A TEIA DA ARANHA

Capítulo 4 – A Teia das Trevas

Nem acredito que estou aqui desabafando todo esse passado que me fez sofrer e me trouxe para o momento que vivo agora. Preciso acreditar que aquele psicopata não vai voltar a esse quarto, enquanto curo minhas feridas, físicas e emocionais. Sei que logo terei que deixar minha casa em uma missão que não quero, mas da qual não posso fugir. Queria mesmo era fugir desta guerra, levar minha mãe para longe disso tudo, mas... Na minha vida as escolhas são raras, sempre o meu destino sendo decidido pelos outros.

Mas voltando ao passado... Deixando registrado o meu papel dentro de toda essa guerra... Mesmo depois de ter voltado para minha casa ao término do ano letivo eu ainda não conseguia superar o fato de que Harry me odiava de verdade e que sequer deixou-me falar, contar minha versão dos acontecimentos. Tenho que admitir que tinha raiva dele por causa disso, mesmo que agora eu saiba que ele não estava errado... Imagino como o Potter devia estar magoado comigo... E com toda a razão. Mas além da raiva havia algo mais, pois passei boa parte das férias deitado em minha cama, sem vontade nenhuma de levantar, sem comer direito, só desejava que o chão se abrisse e me tragasse. Li que os trouxas chamam isso de depressão... Mas seja lá qual fosse o nome, só sabia que nada mais me importava.

Infelizmente a realidade sempre nos puxa de volta e a prisão de meu pai produziu os primeiros frutos. Os Malfoys estavam em desgraça perante ao Lorde das Trevas e havia um preço a pagar pela falha grave de nosso patriarca. E eu que teria que pagar.

- Está pronto filho? – Narcissa pára na porta, observando Draco parado diante da janela da biblioteca. – Precisamos ir.

- Temos ainda alguns momentos... – A voz do rapaz soa triste, fazendo com que ela se aproxime.

- Sei que é difícil, mas precisa fazê-lo. – A mãe também está triste, desejando que houvesse outra maneira de salvar a família. – Precisa fazer isso pela linhagem dos Malfoy... Pelo nosso futuro...

- Mãe... Mas a que ponto temos que chegar pela família? – Tudo que se viu obrigado a fazer ainda está presente em sua memória.

Ele se volta para ela, que senta na grande poltrona, imersa nas escolhas difíceis que também teve que fazer. O filho senta-se sobre a escrivaninha, preocupado com a expressão de Narcissa. Nunca viu aquele rosto bonito e aristocrático tão sisudo, percebendo que a mãe sabe muito bem como esta dúvida dele é dolorosa.

- Também já precisei escolher uma vez... – A voz dela sai perdida no passado, como se estivesse ali a sua frente. – A família ou... O amor.

Draco estremece, recordando-se da foto de James Potter que encontrou no livro que fora dela. Senta-se no chão, diante da mãe, esperando que pela primeira vez Narcissa deixe que alguém conheça seu íntimo. Toca sua mão, seus olhos se encontrando, deixando claro que está ali desejoso de conhecê-la melhor.

- Quando tinha sua idade eu me apaixonei pela primeira vez. – Passa a mão pelos cabelos loiros macios, encarando os olhos que a observam compreensivos. – Ele era bonito, destemido, impulsivo e corajoso. Como uma menina tímida como eu não iria se apaixonar por um garoto assim?

Ela respira fundo, simplesmente por temer que sua revelação choque o filho, mas sorri ao vê-lo tão interessado... Pode-se dizer até curioso.

- Mas a senhora era correspondida? – Seus olhos continuam entretidos em sua narrativa, procurando entendê-la um pouco melhor.

- Acho que ele nunca soube o que eu sentia... Não tive coragem. – Um tom melancólico se apossa de sua voz. – Era simpático... Conversou comigo algumas vezes. Ele não parecia se importar com o fato de sermos de Casas diferentes. Mas...

Narcissa se levanta, pois neste 'mas' está aquilo que precisa dizer ao filho. Da mesma forma que foi tão doloroso para ela escolher, sabe que o mesmo acontecerá com ele. Agora a mulher que se coloca diante da janela observando o jardim do lado de fora.

- Apesar de tudo que sentia... Eu sabia que era um amor impossível. – Toca o vidro, sentindo um aperto no peito. – Ele era puro sangue, mas de uma família sem prestígio. Meu pai nunca aceitaria... Precisava pensar em nossa linhagem.

Draco se levanta e se coloca ao lado dela, encostado ao vidro da janela. Os dois se olham, ele começando a entender a razão dessa revelação.

- Então você desistiu dele. – Fala com uma voz suave. – Para depois vê-lo ficar com outra garota.

Ela o encara surpresa, temendo que seu filho de alguma maneira saiba quem é o rapaz em questão.

- Bem... Achei... Não foi isso que aconteceu? – Draco percebe como disse mais do que deveria e tenta desesperadamente tirar a impressão de que sabe demais.

Narcissa procura se acalmar, considerando que não há a mínima possibilidade de seu filho sequer imaginar quem seja o seu amor do passado. Sente-se intimidada por isso e pensa seriamente em parar, mas sabe que Draco está com muito medo e não pode falhar com ele nesse momento.

- Meu pai me arranjou um bom casamento, mesmo antes de me formar... – Ela volta a olhar para fora. - Com um rapaz sonserino, de uma família rica e influente.

- Meu pai! – Pela primeira vez o casamento perfeito de seus pais parece diferente para ele, como se o silêncio eterno de sua mãe significasse uma relação decepcionante.

A mulher se volta para o filho, temendo que tire conclusões erradas. Toca seu rosto delicadamente, querendo passar para ele a segurança que precisa neste momento.

- Mas não pense que não o amo! – Fala com energia. – Fomos nos conhecendo na escola, procurando tudo que tínhamos em comum. Ele era arrogante, aristocrático, mas... O pai oprimia a verdadeira personalidade dele. Quando o pai dele morreu... Tudo mudou. E aprendi a amar esse homem que surgiu.

Percebe que o filho não sabe o que dizer apenas a observando com os olhos marejados. Pensa em Harry e em como teve que traí-lo pela família. Entende a mãe melhor do que ela pensa. Sabe como deve ter se sentido ao abrir mão de sua paixão por um casamento arranjado.

- Acredite... Sou feliz com seu pai. – Narcissa se sente mal por ter contado tal coisa ao filho, com o marido preso em Azkaban. – Eu fiz tudo pela família... Inclusive isso.

A mulher mostra sua própria Marca Negra, puxando a manga do vestido que usa.

- E quando aceitei a marca... Sabia o que significava. – Segura-o pelos ombros, tentando lhe passar coragem.

Narcissa o puxa para si, abraçando o filho que não consegue conter as lágrimas. Não pode negar que tudo que vai acontecer o amedronta, colocando-o cada vez mais naquilo que não quer. Mas sabe que não tem escolha, por sua mãe e... Por sua família. Pensa em Harry, mas logo afasta esse pensamento, pois tem certeza que tudo seria diferente se ele o tivesse ouvido.

ooOoo

A Mansão Lestrange se mostra opressora para Draco quando ele e a mãe chegam, mesmo sendo a casa de sua tia. Na realidade, Bellatrix não é uma tia comum. O loiro tem mais medo dela do que de muitos dos outros comensais e tremeu ao saber que o Lorde das Trevas o receberia neste lugar. São recebidos por ela, sempre com sua aparência exagerada, gestos bruscos e voz em tom alto demais. Não consegue imaginar como mulheres tão diferentes podem ser irmãs. Ela o segura pelo braço com força, fazendo o mesmo com Narcissa.

- Chegaram na hora! Nosso Lorde os espera ansioso. – Ela os conduz sem delicadeza até a porta que leva às masmorras. – Será uma cerimônia íntima...

Draco Malfoy agradece intimamente por isso, sentindo-se confortado pelo fato de poucos estarem presentes. Já se prepara para o discurso 'agradável' sobre a falha de seu pai e como ele deve assumir as responsabilidades da família. E não deseja ter aqueles falsos que adulavam Lucius rindo de sua desgraça.

- Vocês não imaginam como fiquei honrada quando o Lorde escolheu a minha casa para hospedá-lo. – Bella diz enquanto descem as escadas. – Também... Tenho sido uma servidora fiel e leal em todos esses anos.

Quando finalmente chegam ao salão principal da masmorra os olhos cinza se deparam com uma cerimônia íntima onde estão presentes dez comensais completamente paramentados com as vestes que os caracterizam e mascarados. Mãe e filho estacam diante dessa visão, mas Bellatrix empurra o sobrinho para o centro do círculo e segura a irmã junto dela.

"Minha tia está precisando rever a noção dela de íntimo."- O rapaz pensa ao observar os presentes, tentando adivinhar quem seriam.

Enquanto todos o cercam, Voldemort sai das sombras, dando a sua entrada um aspecto lúgubre, mas ao mesmo tempo triunfal. Sua aparência é assustadora para o garoto que nunca o viu pessoalmente. O homem alto lembra uma serpente, sem nariz, mantendo algo da sua aparência humana. Mas seus olhos de um tom vermelho parecem penetrá-lo até o âmago, causando um tremor. Sua boca que mais parece um corte no rosto guarda um sorriso malicioso.

- Senhores... Nesta cerimônia em que recebemos em nosso meio um novo membro... – Aproxima-se de Draco devagar até ficar de pé diante dele. – Todos devem mostrar seus rostos.

Com estas palavras todos os comensais presentes tiram as máscaras. O rapaz pode reconhecer seu tio Rodolpho Lestrange e o irmão, Peter Pettigrew, Goyle e Crabbe, Avery e Dolohov. Estes eram alguns daqueles que sempre estavam em sua casa. Mas alguns deles só conhece de passagem, e bem estes o fazem estremecer, pois até seu pai tinha certo receio deles. Mulciber e Nott são dos mais cruéis servidores do Lorde e... Greyback... Este é o lobisomem... E não se precisa dizer mais nada dele. Todos esses, juntamente com a tia Bellatrix, são os piores. E não é por acaso que estão presentes.

- Quem entrega esse menor aos meus serviços? – Voldemort inicia seu ritual.

- Eu... – A mãe diz com a voz trêmula. – Narcissa Black Malfoy entrego meu filho para se alistar em suas fileiras.

- Estamos hoje aqui para consagrar este bruxo como um membro de nosso grupo. – Ele se volta para os presentes, respirando fundo para começar o seu discurso. – Ele é membro de uma das famílias mais tradicionais, neto de um ferrenho defensor do segregacionismo, dos direitos dos bruxos de puro sangue. Da mesma forma que é filho de Lucius Malfoy, um fiel servidor que recentemente foi preso, após cometer duas graves falhas a meu serviço.

Draco paralisa a menção do pai e de suas 'duas' falhas, ficando claro que o Lorde está a par do plano solo do seu ex-braço direito. O homem se volta então para ele, chegando bem perto, sua aproximação causando arrepios na pele de alabastro.

- No Ministério, de onde ele devia ter me trazido a profecia, falhou ao liderar o grupo que foi incapaz de vencer meros garotos e alguns bruxos de quinta categoria. – Todos os presentes que estiveram nesta batalha baixam a cabeça, sabendo que ele se refere também à falha deles. – Mas ele já havia falhado antes... Em um plano que ele me apresentou como infalível e pelo qual me pediu uma recompensa digna do melhor dos servidores.

Todos se entreolham. Aqueles que conheciam o plano soltam risadinhas maliciosas ao olharem para o garoto, os demais se perguntam qual a tarefa que poderia ter tal recompensa. Draco empalidece, temendo que o Lorde saiba toda a natureza do plano e que a revele ali, diante desses homens odiosos.

