – Há um tom manhoso e divertido na voz de Potter. – Vai ser nossa primeira aventura amorosa...

Esse tom mina as forças de Draco, afastando-se do abraço e ficando de costas, tentando conter toda a angústia que toma conta do seu íntimo.

- Que foi? – Harry se aproxima e o abraça. – Não gostou do que eu disse?

Ele se volta e fica de frente para o moreno, encarando seus olhos verdes com desespero. Quer contar tudo, revelar o perigo e salvar a vida dele, mas... Como escolher quem deve ser sacrificado: Harry ou sua mãe? Sente uma opressão que o domina.

- Harry... Meu pai... – As palavras saem com dificuldade.

- Esquece o seu pai! – Novamente o abraça, estreitando-o em seus braços, satisfeito por sentir que a cabeça loira se aninha em seu ombro.

Draco também o abraça, mas sabe que se ficar mais tempo assim vai acabar fraquejando completamente. Afasta-se um pouco, tocando de leve os lábios rosados, forçando um sorriso.

- Melhor eu ir... – Anda na direção da porta. – Amanhã...

ooOoo

Os dois estão parados diante do Carvalho Lutador já estático, respirando fundo e dando uma última olhada na enorme lua que surge entre as nuvens. As mãos se encontram diante de visão tão bonita, os dedos do loiro segurando firme, querendo por tudo poder segurá-lo ali e impedir que o acordo se concretizasse.

- Agora podemos ir. – Harry o puxa pela mão. – Me siga.

Eles entram por debaixo da árvore, seguindo por um corredor escuro e úmido. Ao final dele chegam a uma casa de madeira empoeirada que range ao balanço do vento.

- Então essa é a Casa dos Gritos! – Draco olha espantado para o lugar que era cercado de tantas lendas. – Mas é um pardieiro cheio de pó!

Harry se diverte com a expressão de nojo no rosto do loiro, o puxando pela mão novamente e fazendo-o subir as escadas. Chegam a um quarto sujo e meio destruído, mas que ainda tem sinais de ter sido o lar de alguém caprichoso e de bom gosto.

- Só precisamos dar uma ajeitada e será um ótimo lugar para o nosso Dia dos Namorados. – Diz animado, sem reparar em como o rosto do loiro está cada vez mais sisudo.

- Melhor irmos embora. – A aflição em sua voz é evidente. – Vamos pra nossa sala...

Potter se volta para ele irônico, sorrindo ao ver como o lugar parece quase amedrontá-lo. Usa então sua varinha para limpar o lugar, fazer a cama de dossel voltar ao seu antigo charme, assim como o divã e o velho piano. Logo está tudo limpo, novas cortinas cobrindo as janelas, ocultando das pessoas de fora a presença de alguém dentro da casa abandonada. A lareira acesa começa a criar um ambiente aconchegante, fazendo com que Harry tire o casaco pesado que veste. Volta-se para a porta, vendo que Draco permanece ali ainda parado, como se paralisado.

- Pode não ser um hotel de luxo, mas ficou até bonito. – Fala sorridente, aproximando-se do rapaz e o enlaçando. – Tira esse casaco e vem comigo pra cama.

Desabotoa o casaco do loiro com cuidado e o joga sobre o divã. Toma sua mão e o guia até a cama, fazendo-o sentar-se ao seu lado, o colchão se revelando mais macio do que esperavam.

- Não era o que você queria? – Ele toma seu rosto entre as mãos e o beija delicadamente. – Vamos aproveitar o momento.

Mesmo que a razão de Draco o impeça de envolver-se com aquele a quem trairá em breve, seu corpo não a ouve, precisa desses toques, dessa boca, de todo o carinho e amor que Harry pode lhe dar. Aprofunda ainda mais o beijo, tomando a cintura dele e trazendo-o para perto de si. Há ânsia em seus movimentos, uma necessidade de tê-lo com urgência. Abre os botões da camisa do moreno sem cuidado, afobado, quase não conseguindo devido ao tremor de suas mãos.

- Calma! Temos algum tempo. – Segura o rosto pálido entre suas mãos e força os olhos cinza a encará-lo. Vê neles uma grande tristeza, uma lágrima represada, e isso o perturba. – O que foi?

- Eu... – Sua vontade é tirá-lo dali e contar toda a verdade. Dizer como um simples acordo tornou-se uma paixão arrebatadora e profunda, mais do que já imaginou que pudesse sentir. Mas as palavras lhe faltam, sentindo-se tomado de uma letargia absoluta.