- Lucius me prometeu a vida de Harry Potter! – O homem se volta para os comensais. – Isso sim seria o presente supremo e tanto esforço o colocaria na posição mais privilegiada entre meus asseclas.

O murmúrio entre os presentes é impossível de conter, apesar do Lorde não parecer desejar calá-los. Toda essa cena parece diverti-lo e o nervosismo do jovem Malfoy ainda mais. Narcissa permanece parada, sendo contida pela irmã, surpresa por finalmente descobrir o objetivo do plano de seu marido.

- Mas se na falha no Ministério houve um erro de estratégia e liderança da parte dele... – O Lorde das Trevas novamente se volta para o garoto. – Em seu plano ele confiou demais em uma pessoa... E quando você tem que contar com outros... Tem de ter certeza de que são de confiança. Não é meu jovem?

Os olhos dos dois se encontram, o medo tomando conta de todo o ser de Draco. Aquele olhar... O Lorde sabe do plano e como ele falhou... Isso é certo, mas... Será que ele sabe por quê?

Crabbe e Goyle não se cansam de rir com a malícia de Voldemort, pois eles são dos poucos que sabem realmente o que Lucius planejava para matar Potter. Deliciam-se com a expressão temerosa do garoto, que começa a corar ao som de seus risos.

- Mas também... – O homem se aproxima ainda mais do loiro, ficando tão próximo que o jovem pode sentir o hálito de cadáver que exala de sua boca. – Como um homem pode pedir ao seu próprio filho que...

Estrategicamente o Lorde pára, decidindo guardar isso como um trunfo para ser usado em outra ocasião. Percebe que isso alivia o já tenso rapaz, apesar da curiosidade dos demais já estar atiçada. Greyback talvez seja o mais curioso, sussurrando para os outros na ânsia de saber o que Malfoy pediu ao garoto. E o malvado Senhor do grupo se diverte, pois sabe que depois dessa cerimônia a família Malfoy sairá ainda mais humilhada.

- Certo que tenho que exigir que nada que acontecer nessa reunião poderá ser comentado com suas famílias e conhecidos. – Dessa vez a ordem é bem explícita e bem entendida pelos presentes. – E o feitiço que cerca a cerimônia torna isso categórico.

Todos sabem muito bem o que isso significa. Nem sempre as cerimônias são assim, mas esta necessita do sigilo, e o fato de Draco Malfoy receber a Marca Negra deve ser um segredo. Então o Lorde tem planos para ele.

- Você está preparado para receber a marca de servidão, fidelidade e lealdade ao Lorde Voldemort e somente a ele... Jovem Draco Malfoy? – O homem diz isso o encarando diretamente.

- Estou preparado. – O loiro reúne todas as suas forças.

- Sabe o que isso representa? – Há uma expressão de desafio no rosto ofídico, sabendo que o garoto é fraco. – Você terá que cumprir minhas ordens por mais que elas lhe desagradem... Terá de esquecer-se da compaixão, da consciência ou qualquer outra característica que o afaste das trevas.

- Compreendo tudo que significa. – Se esforça por lembrar as palavras que a mãe lhe ensinou. – E servirei o meu Senhor, fazendo cumprir todas as suas ordens sem questionar e entrarei de corpo e alma nas trevas que lhe darão a Glória.

Com um sorriso maléfico Voldemort toma seu braço esquerdo, arregaçando a manga de sua veste, igual àquelas que o pai costumava usar, e toca sua pele branca com a varinha. A dor é lancinante, fazendo todo a cútis delicada queimar, algo que vai se alastrando pelo corpo todo, levando o rapaz a gemer alto.

- Isto não é apenas uma tatuagem... Como os ignorantes podem pensar. – Voldemort continua a segurar o braço magro com força, a varinha brilhando sobre a pele que vai adquirindo a forma tão conhecida pelos demais. – É um veneno que agora corre por seu corpo... Algo que se apossa de sua alma e o faz MEU.

Só então o homem o solta. Draco segura o próprio braço tentando controlar a dor que se apossa de todo seu ser, o fazendo ajoelhar-se, sentindo como se aquela sensação horrível tirasse sua razão. Em seu delírio uma cobra gigantesca se materializa e se enrola em seu corpo, para depois abrir a boca e engoli-lo completamente. Por alguns instantes ele perde os sentidos, caindo no chão frio e empoeirado. Só então é permitido que Narcissa corra até ele e o ampare, vendo que os olhos cinza se abrem repletos de angústia.

- Ele é muito novo ainda. – O Lorde sentencia, para que nenhum dos presentes diga nada que possa desqualificá-lo como um Comensal da Morte.

Todos se curvam solenemente para receber o novo membro do grupo, mesmo sabendo que esta fora apenas uma punição para Lucius. O Lorde já vai se retirando, mas se volta antes de deixar o recinto.

- Em breve estaremos juntos novamente para definir sua primeira missão... – Narcissa estremece com estas palavras. – Aquela que provará sua lealdade.

Rapidamente ele faz sinal para os presentes de que vai sair, sendo acompanhado por Pettigrew e Bellatrix.

ooOoo

Aquela experiência talvez tenha sido um momento bom para mim. Apesar de me sentir humilhado pelas palavras maliciosas do Lorde, na época me fez sentir honrado por ter sido escolhido dentre tantos outros para receber tal honra. Como eu era um tolinho! Infelizmente eu ainda me encantava com coisas como aquelas... Ah se eu soubesse tudo que passaria por causa daquele momento!

E a possibilidade de ser designado para uma missão importante demonstrava a confiança que o Lorde ainda tinha nos Malfoys, mas... Hoje eu sei que o maluco não esperava que eu conseguisse, sabia como havia falhado no passado, mas meu novo fracasso e conseqüente punição se tornariam o castigo para minha família.

Mas algo dentro de mim se remoia, pois essa marca acabava com qualquer possibilidade de um dia eu e Harry nos reconciliarmos. Sim... Apesar de ter certa mágoa dele eu havia me tornado um romântico, daqueles que acham que toda história de amor tem um final feliz. Que idiota! Eu trancado neste quarto, a espera da pior missão da minha vida, sou a prova concreta de que finais felizes são apenas para poucos. Ninguém que eu conheça pessoalmente. Mas voltando... Eu não conseguia deixar de pensar que cada coisa que acontecia me distanciava ainda mais dele e nunca seria perdoado. Minha mente andava tão confusa e deprimida naquela época... Amor e ódio andando lado a lado. E eu preso entre os dois... Perdido... Completamente sem rumo.

Voldemort chega à Mansão Malfoy logo ao cair da noite. Apenas Bellatrix o acompanha desta vez. A solenidade dela faz com que Narcissa olhe com certo desprezo para a irmã. Mãe e filho fazem uma reverência e depois os conduzem para a sala de estar, onde o homem se acomoda na poltrona geralmente usada por Lucius. Os dois se sentam diante dele, apreensivos com a missão que o teria feito ir até eles e não o contrário. E todo esse segredo... Apenas a fiel Bella ao seu lado... As coisas vão ficando cada vez pior.

- Como sabem... Tenho uma missão de suma importância para nosso jovem comensal. – A voz dele sibila pela sala. – E seu sucesso pode alçá-lo a uma importante posição entre os meus servidores.

- Isso me honra muito. – Draco diz legitimamente, mesmo que tema a dimensão desta missão.

- Preciso que mate alguém. – Estas palavras são ditas com frieza e sem rodeios.

Os olhos cinza se arregalam, pois jamais poderia imaginar que teria que matar em sua primeira missão, essa possibilidade embrulhando seu estômago. Empalidece pela simples chance do nome de Harry ser o escolhido e... Essa idéia o angustia demais.

- M-mas... Matar, meu Lorde? – Narcissa se arrisca com a nota de questionamento em sua voz. – Ele é novo demais e nem sequer terminou a escola!

- Querida Narcissa... – Seu nome falado dessa forma soa quase como uma ameaça. – Exatamente por ele ainda estar na escola é a escolha perfeita.

- Quem eu tenho que matar? – As palavras de Draco saem quase inaudíveis.

Lorde Voldemort olha para Bellatrix, que sorri satisfeita, ainda mais sabendo como o sucesso de seu sobrinho pode lhe trazer lucros. O homem volta a encarar o garoto sentado a sua frente na ponta da cadeira, as mãos se torcendo nervosamente.

- Sua vítima será o próprio... – Faz suspense e nota como isso o faz parar de respirar. – Dumbledore.

- QUEM?! – Narcissa levanta de um pulo, sendo contida pela irmã de forma abrupta. – Nem o Lorde foi capaz de derrotá-lo!

Suas palavras fazem o homem ficar vermelho, a raiva se apossando dele, mas ao mesmo tempo se deliciando com a dor daquela mãe a sua frente.

- Bella... Acompanhe sua irmã para o quarto e lhe ministre uma poção calmante. – A mulher não parece muito satisfeita por ter de deixar à sala levando a outra, mas jamais desobedeceria a esse homem.

Assim que elas saem, ele se levanta e fica diante da cadeira do rapaz. Esse se ergue também, ainda tremendo com a revelação de sua missão. Os dois estão cara a cara, novamente o hálito desagradável chegando ao seu olfato sensível.

- Mas... Como conseguirei fazer isso? – Olha desesperado para os olhos vermelhos. – Ele é um grande bruxo... Sou apenas um aprendiz.

- Você deve pensar na melhor forma... Não é um garoto inteligente? Um Malfoy? – Coloca um pergaminho em sua mão. – Estes comensais estarão a sua disposição caso consiga uma forma de colocá-los dentro da escola para ajudá-lo.

- E... – Teme o que vem depois disso.

– Eles criarão a distração para que você possa se aproximar e matar o diretor. – Mais uma pausa dramática, aumentando ainda mais o nervosismo do garoto. - Ele jamais desconfiaria de um de seus 'queridos' alunos.

Há um profundo prazer nestas suas palavras, principalmente por seus sentimentos com relação ao homem em questão. Vislumbra então como há certa resistência nos olhos cinza. Apesar de tudo o garoto nutre certa simpatia pelo velho, além da covardia notória que faz parte de sua personalidade.

"Coisa de garotos ricos e mimados!" – Pensa, chegando a desprezá-lo por isso.

- Algum problema? – Fica ainda mais próximo. – Teme não ser capaz de cumprir essa missão?

- ...! – Draco simplesmente não sabe o que dizer. O medo toma conta de seu ser, pois não sabe se será capaz.

- Afinal... O plano de seu pai fracassou exatamente porque você foi incapaz de realizá-lo... Na verdade... – A malícia escorre pela fenda que faz o papel de sua boca. – Você conseguiu cumprir sua parte do plano, mas... Traiu Lucius no último momento.

- Eu... Não... – O medo se transforma em terror, notando que o homem sabe tudo sobre seu papel naquele plano e as circunstâncias do final fracassado. Mas saberia a verdadeira razão de sua falha?

- Você... Fez o quase impossível... Teve a confiança de Potter em suas mãos... Fez sexo com ele... – A língua viscosa passa pelos lábios quase inexistentes. – E no momento de entregá-lo ao seu pai... Traição! Mas... Por quê?

Os olhos cinza se enchem de lágrimas de medo, pois aquele homem deixa claro que sabe sim o porquê. E isso torna tudo diferente. Sente como se o machado do carrasco estivesse sobre seu pescoço. Nessas palavras é revelado que está marcado para morrer e... Essa missão é sua única chance de sobreviver.

Voldemort vê em seus olhos que o garoto entendeu muito bem o que quis dizer. E esse rapaz, que teve a coragem de trair sua família e tornar-se amante de Harry Potter... Amante na verdadeira acepção da palavra... Agora tem que lutar por sua própria vida, pois o Lorde tem um profundo desejo de matá-lo... Apenas pela satisfação de fazer seu inimigo sofrer. E como vai ser bom que Potter se sinta traído novamente pelo jovem Malfoy, como sabe que ele se sente, ao vê-lo tirar a vida de seu mentor.

- Então estamos entendidos, não estamos? – Diz quase sem respirar, tal o seu prazer.

- Sim... Meu Lorde. – Draco diz entre lágrimas, que tenta em vão reprimir. – Vou cumprir minha missão... Para a sua Glória.

- Ótimo! – Afasta-se se sentindo vitorioso. Tem o garoto em suas mãos e, mesmo que falhe, ainda terá a chance de puni-lo por essa falha e por amar Harry Potter. E sabe que há alguém que cumprirá sua parte na missão...

O homem sai da sala deixando-o arrasado. A mãe vem até ele, mas o rapaz a afasta, enojado com tudo. Como as coisas podem ter chegado a esse ponto? Sente-se encurralado e ferido, sabendo que pode morrer por um amor que se mostrou tão frágil a ponto de nem sequer ouvi-lo. Uma profunda mágoa surge em seu coração, fazendo da última imagem de Harry naquela noite a marca de seu sofrimento.

"Se ele tivesse me ouvido..." – Pensa enquanto deixa a sala e corre para o seu quarto. – "Tudo poderia ter sido diferente."

ooOoo

Depois daquela conversa tudo mudou para mim. Não era mais alguém que foi escolhido para compor um grupo seleto de colaboradores, mas um pária entre os meus iguais, alguém marcado por ter se atrevido a amar a pessoa errada. Sei que se alguém ler isto vai me achar uma Drama Queen de primeira... Pouco me importo com o que pensa de mim, seu bisbilhoteiro! Só sei o que senti e pronto.

E depois de tudo isso, passei a evitar o assunto com minha mãe, apesar dela insistir e ficar procurando formas de me ajudar a fugir dessa difícil missão. Eu temia por minha vida, estaria mentindo para mim mesmo se escrevesse aqui que não, mas também havia a segurança dela e a honra da família. Já havia traído meu pai... Não podia falhar com ele dessa vez.

Tranquei-me na biblioteca por dias estudando a melhor forma de conseguir tal intento e mesmo que todos me considerem apenas um idiota arrogante e presunçoso, meu plano se mostrou inteligente. A história de Montague preso no limbo ao entrar em um armário na Sala Precisa... Minha pesquisa pessoal sobre tal objeto e seu gêmeo que formavam uma passagem... Foi coisa de gênio. Morra de inveja Granger! Só precisava resolver alguns problemas técnicos e roubar algumas idéias... Mas assim mesmo planejei saídas alternativas... Plano B, C e muitas outras letras caso o principal falhasse. Afinal, minha vida dependia de ter sucesso.

Por mais que Draco deseje evitar o início das aulas, esse período chega e sua visita ao Beco Diagonal... Onde deve dar andamento a sua missão. Tudo vai tomando forma e se tornando a difícil realidade. Por mais que tente deixar a mãe em casa, ela decide acompanhá-lo, desconfiando que haja algo de misterioso em seu nervosismo. Narcissa deseja impedi-lo, mesmo sabendo do risco de desobedecer ao Lorde.

O confronto de sua mãe com Harry e os amigos na loja de roupas o deixa nervoso, pois a simples visão de Potter o faz estremecer. Sente uma profunda mágoa por ter sido tão facilmente considerado um traidor, mas ainda em seu íntimo há todo o amor que nutre por aqueles olhos verdes... Que no fim o colocaram nessa situação difícil.

Desvencilha-se da mãe e procura a loja de Borgin, onde seu pai sempre comprava os itens que precisava, pois sabe que ali encontraria o armário gêmeo e o homem deve saber como consertá-los. Anda sorrateiramente, sem perceber que é seguido por Harry e os outros debaixo da Capa de Invisibilidade.

Toda essa situação faz o sangue de Potter ferver, pois tenta se convencer de que nada mais sente por ele, mas não é verdade. E toda a raiva que sente por ter sido usado e traído se mescla a esse forte sentimento, deixando-o confuso. E a partir desse momento algo de estranho surge em seu íntimo, algo que o impede de tirar Malfoy de sua cabeça... Mesmo que seja com a idéia fixa de que ele faz algo de errado. Sabe que talvez tenha se tornado um Comensal... Como sempre considerara ser o destino do garoto.

Mas precisa confrontá-lo antes de voltarem para a escola... Não pode deixar de falar sobre toda sua mágoa, seu ressentimento... Então despista os amigos, alegando ter esquecido algo em uma das lojas em que foi e segue na direção que o loiro tomara. Logo o vê sozinho em um canto isolado entre duas lojas, expressão triste, cabeça baixa e resolve enfrentá-lo.

Draco anda devagar depois de deixar a loja e ameaçar Borgin. A 'marca' lhe empresta uma gostosa sensação de poder e até sorri pensando que pode ser bem sucedido em seu plano... Pela primeira vez superando aquele 'metido' do Potter, mas é somente lembrar-se do moreno e toda a depressão o assola novamente.

"Como eu sou idiota!" – Bate na própria cabeça, sem conseguir grande efeito.

Sentindo toda a tristeza se apossando dele, teme que alguém o veja assim e se refugia em um pequeno beco entre duas lojas. Encosta-se ali e respira fundo, tentando esquecer a gama de sentimentos que o fizera perder peso e tirara-lhe toda a alegria de viver.

- Já está se preparando pra aprontar de novo? – O loiro olha para o lado e se depara com Harry, toda a ironia carregada nestas palavras.

- Agora deu pra ser sarcástico, POTTER? – Empertiga-se, procurando manter a pose superior que sempre usou com ele.

- Sei que você não vai querer dar uma de inocente, pois sabe que não me engana mais. – O ressentimento transparece no rosto afogueado do moreno.

- Você é um idiota mesmo... – Draco tenta sair do beco, mas é barrado pelo outro. – Sai da frente! Se não quis me ouvir antes... Nada tenho a te dizer agora.

- No fim você é como seu pai... – Harry não consegue controlar a raiva dentro de si. – Ele teve o que merecia.

Por mais que queira entender toda essa mágoa no rosto dele, as palavras de Harry apenas instigam sua própria, fazendo-o empurrar o outro com força para conseguir passar. Prefere não dizer nada, pois sua vontade é agredi-lo fisicamente... Principalmente por julgá-lo e condená-lo sem a oportunidade de defesa. Sai pisando duro, sem nem conseguir pensar para onde está indo, lançando um último olhar para trás, escondendo as lágrimas que descem por seu rosto.

Potter fica ali parado por alguns minutos, sentindo as pernas amolecerem. Sua vontade é agarrar o loiro e lhe dar uns tapas... Descarregar toda a frustração que sente. Os sentimentos... Estão todos ali... E ainda não consegue acreditar que o garoto que tanto amava estivesse fingindo... Que na verdade nunca o amara. Chuta a parede contrariado, encostando-se nela e chorando... Tudo que não se permitiu até então.

"Vê-lo foi demais pra mim!" – Harry tenta se controlar, mas não consegue.

Ouve a voz de Hermione, percebendo que vem com a família Weasley em sua direção. Limpa o rosto, procurando eliminar os vestígios de tudo que sente. E quando se aproximam abre um sorriso e brinca com um e com outro. Ainda olhando para trás, vendo o loiro se afastar.

ooOoo

E com o ressentimento criando uma guerra não declarada entre os dois, por motivos que ninguém na escola podia suspeitar, Draco decide colocar seus planos em andamento. Se precisa lutar por sua vida, vai ser bem sucedido... Mas não consegue negar que olhar Dumbledore fazer seu discurso aperta seu coração. Fora ensinado que aquele homem era o inimigo, que era um defensor dos 'sangue-ruins'. Mas em seus anos em Hogwarts teve a oportunidade de observar como ele se preocupava com todos, indistintamente e não consegue esquecer quando contou sobre a prisão de seu pai. Parecia saber tudo o que havia acontecido... Tudo mesmo...

Enquanto anda para o Salão Comunal de sua Casa sente-se oprimido por tudo que tem que fazer, pelo modo como o destino o tem encurralado. Mas não consegue deixar de pensar em como tudo poderia ser diferente. E aquele Draco romântico, aquele que tanto combate, mas que teima em atormentá-lo, pensa em como desistiria de tudo se Harry o ouvisse... Se o perdoasse... Se o tomasse nos braços e dissesse que o ama. Mas sabe que isso é impossível, pois os olhos verdes agora o odeiam. Então... Nem adianta ficar pensando nisso.

Entra na sala e se depara com os dois indivíduos a quem procura e abre um sorrisinho maldoso. Aproxima-se de Crabbe e Goyle sentados no sofá, que inocentemente disputam um último muffin, observando-os, estreitando os olhos. Nada diz, esgueirando-se por trás, aproveitando-se do fato dos demais ainda não terem chegado.

- Foram rápidos! – Os dois quase caem no chão, voltando-se para trás, onde se deparam com o loiro de pé. Há algo de assustador em sua expressão. – Preciso conversar com os dois... Em particular.

- Sobre o que? – Goyle diz engolindo em seco.

- Eu disse... Em particular... – Anda na direção de seu quarto, mas se volta e os vê paralisados no mesmo lugar. – Como é? Os dois idiotas não entenderam que vamos conversar no meu quarto?

Só então os dois garotos se levantam, entrando nos aposentos pessoais dele, onde jamais haviam estado. Impressionam-se com o refinamento e bom gosto de tudo, desde os últimos detalhes, predominando o verde e prata da Casa. Sentam-se em duas cadeiras próximas da lareira, ainda temerosos, pois a expressão do rosto aristocrático nunca lhes pareceu tão furioso. E isso depois de ter gargalhado tanto ao contar sobre como derrubara Harry Potter no trem e quebrara seu nariz. E ele fica ali, de pé, diante dos dois de forma ameaçadora.

- Eu sei que no ano passado alguém fez o papel de espião para o meu pai... – Faz uma pausa, vendo os olhos dos dois se arregalarem. – E seguiu todos os meus passos.

- Espião?! – Goyle fica pálido como papel. – Mas por que seu pai iria querer te vigiar?

Essa pergunta o coloca por segundos na defensiva, mas retoma seu autocontrole, pois tem um trabalho importante e, pode não querer admitir, mas... Precisa desses dois estúpidos.

- Não interessa agora o que ele queria... – Seus movimentos são nervosos, denotando toda a tensão que tentar conter dentro de si. – O importante é que o traidor só pode ter sido um de vocês dois!

- Por que nós? – Crabbe se levanta indignado, mas logo volta a sentar quando encara os olhos cinza frios como gelo.

- A pessoa tinha que ter uma forma de saber se eu saia do meu quarto no meio da noite ou não... Então não pode ser uma garota. – Ele se aproxima dos garotos fazendo-os recuar na cadeira, encostando-se tanto que quase grudam no tecido. – E vocês dois idiotas estão circulando o tempo todo pelos corredores à noite atrás de comida... Quem desconfiaria?

Nenhum deles tem coragem de dizer qualquer coisa, temendo que a simples suspeita de Malfoy o leve à vingança. Mas, da mesma forma que se aproximou, o jovem loiro se afasta, ficando alguns segundos de costas para eles. Parece pensar e quando se volta apresenta o seu sorriso mais satânico. Aquele de quando tem as idéias mirabolantes para irritar o Potter.

- Tenho que fazer algo importante e... Preciso de dois vigias. – Então o sorriso se torna uma gargalhada assustadora, que faz os dois tremerem. – Como não quero levantar suspeitas... Vocês vão ter que se disfarçar.

- Dis-disfarçar!? – A voz de Crabbe quase não sai.