Toma a boca rosada novamente, querendo esquecer tudo que vai acontecer e viver o momento. As roupas vão caindo ao lado da cama devagar, as peles arrepiadas sendo alvo de beijos e mordidas, ficando rubras com rapidez. Todo o ato se torna célere, a necessidade um do outro se tornando clara, logo estando nus sobre a cama, trocando beijos ardentes e os corpos se procurando. As mãos reconhecendo cada centímetro de pele macia, tocando, apreciando as reações mais sutis.

- Hoje... Eu vou te dar prazer. – As palavras de Draco saem em um sussurro.

- Humm... – O gemido de Harry diz mais do que qualquer resposta. Fecha os olhos, aguardando ansioso.

Os lábios quentes e vermelhos pelos beijos tocam o pescoço de Harry com ânsia, sugando-o e mordendo, descendo pelo tórax. Toma um dos mamilos entre os dentes, mordiscando com delicadeza, para em seguida chupá-lo com força, fazendo o moreno jogar a cabeça para trás, enterrando-a no travesseiro.

Do lado de fora da porta um garoto espreita os dois amantes, ansioso pela chegada do convidado principal. Ouve um ruído nas escadas e se volta, vendo o homem distinto, todo vestido de preto, os cabelos platinados úmidos da chuva fina que cai do lado de fora.

- Muito bem... – Pára ao lado do rapaz, a quem observa com certo desdém. – Eles já chegaram Crabbe?

- Estão na cama senhor. – Uma expressão de nojo surge em seu rosto.

- Então volte para a escola. – Sequer olha para ele ao dizer isso. – Não se preocupe... Sua ajuda não será esquecida.

Depois que o garoto sai todo satisfeito, Lucius se volta para a porta. A glória e o prestígio estão a poucos passos de si, fazendo-o tremer de prazer. Entra devagar, a luz tênue das velas e da lareira iluminando os dois garotos na cama, Draco deliciando-se na pele de Harry. O homem não pode negar que isso o excita, que a visão dos corpos adolescentes o perturba. E isso lhe dá uma noção exata de como será o fim de Harry Potter.

Lucius fica diante da cama, percebendo como os dois estão absortos naquilo que fazem. Os olhos de Harry fechados, concentrado totalmente nas sensações. Deixa então a capa cair no chão e tira a camisa. Aproxima-se devagar, ficando ao lado do leito, encarando os dois, mas logo sendo notado por seu filho, que levanta a cabeça e seus olhos se encontram.

À visão do pai o sangue do loiro congela. Algo dentro de si se contrai em revolta, mas o medo se apossa dele. Aquele mesmo pavor que sempre o dominava quando Lucius o procurava à noite. Podia reagir, principalmente depois de estar mais crescido, mas era como se os olhos frios o hipnotizassem e o temor o paralisasse. Jamais dissera não, mesmo quando esta palavra estava na ponta de sua língua, e agora acontece o mesmo.

O pai coloca o dedo indicador sobre a boca, pedindo silêncio, e faz sinal para que Draco se afaste. Relutante e apavorado o garoto se arrasta devagar para fora da cama, sentando no chão, ao lado, encostado à parede. Seus olhos não saem do rosto inocente, ainda perdido no prazer que sentiam. O homem sobe devagar no leito, observando o corpo juvenil, atacando o pescoço com a boca voraz e tocando-o intimamente, de forma grosseira. Os olhos verdes se abrem, estranhando a mudança, sentindo-se incomodado com a falta de delicadeza. E ao abri-los encontra o rosto frio e o sorriso satânico de Lucius a sua frente. Tenta se levantar, assustado, mas seu corpo é jogado de volta e rapidamente o peso do outro está sobre ele. Procura instintivamente o loiro, preocupado, encontrando seu rosto pálido ao lado da cama, completamente inerte.

- Dra-draco... O que... – A incredulidade o possui, ainda mais por ver o garoto ali, sem reagir.

- Ele não vai te ajudar! – Lucius diz sem controlar uma risada irônica. – Meu filho te trouxe para mim.

- Ahn?! – Não pode acreditar nas palavras do homem, procurando a resposta no olhar de Draco... Mas os olhos que se abaixam confirmam.

- Há quase um ano... Mais ou menos isso... – Faz uma pausa dramática. - Eu e meu filho tivemos uma idéia genial.

- Eu não... – A voz do loiro sai tão fraca, quase inaudível.