- Isso mesmo. – Draco se diverte com a idéia perfeita que teve, principalmente porque lhe dá a oportunidade de vingar-se do espião que destruiu sua vida. – Sei onde há uma boa dose de poção polissuco pronta e... Vou fazer muito mais.

- Mas... No que você está pensando? – Dessa vez é Goyle que cria um pingo de coragem para perguntar.

- Quem desconfiaria de... – Novamente ele sorri quando se aproxima deles. – Duas garotinhas do primeiro ano circulando por um corredor?

- Garotinhas! – Crabbe se levanta mais uma vez, mas dessa vez indignado.

- Sim... E cada vez serão meninas diferentes. – Seus rostos ficam tão próximos que o outro rapaz pode ver até o mais profundo matiz de seus olhos prateados. – Por quê? Algum problema pra você?

- Se eu tiver que fazer isso... – Volta-se para Goyle esperando seu apoio, mas o outro garoto não manifesta qualquer reação. – Quero saber o que vai fazer.

Malfoy empertiga-se, admirado demais com a ousadia do garoto ao enfrentá-lo dessa forma.

- Não te interessa! É uma missão importante. E isso... – Levanta a manga da camisa e mostra a marca negra, fazendo Crabbe cair sobre a cadeira. – Me dá a autoridade e o direito de exigir a colaboração e o sigilo 'das duas garotinhas'. E agora...

Olha para os dois com um profundo prazer, lembrando como esse espião tirou dele tudo de bom... Deixando apenas isso que vive agora.

- Caiam fora do meu quarto. Aviso quando precisar. E... – Faz os dois pararem antes de saírem. – Que o maldito espião saiba que isso é uma pequena parte da minha vingança.

ooOoo

Draco tem então tudo planejado, até para o caso de não conseguir consertar o armário, e revisa isso sentado junto à escrivaninha. O pergaminho a sua frente tem todos os detalhes, todas as possibilidades positivas e negativas, e as conseqüências de suas ações. Pensa em tudo, até que pode ser desmascarado e ir para Azkaban fazer companhia para o seu pai. Mas tenta se concentrar na glória que alcançará se tiver sucesso. Nem mesmo o Lorde das Trevas conseguiu matar Dumbledore e ele... Afasta rapidamente as outras razões para fazer isso, pois prefere não lembrar que sua vida e sua família estão em jogo. A maior motivação para continuar é pensar em provar para todos aqueles comensais falsos, que sempre adularam seu pai e agora o desprezam, que é o melhor entre eles, mesmo sendo apenas um estudante.

Mas no pergaminho não consta a maior de suas provações. Não está escrito ali que cada vez que ele e Harry se encontram o ar fica cheio de faíscas. E tudo é uma mistura imensa dos sentimentos mais contraditórios. A mágoa, o amor, o ressentimento, a atração, e tantas outras coisas não ditas, mas claras quando se olham. E por mais que tente se refugiar em seus planos para esquecer-se dele... Não dorme mais à noite. Não por que está preocupado com os resultados de seu plano... O que realmente está. Na verdade, está apavorado. Mas o que rouba seu sono são as lembranças de tudo que tiveram no ano anterior e o desfecho trágico. Sabe que é o maior culpado, pois apunhalou Potter pelas costas... Mas se ele o tivesse ouvido... Levanta-se nervoso por novamente estar pensando nisso.

"É passado!" – Suspira, procurando afastar todas essas coisas que diminuem sua determinação. – "E deve ficar no passado."

Resolve sair mais uma vez a procura da Sala Precisa, já tendo percorrido os corredores do Sétimo Andar e não encontrando nada. Pensa em como a sala é a única forma de cumprir seu plano, que pode torná-lo livre... Quem sabe depois disso possa pegar sua mãe e os dois fugirem de todas as conseqüências de seu ato. Mas se não a encontrar a sala... Nem gosta de pensar nisso. É então que repara em uma porta que não vira antes e acabara de passar por ali. Abre-a devagar e se depara com uma sala enorme, abarrotada de objetos dos mais diversos, amontoados em pilhas empoeiradas, parecendo estar servindo de depósito há séculos. Abre um sorriso e percebe...

"Encontrei a Sala!" – Sente um misto de alívio e vitória.

ooOoo

Harry anda pelos corredores tentando entender Malfoy, entrar em sua mente, a procura de uma resposta sobre o que o outro está tramando. Agora pensa nele o tempo todo, sempre se convencendo que isso é apenas a desconfiança de que está aprontando alguma coisa. Sabe que não é bem assim, mas ele mesmo não consegue acreditar que ainda sinta algo tão intenso por alguém que fingiu amá-lo.

Anda meio sem rumo, sem saber exatamente o que procurar, mas com a certeza de que precisa descobrir o que Draco planeja e impedi-lo. Sente então que alguém o empurra com força, batendo contra a porta de uma sala e caindo do lado de dentro com estrondo. Ainda tonto percebe que a pessoa se deita sobre ele, sem conseguir discernir quem é devido à escuridão.

Logo seu pescoço é atacado por lábios ansiosos... Um toque que logo reconhece. Tenta afastar o atacante, sabendo que é Draco quem está sobre ele, abrindo seu pijama e mordendo sua pele.

- Não... Eu não quero... – Quer distância dele, de seu cheiro, de sua boca, do seu toque, mas se sente incapaz de impedi-lo.

Coloca as mãos em seu peito e tenta empurrá-lo, mas isso parece apenas provocá-lo ainda mais, agarrando seus pulsos e prendendo-os no chão empoeirado, ao lado da cabeça, expondo o peito aos seus lábios e a seus dentes. As lambidas e as mordidas não têm nada de gentileza, muito pelo contrário, são violentas e urgentes e o provocam além do que pode suportar. Os tremores pelo corpo denunciam o que está sentindo, todas aquelas sensações enrijecendo seu membro rapidamente. Seus dentes mordem seu lábio com força, pois não pode dar uma satisfação ainda maior a ele, não pode deixá-lo ouvir o que está lhe fazendo... Mas se esquece de que Draco está sobre seu corpo, a evidência no meio de suas pernas traindo-o, provocando os gemidos na garganta do loiro que se maravilha ao sentir novamente o pênis teso contra a sua coxa, relembrando em seu corpo o prazer perfeito que sentiu naquelas maravilhosas noites. Seus quadris se movem, esfregando-se em Harry, a ânsia de tê-lo de qualquer forma aumentando avassaladoramente, o gemido longo e necessitado que sai da boca do moreno, que não consegue se controlar, o arrepiando dos pés à cabeça.

O loiro avança suas mãos invadindo-lhe a calça sem pedir licença. A mão se fechando sobre seu membro, apertando, deslizando, fazendo o membro já teso doer de desejo. E por mais que Harry tente deixar claro que não quer, tente falar e protestar... Todas as palavras se desmancham em gemidos prazerosos... Não pode se deixar levar... Mas deixa... Suas forças vão cedendo e toma os lábios que adora com paixão. Passam então a se agarrar mutuamente, explorando o corpo um do outro, os toques se tornando cada vez mais íntimos. As mãos do moreno descem pelas costas alvas e se infiltram por dentro da calça do pijama, espalmando-se nos glúteos, apertando, puxando os quadris contra os seus, abrindo-os e se insinuando entre eles, fazendo os dois gemerem em uníssono...

Ambos tentam resistir, mas em vão, pois seus desejos e sentimentos os dominam com toda a força. Draco livra-se das calças do pijama de Harry, abrindo-lhe as coxas, posicionando-se para penetrá-lo, os olhos verdes se fechando, enquanto cede ansioso por essa possibilidade. Ele sente pela primeira vez a sensação de ser tomado, dor e prazer o invadindo ao mesmo tempo, a paixão os envolvendo e a luxúria o arrebatando por inteiro ao ter o membro estimulado ao mesmo tempo em que o loiro o toca por dentro intensamente... É quase impossível agüentar tamanho volume de êxtase... Não quer fazer nenhum esforço para agüentar, se entrega completamente, quase afogado pelas sensações quando sente o gozo chegando... Puxa o loiro para si, querendo tomar novamente seus lábios e matar a saudade deles, como ansiou por todo o verão, e...

- Harry! – Uma voz conhecida soa ao longe. – Harry! Acorda!

Os olhos verdes se abrem devagar, vendo a sua frente o rosto de Rony, percebendo que está na sua cama. Tudo aquilo fora um sonho.

- Você estava tendo um sono agitado... Gemia... Suava muito. – O rosto do amigo está legitimamente preocupado. – Pensei que os pesadelos tinham voltado e decidi te acordar.

Ainda zonzo por ter sido desperto tão abruptamente... O coração quase saltando pela boca... Tirado de um sonho daqueles... É então que percebe o estado em que está o que não passa desapercebido também pelo amigo. Dobra as pernas, tentando disfarçar o volume evidente sob o lençol que o cobre, mas ao fazer esse movimento vê que mais do que apenas a ereção, está molhado. No mesmo instante, ambos os garotos coram, sem coragem de olhar um para o outro. Rony, sem graça por ter interrompido um sonho que nada tinha a ver com os pesadelos do ano anterior, deita rapidamente e cobre a cabeça. Harry vira de lado, dando as costas para o rapaz ruivo.

Demora a adormecer novamente, pois o sonho e suas implicações não lhe saem da cabeça. Como pode ter sonhado com alguém que o enganou e abusou dos seus sentimentos. Fica revoltado consigo mesmo.

"O que eu sinto por ele... É só tesão! Não pode ser mais do que isso." – Coloca o travesseiro sobre a cabeça, tentando esquecer e voltar a dormir. – "Preciso me interessar por outra pessoa... Mas quem?"

ooOoo

Harry está inquieto desde aquele sonho, as imagens dele assombrando seus dias e noites, fazendo-o temer fechar os olhos e voltar a ver aquele rosto, sentir aquele cheiro, a textura daquela boca. Por mais que se recrimine, que saiba que Draco não merece toda a intensidade dessa atração, não consegue evitar.

"Ele não pode sair ganhando!" – Somente pensar no sorrisinho vitorioso do Malfoy o deixa doente de raiva.

- Ultimamente você está sempre de mau humor! – A voz de Hermione o surpreende, mas suas palavras o deixam ainda mais irritado.

- O que você quer dizer com isso? – Ele se levanta do sofá diante da lareira da Sala Comunal, no mesmo instante em que a amiga se senta. Encosta-se na parede, encarando-a, desconhecendo que esta pessoa que se impacienta com ela dessa forma seja ele mesmo.

- Sinto falta da sua alegria... Da sua amizade... – Mione tenta amenizar seu tom a fim de não provocar ainda mais sua reação.

- Se você me ouvisse de vez em quando... – Seus olhos verdes assumem um brilho estranho. – Estou tentando dizer que o Dra... Quer dizer... Que o Malfoy está tramando algo... Mas você nunca me escuta mesmo!

A garota se levanta magoada com o tom de suas palavras. Aproxima-se do amigo que parece ainda mais esquivo, alguma coisa incomodando-o nos últimos dias.

- Ele está fazendo alguma coisa... – Harry vai dizendo isso sem nem sequer olhar para ela, como se recitasse um mantra que se repete todos os dias em sua cabeça. - Tenho certeza que se tornou um comensal.

- Você já reparou como está obcecado por ele? Não há um minuto em que o nome dele não seja citado... Como se você pensasse nele vinte e quatro horas por dia. – Toca de leve em seu braço, sentindo que ele tenta resistir ao seu toque, mas cede, baixando a cabeça tristemente.

- Não é obsessão! – Seus olhos se erguem para encarar o rosto da amiga. – Eu só sei que ele está aprontando algo... Não sei como te explicar, mas eu sei... Você não sabe do que ele seria realmente capaz por... Poder... Prestígio... Sei lá o que pode motivá-lo.

- Aconteceu algo que você quer me contar? – Ela passa a mão por seu rosto, sentindo que há algo mais. – Pode confiar em mim.

- Do que você está falando? – Um frio percorre a espinha do rapaz, tentando perceber no rosto tão familiar se seu segredo foi revelado de alguma forma.

- Sei lá... Você me fala de coisas que ele seria capaz de fazer e que eu não sei. – Ela sabe que o amigo oculta algo, mas ainda não tem certeza do que. – O que ele fez pra você que eu não saiba? Tem que ter sido algo realmente grave para deixá-lo assim.

Por algum instante Harry sente vontade de desabafar com a garota, aliviar seu coração de todo o peso que vem carregando desde aquela noite em que descobriu a traição de Draco. Mas percebe que por mais que Hermione seja a pessoa que melhor o entende, jamais entenderia o que houve entre os dois. Ainda mais sendo Draco Malfoy. E... Como admitir que foi tão inocente ao ponto de entregar-se de corpo e alma a alguém que o usou daquela forma? Nunca! Sente vergonha por ter sido tão idiota, mas... A lembrança da dor daquele momento crucial supera qualquer outro sentimento.

- Você está enganada. – Afasta-se dela, evitando seu olhar. – Está dizendo isso só pra não ter que reconhecer que estou certo.

Hermione sabe que há algo mais, pois conhece o amigo melhor do que ele pode imaginar. Mas sabe também o quanto é difícil fazer esse 'cabeça dura' soltar o que o faz sofrer. Sabe que os anos de isolamento e solidão na casa dos tios criaram um mundo onde Harry guarda seus sentimentos e onde raramente alguém consegue entrar.

- Quero que saiba que estarei pronta a te ouvir quando estiver pronto pra desabafar. – A garota lança um último olhar para o amigo, que observa o fogo que crepita na lareira. – E não importa o que seja... Nunca vou te julgar.

Abaixa a cabeça entristecida com essa constatação e sobe para o quarto.

ooOoo

Depois que descobri a Sala tudo se tornou uma corrida contra o tempo. Segui as instruções do Borgin, tentando consertar o armário, mas depois de exaustivamente tentar já começava a desanimar. Não que eu não fosse um bruxo habilidoso... Duvido que até aquela sangue-ruim metida à sabida conseguiria. Era uma complicada combinação de feitiços e poções, fazendo com que fosse obrigado a ficar cada vez mais tempo enfurnado naquele lugar. E isso me frustrava. A única coisa que me alegrava ao sair era ver os dois idiotas travestidos de garotinhas fazendo a guarda. Dava vontade de rir, o que fiz algumas vezes na frente deles... Queria que soubessem o prazer que isso me dava.

A demora me desesperou e logo tive que por em prática meu Plano B. A combinação de objeto amaldiçoado, uma maldição Imperius, aquelas moedas que a Granger usou no ano passado e uma garota boboca griffyndor eram a minha tentativa de conseguir meu objetivo de forma mais rápida. Mas quando coloquei meus planos na mão de uma menina... Ainda o objeto sendo um maravilhoso colar... A criatura tinha que xeretar e quase morreu fazendo isso. Não que eu tenha algo contra mulheres... Longe disso... Mas a curiosidade é o maior defeito delas! E a da Cátia Bell me fez gelar, pois temi ser descoberto... Sorte que eu tinha um ótimo álibi e as suspeitas foram logo afastadas.

E para complicar a minha situação... O Potter vinha me seguindo. Fosse apenas com os olhos nas aulas ou durante as refeições... Ou pessoalmente, pelos corredores... Não vou mentir pra mim mesmo e dizer que não mexia comigo, mas sentia que a desconfiança dele sobre mim se tornava cada vez maior. Isso podia se tornar um grande problema... Quanto ao fato de ser ele... Eu nem ligava, ou pelo menos, não queria ligar. Tinha raiva dele e da sua intransigência. Só pensava se o 'senhor certinho' nunca cometera um erro na vida? E isso me mantinha sempre na defensiva... Sempre querendo distância dos olhos verdes.

Harry aproveita o tempo livre antes do treino de quadribol para se dedicar a sua obsessão... Seguir Draco e tentar descobrir mais sobre seus planos. Mas ele parece escorregadio demais e sempre o perde de alguma forma. Está cansado dessa 'brincadeira de gato e rato'. E aquele sonho... Não pode deixar o loiro triunfar sobre ele dessa forma. Decide que precisa confrontá-lo e... Tirar isso a limpo...

"Nem que tiver que dar uns tapas naquele falso!" – Tenta refrear a intensidade do seu ressentimento.

E nesse estado de ânimo vê o loiro passando apressado pelo corredor, vendo que está sozinho e considerando essa a melhor oportunidade dos últimos dias. Tenta ser mais discreto que de costume, pois muitas vezes sua afobação revela suas ações. Agora procura se manter frio na perseguição, apressando o passo ao perceber que chegam a um corredor completamente vazio. Alcança-o rápido, pois dessa vez foi eficiente no disfarce. Agarra seu braço, fazendo Draco voltar-se para ele.

- Qual o seu problema, POTTER? – Há desprezo naquela voz. – Vai ficar me seguindo até quando?

- Até descobrir o que anda aprontando, Malfoy. – Harry imprime o mesmo tom a suas palavras.

- Me deixa em paz! – Draco tenta se desvencilhar, mas o moreno o empurra com força contra a parede.

O rosto deles fica muito próximo, as respirações ofegantes diante do contato dos corpos. Harry segura os pulsos do loiro contra a parede, a intensidade de seus sentimentos clara em seus olhos. Eles não são as esmeraldas, mas bolas de fogo, onde queimam todo o tesão e a raiva.

- Me larga! – Os olhos cinza são tão intensos quanto os do outro. – Está me machucando, seu idiota.

- Você está fazendo algo para o Voldemort, não é? – A voz de Harry sai quase em um sussurro, rouca pela dureza de suas palavras. – Alguém capaz de fazer aquilo... Comigo... Seria capaz de tudo!

As palavras ditas dessa forma atingem Draco como adagas, abrindo as velhas feridas que procurou cicatrizar a força. Lágrimas vêm a seus olhos, mesmo que tente resistir, pois não deseja demonstrar fraqueza diante do inimigo.

- Se isso é o que pensa de mim... – Fala encarando os olhos que o fuzilam. – Quem sou eu pra frustrar suas expectativas.

- Eu te odeio... – A tensão de Harry faz seus músculos se retesarem. – Seu maldito...

Os lábios de Potter atacam os de Draco com fúria, uma ânsia enlouquecida que vai além de seu lado racional, cravando os dentes no ombro, ouvindo a exclamação de dor e isso o faz soltar os pulsos já avermelhados. Enfia as mãos por baixo da camisa, os dedos reconhecendo aquela pele suave, subindo até os mamilos que instintivamente sabe serem sensíveis e aperta-os, arrancando um gemido alto do loiro prensado na parede sob seu corpo. Enlaça-lhe com força a cintura e aproxima-o ainda mais de si. Draco quer parar, sabendo que é loucura entregar-se assim, mas é difícil negar-se o prazer daquelas mãos em seu corpo, seu coração e seu corpo o traem, e só conseguem implorar por mais um segundo, e mais um, e mais um, daquele toque que o transporta para o paraíso. A insanidade se faz cada vez mais presente, Draco o empurra com ferocidade, virando e fazendo-o bater contra a parede. E como se ouvissem os apelos um do outro, suas mãos descem e acariciam ambos os membros por sobre as roupas, esquecidos de onde estão e que qualquer um pode vê-los. As bocas se encontram, se degladiam, se provam... As línguas se procuram, se provocam, lutando em busca de mais intensidade, demonstrando como se desejam.

Mas a razão volta novamente ao moreno, que se afasta violentamente desse beijo, percebendo como se deixou levar por algo que parece incontrolável dentro de si. Uma doença que se alastra cada vez que toca o corpo de Draco, mesmo que saiba o quanto o garoto a sua frente é desprezível.

Os olhos cinza encaram-no confusos, pois aquele beijo deixa claro como a mágoa de Harry esconde o quanto ainda o ama, reacendendo a esperança que o abandonara. Mas ao mesmo tempo o corrói por dentro, pois se conscientiza que tudo isso continua impossível. A verdade novamente aperta seu peito, reprimindo com todas as suas forças um gemido sofrido. Quer gritar e dizer como o ama, como sofreu por tê-lo decepcionado... Ajoelhar-se a seus pés e pedir perdão. Mas não pode! E ele jamais acreditaria em sua sinceridade! Apenas abaixa a cabeça, resignado com seu destino.

Harry odeia o desejo que o torna escravo desse sentimento, lágrimas de revolta chegando imediatamente a seus olhos. Corre dali, antes que Malfoy possa perceber como isso mexeu demais com ele, antes que se sinta vitorioso por tê-lo assim ainda preso às mentiras do falso amor. Precisa encontrar outro alguém... Provar para si mesmo que tudo isso que sente é apenas desejo. Afinal, o maldito loiro foi o único a quem entregou seu coração... Se fizesse o mesmo com uma garota... Qualquer uma... Esqueceria rapidamente essa doença que o consome e que precisa expurgar de seu corpo.

Chega ao treino decidido a esquecer, mas este é tão horrível que apenas o faz pensar ainda mais em como é um fracasso em refrear dentro de si aquilo que abomina sentir. Volta para a Casa, acompanhado de Rony, que não consegue fazer mais nada além de reclamar de sua péssima atuação. O moreno sabe que foi um desastre mesmo, mas tenta animá-lo, esperançoso que isso o ajude a virar a página e deixar para trás o que fez... Pois tem que admitir que a iniciativa foi sua... Toda sua. Precisa encontrar alguém... Precisa sentir-se atraído por alguém...

Quando se deparam com Gina e Dino atarracados em um longo e profundo beijo... A revolta de Ron o inflama. Também fica incomodado com aquilo e esse sentimento desperta algo nele. A garota ruiva é bonita, inteligente e corajosa, sempre gostou dele e... Será que reconhece nessa sensação algo mais? Ela é a pessoa que tanto desejava encontrar? Sente-se culpado por ser a irmã de seu melhor amigo e teme a reação dele. Mas olha novamente para a garota, sentindo a esperança brotar novamente no seu coração tão ferido.

ooOoo

O sol da manhã ainda se iniciando aquece Draco que está sentado à beira do lago, apesar do frio intenso. O vazio nunca lhe pareceu tão intransponível... Um peso gigantesco em suas costas e ninguém com quem dividir. Observa o horizonte, o dia nascendo por entre as montanhas, lançando seus raios sobre a água, fazendo-o se lembrar de como tudo isso começou, de como estava nervoso no dia em que iniciou seu plano de conquistar o Potter.

- Interrompo? – Uma voz feminina o tira dessas recordações.

Os olhos cinza se levantam e encontram o rosto bonito de Pansy. Não sabe o porquê, mas fica decepcionado ao vê-la. Assim mesmo faz sinal para que se aproxime. Sabe que a garota gosta dele, algo que somente um cego não veria, e não está disposto a fingir que sente algo, mas... Ela se deita de barriga para baixo ao lado dele, encarando seu rosto triste.

- O que você tem? – Diz com um tom manhoso. – Se abre comigo.

Malfoy olha para ela com alguma esperança de que talvez seja uma boa idéia ter uma amiga neste momento. Precisa tanto contar tudo que lhe aconteceu, como se sente infeliz por ter perdido para sempre a única coisa verdadeira que já teve.

- Quero tanto lhe falar... – Ainda inseguro. - Do que estou sentindo...

- É o Potter, não é? – Ela se senta diante dele.