- Ele iria seduzi-lo e o faria confiar completamente nele. – Há um profundo prazer em sua voz, principalmente por ver o efeito que isso produz no inimigo. – Depois o entregaria para mim.

As esmeraldas não saem do rosto que tanto amara, mas que o evita. Sente uma dor profunda, muito maior que o medo das intenções do comensal. A traição o corta por dentro, a sensação de ter sido usado trazendo lágrimas aos olhos, mesmo que não queira. E aquele corpo odioso sobre o seu, sem consentimento, torna isso ainda pior. O contato da pele e a mão grosseira o tocando, o fazem tentar reagir novamente, mas sem sucesso.

- Draco sabia que eu o mataria e... – Seu sorriso fica ainda mais sarcástico. – Fez um ótimo trabalho. Trouxe você direitinho para a minha armadilha.

- Não... Não... Como pôde?! – Sua voz sai agoniada, profundamente triste. Seus olhos fixos em Draco, que leva as mãos ao rosto.

Lucius força as pernas de Harry para que se abram, colocando-se entre elas.

- Você vai morrer... E vou entregar seu corpo ao Lorde das Trevas. – Seus olhos se enchem dos sonhos de grandeza que seu plano lhe traz. – Mas antes, vou te humilhar. Você vai se submeter a minha vontade. Vou tomar seu corpo... Depois disso vai me implorar pra te matar.

- Jamais! – A raiva se apossa dos olhos verdes. – Vou lutar até a morte.

- Ótimo! – Um riso diabólico toma o ambiente. – Assim será mais divertido!

Morde com força o ombro de Harry, forçando suas coxas para que se abram mais, deliciando-se com a tentativa de resistência de seus braços presos sob seu corpo e pelas lágrimas que lhe descem pelo rosto. Abre com destreza a calça que ainda veste, preparando-se para penetrá-lo sem qualquer cuidado.

Draco vê a cena como um flashback, rememorando cada noite em que foi usado pelo pai, tomado pelo medo e desespero. Mas as lágrimas na face de Harry o destroem. As esmeraldas já não o observam, perdidas em algum lugar no teto.

- NÃO! – Draco se projeta contra o corpo de Lucius, jogando-o para fora da cama, contra a parede, atordoando-o.

O loiro se levanta depressa, pegando as roupas de Harry do chão e colocando-as nos braços do ainda confuso rapaz. Puxa-o da cama e o empurra na direção da porta.

- Vai! Foge! – A urgência clara em seu rosto. – Rápido!

Vê Potter sair, mas em seguida é jogado sobre o divã, o pai sobre ele. As mãos de Lucius em torno de seu pescoço tiram seu ar, fazendo-o arfar. Tenta desesperadamente empurrar o homem, mas o peso de seu corpo o prende, tornando qualquer movimento seu impossível.

- Eu sabia... Você é mesmo um fraco inútil. – O pai diz isso quase em um rosnado, sua expressão como a de um animal selvagem. – Era uma missão simples, mas... Tinha que se apaixonar por ele, não é?

- Por... Favor... – As palavras quase não saem. – Sou... Seu filho...

- Estupefaça! – O corpo de Lucius cai inerte no chão, deixando Draco entrever Harry meio vestido, de pé na porta, a varinha ainda apontada para onde seu pai estivera antes.

O moreno pega as roupas de Draco e o puxa pela mão, fazendo-o se levantar depressa, ainda tossindo muito. Os dois descem correndo as escadas, quase sem fôlego, parando somente quando estão no túnel. Passa as roupas para o loiro e termina de vestir sua própria. Não há uma única palavra entre eles, o silêncio se tornando incômodo, o frio fazendo-os tremer. Os casacos, esquecidos no divã, finalmente fazendo falta.

Raiva, rancor, ressentimento, decepção... Todos esses sentimentos passam pela essência de Harry enquanto observa o cabisbaixo loiro se vestir. Ainda custa a acreditar que ele pudesse ter a coragem de entregá-lo dessa forma. Mas o mais doloroso, aquilo que faz o estômago dele doer incrivelmente, é pensar que tudo o que viveram, todas as palavras, todos os beijos... TUDO... Era uma grande mentira.

- Agora estamos quites! – Harry diz em um tom raivoso. – Mas você não merecia.

- Harry... Eu... No começo... – Tenta falar, mas ainda sente dificuldade, principalmente diante de tal olhar.