- Como você... – A surpresa está estampada em seu rosto ainda mais pálido que o normal.

- Ora... Ele vive te atormentando... – Raiva surge em seu rosto. – E eu notei como agora ele deu pra te seguir... Mas um dia o Lorde das Trevas vai acabar com o mestiço.

Draco olha bem para ela e percebe entristecido que a garota jamais seria capaz de entender aquilo que está em seu coração. Sua esperança de poder desabafar se desvanece... O que Pansy iria pensar se dissesse o que realmente sente? Se contasse tudo o que aconteceu entre ele e o Harry no ano anterior?

- Deixa pra lá! – É visível seu nervosismo, levantando-se depressa e encarando o horizonte mais uma vez.

A garota também fica de pé e se aproxima dele. Não consegue entender o que disse de errado. Deseja demais que ele note como se preocupa, como faria qualquer coisa para vê-lo feliz. Segura em seu braço, tentando passar todo o carinho e admiração que sente. Mas há certa aversão ao seu toque, como se preferisse outra pessoa.

- Você está gostando de alguém, não é? – Isso a revolta, mas tenta se conter. Nem pode imaginar quem seja a 'fulana', mas precisa saber.

- Isso não importa mais... – Essas palavras saem sem pensar nas conseqüências disso. – Pra que desejar coisas impossíveis?

A confirmação de suas suspeitas está ali, bem diante de seus olhos. A expressão arrasada de Draco diz mais do que suas palavras. Há sofrimento demais em suas pupilas prateadas para ser apenas mais um de seus momentos melodramáticos. E quem seria tão impossível assim? Sua mente começa a divagar por todas as garotas que não sejam slytherins... Pior... Que não sejam puro-sangue.

Seu ressentimento é indisfarçável, pois seus pais sempre lhe disseram como as famílias Parkinson e Malfoy haviam tratado do casamento dos seus filhos únicos quando chegasse o momento certo. E essa idéia sempre foi fixa em sua mente, fazendo-a se guiar por ela, sabendo que um dia seriam um casal puro-sangue e feliz. E se fosse...

"A Granger!" – Essa idéia passa por sua mente como um raio. – "Ele nunca faria isso... Ou faria?"

- Se você quiser desabafar... – Tenta controlar seu ciúme.

O loiro se volta e vê nela aquilo que sempre viu. Não é diferente de todos os outros bajuladores que o cercam e... Perde em comparação ao Potter, pois somente ele sabia ouvi-lo, se importava com seus sentimentos, era sempre absolutamente sincero... Coisa que Pansy nunca seria.

"Até parece que ela realmente quer me ajudar!" – Uma leve expressão de desprezo surge em seus lábios. – "Só quer saber por quem estou apaixonado... Droga! De onde surgiu essa palavra?! Eu agora o odeio... Apenas isso."

Puxa o braço, empurrando-a de leve, deixando claro que não deseja sua companhia. Volta a olhar para o lago, fingindo que ela nem está mais presente.

- Prefiro ficar sozinho. – Diz isso sem nem sequer olhá-la, não notando como suas palavras soam cruéis para Pansy, que sai apressada na direção do castelo.

ooOoo

Não sei como insisto em escrever essa porcaria... Ainda estou tremendo... Ouvi uma voz do lado de fora do quarto e pensei que aquele maluco voltara. Corri colocar alguns móveis para impedir a entrada dele. Não posso passar pelo mesmo de antes... Prefiro me matar. E todos sabem que não sou assim... Minha covardia me manteve vivo até agora... Mas aquelas mãos... Tremo só de lembrar.

Acho que estou escrevendo ainda por ter esperança que um dia alguém leia e saiba de tudo que passei e sacrifiquei nestes poucos anos de minha existência. Pode até me achar dramático demais, mas... Estou em uma missão suicida e isso demonstra que tenho razão pra sentir medo e decepção com o que o destino me reserva.

Meus planos na realidade se estenderam muito mais do que desejava e já pensava que não seria capaz de consertar aquela coisa. Dedicava-me tanto a minha missão que já parecia um zumbi andando pelos corredores. E o Harry notou isso, pois muitas vezes o peguei me observando com um olhar estranho... Ia além da obsessão... Via que ele percebera o peso que perdi e a palidez cada vez mais evidente.

Passei então a considerar seriamente o Plano C... Mas logo vi que confiar minhas idéias fantásticas e... Desesperadas a garotas era um grave erro e minha poção foi parar nas mãos do Potter, ao invés do diretor. Temi que aquele idiota bebesse, mas nem podia avisá-lo... Seria admitir que estava certo sobre mim. Sorte que meses depois foi o pobretão do Weasley que a tomou... Mais um fracasso e... De volta ao meu trabalho no conserto.

Na noite da festa de natal do Slughorn fui pego no corredor pelo Filch... Aquele velho idiota! Tive que fingir que tentava penetrar naquela festinha. Lá estava o Harry... E apesar da minha frustração por quase ter sido descoberto... Não conseguia tirar os olhos dele e... Quem era aquela garota esquisita que o acompanhava?

O pior foi a conversa que tive com o Severus. Não queria ser tão agressivo com ele, mas não podia saber de qual lado estava realmente. Além disso, todo o esforço já mexia com a minha mente e estava alucinado com a possibilidade de falhar. Se eu perdesse a oportunidade de conseguir a glória do sucesso, eu e minha mãe estaríamos perdidos. Mesmo meus 'vigias' já começavam a me fazer perder a paciência, pois Crabbe insistia em saber o que estava fazendo... Todos esses elementos só me colocavam sobre mais pressão. Às vezes achava que ia explodir.

Depois da volta do recesso das festas Draco torna-se ainda mais esquivo. O recado que recebeu do Lorde das Trevas sobre a demora da conclusão foi bastante claro. Sua vida já não tem nenhum valor se falhar dessa vez. E nem para sua mãe pode contar o que se passa em seu íntimo. É claro que ela notou seu aspecto quase fantasmagórico, mas o filho nada lhe disse.

Durante uma de suas escapadas se depara com Snape, que parece novamente disposto a confrontá-lo. Tenta escapar, mas o homem o segura pelo braço e arrasta para uma sala de aula vazia e tranca a porta. O pálido rapaz fica assustado, pois dessa vez a determinação do professor parece ainda mais forte. Encosta-se em um dos cantos da sala e treme ao vê-lo aproximar-se.

- Quero saber o que você está fazendo. – Snape não parece disposto a aceitar a resposta de antes. – Não desejo nenhuma glória pessoal, seu imbecil. Quero ajudá-lo.

- Não preciso da ajuda de ninguém! – Draco não modera o tom de suas palavras. – Só quero terminar logo isso e poder respirar novamente. E EU... Somente EU vou fazê-lo.

O loiro anda rápido até a porta e tenta abri-la, mas em vão, então se volta para o homem, disposto a dar um fim nesse confronto.

- Vou provar pra todo mundo que me acha um covarde inútil... – Sua respiração se torna ofegante. – Que não sou isso. Sou um legítimo Malfoy... Digno do nome da família.

- Eu já lhe disse que fiz um voto com sua mãe. – Snape o entende, mas sabe do perigo que ele representa. – Ela me pediu que o protegesse dos planos do Lorde das Trevas e... De você mesmo.

- Ela não entende... Preciso fazer isso. – Seu tom deixa de ser raivoso, passando a demonstrar como está apavorado. – Ele já deixou claro que estou condenado e... Se falhar estarei morto... Assim como minha família.

- Por isso mesmo... Eu posso ajudá-lo no que quer que você esteja tentando fazer. – Tenta tocá-lo, mas o rapaz se esquiva de seu toque. – E parece que não anda sendo bem sucedido... Seu aspecto está terrível.

- Isso é um problema meu! – Volta a ficar na defensiva. - Agora... Severus... Me deixa sair.

- Se é assim que prefere... – Snape se compadece do garoto e de sua necessidade de provar ser melhor do que o julgam. Ele mesmo foi assim e sempre o será.

O professor destranca a porta, mas quando o rapaz a abre e faz menção de sair, ele decide dar sua última cartada. Dumbledore está certo... Em seu estado de ânimo o garoto pode ferir a si mesmo ou a outros alunos acidentalmente. Sabe muito bem qual a finalidade dos planos de Draco e que o Lorde apenas deseja fazer os Malfoys sofrerem ainda mais por terem mantido seu nome e posses depois da primeira guerra.

- O que aconteceu entre você e o Potter? – Suas palavras proferidas de forma seca fazem o loiro se voltar assustado.

- Do-do que está falando? – Mais do que tudo teme que também Snape saiba.

- Eu vi... Nas aulas de oclumência com o Potter. – Snape se aproxima e fecha novamente a porta, evitando ouvidos bisbilhoteiros que possam passar. – Você o enganou, seduziu e traiu... Mas falhou. É por isso que o Lorde o escolheu para isso, não foi?

- Não sei do que está falando! – O aperto em seu peito volta, como se toda a dor voltasse em dobro nos lábios do homem que tanto admira.

- Eu sei a que ponto você foi capaz de chegar pela glória... – Severus tenta desarmar todas as suas defesas, mas nota algo estranho em seus olhos quando o encara.

- Você não sabe de nada! – Draco o empurra com toda a força, revoltado com a censura em suas palavras e em como elas refletem o pensamento de Harry. – Eu fui capaz de chegar a esse ponto sim... Mas... Você viu somente o lado dele... O que ele pensa de mim.

Os olhos negros o encaram com certa surpresa, pois vê algo nele que nunca imaginara ver. Nem mesmo Dumbledore teria pensado nisso.

- Eu cheguei àquele ponto pensando em lucrar algo... Mas não a glória... – Fecha sua mente para que Snape não possa ver tudo do que desejava fugir. – Mas fui aprisionado por algo que nem imagina...

- O que? – O homem ainda permanece surpreso diante do garoto de olhos marejados.

- Eu me apaixonei por ele! Era isso que desejava ouvir? – Sua voz se torna alta, sem controle, como se lhe custasse admitir isso para alguém que não fosse ele mesmo. – E fui obrigado a traí-lo... PELA FAMÍLIA.

Abre a porta e tenta sair, mas Severus o segura pelo braço novamente.

- Por isso mesmo que fui escolhido... E Ele sabe de tudo... – Evita o olhar do professor, pois não quer que o veja chorar. – Minha vida não vale mais nada se não tiver sucesso.

Draco se desvencilha da mão forte que o segura e sai correndo, sem olhar para trás. Percorre o corredor sem rumo, desejando chegar a seu quarto, onde pode controlar a profusão de sentimentos que Snape o forçou a soltar. Mas vê alguns garotos vindo em sua direção e entra na primeira porta que vê. Depara-se com um banheiro e não consegue conter mais o choro. Toda a dor surge do mais profundo de seu ser, onde a escondera com tanta dificuldade. Senta no chão, pouco se importando que esteja um pouco molhado.

- Por que tem que ser assim? – A voz dele ecoa pelo banheiro, enquanto deixa o choro sair sem controle. Precisa desse desabafo. – Ninguém me entende... Nem procuram tentar. O único... Aquele que me ouvia e me entendia... Agora se tornou como os outros.

Coloca a cabeça sobre os joelhos dobrados, procurando tornar seu choro algo somente seu, para que o ruído de seus soluços não traga nenhum curioso.

- E estou sozinho... – Suas palavras saem abafadas. - Ninguém com quem possa dividir essa dor.

- Pode dividir comigo! – Uma voz feminina o faz tremer, levantando o rosto devagar e se deparando com a Murta. – Ah... É você.

- Não gostou que fosse eu?! – Ela diz sentida.

- Não é isso! – Ele enxuga as lágrimas e tenta se levantar, mas está exausto demais e acaba desistindo. – Pensei que alguém tinha me surpreendido...

- Ah bom... – A garota senta-se ao lado dele. – Eu costumava me sentir muito sozinha também e me refugiava no banheiro.

- Não posso ser quem sou realmente... As pessoas não querem me conhecer de verdade. – Draco observa uma poça de água a sua frente. – E estou encurralado... Preciso fazer algo que não quero.

- E você perdeu quem ama, não é? – Ele se volta para a garota, completamente surpreso.

- Tudo por que não tive opção... – O loiro se sente confortado em poder desabafar com a garota de óculos. – E ele não quis me ouvir... Nem me deixou explicar.

- Os garotos também me decepcionaram muito. – A fantasma não consegue dissociar a história dele da sua própria. Esse é seu estilo. – E o Harry também fez isso comigo... Disse que voltaria pra me ver.

- Harry?! – Então ela sabe de quem ele está falando.

- Eu te ouvi naquela noite... Naquela em que você chorou no seu banheiro. – Murta parece corar ao admitir que espiona. – E estava presente quando vocês discutiram no meu banheiro... Eu contei pra ele que você o amava de verdade.

- Então foi você... – Um leve sorriso surge em seu rosto, recordando da delícia daquele momento em que Harry correu até ele. – Mas isso é passado. Eu o decepcionei e... Ele fez o mesmo comigo.

Lembra então que sua missão o espera e se levanta.

- Preciso ir. – Um sorriso sincero surge em seus lábios. - Foi muito bom conversar com você.

- Pode vir quando quiser. – O tom manhoso volta a sua voz.

- Prometo voltar. – Sente-se um pouco aliviado.

- Mas não faça como o Harry... – Ela se mostra indignada. – Disse que voltaria e nunca mais apareceu.

- Pode deixar. – Sente certo prazer ao ver que alguém também está decepcionado com o 'Santo Potter'. – Mas me promete que não vai contar pra ninguém o que te disse.

- Guardo seu segredo... – Ela sorri ainda sentada no chão. – Pode confiar em mim.

ooOoo

Os dias e meses se arrastam sem sucesso e recados vindos da parte de Voldemort começam a chegar para Malfoy, disfarçadamente, mas incisivos quanto à demora de seus planos. O ano escolar termina em breve e o garoto ainda não teve sucesso em sua empreitada. As ameaças, antes veladas, se tornam cada vez mais explícitas. Precisa agir e logo.

Certa noite, deparando-se com mais um fracasso em suas tentativas, a pressão parece se tornar insuportável. Precisa desabafar e sabe o único lugar onde pode ir. Sai da Sala e corre para o banheiro que se tornara seu ponto de encontro com o único ser que o ouve neste castelo, sem o julgar. Entra desolado no lugar úmido, sendo recebido com um sorriso, que logo se desvanece com a preocupação.

- O que houve? – Ela se senta em uma cisterna ao lado das pias.

O loiro se olha fixamente no espelho, vendo como sua imagem parece distorcida. Não é mais o rapaz de porte aristocrático que sempre foi. Tornou-se apenas uma sombra do que fora. Harry não teria se apaixonado por ele se o visse nesse estado. Começa a rir sem controle.

"Até em um momento desses fico pensando naquele..." – Pensa, já não conseguindo segurar seu desespero.

Coloca as mãos em cada canto da pia e deixa as lágrimas descerem, o choro ficando cada vez mais intenso. Em sua depressão pode ter pensado muitas vezes que seria melhor morrer, mas... Na verdade não quer morrer! Mas isso parece cada vez mais próximo de acontecer. Não tem saída, precisa fazer aquilo que teme não ser capaz. E seu choro é acompanhado de palavras que expressam todo o seu medo, não tem escolha, a voz preocupada da Murta ecoando ao longe, mesmo que responda apenas automaticamente.

Mas quando seus olhos se levantam se depara com o reflexo de alguém no espelho. Harry o observa surpreso... Testemunhando o puro fracasso em que se transformara. Deliciando-se com sua dor. Volta-se para ele com a varinha nas mãos, pronto a descarregar nele toda a sua frustração. Em Potter se materializam todos aqueles que o fazem sofrer, que o colocam nessa situação em que se vê encurralado e ferido. Trocam feitiços que transformam o banheiro em caos, mas quando decide fazê-lo sofrer, lançando-lhe uma Cruciatus, é atingido por algo que lhe causa imensa dor, abrindo seu peito e seu rosto, o sangue saindo em profusão.

Sua mente se turva, ouvindo ao longe o desespero da Murta, mas captando palavras que parecem estar apenas em sua cabeça. "Não..." ecoa em seus ouvidos confusos, a voz estarrecida de Harry parecendo lamentar ter chegado a esse ponto. Sente o toque da mão sobre seu corpo, sua cabeça sendo acomodada em seu colo. Abre ligeiramente seus olhos, vislumbrando novamente as esmeraldas entristecidas, por segundos que parecem tão longos... Percebe naqueles olhos que há um profundo sofrimento ao vê-lo assim e esboça um leve sorriso que o moreno não vê. O amor por ele está ainda ali, escondido todo esse tempo sob uma grossa camada de mágoa.

Snape entra no banheiro e empurra Potter com força, projetando-o para longe, movimento esse que as pupilas cinza acompanham, não querendo perder aquele vislumbre, aquela fagulha do que sentem um pelo outro. Não lhe importa a dor, mal ouvindo as palavras de Severus quando o ajuda a levantar e a sair. Quer olhar para trás, mas não consegue, completamente exaurido de qualquer força, esforçando-se para caminhar até a Ala Hospitalar.

Madame Pomfrey corre ao vê-los entrar, acomodando o garoto em uma das camas, isolando-o dos olhares de duas garotas que estão ali por causa de 'problemas de mulher'. A bruxa se encarrega dele, enquanto Snape sai. Estranha que o sempre tão manhoso Malfoy parece ter um olhar satisfeito no rosto, como se este ferimento realmente perigoso não lhe importasse. Diria até que seu rosto desfigurado está feliz. Administra-lhe a poção necessária e uma calmante que o faz dormir.

Nos dias seguintes recebe mais visitas do que gostaria, sempre dos mesmos bajuladores que sabe pouco se importarem com seu bem estar. Mas a única que deseja não aparece, apesar de na primeira noite, ainda entorpecido, ter a firme convicção de ter visto um par de esmeraldas observando-o. Só que sabe que pode ter sido apenas sua imaginação.

O tempo em que ficou internado na Ala Hospitalar lhe deu a oportunidade de pensar. Sabe muito bem o que viu naqueles olhos e como desistiria de tudo... Arriscaria sua própria vida por aquele sentimento. Nunca pensou ser capaz disso, mas é. Pensa na loucura em que sua vida se tornou no último ano e em como não deseja cumprir sua missão. Nunca desejou de verdade matar Dumbledore, por mais que questione suas convicções. Mesmo isso... Draco nunca foi fanático pelos ideais que seu ato desencadeará. Faz por não ter opção, por ter medo de morrer. E até seu notório instinto de auto-preservação está em cheque se puder estar nos braços de Harry novamente.

É liberado no dia do jogo de Griffyndor com Ravenclaw, sabendo que Potter não irá participar, pois Snape o colocou em detenção até o final do ano letivo por tê-lo atacado. Resolve então se postar escondido próximo da entrada da Casa inimiga e esperar que o moreno entre ou saia. Pretende contar a ele todo o plano do Lorde, tudo que andou tentando fazer, para que possa alertar o diretor sobre o perigo que corre... Coloca-se encostado a uma porta próxima, oculto pelo seu recuo, podendo ver os que se aproximam da tapeçaria da mulher gorda, mas não podendo ser visto.

É então que vê Harry subindo correndo a escadaria de mármore, provavelmente ansioso para saber o resultado do jogo, mas antes que consiga se mover, ainda lento pela fraqueza, o outro entra. Amaldiçoa a inutilidade desse corpo que não acompanha o ritmo de sua mente e pragueja por saber que vai ter que esperar... Ou tentar em outro momento. Quando se coloca totalmente de pé, decidindo voltar para sua Casa, vê que a tapeçaria abre a passagem para que alguém saia. Espera ansioso e vê Harry saindo, mas logo em seguida a garota Weasley.

Seus olhos descem até as mãos entrelaçadas, o olhar carinhoso trocado entre eles e um suave beijo de Harry nos lábios da garota, instantes antes de descerem as escadas sem qualquer pressa. Essa imagem o faz recuar e voltar a encostar-se à porta. Então aquele olhar era falso... Uma forma de enganá-lo ou medo por saber que teria uma pesada punição. Draco senta-se para não cair, balançando a cabeça.

"Não acredito que estava a ponto de arriscar minha vida por esse... Essa pessoa que me trocou por uma... Pobretona ruiva sem graça!" – Seu pensamento parece fogo, seus olhos faiscando de ódio. – "Sou um idiota completo! Eu te odeio com todas as forças da minha alma. Eu te amaldiçôo por brincar assim comigo."

O loiro se levanta com dificuldade e caminha na direção da Sala Precisa, pois agora está decidido que terá sucesso e ajudará seu Mestre a destruir Harry Potter para sempre.

ooOoo

O empenho renovado de Draco, motivado por uma raiva quase insana sempre que se recorda daquela cena... Harry beijando aquela... Aquela... Traz bons resultados. Talvez antes houvesse tanta má vontade de sua parte em cumprir sua missão que todo o seu esforço parecia em vão. Mas em junho alcança seu objetivo, comemorando aliviado seu sucesso, sabendo que está completa em parte. E os louros são somente dele... De mais ninguém. Só que alguém o ouve e precisa agir com presteza, antes que Dumbledore possa reagir.

Usa a moeda para se comunicar com o exterior, através de Rossmerta, como tem feito nos últimos tempos. Agora é hora da ação, os comensais que vão ajudá-lo devem fazer seu papel no plano e em sua comunicação descobre que o diretor saiu para beber algo. Isso é um golpe de sorte ou... O destino.

Estabelece a ligação mágica entre os dois armários, tremendo ao pensar que assim que aqueles homens entrarem em Hogwarts, sua sorte estará lançada e terá que fazer aquilo o que o Lorde espera dele. Logo as batidas secas na porta, do lado de dentro, denunciam a chegada da 'tropa de choque' das trevas. Conforme vão saindo percebe que não é apenas uma ajuda, mas uma prova de fidelidade para todos, pois os irmãos Carrow também são daqueles que o Mestre considera indignos... Como muitos, deixaram de procurá-lo por considerarem que estava totalmente liquidado e isso é imperdoável. Amico e Aleto então têm muito interesse em serem bem sucedidos nessa empreitada, tanto quanto ele. Gibbon, o homem que os segue, é pouco conhecido do loiro, mas por ser menor em importância entre os comensais, há nele o desejo de galgar uma melhor posição nesse panteão. Mas é o último a entrar que faz o sangue do rapaz gelar. Fenrir, o lobisomem, entra com seu característico odor de morte, os olhos brilhando com a possibilidade de poder matar.

- Muito bem, garoto. Assumimos daqui. – Gibbon diz com a intenção de não deixar que os outros tenham a possibilidade de comandar.

- Espera aí! – Nem mesmo Draco acredita que diz isso. – O plano é meu e eu digo o que faremos.

- Ora, ora... O 'franguinho' Malfoy está querendo nos liderar! – Aleto, uma mulher baixa e atarracada sorri maliciosamente. – É... Os boatos dizem muita coisa sobre como você é dedicado ao seu trabalho...

Os dois irmãos riem sonoramente, enquanto Gibbon apenas os observa. Greyback parece apenas fascinado por atravessar a porta e começar.

- Bo-boatos?! – Os olhos cinza perdem totalmente a cor.