- Não venha me dizer que no começo era parte do acordo, mas... – O tom altamente irônico de sua voz fere o coração do loiro. – Com o tempo você realmente se apaixonou por mim... Que romântico!

- Mas... É... – Como dizer que esta é realmente a verdade, depois de ouvir tudo reproduzido em tom tão duro?

- Olha aqui... Eu fui inocente duas vezes... – Seus olhos se enchem de lágrimas, apesar de seus olhos estarem cheios de decepção. – Mas eu não sou idiota.

- Me escuta... – Draco tenta segurar o braço dele, mas é empurrado com força, batendo contra a parede.

- Eu te odeio! – Vai saindo pelo túnel, mas se volta para encará-lo. – Esqueça tudo que tivemos, pois agora você não existe mais pra mim.

Enquanto sai pelo carvalho, pensa que poderia tentar ouvir os argumentos de Draco, afinal ele o salvou, mas afasta esse pensamento. Se realmente o amasse, jamais o teria levado para aquela armadilha. Chuta o chão revoltado, gritando de desespero por ver suas esperanças de uma vida diferente destruídas. Conhecera alguém que o completava, mas ele se mostrou fogo fátuo e se desvaneceu no ar frio da noite.

Não resta mais nada para Draco, fazendo-o sentar no chão e chorar por um bom tempo. Algo dentro dele se quebrara e não pode mais ser consertado. Sente-se ferido, frustrado, mas não pode culpar Harry por tanto ressentimento. Se fosse com ele... Não sabe do que seria capaz. Mas a perspectiva de voltar a viver sem ele, o único que o ouve, que o entende, que respeita até suas piores manias... É terrível. A solidão e a dissimulação voltam a seu dia-a-dia. E voltar ao que era antes...

Não posso recordar quanto tempo fiquei ali, sozinho, lamentando o que perdi, por minha própria culpa. E dali em diante nossa relação voltou a ser a mesma hostil de antes, ao ponto de ajudar a Umbridge a acabar com a Armada de Dumbledore e frustrar os planos de Harry e seus amigos. O velho Draco estava de volta, atuando com afinco na Brigada Inquisitorial, mas a 'bruxa malvada' caiu de forma espetacular, e pouco me importei. Minha vida já não tinha mais sentido.

Mas a realidade novamente voltou-se contra mim quando Dumbledore com delicadeza me chamou em sua sala e me informou da prisão de meu pai. Fiquei agradecido a ele por fazer isto antes que todos soubessem pelo jornal. E ao lembrar hoje desse dia, de sua bondade, sinto uma profunda dor.

Harry nunca mais me olhou com as esmeraldas, aquelas que brilhavam quando me viam. Havia apenas ressentimento. Na época quis culpá-lo, pensando que se ele me deixasse explicar a situação teria me perdoado. Mas agora, analisando friamente, consigo até entendê-lo. O Potter só podia ver que fora enganado pela pessoa que amava. Eu tirei dele a ilusão do primeiro amor, o fiz sentir-se usado, roubei dele o que tivemos de especial, tornando tudo vil e sujo.

No fim, pensando muito sobre o que aconteceu, percebo o quanto estava enganado. Desde o início achava que nesse acordo eu era uma aranha tecendo a teia para capturar Harry. Na verdade, eu era a mosca, presa na grande teia de Voldemort, que me levou ao caminho sem volta que a partir daquele momento teria que seguir.

Continua...

ooOoo

Dessa vez o capítulo 3 saiu bem rápido, pois estava prontinho e minha beta fez um esforço concentrado, deixando o texto maravilhoso que está escrevendo um pouco na geladeira para betar minha fic. Samie, te amo. Então o primeiro agradecimento deve ser para ela, minha beta e amiga Samantha Tiger Blackthorn.

Novamente ofereço essa fic ao meu amigo Felton Blackthorn. Sei que vc anda sem tempo e por isso não teve como deixar seu review, mas como te passei antecipadamente o capítulo, sei que gostou. Acredito que deva ter me odiado, pois estou judiando do seu adorado loiro.

Agradeço o review de JayKaychan, pois comentários sempre incentivam o autor. Mas fico feliz por ver que várias pessoas leram e, inclusive, por ver minha história com alerta de atualização. Sinal que agradou, apesar de nem todos terem tempo de deixar seu comentário.

Espero que gostem também desse capítulo e COMENTEM!!!!!!

09 de Outubro de 2007

03:45 PM

Lady Anúbis