- Dizem que você faz de tudo... – A mulherzinha continua a rir, aproximando-se dele e quase se esfregando no garoto. – Virou uma lenda entre os comensais.

- Chega! – Gibbon perde a paciência. – Temos o que fazer.

Depois de algumas trocas de olhares furiosos entre eles, os comensais deixam a Sala e percorrem os corredores com cuidado. Não é o momento de luta... Ainda. O lobisomem parece alucinado, com as narinas no ar, farejando crianças e desejando o sangue delas. Gibbon sobe até a Torre e convoca uma Marca Negra, a isca perfeita para atrair Dumbledore até o lugar onde o esperam. Mas assim que volta já encontra seus companheiros um luta com alguns membros da Ordem da Fênix. Agora os dados estão lançados e o jogo começa. Abrem caminho para que Draco passe.

Depois de passar sobre um corpo inerte no chão, que não consegue identificar, o loiro encosta-se na parede perto da porta, esperando a chegada do diretor. Seu coração parece que vai explodir, tal sua ansiedade. A lembrança de todas as vezes que o velho homem foi bom para com ele, mas sua política de tolerância que desprestigia os 'puro-sangue'... A importância que terá entre os comensais, esses mesmos que riem dele, ainda sendo reforçada pelo medo das conseqüências de uma falha. Tudo passa por sua mente como um furacão, sabendo o que precisa fazer, mas tremendo ao pensar que pode ser bem sucedido.

"O Harry vai me odiar..." – Fica nervoso com esse pensamento. – "O que estou pensando?! Pouco me importa o que ele pensa de mim. Esse miserável não merece!"

Escuta então a voz de Dumbledore, engolindo em seco por saber que é o momento. Mas hesita por alguns instantes, tendo a impressão de ter ouvido outra voz. Mesmo assim precisa avançar. Abre a porta depressa e lança um feitiço que desarma o velho, fazendo-o cambalear para trás e se apoiar nas ameias. A visão do homem altivo e venerável, tão frágil a sua frente o incomoda. Aquela posição não é digna... Será que o Lorde não está errado? Será que suas ambições não são o que realmente vão destruir o mundo bruxo?

As palavras tranqüilas ditas pelo homem que tem tudo para estar amedrontado com o fato de que vai morrer abalam o garoto. Vai respondendo como ensaiou durante todo o tempo em que trabalhou no seu plano, mas em seu íntimo quase não capta o total significado das palavras que ouve e diz. Está apavorado, esgotado física e emocionalmente, definitivamente não querendo fazer aquilo que está prestes a fazer. Tenta encontrar coerência em seus pensamentos, imagens e frases fora de ordem passando por sua mente, apesar de continuar a responder a Dumbledore com todo o orgulho que sua família sempre carregou. É óbvio que os olhos do diretor conseguem ver a confusão em seu íntimo, mas é incapaz de evitar. Harry e todos os momentos bons e ruins entre eles surgindo sem que deseje, seus sentimentos fluindo neste momento como uma avalanche.

O ruído da luta nas escadas o traz de volta do quase transe em que se colocara. Sabe que sua vítima é habilidosa, mesmo sem a varinha, e poderia ter se aproveitado de seu estado. Não consegue entender por que permanece ali, parado, parecendo apenas esperar que seu destino se cumpra. E quanto mais pensa nisso, menos vontade tem de cumprir sua missão. E em meio a seus pensamentos nada coesos consegue distinguir as palavras 'vamos discutir as suas opções'...

- Minhas opções! – Responde com toda a pose de uma pessoa armada para eliminar outrem...

Seu pensamento percorre as opções que tem. Pensa como a vida seria diferente se realmente as tivesse. Ser feliz, amado, livre... Empalidece ao ouvir as palavras do homem, vendo como é um peão... Sempre foi.

– Não tenho opções! Tenho que fazer isto. Ele me matará! Ele matará minha família toda!

E apesar de perceber nas palavras que o homem a sua frente o considera, não o usa como os outros, todo o peso de sua posição o esmaga. Não pode matar Dumbledore! Mas precisa! Nem o velho que o trata com respeito, mesmo com tudo que fez e está fazendo, pode salvá-lo. É um condenado... Desde o momento em que se deixou fascinar por aquelas esmeraldas. E a voz de Aleto falando dos 'boatos' sobre ele volta a sua mente, sabendo que seus sentimentos já estão arrastados na lama, sem chance de serem resgatados.

'Você não é um assassino...' e 'é a minha piedade, e não a sua, que importa agora...' ecoam em sua mente como fogo, revelando como o velho tem o poder de destruí-lo se quiser, sempre teve, mas não deseja. É sua alma que está em jogo e Dumbledore sabe disso. Se o matar, o veneno que corre em suas veias desde que recebeu a 'marca' tomará conta de tudo de bom que tem dentro de si e se tornará como todos os outros. E neste momento é como se as esmeraldas o fitassem, pode sentir seu calor queimando seu coração, julgando quem ele realmente é. Olha para a marca de luz esverdeada brilhando nos céus e se lembra que foi nesta Torre que começou a descobrir o que sentia... Mesmo que resistisse a essa constatação.

"Sinto muito, Harry." – Seus olhos se enchem de decepção. – "Nunca tive escolha... E nunca terei."

Mas seus pensamentos são interrompidos pela entrada dos comensais, que brigam pelo privilégio de escarnecer do bruxo caído. Nenhum deles chega aos pés daquele homem, nem mesmo o Lorde. Por isso o querem morto... Pura inveja! Não sabe o que ele passou em sua vida, mas o tornou melhor... O que todos eles foram incapazes de fazer. E Draco admite que está entre esses incapazes a quem condena. Chega a sentir asco das palavras ofensivas que lhe jogam no rosto.

- Não. – Gibbon se volta para ele, empurrando-o na direção do velho indefeso. – Temos as nossas ordens. Draco é quem tem de fazer isso. Agora, Draco, e rápido.

Sua varinha apontada para Dumbledore treme, sua determinação completamente derrotada. E os ruídos de resistência nas escadas e as palavras dos comensais desejosos de verem o velho bruxo morrer o esmagam ainda mais. Precisa fazer... Mas não quer fazê-lo... Vai morrer... Sua mãe... Sua família... Tem vontade de gritar, mas sente-se paralisado pelo medo.

Mas então a porta se abre novamente e Snape entra. É claro que está com eles, mas... Algo em seus olhos... Sempre pensou que ele era o colaborador dentro do castelo, mas sente alguma coisa diferente. Parece haver dor em sua expressão...

- Severus... – A voz do diretor soa baixinho, fazendo o homem de cabelos escuros encará-lo com... SOFRIMENTO?!

Snape empurra o loiro, repugnância e ódio tomando conta de seu semblante, fazendo até Greyback recuar. Os olhos cinza o observam, pois apesar de saber de sua lealdade ao Lorde, nunca imaginou que o homem que tanto admira seria capaz de matar o diretor.

- Severus... Por favor... – Novamente a voz fraca do velho bruxo soa agora como uma súplica. Perde-se em um ponto vazio próximo da porta, mas o último olhar é para o garoto de olhos cinza, como se estivesse se entregando para o sacrifício... POR ELE?!

O jorro de luz verde da varinha de Snape apaga esse olhar e extingue a vida do bruxo, fazendo uma profunda dor tomar conta do coração de Draco. Depois disso pouco se recorda, sendo levado como um boneco sem vontade para fora dali. Os olhos de Dumbledore... Aquele último olhar... Nem mesmo percebe quando Harry se coloca no encalço deles. A noite se torna um reflexo de sua alma... Fria e escura. No fim... O vencedor foi Dumbledore. Até na morte ele é mais digno. E isso fica impresso em sua alma mais fundo do que qualquer marca que Voldemort poderia lhe dar.

ooOoo

Após os funerais Harry sente que precisa se isolar e pensar sobre sua nova realidade. Deixa os amigos absortos nos preparativos para partirem e caminha sob o olhar atento de Gina, parada na enorme porta de entrada. Caminha decidido, chegando ao seu local favorito diante do lago.

Tudo em sua vida parece virado de ponta-cabeça... A morte de Dumbledore, deixar a segurança de Hogwarts, a necessidade de afastar-se de Gina... Mas por mais que tudo isso seja de suma importância... A imagem de Draco naquela noite fatídica não lhe sai da cabeça. Está apaixonado por Gina... Claro que está. Mas por que aqueles olhos tristes e temerosos lhe parecem tão presentes? Apesar de toda a mágoa que ainda nutre por ter sido enganado... Não consegue deixar de preocupar-se com o destino do loiro. Teme por ele... Não... Não é só isso... Sente um frio contrair seu estômago. Ainda... O ama. Fecha os olhos se concentrando naquilo que sente: raiva, tristeza, preocupação, mágoa e... Amor.

E ao fechar os olhos, sentindo a brisa que sopra vinda do lago, se recorda de cada momento delicioso que passaram diante daquelas águas, do sentimento que descobriu pela primeira vez naqueles braços... Leva as mãos ao rosto sem conseguir acreditar que tudo isso tivesse sido uma mentira. Mas viu algo naquela noite... Algo naqueles olhos... E ao observar o horizonte, sente que suas esperanças se põem como o sol que se esconde por detrás das montanhas.

ooOoo

Minha falha em matar Dumbledore me tornou um pária entre os comensais. Tinha a certeza que o Lorde iria me matar, mas seus olhos me diziam que sua maior vingança seria me poupar. Ele tinha planos diabólicos para mim e isso me fez tremer. E junto comigo... A família Malfoy caiu completamente em desgraça. Até minha tia parecia nos odiar. Mas minha mãe não me condenou, sequer por um momento, somente demonstrou estar feliz por me ver a salvo... Principalmente depois de ter a certeza de que não seria punido. Ela nem imaginava naquela hora que a punição teria sido muito melhor do que o que o maluco fez depois.

Dumbledore havia salvado minha alma de todo o ódio que me consumia, mas eu precisava encarar a realidade. Não havia lugar para mim em nenhum dos dois lados... Não havia opções... Eu era um condenado... Prisioneiro das circunstâncias... E teria que seguir esse caminho que me vi obrigado a percorrer, cada vez mais distante do que me faria realmente feliz.

Continua...

ooOoo

Desculpem a demora desse capítulo, mas amigos secretos meu e da beta retardaram o trabalho. Mas aqui está ele, prontinho. Talvez tenha sido o mais complicado de se fazer, pois abrange o livro 6, onde o Draco pouco aparece, mas é claramente o protagonista. Como imaginar tudo que a JK deixa subentendido, mas não relata? Espero que gostem do resultado.

O primeiro agradecimento deve ser para minha beta e amiga Samantha Tiger Blackthorn, que discutiu exaustivamente comigo algumas cenas, me puxou a orelha em outras, mas que em geral me incentiva demais com seus elogios. Samie, te adoro.

Novamente ofereço essa fic ao meu amigo Felton Blackthorn, que anda sumidaço e ta me devendo alguns reviews... Afinal a fic é sua amado afilhado. Já te passei o capítulo antecipado e vou ter postar mesmo sem saber se gostou.

Agradeço os review de JayKaychan, Alícia Spinet, Tonks Black2 (pena que seu review não saiu, mas pudemos falar por email), Scheilla Potter Malfoy (você não é pegajosa!), Lycanrai Moraine e Nanda W. Malfoy (pronto Nandinha, vou acabar com sua ansiedade), pois comentários sempre incentivam o autor.

E sem esquecer, estes personagens não me pertencem, foram criados por JKRowling, mas a trama é minha... Então... Apesar de ter virado moda plagiar... Peço que respeitem o trabalho árduo da ficwriter.

Espero que gostem também desse capítulo e COMENTEM!!!!!!

05 de Janeiro de 2008

04:05 PM

Lady Anúbis